quinta-feira, 28 de maio de 2020

O FIM DO ISOLAMENTO SOCIAL


O Fim do Isolamento Social.
(por Antonio Samarone)
O Brasil começou a suspender o isolamento social. O que houve? A Pandemia chegou ao pico e começou a declinar? Não, pelo contrário, a mortalidade continua crescendo. Ontem morreram 1.086 pessoas.
E por que vão abrir a economia, quais as justificativas?
1. Já temos um número de leitos de UTI suficientes, compramos mais respiradores. As pessoas já podem morrer com um certo conforto. Se o isolamento era para evitar o colapso do sistema de saúde, o problema foi resolvido.
2. A economia caiu muito, só em abril, perdeu-se quase um milhão de empregos com carteira assinada. Os cofres públicos estão se esvaziando. Está na hora de abrimos a economia.
3. Não faltará quem argumente, está vendo, esse isolamento social foi uma perda de tempo. Nunca funcionou. Estava na hora de acabar.
4. Outro grupo defenderá que o isolamento social já cumpriu o seu papel, salvou milhares de vidas. (Alguns citam até o número de mortes evitadas). Já podemos suspendê-lo.
É a Torre de Babel. Os argumentos apontam para todos os lados, são movidos pelos interesses, mas todos encontrarão um “estudo científico” comprovando.
Mas se abrirmos a economia e todos voltarem as ruas, aumentar as aglomerações, o número de mortos não vai crescer? Parece lógico.
Mesmo assim, se o número de mortes pode crescer, o que levou mesmo a essa decisão nacional, de reabrir a economia agora?
Houve uma grande mudança no Brasil. A doença que chegou de avião, avançou para a periferia, para vilas e favelas, quem morre mais, agora, é o povo pobre e os profissionais de saúde.
A Pandemia começou a perder a sua importância social. A Pandemia está matando bem mais os pobres e profissionais de saúde.
Entenderam, a Pandemia está perdendo a sua importância social. Essa é a razão mais importante para a suspensão do isolamento. Os que vão morrer, em sua imensa maioria, são pobres e profissionais de saúde.
As mortes podem até aumentar, mas são mortes severinas. Na lógica neoliberal, esse gente é excedente, não conta para a economia.
O novo corona chegou cheio de empáfia, não poupava ninguém. Agora percebeu que matar pobres é bem mais fácil.
A Pandemia ter eliminado idosos pobres é visto como uma “reforma biológica da previdência”. É nessa realidade em que vivemos.
A velha sociedade se apressa em retornar ao modo de vida de antes.
O discurso em defesa da vida era um biombo político? A vida vale pouco no Brasil! O medo de quem é levado em conta, passando, em breve a Pandemia será uma curiosidade histórica.
Não estou dizendo nenhuma novidade, todos já sabiam. Estou apenas relembrando.
A dengue, a zica e a chikungunya vem aí, farão a sua coleta de mortos, deixarão as suas sequelas, e passarão desapercebidas, como sempre. No máximo, as autoridades mandarão que cuidemos dos jarros de flores, para não deixarmos água acumulada.
Essas são viroses antigas, que aprenderam a escolher as suas vítimas.
Os que sonham que a Pandemia botará uma pá de cal no neoliberalismo, precisam acordar!
Antonio Samarone.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A PESTE CHEGOU!


