quarta-feira, 27 de junho de 2018

QUEM É O ITABAIANENSE?



Quem é o Itabaianense?  

Itabaiana primeiro foi Arraial, depois a Freguesia de Santo Antônio e Almas de Itabaiana (1675), e finalmente Villa, em 1697, como nos ensinou Vladimir Carvalho. Itabaiana foi Aldeia por trezentos anos. Só virou cidade no final do Dezenove, em agosto de 1888. A cultura viveu sob a tutela da igreja. Na primeira metade do século XX, foi uma cidade rural, sufocada pela pobreza. O grupo escolar só chegou em 1936. Ganhou o status de celeiro de Sergipe.

Com a chegada da BR-235, década de 1950, explodiu os transportes e o comércio. Itabaiana se transformou num empório. Passou a correr dinheiro e atraiu muita gente. A guerra comercial comandou a política. A Igreja reduziu a sua influência. Chegou o capitalismo mercantil. A cultura limitava-se a Chegança de Zé de Abiné, a Miguel Teixeira e Joãozinho retratista e a banda de Antônio Melo, com os seus dobrados de procissão. Destaque para Zeca Mesquita, trouxe a luz elétrica o cinema, rádio, TV, serviço auto falante e carro de passeio. Antes da Associação Atlética, a sua residência era usada para recepcionar as personalidades que visitavam Itabaiana. 

Na década de 1960, a política explodiu em violência. O futebol assumiu o papel de coesão social. A autoestima do Itabaianense disparou. O comercio cresceu (do ouro a castanha), e a cadeia do transporte (caminhões, oficinas, autopeças, etc.), virou o pilar da economia. Nasceu a vida urbana. Do Arraial a metrópole regional, só Santo Antônio é o mesmo.

No Século XXI, Itabaiana está deixando de ser somente um empório e buscando a modernização. A cultura procura os seus espaços. Academia de letras, universidades, feira de livros, associação de peregrinos, grupos de ciclistas, orquestra sinfônica, teatro, dança, artes plásticas, imprensa atuante, etc. Nessa fase, destaco a visão cultural de alguns empresários: Edson Passos, Carlos Eloy, Jamysson Machado, Ricardo de Francisquinho, Messias Peixoto, Honorino Junior, Fefi, Vicente do Capunga, quem mais?

Em sua longa história, Itabaiana consolidou quatro emblemas: Santo Antônio, a Filarmônica, a Associação Olímpica e os Caminhoneiros...

Antonio Samarone.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O CID-11 ESTÁ NO FORNO.



Uma nova Classificação Internacional das Doenças (CID-11) está no forno.

A primeira Classificação Internacional das Doenças (CID) foi adotada em 1898, e relacionava 77 causas de morte. A partir da sexta revisão (1948) a revisão da CID ficou a cargo da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Até a quinta revisão (1938), somente estava incluída as doenças que causavam a morte. A partir da sexta revisão (1948), a CID passou a relacionar todas as doenças, inclusive lesões e sintomas.

A última revisão (CID-10), foi aprovada em outubro de 1989, em Genebra, com a presença de delegações de 43 países. A nona revisão (CID-9) foi de 1975.

A OMS já apresentou a nova Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados a Saúde (CID 11). A aprovação está prevista para a maio de 2019, durante a Conferência Mundial de Saúde, e entrará em vigor em janeiro de 2022.

Antonio Samarone.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

SERGIPE PROFUNDO - A FESTA DE CATULINO DA JABÁ.



Sergipe Profundo – A festa de Catulino da jabá.

O São João na casa de Catulino da Jabá e Dona Josefa, no Sitio Porto, tem uma tradição de duzentos anos. A festa começou com os avós de Catulino, falecido em 2006, aos 97 anos. Hoje quem comanda é a família, sob a batuta do professor João Patola. É uma festa com convidados, mas quem chegar come, e ainda leva meia dúzia de pés-de-moleque. A festa é aberta. Aqui não existem penetras, todos são bem-vindos. 

O Sítio Porto sempre foi um povoado importante em Itabaiana, onde, além de Catulino, moravam Maria Carreiro; Seu Brasiliano e João Marinheiro. Hoje, o Porto está nas beiradas da cidade.

A festa de São João de Catulino começou cedo. No dia de Santo Antônio, a mandioca, plantada um ano antes, foi arrancada e colocada para pubar, em grandes potes, por sete dias. Esse ritual de fermentação da mandioca é uma herança dos Tupinambá, o mesmo do fabrico do Cauim. O cheiro vai longe.

Hoje (21/06), foi o dia de tirar a mandioca puba dos vasos, separar a casca, o talo, outras impurezas. A massa branca, úmida e cheirosa, foi levada para as urupemas, onde pacientemente será amassada, num ritual alegre de estórias e cantigas. Aqui consolida-se a tradição. Literalmente, todos “metem a mão na massa”, num trabalho duro e cansativo. Todos são voluntários. As estórias são deliciosas.

