quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A LOUCURA EM SERGIPE


A Loucura em Sergipe (por Antônio Samarone)

O Jornal Correio de Aracaju, edição de 23 de fevereiro de 1943, divulgou com grande ênfase uma carta do Dr. Garcia Moreno, Diretor da Colônia de Psicopatas, anunciando importantes incorporações tecnológicas da psiquiatria sergipana. Observem os termos mais esclarecedores da missiva:

“Comunico que desde outubro de 1942 o nosso Hospital Colônia de Psicopatas inclui em seus trabalhos rotineiro, ao lado da aplicação mais antiga dos métodos de Sakel e Meduna (insulina e cardiazol), a convulsoterapia de Cerletti e Bini”.

“Possuímos um aparelho de eletrochoque terapia fabricado pela Offener Electronies, dos Estados Unidos, do tipo mais moderno e portador das mais recentes inovações técnicas, de notáveis vantagens práticas (máquina de curar louco). Custou ao Governo Estado perto de treze mil cruzeiros e chegou a Aracaju por via aérea, o aparelho pesa menos de oito quilos”.

“Quase quarenta pacientes já foram, entre nós, submetido ao método de Cerletti, num total de crises convulsivas que andam perto de novecentas”.

A convulsoterapia elétrica era apontada como um grande avanço para psiquiatria pelas seguintes vantagens: baixo custo; rapidez na aplicação; e substituir a convulsoterapia cardiozóliza, muito temida pelos pacientes devido à elevada freqüência de fratura de costelas.

Continua Dr. Garcia Moreno em sua carta:

“Aqui, como em outras partes, duas a três aplicações semanais de uma corrente elétrica de 450 miliampere, durante 0,2 segundos através do cérebro, tem em pouco mais de um mês reconduzido a vida psíquica normal homens e mulheres”.

“Como se vê, a psiquiatria não é mais uma especialidade médica de literatos e filósofos. Não na medicina moderna, afora a cirurgia, setor de maiores ousadias técnicas. Como se vê, o doente mental encontra hoje recursos terapêutico tão eficientes quanto os que beneficiam as demais especialidades médicas”.

Antônio Samarone.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

AS GRANDES MURALHAS...



As Grandes Muralhas... (Por Antônio Samarone)

Em meados do século XX, Itabaiana era uma cidade de camponeses, artesãos e negociantes. Com a chegada da BR - 235 e do Colégio Murilo Braga, emergiram os caminhoneiros e os intelectuais. A cidade se desenvolveu, veio a riqueza.

Nesse primeiro período, havia uma acentuada igualdade: nem éramos muito ricos, nem muito pobres. A terra era bem dividida, o dinheiro também. A cidade era urbanisticamente misturada. O Beco Novo, onde moravam os pobres, terminava na Praça da Igreja, onde moravam os ricos.

Ricos, remediados e pobres, na hora das brincadeiras de prender e soltar, “pé em barra”, das peladas de futebol, dos banhos nos tanques, de roubar manga, íamos todos juntos, ou quase juntos. As festas eram as mesmas. Santo Antônio era dos pobres, mas também protegia os ricos. Todos torcíamos pelo Itabaiana.

Itabaiana cresceu, os ricos aumentaram e os pobres também. O talentoso Melcíades (o nosso Gaudí), criou uma arquitetura típica, um novo estilo urbano. Os ricos construíram o bairro Morumbi. Já não éramos mais a misturada comuna primitiva.

Recentemente, um criativo empresário segregou ricos de pobres, criou grandes condomínios. Dividiu a cidade com grandes muralhas. Muito muro, cerca elétrica e guardas. “Cada macaco em seu galho”, dizem os entusiastas dessa Itabaiana. Hoje uma parte da cidade está cercada!

Urbanisticamente, somos duas Itabaianas. Uma dentro dos muros e outra fora. A Itabaiana de dentro, pode circular livremente pela de fora. Mas a Itabaiana de fora, para circular nos condomínios cercados, precisa se identificar na portaria, dizer o que vai fazer, quem vai visitar e receber o sinal verde.

Não estou fazendo juízo de valor, apenas descrevendo uma realidade.

Dirão os mais apressados: “Mas esse apartheid não foi inventado em Itabaiana”.

Eu sei!

Ocorre em Itabaiana que, o idealizador das “grandes muralhas” quer ser Prefeito, será candidato e deve apresentar “propostas” para a Itabaiana do futuro. É o que se espera.

Todos dentro dos muros? Cercar tudo, como nas cidades medievais?

Eu não sei. Prefiro aguardar!

Que Itabaiana queremos construir e para quem? É essa a minha curiosidade.

Antônio Samarone.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

PARIR OU NÃO PARIR...


Parir ou não parir... (por Antônio Samarone)

Segundo a OMS, o parto é um processo fisiológico e natural que pode ser vivenciado sem complicações pela maioria das mulheres e bebês. Desde 1985, a comunidade médica internacional considera que a taxa ideal de cesárea (parto cirúrgico) fique entre 10% e 15%.

Como andam os partos em Sergipe?

Entre o parto à fórcipe, o parto cirúrgico, o parto normal e o parto natural existem distâncias e uma convergência: os partos no Brasil precisam ser humanizados.

O que é o parto natural?

O parto natural é o realizado sem intervenções ou procedimentos desnecessários durante o período do trabalho de parto, no parto ou pós-parto. E com o atendimento centralizado na mulher. No parto natural, a saída do bebê ocorre pelo canal da vagina, sem qualquer intervenção cirúrgica.

O parto natural é o parto normal sem intervenções, como anestesias, episiotomia (corte cirúrgico feito no períneo) e indução. O tempo da mãe e do bebê são respeitados e a mulher tem liberdade para se movimentar e fazer aquilo que seu corpo lhe pede.

Em Sergipe, os partos normais caminham para a extinção.

Em 1997, dos 43.530 partos em Sergipe, 35.075 foram partos normais (via vaginal), 7.884 cesáreas (cirúrgicos) e 571 ignorados (sem informações). A proporção de partos cirúrgicos foi de 18%, um pouco acima do preconizado pela OMS, mas dentro de um limite.

Em 2007, dos 36.920 partos em Sergipe, 26.170 foram partos normais, 10.686 cesáreos e 64 ignorados. Não se assustem com a redução dos partos, foi isso mesmo, os nascimentos diminuíram. O que chama a atenção é que a proporção de partos cirúrgicos, aumentou para 29%.