A Peste Chegou!
(por Antonio Samarone)
O temido colapso dos Serviços de Saúde chegou à Sergipe. Não se trata de uma metáfora, é um colapso mesmo. É o paciente grave, com sofrimento intenso, necessitar de uma assistência especializada e não encontrar.
Essa carência não se resolve de improviso. Chega, manda comprar mais 50 respiradores e abre-se mais leitos. Não é assim que funciona. Um respirador não é um eletrodoméstico que você compra na loja, leva para casa, liga na tomada e ele começa a funcionar. Não é como o liquidificador de nossas casas.
Um leito de UTI precisa de equipamentos e muita tecnologia, entretanto, se não tiver profissionais qualificados, esses equipamentos de nada servem. Não basta ligar na tomada, precisa de gente competente para operá-los.
A alma da assistência numa UTI é a sua equipe de saúde.
Sem um bom médico intensivista, enfermeiras especializadas, fisioterapeutas treinados, os melhores equipamentos do mundo são lixo. Uma arma não mão de quem não sabe atirar.
Leitos de UTI são equipes de profissionais treinados, com condições de trabalho adequadas, tecnologias e insumos disponíveis, e segurança. Sergipe teve tempo para montar essas esquipes, treiná-las, capacitá-las, e não o fez.
Empurraram com a barriga. Não se levou a sério. Enganaram ao Ministério Público.
Quantos desses leitos de UTI em Sergipe, montados a toque de caixa, estão em condições de funcionamento adequado? Os pacientes entram sozinhos, em estado grave, sem a presença da família, desprotegidos, não podem avaliar a qualidade do serviço que estão recebendo.
Como agravante, não existe uma regulação única.
A Secretaria da Saúde do Estado aponta para um lado a de Aracaju para outro. O município tem dificuldades em transferir um paciente grave de suas UPAs, para um leito de UTI estadual. Pacientes já morreram pelas dificuldades burocráticas.
A essa altura, ainda não existe um fluxo estabelecido para os pacientes com covid. E não foi por falta de reuniões. Posso parecer duro, mas falta uma gestão competente. O critério político nas escolhas dos gestores é um crime contra a saúde pública.
Um paciente grave procurando a rede de saúde, ainda sem diagnóstico, para onde encaminhá-lo? As UTIs não aceitam pacientes sem diagnóstico. Eles esperam onde? Nem o Nestor Piva, nem o Fernando Franco, nem o hospital da campanha possuem estruturas adequadas para assistir a esses pacientes graves.
As UPAs estão lotadas com pacientes graves. E mais, ontem um paciente grave ficou no Onésimo Pinto, uma unidade básica, até tarde da noite. Ninguém sabia para onde encaminhá-lo. Uma perversidade.
Não existir um fluxo estabelecido para os pacientes de covid beira a estupidez.
A desorganização levou que o hospital da campanha receba pacientes já testados positivamente com necessidade de internamento, junto com pacientes sintomáticos, mas sem o diagnóstico.
Qual é o problema?
O polêmico hospital da campanha foi construído por gente acostumada a montar espaços de festas. Fizeram um ambiente único, as salas de atendimento não possuem cobertura, respira-se o mesmo ar em todo o ambiente.
O que significa essa aberração?
Uma pessoa internada com sintomas parecidos com os da covid, mas seja outra doença respiratória, ela vai se contagiar no hospital. Ambiente respiratório único, com o ar condicionado ajudando a espalhar o vírus, o hospital da campanha se transformou numa central de transmissão da Pandemia.
O hospital da campanha virou um Lazareto, um depósito de doentes aguardando o seu destino. Juntou-se num mesmo ambiente pacientes covid positivo, pacientes suspeito da covid e pacientes de outras patologias, que pareçam covid. Em pouco tempo, todos serão pacientes da covid.
Enquanto eles batem cabeça, a morte continua com a sua foice afiada. Chegamos a 116 óbitos, 292 pacientes internados e 3.105 pessoas testadas positivas, em suas casas, esperando a misericórdia de Deus.
Já chegamos no pico da Pandemia em Sergipe (27/05)?
Ninguém sabe!
Os dados são insuficientes. As previsões são especulativas. Sem dados corretos os “modelos matemáticos” são abstrações efêmeras. Quantos são os contaminados em Sergipe? A testagem é muito baixa.
Antonio Samarone.

