sexta-feira, 23 de outubro de 2020

QUE FIM LEVARAM OS BATRÁQUIOS?


Que fim levaram os Batráquios?
(por Antonio Samarone)

Ontem à noite, apareceu aqui em meu condomínio o velho Sapo-Cururu (esse da foto). Nunca mais! Tão presente em minha infância. Tinha desaparecido, por onde andavas? Isso mesmo, o Rhinella marina, uma espécie oriunda da América Central, naturalizada Itabaianense!

Os Cururus (nome Tupi), já foram chamados pela zoologia de Bufo marinus, foi assim que aprendi no ginásio. Não sei por que mudaram. Eu gostava mais de Bufo, uma homenagem aos Bufões, ao Bobo da Corte.

No primeiro ano de medicina, participei da inauguração do biotério da UFS. Na verdade, só tinha sapos, ratos e cobaias. O Reitor, Aloiso Campos, perguntou ao funcionário responsável pelo Biotério: o que é que esses sapos comem?

O velho Bigode, um funcionário antigo da UFS, perto de se aposentar, tomou um susto com a pergunta. E respondeu sem pensar: “sol, luar e sereno da madrugada”.

Seu Bigode nunca tinha imaginado que precisasse dar comida aos sapos. A partir desse dia, o orçamento da Universidade incorporou mais um item de despesa.

Pensei em me apropriar do Cururu do condomínio, botá-lo em meu jardim para cria-lo. Já tenho cão e gatos, porque não um sapo de estimação. Resisti ao impulso e o sapo ficou lá, aproveitando a iluminação do poste, que atraia os insetos.

Me acordei pela madrugada para saber se ele ainda estava em minha porta. Nada! O bicho sumiu. Não imagino onde fique a residência da sua família. Onde um animal desse porte se esconde dos humanos?

Diriam os mais simplistas: ora, os sapos moram nas lagoas. Mas aqui não tem lagoas. É Praia. E até onde eu sei, sapos não gostam de água salgada. Seja lá onde for, espero que esteja protegido dos humanos.

Apesar do relevante serviço prestado a Saúde Pública (sapo come mosquitos), os sapos não gozavam de simpatia em Itabaiana. Metiam medo. Eram vítimas de perversidades, num tempo que a consciência ecológica era mais embrutecida.

Eu nunca tive medo de sapos. Não os pegava por achá-los frios e acreditar que eles possuíam um veneno que poderia cegar-me. Entretanto, nunca pisei em “cama de sapo”, onde se contrai uma frieira agressiva, daquelas que se coça até tirar sangue.

"Não se pisa nem em cama de sapo nem em espinha de cobra (essa aleija)." Um ensinamento que aprendi com o meu avô.

Eu sempre gostei dos sapos, do seu canto repetitivo: “Quando eu morrer, meu cabedal prá quem fica? E a família batráquia respondia em coro: “prá eu, prá eu, prá eu”. Foi assim que mamãe me ensinou, numa fantasia bucólica, de quem vivia com o pé na roça.

O gênio Jackson do Pandeiro cantou: “É assim que o sapo canta na lagoa, uma toada improvisada em dez pés. Tião - Oi! Foste? Fui! Compraste? Comprei! Pagaste? Paguei! Me diz quanto foi? Foi quinhentos réis.”

Eu não separava as espécies, rãs, jias, caçotes era tudo sapo. Os girinos já eram sapinhos.

As margens do Tanquinho eram lotadas de caçote do papo amarelo. Tudo parecido com jias. Nunca entendi por que não se comia caçote, se jias é uma guloseima apreciada. Em Itabaiana tinha gente que exportava carne de jia. Não me pergunte para onde, que eu não sei.

Eu lembro-me de um churrasco de jias, no sítio de Lito de Pedro Funileiro, no povoado Mangabeira. Tem a fama de ser uma carne tenra, um frango refinado. Ou as jias foram extintas (como os sapos em Aracaju), ou comer jias virou crime ambiental. Não sei!

Onde funciona a Sociedade Sergipana Protetora das Jias?

Em Itabaiana existiam criatórios de jias. Todas na engorda, como guaiamum!

As rãs são mais expertas, convivem bem no meio urbano.

A quarentena teve um lado bom, trouxe os sapos de volta. Seja bem-vindo velho Cururu, estava com saudades. Agora vai ser fácil a sua janta, os atuais mosquitos não lhe conhecem, lhe acham um predador lento. Não sabem os artrópodes o poder da sua longa língua, extensa e ágil.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)


 

LAVAR AS MÃOS


Lavar as mãos.
(por Antonio Samarone)

O gesto de Pontius Pilatus na condenação de Cristo, tornou um comportamento simples uma marca da humanidade.

Biblicamente, lavar as mãos significa indiferença, não envolvimento, sair de cena. “Estou inocente desse sangue, eu lavo as minhas mãos.”

Nas missas, os padres lavam simbolicamente as mãos antes do contato com o Corpo de Cristo. “Na inocência lavo as minhas mãos para rodear o vosso altar” - Salmo 26, 6

A mortalidade materna era o terror das mulheres. A contaminação durante o parto, pelas mãos dos médicos e- parteiras, causava a febre puerperal, principal causa de morte.

Ignaz Semmelweis (1847), um médico húngaro (foto), demonstrou que lavar as mãos poderia reduzir drasticamente o número de mulheres que morriam após o parto. Quando os médicos e parteiras se convenceram, a mortalidade materna foi reduzida.

Lavar as mãos ressurgiu como uma medida salvadora na atual Pandemia. O gesto precisou ser ensinado. Os que aprenderam, estão tendo um grande benefício.

Lavar as mãos antes das refeições era ensinado nas escolas do meu tempo. Já minha mãe obrigava que lavássemos os pés antes de dormir, não por razões higiênicas, mas para não sujar a rede e os lençóis, que ela lavava.

Lavar as mãos não limpa a consciência, mas “mãos limpas” continua uma metáfora de honestidade.

As mãos postas é um sinal de adoração. A mão estendida é um gesto fascista e a mão fechada (o punho) um gesto de protesto.

As mãos sobre a cabeça é um ritual de cura e de remissão dos pecados. “Dar a mão” é apoio, proteção. Nesses casos, tanto faz as mãos limpas ou sujas.

Nunca coloque a mão no fogo!

Uma mão lava a outra é o tome lá dá cá. Apertar as mãos é o acordo. O mão aberta é um esbanjador e o mão fechada um somítico.

Uma mão de milho são cinquenta e duas espigas. A medida da mão é o palmo.

O destino de cada um está traçado em suas mãos, que podiam ser lidas pelas ciganas. Que fim levaram as ciganas, com as suas roupas estampadas e longas, que passavam por Itabaiana em minha infância?