Em 2017, dos 35.061 partos em Sergipe, 19.697 foram partos normais, 15.356 cesáreos e 8 ignorados. A proporção de partos cirúrgicos elevou-se para 43%, quase a metade.

Em Sergipe, o crescimento dos partos cirúrgicos avançou de 18% em 1997, 29% em 2007, para 43% em 2017. Se a tendência continuar, em quantos anos teremos todos os partos cirúrgicos.

Quem quiser parir pela via vaginal, sentir as dores do parto, que se apresse, em Sergipe pode virar coisa do passado.

Antônio Samarone.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

O COMUNISMO LÁ E CÁ.


O comunismo lá e cá... (por Antônio Samarone)

A China construiu e botou em funcionamento um hospital com 1.600 leitos, em 8 dias.

Essa maternidade em Aracaju (foto), que está sendo construída no bairro 17 de março, se arrasta há 5 anos.

A obra, orçada inicialmente em R$ 11.357.195,75, foi iniciada no dia 8 de junho de 2015. O Ministério da Saúde (MS), liberou a primeira parcela em setembro de 2015, no valor de R$ 50 mil e a segunda parcela no dia 29 de dezembro de 2015, no valor de R$ 1.110.640,00.

A obra hoje já está em 17 milhões (o aumento do saco de cimento), e a prefeitura não sabe quando entrega.

Por que a construção da maternidade da Prefeitura está sendo empurrada com a barriga?

Em Aracaju são realizados por mês 1.665 partos (dado de 2017). Cerca de mil partos/mês pelo SUS. A rede pública atende em duas maternidades: a Nossa Senhora de Lurdes (79 leitos) e a Santa Izabel (89 leitos). Ou seja, os mil partos/mês pelo SUS são atendidos pelos 168 leitos existentes. Não se tem notícia de fila para parir em Aracaju. Está funcionando!

Recentemente, o Estado gastou uma pequena fortuna para reformar a antiga maternidade Hildete Falcão Batista (62 leitos). Continua fechada para partos.

A Universidade Federal de Sergipe está concluindo uma maternidade com 118 leitos, com previsão de entrega para maio de 2020 (isso mesmo, esse ano).

Ou seja, já existem prontos mais 180 leitos de maternidade para o SUS, em Aracaju, superior aos leitos já existentes e que está dando conta. Como o número de partos não vai aumentar, nem os recursos repassados pelo Ministério da Saúde, com a oferta de novos leitos, vai precisar dividir o orçamento pelos partos realizados em cada maternidade, inviabilizando o financiamento de todas elas.

Você pensa que a falta de planejamento parou por aí? Não! A bem gerida Prefeitura de Aracaju está construindo essa outra maternidade. Com as seguintes especificações:

A maternidade da Prefeitura terá 50 leitos de média complexidade, 10 leitos de Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, 10 leitos de Unidade de Cuidado Intermediário Neonatal Convencional, cinco leitos de Unidade de Cuidado Intermediário Neonatal Canguru, 50 alojamentos conjuntos (mãe e bebê agrupados); duas salas cirúrgicas com três leitos de recuperação pós anestésica; três leitos de cuidados intermediários; dois leitos de estabilização; nove leitos de aplicação de medicação e observação, e oito quartos PPP.

Deus benza! 

Resta saber quem pagará a conta para ela funcionar. Vai dividir os repasses do Ministério da Saúde com as demais maternidades de Aracaju. Na Saúde construir é fácil, o difícil é manter em funcionamento.

Talvez por isso, a construção da maternidade da Prefeitura se arraste a passos de tartaruga.


Antônio Samarone. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

ATEU E À TOA...


Ateu e à-toa... (por Antônio Samarone)

Itabaiana sempre foi uma terra de carolas, papa-hóstias, com poucos ateus declarados. O ateísmo era uma aposta arriscada. E se Deus existisse? Os descrentes preferiam a dúvida, ou até mesmo uma crença da boca para fora. Nesse campo dominava o oportunismo: é melhor acreditar, pois existindo a gente está coberto.

Itabaiana respirava Trento. Um terra de muitos padres e freiras.

Ateu por convicção, materialista puro-sangue, só Zeca Cego, camponês e comerciante, que nasceu e se criou num sítio, perto do povoado Cova da Onça. Em Itabaiana existiam agnósticos, céticos, epicuristas, indiferentes, panteístas, maçons, macumbeiros, niilistas, excomungados, incrédulos, hereges, mas ateu mesmo, só ele.

Zeca Cego era um típico ateu de aldeia. Um ateísmo visceral, solitário! Um Aldeão que leu Hegel e Feuerbach, Marx e Lenine, e mandou cunhar no frontispício de sua casa: “A religião é o ópio do povo.”

Zeca Cego nunca recebeu um sacramento, nem por formalidade. Era pagão e se casou só no civil. Ele era um convicto, um missionário do ateísmo: “Graças a Deus, Deus não existe”. Seu Zeca citava Bakunin: “Se Deus realmente existisse, era preciso fazê-lo desaparecer.”

Posso afiançar que se o manifesto de Zeca Cego tive sido publicado naquele tempo, ele teria sido excomungado em Santa Missão. E a Congregação para a Doutrina da Fé tinha ratificado. Condenaram Leonardo Boff por bem menos.

De lá para cá, o ateísmo cresceu. Dom Orani João Tempesta, cardeal brasileiro, disse a semana passada que o Brasil corre o perigo de se tornar país ateu. O religioso sabe o que está falando.

Zeca Cego, quando jovem, embrenhou-se na leitura dos filósofos iluministas, livros emprestados pelo Dr. Florival. Uma leitura apressada, confusa, mas o suficiente para ele acreditar na razão. Ele repetia com frequência: “Deus não existe, se ele existisse, isso seria evidente e notório. Não haveria mistérios, tudo seria as claras.”

Zeca Cego repetia a tese central do ateísmo: “Como é que um ser tão perfeito criou um universo tão miserável, tão cheio de males, vícios e maldades, em que os homens sofrem e morrem?” Por mais que Santo Agostinho tenha explicado, Zeca Cego nunca se convenceu.

Por que Deus concede a sua graça a alguns e não a todos? Essa pergunta, Zeca Cego repetia obsessivamente. Ele assimilou do Manifesto do Abade Jean Meslier, que datava de 1729. Não sei como esse manifesto chegou as mãos dele.

O movimento dos Sem Deus nunca prosperou em Itabaiana. 
  
Uma pena que Zeca Cego não tenha lido Nietzsche, pelo menos não comentou em seu manuscrito. “Deus está morto e nos o matamos. Com que água haveremos de nos purificar?

