sexta-feira, 29 de março de 2019

O INFARTO DA ALMA...





O Infarto da Alma – (por Antônio Samarone)
Resenha da Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul.

“Com a morte de Deus, louvamos a saúde – nós encontramos a felicidade – dizem os últimos homens e piscam os olhos.” Nietzsche.

Freud apontava a histeria e as neuroses como as doenças da idade moderna, quando a negatividade, o controle, a repressão e a disciplina predominavam. O homem precisava ser adestrado, para adequar-se ao taylorismo. O homem máquina.

O vigiar e punir de Foucault foi superado pela internalização da disciplina.

Nas sociedades ocidentais pós-modernas, pós-industriais, predomina as positividades (yes, we can), são sociedades do desempenho, com novas subjetividades. Síndrome de Burnout, transtorno do déficit de atenção (TDAH) e depressão são as doenças do capitalismo contemporâneo.

No lugar do enunciado disciplinar coercitivo (tu deves), imposto de fora; entra em cena um novo enunciado (nós podemos).” O sujeito do desempenho – mais rápido e eficiente - substitui o sujeito da obediência. A Sociedade disciplinar gerava loucos e delinquentes; a sociedade do desempenho produz depressivos e fracassados. O sujeito do desempenho é um empresário de si mesmo.

O excesso de positividade se manifesta no excesso de estímulos, informações e impulsos, desestruturando a atenção, tornando-a dispersa, com rápidas mudanças de foco. É o fim do tédio contemplativo, perdendo-se o dom de escutar, sentir, ver e criar. A pura inquietação não gera nada novo, apenas uma atenção fragmentada.

Para elevar a produtividade, o paradigma da disciplina é substituído pelo paradigma do desempenho. Contudo, o poder não cancela o dever, o sujeito do desempenho continua disciplinado. Nessa passagem para o paradigma do desempenho está a gênese dos elevados índices de depressão, expressão patológica do fracasso do homem pós-moderno consigo mesmo.

Na patogenia da depressão ainda colaboram a carência de vínculos do homem pós-moderno e a violência sistêmica da sociedade que produz os infartos psíquicos. O que causa a depressão do esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão do imperativo do desempenho. A perda da fé não só em Deus, como na realidade, torna a vida transitória. A dessacralização da vida conduz ao efêmero, ensejando nervosismos e inquietações.

O homem depressivo é aquele animal laborans que explora a si mesmo. É agressor e vítima, prisioneiro e vigia, senhor e escravo ao mesmo tempo. O sujeito do desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo.   

A sociedade do cansaço solitário, do cansaço fundamental, se desdobra numa sociedade do doping cerebral (neuro-enhancer). Ritalina, cocerta, vyvanse e aderal para segurar o desempenho.

Encero com uma conhecida citação de Nietzsche: “Por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto.”

Encero mesmos, com os versos de Lenine: Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/Até quando o corpo pede um pouco mais de alma/A vida não para... Enquanto o tempo acelera e pede pressa/Eu me recuso, faço hora, vou na valsa/A vida é tão rara...

Antônio Samarone.

2 comentários:

  1. Boa tarde! Em visita ao seu blog me deparei com um conteúdo bem interessante para leituras alternativas. Parabéns pelo blog. Estarei acompanhando.
    Por oportuno, estou retornando as redes sociais após um tempo fora e gostaria te deixar aqui o convite para conhecer o meu novo espaço em https://enfoqueextrajudicial.blogspot.com
    Agradeço sua atenção e aguardo sua visita.

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  2. Boa tarde. Quero fazer parte dessa história.

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