sexta-feira, 31 de agosto de 2018

HOSPITAL DE CIRURGIA



Hospital de Cirurgia

Finalmente, o Governo autorizou o restabelecimento das cirurgias cardíacas pelo SUS. O estado fez um adiantamento de dinheiro para o Hospital de Cirurgia e colocou uma pessoa para tomar conta da grana. O Cirurgia perdeu a credibilidade.

O estado comprou 40 cirurgias cardíacas por mês. Como a fila é grande, se as pessoas deixarem de necessitar de novas cirurgias (claro, impossível), a fila atual será atendida em 10 meses. Muitos morrerão pelo caminho.

Não tenho dúvidas: o SUS não pode continuar dependente de hospitais “filantrópicos” que não funcionam. Transformar o HUSE em hospital de urgência e construir um Hospital Geral, na grande Aracaju, para os casos eletivos, pode ser uma boa saída. Um hospital público, que também funcione como retaguarda para o HUSE. Mesmo levando em consideração que os hospitais regionais irão começar a funcionar, repassados para consórcios municipais, um Hospital Geral será bem-vindo.

Construir mais hospitais? Já sei, vão dizer que hospital público não funciona e que não existe recursos para o custeio, para mantê-lo em funcionamento. Claro, falo num hospital bem administrado, profissionalmente, sem politicagem e sem corrupção. Quanto aos recursos, é só usar a metade do que se gasta comprando serviços a filantrópicos ineficientes. No caso de Sergipe, construir um hospital geral eletivo se faz necessário.

Por último, para aliviar as filas de espera, o Estado, com o que sobrar do combate a corrupção e do desperdício na saúde (cerca de 30% do orçamento), pode incentivar os municípios que priorizarem as suas redes básicas. O Estado pode ajudar financeiramente os municípios que quiserem investir no PSF. Por último, montar uma central pública de imagens, funcionando 24 horas; e criar uma unidade de referência para ortopedia e traumas.

Claro que não se vai resolver o caos da Saúde de uma hora para outra, mas se pode melhorar bastante. Os primeiros passos são reduzir a corrupção e enxotar os políticos da gestão. Profissionalizar a gestão. A Saúde não pode ser nem comitê político, nem caixa 2 de campanhas. 
A dificuldade: quem está disposto a botar o chocalho no gato?

Antonio Samarone.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A PESTE DO RIO GANGES EM LARANJEIRAS (1855)



A Peste do Rio Ganges em Laranjeiras (1855).

O Dr. Pedro Autran da Matta e Albuquerque Junior (1829 – 1886), natural de Pernambuco, doutor pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1854. Foi cirurgião do 6º Batalhão de caçadores da Guarda Nacional na Bahia e em Sergipe, onde clinicou.

Em Sergipe, exerceu ainda os cargos de Inspetor de Higiene, diretor do Internato Provincial da Estância, Inspetor Geral das Aulas na Província de Sergipe e tornou-se Deputado.

Deixou Sergipe para servir o exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Foi eleito membro titular da Academia Nacional de Medicina em 1862, apresentando a Memória intitulada “O tétano é uma perversão dos nervos do sentimento”.

Foi testemunha presente na maior Peste ocorrida em Sergipe: a epidemia de cholera de 1855, e nos deixou um relato real e comovente do cholera em Laranjeiras:

“Em 24 de outubro de 1855, o flagelo desse monstro nascido nas águas do Ganges, e que se ergueu com a mortalha em uma mão, e empunhando na outra a foice da morte, encarando a humanidade como o seu mais encarniçado inimigo, e fazendo a sua marcha sobre montões de cadáveres – o cholera morbus escolheu a cidade de Laranjeiras para cobri-la com o sudário, e sepultá-la num tumulo. Dois meses de terror, desespero, pranto e luto passou essa risonha cidade. Tudo parecia nela aniquilar-se.”

“Imensos foram os estragos e os prejuízos causados por esse flagelo. Quem não sofreu no coração, sofreu em seus interesses. O número de vítimas sepultados no cemitério desta cidade sobe a mais de quatro mil. O cholera trouxe um cortejo de males para Laranjeiras, depois que por misericórdia divina, se apartou saciado de flagelar seus habitantes.”

Antonio Samarone.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

AS FEBRES DO ARACAJU (DOCUMENTO)



AS FEBRES DO ARACAJU. (Antônio Samarone.)

Nos primeiros dias da instalação da capital de Sergipe em Aracaju, surgiram imensas dificuldades, entre elas, as dificuldades sanitárias. Aracaju vivia sob a ameaça da febre intermitente endêmica*, a mortalidade era elevada. (*As febres intermitentes são do grupo das febres palustres, impaludismo, sezão, maleita, malária, terçãs e quartãs.)