“Frustrado de mil maneiras por seus limites diante da natureza, da sociedade e da morte, o homem deve sobrepujar seus sofrimentos pela crença na imortalidade bem-aventurada. Disso nascem as necessidades religiosas.” – Freud.

Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.

Antônio Samarone.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

MEUS PIOLHOS



Meus Piolhos. (por Antônio Samarone)

“Futucando bem/ Todo mundo tem piolho/ Ou tem cheiro de creolina/ Todo mundo tem um irmão meio zarolho/ Só a bailarina que não tem...” -Chico Buarque

Antigamente em Itabaiana, os meninos eram infestados de piolhos. Quase todos. O piolho, era uma praga universal nas escolas. A gente se acostumava com as coceiras. Nem percebíamos. Até gostávamos.

Tudo coçava: piolho (Pediculus capitis), pulga (Pediculus humanus), caseira (oxiúros), chato (Phthirus púbis), bicho de pé (Tunga penetrans), sarna (Sarcoptes scabiei) sovaqueira e chulé. Quando se pisava numa cama de sapo, até a alma coçava.

O ciclo do piolho inicia-se com a postura. Os ovos necessitam de 4 a 14 dias para eclodirem em larvas (as lêndeas), que atingem o estágio adulto em 2 semanas. A maturidade sexual ocorre em 4 horas, com cópula imediata. Sobrevivem de 3 a 4 semanas. Cada piolho põe cerca de 90 ovos. Minha mãe sabia tudo isso.

Os piolhos sempre acompanharam os homens. Já foram encontrados em múmias egípcias de 3.000 anos a.C., em pentes da época de Cristo encontrados nos desertos de Israel e em múmias do Peru pré-colombiano.

Formas de combate:

Catação manual – o piolhento colocava a cabeça no colo da catadora, para um cafuné sanitário pouco higiênico. Se catava um a um, piolho a piolho. Depois se matava o piolho na unha. As lêndeas eram jogadas num pano, que ficava sobre as pernas da catadora. Um boa catadora tinha cuidado para extrair o inseto sem puxar o fio de cabelo.

A minha mãe não era uma catadora paciente, os fios de cabelo não escapavam. Para mim era uma sessão de tortura, que eu reagia balançado a cabeça. Mamãe me acalmava com cascudos. Acho que ela fazia de propósito. Já perdoei a muito tempo.

Passar banha de porco e depois o pente fino, permitia uma retirada mecânica. Às vezes era suficiente, às vezes não. Nos meninos, podia-se apelar para a raspagem da cabeça. Dava muito na vista, todo mundo sabia que a cabeça foi raspada por causa dos piolhos. Depois rasparam a minha cabeça pela aprovação no vestibular. Achei estranho!
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A aplicação de Neocid era um recurso radical contra os piolhos. Aplicava-se o veneno na cabeça do infeliz, cobria-lhe a cabeça com um pano de algodão branco, e horas depois, ao retirar, o pano estava forrado de piolhos. Dava até para contar. A operação precisava ser repetida, o veneno não matava nem os ovos, nem as lêndeas.

Ainda me lembro do som emitido quando se apertava a lata de Neocid, um pof-pof específico, para o veneno sair por um buraquinho na dobra da tampa. Aplicava-se com a lata fechada.

O Neocid antigo era da Bayer, um inseticida em pó à base dos organofosforados, comercializado numa lata (foto) contendo 50 gramas do produto. A mesma composição química do “chumbinho”. Um detalhe macabro: havia uma informação na lata indicando que o veneno era inofensivo para os humanos e animais domésticos.

Hoje se sabe que esse veneno é cancerígeno e teratogênico.

Os piolhos estão voltando!

Recebi um WhatsApp de um amigo, pedindo ajuda para debelar uma infestação de piolhos numa escola na comunidade onde ele mora. A escola está empesteada. Além da lepra, sífilis e tuberculose, os piolhos também voltaram.

Antônio Samarone.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

PARA ONDE MARCHA EDVALDO NOGUEIRA?



Para onde marcha Edvaldo Nogueira? (por Antônio Samarone)

A coluna de hoje da jornalista Rita Oliveira, informa que Edvaldo não tem compromisso em indicar um vice do bloco de direita que governa com ele o município de Aracaju. O que mudou? Era tido como certo que o vice sairia do colete dos Mitidieres.

“A política é uma encenação, o que parece não é e o que é não parece.” (manuscrito de Zeca Cego).

No primeiro turno das eleições presidenciais em Aracaju, Jair Bolsonaro teve 39% dos votos, contra 28% de Haddad e 12% de Ciro Gomes. Ficou claro que a direita tem uma base forte e que Aracaju é uma cidade dividida ideologicamente. Pau a pau!

Com a permanente ameaça de rompimento do PT, Edvaldo Nogueira se aproximou pragmaticamente da velha direita e compôs um governo conservador, um centrão, de olho nesse eleitorado de Bolsonaro em Aracaju.

A surpresa foi o aparecimento de uma candidata orgânica desse eleitorado, um nome novo, que terá a preferência desse bloco.

Edvaldo percebeu que pegou o bonde errado. Ainda tem jeito ou a Inês já é morta?

Às pressas, Edvaldo enviou um emissário para convencer Henri Clay a aceitar à vice, para salvar as aparências. Edvaldo voltou a jurar amores pela esquerda. Esse namoro com a direita não era para valer.

Quais são as dificuldades para Edvaldo reconstruir um candidatura pela esquerda?

Edvaldo saiu do PC do B e foi para o PDT, liderado por Fábio Henrique, que em Sergipe não é um partido de esquerda. Henri Clay já está discutindo com o PSOL a criação de uma nova esquerda, e o PT já tem Marcio Macedo como candidato. Sobrou quem? O PSB dos Valadares nunca pensou em aliar-se com Edvaldo.

Não está fácil para Edvaldo reconstruir uma candidatura pela esquerda!

Contudo, em política tudo é possível, até boi voar...

Antônio Samarone.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ZECA CEGO - REMINISCÊNCIAS



Zeca Cego (reminiscências). (por Antônio Samarone)

Segundo o manuscrito, Zeca Cego conheceu Prestes pessoalmente, em Crateús, no Ceará.

Em janeiro de 1926, de passagem por Crateús, Seu Zeca assistiu à entrada da Coluna Prestes na cidade, sob o comando do Capitão João Alberto. Trocou algumas palavras com o Cavaleiro da Esperança. Se ofereceu para ser recrutado, mas os revoltosos o acharam muito novo. Ele só sabia atirar de garrucha.