Separada da crueira, a massa puba será colocada em sacos e pendurada, para escorrer o excesso de líquido. Amanhã, dia 22, estará pronta. No dia 23, pela madrugada, as guloseimas serão preparas. Começa com o mingau de puba, apreciado e bem servido. Os bolos, manuês, beijus, pés-de-moleque (tradição árabe), são assados a moda antiga, em fornos de barros, aquecidos a lenha. A palha de bananeira para enrolar os pés-de-moleque vem da Moita Bonita. No dia 23, de manhãzinha, estará tudo pronto. É são João.

A festa de Catulino ainda terá jabá com farinha, uma antiga tradição dos ceboleiros, desde os tempos em que a jabá chegava em fardos de 230 kg. O boi vinha inteiro. Aquela jabá que ficava em mantas sobre os balcões das bodegas, e era consumida crua, como tira-gosto de cachaça.

No dia de São João, os convidados e os demais conhecidos aparecem. É uma festa da família de seu Catulino e dona Josefa. Foram dez dia de longa preparação. Tudo feito do mesmo jeito há duzentos anos. Miguel de Catulino é quem guarda o segredo das receitas e comanda os temperos. Ninguém mexe nada antes dele chegar. Quem quiser conferi o São João na Roça, eu tenho alguns convites.

Antonio Samarone.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

RESPEITEM ALMIR SANTANA



Respeitem Almir Santana

A trajetória de Almir Santana na Saúde Pública de Sergipe é quase unanimidade. Um missionário dedicado ao combate das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). Ou alguém discorda? O mais grave, não só discorda como põe obstáculos ao exercício de suas atividades.

Vamos ao fato: o Dr. Almir Santana, como a lei permite, tem dois vínculos públicos, com o estado e com o município de Aracaju. No inicio do ano, a gestão municipal resolveu lotar o doutor Almir no atendimento ambulatorial da rede básica. Guardando as proporções, seria como lotar Oswaldo Cruz numa Unidade Básica para fazer consultas individuais. Um decisão sem respaldo técnico administrativo.

Claro, sabemos da importância da atenção básica, do valor dos profissionais que estão na labuta atendendo a população. Não é isso. O absurdo é o mesmo que transferir um médico da família experiente para a urgência de um pronto socorro. A experiência de mais de trinta anos de Almir Santana no combate as DSTs em Sergipe não pode ser ignorada, esquecida, o seu valor diminuído. O grave, é que pareceu punição, a transferência inadequada de Almir Santana.

Por razões óbvias, Almir Santana recusou a tarefa. Como consequência, foi colocado à disposição do estado. Nesses trâmites, ele está a seis meses sem receber salários do município. Soube que ontem, o estado assinou o decreto com o seu acolhimento, e as consequências do ato municipal serão minimizadas.

Gente, juízo! Sei da soberba que acomete quem frequenta o poder, salvo exceções. Almir Santana é um patrimônio de nossa combalida Saúde Pública, com relevantes serviços prestados a nossa população, sobretudo a frações discriminadas. Ele nunca buscou privilégios, sinecuras ou vantagens indevidas.

O povo pobre de Aracaju precisa de Almir Santana, no que ele sabe fazer de melhor: prevenção e promoção da saúde, em especial das DSTs; na capacitação profissional, usando a sua larga experiência de professor.          
Antonio Samarone.

terça-feira, 19 de junho de 2018

A SAÚDE EM SERGIPE AINDA TEM JEITO?



A Saúde ainda tem jeito em Sergipe?

Existe um consenso, a precariedade da Saúde no Estado de Sergipe. Ao lado da segurança pública, a Saúde ostenta a liderança das insatisfações.

Como tirar a Saúde do buraco? É preciso evitar duas simplificações: que existem saídas fáceis; ou que não tem jeito. O Estado gasta mais de 1 bilhão por ano. É suficiente? Para oferecer o atual padrão de serviços é muito, para prestar um serviço descente é pouco. Entretanto, sem uma gestão profissionalizada, botar mais recursos, é jogar dinheiro fora e aquecer a corrupção.

Não existem nem receitas prontas, nem salvadores da pátria. Depende de decisão política e coragem, para se romper com interesses poderosos, em várias frentes. A resposta não seria imediata, resistências e boicotes surgiriam. Contudo, a restauração da Saúde requer providências iniciais, para se construir uma plataforma necessária:

a)       Gestão profissionalizada – afastar imediatamente as indicações sem critérios dos políticos. Por fim ao loteamento dos cargos, o vergonhoso aparelhamento da Saúde. Isso é possível?

b)      Regulação técnica e pública – por fim ao acesso aos serviços, cirurgias e exames, por intermediação política. Acabar com os furas filas.

c)       Transparência – tornar público os contratos. Informar on-line quanto se paga, a quem, e quais os serviços são prestados. Único caminho para reduzir a corrupção.

d)      Controle informatizado e on-line de pessoal e insumos. Imediata implantação do prontuário eletrônico.

e)      Priorização da rede básica.