Em 1856, o Presidente da Província, Salvador Correia de Sá e Benevides, nomeou os drs. Guilherme Pereira Rabello e Pedro Autran da Matta Albuquerque Junior, para realizarem estudos sobre as condições higiênicas do Aracaju, visando esclarecer as causas das febres intermitentes endêmicas, a natureza das águas, e para encontrarem um local apropriado para a construção de um matadouro público.

Segue um resumo deste relatório, sobre as condições de salubridade do Aracaju, em 1856. Esse é o documento fundador da Saúde Pública em Aracaju, os seus primeiros passos.

“Localizada às margens do Rio Cotinguiba, Aracaju recebe ventos leste, leste/oeste e nordeste, os quais lançam sobre esse povoado as evaporações formadas pelas habitações, lagos e charcos. Rodeada de montanhas pelo lado poente, é o Aracaju mal arejada por aqueles lados. Só essas circunstâncias poderiam dar razão as várias moléstias que se desenvolvem por aqui.”

“Moléstias que não tem caráter epidêmicos, mas que por sua presença assídua de causas sempre as mesmas obram sem cessar. Os estupores (congestão, AVC) são frequentes no Aracaju; as moléstias catarrais; as facilidades com que as hydropesias ali se estabelecem; as frequentes supressões da transpiração cutânea, que frequentemente se convertem em febres intermitentes, porque o meio que se respira é constantemente saturado dos miasmas dos pântanos. Todos esses fatos provam eficazmente que as fortes ventilações do Aracaju não são indiferentes ao estado de saúde dos seus habitantes.”

“Muitos fatos comprovam a influência oculta de certos ventos sobre a saúde. Entre outros, lembraremos a influência do sirocco em Nápoles, que tem a propriedade de produzir nos indivíduos uma espécie de alienação mental, a ponto de ser no código penal daquela Nação uma circunstância atenuante o fato do delito ser perpetrado quando reina o sirocco.”

“A natureza do terreno do Aracaju favorece singularmente o desenvolvimento das febres intermitentes e de outras moléstias. É o Aracaju, como se sabe, assentado sobre uma planície de terreno arenoso, que apresenta muitos alagadiços e charcos, já formados pelas águas fluviais, e pelas águas salgadas por ocasião das marés grandes.”

“Este terreno embebe-se facilmente de água e mantém um estado de continua umidade, deixando perspirar através dos seus poros vapores mais ou menos malfazejos sob a impressão dos raios solares. É inútil agitar a questão sobre as causas das febres intermitentes endêmicas: hoje em dia é um fato incontroverso que estas febres reconhecem por causa os miasmas, que se depreendem das substâncias animais e vegetais em putrefação. Damo-lo, pois, como fato sem réplica.”

“Ora, em terremos baixos, arenosos e cheios de lagos como os do Aracaju, em terrenos tais em que miríades de insetos, de vermes, de peixes e de plantas, de uma vida quase efêmera se desenvolvem rapidamente, morrem e apodrecem, substituindo-se por novas gerações, que tem a mesma vida e o mesmo fim, fácil é ver que novos focos de miasmas se estabelecerão, e que o ar que se respira é constantemente saturado destes princípios maléficos, que se exalam em maior abundância, quando o calor do sol faz evaporar as águas e que subministram assim aos miasmas o seu verdadeiro condutor ou veículo.”

“A mesquinha povoação do Aracaju, que deixa a maior parte do seu terreno inculto e deserto, povoado apenas de uma vegetação selvagem, onde não se vê a mão humana. Os maus e raros abrigos que este lugar proporciona aos que vão habitar, não os protegem nem da umidade, nem das fortes ventanias. Faltam fontes limpas e asseadas, que forneçam ao povo água potável e salubre, para que estes não busquem estancar a sede com águas grossas, sujas e recosidas pelo sal, as quais são tiradas dos mais diversos buracos, ou alagadiços, chamadas de fontes.”

“Os que habitam no Aracaju atualmente, são sujeitos a muitas causas de moléstia, mormente a supressão da respiração cutânea e as febres catarrais, as quais atacando os indivíduos, que respirem constantemente um ar saturado dos miasmas dos pântanos, se convertem facilmente em febres intermitentes. Estas causas devem com mais fortes razões influir sobre aqueles que não estão afeitos a impressão das fortes ventanias, nem as umidades, nem as águas, nem a temperatura do local.”

“De tudo o que foi dito, conclui-se que as febres intermitentes endêmicas encontraram em Aracaju, elementos e disposições próprias, a seu desenvolvimento e duração. Mas este mal não será eterno, os elementos que os criam podem ser destruídos. As disposições que os favorecem podem ser convertidas em disposições em contrário.”