A paixão de Zeca Cego pela Coluna Prestes foi profunda e vitalícia. De forma quase instintiva, Seu Zeca foi o primeiro comunista que se tem notícia em Itabaiana.

Zeca Cego possuía uma grade de cerais na feira de Itabaiana. Ele vendia feijão no litro. No peso, só a carne. Não se pesava nem cereais, nem farinha. A farinha era vendida na medida (quarta, terça, litro).

Zeca Cego descia a rua do Futuro, com um livro debaixo do braço, brandindo uma dialética comunista mal assimilada, numa linguagem incompreensível para uma comunidade de camponeses semialfabetizados. Zeca Cego também recitava poesia.

Seu Zeca era um comuna que nunca perdeu uma procissão de Santo Antonio. Era assim em Itabaiana: comunistas e católicos apostólicos romanos. Ninguém perdia uma Santa Missão.

Existia uma unanimidade em Itabaiana: Zeca Cego era meio doido. Eu nunca acreditei!

Continua o manuscrito de Zeca Cego em outro trecho:

“No caminho da Pedreira morava Seu João Barraca, que passava o tempo lendo, sentado numa cadeira de balanço, com um pé no assento. Seu João lia muito. Entre as suas leituras preferidas estava uma velha edição do 18 de Brumário”.  

Seu João Barraca era irmão de Seu Euclides (foto), o guarda noturno, e do notório rezador Manoel Barraca, o pajé do Tabuleiro dos Caboclos. Seu João era o pai de Cosme e Damião, craques do Itabaiana.” 

Soube que o Cosme ainda é vivo!

Antônio Samarone.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O PARQUE MARITUBA



O Parque Marituba. (por Antônio Samarone)]

O decreto 40.515, publicado no DO de 22/01/2020, criou o Parque Estadual Marituba, entre os municípios da Barra dos Coqueiros e Santo Amaro.

O Parque Marituba terá uma área de 1754,33 hectares, ou seja, mais de 5 mil tarefas. Uma área significativa, para as dimensões de Sergipe. O decreto determina que as áreas particulares serão desapropriadas.

Segundo o decreto, o Parque Marituba visa proteger o ecossistema costeiro de relevância ecológica e inclui parte do aquífero Marituba.

O decreto é sucinto, não diz muita coisa. Apenas cria um Parque Estadual e revoga às disposições em contrário. (se é que existam).

Ia esquecendo, o decreto garante que o “Complexo Industrial Portuário de Sergipe” (aquele que não anda), e que fica na área do futuro Parque Marituba, continua permitido.

O que levou realmente o desinteressado governo Belivaldo a tomar essa iniciativa, eu não sei. Tudo foi muito silencioso. Espero, de boa-fé, que tenha sido mesmo “razões ambientais”.

Devem existir estudos e uma proposta detalhada do que será o Parque Estadual Marituba. Pedir que divulguem, já seria um abuso.

Espero que saia do papel!

Antônio Samarone.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O OURO BRANCO


O Ouro Branco. (por Antônio Samarone)


Em 1949, o cirurgião francês Henri Laborit usou a clorpromazina para reduzir as reações dos pacientes durante as grandes cirurgias. Laborit percebeu que quando usava doses elevadas os pacientes ficavam apáticos, indiferentes e continuavam assim após a cirurgia.

Laborit convenceu a um amigo psiquiatra a usar a clorpromazina em pacientes psicóticos. Em 1952, a clorpromazina foi usada em altas doses, via intravenosa, em um paciente psicótico agitado. O paciente sossegou e permaneceu calmo. A droga começou a reduzir a intensidade dos sintomas psicóticos e o paciente voltou à normalidade. Era quase um milagre.

A companhia farmacêutica GlaxoSmithKleine licenciou a clorpromazina e o seu faturamento triplicou em dez anos. Estava descoberto, por acaso, o primeiro medicamento eficaz contra os sintomas da esquizofrenia.

Houve uma correria das indústrias para descobrirem novos medicamentos. Em 1958, a Geigy lançou no mercado a imipramina, o primeiro tratamento eficaz contra a depressão.

Os psicotrópicos entraram em ação nas doenças mentais. Faltava um medicamento para as manias, para o transtorno bipolar.

John Cade, um médico obscuro do exército australiano, impressionado com o comportamento enlouquecido de vários soldados em decorrência da guerra, passou a estudar o assunto. Eles tremiam, gritavam e balbuciavam palavras sem sentido. John Cade achou semelhante aos sintomas da mania.

Retornando a Melbourne, John Cade achou que a mania era causada pelo o ácido úrico que se acumulava no cérebro, e que precisava usar alguma substância que neutralizasse o mesmo. O solvente escolhido foi o carbonato de lítio.

A suposição que a mania era causada pelo ácido úrico estava errada e o lítio, um metal ferroso da primeira coluna da tabela periódica, ao lado do sódio e do potássio, não se sabe até hoje como atua no organismo. Ou seja, uma experiencia destinada ao fracasso.

Porém, um resultado inesperado: o lítio mostrou-se excepcional estabilizador do humor, eficaz no tratamento do transtorno bipolar e usado com sucesso até hoje. Mesmo sem muito interesse da indústria farmacêutico. O lítio não tem patente e ainda é barato.

Em outras palavras, na medicina as vezes as coisas funcionam, mesmo sem se saber como. Sobretudo na psiquiatria.

Entretanto, a importância do milagroso lítio começou a mudar por outra razão.

O lítio tornou-se o ouro branco. Ele é o principal componente usado na fabricação de baterias. Um smartphone usa cerca de 3 gramas de lítio e um carro elétrico 20 quilos. A demanda anual por lítio deve atingir um milhão de toneladas.

Em 2025, todos os carros da China serão elétricos.

A Bolívia possui a maior jazida de lítio do mundo, em seu deserto salgado Salar de Uyuni (foto). A Bolívia é a Arábia Saudita do lítio. 

Vamos entender por que derrubaram o Evo Morales?

Estava em andamento a construção da cadeia produtiva do lítio. Ao invés de exportar o lítio como matéria prima, Evo Morales sonhou em exportar as baterias.

A direita boliviana, apoiada pelo imperialismo, pelo mercado, pela OEA, deu um golpe e derrubou o índio.

Antônio Samarone.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A QUARENTENA CHINESA


A Quarentena Chinesa. (por Antonio Samarone)

Para reduzir os riscos de propagação do coronavírus, a China pôs em quarentena 20 milhões de pessoas, nas cidades de Wuhan e Huanggang. A quarentena é uma medida antiga da saúde pública, quase bíblica.

