domingo, 15 de setembro de 2019

GENTE SERGIPANA - ROBÉRIO SANTOS


Gente Sergipana - Robério Santos.

Nasceu em Itabaiana, em 20 de fevereiro de 1981. Filho de Seu Pedro e Dona Maria Luciene Barreto. Gente dos Cearás da Cruz do Cavalcante.

Um intelectual insubmisso. Vasta obra publica. Fotografo. Jornalista. Cineasta. Formado em Letras, pela UFS. O único da nova safra itabaianense com influencia regional. Criador da revista OMNIA.

Robério Santos é um dos grandes pesquisadores brasileiros do Cangaço, do mesmo naipe de Frederico Pernambucano de Mello e Antonio Amaury. Usa uma metodologia original e fértil.

É preciso se fazer justiça: Robério Santos foi o idealizador e o principal responsável pela bem sucedida "Bienal de Itabaiana".

Depois se afastou.

Como todo intelectual independente, Robério Santos tem os seus caprichos. Não é dócil!

Vou revelar um segredo: na primeira visita à Itabaiana, durante os debates para a criação dos grupos do saber local, Luiz Antonio Barreto me confidenciou, esse Robério é inquieto, criativo, pode ir longe no mundo da cultura.

E está indo.

Antonio Samarone.

sábado, 14 de setembro de 2019

A CULTURA NA QUINTA BIENAL DE ITABAIANA



A Cultura na quinta Bienal de Itabaiana. (por Antônio Samarone)

A Bienal de Itabaiana é um grande sucesso de público. Legiões de jovens superlotam os corredores. Todos curiosos, ávidos pelo consumo cultural. Gente de todos os cantos e recantos. Parece uma romaria do Padre Cícero. O que explica esse novo poder de atração da cultura popular, do objeto cultural?

Claro, não estou falando da cultura como um sistema completo e coerente de explicação do mundo. Não! Falo da cultura mercantilizada.

A globalização da cultura convive com as culturas locais fragmentadas, sem muitos conflitos. Muitas vezes nem se cumprimentam. Para o mercado, a única medida é o consumo.

A que se deve o sucesso da Bienal de Itabaiana, a Meca da cultura sergipana?

Primeiro a ausência do Poder Público. A Bienal de Itabaiana não usa recurso público. Quando o Poder Público patrocina a coisa não anda, a politicagem toma conta. Só leva gente se contratar shows com artistas famosos, com cachês suspeitos. A parte da cultura local é esvaziada, mesmo trazendo palestrantes e atrações de fora.

Uma nota: a completa ausência dos doutores das universidades na Bienal de Itabaiana. Nem a sombra dos departamentos de letras... O saber acadêmico tem outras preocupações! Um detalhe: ninguém sente falta.

Acredito que o sucesso da Bienal de Itabaiana se deve, principalmente, ao indiscutível espírito comercial dos Itabaianenses. Uma gente que sabe comprar e vender. Uma gente que vende de ouro a castanha. Vender cultura fica fácil. Em outras palavras, o tino comercial de Honorino Júnior, Carlos Elói e Jamyson Machado é o carro chefe da Bienal. Não é atoa que transferiram a Bienal para um Shopping Center.

A alma da bienal de Itabaiana é o espírito comercial da cidade. Não é fácil vender livros de autores locais, pouco conhecidos. Um Best Sellers nas livrarias de Aracaju vende cem exemplares. Na Bienal de Itabaiana os autores locais mais famosos chegam a vender seiscentos livros. A feira tem mais de duzentos escritores e quinhentos títulos.

Escritores, poetas, trovadores, cordelistas de toda a redondeza. Do alto Sertão ao baixo São Francisco. Do Raso da Catarina, Serra Negra e Uauá. Escritores das escolas municipais dos povoados e das academias de letras. Tudo gente daqui, sem fama, sem a divulgação de grandes editoras. Quase tudo local. Todos vendendo.