“Logo que Aracaju seja mais povoada, logo que abrigos saudáveis, cômodos e numerosos proporcionem segurança a população; logo que desaguem os charcos e pântanos; logo que as ruas e praças sejam calçadas com pedras; ou pelo sistema de Mac-Adam; logo que uma vegetação plantada pela mão do homem substitua essa vegetação selvagem; logo que boas fontes substituam os buracos infectos de onde se tira uma água grossa e insalubre, devemos nutrir as mais seguras e lisonjeiras esperanças que as febres intermitentes endêmicas desaparecerão, como por encanto, desse belo local em que se acha a capital da Província, que tem infelizmente encontrado nesse mal o maior estorvo ao seu progresso e engrandecimento.”

“Não desesperemos pois: o mal de que falamos não é irremediável. Se tudo não se pode fazer a um tempo afim de tornar salubre Aracaju, faça-se o que se pode, e o tempo, esse operário infatigável, que tudo vence, realizará um dia nossas tão bem fundadas esperanças. Lancemos os olhos sobre vários lugares que são hoje muito salubres tendo sido mais sujeitos do que Aracaju as febres intermitentes, e veremos quanto é bem fundado o juízo que emitimos a respeito da salubridade provável e possível do Aracaju."

“Esse trabalho seria mais completo se fosse acompanhado do resultado da análise das águas do Aracaju, mas esse exame demanda tempo e vagar que na atualidade a comissão não pode dispor. Dizemos, porém, que a qualidade das águas do Aracaju nos parece boa, e que se elas têm alguma coisa de mau provém do desasseio como são tratadas, do que de sua má qualidade. As águas do Aracaju sempre foram usadas pela população do lugar e pela da Barra dos Coqueiros, sem que se conste que dela tenha provido mal algum. As mesmas águas são usadas por lugares salubres como Porto das Redes, onde se encontram indivíduos com a idade secular.”

“Agora apresentamos, antes de indicarmos o ponto mais apropriado no Aracaju para a instalação de um matadouro público, algumas reflexões higiênicas não só sobre o local, como sobre certas condições indispensáveis para possuirmos um edifício desta ordem, que em relação as circunstâncias da Província em nada possa alterar as condições da saúde pública.”

“A importância e a utilidade para a salubridade pública de um único edifício em uma cidade, onde se matem e guardem todos os animais que servem para a sustentação alimentar de sua população, não entra mais em dúvida, e é uma dessas conquistas da higiene pública, que em quase todas as Nações da Europa tem elevado o estandarte do triunfo. Percorremos os arredores do Aracaju para encontrarmos um local adequado que preenchesse as exigências da higiene, e que fosse de fácil acesso para o gado.”

“Nessas circunstâncias, achamos que o lugar, que fica a borda do rio, além do riachão, meio quaro de légua, mais ou menos, ao Norte do Aracaju, satisfaz quase todas as exigências mais acondicionadas ao bem público. É esse o lugar que a comissão acha que de ser escolhido”. Acredito ser esse local onde é hoje a casa de festa Chica Chaves.

Esse criterioso relatório confirma a tese de Luiz Antônio Barreto de que Aracaju é um grande aterro ajardinado. Não implantamos a cidade num sítio naturalmente pronto, como Salvador e o Rio de Janeiro. Aracaju foi construída pelas mãos dos sergipanos. Palmo a palmo, aterro a aterro, as lagoas e pântanos foram sendo esvaziados pelo trabalho humano, e em seguido embelezado. Nós construímos as nossas belezas. O problema dos alagamentos é atual, a ocupação da chamada zona de expansão do Mosqueiro, passa pelas mesmas dificuldades.

Um outro aspecto da construção do Aracaju foi a permanente ameaça sanitária. O nosso espaço geográfico era benfazejo para as epidemias. As doenças epidêmicas sempre nos ameaçaram. As febres, sobretudo a malária e a tifoide, pairavam sobre o Aracaju. Sem esquecer a pestilenta epidemia de Cólera de 1855, dizimando a população. O fundador do Aracaju, Inácio Barbosa, foi vítima da malária. Hoje a preferência é pela dengue, chicungunha e zica.

A leitura do resumo não desobriga aos pesquisadores a leitura do relatório completo, que se encontra em anexo ao: “Relatório com que foi aberta a 1. sessão da undécima legislatura da Assembleia Provincial de Sergipe no dia 2 de julho de 1856 pelo excellentissimo presidente, doutor Salvador Correia de Sá e Benevides. Bahia, Typ. Carlos Poggetti, 1856.”
Antônio Samarone.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

A Medicina do Capital (a humanização da mercadoria) Parte I



A Medicina do Capital (a humanização da mercadoria) Parte I

Antonio Samarone.

