segunda-feira, 10 de abril de 2023

O PAPA-TERRA

 O papa-terra.
(por Antonio Samarone)

Severino, aos onze anos, andava pelos cantos comendo barro. A molecada não perdoava: Ensogado, amarelo igual a rã de faveira, empapuçado, inchadinho.

Na escola do professor Orion, todos se achavam no direito de zomba-lo.

Ele sempre que podia levava na brincadeira. Sorridente, atencioso, educado, mas quando se zangava, saísse de baixo. Eu gostava dele.

Reconheço que de vez em quando eu também tirava onda. Em terra de sapos, de cócoras com eles.

Ainda não existia o bullying, ou se existia, ninguém sabia. Na verdade, não existia a consciência do bullying. As relações sociais em minha Aldeia eram mediadas pela violência.

Severino não era um coitadinho, andava com um canivete amolado e não pestanejava. Tinha a língua afiada. De vez em quando, reagia as zombarias com firmeza. Contra-atacava.

Severino professava uma filosofia: “atrás dos apedrejados, correm as pedras.” Portanto, ele tentava fazer de conta que não era com ele. Até certo ponto.

Lembro-me de Severino brincando de “pinta rainha” e “sola mingola”, escutando as estórias de Trancoso contadas por dona Gemelice, a rezadeira.

Se não bastasse, o pai de Severino, seu Júlio, era um homem rigoroso. Achava que o vício dele era intolerável. Não é fome, só pode ser safadeza. A desculpa do papa-terra é o pau não ter oco. Os castigos eram medonhos. O vicio conduz ao precipício, pensava seu Júlio.

Entretanto, uma força estranha empurrava Severino para a geofagia. A vigilância não impedia. Ele passou a comer terra escondido.

Só na Faculdade, descobri que Severino padecia do amarelão, uma verminose causada pelos nematelmintos ancylóstoma ou necator. O organismo de Severino precisava de ferro. Ele não tinha saída.

Severino comeu um tampado de terra, más sobreviveu ao amarelão e a crueldade dos amigos.

Era o ambiente cultural de minha infância. A compaixão era reprimida.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

A ROTA DAS ESPECIARIAS

 A Rota das Especiarias.
(por Antonio Samarone)

A banca de especiarias da feira do Augusto Franco (foto) é sortida de histórias e tradições. São 72 variedades de species.

Especiarias são partes de certas plantas (raízes, rizomas, cascas, bulbos, folhas, caules, flores, frutos e sementes) em estado natural, secas e/ou objeto de elaboração mecânica que por seu sabor ou aroma característicos dão sabor aos alimentos.

As especiarias eram mercadorias caras e importadas, e o seu consumo denotava riqueza. Cravo da Índia, canela da China e pimenta do Reino. Gengibre, Pichilin e noz moscada da Malásia.

Depois da tomada de Constantinopla pelos turcos (1453), a Europa se movimentou para dobrar o Cabo das Tormentas, e encontrar um caminho marítimo para as Índias, em busca das especiarias.

Colombo descobriu a América, procurando um caminho novo para as Índias pelo Oeste, em busca de ouro e especiarias. Vasco da Gama chegou as Índias pelo Leste.

A rota da seda também foi a rota das especiarias. As sementes do Império movimentaram o mundo.

Especiarias vem do latim species (variedades). Os temperos como species antecederam a Lineu, que também usou “species” na classificação biológica dos seres vivos.

Somos a espécie humana (Homo sapiens), por enquanto.

Hoje as especiarias chamam-se temperos.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

EU CONFESSO

 Eu confesso?
(por Antonio Samarone)

Não posso deixar de falar sobre o que tenho visto e ouvido.

Segundo o IBGE, a expectativa de vida aos 68 anos (o meu caso), é de 17 anos. É com esse tempo que posso planejar o futuro. É o que me resta.

Não estou reclamando!

O que fazer com esses 17 anos? O meu corpo não reconhece essa previsão da estatística e já está amuando. Ele possui os seus próprios desígnios. A medicina se oferece em vão, para mantê-lo azeitado. Nos impõe restrições e sofrimentos, sem os resultados prometidos.

O corpo está programado para a dissolução (cadáver adiado), para retornar ao pó, como ensinam a doutrina e a vida. A hora é de contarmos o que vimos e ouvimos, com a memória.

O homem começou a falar a uns 70 mil anos. A linguagem foi o encanto do Cro-Magnon. A bíblia cristã começa a vida com a fala. No princípio era o verbo! Antes era o gesto. Ninguém discursa com os brações amarrados.

A cultura entra pelo ouvido. A escrita é posterior. Os Acádios derrotaram os sumérios e formaram o primeiro Império. São conhecidos, por terem deixado tudo escrito, em tabuletas de barro. Viveram na Mesopotâmia.

Depois que os fenícios inventaram o alfabeto, a cultura tomou a forma humana.