Ego manibus lavabit...

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

A GAMELA PROFUNDA


A Gamela Profunda.
(por Antonio Samarone)

Quando cheguei à Aracaju, na década de 1970, me enturmei com os alternativos da Atalaia Nova. Gente que lutava por liberdade, cada um a seu modo. Hippies, anarquistas, Hare Krishnas, stalinistas, porras-loucas, bichos-grilos, trotskistas e intelectuais rebeldes.

A Atalaia Nova, guardando as proporções, foi a nossa Arembepe, com os limites da caretice sergipana. Nas férias escolares, se tornava uma Aldeia livre, de baixo custo. Uma fauna completa.

Frequentar a Atalaia Nova era uma senha para ser bem recebido entre os jovens pensantes daquele tempo.

Entre os intelectuais rebeldes, o mestre Alan se destacava pelo radicalismo e erudição. Branco, cabeludo, tirado a bonito, músico, barbicha no queixo, ateu, tiracolo de couro cru, o único que falava do comunismo com autoridade. Tinha lido Marx e Lenin.

Alan cultuava um portentoso cachimbo de jacarandá equatoriano e só usava fumos tipo exportação. Espalhava as baforadas nas ventas das meninas, no boteco de Seu Mauro, um nativo, que fazia a melhor farofa de peixe da Ilha.

Alan era o único que tinha lido Krupskaia, e pregava o feminismo russo para as incrédulas. Ele mesmo, um sertanejo das bandas da Borda da Mata, machista até a raiz dos cabelos, mas fazia sucesso com o seu discurso libertário.

Eu, tabaréu recém chegado, me impressionava com a sabedoria do mestre Alan do Cachimbo.

Os ateus de Itabaiana eram quase todos camuflados, sempre com um pé atrás. Alam era um ateu declarado. Um rebelde que não temia nem os castigos de Deus!

Com o relaxamento da quarentena, deu-me saudade do velho Guru. Por onde anda Alan, o amante da liberdade? Para minha surpresa, o mestre Alan cumpre um confinamento monástico. Não põe a cabeça de fora, com exagerado medo da Peste.

Alan, o velho marxista, trocou a liberdade pela segurança. Ganhou uma Gamela de mulungu, com dois metros de comprimento e um e meio de fundura. Mandou buscar as ervas do Nepal, o puro incenso indiano, entregando-se a uma meditação tibetana, transformando a gamela num ofurô budista.

Uma ironia da história, os atuais confinados pertencem à geração Baby Boomers, protagonista de maio de 68, dos grandes festivais de música, da liberdade sexual e da revolução cultural.

Gente despreocupada, até a chegada da pandemia. Tudo agora está organizado em torno de seu cuidado e isolamento.

Em um mundo incerto de perigos crescentes, a liberdade não é mais buscada, mas sim a segurança, e não precisamente pelo poder, mas pela reclusão, prudência e tecnologia.

Os confinados sonham com uma vacina salvadora.

Em um mundo tumultuado, a vacina que nunca foi consenso, também enfrenta resistências ideológicas. Só que dessa vez, a resistência vem pela direita.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

FOI UM SONHO, MINHA GENTE.


Foi um Sonho, Minha Gente...
(por Antonio Samarone)

Etelvina! - Acertei no milhar/Ganhei 500 contos/Não vou mais trabalhar...

Sonho, devaneio, delírio, miragem, viagens, onirismo, frenesi, visagem, assombração, pesadelo, quimera, ilusão, utopia, sombra, faz de conta, visão, imaginação, quixotismo, fantasia, espectro irrealizável são variáveis que expressam símbolos alojados nas profundezas da consciência humana.

Eu continuo acreditando: “A interpretação dos sonhos é a estrada principal para se chegar à alma”, disse Freud. Ninguém foi tão fundo na psique humana!

O Egito antigo atribuía ao sonho um valor premonitório. “Deus criou os sonhos para indicar o caminho aos homens, quando esses não podem ver o futuro.” São os sonhos que conferem a qualidade de Xamã.

Os tipos de sonhos são inumeráveis: os sonhos proféticos, telepáticos, iniciatórios, dos Xamãs, visionário e os mitológicos.

O sonho acordado, durante a vigília, é muito poderoso. Quando o sonho se apodera da alma vira obsessão; quando entra em simbiose com a consciência torna-se uma força criadora de várias obras.

As máscaras do teatro, do carnaval e funerária são sonhos.

O fim do sonho é o início das demências. Não é a perda da memória, isso vem depois. Não existe vida cognitiva sem sonhos. O fim do sonho é o fim da esperança. É o inferno de Dante Alighieri: “Vós que entrais, abandonai toda a esperança”, é o que está escrito na Porta do Inferno.

Parodiando o pensamento cristão: só o sonho salva! A fé é o sonho sagrado com o Paraíso. O sagrado é um elemento na estrutura da consciência. A existência ou não de paraísos é irrelevante. O fundamental é a existência virtual, para os que sonham.

O envelhecimento é um caminho apressado para o Dilúvio. Só o sonho nos salva do soar das trombetas.

O sonho é a base do autoengano, o lado real da autoestima.

O sonho estabelece no psiquismo um equilíbrio compensador. Os sonhos falam a linguagem dos símbolos.

A razão como fonte de significados sobre a vida naufragou, acentuou a fragilidade da condição humana. Entretanto, a razão alimentou a ciência positiva, como o futuro da humanidade.

É uma contradição aparente? A vitória da razão será a derrota do homem?

A razão ganhou vida própria, autonomia, tornou-se inteligência artificial. Caminha para prescindir do homem. Por enquanto a razão não admite, por motivos táticos, ainda é cedo. O verdadeiro humanismo não precisará dos homens.

Os aldeões do pé da Serra de Itabaiana, repetem um carma milenar: “a esperteza sempre cresce e come o dono.” Só agora eu estou entendendo.

O que restar de humano, pastará na irracionalidade dos sonhos. Isso não é ficção, só não vê quem não quer!

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O NOBEL DE MEDICINA E A PANDEMIA.


O Nobel de Medicina e a Pandemia.
(por Antonio Samarone)

O Nobel de medicina em 2020, anunciado ontem, foi para os cientistas Harvey J. Alter, Michael Houghton e Charles M. Rice pela descoberta do vírus da hepatite C.

O prêmio de medicina teve um significado especial neste ano, devido à pandemia de coronavírus, que pôs em evidência a importância da pesquisa médica para a sociedade.

A Organização Mundial da Saúde estima que, por ano, existam cerca de 70 milhões de infecções por hepatite C em todo o mundo.

