segunda-feira, 18 de março de 2019

SOCIEDADE DO CANSAÇO



Sociedade do Cansaço... (por Antônio Samarone)

Rosa Emília nunca descansou. Nunca tirou férias. Médica, está completando 30 anos de formada, e nunca faltou a um plantão. Vive para o trabalho. Solteira, teve dois filhos de experiencias fortuitas. Rosa Emília nunca amou nem odiou ninguém. Os filhos cresceram e foram embora, moram lá para São Paulo.

Rosa Emília foi órfã logo cedo. Viveu parte da infância num orfanato, que ela não gosta nem de lembrar. Passou no vestibular de medicina de primeira, sem cota, só no esforço pessoal. Perdeu (ou ganhou) a juventude estudando. Depois, na faculdade, foi morar com uma tia, no Santos Dumont. Essa tia já morreu.

Rosa Emília nunca questionou muito, viciou em antidepressivos, e ia resolvendo o tédio com as drogas da psiquiatria. Nunca comentou nem com os filhos, que tomava tarja preta. Engordou, aumentou a glicemia, e passou a usar regularmente remédios para diabetes e pressão. Tinha crises de enxaquecas frequentes, e dores lombares. Para cada queixa um medicamento.

Como tudo tem o seu dia, o mês passado encontrei Rosa Emília numa agência de turismo. Depois dos salamaleques de praxe, perguntei: E aí, doutora, tá perdida? Ela riu. Que nada, fechei um pacote de viagem, vou passar 30 dias no Velho Mundo.

Cansei, disse ela, quero viver, tá na hora... Fiquei satisfeito. E mais, vou e volto de primeira classe. Vai só? Ela disse que nada, arrumei um namorado, Pastor, aposentado da Petrobras, um velho em boas condições de uso. E deu uma gargalhada.

Ontem encontrei com Rosa Emília no Parque da Sementeira. Fui logo ao assunto principal, e a viagem, vai quando? “Ela mudou o semblante, você não soube?” Não! “Fui fazer um Check Up de rotina, e os exames apontaram sombras no pulmão. Fiz a biópsia e, imagine, câncer. Estou indo amanhã me tratar em Porto Alegre. Já devolvi o pacote de viagem. Ainda bem que eles aceitaram.”

“Graças a Deus que tenho o Bradesco Plus, um plano de saúde que cobre tudo. Apartamento, médico, acompanhante, todos os exames, e se precisar da UTI, não terei dificuldade, sem limites. Eu passei a vida trabalhando no SUS e sei o que é. O meu plano ainda cobre todas as despesas com o funeral. Uma maravilha! Não quero é dar trabalho aos filhos...”

Estou até agora matutando.

Antônio Samarone.

domingo, 17 de março de 2019

AS CARRETAS DAS SOMBRAS.




As carretas das sombras. (por Antônio Samarone)

Tive uma longa conversa com o Dr. Carlos Salustiano, o Dr. Salu, oncologista de bata longa, um estudioso da medicina. O Dr. Salu está inconformado com essa enxurrada de mamografias a que estão submetendo as mulheres sergipanas, com o discurso de se fazer um rastreamento em massas, para identificação precoce do câncer de mama. “É mentira!” Afirmou com convicção o Dr. Salu.

Continuei a conversa com o Dr. Salu: “essa carreta de Barretos, desde que chegou a Lagarto fez 11 mil exames e identificou apenas 38 casos de câncer, dos 470 previstos para Sergipe esse ano.” Eu retruquei, e não foi bom? “Bom nada! Esses 38 casos se forem de tumores avançados, enraizados, nada muda nem no prognóstico nem na sobre vida; se forem tumores iniciais, trinta por cento podem ser indolentes, que não iriam evoluir. Ou seja, vai se iniciar um tratamento cruento de um tumor, sem necessidade. Resumindo, essa farra das carretas não é um programa de saúde pública.’

Você está me dizendo que essas carretas são semelhantes ao programa de prevenção de câncer de colo de útero que a Senadora Maria do Carmo fazia? “Não, muito pior. O rastreamento de câncer de colo, fazia sentido, pois 95% dos canceres de colo são causados pelo papiloma vírus, o HPV, e se as lesões forem identificadas precocemente podem ser retiradas, evitando o câncer. Houve recentemente uma campanha de vacinação do HPV, para prevenir o câncer de colo de útero.”

“O que Sergipe está precisando são de Unidades de Tratamento. Isso sim, se encontra profundamente defasado, enfatizou o Dr. Salu. A redução da mortalidade por câncer de mama está mais relacionada com os avanços no tratamento. Esse rastreamento indiscriminado, em massas, no caso do câncer de mama, obedece mais a interesses políticos e econômicos do que aos da Saúde Pública.” Eu senti que Dr. Salu sabia do que estava falando!