O médico no Brasil, até o século XIX, segundo Lycurgo Santos, exercia um trabalho de baixo reconhecimento social: “De condição humilde, simples homens de oficio, por todo o decorrer do século XVI e ainda no XVII, são quase todos judeus, cristãos-novos ou meio-cristãos, os que vêm a exercer a profissão médico-farmacêutica. Nômades, como costumava na Europa, perambulavam de vila em vila, de povoado em povoado. Caminham léguas e léguas, chegam aonde não exista outro, a clientela aflui, praticam e ganham algum dinheiro. Ficam até que passe o sabor da novidade – um profissional na terra! – e, quando rareiam os fregueses, partem novamente para outra povoação, outro engenho, outras regiões. Uns tantos empregam-se nos serviços dos donatários, dos capitães-generais, dos senhores de engenho. Não passam de criados, serviçais de seu oficio.


A profissão médica consolida-se no século XX, assumindo características artesanais. O trabalho médico exercido em forma de cuidados artesanal, centrado na relação médico/paciente, onde os meios de produção e o saber estavam sob o seu comando dos médicos.

A medicina artesanal, fundada na anátomo clínica e no paradigma celular, foi o resultado da explosão do conhecimento científico estimulados pelo renascimento. Na medicina, tem início com o novo enfoque da anatomia dado por Andreas Vesalius (1543), tendo o seu pico com a consolidação do paradigma celular, assentado por Rudolf Virchow (1852). A medicina incorporou a revolução biológica (Louis Pasteur e Robert Koch), resultando na eficácia ao combate as pestes; a assepsia; o nascimento da clínica; o surgimento da quimioterapia (antibióticos e hormônios); a indústria farmacêutica, no pós Segunda Guerra; o laboratório; aa descoberta dos Raios X e os avanços da propedêutica.

Em linhas gerais, são esses precedentes históricos que embasaram a chamada medicina científica, e forneceu os pressupostos da medicina artesanal, que dominou a segunda metade do século XX no mundo. A prática da medicina artesanal centrava-se na relação médico/paciente (colóquio singular); na livre escolha, na confiança, pilar de sustentação; nos honorários; no segredo médico, uma prática sigilosa (letra de médico); na autonomia de conduta, fundada na casuística e na sensibilidade (arte médica); no controle do saber, da informação e dos meios de produção (posse do prontuário).

Na medicina artesanal a propedêutica e a clínica eram as principais tecnologias diagnósticas (a clínica era soberana); predominava a liberdade de formulação terapêutica (ausência dos protocolos); a singularidade de cada caso (o centro era o doente e não a doença); o exercício liberal do oficio (profissão), a medicina previdenciária submetia-se a lógica liberal; o objeto da atenção era o doente; os serviços médicos eram ofertados na forma de cuidados; forte influência filantrópica (sacerdócio); reduzidas especialidades (obstetrícia, pediatria, cirurgia, oftalmologia, ginecologia, cardiologia, psiquiatria, tisiologia), resultante da divisão social do trabalho; no predomínio das doenças contagiosas e carências (eventos agudos).

A revolução científica, fruto dos séculos XIX e XX, permitiu grandes avanços no campo das ciências médicas. O conhecimento médico e, consequentemente, a prática profissional adquiriram feições científicas, imprimindo a racionalidade objetiva com o fundamento de um novo paradigma médico. O pensamento e o ato médicos fundiram-se numa complexa combinação de empirismo, experiência cotidiana e raciocínio clínico. A consulta, a anamnese e a análise clínica passaram a ser a conduta-padrão e um bom médico, dando-lhe poder, prestígio e crédito junto ao paciente. Esse poder assume também feições econômicas.

Sérgio Arouca, em sua tese de doutorado, resumiu as características da medicina artesanal: “Entendemos que o trabalho médico se faz sob a forma de “cuidado” que comporta em sua estrutura o conhecimento médico (conhecimento científico e saber) corporificado em um nível técnico (instrumentos e condutas) e relações sociais específicas, visando ao atendimento de necessidades humanas que podem ser definidas biológica e (ou) socialmente.” A medicina artesanal foi desmontada a partir do final do século XX, devido a inadequação com a mercantilização da medicina, e na transformação desse cuidado em mercadoria.