terça-feira, 26 de maio de 2020

SÓ A VACINA SALVA


Só a Vacina Salva!
(Por Antonio Samarone)
“Paz para os bons, consolo para os aflitos e o fogo eterno para as almas sebosas.” Frei Damião.
A postura do governo brasileiro frente a Pandemia assusta o mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) suspendeu todas as pesquisas sobre o uso da cloroquina em seres humanos. Existem evidências que a droga além de ser ineficaz contra a covid, aumenta a mortalidade.
No Brasil, o uso da cloroquina tornou-se epidêmico.
Durante a Peste Asiática na Espanha, em 1885, os médicos prescreviam o láudano de Sydenham, um composto de vinho madeira, ópio (Papaver somniferum), açafrão, cravo e canela. Saboroso, porém ineficaz.
Láudanos eram preparados de ópio com álcool, tomados via oral. O ópio é o sumo da papoula e contém diversos alcaloides (morfina, heroína, papaverina). E Thomas Sydenham, era um famoso médico inglês, reconhecido como o fundador da medicina clínica.
Portanto, o láudano de Sydenham não era um remédio qualquer, mas não funcionava no tratamento do Cólera. Tinha na época mais prestígio que a cloroquina na atualidade.
Já se sabia que bastava ferver a água antes de beber, mas ninguém acreditava. Um ano antes, o cientista alemão Robert Koch havia anunciado que um micróbio era responsável pela cólera. As pesquisas de john Snow eram conhecidas. Essa história é contada por Cajal (o da foto acima), em suas memórias.
Em junho de 1885, as autoridades declararam oficialmente a epidemia de cólera em Madri. Os comerciantes fizeram protestos, exigindo que medidas preventivas não afetassem os seus negócios. Essas reações vêm de longe.
Um jovem médico catalão, Jaime Ferrán, produziu uma vacina experimental contra a cólera: uma injeção subcutânea de pequenas doses do micróbio. O gênio espanhol Santiago Ramón y Cajal, prêmio Nobel em medicina em 1906. foi consultado, e propôs ao invés de micróbios vivos, o uso de uma vacina com germes de cólera mortos pelo calor.
Na época a ideia de Cajal não foi aceita, mas estava descoberto um novo tipo de vacina, hoje chamada de morta ou inativada e já em testes em humanos contra a covid-19.
No entanto, a honra da descoberta foi tomada pelos bacteriologistas americanos Daniel Salmon e Theobald Smith, que publicaram conclusões semelhantes um ano depois.
No final do século XIX existia apenas a vacina contra a varíola, produzida por vírus cultivados no ubre de vacas.
Os médicos sempre reagiram as mudanças de paradigmas da medicina. Oswaldo Cruz enfrentou resistências da Academia Nacional de Medicina, em sua luta no combate à febre amarela, eliminando os mosquitos. Os médicos não aceitavam essa novidade dos mosquitos.
Os médicos foram contra a vacinação obrigatória, proposta por Oswaldo Cruz em 1904.
Os leprologistas não aceitaram a causa bacteriana da lepra com facilidade. Na década de 1940, o tema ainda era motivo de discórdia.
Segundo a OMS, cerca de 70 pesquisas de vacina contra a covid – 19 estão em andamento no mundo, pelo menos três em fase de ensaio clínico. Novas tecnologias da engenharia genética estão sendo usadas na produção da vacina. Em breve teremos novidades.
Voltando a Pandemia.
Se não bastasse a estupidez do Governo Federal, em Sergipe, a Pandemia está sendo administrada por gente vaidosa, políticos populistas, sem a necessária humildade para se declararem incompetentes.
Para quem pensa que nada acontece na Província durante a Pandemia, ontem, a Academia Sergipana de Letras reuniu pensadores e curiosos, para ouvir o intelectual Jorge Carvalho profetizar sobre o futuro da educação, no pós Pandemia. Uma conversa proveitosa!
O Governador de Sergipe anunciou mais um decreto para o combate à Pandemia. Como se esperava: nada de novo! A mesma ladainha, que agora é para valer, vamos fiscalizar, estamos atentos. Chega!
Enquanto isso a Peste avança em Sergipe (25/05). 5.448 casos notificados e 103 mortos. 139 pessoas internadas nas UTIs. A taxa de ocupação dos leitos de UTI, aproxima-se do limite trágico.
A realidade é assustadora, não porque é real, mas por ameaçar tornar-se...
O boletim epidemiológico estadual informa que em Itabaiana existe um leito de UTI para a covid. Como assim, um leito? Existe uma equipe profissional montada para atender a um paciente? É evidente que os profissionais que atendem a pandemia são exclusivos, por conta do contágio.
Alguém pode explicar?
O mesmo boletim epidemiológico passa outra desinformação: “até agora, existe 2.222 curados”. Vendendo uma versão que esses “curados” resultam supostamente da assistência dos serviços de saúde. Uma ação positiva do governo.
É urgente a readequação do hospital da campanha da Prefeitura de Aracaju, às necessidades da Peste. Quem está precisando de internamento e assistência de alta complexidade são os casos graves.
Um hospital improvisado para casos leves, um local de triagem, um gripário, não é a principal necessidade. Para não deixar dúvidas: estamos precisando de mais leitos de UTI.
Os pacientes graves precisam de atendimento de alta complexidade, unidades bem equipadas, profissionais qualificados e experientes (e protegidos). Não é uma doença simples.
Ouvi de um gestor aflito: “Leitos de UTI improvisados, são melhores do que nada. Pelo menos o governo dar uma satisfação à sociedade. O que não pode é o povo morrer em casa ou nos corredores.”
É a tal escolha de Sofia.
Antonio Samarone.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O GRANDE CONFINAMENTO