Originalmente, quarentena era a segregação de pessoas sadias (suspeitas) por quarenta dias, para elas não disseminarem uma determinada doença. A quarentena destina-se aos sadios (suspeitos) e o isolamento aos doentes.

Por que por quarenta dias?

Quarenta é o número da espera, da propagação, da provação e do castigo. A Bíblica marca os fatos principais da salvação com esse número:

Saul, Davi e Salomão reinaram por 40 anos cada. O dilúvio durou 40 dias. Moisés é chamado por Deus aos 40 anos, passou 40 dias no Monte Sinai e demorou 40 anos para atravessar o deserto.
Os hebreus erraram por 40 anos no deserto.

Jesus pregou por 40 meses, foi conduzido ao Templo 40 dias após o nascimento, foi tentado por satanás por 40 dias e ressuscitou 40 dias após a sua chegada ao sepulcro.

Buda e Maomé começaram as suas pregações aos 40 anos.

A quaresma dura 40 dias. O resguardo pós-parto e o luto duravam 40 dias.

O costume da quarentena provém da crença que o número quarenta simboliza um ciclo de vida.

A China, com as adequações necessárias, está respeitando a tradição milenar da quarentena.

Antônio Samarone.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A PREFEITURA DE ARACAJU


A Prefeitura de Aracaju. (por Antônio Samarone)
Uma polêmica: Edvaldo Nogueira acertou em se afastar do PT, a partir do impeachment da Dilma Rousseff? A aliança do prefeito com a base bolsonaristas em Sergipe foi um bom caminho?
O principal argumento é que os cofres de Brasília se abriram a partir dessa decisão. Proporcionalmente, Aracaju foi a cidade que mais recebeu recursos federais. Ouvi de um vereador governista, no rádio, que Aracaju recebeu mais de um bilhão. Isso mesmo, um bilhão!
Sendo verdade, com um bilhão, temos poucas obras! E nenhuma estruturante. Gastar um bilhão com recapeamento asfáltico e pequenas obras pode atender as empreiteiras, mas não é o que a sociedade mais precisa.
Como cidadão, estou apenas refletindo.
Onde encontrar informações sobre esses gastos? Quanto Bolsonaro liberou e quanto custou cada obra?
Os prefeitos mudam, as empreiteiras estão sempre na Prefeitura de Aracaju. Elas sempre elegem os seus preferidos. Com raras exceções.
Por que não se consegue licitar nem a coleta de lixo, nem o transporte coletivo? O contrato precário deixa as empresas refém da politicagem.
Os candidatos a Prefeito de Aracaju precisam deixar claro qual a sua dependência do mercado.
Por que continuamos com um Plano Diretor desatualizado e com leis urbanísticas confusas? O que pode e o que não pode na esfera pública, não pode depender de quem está requerendo?
Antônio Samarone.

domingo, 19 de janeiro de 2020

OS MANUSCRITOS DE ZECA CEGO


Os manuscritos de Zeca Cego. (por Antônio Samarone)

Foram encontrados nos escombros da igreja velha, no povoado Cova da Onça, um velho caderno que se acredita ter pertencido ao mais antigo comunista de Itabaiana.

Transcrevo para os curiosos, alguns trechos soltos do manuscritos, sem pretensões de expressar um pensamento unitário, com começo meio e fim. São anotações avulsas.

Escreveu o velho Zeca Cego:

Todo revolucionário acaba como opressor ou herege.

O culto Jacobino da razão, racionalizou até a irracionalidade...

Prometeu foi o primeiro homem a rebelar-se contra os castigos divinos. Ele não aceitava a punição. Clamava o seu ódio aos deuses, voltou-se para os homens, incentivando-os a tomarem o céu de assalto.

A revolução francesa matou o Rei, a filosofia alemã matou Deus! Os jacobinos pregavam a virtude absoluta, mas foram obrigados a matar.

A filosofia de Hegel destruiu toda a transcendência. Deus estava morto, mas era preciso sepultar a moral dos princípios onde se encontrava a memória de Deus. Toda a moral se tornou provisória.
A moral e os princípios foram substituídos pelos fatos.

Darwin substituiu Linneu e Hegel substituiu toda a filosofia idealista. Era o fim da natureza humana definitiva. Através da dialética, o homem se transformou num processo em construção. O homem passou a ser uma aventura, da qual é em parte o criador.

Se não existe natureza humana, a maleabilidade é infinita. O homem pode ser tudo ou nada. Freud restabeleceu ID, o inconsciente.  

O homem aspirou a divinização, nasceu o humanismo. Segundo Hegel, a luta passou a ser pelo reconhecimento do outro. A luta só irá cessar com o reconhecimento de todos por todos. É o fim da história.

Ocorre que nada é capaz de desencorajar o apetite pela divindade no coração humano.

A consciência que, para preservar a vida animal, renuncia a vida independente é a consciência do escravo. Quem nunca leu Hegel, não entenderá Marx.

Lenin subordinou a espontaneidade das massas a teoria, baniu a moral da revolução. Ele acreditava que o poder revolucionário não precisava respeitar os dez mandamentos.

Lenin só acreditava na virtude da eficácia, combatia todas as formas sentimentais da ação revolucionária. Ele não esquecia a derrota da Comuna de Paris.

Ocorre que a revolta humana é a recusa em ser tratado como coisa, de ser reduzido a simples história. A natureza humana escapa ao mundo do poder. É uma revolta metafísica!]

Zeca Cego terminou quase místico, não perdia nem as trezenas de Santo Antônio, nem as vias-sacras, onde ele brandia com fervor a sua matraca enferrujada.

Antônio Samarone.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

GENTE SERGIPANA - LUIZ EDUARDO DE MAGALHÃES.



Gente Sergipana – Luiz Eduardo de Magalhães (82 anos)

Luiz Eduardo de Magalhães nasceu em Aracaju, em 20 de maio de 1938. Filho de Luiz Magalhães e Maria Violeta de Farias Magalhães. Filho de cearenses, numa família de seis irmãos. O pai do Canindé e a mãe da Serra de Baturité. O pai veio à Sergipe, para ocupar o cargo de Promotor em Neópolis.

Em 1944, o pai, Luiz Magalhães, foi nomeado Juiz de Direito em Itabaiana. Luiz Eduardo tinha apenas 5 anos. A formação inicial de Luiz Eduardo se deu na cidade serrana. Frequentou as escolas das professoras Terezita e Dona Candinha; e concluiu o primário com a consagrada professora Isabel Esteves de Freitas, a Dona Bebé.  