“Se Henrique Prata quiser ajudar, venha ajudar no funcionamento dos hospitais, enfatizou o Dr. Salu. Eu soube que ele vendeu duas carretas ao estado. Além daquela carreta da confusão, que ninguém sabe quem comprou, nem quanto custou; além da carreta dos homens; teremos mais duas. O serviço de saúde em Sergipe passará a ser móvel.” O Dr. Salu foi duro: “isso são carretas de ilusões, carretas de fumaça, para embaçar as vistas do povo.”

E concluiu o colega oncologista: “o rastreamento em massa de câncer de mama não reduz a taxa de mortalidade; não limita o aparecimento e nem aumenta a sobrevida dos casos graves; sem falar, que 15% dos tumores de mama graves aparecem nos intervalos das mamografias.”

Pelo jeito as mamografias são inúteis, perguntei ao Dr. Salu. “Não, eu não disse isso. As mamografias podem ajudar no diagnóstico sob indicação médica; e serem usadas em rastreamentos específicos, localizados, em mulheres entre 50 e 69 anos, em especial quando existem casos de câncer de mama na família. O que reafirmo é que, como rastreamento de massas, feitos a torto e a direito, de esquina em esquina, sem critérios, traz mais malefícios que benefícios para as mulheres.” Assim falou o Dr. Salu!

Antônio Samarone.

quarta-feira, 13 de março de 2019

SANTO, PAPA E MÉDICOS.


Santo, Papa e Médicos. (por Antônio Samarone).

A medicina no Brasil colônia é uma continuidade da medicina portuguesa.

A faculdade de medicina nasceu em Portugal no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. A maioria dos professores eram eclesiásticos, médicos de batina. Os dois professores mais famosos foram o Frei Gil de Santarém e Pedro Julião. Um foi canonizado e virou Santo e o outro tornou-se Papa. Isso mesmo, um Papa médico.

O Frei Gil faleceu em 14 de maio de 1265, em Santarém, e chamava-se Gil Rodrigues de Valadares. É conhecido como o “Fausto” português, por ter feito um pacto com o Diabo. Entregou-se as ciências ocultas (magia), ficou famoso como médico, com as virtudes de um taumaturgo. Conta-se que ele realizou curas milagrosas. Tornou-se “Santo”, primeiro pela “voz do povo” e depois pela Igreja (foi canonizado em 1749).

Pedro Julião (Petrus Lusitanus ou Petrus Hispanos), nasceu em Lisboa em 1216, estudou em Paris. Além de médico, era filosofo, filólogo e teólogo. Um grande erudito. Tornou-se o Papa Joao XXI. A obra médica do Papa intitula-se “Thesaurus pauperum” – um formulário terapêutico com conselhos de higiene, adotada por séculos na faculdade de medicina de Coimbra. Foi o fundador da cadeira de obstetrícia na faculdade de Montpellier. A importância de Pedro Julião pode ser medida por ter sido citado na Divina Comédia de Dante, e ter sido encontrado no Paraíso.

Com o surgimento das Universidades, a Igreja passou a proibir que os padres exercessem a medicina. O Concílio de Tour (1163), já havia proibido o exercício da cirurgia. “Ecclesia abhorret a sanguine”. A proibição era extensiva a prática da anatomia em cadáveres humanos. Em 1290, quando Dom Dinis, criou a Universidade Portuguesa, o clero já estava afastado do exercício da medicina.

Somente no final do século XV, o Papa Sixto IV, através de uma bula, autorizou o estudo de anatomia sobre o cadáver. Mesmo assim, é exagero afirmar que a igreja dificultou a anatomia, pois essa proibição não era obedecida, em muitas faculdades de medicina.

No final do século XV, nasceu em Portugal outro destaque da medicina, Garcia da Orta. Em 1534 ele embarcou para Índia. Em 1563, Garcia da Orta publicou uma das obras mais importantes da medicina e da botânica, do século XVI: “Colloquios dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia”, prefaciado por Camões. A obra polemiza com a tradição hipocrática. Uma leitura esclarecedora.

Finalmente, em 1511, nasceu em Portugal, João Rodrigues de Castelo Branco (Amato Lusitano), um dos mais destacados médicos da história de Portugal. Formou-se em Salamanca. Judeu, amigo de Erasmo de Roterdã, rodou o mundo. Foi o primeiro a divulgar a ação terapêutica de muitos vegetais nativos do Brasil. Várias obras publicadas.