No final do século XX a medicina passou por profundas transformações. Na esfera dos conhecimentos científicos, sobretudo nos avanços da genética (projeto genoma humano, abril 2003), transitando do paradigma celular para o molecular, estabelecendo as bases para uma nova medicina. A medicina vem incorporando outras tecnologias, que não cabem o aprofundamento nesse ensaio. O perfil epidemiológico modifica-se. O predomínio das doenças crônicas e causas externas (violência), substitui as doenças infecciosas e carências. Sem contar as transições demográficas (envelhecimento) e alimentar (obesidade).

Na nova era, segundo Haruki Murakami: “Os seres humanos não passam de portadores – vias – para os genes. Eles avançam montados em nós até nos exaurir, como seus cavalos de corrida, de geração a geração. Os genes não pensam no que constitui o bem e o mal. Não importa se estamos felizes ou infelizes. Para eles, somos apenas meios para um fim. A única coisa em que pensam é no que é o mais eficiente para eles.” Entramos na era do paradigma molecular.

A medicina se transforma num setor da economia. O capital não podia deixar a saúde, o bem mais desejado pela humanidade nas mãos amadora dos médicos. A saúde torna-se um direito, e substitui a salvação entre as aspirações humanas. O capital assenhora-se dos serviços de saúde e introduz a sua lógica. A saúde vira mercadoria. Para incorporar as características das mercadorias (impessoalidade, padronização, produção em massa), a tradicional forma de cuidados transforma-se em procedimentos, aparecem os protocolos, e o capital financeiro assume o financiamento e o controle. O primeiro ramo da saúde a assumir a forma industrial de produção foi o medicamento.

O trabalho médico foi parcelado em 4.700 procedimentos; de modo que o processo saísse do comando de um único profissional; passando oferta e o consumo dos procedimentos para a gerencia do capital; nesse caso, legitimado com a cobertura científica dos protocolos, fluxogramas, cadeias de cuidado e acreditação; teoricamente neutros, isento do interesse econômico; mas fundado em informações obtidas por uma produção cientifica financiada e comandada, em sua maioria, pelo capital das empresas produtoras de medicamentos, equipamentos e insumos médicos. Esses modelos gerenciais geralmente aumentam a produtividade e reduzem a eficácia.

A fragmentação do processo terapêutico acelera-se, cresce o número de procedimentos ofertados e multiplica-se as profissões em saúde, o que leva ao aumento do número de trabalhadores que intervém em um mesmo caso. Transforma-se numa linha de montagem descoordenada. Todos esses elementos contribuem em maior ou menor grau para a degradação do trabalho clínico. http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n4/04.pdf

Durante a fase artesanal as mudanças no processo de trabalho estavam centradas na força de trabalho, nas habilidades do médico; na fase capitalista, o centro da organização é condicionado pelos instrumentos de trabalho, os meios de produção, pelo trabalho morto incorporado a tecnologia. O capital assume o controle dos avanços tecnológicos. Na transição, a divisão do trabalho do médico em especialidades obedeceu a condicionantes técnicos; a atual divisão, cinco mil procedimentos, obedecem sobretudo às necessidades de acumulação de capital, a lógica da gerencia capitalista, visando otimizar o setor econômico.
Antonio Samarone. 

A Medicina do Capital (a humanização da mercadoria) Parte II



A Medicina do Capital (a humanização da mercadoria) Parte II

Antonio Samarone

A revolução tecnológica na medicina, sobretudo na eletrônica, engenharia genética, robótica, transmissão de dados, informática, física, biologia molecular, etc. condicionaram o surgimento de variadas profissões no setor saúde; reduzindo a centralidade do médico, que perdendo a posse dos instrumentos de trabalho, tendo sua autonomia reduzida; caminha velozmente para tornar-se um elo pouco relevante do processo de produção da atenção à saúde. Os prontuários eletrônicos, organizados com base nos protocolos, acelera a tendência ao autocuidado, as tele consultas, monitoramentos à distância, e ao uso doméstico da tecnologia.

A Telemedicina que permite uma conversa direta dos usuários com os médicos através de um Skype, com tanta facilidade e a um custo tão baixo, que chega a ser indigno pensar que precisamos importar médicos para atender a um paciente localizado em regiões carentes de atenção básica. Na Índia, a assistência médica a populações carentes está sendo solucionada através da banda larga rural, software de telemedicina e modernas unidades móveis de diagnósticos. Diante do comprovado aumento da produtividade, os Planos de Saúde estudam este caminho como forma de reduzir custos, e claro, com ampla aceitação dos consumidores devido as comodidades e por permitir tarifas econômicas. O desafio da assistência à saúde pública e privada na Índia passou a ser a universalização da conectividade.