Embora o alcoolismo e outros fatores também provoquem hepatite, as principais causas de inflamação do fígado são os vírus.

O vírus da hepatite C (HCV) pertence ao gênero Hepacivirus, família Flaviviridae. Sua estrutura genômica é composta por uma fita simples de ácido ribonucleico (RNA). Existem, pelo menos, sete genótipos e 67 subtipos do vírus.

A transmissão do HCV ocorre por meio do contato com sangue contaminado. Compartilhamento de agulhas, seringas, falha de esterilização de equipamentos médicos ou odontológicos, de equipamentos de manicure e de material para realização de tatuagem. Além do uso de sangue contaminado.

A transmissão sexual da hepatite C é esporádica.

A hepatite C aguda apresenta uma evolução subclínica. A maioria dos casos é assintomático, o que dificulta o diagnóstico. Habitualmente, a hepatite C é descoberta em sua fase crônica e, como os sintomas são muitas vezes escassos e inespecíficos, a doença pode evoluir durante décadas sem suspeição clínica.

Aqui mora o perigo!

Na ausência de tratamento, em 20% dos casos, a hepatite C crônica evolui para cirrose ao longo do tempo. Uma vez estabelecido o diagnóstico de cirrose hepática, o risco anual para o surgimento de carcinoma hepatocelular (CHC) é de 1% a 5%.

Estima-se que cerca de 70 milhões de pessoas estejam infectadas pelo vírus da hepatite C em todo o mundo e que cerca de 400 mil por ano vão a óbito devido a complicações dessa doença, principalmente por cirrose e carcinoma hepatocelular.

A evolução silenciosa da hepatite C, sem sintomas, levando a morte por cirrose e câncer de fígado, a longo prazo, é um exemplo que assusta os cientistas que estão estudando o SARS-CoV-2 da atual Pandemia.

A hepatite C possui tratamento eficaz, as dificuldades residem na dificuldade do diagnóstico e nos elevados preços dos medicamentos mais modernos. O SUS oferece esse tratamento.

O novo coronavírus, que parou o mundo em sua forma epidêmica aguda, pode cronificar? A Covid-19 crônica se manifestará de que forma? A imensa maioria das pessoas, que não apresentou sintomas na fase aguda, pode apresentar numa possível forma crônica?

Nada disso se sabe, a Covid-19 é uma doença recém nascida.

Oficialmente notificadas, 35 milhões de pessoas já contraíram a Covid-19 no mundo. Entretanto, a OMS estima que 10% da população, ou seja 700 milhões de pessoas já pegaram a doença. Ou seja, a possibilidade de cronificação põe muita gente em risco.

Outra realidade, mesmo que a doença produza imunidade duradoura, 90% da população continua susceptível. O risco de contrair a Covid-19 permanece elevado.

Os cientistas não podem esconder esses fatos.

O ambiente artificialmente otimista de que a Peste passou, foi uma nuvem passageira, e que a vacina será a bala de prata que vai eliminar o vírus, é mais uma cartada dos negacionistas.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

domingo, 4 de outubro de 2020

O NOVO HUMANISMO DA MEDICINA


O Novo Humanismo Médico.
(por Antonio Samarone)

Perguntei ao professor Valdenberg, um sábio da matemática em Sergipe, qual era o futuro da matemática? Ele de pronto respondeu: a biologia. Eu, além de não entender, fiquei com vergonha de esticar o assunto. Isso faz tempo.

Hoje ficou claro a resposta do professor. A tecnologia de informação, imagens digitais e inteligência artificial tornaram a medicina anátomo patológica de Virchow e Pasteur, uma especulação filosófica.

As descobertas da célula e do microscópio apressaram a queda do paradigma humoral, da medicina Greco/romana, criando a Medicina Clínica do século XX.

O mapeamento do genoma humano (2003), a infinita resolutividade das imagens digitais e a inteligência artificial estão criando a medicina do século XXI.

O paradigma humoral e holístico da medicina hipocrática perdurou por mais de vinte séculos. O paradigma celular durou cem anos. A medicina atual abraçou o paradigma molecular. Por quanto tempo?

A transição será dolorosa.

O que fazer com as Faculdades de Medicina, com currículos do século XIX, inspirados no modelo Flexneriano. E os milhares de médicos crentes em suas casuísticas? E o aparelho médico industrial, produtor de medicamentos, tecnologias e insumos do passado?

A Pandemia apressou o nascimento de uma nova medicina. O Sistema de Saúde Inglês (NHS), o mais avançado do mundo na esfera pública, já incorporou as novas tecnologias, inclusive a tele consulta. A Inglaterra é um bom exemplo!

Dos Presságios aos algoritmos.

A humanização ou desumanização da medicina não é determinada pelo paradigma científico adotado. A desumanização é o resultado da mercantilização, da transformação do cuidado médico em mercadoria. Quem desumanizou a medicina, foi ela ter trocado o paciente (sujeito), pela doença (objeto).

Radicalizando um pouco: não existem doenças, mas pessoas doentes.

A antiga relação médico/paciente, centrada no cuidado das pessoas, era base da medicina artesanal e humanizada. A medicina de mercado, baseada na relação médico/cliente, no consumidor, centrada em procedimentos, com ênfase nas doenças é, ontologicamente, uma medicina desumanizada.

O paradigma científico e as tecnologias utilizadas não são determinantes da desumanização.

A medicina foi desumanizada por imposição da economia. O mercado regula-se pela produtividade e pelo lucro. O cuidado médico em forma de mercadoria é por natureza impessoal, padronizado, independente da tecnologia utilizada.

O fato de a medicina ser humanizada não garante a sua eficácia. A medicina do século XXI deve voltar-se para as pessoas, doentes ou não. É um novo individualismo.

A medicina holística e filosófica do paradigma humoral, fundada na “arte médica”, sarjou, purgou e sangrou por milênios. A única conduta terapêutica eficaz foi a psicoterapia. Egas Moniz recebeu o Prêmio Nobel em medicina (1949), por ter inventando a lobotomia. Isso foi ontem, não foi na Idade Média.

Como velho sanitarista, herdeiro do higienismo de Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, sou obrigado a constatar que o futuro imediato do Sistema Único de Saúde, o nosso mal trado SUS, é a incorporação imediata dessas novas tecnologias.

Essa pauta estará nos debates eleitorais?

Pode surgir um novo humanismo médico. A Pandemia forçou esse parto. Ficou claro que a doença é social, ninguém resolve sozinho. As doenças sociais manifestam-se de forma específica em cada pessoa. Essa é a confusão.

Está nascendo um novo coletivismo sanitário, estranho, pois é centrado nas pessoas. Uma medicina personalizada, preventiva e preditiva, eficaz, conscientizadora, defensora da autonomia dos pacientes.