Ontem conversei com Jorge Carvalho, um velho amigo, sobre novas trilhas. Vovas viagens de exploração da Expedição Serigy. Um consenso: trilhas que não exijam esforço físico. O corpo já pede descanso, desde que não seja o eterno. E a alma, como diz a canção, pede um pouco mais de paciência.

É preciso acreditar em ilusões, sem elas, a vida acaba.

Acredito na imortalidade, na versão de Jorge Luís Borges. A imortalidade do espírito universal.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

MAIS MÉDICOS E MENOS POLITICAGEM

 Mais médicos e menos politicagem.
(por Antonio Samarone)

Novamente as entidades médicas erram ao atacarem o programa “mais médicos”. A pretensão de levar a medicina aos pobres é inaceitável para eles.

A reação é de paixão ideológica!

A medicina de mercado não é economicamente afetada com o “mais médico, mesmo assim eles não aceitam. O argumento principal é que estão preservando a qualidade da medicina.

Como assim, o que seria uma boa medicina?

A imagem de que a boa medicina é a que incorpora tecnologias sofisticadas de alto custos é dominante, fortalecida pelo manto da pseudociência.

A medicina de mercado é por natureza uma biomedicina, única forma que permite transformar o cuidado médico em mercadoria: ou seja, em um cuidado impessoal, padronizado e passível de quantificação, garantindo a produtividade e o lucro.

O mercado não lida com empatia, acolhimento, proteção, afeto, solidariedade. O mercado cuida do corpo físico, ao seu modo, e oferece procedimentos. A atenção espiritual, psíquica, social, o sofrimento, o medo, a solidão dos doentes não é objeto da medicina de mercado.

A medicina humanizada não gera lucros e não pode ser padronizada, quantificada e impessoalizada.

Eles sabem, mas fingem que não sabem, que existem outras medicinas. A medicina de mercado, apesar de hegemônica, não é a única. Cada medicina usa a ciência a seu modo e de acordo com os seus objetivos.

Existem charlatões em todas elas, más nenhuma medicina nega a ciência. Cada medicina adapta a ciência aos seus objetivos e usa o nome da ciência em vão.

As medicinas holísticas ultrapassam a fronteira do corpo, levam em conta as pessoas, com as suas histórias e as suas crenças. Somos entes e seres, corpo e alma, matéria e espírito. A ciência cuida dos fenômenos materiais.

A transcendência é parte da vida e não é objeto das ciências, está na esfera da filosofia, teologia e arte.

A medicina humanizada não despreza a biomedicina, a medicina do corpo. Ela é útil e necessária. O corpo é perecível e caminha para a decomposição. Precisa dos cuidados da medicina. Mas não é só isso. O sofrimento humano ultrapassa o corpo, e outros aspectos da vida são afetados (social, afetivo, psicológico, religioso, existencial).

Os mesmo que negam o “mais médicos” em nome de uma medicina de “qualidade”, defenderam recentemente a cloroquina como prevenção da Covid-19, subestimaram as vacinas e a quarentena.

Gente, as entidades médicas ao assumirem um discurso político ideológico, reduzem a sua legitimidade social.

Na verdade, defendo SUS como um sistema universal, público e gratuito, mas enquanto isso não chega, o mais médico pode aliviar muitos sofrimentos.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

A VITÓRIA DO EMPREENDEDORISMO

 A vitória do empreendedorismo.
(por Antonio Samarone)

Rabelo era um dos demitidos da Petrobras, em Sergipe. Casado, 3 filhos, 62 anos, formação universitária e desempregado a seis anos. Sobrevivia com o salário da esposa, professora da rede municipal, em Aracaju.

Rabelo perdeu a saúde e a autoestima. Sem esperança em um novo emprego, foi trabalhar por conta própria. Colocou o seu carro na rua e foi rodar como Uber. Se matava, chegou a trabalhar 16 horas sem parar.

Queria mostrar dignidade aos filhos.

Por último, todo passageiro que pegava o carro dele, era levado para a rua do Acre, antiga sede da Petrobras. Virou um obsessão.

Rabelo emagreceu, tinha uma aparência de 80 anos. Barba crescida, olhos fundos, trajes descuidados.

Rabelo virou o maluco do Uber. Foi descredenciado pela empresa.

Ontem, recebi a notícia que Rabelo cometeu o suicídio. Matou-se a moda antiga, enforcou-se.

A psiquiatria de mercado acredita que a depressão, a ansiedade e o sofrimento mental resultam do déficit de certas substâncias no cérebro, sem ligação com o modo de vida.

A OMS definiu a Síndrome de Burnout (esgotamento), como stress crônico no local de trabalho.

O termo burn out é antigo, surgiu na década de 1960, no movimento de contra cultura. Era a ideia de alguém em chamas, se consumindo por dentro. – Camille Lichotti.

E agora? Por onde andam os bons advogados. Está claro, foi um suicídio ocupacional.

A dificuldade é encontrar um psiquiatra que registre esse fato num laudo pericial.

Rabelo, literalmente, só descansou com a morte.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

O DIREITO DAS CRIANÇAS

 O direito das crianças.
(por Antonio Samarone)

As crianças do meu tempo eram educadas pelo espancamento.