Em 1549, com Tomé de Souza, chegou oficialmente ao Brasil o seu primeiro médico, Jorge Valadares. Claro, na esquadra de Cabral estava o Mestre João, que além de cosmógrafo, era físico e cirurgião. Caminha em sua carta, relatou a higidez dos tupiniquins, todos rijos e nédios; e Américo Vespúcio aprofundou: “Pelo que pude deduzir de suas narrações, não há pestes nem doenças provenientes da corrupção do ar e se não morrem de morte violenta, vivem larga vida...”

Antônio Samarone.

SÓ OS MACHOS CANTAM...



Só os machos cantam... (por Antonio Samarone)
O canto das cigarras era o fundo musical da quaresma. Por onde andam as cigarras? Nunca mais... Ontem eu recebi de uma amiga, fotos de uma cigarra papocando pelas costas, e emergindo como uma cigarra nova. Elas não morrem de tanto cantar, como se dizia, elas renascem.
As cigarras voltaram, reapareceram aqui em Aracaju.
Nunca entendi de onde elas vinham, apareciam de repente, e danavam-se a cantar a quaresma inteira. Consultei uma bióloga, e recebi uma síntese:
“As cigarras têm ciclo de vida hemimetábolos (ovo, ninfa e depois adulto). Ela pode chegar a ficar até 17 anos na forma de ninfa no subsolo se alimentando de nutrientes presentes das raízes das plantas. Quando ganha o exoesqueleto ela sai do subsolo e se fixa numa árvore. Perde o exoesqueleto antigo (exúvia), e emerge adulta, já pronta pra se reproduzir. Depois que põe o ovo a fêmea morre.”
Nunca que eu soubesse...
Fui alfabetizado pela “Cartilha do Povo”. E uma das poucas histórias que eu guardei foi a disputa entre a cigarra e a formiga. A moral da história era favorável a formiga, que optava pelo trabalho. A cartilha emulava o trabalho. Depois Raul Seixas inverteu, numa canção belíssima: “a formiga só trabalha porque não sabe cantar”. Acho que faz mais sentido.
Entre as cigarras só os machos cantam. Não me perguntem porquê...
O canto das cigarras provoca sono. O canto que Anacreonte achava melodioso, e Homero comparou a doçura dos lírios era o da cigarra. Acho que Homero exagerou. Ou as cigarras gregas são mais afinadas.
Na quaresma, as cigarras eram um divertimento da molecada perversa. Trepávamos em árvores para a captura, apertávamos nos lados, embaixo das asas, para que eles não parassem de cantar. O abestalhado que mantivesse a cigarra cantando por mais tempo era o vencedor. Talvez por isso que elas desapareceram.
Antonio Samarone.

segunda-feira, 11 de março de 2019

O SONHO DE AUGUSTO LEITE PODE RENASCER.


O sonho de Augusto Leite pode renascer... (por Antônio Samarone).

A medicina moderna em Sergipe nasceu com o Hospital de Cirurgia. A chamada medicina científica, filha de Andreas Vesalius, Marie François Xavier Bichat, Rudolf Virchow, Joseph Lister, Robert Koch, Louis Pasteur e Paul Ehrlich chegou à Sergipe pelas mãos de Augusto Leite. O Hospital de Cirurgia foi o seu Templo.

Aí nasceu a Faculdade de Medicina.

O povo pobre de Sergipe teve uma boa assistência hospitalar por mais de cinquenta anos. Depois o Hospital de Cirurgia desandou. O Hospital de Cirurgia caiu em mãos ambiciosas, de politiqueiros, mercadores, negociantes da medicina. O hospital foi saqueado, quase acaba!

Por último, a justiça resolveu intervir, creio que parou a sangria... Mas o mal estava feito. O hospital é um mercado persa, uma federação de empresas. A filantropia e a velha misericórdia jazem há tempos. A boa medicina, centrada no humanismo, respira com dificuldade.

Quando tudo parecia sem jeito, sem alternativas. A providência acendeu uma luz: fui informado, por fonte segura, que Henrique Prata, organizador do Hospital do Câncer de Barretos, pode assumir o Hospital de Cirurgia.

Henrique Prata, tem sangue sergipano, e não precisa demonstrar a sua competência. O Hospital do Câncer de Barretos é o melhor Brasil, e só atende SUS. Podemos resolver o mais grave problema da assistência médica em Sergipe: a forma desumana como os pacientes com câncer é tratada.