As novas tecnologias médicas tanto podem fortalecer a medicina de mercado, massificada, padronizada, impessoal, como pode retomar ao humanismo da medicina hipocrática, com a vantagem da eficácia e da personalização.

Que venham as mudanças! O novo humanismo médico precisa ser construído. Não é a volta a um passado romântico. É o futuro!

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A SOLIDÃO DA PESTE


A Solidão da Peste.
(por Antonio Samarone)

Não é bom que o homem esteja só - (Deus, depois de ter criado Adão).

A solidão do isolamento social é sedentária. Aumentou o sobrepeso. Tornou a depressão soberana. As sequelas da Covid-19 somam-se as sequelas do confinamento.

Qual a estratégia da Saúde Pública para o término da quarentena, em segurança?

O prognóstico para o avanço das doenças crônicas é sombrio. Os idosos serão as principais vítimas. A Pandemia não acaba, com a redução da primeira onda.

Para o retorno da economia os governos montaram protocolos, cronogramas e fiscalizações. E para o retorno da vida social, quais são os caminhos?

Observem o exemplo da vida escolar, ninguém se entende. As escolas continuam fechadas em Sergipe. Nenhuma medida prática de readequação foi tomada.

Numa solenidade na SOMESE (não presencial) dos médicos de cabelos brancos, um velho e sábio professor alertou:

“A Peste ressuscitou o humanismo médico. Os mais novos acusados de interesseiros, voltados somente para o lucro, saíram na frente nessa luta contra a Peste. Sujeitos a contaminação e a morte, os Profissionais de Saúde não deixaram ninguém desassistido. Estavam na linha de frente, amenizando os sofrimentos.”

Os padres e pastores se recolheram em orações.

Se eu fosse obrigado a escolher um fato positivo da Pandemia, não tenho dúvidas: o comportamento corajoso e solidário dos Profissionais de Saúde. O Sertão sergipano perdeu dois grandes pediatras. Jovens médicos foram sacrificados. Foram tantos. Espero que a memória deles se eternize. São heróis de um combate anônimo, contra um inimigo impiedoso.

O homem é uma animal social - (Aristóteles).

A Horda, o Clã, a Tribo, a Aldeia, formas indispensáveis para reduzir os perigos da selvagem. As cidades são lugares de encontros. Do Templo ao Mercado.

O solitário é um monstro, um sábio ou uma divindade!

“Não vejo que haja um só estado, uma só posição na vida em que seja possível se abster dos outros homens; diferentes necessidades nos ligam a eles: a primeira a de falar, de dizer o que se sente, o que se pensa.” (Cícero)

O cafezinho de final de tarde e as velhas lorotas estão fazendo falta.

No livro dos mortos do Egito, só o defunto é uma ser solitário: “Só, eu percorro as solidões cósmicas. Um raio de luz emana de todo o meu ser. Sou um ser rodeado de muralhas. Sou um solitário no meio de minha solidão.”

Exigimos uma saída segura do eterno confinamento!

O holismo de Platão é uma nostalgia do coletivismo tribal. O indivíduo é efêmero, só o coletivo possui permanecia e estabilidade. A cidadania é coletiva.

A vida social é um direito! O “Fique em Casa” é mais que uma medida sanitária. É uma estratégia de dominação! Para nos proteger do vírus, abriu-se as portas para infinitas mazelas.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O REENCANTAMENTO DO MUNDO


O Reencantamento do Mundo.
(por Antonio Samarone)

Os ateus convictos, puro-sangue, materialistas, perderam terreno, cederam espaços para os agnósticos, céticos e indiferentes.

O homem, em sua solidão e angústia, desiludido com o humanismo, perdeu a certeza da morte de Deus, tantas vezes proclamada.

Existe uma crise da descrença?

O homem primitivo era ateu ou religioso? Existe incompatibilidade ente a religião e a ciência na explicação do mundo? Essas polêmicas não estão resolvidas.

Para protegermo-nos dos dilúvios e alcançarmos o céu, construímos a Torre. Essa independência foi condenada por Deus, fomos castigados e Babel foi derrotada. Deixamos de falar a mesma língua e houve uma grande desunião entre os homens, que perdura.

O ateísmo é antigo. Quando o Cristianismo chegou, ele já existia. O ateísmo foi uma tentativa do homem em criar sentido para si mesmo.

Em nome da razão, o Iluminismo dessacralizou o mundo, pois fim ao transcendente, ao sobrenatural, trocou a metafísica pela física.

O século XIX tentou substituir o Deus da fé pelo Deus da razão. O homem se tornou um livre pensador. O Existencialismo negou Deus em nome da liberdade.

Nietzsche pregava que a morte de Deus, nos levaria a dois caminhos: um, onde os valores morais e metafísicos ligados às divindades permaneceriam, prevalecendo a moral do escravo, criando-se outras religiões; outro, onde nasceria um super-homem, nada seria verdadeiro e tudo seria possível. O "super-homem" deu no Nazismo.

Voltando a Nietzsche:

“Onde está Deus – gritava ele – eu vos direi! Nós o matamos – vós e eu. Somos todos os assassinos de Deus... O que o mundo possuía de mais sagrado, de mais poderoso, sangrou sob nossos punhais – quem lavará de nós a mancha de sangue? Que festas expiatórias, que jogos sagrados teremos de inventar?”

Entretanto, entramos no século XXI, com o ateísmo em crise. A fé se dispersou numa espiritualidade difusa. Houve um tempo do Pai, um tempo do Filho e agora, estamos no tempo do Espírito Santo. O Cristianismo se fragmentou em centenas de congregações.

No entanto, Deus está vivo!

Nessa ausência de critérios, as igrejas passaram a representar a todos, crentes e descrentes, justos e pecadores, viramos um só rebanho desunido. Finalmente, a Torre de Babel se realizou.

A necessidade do sagrado retornou pela falência do profano, por sua incapacidade em resolver as angústias humanas. A inteligência artificial se afasta do homem.

Acordei essa madrugada com um sonho besta: o profeta Isaias apareceu, esclarecendo a tal mensagem secreta do SARS-CoV-2, o recado da Peste:

“A vida deve ser ressacralizada, mesmo entre os ateus. O lobo e o cordeiro (crentes, descrentes e indiferentes) apascentando juntos (isto eu já sabia). O retorno à vida simples, minimalista, natural, respeitando o meio ambiente.”

O sagrado, o sobrenatural e o divino passarão a ser fontes de uma atitude trans-religiosa.

Essa confusão toda, com milhares de mortos e sequelados, confinamentos, economia paralisada, só para dizer que o desencantamento do mundo foi um erro.