Isso feito, inicia-se o planejamento das ações, centrado na epidemiologia e na participação social. A médio e longo prazo, apareceriam os resultados. É uma mudança cultural profunda, inclusive dos usuários e profissionais da saúde. É possível, mas nada fácil.

Claro, não estou falando desse final de governo, onde quase tudo já está a serviço da disputa eleitoral. Eu falo quase tudo. Raríssimo o setor da Saúde sem um donatário político. Aguardo os programas dos candidatos ao governo, nas próximas eleições.

Antonio Samarone.

sábado, 16 de junho de 2018

OS MILAGRES DE LAMPIÃO



Os milagres de Lampião

Apareceu no povoado Parapitinga um menino de nove anos, que já nasceu sabendo aboiar, escrever poesia de cordel, é repentista, conhece e canta todo o repertório de Luiz Gonzaga e se diz reencarnação do Capitão Virgulino. O Sertão setentrional está em rebuliço. Uns já estão dizendo que estava previsto, como Lampião não foi aceito no Inferno, nem está no Céu, que ele voltaria. O Frei Afrânio, seguidor do Padre Cícero, ainda está desconfiado, achando tudo muito estranho. A verdade é que a boataria está tomando corpo.

Eu não tenho porque duvidar. O poeta José Pacheco encerrou o seu cordel sobre a chegada de Lampião no Inferno de forma esclarecedora: Leitores, vou terminar/tratando de Lampião/muito embora que não possa/vou dar a explicação/no inferno não ficou/no céu também não entrou/por certo está no sertão.

Não tomem como surpresa se daqui a pouco aparecer gente relatando milagres, as coisas começam assim. Daí para aparecer seguidores, fanáticos e devotos é um pulo. Aliás, já existe um cangaceiro do bando de Lampião que virou santo, em Mossoró, RN. Trata-se de José Leite de Santana, vulgo São Jararaca. O túmulo dele fica no Cemitério São Sebastião, e é o mais visitado nos dias de finados. Procurem no Google, para confirmar.

Por aqui, Saracura conta que Robério Santos já localizou o túmulo da cangaceira Lídia, citado nos escritos de Luiz Antônio Barreto, e que já foi foco de romaria. Do jeito que as coisas andam, não tomem como surpresa se esse menino (encarnação de Lampião) começar a operar milagres nesse desertão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Segundo estudos de Max Silva de Oliveira, “um dos aspectos marcantes da personalidade contraditória de Lampião era a sua religiosidade, apesar de sua vida de cangaceiro e das influências brutalizantes do cangaço, Lampião nunca abandonou a sua fé e devoção em Deus, nos santos da igreja católica,  e também no Padre Cícero Romão do Juazeiro do Norte que para ele, era um homem santo.”

Li numa tese acadêmica de Eraldo Tavares, que “Lampião mantinha relações com anjos e santos, rezava todos os dias e acreditava em forças ocultas e em sonhos. Nunca buscou fugir às regras em que foi educado desde criança pela sua mãe e pela sua avó que foram as responsáveis pela sua formação religiosa. Era devoto de alguns santos, em especial de Nossa Senhora da Conceição.”

Do jeito que as coisas andam, não tomem como surpresa se algum militante do movimento Cariri Cangaço, apresentar uma petição ao Vaticano solicitando a beatificação de Virgulino.

Antonio Samarone.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A HAGIOGRAFIA E A MEDICINA



A hagiografia e a medicina...

Lendo sobre a vida de Santa Catarina de Siena (1347 – 1380), observo que ela se tornou santa, basicamente, alimentando-se de pão e ervas. Ainda adolescente, adotou uma dieta rigorosa de emagrecimento, rejeitava outros alimentos, e recorria ao vômito quando lhe forçavam comer. Encontrava-se e conversava regularmente com Jesus Cristo.

Apesar do jejum rigoroso, Catarina possuía grande vitalidade, era uma incansável. Duas suspeitas na época: ou estava possuída pelo demônio, era uma bruxa; ou tinha recebido as graças divinas, era uma Santa. Prevaleceu a segunda opção.

A mesma Catarina na era vitoriana, final do século XIX, seria diagnosticada e tratada pela medicina como portadora de uma síndrome histérica. Agora, com os “avanços científicos” da medicina pôs moderna, a mesma Catarina seria portadora de um transtorno alimentar (F50, do CID), com sintomas psicóticos. Santa Catarina seria uma cliente da psiquiatria e da indústria farmacêutica. Viva Santa Catarina...

Antônio Samarone.