Um amigo, um intelectual cabuloso, me perguntou em tom de ironia: e a qualidade desses escritos? Eu cheguei à impaciência, que qualidade, o mercado está se lixando para esse preciosismo. Os critérios mudaram: o capitalismo absorveu a cultura, destruiu as fronteiras simbólicas entre a alta e a baixa cultura, a arte e o comercial, o espírito e o divertimento.

Uma escritora do povoado Cajazeira me ofereceu dois livros de poesias. Não comprei por somiticaria.

O sucesso da Bienal se deve também a disseminação das academias de letras pelo interior. Existem academias em todos os cantos. Isso incentivou a que todos escrevessem alguma coisa, perdeu-se a timidez. O sujeito se tornou imortal, entrou numa academia, por que não escrever alguma coisa? O relativismo cultural desinibiu os letrados. Os consumidores tornaram-se produtores de conteúdo. 

Uma professora da rede municipal de Itabaiana me mostrou vaidosa o seu primeiro livro, ilustrado por um aluno. Um livro bonito. Parabéns, professora...

Com essa crise econômica, só quatro estabelecimentos prosperam em Sergipe: bodegas, vendendo bebidas alcoólicas; farmácias, vendendo medicamentos; igreja de crente, distribuindo fé; e academias de letras distribuindo cultura. A produção cultural é farta. A dificuldade é arrumar quem compre tantos livros, tirar o produto no mercado. A Bienal de Itabaiana resolveu essa pendência.

E por que outros municípios em Sergipe não realizam essas feiras culturais com sucesso, nem Aracaju? Perceberam, não é por falta de livros, nunca se escreveu tanto. O que falta é o espírito comercial. Vender! Com jeito e sabedoria vende-se de tudo.

Portanto, a minha conclusão, provisória, é que o sucesso da Bienal de Itabaiana deve-se sobretudo ao espírito comercial aguçado do seu povo.

Antônio Samarone.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A BIENAL DE ITABAIANA


A Bienal de Itabaiana (2019). (Por Antônio Samarone)

Numa palestras recente, Vargas Llosa pediu para que as crianças lessem, para não serem enganadas. Pediu para que procurassem uma literatura crítica, com a capacidade de manter vivo o descontentamento com a realidade, e que se afastassem das artes como puro entretenimento.

“O entretenimento é divertido e fácil de digerir, mas não acho que, como a literatura, forme cidadãos ideais para uma sociedade democrática. Os livros deixam uma marca muitíssimo maior; geram cidadãos com um espírito crítico, e a democracia não pode sobreviver sem um espírito crítico.” (Llosa)

O medo de Vargas Llosa é que a mediocridade invada também a literatura, a poesia e as artes em geral.

“Os tempos mudaram. Ninguém tomou a Bastilha, nem pôs fogo no Reichstag, o Aurora não fez um único disparo. E, no entanto, o ataque foi lançado e teve êxito: os medíocres tomaram o poder.” (Deneault)

“O que faz de melhor uma pessoa medíocre? Reconhecer outra pessoa medíocre. Juntas se organizarão para puxarem o saco uma da outra, vão se assegurar de devolverem favores uma à outra e irão cimentar o poder de um clã que continuará a crescer, já que em seguida encontrarão uma maneira de atrair seus semelhantes.” (Musil)

Acredito que a Bienal de Itabaiana seja parte dessa resistência à mediocridade, um chega prá lá na estupidez...

Antônio Samarone.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

O SUICÍDIO NO ORIENTE - A CREMAÇÃO DAS VIÚVAS


O Suicídio no Oriente – A cremação das viúvas. (por Antônio Samarone).

Na Índia o termo “sati” significa esposa virtuosa, casta e fiel. Entretanto, “sati” era um costume antigo e bárbaro, que existiu por muitos séculos na Índia. As mulheres ao enviuvarem, acompanhavam o cortejo fúnebre do marido, com música e cânticos religiosos. Era tradição que ao chegar junto à pira preparada para a cremação do defunto, a esposa imolar-se junto.