O Conselho Federal de Medicina, visando garantir o mercado, “proíbe expressamente a realização de consultas médicas à distância”, não importando se a mesma seja feita por telefone fixo, por e-mail ou por qualquer outro formato digital (Resolução nº 1974/2011). Evidente, que a medicina comercial, quando achar necessário para os seus negócios, encontrará as formas legais de descumprir a citada proibição. Na verdade, o Conselho de Medicina emite resoluções fundadas numa ética da medicina artesanal, de quando o exercício liberal da medicina era a regra; contudo, essa postura, teoricamente fora de época, em nada impede ou dificulta a convivência harmônica do Conselho de Medicina com a medicina comercial; os conflitos ocorrem, em sua imensa maioria, com a fragilizada medicina pública.

O trabalho médico passará por profundas transformações com o avanço da regulação genética e o mapeamento universal do DNA; desenvolvimento das pesquisas com células troncos, impressão 3D, robótica, tecnologia da informação, com a digitalização dos dados sobre as pessoas integrando os vários bancos de dados, as pulseiras e dispositivos pessoais de monitoramento de indicadores de riscos, a telemedicina, o autoconsumo de procedimentos de diagnóstico e terapêutica. A tendência da indústria de equipamentos médicos é a produção de aparelhos menores para uso domiciliar. As novas tecnologias diagnósticas, terapêuticas e organizacionais aumentarão a autonomia dos pacientes ou, ao contrário, ampliarão a dependência do consumo de procedimentos?

O trabalho médico vai aprofundar a fragmentação do cuidado em milhares de procedimentos, intensificando o seu consumo centrado na lógica do mercado ou haverá o retorno à clínica, a uma nova clínica que una tecnologia e humanismo? Isso vai ter profundo impacto nos custos e na qualidade da atenção. É muito importante dar um peso político diferenciado às tecnologias leves, relacionais, as tecnologias de informática, que devem ser tratadas de uma perspectiva sistêmica e voltadas para o bem-estar e qualidade de vida.

A divisão do trabalho na saúde busca uma melhor produtividade (não para atender a necessidade de saúde da população, mas sim para buscar mais valia) o trabalhador de artesão passa a executar uma parte do produto produzido se especializando numa fração do produto, apenas uma pequena parte do trabalho, uma vez que a forma de produção assim o exige. O trabalho é dividido em certo número de etapas que vão depender da complexidade do produto. Revisar esse texto.

“Profissão é uma ocupação autorregulada, que exerce uma atividade especializada, fundamentada numa capacitação ou formação específica, com forte orientação para o ideal de servir à coletividade, norteada por princípios ético-profissionais definidos por ela mesma. Portanto, a noção de profissão está intrinsecamente vinculada à ideia de um a atividade humana que, mediante conhecimento especializado, atua em determinada realidade, visando interpretá-la, modificá-la, transformá-la para um determinado 'fim social'. A auto regulação e a autonomia prevalecem nesta relação, e são estes dois elementos que permitem que a profissão tenha a 'autonomia' para recriar realidades.” Maria Helena Machado. Essa pretensão é hoje apenas uma forma de resistência a subordinação da medicina a lógica da acumulação capitalista.

Nenhuma outra profissão exercita este poder na escala em que o faz a medicina, certamente porque nenhuma outra profissão se iguala a ela no grau de autonomia ou “auto regulação", afirma Machado (1996:32). A profissão médica é este estereótipo de profissão com alto grau de autonomia técnica (saber) e econômica (mercado de trabalho). Em outros termos, uma profissão autorregulada, com elevado e complexo corpo de conhecimento científico e controle sobre o processo de trabalho. Na opinião de Freidson (1978), a medicina é, por natureza, uma profissão de consulta, como poucas no mundo contemporâneo. ” Maria Helena Machado.

Assim, os médicos adquiriram, historicamente, o monopólio de praticar a medicina de forma exclusiva, colocando na ilegalidade e clandestinidade todos os praticantes empíricos e curiosos desse ofício.

Esse sonho de uma profissão autorregulada está sendo soterrado pela dinâmica da economia de mercado. No final do século XX, o objeto da medicina deixou de ser apenas o doente e passou a ser a vida, do nascimento ao óbito. A vida foi medicalizada. (noção de risco). O campo da saúde amplia-se além das enfermidades, para alcançar toda a vida social. A ação da medicina ultrapassou uma geração, com consequências na seleção natural e na evolução. A medicina interferiu na descendência, abrindo um capítulo para a bio-história. A medicina tornou-se um segmento da economia; integrando-se ao mercado, regendo- se por sua lógica. A Saúde entrou no campo da macroeconomia, e assumiu o caráter de mercadoria. No final do século XX, a Saúde se transformou em bem de consumo, subordinando-se as leis de mercado.