O Grande Confinamento.
(por Antonio Samarone).
A Peste, a guerra, a fome, a violência, a solidão, a obesidade e a morte são as Sete Bestas do apocalipse. Caminham próximas!
O fim do mundo sempre foi um patrimônio das religiões. No entanto, a ciência vai acumulando dados e começa a levar a sério os riscos de que um fenômeno natural ou provocado pelos humanos possa acabar com a civilização.
Entre os riscos reais do fim do Homo sapiens estão um conflito nuclear, choque da terra com um asteroide, aquecimento global e, por que não, as Pestes.
O cientista francês Patrick Zylberman, em seu clássico “Tempêtes microbiennes”, faz a previsão que o mundo será crescentemente atacado pelas Pestes.
A Pandemia já matou no mundo, até ontem (24/05), 350 mil pessoas. Os negacionistas minimizam: morrem 56 milhões de pessoas por ano no mundo, 350 mil não é nada, menos de um por cento. Acidente de trânsito mata um milhão e duzentas mil pessoas por ano, e ninguém está preocupado com os automóveis. Ninguém tem medo de carro.
Oitocentas mil pessoas se suicidam por ano, e ninguém nota. A Pandemia matou trezentos e cinquenta mil e é esse alvoroço. O mundo está parado, dizem os negacionistas.
O número de vítimas assassinadas em atentados terroristas é pequeno. Mas se trata de uma ameaça endêmica, que alterou profundamente a vida cotidiana.
Ocorre que não sabemos qual porcentagem de pessoas contagiadas perde a vida por culpa do coronavírus SARS-CoV-2. Se for 0,1% e todos os seres humanos puderem se contagiar, o número total de mortos poderia, hipoteticamente, alcançar a ordem de 7 milhões.
Eu sei que você está pensando, mas toda a população não será contaminada, em breve teremos uma vacina, eu sei. Mas o percentual de mortes é superior a 0,1%. Os estudos atuais apontam em torno de 0,5%.
O negacionismo é uma ideologia brasileira, não encontra sustentação científica. Outra esquisitice nossa é o uso da cloroquina no tratamento da covid. Nossa e de Trump.
Os negacionistas apresentam três alternativas ao atual modo de isolamento social:
1. A imunização do rebanho. Deixa todo mundo se expor livremente, os mais frágeis sucumbem, e os que restarem estarão imunizados. Todos vivem normalmente.
2. Isolamento seletivo. Segrega os velhos, obesos, diabéticos, os mais vulneráveis, e o restante continua vivendo normalmente.
3. Isolamento individual. Testa todo o mundo e isola somente os contaminados. O restante continua vivendo normalmente.
Esses três modelos, com as suas variantes, são alternativas que visam preservar a economia e o mundo atual. Visa manter a atual normalidade.
O isolamento social genérico, com ou sem lockdown, é quem está destroçando a economia, segundo o ponto de vista negacionista.
Acho, que quem está desmontando o atual modo de vida, não só a economia, é a própria Pandemia. independente da estratégia de combate.
Grande parte de nossa forma de vida anterior ao vírus já é irrecuperável. O distanciamento físico, por exemplo, será obrigatório assim que se saia de casa.
O isolamento social genérico, com uma cobertura de 70%, indicado pela OMS, foi o caminho seguido pela imensa maioria dos países.
Sergipe resolveu seguir um caminho próprio: o isolamento social do faz de conta, cumpre quem quer. Essa opção não retarda a propagação da Pandemia.
Sergipe encerrou o final de semana (24/05) com 93 óbitos, 132 pessoas internadas nas UTIs, e 5.314 casos notificados. A incidência de 236/100.000 e a taxa de mortalidade de 4,1/100.000. Os dados epidemiológicos são trágicos. Se não bastasse, o isolamento social em Sergipe é o menor do Brasil.
Em Aracaju, o isolamento social relaxou. Só cumpre quem quer. Limitando-se a propagação da doença evitaremos mortes.
Nesse momento, precisamos de posturas responsáveis das autoridades, para evitarmos mais mortes e um provável saturamento dos serviços de saúde.
Precisamos de ações corajosas, mesmo que desagradem. O populismo não é uma boa companhia, nessa hora.
Vamos aguardar o pronunciamento do Governador. Ainda hoje?
Antonio Samarone.

domingo, 24 de maio de 2020

INCERTEZAS SOBRE A PANDEMIA EM SERGIPE



Incertezas sobre a Pandemia em Sergipe.
(por Antonio Samarone)
“Cantem, deusas, a cólera de Aquiles...”
Em Sergipe a Pandemia cumpre a sua história natural. Livremente! As medidas de prevenção são quase espontâneas. A ação governamental é simbólica: decretos, marketing, avisos, ameaças, muita conversa fiada, e pouca ação. Quase nenhuma ação!
Amanhã é um dia de incertezas. As autoridades tomarão novas decisões sobre o combate a Pandemia. Tem sido assim, a cada oito dias ocorrem mudanças. As coisas andam a base do improviso.
Amanhã pode ocorrer de tudo, inclusive nada!
Não existe um planejamento para a saída da crise sanitária em Sergipe. A Prefeitura de Aracaju publicou um documento com muitos gráficos, muitas cores e poucas ideias. Uma proposta com regras genéricas.
A Pandemia não sossega por aqui. Corre solta. Sergipe chegou a 5.131 casos notificados, uma incidência de 223,21 casos por cem mil habitantes, e 86 óbitos. Sergipe possui o menor isolamento social do Brasil.
Sergipe caminha no escuro!
Antonio Samarone.