O “sati” era uma cerimônia de cremação da viúva (viva).

Mesmo quando o marido morria distante, o ritual da cremação da viúva poderia ser realizado; Ela imolava-se junto a um pertence do finado. Onde o rito era o do sepultamento, a esposa era enterrada junto, viva. Esse costume era adotado pelos pertencentes da sub casta jugi (tecelões).

Em Bali, as viúvas as vezes preferiam tirar a vida com o kriss, um punhal de lâmina sinuosa.

Era um suicídio visto como purificador, aplaudido pela comunidade. As autoridades assistiam com complacência. Somente em 1984, é que o Primeiro Ministro Rajiv Gandhi declarou ser o “sati” uma vergonha nacional.

Oficialmente, o ritual de cremação da viúva (sati) foi proibido por lei em 1829, pelas autoridades inglesas que ocupavam a Índia. O que não significa que tenha deixado de existir.

O ritual do “sati” começava com a viúva declarando o seu desejo publicamente. Os parentes e amigos suplicam que ela desista, que pense nos filhos. Mas tudo é uma encenação, no fundo o desejo de quase todos é que ela se sacrifique.

Tomada a decisão, a mulher se preparava com cuidado. Vestia a roupa do casamento, coloca os braceletes e as joias nupciais, cobria a cabeça com flores, e pedia a benção dos parentes mais velhos.

A cerimonia da cremação da viúva era pública. Previa procissão, festejos, banquete e a participação de milhares de pessoas. As grávidas eram poupadas, adiava-se a cerimônia até o nascimento da criança.

A situação de viuvez era tão degradante, que as mulheres  preferiam o suicídio (sati). Se uma sati era fausta, uma viúva era infausta. Se a primeira era amada, venerada, celebrada, a segunda era odiada, desprezada e odiada.

Como na Índia predominava a poligamia, o ritual de cremação da viúva poderia assumir ares de tragédia. Em 1724, quando morreu o rajá Aijtsingh de Marwar, imolaram-se 64 esposas. Em 1799, a morte de um brâmane que tinha mais de cem esposas, a pira fúnebre ardeu por três dias, consumindo 37 delas.

Não descobrimos com que frequência esses suicídios coletivos ocorriam.

O ritual da cremação da viúva existia desde os séculos IV e III a.C. Ele nasceu para proteger os homens da ameaça das esposas, quando elas começam a envenená-los.

O passado da Índia articulava-se a quatro castas: brâmanes (sacerdotes); ksatriyas (guerreiros e cavaleiros); vaishya (comerciantes); e shudra (trabalhadores). O costume do “sati” nasceu entre os ksatriyas, uma casta alta. No início, o suicídio era proibido as mulheres dos Brâmanes. Com o tempo, o ritual foi adotado por todas as castas.

Pelos dados da administração britânica, entre 1815 e 1826, num total de 8.134 casos de SATI, 50% das viúvas que se imolaram eram de shudras, 40% brâmanes, 6% de ksatriyas e 4% vaishya.

Calcula-se que somente no século XIX, antes da proibição inglesa do “sati”, quase um milhão de mulheres tiraram a vida na Índia, após a morte do marido. No mesmo período, não se identificou nenhum viúvo que tenha se imolado após a morte da esposa.

Talvez por receio do antigo costume hindu, nos casamentos cristãos os sacerdotes fazem questão de anunciar a união marido e mulher, com uma ressalva, até que a morte os separe.

Antônio Samarone.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O SUICÍDIO NA HISTÓRIA


O suicídio na história.

O suicídio é o único problema filosófico sério.” (Camus).

Um suicídio, como toda conduta humana, é uma mensagem endereçada à comunidade da qual seu sujeito faz ou fazia parte.