Aliás, Itabaiana deve muito a Dona Bebé.

Luiz Eduardo de Magalhães teve o privilégio de crescer numa cidade acolhedora. A família passava as férias no Bom jardim, no pé da serra, para entupir-se de Jaboticaba no sítio de Natália. As crianças viajavam em carro de boi.  

Itabaiana era uma pequena Vila de alfaiates e sapateiros, sob os cuidados médicos do Doutor Gileno Costa e a proteção religiosa do Padre Heraldo Barbosa. Doutor Gileno valia por um SUS. Se as dores de qualquer gestante surgissem de madrugada, em qualquer povoado, o Dr. Gileno partia a cavalo para fazer o parto.

Luiz Eduardo de Magalhães foi muito bem tratado em Itabaiana, era filho do Juiz de Direito.

Itabaiana era uma cidade metida a besta, com uma intelectualidade pujante, sobretudo, entre os alfaiates. Luiz Eduardo guardou na memória a grandeza de Antônio e Paulo de Dóci, Renato Mazze Lucas (médico), Zé Crispim, Nilo, Zé Martins, Zé Silveira, Josias Bittencourt (dentista), Alberto Carvalho, que lutaram pelo “O Petróleo é Nosso”, fundaram um cine clube, um clube do trabalhador no Beco Novo e simpatizavam com o Partido Comunista.

Os comunistas de Itabaiana não perdiam nem missa, nem procissão. Alguns eram da Irmandade das  Santas Almas. Todos mais ou menos cultos, grandes leitores e iniciados em música pela eterna Filarmônica Nossa Senhora da Conceição. Luiz Eduardo de Magalhães foi aluno do maestro e compositor Antônio Silva. Ficou nas primeiras notas musicais.

Luiz Eduardo de Magalhães tem a alma Itabaianense. Permaneceu apaixonado pelo Tricolor. Ainda hoje, quando alguém conta uma vantagem, um fato interessante, uma coisa assombrosa, Luiz Eduardo costuma repetir: “Eu queria que você visse era Itabaiana”.

Itabaiana não possuía ginásio. Luiz Eduardo de Magalhães foi ser interno no Colégio Jackson de Figueiredo, em Aracaju, onde concluiu o curso ginasial. No Jackson, Luiz Eduardo foi colega de turma do notável historiador Ibarê Dantas.

Luiz Eduardo estudou o científico no conceituado Liceu do Ceará, fundado em 1845. Foi morar na casa de um tio, em Fortaleza. Fez o vestibular para engenharia civil, em Campina Grande.

Fez parte na Faculdade de uma turma recheada de sergipanos. Luiz Eduardo de Magalhães foi colega de Turma de Luciano Barreto (CELI), Luiz Teixeira (NORCON) e José Carlos Silva (Cosil), as empresas que dominaram (junto com a Habitacional) a construção civil em Sergipe.

Luiz Eduardo de Magalhães teve uma vida universitária intensa, participativa, se aproximando do secular Partido Comunista. Por conta dessa militância, Luiz Eduardo foi indicado para representar o Brasil no Festival Mundial da Juventude (1962), na Finlândia. Foram dez brasileiros. O festival era o grande evento da juventude comunista no mundo.

Depois do encontro, os jovens eram convidados a conhecerem alguns países comunistas. Luiz Eduardo conheceu a Bulgária, Romênia, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental. Não gostou do que viu. Depois do festival, Luiz Eduardo esfriou com o comunismo, não era bem o que ele pensava.

Formado, o engenheiro Luiz Eduardo de Magalhães retornou à Aracaju. Ingressou no Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS), sendo em seguida transferido para o Departamento de Estrada de Rodagem (DER), participando ativamente da construção da BR – 101. Em 1967, vai para o Recife trabalhar na SUDENE.

Na SUDENE, Luiz Eduardo de Magalhães especializou-se em economia, pela CEPAL, e atuou basicamente nas áreas de planejamento e auditoria. Luiz Eduardo se casou com a portuguesa Maria de Fátima, de onde nasceram quatro filhos: João Ricardo, Paulo Renato, Carlos Henrique e Mário Jorge.

Em 1979 retornou a Aracaju. Trabalhou na NORCON. Foi Prefeito do CAMPUS da UFS, na gestão de Gilson Cajueiro de Holanda. Enveredou pelo empreendedorismo: foi proprietário de um curtume em Itaporanga (Curtimbra), e depois sócio da Cerâmica Sergipe (Escurial). Hoje atua numa pequena empresa familiar, na área de exploração de petróleo.
   
Luiz Eduardo de Magalhães, aos 82 anos, continua um intelectual ativo, de boa formação, atento a vida social, atualizado, sempre fiel a sua consciência. Há muito lidera um grupo de diletantes (CORECON) que se reúne semanalmente, para refletir sobre a realidade.

Luiz Eduardo de Magalhães é um filho do iluminismo. Crente na razão, na ciência, no humanismo e no desenvolvimento. Um otimista irrecuperável. Muito aprendi na convivência com esse ilustre sergipano, mesmo quando discordava.

Luiz Eduardo de Magalhães é membro titular da Academia Itabaianense de Letras.

Antônio Samarone.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

ANAUÊ!


Anauê! (por Antônio Samarone)

Reencontrei um velho colega, médico bem-sucedido, e travamos uma conversa demorada sobre direitos humanos no Brasil. Discordamos em quase tudo. Ele assustado com as minhas ideias e eu com as dele. A certa altura eu apelei: meu amigo, você aderiu ao fascismo?

Ele retrucou, o que você chama de fascismo? Eu fiz uma síntese. Logo percebi que fascismo para mim é uma coisa, para ele é outra. Só concordamos num ponto: a nossa conversa era um diálogo de surdos, sem chances de entendimento.

A escalada da direita no mundo (Trump, Boris Johnson, Salvine, Orbán, Netanyaru, Bolsonaro) é vista por ele como uma esperança e por mim como uma assombração. Ele aplaudiu a execução do General iraniano, Eu condenei. É o fim do diálogo?

O integralismo de Plinio Salgado (o fascismo brasileiro), com as suas esquisitices, o sigma no lugar da suástica, o anauê como saudação, o uniforme verde (galinhas verdes), as marchas, a disciplina militar, são vistas de forma caricatural. A direita atual no Brasil não assume a herança integralista, muito menos fascistas.

Esse debate está só começando. Existe uma ameaça fascista no Brasil?