Isso eu também já sabia!

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

A QUARENTENA FEZ BEM AOS VELHOS?


A Quarentena fez bem aos Velhos?
(por Antonio Samarone)

O envelhecimento acelerado da população e o seu modo de vida têm impulsionado o aumento dos quadros demenciais nos Idosos. O que aconteceu com essa tendência, durante o longo isolamento social determinado pela Pandemia?

É indiscutível, o novo corona vírus tem uma especial preferência pelos idosos!

É o envelhecimento um processo natural inevitável? Ele pode ser retardado? Na época antediluviana a Bíblia (que não mente) conta que os patriarcas viviam até 900 anos. Matusalém é o mais conhecido, chegou a 969 anos.

A Enciclopédia Francesa de Diderot (1765), tratava a demência como uma doença que consiste na paralisação do espírito, caracterizada pela abolição da faculdade racional”. “Não há crime quando o acusado está em estado de demência na época do ato alegado” – Código Napoleônico, 1808.

A caduquice dos idosos era assimilada pela sociedade, eram poucos. Em pouco tempo serão maioria. Aos 85 anos, a metade dos idosos apresenta algum grau de demência.

As demências (“demes” = sem mentes) são vistas clinicamente no início do século XX. Antes eram tratadas como caduquice, senilidade, tolice, imbecilidade, pasmaceira, embotamento, estupidez, idiotia, anoia e leseira.

Por volta de 1900, são reconhecidas as formas senis, arterioscleróticas e subcorticais das demências. O uso do modelo anátomo clínico pelos alienistas, mudou a direção dos estudos sobre as demências, eles passaram a procurar a sua base neuropatológica.

Alzheimer, em 1906, demonstrou que a demência decorria da presença de placas e nódulos neuro fibrilares no cérebro, era uma doença, e não uma condição natural do envelhecimento.

Foi um alívio para quem pretendia ficar velho, a demência não era um condenação obrigatória.

Existem vários tipos de demência, A doença de Alzheimer é a mais popular, a mais conhecida, a que mais mete medo. Hoje o nome de Alzheimer é uma palavra familiar. Os mais íntimos chegam a brincar: “cuidado com o alemão”.

Como fatores sociais e psicológicos contribuem para as demências, ainda é pouco estudado. As demências podem ser vistas como uma defesa contra a morte iminente, uma reação válida contra o isolamento e o sofrimento dos velhos.

O longo isolamento dos idosos pode ter preparado uma onda neurológica no pós-Pandemia, como ocorreu com a Gripe Espanhola? Quais as implicações da Peste sobre a doença de Parkinson (Paralysis Agitans)?

É isso, e muito mais, que vamos saber numa LIVE, hoje (29/09), as 18 horas, com o Dr. Roberto César.

Se sabe que o corona vírus, rompeu a barreira hematoencefálica e chegou ao cérebro. Está lá, em sua forma latente, mesmo nos assintomáticos.

O que ele está planejando?

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

domingo, 27 de setembro de 2020

GENTE SERGIPANA - CHICO ROLLEMBERG


Gente Sergipana – Chico Rollemberg (85 anos)
(por Antonio Samarone)

Francisco Guimarães Rollemberg, nasceu em 07 de abril de 1935, em Laranjeiras (SE). Filho de Antônio Valença Rollemberg e de Maria das Dores Guimarães Rollemberg.

Criado no sítio da bisavó, Dona Esmeralda Guimarães, num ambiente religioso. Um menino forjado para ser padre.

Foi para a medicina inspirado em Heráclito Diniz Gonçalves, paradigma do médico ideal, pela sua bondade simples, transbordamento afetivo, solidariedade e espírito de sacrifício.

Passou a primeira infância em Laranjeiras, onde fez os primeiros estudos. Veio à Aracaju para estudar no Colégio Tobias Barreto e no Ateneu Sergipense. Concluiu o científico no Colégio Estadual da Bahia.

Em 1959, formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia.

Retornou à Aracaju onde passou a exercer a medicina de forma humanizada. Dotado de exímio talento cirúrgico, se tornou um cirurgião geral, daqueles que opera de tudo.

Trabalhava diuturnamente servindo ao povo, numa prática desprovida de ambição financeira. Chico Rollemberg não enriqueceu com a medicina, não amealhou fortunas. Manteve uma ligação afetiva com seus pacientes, os quais conhecia nominalmente.

Chico Rollemberg operava sem descanso, não deixava os pacientes esperando por muito tempo. Sempre prestativo. Trabalhava em todos os hospitais de Aracaju, em especial, no antigo Hospital de Santa Isabel.

Francisco Rollemberg tornou-se Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões por concurso, com a brilhante monografia, “Lesão Cirúrgica do Ureter".

Naturalmente, o seu prestígio médico o levou à política. Em 1970, foi o Deputado Federal mais votado em Sergipe. Foi deputado por três vezes e Senador da República. Iniciou na Arena e encerou a vida política no PMDB.

Foi um político conservador, íntegro, fiel a suas crenças, voltado para o interesse público. Não ficou rico com a política. Um remanescente dos que fazem política como vocação.

Chico Rollemberg destacou-se na defesa da memória de Sergipe. A sua publicação sobre Fausto Cardoso é uma clássica referência para os pesquisadores.

Foi protagonista na luta pela aprovação do Estatuto do Idoso. Mesmo não sendo cumprido, é uma das legislações mais avançadas do mundo sobre o tema.

Francisco Rollemberg reabriu a polêmica sobre as fronteiras de Sergipe. No Final do Império, a Bahia, com a sua força política e econômica, imprensou Sergipe entre os Rios Real e São Francisco. Uma ocupação pela força.

Chico Rollemberg é uma enciclopédia sobre a cultura sergipana, conhece suas raízes. Um cidadão refinado, afável e acolhedor.

É membro da Academia Sergipana de Letras, na fração literária dos que engradecem a confraria.

Chico Rollemberg ocupa a Cadeira 15, que pertenceu ao grande Garcia Moreno, cujo Patrono é Armindo Guaraná e o primeiro ocupante, o médico homeopata Helvécio Andrade. Uma cadeira que nunca foi ocupada por homenageados de conveniência.

O meu colega sanitarista, Dr. Walter Cardoso, ao saudar Chico Rollemberg por ocasião de sua posse na Academia de Letras, sintetizou uma verdade:

“Os meus pares fazem-me subir a esta tribuna para saudar um dos cirurgiões mais notáveis de Aracaju, um dos políticos mais conhecedores de nossa patologia social, uma das figuras humanas mais singulares, pela superioridade de espírito, sinceridade das atitudes, simplicidade de gestos e bondade de coração.”