A história grega foi marcada por suicídios retumbantes: suicídios patrióticos, de Temístocles e Demóstenes; suicídio por remorso, de Aristodemo; suicídio pela honra, de Cleômenes; suicídio por fidelidade a uma ideia religiosa, de Pitágoras; suicídio para escapar da decrepitude da velhice, de Demócrito; suicídio filosóficos por desprezo pela vida, de Zenão, Diógenes e Epicuro. O suicídio de Sócrates é o mais conhecido.

Em Roma não foi diferente. Foi marcante o suicídio resignado de Sêneca, por ordem de Nero. Os celebres suicídios políticos de Catão, Cassius, Brutos (“Ó virtude, não passas de uma palavra”) e Cleópatra, para evitar a perda de liberdade. A popularidade de estoicismo entre as elites romanas contribuiu para banalizar o gesto fatal.

Na Idade Média o suicídio foi tratado pela proibição cristã. Aos suicidas eram negadas a sepultura. Tinha o corpo enforcado, como uma segunda morte. Na visão cristã do medievo, a salvação era negada aos suicidas. O suicídio era um problema da religião, da moral, do direito e da filosofia.

O Iluminismo encorajou a tolerância aos suicídios. A filosofia moral secular, a expansão do humanismo e o crescente prestígio da ciência contribuíram para a tolerância. Os filósofos d’Holbach, Voltaire, Montesquieu, Hume ofereciam justificativas filosófica. Somente Kant condenou duramente o suicídio.

Durante o Iluminismo tivemos o “mal inglês”.

Em 1749, Montesquieu escreveu: “Os ingleses se matam sem que se possa imaginar nenhuma razão que os determine, matam-se até em plena felicidade. É o efeito de uma doença gerada pelo clima, que atinge a alma a tal ponto que leva o desgosto por todas as coisas, até pela vida. Um mito do iluminismo: a Inglaterra era o país do suicídio.

Aliás, suicídio é um termo nascido na Inglaterra, no século XVII. (sui – de si; caedes – assassinato). Entre 1680 e 1720 explodiu o número de suicidas na aristocracia britânica. O suicídio filosoficamente justificado era um ato refinado, desde que não fosse por enforcamento. O suicídio era nobre ou pela espada ou pela pistola.

A satanização do suicídio no mundo protestante. Para Lutero, “o suicídio nada mais é do que um assassinato de uma pessoa cometido diretamente pelo diabo. Aquele que se suicida está possuído pelo demônio.  A origem satânica do suicídio é aceita com facilidade pelo povo.

O Concilio de Trento reitera a proibição absoluta de matar do quinto mandamento. A lei não diz não matarás os outros, mas não matarás. O suicida era enterrado junto aos excomungados e aos não batizados, de todos aqueles que foram excluídos da salvação eterna.

No final do século XV a loucura tornou-se tema intelectual, gerando polêmicas. Brant avaliava que era preciso estar louco para se suicidar, Erasmo, que era preciso estar louco para continuar vivo. Surge a ligação dos suicídios com a doença mental.

Uma passagem do Dr. Fausto, de Goethe, é significativa do dilema sobre o suicídio:

“Meu coração está tão endurecido que eu não consigo me arrepender. Mal posso apelar à salvação, à fé ou ao céu sem que um eco terrível ressoe em meus ouvidos: Fausto, estás condenado ao sofrimento eterno. Então, espadas, punhais, veneno, pistola, cordas e floretes envenenados se oferecem a mim para que eu me mate.”

Os médicos tinham prestado pouca atenção aos suicídios no renascimento e mesmo no iluminismo. Contudo, à medida que a profissão psiquiátrica emergia como uma entidade distinta, os autores médicos, no século XIX, começavam a enfatizar que o suicídio era causado pelas doenças mentais.

Esquirol, via o suicídio como o desfecho da monomania. Em 1838, ele declarou: “o suicídio é um ato secundário a uma perturbação emocional severa (délire de passion) ou insanidade (folie)”. Após 1820, o debate moral sobre o suicídio foi secularizado.