O mercado da saúde no Brasil representa 10,2% do PIB, 50 milhões de usuários, 6,8 mil hospitais, 450 mil leitos, 245 mil estabelecimentos, 12 milhões de empregos diretos e indiretos, 394 mil médicos, 1,6 milhões de profissionais de enfermagem, 18 mil laboratórios; 8º maior mercado de Saúde do Mundo, movimentando anualmente cerca de R$ 570 bilhões. Cresce em média 7,6%, nos últimos dez anos.
Antonio Samarone.

A Medicina do Capital (a humanização da mercadoria) Parte III


A Medicina do Capital (a humanização da mercadoria) Parte III

Antonio Samarone

CONTINUAÇÃO...


A revolução tecnológica, do final do século XX, tem provocado mudanças significativas tanto nos saberes como nas práticas da profissão médica. A autonomia técnica, o poder de decisão, a relação médico-paciente, a tradicional hegemonia médica nas equipes de saúde, o domínio e conhecimento globalizante do corpo humano, bem como o prestígio e status quo dos médicos sofreram abalos importantes, alterando não só a dinâmica interna da profissão como, e especialmente, a nova visão social que a sociedade passa a produzir sobre os médicos em geral.

A subdivisão do cuidado médico em procedimentos obedece ao modelo taylorista-fordista, o trabalho é dividido em diversas sub-especialidades, fracionando as tarefas em 4.600 procedimentos, padronizando as intervenções, reduzindo o papel intelectual do médico, aumentando a produtividade; passando o comando para o Capital. Uma linha de desmontagem do corpo humano, coordenada pelo lucro.

Preocupados com valorização do seu trabalho, os médicos brasileiros encontraram nos procedimentos a forma de divisão do trabalho ajustada ao mercado da Saúde. Se a especialização da fase anterior foi uma divisão social e técnica do trabalho médico, em parte determinada pela elevada complexidade do setor; a subdivisão em procedimentos, uma espécie de linha de montagem descoordenada, obedeceu unicamente às necessidades de faturamento do mercado.

O fim da clínica? A oferta de procedimentos diagnósticos reduziu o papel da propedêutica no trabalho médico. Os exames laboratoriais bioquímicos, hematológicos, biologia molecular, genético, microbiológico, toxicológico, os recursos diagnósticos da medicina nuclear, os exames anatomopatológicos, citopatológicos, a endoscopia, os testes eletrofisiológicos, entre outros, e de maior aceitação no mercado da saúde, os centrados nas imagens (RX, ultrassom, tomografia computadorizadas e a ressonância magnética). Com o advento do paradigma molecular, a patologia perde espaço.

As mudanças da prática médica, com a transformação do cuidado em mercadoria, do paciente em cliente, consumidor, usuário, solaparam as frágeis bases humanistas da medicina. A nova realidade assustou os remanescestes da medicina artesanal, que iniciaram um movimento, através do Conselho Federal de Medicina (CFM), ainda tímido, de introduzir no ensino médico disciplinas de humanidades, numa desesperada forma de resistência.

A medicina mercantilizada, apesar do brilho tecnológico, apresenta problemas que podem agravar o perfil epidemiológico. É mais um sistema de doenças que de saúde. A medicina comercial possui baixo impacto no perfil epidemiológico; custos elevados; desigualdade no acesso ao consumo dos procedimentos; baixa satisfação da clientela; redução do papel dos médicos, viram operadores de tecnologias;

Existem resistências a subordinação da medicina ao capital, sobretudo na perda de autonomia dos médicos. Uma das sublimações é o revestimento da prática com o véu da ciência. A escola médica está montada para transformar o médico num mascate da ciência. Uma medicina voltada para ciência é o lenitivo para a sua desumanização. A ciência, como as mercadorias, é impessoal.

Em que consiste essa busca de uma humanização perdida? Um retorno romântico para a medicina artesanal ou a criação de novas práticas para a medicina comercial? Quais são as novas utopias? O modelo artesanal produziu as narrativas de uma medicina social, coletiva, na montagem de Sistemas Nacionais de Saúde, públicos, de acesso universal e gratuito. A utopia era o SUS como está no papel.

A questão caminha para uma impossibilidade, como humanizar as mercadorias. Contudo, como a esperança não morre, ou é a última, surgem novos caminhos. As novas tecnologias, sobretudo as de informação, tanto podem ser instrumento de implementação dos lucros e de controle social; como do estabelecimento da autonomia dos pacientes. Ou evoluímos para a autonomia das pessoas, do indivíduo, cada um será o comandante do seu corpo, numa medicina personalizada e individualizada. O novo médico seria parceiro dessa mudança, perderia poderes e ganharia e ganharia importância para os pacientes. Estamos falando de uma medicina voltada para os pacientes.