Espero que não botem dificuldades. O Cirurgia não se resolve com reformas. O câncer lá é avançado. As metástases estão generalizadas. O Cirurgia é um paciente respirando por aparelhos. Jeitinho não resolve! O Hospital de Cirurgia necessita de uma faxina completa, um banho de sal grosso. Recomeçar tudo de novo! Expulsar os vendilhões do Templo!

Que renasçam os espíritos de Augusto Leite, João Garcez, Benjamim Carvalho, Nestor Piva, Juliano Simões, Carlos Melo, Lauro Porto, que voltem as Irmãs de Misericórdia, que o Hospital de Cirurgia volte a atender o povo.

O Hospital de Cirurgia pode ressuscitar.

Antônio Samarone. 

domingo, 10 de março de 2019

MANÉ BARRACA



Mané Barraca... (por Antônio Samarone)

A consciência civilizada tenta afastar-se dos instintos básicos, mas nem por isso eles desaparecem. Seu Manoel Barraca conhecia a alma humana, conhecia as suas fragilidades. Não era um conhecimento filosófico, nem teológico, nem profético. Era um conhecimento atávico, ancestral. A alma de seu Manoel percorreu continentes, atravessou os mares em navios negreiros, sofreu sob a chibata do senhor de engenho. Uma alma de mil anos.

Manuel Fiel Santos, Mané Barraca, era um rezador afamado, respeitado, e com grande clientela em Itabaiana. Nunca viveu de rezas. No cotidiano, batia barro para fazer panelas. Literalmente, vivia de vender artefatos de barro nas feiras, produzidos artesanalmente. Sua residência, no Cruzeiro, era cercada de mistério.  

Seu Manoel Barraca era de família enraizada na cidade, irmão de Euclides Barraca e João Barraca. Euclides era guarda-noturno e zelador do cinema de Zeca Mesquita, pai de Val, Regis e Aroaldo, e de um monte de moças bonitas (Maizé, Maié e Ná) que enfeitavam o Beco Novo. João Barraca, sapateiro, comunista, pai dos craques do Itabaiana, Cosme e Damião. Por onde anda essa gente?

O Cruzeiro ou Avenida ou Bairro São Cristóvão, era uma comunidade de paneleiros, uns poucos sapateiros, quase todos negros. No fundo das casas tinhas pequenos fornos de queimar panelas. Também era o celeiro de jogadores de futebol. Lá ficavam os campos do Itabaiana, do Cantagalo e o de Seu Mané Barraca.

Seu Manuel Barraca era dono de um time de futebol juvenil e, aos domingos pela manhã, à frente de sua casa ficava lotada de meninos pobres, que sonhavam em ser jogador de futebol. No campinho, que levava o seu nome, disputávamos verdadeiros clássicos, dignos de uma final de Copa do Mundo. Eu participei desse sonho.

Seu Manuel era herdeiro da arte dos pajés. Rezava para íngua, rendidura, malina, engasgamento por espinha de peixe, unheiro, cobreiro, azia, erisipela, ataque de bichas, carne quebrada, nervo torto, verruga, fogo selvagem, olhado, quebranto, espinhela caída, impinge, sapinho, calor de figo, mal de sete dias, espinho e mordedura de cobra e cama de sapo.

Para curar azia, repetia três vezes: “Santa Sofia tinha três fia/uma cosia, outra bordava/e a outra curava o mal da azia.” Seu Manuel era especialista em rezar para bicheira de animal. Se dizia que Seu Manuel possuía o livro de São Cipriano, coisa que eu nunca vi.

Todo dia treze de dezembro, Seu Manuel descia a Rua do Beco Novo, com uma imagem de Santa Luzia num quadro, coberta de fitas, de porta em porta, pedindo uma esmola para a Santa. Muito ou pouco, ninguém deixava de contribuir. Todos queriam a proteção da Santa Luzia para as suas vistas. Com os olhos não se brinca. Fui a uma procissão de Santa Luzia, na Barra dos Coqueiros, lá encontrei um sobrinho de Seu Manuel, que saiu de Itabaiana só para acompanhar a procissão. Continua devoto!

Seu Manuel sabia que a vida era uma batalha entre o nascimento e a morte, o bem e o mal, a alegria e o sofrimento. Ele conhecia a sombra da alma humana, a franja possuída pelo demônio. Ouvi pela primeira vez da sua boca, os versos mais bonitos da MPB: “O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/Do mal será queimada a semente/O amor será eterno novamente... É o Juízo Final/A história do Bem e do Mal/Quero ter olhos pra ver/A maldade desaparecer.”

Antônio Samarone.

sexta-feira, 8 de março de 2019

O CIRCO DE ZÉ BEZERRA.