Até a década de 1820, o debate sobre o suicídio era dominado pela moral. Aqui inicia-se a medicalização. O suicídio deixou de ser visto como uma revolta contra Deus, mas continua um ato ameaçador para a sociedade. A psiquiatria começa a tomar conta do suicídio no final do século XVIII.

Os sociólogos também pleitearam o suicídio para o seu campo de pesquisa, consolidando-se no estudo clássico de Durkheim “O Suicídio” (1897). Durkheim rejeitou que o suicídio fosse primariamente causado por uma patologia individual, defendeu uma causa social de fundo.

O Setembro Amarelo: o suicídio não tem glamour. Hoje os médicos e psicólogos acreditam que o suicídio é um problema de Saúde Pública, e que decorrem, em sua imensa maioria, de transtornos mentais. Acreditam que esse avanço do suicídio encontra nessa explosão das doenças mentais a sua base explicativa. 

Em meu entendimento, transferem a pergunta: e o que está levando a essa explosão dos transtornos mentais?

Cada sociedade tem em momentos definidos de sua história uma determinada disposição para o suicídio, e uma taxa de suicídio numericamente particular. Essa variação ocorre no tempo, e entre diferentes civilizações. Esse entendimento só é possível pelos estudos sociológicos.

Mas essa questão não é tema desse texto.

Antônio Samarone.

domingo, 8 de setembro de 2019

O MEU BISAVÔ BERNARDINO FERREIRO



O meu bisavô Bernardino ferreiro... (por Antônio Samarone)

Aos 17 de setembro de 1926, terça-feira, às 9:40 horas, o trem M-72 da Este Brasileira, guiado pelo maquinista Caetano Antônio de Jesus, atropelou e matou Bernardino José de Oliveira (59 anos), ferreiro, residente no povoado Sambaíba, em Itabaiana Grande.

Bernardino ia de Itabaiana com destino a cidade de Maruim, para comprar ferro, matéria prima do seu ofício. Montado num burro. Ao chegar nas proximidades do povoado Caititu, um trem passava no momento. Bernardino viajava seguindo a linha do trem.

O animal assustou-se com o apito do trem e saiu em disparada. A 500 metro da estação do Caititu a linha faz uma curva (KM – 337), em seguida existe um alto pontilhão. O animal ficou sem alternativa, assustado, não conseguiu sair da linha, sendo esmagado pelo trem em cima do pontilhão. Bernardino não conseguiu nem controlar o animal nem saltar antes, sendo despedaçado pelo trem, junto com o animal.

Essa história continua na lembrança dos mais velhos do Caititu, que ouviram contar essa tragédia.

Os corpos foram apanhados num saco, gente e animal misturados, colocados na estação ferroviária do Caititu, à espera do destino legal. No mesmo dia, os cadáveres foram transferidos para Aracaju, e periciados pelos doutores Carlos Tavares de Menezes e Mário de Macedo Costa, na Chefatura de Polícia. Segue o resumo do laudo pericial, emitido pelos médicos:

“Bernardino de Oliveira, brasileiro, residente em Itabaiana, de cor branca, ferreiro, aparentando sessenta e cinco anos de idade, apresenta fratura do crânio e esmagamento de tronco e membros, literalmente separados, que provocaram a morte instantânea.” Bernardino José de Oliveira foi sepultado em Aracaju, no Cemitério de Santa Izabel.

Ontem, 07 de setembro de 2019, fui ao Caititu, local do trágico acidente que vitimou o meu Bisavô Bernardinho ferreiro. O propósito era construir no local uma “Santa Cruz”, tradição dos ferreiros, meus ascendentes. Visitei a mata, para sentir o sopro quente do ferreiro Bernardino.

Só que a mata cobriu parte da estrada de ferro. Por coincidência, no local do acidente cresceu uma linda jurema, exatamente uma jurema. Como se sabe, os ferreiros de Itabaiana preferiam o carvão de jurema em suas forjas, pois permitem elevadas temperatura. Desisti da “Santa Cruz”, a natureza ofereceu uma jurema.