Em outros tempos, os médicos cuidavam dos doentes, sua principal missão era aliviar o sofrimento humano. Estabelecia com a sua clientela uma relação fraterna e de confiança, chamada pretensiosamente de “colóquio singular”. A recompensa não era pagamento, remuneração, salário, vencimento, nada que parecesse comércio, poeticamente, os médicos recebiam honorários, aquilo que honra a quem recebe. Era comum o “Deus lhe pague”, o “abaixo de Deus, o senhor”, e todo o médico tinha um horário em sua agenda para a filantropia. Com frequência, os pacientes demonstravam sua gratidão com mimos: - “doutor, engordei esse capão para o senhor”.

A atual humanização não significa um retorno a essa medicina do século XX. Os caminhos são outros. A genética nos reduziu a individualidade biológica. O humanismo possível numa medicina mercantilizada é a luta pela autonomia dos pacientes, que eles passem a ter o comando dos seus corpos, de sua saúde e de suas doenças. Já que a sociedade nos atomizou, pelo menos cada um decida sobre a sua forma de viver e morrer. Entre uma medicina voltada para o capital, ou voltada para ciência, a utopia consiste apenas na construção de uma medicina voltada para o ser humano, personalizada, para os pacientes. Sem abrir mão das novas tecnologias.

A utopia sanitária do século XXI, compatível com a medicina de mercado, é auto melhoramento individual, autodisciplinado na procura de saúde. A ênfase na autonomia individual está ligada à desmontagem do Estado assistencialista que trata os indivíduos dependentes com desconfiança, como “parasitas sociais”. Esse é o sonho do liberalismo. E as esquerdas acham o que? Estamos pensando...

Antonio Samarone.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A FEBRE DO NOVO



A febre do novo. (Por Antonio Samarone)

Li os programas e assisti ao debate entre os candidatos ao governo de Sergipe. Estou convencido: todos querem mudar tudo e passar Sergipe a limpo. As perguntas e as respostas são as mesmas, independente da coloração ideológica. Formou-se um grande consenso. As ideologias foram temporariamente sepultadas. Como dizia o Velho: “Tudo o que era sólido se desmanchou no ar”.

Jornalistas e plateia puderam perguntar aos candidatos. Quem esperava novidades quebrou a cara, o mesmo senso comum, as mesmas obviedades. A sensação é que os que nos botaram nessa enrascada não estão mais por aqui. Uma pessoa que há pouco era Secretário de Segurança se apresenta detonando a segurança pública, e vai fundo, diz que sabe como resolver.

Tem de tudo. De gente que está na política há 30 anos e que já ocupou todos os cargos, a quem nunca teve a menor experiência. O que eles têm em comum? A crença que são o novo, e que a história vai recomeçar com eles. Os diagnósticos sobre a realidade são peremptórios: estamos diante do caos, nada funciona... Alguns insistem que estão na disputa política, mas que não são políticos. Outros assume que são políticos, mas tão novos e diferenciados, quem nem parecem políticos.

Tem candidato que acredita possuir saídas técnicas para todos os problemas. Não se intimida. Está convencido que vai resolver. O desemprego, as drogas, o sarampo, a evasão escolar, estão com os dias contados. Chegou a dizer que vai criar 10 mil empregos com a reciclagem do lixo, e parecia acreditar.

O mercado das ideias está desabastecido. Qualquer que seja o problema, saúde, segurança, desemprego, as saídas são parecidas. A profunda diversidade entre os candidatos é unificada nos projetos e nas ideias. Todos enxergam a mesma saída. Nada que um defenda que o outro não possa defender. Claro, com exceção de algumas excentricidades.

Todos são novos, ninguém defende o que existe. Nem o candidato que o seu grupo está no governo há 12 anos defende o governo. O programa de Belivaldo faz duras críticas ao governo Belivaldo. É como se dissesse: me suportem até 31 de janeiro, que a partir de 2019 começa um novo mundo, cheio de mudanças e de soluções. E o mais grave, Belivaldo acredita que ele próprio será outro em janeiro. O réveillon será um rito de passagem.

Mas as eleições estão chegando e precisamos votar. Cada um faça a sua escolha. Eu já decidi: não voto em candidatos envolvidos em ladroagem, nem em quem já teve oportunidades de mudar e não mudou, nem em salvadores da pátria, nem em quem acredita que só ele é puro, nem em quem pensa que tem a solução para tudo. Tenho receio dos “não políticos”, me cheira a oportunismo ou ingenuidade.

Estou convencido, pode demorar, mas vamos sair do atoleiro.

Antonio Samarone.