A sua memória sobre a história da medicina em Sergipe é um arquivo inexplorado. Acordem-se, historiadores!

Não sei quantas personalidades sergipanas merecem uma biografia, com certeza, Chico Rollemberg é um deles.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sábado, 26 de setembro de 2020

SETEMBRO AMARELADO (parte um)


Setembro Amarelado (parte um).
Por Antonio Samarone.

A psiquiatria se apropriou do suicídio como objeto de intervenção a partir da segunda metade do século XIX. O suicídio saiu da esfera moral.

Santo Agostinho era enfático: “Ninguém tem o direito de se entregar à morte de maneira espontânea com o pretexto de escapar dos tormentos passageiros, sob pena de mergulhar nos tormentos eternos.”

A sepultura eclesiástica era negada aos suicidas.

Foi assim que me ensinaram no catecismo tridentino, em Itabaiana. A Igreja condenava o suicídio, hoje clama por misericórdia.

Para a igreja, o suicídio era um pecado e decorria da ação do diabo, que convencia o pecador de sua condenação certa e o fazia duvidar da misericórdia divina.

O evento fundador do cristianismo foi um suicídio, um sacrifício voluntário. “Eu dou a vida por minhas ovelhas”. Deixe de heresia, abestalhado, dizia minha mãe. Jesus é o filho de Deus, tinha uma missão, veio para nos salvar.

Dante Alighieri reservou para os suicidas um lugar em seu Inferno. Eles são alojados na segunda parte do sétimo círculo, o dos violentos.

Na Idade Média quando o suicida não possuía uma motivação (sofrimentos da existência), já se atribuía a loucura. A melancolia e o frenesi eram desculpas para o suicida.

Melancolia era o acúmulo de bile negra no cérebro, ofuscando o pensamento, e frenesi era fúria, alucinações e delírios.

Na antiguidade grega, o suicídio era encarado de forma diversa pelas escolas filosóficas. Os epicuristas e estoicos aprovavam.

Os suicídios patrióticos, pela honra, por remorso, pela fidelidade a um pensamento, para escapar à decrepitude da velhice (Demócrito), filosóficos, por desprezo pela vida (Zenão, Diógenes e Epicuro), em defesa da castidade eram aceitos e valorizados.

O suicídio de Sócrates é controverso.

O estoico Zenão (98 anos) caiu, quando ia saindo de sua escola. Nesse momento, repetiu um verso: Por que você me chama? E ali mesmo, estrangulou-se e morreu. Convenhamos, demorou a concluir que a vida não valia a pena.

No mundo romano não existia proibições contra o suicídio, para os homens livres. Cicero entendia que o suicídio não era nem bom, nem mau, dependia dos motivos. Virgílio dividia os suicidas entre o Inferno e os Campos Elíseos, segundo os motivos dos seus atos.

Nero condenou Sêneca ao suicídio, e ele cumpriu serenamente.

O poeta Lucrécio cometeu suicídio por achar a vida entediante (Taedium Vitae). O que importa o caminho pelo qual entras em Hades?

O suicídio político foi frequente em Roma: Catão, Cássio, Brutus (Ó virtude, não passas de uma palavra), Marco Antonio e Cleópatra. O suicídio de Nero (Qualis artifex pereo).

Na antiguidade, o suicídio na velhice era visto com naturalidade. Na visão de Sêneca, “Se o corpo se torna imprestável para todo o tipo de uso, por que não liberar a alma que sofre em sua companhia?”.

Continua Sêneca (lettre LVIII a Lucílius):

“Quanto a mim, não abandonarei bruscamente minha velhice; contanto que ela preserve minha integridade, vejo-a como a melhor porção de mim mesmo. Mas se ela vier perturbar minha mente, corromper seu funcionamento, se restar apenas uma alma destituída de razão, abandonarei a casa em ruínas e prestes a desabar... Considero covarde quem morre com medo de sofrer, e tolo quem vive para sofrer.”

Voltarei ao tema, quando sobrar disposição.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O CHEIRO DO MUNDO


O Cheiro do Mundo
(por Antonio Samarone)

A pequena comunidade de Mulungu fechou as portas para o Seu Aristide, depois da morte de sua esposa por Covid-19. O medo do contágio virou repulsa, pavor e discriminação.

Seu Aristide virou um pestilento.

Seu Aristide tem 72 anos, mas parece 90. Ele escapou da Peste, mas ficou sequelado, física e emocionalmente. Sozinho, viúvo, entrevado, sem poder andar direito e rejeitado pela comunidade, com sendo um risco.

Seu Aristide padece de uma saudade amargurada da esposa, que ele nem velou, nem sepultou. Ela foi jogada numa vala comum do cemitério da Prefeitura. Uma vala cavada às pressas. Ela pedia para ser enterrada com o terço, que ela rezava diariamente, e com um véu antigo, que ela carregava da época de moça no Capunga.

Estão me tratando como um leproso bíblico, me disse ele angustiado. Entretanto, doutor, o que me incomoda mais é ter deixado de sentir o cheiro das coisas.

A gente só sabe a importância dos cheiros quando deixa de senti-los.

O olfato é tido como sentido tosco, primitivo, animal. Os civilizados procuram escondê-lo. A etiqueta só permite alguns cheiros especiais. O cheiro do mundo e das pessoas passam desapercebidos.

Seu Aristide é um homem do campo, viveu na roça, Depois da aposentadoria, veio morar no povoado. Esperava um final de vida descansado. Veio a Peste e virou o mundo de cabeça para baixo.

Doutor, eu tenho até vergonha de dizer, mas o que mais aperreia é não sentir o cheiro das coisas. Eu sempre tive uma venta apurada. Parecia um perdigueiro farejador. Adoro a fragrância da terra molhada, do café torrando, do mingau de puba, do manjericão, da cebola ciganinha e de estrume novo.

O mundo inolento ficou sem graça.

O senhor sabe que cada pessoa possui o seu cheiro, próprio, único, ninguém cheira igual. Eu sabia identificá-los. Conhecia o cheiro de minha esposa de longe. Eu não confio em médico que não conheça os seus pacientes pelo cheiro, sem vê-los.

Algumas doenças têm cheiro e podem ser diagnosticadas por este sinal.

Eu sinto falta até da rabugem de general (um vira lata, que ele cria com carinho). Eu só não gostava do cheiro de carocha, aqueles escaravelhos nojentos que se escondem pelos cantos.

Estou desesperado! Sempre soube que se perde o olfato perto da morte. Os moribundos não sentem cheiros, para suportar melhor a decomposição.

