domingo, 10 de março de 2019

MANÉ BARRACA



Mané Barraca... (por Antônio Samarone)

A consciência civilizada tenta afastar-se dos instintos básicos, mas nem por isso eles desaparecem. Seu Manoel Barraca conhecia a alma humana, conhecia as suas fragilidades. Não era um conhecimento filosófico, nem teológico, nem profético. Era um conhecimento atávico, ancestral. A alma de seu Manoel percorreu continentes, atravessou os mares em navios negreiros, sofreu sob a chibata do senhor de engenho. Uma alma de mil anos.

Manuel Fiel Santos, Mané Barraca, era um rezador afamado, respeitado, e com grande clientela em Itabaiana. Nunca viveu de rezas. No cotidiano, batia barro para fazer panelas. Literalmente, vivia de vender artefatos de barro nas feiras, produzidos artesanalmente. Sua residência, no Cruzeiro, era cercada de mistério.  

Seu Manoel Barraca era de família enraizada na cidade, irmão de Euclides Barraca e João Barraca. Euclides era guarda-noturno e zelador do cinema de Zeca Mesquita, pai de Val, Regis e Aroaldo, e de um monte de moças bonitas (Maizé, Maié e Ná) que enfeitavam o Beco Novo. João Barraca, sapateiro, comunista, pai dos craques do Itabaiana, Cosme e Damião. Por onde anda essa gente?

O Cruzeiro ou Avenida ou Bairro São Cristóvão, era uma comunidade de paneleiros, uns poucos sapateiros, quase todos negros. No fundo das casas tinhas pequenos fornos de queimar panelas. Também era o celeiro de jogadores de futebol. Lá ficavam os campos do Itabaiana, do Cantagalo e o de Seu Mané Barraca.

Seu Manuel Barraca era dono de um time de futebol juvenil e, aos domingos pela manhã, à frente de sua casa ficava lotada de meninos pobres, que sonhavam em ser jogador de futebol. No campinho, que levava o seu nome, disputávamos verdadeiros clássicos, dignos de uma final de Copa do Mundo. Eu participei desse sonho.

Seu Manuel era herdeiro da arte dos pajés. Rezava para íngua, rendidura, malina, engasgamento por espinha de peixe, unheiro, cobreiro, azia, erisipela, ataque de bichas, carne quebrada, nervo torto, verruga, fogo selvagem, olhado, quebranto, espinhela caída, impinge, sapinho, calor de figo, mal de sete dias, espinho e mordedura de cobra e cama de sapo.

Para curar azia, repetia três vezes: “Santa Sofia tinha três fia/uma cosia, outra bordava/e a outra curava o mal da azia.” Seu Manuel era especialista em rezar para bicheira de animal. Se dizia que Seu Manuel possuía o livro de São Cipriano, coisa que eu nunca vi.

Todo dia treze de dezembro, Seu Manuel descia a Rua do Beco Novo, com uma imagem de Santa Luzia num quadro, coberta de fitas, de porta em porta, pedindo uma esmola para a Santa. Muito ou pouco, ninguém deixava de contribuir. Todos queriam a proteção da Santa Luzia para as suas vistas. Com os olhos não se brinca. Fui a uma procissão de Santa Luzia, na Barra dos Coqueiros, lá encontrei um sobrinho de Seu Manuel, que saiu de Itabaiana só para acompanhar a procissão. Continua devoto!

Seu Manuel sabia que a vida era uma batalha entre o nascimento e a morte, o bem e o mal, a alegria e o sofrimento. Ele conhecia a sombra da alma humana, a franja possuída pelo demônio. Ouvi pela primeira vez da sua boca, os versos mais bonitos da MPB: “O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/Do mal será queimada a semente/O amor será eterno novamente... É o Juízo Final/A história do Bem e do Mal/Quero ter olhos pra ver/A maldade desaparecer.”

Antônio Samarone.

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