O Talento de Zé Bezerra (foto). (por Antônio Samarone).

Hoje tem espetáculo, perguntava o palhaço... Tem sim senhor, respondia a molecada que ia atrás, no meio da rua... Cansei de correr atrás do palhaço, para ser marcado com uma tinta, e poder entrar de graça no grande circo. Era o Circo de Zé Bezerra.

Após o terceiro sinal, entrava uma voz grave: o Circo e Teatro José Bezerra, o palácio de lona verde, anuncia e apresenta... (e entreva um fundo musical). Esse era um sonho para a minha geração. O único espetáculo que conhecíamos era o circo. E o Circo de Zé Bezerra era espacial.

Zé Bezerra, filho de Tibério Bezerra e Antonieta Bezerra (Antonieta da Pensão), casado com Dona Lourdes, filha de João Giba. Gente de Itabaiana. Não tenho como provar, mas se sabe que Zé Bezerra foi aluno de Procópio Ferreira. Zé Bezerra era um grande artista: ator, cantor, mágico e palhaço (Biriba). Como palhaço, ele contracenava com Brocoió e Tita.

O dia de maior suspense, a cidade parava, o circo revestia-se de negro, era quando o mágico José Bezerra colocava a sua mulher no espaço. Isso mesmo, solta, podia-as passar um aro em torno da mulher, como prova que não existia nenhum fio invisível. Se dizia que Zé Bezerra hipnotizava a plateia. Eu cheguei a ir com o bolso cheio de limão, pois acreditava que chupando limão quebrava o encanto, e só assim eu poderia saber a artimanha do artista. Por causa do risco, a mulher que ele colocava no espaço era Dona Lourdes, a própria esposa.

Além de circo, com palco e picadeiro, era também teatro. Cada dia com uma peça diferente. A louca do Jardim era casa cheia. A peça era uma adaptação para o teatro de um cordel, que começava em versos: “vinde musa mensageira, do reino de Eloim/Traz a pena de Apolo e escreva aqui por mim/o assassino da honra ou a louca do jardim.”

Instalado num alçapão no centro do palco do circo ficava o “Ponto”, profissional do teatro responsável por “assoprar”, em voz baixa, as falas que deviam ser repetidas, em voz alta, pelos atores. Eu conheci o teatro no Circo de Zé Bezerra, e fiquei com boa impressão.

A grandeza do Circo era Zé Bezerra e a família. A morena Iracema (filha), melhor rumbeira do Brasil. Era o segundo ato do espetáculo. Iracema com um pequeno saiote, rebolando as cadeiras, quando levantava um babado e podia-se ver a caçoula da dançarina, quase um short para os padrões de hoje, aquilo levava a patuleia ao delírio. Tudo beirava a inocência, comparando-se com as atuais dança da Rede Globo.

Iracema era casada com Vivaldo, músico do circo. Em Itabaiana, todos desconfiavam de Vivaldo. Só podia... Eita tempos atrasados. Circulando o poleiro do circo, passava um menino vendendo um “binoculo de foto”, gritando: o retrato de mãe, o retrato de mãe; era o retrato de Iracema, e não dava para quem queria.

O outro filho de Zé Bezerra, Iranildo, era o malabarista. Lourdes, a esposa, atriz nas peças encenadas. Tinha mais um filho, o mais novo, que eu não lembro o nome. O Circo de Zé Bezerra quando chegava numa cidade, pelo povo, não sairia mais. Não esqueci de Antonieta, uma portuguesa que cantava com sotaque lusitano. Uma velhinha saliente. Sempre a casa cheia. Em Aracaju, o Circo de Zé Bezerra armava perto da Rodoviária Velha, e a temporada durava mais de três meses.  

Dona Breguedela, dona do rendez-vous de Itabaiana, deixava o espetáculo começar, apagarem-se as luzes, para ela entrar com as suas meninas. Só iam para as cadeiras. A discrição de Dona Breguedela no circo chamava a atenção. Pois, até mulher-dama se dava ao respeito. Elas também acompanhavam a procissão de Santo Antônio. Era tradição.

O circo acabou, faz tempo. Zé Bezerra foi assassinado em Queimadas, na Bahia. O seu corpo foi sepultado numa cova rasa. Sergipe, e Itabaiana em especial, não pode apagar da memória histórica esse grande artista. Tá na hora das autoridades procurarem a família, para transladar o corpo de Zé Bezerra para um cemitério em Itabaiana, e no local, erigir um monumento em sua homenagem. Enquanto ele não caia no completo esquecimento.

Antônio Samarone.