No próximo dia 20 de Janeiro será lançado no Brasil uma biografia de Benito Mussolini, do escritor italiano Antônio Scurati. Uma nova abordagem sobre o fascismo, que promete facilitar o entendimento sobre a realidade atual. A entrevista de Scurati no El País, atiçou a minha curiosidade. Novas reflexões sobre o fascismo. 

A história está ou não se repetindo?

O livro já é best-seller na Itália. No site de compras do Amazon, existe fila de espera dos interessados no livro.

Uma coisa é evidente, a polarização ideológica no Brasil está em plena ebulição.

No final, falamos de futebol: ele é flamenguista e eu tricolor.

Antônio Samarone. 

domingo, 5 de janeiro de 2020

MANIA DE DOENÇAS


Mania de Doença...
(por Antonio Samarone)
Parodiando Macunaíma, “pouca saúde e muitas farmácias, são os males do Brasil”.
Quantas farmácias funcionam em Aracaju? Comecei a contar, parei em seiscentas. Todas com filas, lotadas de gente. Para vender remédios não existe tempo ruim...
Como explicar esse consumo desenfreado de drogas farmacêuticas?
Fiz uma pesquisa entre os conhecidos da minha faixa etária (acima de 60 anos), perguntando quem tinha tomado algum remédio nos últimos trinta dias. Entre 117 pessoas consultadas, 106 tinham usado e 83 tomaram mais de um medicamento. Eu consumo dois continuadamente.
A conclusão é óbvia: não existe mais ninguém sadio. Ou todos estamos doentes, ou somos todos hipocondríacos.
Historicamente, a hipocondria era incluída na classe das doenças vesânicas, como um desarranjo das faculdades intelectuais.
Hipócrates conhecia a hipocondria (séc. IV aC). O pai da medicina acreditava que a hipocondria se associava frequentemente com a melancolia. Vale a pena conhecer a descrição que ele fazia:
“O hipocondríaco melancólico parece ter em suas vísceras um espinho encravado; a náusea o atormenta; ele foge da luz e dos homens, ele ama as trevas; ele é tomado pelo medo; a caixa frênica é saltada para o exterior; sente dores quando tocado; ele tem medo, tem visões aterradoras, sonhos terríveis, e, as vezes vê os mortos. Normalmente a doença ataca na primavera.”
Galeno acreditava que a hipocondria era uma doença da alma.
O grande Thomas Sydenham (1749) achava que a hipocondria predominava entre os homens e tinha a mesma origem cerebral da histeria, esta predominante nas mulheres.
Segundo Freud, na hipocondria há a retirada do investimento libidinal dos objetos, concentrando-se no corpo a atenção às sensações aflitivas e penosas.
Schreber, paciente de Freud, apresentava um quadro de hipocondria: duvidava de seu peso, acreditava estar morto e em decomposição e afirmava que seu cérebro estava amolecendo.
No CID-10, a hipocondria está diluída em Transtornos Somatoformes e é caracterizada como uma preocupação persistente, com a presença de uma ou mais doenças graves e progressivas, por mais de seis meses. Mesmo quando existem evidências de exagero.
A hipocondria virou um termo pejorativo. Ninguém se reconhece hipocondríaco.
Os médicos, por sua vez, não vão espantar um cliente cativo, quase um freguês, dizendo que eles não padecem de nada e que estão sadios. As farmácias precisam cativar esse consumidor obsessivo de medicamentos.
Ninguém se interessa pelo sofrimento dos hipocondríacos.
É mais cômodo tratar as supostas doenças que os hipocondríacos padecem, do que perder tempo em convencê-los que estão sadios. Os hipocondríacos fogem da saúde.
Mais recentemente surgiu o hipocondríaco probabilístico. Este pode até aceitar que não tem as doenças, mas não renuncia à crença que está sob intenso risco, e que a qualquer momento as doenças aparecerão. Não custa nada começar a consumir os fármacos, preventivamente.
O desejo de antecipar o futuro é atávico.
Antigamente, procurávamos os profetas, adivinhos, pitonisas e áugures, recorríamos aos sonhos, presságios, horóscopos, vaticínios, prenúncios, búzios, cartas e bolas de cristal.
Recorremos hoje à medicina, para identificarmos as doenças antecipadamente. Centrados nas ciências, nas estatísticas e na probabilidade, os médicos encontram evidências sobre as nossas doenças futuras, através dos códigos, mensagens, sinais e riscos.
A medicina criou o hipocondríaco futurista: “Eu posso até aceitar que ainda não estou doente, mas com certeza em breve estarei.”
Está cada vez mais difícil “morrer de velho” !
Antonio Samarone.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

SERGIPE d' EL REY (2020), BICENTENÁRIO DE QUE?


Sergipe d’El Rey (2020), bicentenário de que?  (por Antônio Samarone)

Os Tupinambás já ocupavam o atual território de Sergipe por volta de 1400.

O atual território de Sergipe foi a Capitania doada a Francisco Pereira Coutinho, em 1534. A Capitania estendia-se por 50 léguas a partir do Rio São Francisco, em direção a Baia de Todos os Santos.

Com a morte de Francisco Pereira Coutinho, num ritual antropofágico na Ilha de Itaparica, a Capitania ficou abandonada, até a decisão do Rei de Portugal em comprar a Capitania a Família de Coutinho, em 1574.

Com a expulsão dos Tupinambás em 1590, a antiga Capitania de Coutinho virou a Capitania de Sergipe d’El Rey, ligada diretamente à Coroa Espanhola, como qualquer outra, segundo Ivo do Prado.
 
Quando da ocupação de Sergipe, Portugal e Espanha formavam a União Ibérica, no reinado de Felipe II. O primeiro Capitão Mor de Sergipe foi Tomé da Rocha, nomeado em 1591. A Capitania de Sergipe d’El Rei é antiga.

A Capitania de Sergipe d’El Rey foi governada por Capitães Mores, indicados pela Coroa até 1637, quando São Cristóvão foi invadida pelos holandeses e Sergipe ficou sem governo. Somente em 1648, já com a restauração e Portugal ficando independente da Espanha, foi nomeado outro Capitão Mor para Sergipe, Balthazar de Queiroz de Serqueira.

Em 1696, por decisão da Coroa portuguesa, a Capitania de Sergipe alçou a condição de Comarca. Continuou tendo Capitão Mor, Provedor de Fazenda, Guarnição de Infantaria e Ouvidor. O Soberano, para dividir as duas Comarcas (Bahia e Sergipe), estabeleceu as fronteiras de Sergipe até a Praia de Itapuã.