No Beco Novo, Rosalvo da Cabo Quirino surrava os filhos (Rosa, Robério, Negro Velho e Banhinha, com tanta disposição, que os gritos dos meninos eram ouvidos à quilômetros.

Os critérios das surras eram próprios e secretos. Rosalvo não tinha satisfação a dar. Saiu da linha, o pau comia.

As minhas surrinhas eram palmadas, cascudos e puxavantes de orelha, nada próximo das surras de Rosalvo nos filhos.

De cinturão, cinturão mesmo, só apanhei duas vezes. As duas merecidas: zombei de idosos. Os pais que não batessem naquele tempo, eram tidos como relapsos e censurados pela sociedade.

Apanhava-se em casa e apanhava-se na escola.

As professoras eram mais técnicas, batiam com a palmatória, quando elas achassem que o aluno merecia.

Existia uma técnica pedagógica chamada de sabatina. A turma formava uma roda. A professora fazia uma pergunta. O infeliz não sabia, a pergunta passava para o próximo até alguém acertar.

Quem acertasse era obrigado a bater com a palmatória nas mãos de todos os que tinham errado.

E assim, nesse batido, a sabatina durava horas. A pedagogia do medo.

Nas escola ainda tinha os castigos cruéis (ajoelhar-se sobre caroços de milho), e os humilhantes (ficar em pé, com o rosto virado para a parede), num canto da sala.

Rosalvo do Cabo Quirino era o motorista do padre. Ele aprendeu que na tradição portuguesa, quando um condenado ia à forca e a corda se rompia, ele poderia ser amparado pelo manto da Irmandade de Misericórdia. Se a corda se partiu, é porque havia alguma injustiça na condenação.

Rosalvo conhecia todas as obras de misericórdia, mas só exercitava uma: castigar os que erram. Sobretudo os filhos.

As obras de misericórdia são sete corporais: remir os cativos, visitar os presos, curar os enfermos, cobri os nus, dar de comer aos famintos e de beber a quem tem sede, dar pouso aos peregrinos e enterrar os mortos.

E sete espirituais: ensinar aos simples, dar bom conselho a quem pede, castigar os que erram, consolar os desconsolados, perdoar os que nos injuriam, sofrer as injurias com paciência e rezar pelos vivos e pelos mortos.

Mutatis Mutandis, Rosalvo achava que enquanto Deus lhe desse força no braço e a chibata suportasse o tranco, eram provas da justeza do seu espancamento. O detalhe é que ele batia nos filhos com fio elétrico e, até onde eu sei, nunca se partiram.

Rosalvo eram um homem piedoso, probo, irmão das almas, funcionário da paróquia, caridoso, mas não transigia na educação dos filhos.

Antonio Samarone (médico sanitarista).

SÓ A MEMÓRIA DERROTA O TEMPO


 Só memória derrota o tempo.
(por Antonio Samarone.

Ontem, 17 de março de 2023, completemos três anos do grande confinamento. Para comemorar a vida, fizemos uma festa, com alguns amigos.

“Os verdadeiros amigos têm a capacidade de se eternizar dentro da gente”. – Adélia Prado.

É tempo de reencontros e reconciliações. Todos estão perdoados de tudo ou de quase tudo.

Entre os pecados capitais, a soberba e a inveja são os mais nocivos para as amizades. As derrotas fragilizam a soberba na velhice e nada pode sobre a inveja.

A inveja é eterna. Sá a memória salva!

O nosso cérebro é analógico, funciona por aproximações, símbolos, devaneios, sonhos e narrativas. A mente não é binária, digital, por isso a inteligência artificial não é inteligência, é um método de cálculo.

O risco é a vida digital aprisionar a analógica e empobrecer a mente.

A subjetividade do cérebro é cercada de erros, grandes acertos, imprevistos, novidades inesperadas. Somos matéria orgânica. A vida não precisa de certezas. Sem erros, não há evolução.

O que sentimos no reencontro de ontem não se calcula, nem se prevê. Só as artes, em especial a poesia, se aproximam das emoções.

Eu, viciado na vida virtual das Redes, experimentei a emoção em carne e osso. São coisas distintas, mas alimentam as mesmas funções cerebrais.

O delírio tem várias causas e um só efeito: nos deixa delirantes. O delírio ignora a razão.

Ficar sem a telinha do celular on-line é entediante, a solidão digital invade o que nos restou da alma.

Gente, sinto que o meu cérebro já fechou alguns compartimentos, onde memórias (boas e ruins) foram para o arquivo morto. Vou perguntar ao amigo Kid, psicanalista de formação freudiana, se o arquivo morto é o inconsciente.

Obrigado a todos. Uma felicidade que nos levou ao enternecimento, com a energia das amizades e boa música de Badaró e Capilé. Na despedida, uma choro coletivo, na hora da Avé Maria na guitarra, com um coro ao fundo.

O ambiente teve o cuidado e supervisão sensível de Betânia, que pensou em tudo e harmonizou o reencontro.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)