Durante os sonhos tenho alucinações, sinto o meu corpo fedendo. Chulé, sovaqueira, fedor de boca e inhaca. Tudo misturado. Fico rançoso, com um odor nauseabundo.

Me acordo para tomar banho, no meio da noite. E nada disso existe. E mesmo que existisse eu não sentiria. Doutor, eu tenho pesadelos fedorentos.

No dizer popular, quem fede são os outros. Nos meus sonhos, sou eu! Sei que o corpo é um espaço naturalmente malcheiroso, mas a minha alucinação exagera. Acordo-me sufocado.

Pensei, para quem encaminhá-lo em busca de tratamento?

Para um Neuro ou para um Otorrino? Ou já existe um especialista em anosmia, um Anosminologista?

Existe fisioterapia para anosmia? Não sei dizer! Em Aracaju existe algum especialista em aromaterapia. Pode ser o caso. Psicoterapia, Florais de Bach, Homeopatia ajudam? Como reduzir o sofrimento do Seu Aristide? Aceito sugestões...

Eu sei que a Peste vai demorar a passar, que ainda vai trazer muitos problemas, mas não imaginava tantos e em tão pouco tempo.

Quando os boletins epidemiológicos oficiais informam o número de curados, penso comigo mesmo, que Deus os proteja.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

PARA ALÉM DAS MÁSCARAS DA COVID-19


Para além das máscaras da Covid-19.
(por Antonio Samarone)

Ontem quebrei um dogma da quarentena, fui obrigado ir a Shopping. E fui! A sensação foi de estranhamento com os mascarados. Não sabia o que fazer com tantos desconhecidos.

Falo ou não, digo pelo menos um Oi?

A minha alma provinciana estranha o anonimato.

É o rosto que faz do próximo um irmão com que podemos nos identificar e por quem podemos sentir empatia. Os bandidos usam máscaras.

Após a dança dos sete véus de Salomé, ela fica completamente nua. Herodes grita: continue, continue, continue... esperando que ela retirasse o véu da pele.

A burca sanitária além de incomodar, bloqueia os sorrisos. Puxa-se o ar com dificuldades. Acentua uma vontade imensa de coçar o nariz, talvez por ser proibido. Os vírus possui as habilidades dos mosquitos, que quando picam, deixam um veneno que aumenta o prurido?

As máscaras são enigmáticas.

No carnaval os foliões mascarados se sentem protegidos de olhares inconvenientes. Os palhaços, os super-heróis, os carrascos, os cirurgiões e os bandidos são mascarados. Zorro, Batman, Super Homem são mascarados. O Coringa é mascarado. A polícia de choque usa máscaras.

O Bobo da Corte era mascarado!

Freud acreditava que o próprio rosto era uma máscara natural, para esconder o semblante, que espelha a alma. O semblante revela o inconsciente, desnuda o espírito, desvenda a personalidade e o caráter dos desavisados.

O rosto existe para ocultar o semblante! As pessoas bem treinadas enganam à primeira vista.

Por isso que nas sessões de psicanálise, paciente e terapeuta não se olham frontalmente, para evitar enganos e manipulações. O divã é uma proteção.

O semblante é uma porta aberta para a alma e está oculto pelo rosto. O mau uso desse caminho do uso semblante para o acesso a alma, por Cesare Lombroso, levou aos psicanalistas buscarem a porta dos sonhos.

A fotografia capta a imagem em velocidade superior ao olhar humano, sendo possível em momentos raros, captar o semblante dos fotografados, rompendo a proteção do rosto.

Uma pessoa bem treinada controla a musculatura da face, rindo quando deveria chorar e chorando que deveria rir.

Entenderam?

O rosto como máscara natural pode ocultar intenções e estados de espírito dos indivíduos. Talvez por isso, as máscaras artificiais que escondem a máscara do rosto incomodam tanto.

As pessoas ficam com a sensação de impotência para o fingimento. A relação esfria. O problema se agrava no período eleitoral.

A medicina hipocrática procurava captar o semblante dos doentes, que eles chamavam de “facies”, para realizar o diagnóstico. Em algumas patologias era fácil: facies cadavérica, facies leonina, facies cushingoide, facies miastênica, facies parkinsoniana etc.

Bastou uma saída, uma transgressão à quarentena, para perceber que o uso das máscaras da Covid-19 é complicado, mexe com muita coisa. Não se trata apenas de consciência sanitária.

Estou convencido, que o uso obrigatório das máscaras de proteção contra a covid-19, não é uma tarefa que se resolva com multas e punições.

Não me perguntem como resolver. Eu não sei obrigar nem convencer as pessoas a usarem a “proteção”. Uso por disciplina, com profunda má vontade. O buraco é mais embaixo.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)


 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

AQUI HÁ INTELIGENCIA!


Aqui há inteligência!
(por Antonio Samarone)

Nunca ouvi uma explicação consistente para a explosão intelectual em Sergipe, no final do século XIX. O que ocorreu?

Uma Província economicamente irrelevante, geograficamente reduzida e historicamente inexpressiva, produzir tantos nomes de expressão nacional.

Só como exemplo, a Academia Brasileira de Letras já acolheu vários sergipanos. Parece gabolice, mas é verdade.

Do mesmo modo, não se sabe explicar o deserto intelectual sergipano na atualidade. O último nome com reconhecimento nacional foi Joel Silveira. A inteligência nasceu e morreu em Sergipe sem dar explicações.

O grande Gilberto Freire disse uma verdade, sobre o Sergipe antigo:

“De Sergipe, o brasileiro de outro Estado, por mais ignorante que seja da geografia, da paisagem, da produção agrícola, da atividade econômica deste pequeno, mas ilustre pedaço do Brasil, saberá sempre dizer, para caracterizar no mapa brasileiro a província sergipana: aqui há inteligência!”

E havia!

João Ribeiro, nascido em Laranjeiras em 1860, não pode ser esquecido. Fez curso de humanidades no Atheneu Sergipense e formou-se em direito no Rio de Janeiro. Ocupou a cadeira 31, na Academia Brasileira de Letras.

Em sua posse na Academia, João Ribeiro foi saudado por José Verissimo, historiador e pensador paraense:

“A “Corte” não vos deslumbrou suficientemente, a vós, pobre matuto de uma província ignorada, para absorver-vos e acomodar-vos a seu jeito. Do agreste rebelde dos vossos sertões ficou-vos alguma coisa com que defendestes até hoje a vossa originalidade. E essa, crede-o bem, a Academia não quisera contribuir para tirar-vos ou sequer diminuí-la.”

Em suas memórias, João Ribeiro, se expressou:

“Fiz alguns versos e desanimei da poesia. Minhas ideias são volúveis e fugazes com os pássaros de Aristófanes. Ao cabo de tamanha canseira, não fiz coisa alguma, a não ser essa estúpida vanglória de ser conhecido sem saber como e por quê.”