Contudo, na prática, a Bahia foi invadindo, tomando território, restringindo competências da Comarca de Sergipe, e em pouco tempo tornando Sergipe uma sub Capitania subordinada à Bahia. Foi disso que nos libertamos em 1820.

No Brasil, as Capitanias foram transformadas em Províncias em 1821, pelas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, no âmbito do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Como gratidão, por Sergipe ter enviado combatentes para lutar ao lado das tropas reais e derrotar a Revolução Pernambucana de 1817, El Rei D. João VI, em 08 de julho de 1820, restabeleceu a autonomia da Capitania de Sergipe d’El Rei, eliminando os vínculos com a Bahia.

Para concretizar o ato, El Rei nomeou Carlos Burlamarque o primeiro Governador da Província de Sergipe, em outubro de 1820. A Bahia reagiu e não deixou Burlamarque assumir. Somente em janeiro de 1824, com a nomeação do sergipano Manoel Fernandes da Silveira é que a Província de Sergipe começou a pensar em autonomia política.

Mesmo assim não foi lá essa autonomia toda. O Senado Federal funciona desde 1826. Os dois primeiros representantes da Província de Sergipe no Senado, José Teixeira da Mata Bacelar (1826 a 1838) e José da Costa Carvalho, o Marquês de Monte Alegre (1838 a 1860), não eram sergipanos.

O primeiro sergipano a representar a Província de Sergipe no Senado foi Antônio Dinis de Siqueira e Melo, eleito somente em 1859. Depois tivemos o Barão de Maruim, eleito em 1861, e o Barão de Estância, eleito em 1885. E só!

A elite sergipana cuidava dos seus interesses, Sergipe era um detalhe.

É esse fato histórico: o decreto de D. João VI de 1820, que completa 200 anos, em 2020. Não houve luta de Sergipanos para conquistar essa separação da Bahia, pelo contrário, parte de sua elite não queria. O Decreto real foi uma recompensa, um prêmio da Coroa, por Sergipe ter lutado ao lado das tropas reais para derrotar os irmãos pernambucanos, na Revolução de 1817.

O Hino de Sergipe é um canto de agradecimento a separação administrativa de Sergipe da Bahia.
Acho que o professor Manoel Joaquim de Oliveira Campos exagerou em louvações, no hino de Sergipe, que quase ninguém sabe cantar:

“Alegrai-vos, sergipanos
Eis que surge a mais bela aurora
Do áureo jucundo dia
Que a Sergipe honra e decora”

Menos, bem menos, professor Manoel Joaquim... A autoestima dos sergipanos por Sergipe é recente, historicamente muito recente, como dizia Luiz Antônio Barreto. Essa ideia da Sergipanidade pode ajudar.

Os únicos sergipanos inscritos no livro dos heróis da Pátria são o Cacique Tupinambá Serigy, e mais recentemente Tobias Barreto. Creio que esqueceram até de Francisco Camerino...

Não sei o que as agências oficiais vão inventar esse ano para a comemorar o bicentenário desse “jucundo dia”, como diz o nosso hino. Na verdade, A história de Sergipe precisa ser recontada...
Vamos aguardar!

Antônio Samarone.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

ESTRADA DE RODAGEM LARANJEIRAS - ITABAIANA


Estrada de Rodagem Laranjeiras – Itabaiana – Frei Paulo
(por Antônio Samarone)
A Estrada de Rodagem tardou a chegar em Itabaiana. Somente em abril de 1928, foi inaugurada a Estrada de Rodagem Laranjeiras – Itabaiana (a primeira). Foi durante o governo de Manoel Dantas (Mané Caroço) e o Secretário de Obras era Leandro Maciel, isso mesmo, o famoso líder político.
Vajam esse trecho da Coluna de Zózimo Lima, postada pelo amigo Antônio Sobrinho, em suas redes sociais, sobre as festividades de inauguração da estrada.
“Rumo a Itabaiana.
Foguetes, girândolas, arcos e bandeirolas.
Aproximamo-nos da terra do finado Zé Sebrão [José Sebrão, político itabaianense; tio do historiador Sebrão Sobrinho].
A população freme de entusiasmo.
A charanga local entoa o antigo e sempre novo dobrado “Saudades de minha terra”.
O coronel Dultra de Almeida espera-nos com uma macarronada suculenta.
O Dultra, disse-nos o Otoniel Dória [Dorinha, delegado de polícia, chefe político itabaianense], fez uma verdadeira devastação nos galinheiros da vizinhança.
Sua Excelência o presidente Manoel Dantas recebe distintas homenagens.
Sua Excelência, com aquela simplicidade, que é seu traço característico, atende a todos os reclamos.
Ele vê, perquiri, ausculta todas as necessidades e promete fazer o que estiver nas suas forças.
A comitiva tem ampla liberdade de S. Ex.ª para divertir-se à farta.
O Humberto é o peão da patuscada.
À noite, ao jantar, ele levanta um brinde às Valquírias do país de Wagner representadas na pessoa do robusto vigário local.
Há danças na casa do Dorinha e na Intendência.
O farmacêutico Florival nos martirizou com uma oração sesquipedálica [muito longa].
Tive a impressão de estar diante do frade Cisneiros [Francisco Gimenez de Cisneiro, espanhol] num tribunal do Santo Ofício.
Safa!
Aquela morena de olhos de pervinca [azuis], no baile, deixou uma chaga incurável no coração de Guilhermino.
O Teófilo mostrou que ainda é autoridade nos torneiros coreográficos.
A alegria é tanta que Humberto, o Zozimo, o Xavier, o Mecenas, o Leandro, o João Cabral e o Barroso planejam fazer o encanamento direto dos depósitos da Antártica.
O Dr. Gervásio Prata, o magistrado culto e criterioso, recebe uma manifestação carinhosa dos ilustres itinerantes.
O presidente Dantas compareceu pessoalmente.
Muito cedo, no dia seguinte, rumamos para São Paulo, via Saco do Ribeiro.
Ali a comitiva presidencial foi alvo de grandes homenagens.”
Itabaiana passava a se conectar com o mundo por meios motorizados. Antes de 1928, só através dos tropeiros e do lento carro de boi.
Esse foi o primeiro passo para o desenvolvimento econômico de Itabaiana, consolidado, com a chegada da BR – 235, em 1953.
PS: um descontentamento, Zózimo Lima no texto citado chama a nossa centenária Filarmônica de charanga, ou entendi errado?
Antônio Samarone.