A Bigorna que foi de João José, Bernardino, Totonho, Zé, Homero, agora é de Arnaldo meu primo, tá no povoado flechas, resistindo há mais de 150 anos. O som da bigorna ainda é reconhecido pelos antigos.

Gente dos Ferreiros, Bernardino não foi abandonado. Espero estar vivo, para comemorar o centenário de sua morte.

Antônio Samarone.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O SOFRIMENTO DE SEU CAÇULO



O sofrimento de Seu Caçulo. (por Antonio Samarone)

Postei um relato sobre a maneira como o Seu Caçulo está cuidando da esposa, em estado avançado de Alzheimer. Tenho recebido várias mensagens de gente amiga, que está passando pela mesma provação. Suprimindo a identidade, uma experiência eu vou repassar...

Referindo-se a uma passagem do meu texto anterior (Os Mistérios da Ciência) – Imagine, a pessoa esquece de tudo, até mesmo de quem seja? Assustador! Seu Caçulo acha que não. Ele acredita que o sofrimento é para quem toma conta. A pessoa com demência apenas não consegue se comunicar, dizer o que pensa. A alma, o espírito dela sabe de tudo o que está se passando, disse ele com muita certeza.

A minha amiga, que está cuidando da mãe com Alzheimer, me contou a sua experiência:

“Li seu artigo sobre o Seu Caçulo e fiquei cá no meu amigo sofá, matutando.... Pensei... Também sou espírita, criada na doutrina e faz-me crer que a providência Divina revela a cada um no tempo certo segundo o seu amadurecimento.”

"Que ouçam os que têm ouvidos para ouvir e vejam os que têm olhos para ver".

“Sim, é muito triste para quem cuida e eu gostaria muito de ter o privilégio de ter dois dedinhos de prosa com seu Caçulo. Estou encantada com ele. Uma abnegação, paciência e coragem dignas de exemplo. Meu pai sofria muito, hoje está mais conformado. Nós os cercamos de mimos e muitos beijos. Sempre por lá, não abrimos mão dos almoços de domingo feitos por ele, com assessoria da secretária.”

“Mas o que quero dizer: a minha mãe, por algum crédito lá com a equipe dos abnegados espíritos de luz, conseguiu se comunicar conosco. Temos mensagens psicografadas, ditadas por ela, assinadas com sua letra, onde ela nos conta que já superou todo o sofrimento. Está tranquila e quer as nossas vozes à sua volta.”

“Confirmando o que seu Caçulo lhe disse, o corpo físico está deteriorando, mas o espírito permanece lúcido e durante os desdobramentos que se dão quando o corpo físico adormece, ela se desloca até um médium em Salvador, ditando as respostas aos nossos questionamentos. Temos nos consolado com isso e esperamos a hora da sua partida, dentro dos desígnios do criador.”

“Por hora, ela segue bem assistida por uma boa equipe de técnicos de enfermagem, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, médico, dentista enfim.... todos os cuidados que a ciência terrena pode oferecer. E a fé nos conforta. Ela nos ama e cuida de cada um. De vez em quando sonho com ela bem, dando as ordens na casa, dizendo como quer as coisas. Vou lá e faço, pois sei que é o seu desejo.”

Eu, meio descrente, perguntei: como você sabe que quem escreve é mesmo a sua mãe?

“Sim, é ela. Já fizemos algumas modificações na casa, mudamos o piano de lugar, dentre outras coisas e ela perguntou por quê. Mas gostou. Quando um de nós deixa de ir para uma viagem, por qualquer motivo, ela pergunta. É a letra dela! Meu filho não acreditava. Ficou sozinho com ela no quarto e fez perguntas no seu ouvido, ela mandou a resposta para ele.”

A minha descrença diminuiu com tantas evidências.

Antônio Samarone.