“Os meus pecados são poucos nessa fase inábil da velhice. É possível que a impiedade seja o único defeito irreparável de minha vida. Assim pois, meus senhores, amigos e inimigos, frades e confrades, sabei que eu sou um pecador velho, como “vos omnes”...”

“Não tenho medo da morte nem me preparo para ela. Nem temo o Inferno, nem aspiro o Paraíso. Confio que a minha pulverização será silenciosa e magnífica.”

João Ribeiro deixou o seu epitáfio escrito: “Mais um de menos.”

Certe feita procurei uma autoridade aracajuana da cultura para falar sobre João Ribeiro, fui recebido com enfado. O comissário estava atarefado, organizando o próximo “Verão Aracaju”, na Orla de Atalaia.

Voltando a Gilberto Freire, que professava uma certa inveja por Tobias Barreto, por ele ter sido bem sucedido intelectualmente em Pernambuco, Freire sempre que encontrava um Sergipano, dizia enfaticamente: “Em sua terra, grande foi João Ribeiro.”

João Ribeiro escreveu, entre tantas coisas, um clássica Gramática Portuguesa, cheia de erudição e curiosidades sobre a língua, desconhecida em Sergipe.

João Ribeiro foi uma águia do antigo ninho sergipano de intelectuais.

Faleceu no Rio de Janeiro, em abril de 1934.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

CAJUEIRO DOS PAPAGAIOS


Cajueiro dos Papagaios
(por Antonio Samarone)

O significado da palavra Aracaju é controverso. A língua tupi não possuía escrita. Os colonizares é que criaram a sua gramática. O sentido de cada vocábulo era interpretado pelo som, gerando entendimentos divergentes.

Os Tupinambás gostavam de nomear os acidentes geográficos homenageando os seus Caciques, como fazemos ainda hoje, com os nomes dos logradouros públicos. Até em edifícios e condomínios privados colocamos nomes de pessoas.

Se sabe que Pacatuba, Japaratuba e Muribeca foram Caciques famosos. Sergipe, vem do Rio Seregippe, uma clara homenagem ao Cacique Serigy.

E o nome Aracaju vem de onde?

Von Martius afirmou que Aracaju vem de ar – nascer, e caju – fruto do cajueiro.

Theodoro Sampaio foi mais longe, ara – papagaio, caju – fruta, Aracaju significando Cajueiro dos Papagaios.

Mário Cabral escreveu que Aracaju é uma corruptela ara-acayu, sendo ara – tempo e acayu – fruta. Também ficou bonito, Aracaju significando “O Tempo dos Cajus”.

Os poetas fizeram uso.

Caetano Veloso, numa canção antiga e pouco conhecida, versejou: “Céu todo Azul/ Chegar no Brasil por um atalho / Aracaju/ Terra cajueiro papagaio/ Araçazu... Aracaju/ Cajueiro arara cor de sangue/ Aracaju/ Menos o Sergipe e mais o mangue.”

Quando o poeta Pedro Luan escreveu recentemente: “Mar de renda, natureza, água morna, céu azul/ Deus te deu essa beleza de arar a terra e ser caju - Cajueiro dos Papagaios – Aracaju.”, ele usou arte e inspiração.

Não sei quem compôs, mas a bela canção “Meu Papagaio”, retomou ao tema dos papagaios.

O poeta Paulo Lobo recitou: “Ará Cajueiro Aracajuá/ Dança guerreiro/ Ruas de Ará.” Deve existir outros poemas que eu desconheço, inspiradas num deslumbrante Cajueiro dos Papagaios.

Imaginem: um cajueiro carregado, amarelinho de cajus, lotado de papagaios (ou de araras).

Infelizmente, quando os Tupinambás se referiram a Aracaju, eles não estavam pensando em um Cajueiro cheio de Papagaios. Mas que ficou bonito, ficou. Bem que poderiam...

O topônimo Aracaju é antigo, bem como a existência do Rio Aracaju, atual Rio do Sal, como anotou o Frei Jaboatão. Não estou falando do Riacho Aracaju citado pelo Engenheiro Pirro. Falo do Rio Aracaju, que denominou a Região.

As primeiras menções a Aracaju estão nas cartas de sesmaria, de 1600. Primeiro como Gauquajú, depois Arcaiú e, em 1602, com a forma definitiva de Aracaju. Na carta de Pero Gonçalves (1602) está registrado: “No cabo do Rio Aracaju está uma ponta de terra que mete entre dois apicuns.”

Aracaju era uma porção de terra de cerca de légua e meia quadrada, entre os Rios Aracaju ao Norte (atual Rio do Sal), Poxim ao Sul, Sergipe ao Leste, limitando-se ao oeste com o Riacho Caborje, já aterrado. Foi aqui que Cristóvão de Barros (1590), instalou a primeira São Cristóvão.

O Rio Aracaju é uma homenagem dos Tupinambá a um cacique, cuja tribo ocupava esse território. O surgimento posterior da Aldeia do Aracaju, que segundo Clodomir Silva, em 1696, era comandada pelo Cacique João Mulato.

A Aldeia do Aracaju situava-se no Morro de Santo Antonio, onde construíram uma igrejinha. Em 1757, o Padre José de Souza informou ao Governo, ter a Freguesia de Nossa Senhora do Socorro uma Capela no Povoado Santo Antonio do Aracaju.

De Aldeia passamos a Povoado de Santo Antonio do Rio Aracaju.

Observem, que se usa “do Aracaju”, e não “de Aracaju”, como se faz atualmente. Trata-se do Povoado do Rio Aracaju.

Fui advertido por um ex amigo, por usar “Febres do Aracaju”, “Pestes do Aracaju” como título dos meus livros. Espero, que entendendo as origens, o dito cujo sossegue. Eu continuarei falando “as coisas do Aracaju”.

Acompanho historicamente ao Padre Aurélio Vasconcelos de Almeida, Aracaju foi o primeiro nome do Rio do Sal, em homenagem ao Cacique Aracaju.

Depois Aracaju denominou a Região. A Aldeia do Rio Aracaju. O Povoado de Santo Antonio do Rio Aracaju se tornou a Cidade do Aracaju, em 1855, por força de Lei.

Entretanto, cultural e emocionalmente, fico com Theodoro Sampaio, somos um belo “Cajueiro dos Papagaios”, ou com Mário Cabral "O Tempo dos Cajus".

Falta as autoridades o senso poético, para infestar Aracaju de cajueiros, que os pássaros se aproximarão.

Antonio Samarone (médico sanitarista)