CUNHÃO RENDIDO


Cunhão Rendido. (por Antonio Samarone)
A incidência das hérnias inguinocrurais em Itabaiana era assombrosa. Quase a metade dos homens, a partir dos 40 anos, tinha o cunhão rendido. Não sei as causas. Hoje a incidência não passa de 5%.
No começo da noite, os homens se sentavam nas portas das casas, com as pernas abertas e estiradas. Calças folgadas e cuecões de algodãozinho, feitos em casa. Era a forma de aliviar o incomodo da quebradura e correr uma fresca nos culhões.  
O Pai de Zé Pindoba, meu vizinho no Beco Novo, era portador de uma antiga hérnia inguinal ou quebradura, um rendido da virilha. Usava uma funda, espécie de cinta de couro na virilha, para evitar que intestino delgado saísse pela abertura da hérnia.
O mal assombrado ficava meio defeituoso, nem podia pegar peso, nem fazer esforço. Mané Lombriga teve que abandonar a profissão de carroceiro, por causa de um cunhão rendido.
As tentativas de cirurgia eram infrutíferas, oitenta por cento recidivava. Quando a hérnia estrangulava, Dr. Pedro sabia que não adiantava prescrever calomelano, tintura de arnica ou extrato de ópio, o jeito era o cristão cair na faca, a cirurgia era inevitável. Atualmente se coloca uma prótese e, assunto encerrado.
Antonio Samarone.

AS MULHERES NA MEDICINA


As Mulheres na Medicina.
(por Antonio Samarone)
A primeira médica no Brasil, não era formada em medicina. Madame Durocher - Marie Josephine Mathilde Durocher, nasceu em Paris em 1808. Veio com a família para o Brasil em 1816, com oito anos. Fugindo da volta dos Bourbons ao Trono francês. O avô de Madame Durocher era um Jacobino.
Filha da florista Anne Durocher, que se estabeleceu como comerciante de moda no Rio de Janeiro, na Rua dos Ourives, no centro comercial da cidade.
Madame Durocher se naturalizou brasileira.
Durocher foi casada com comerciante francês Pedro David, com o qual teve dois filhos. Após o assassinato do marido, ela resolveu ser pateira.
Durocher obteve o diploma de Parteira em 1834, após dois anos de estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
No século XIX, o Real Colégio dos Médicos de Londres declarava que cuidar de partos, não era mister dignos de um médico ou de um cirurgião.
Mesmo com todo preconceito, a Parteira Durocher notabilizou-se em sua arte. Escreveu vários trabalhos sobre a obstetrícia: “Considerações sobre a obstetrícia”, “O centeio e a ergotina”, “Do emprego do clorofórmio nos partos fisiológicos” e Ação abortiva do sulfato de quinina”.
Foi a primeira mulher admitida na Academia Nacional de Medicina em 1871, ocupando como membro titular a cadeira 63. Durocher se destacou entre os médicos.
Durocher dominava as técnicas de obstetrícia mais usadas em sua época, cuidava de recém-nascidos, indicava amas-de-leite, tratava de febre amarela, cólera e dava pareceres sobre defloramento. Teve papel importante nas políticas de saúde pública, aprovando e/ou condenando medicamentos.
Durocher usava o fórceps com destreza (o parto á ferros). O fórceps foi um instrumento inventado no século XVII, por Pedro Chamberlain. A cesariana no Brasil do século XIX era usada somente em mães mortas, na esperança de se encontrar o feto vivo.
Madame Durocher atendia a todas as mulheres sem distinção, de escravas a membros da nobreza. Em 1866, foi nomeada parteira da Casa Imperial. Atendeu a Imperatriz Tereza Cristina no parto da Princesa Leopoldina, filha de D. Pedro II.
Em 60 anos de profissão, realizou mais de cinco mil partos.
A madame Durocher vestia-se sempre de preto, saia, casaca, gravata borboleta e uma pequena cartola afunilada. Andava sempre de tílburi.
Madame Durocher faleceu na noite do Natal de 1893, no Rio de Janeiro.
Antonio Samarone.