(Por Antonio Samarone)
Tenha Calma, Seu Olavo, não exagere.”
A Polêmica do Parque da Sementeira.
(por Antonio Samarone)
Como será a reforma do Parque da Sementeira?
Existem dois projetos em disputa:
1. Uma visão ambientalista, que defende a transformação do Parque em um horto, um jardim botânico, uma reserva natural de restinga, uma área verdejante, com fins educativos e de lazer;
2. Uma visão de mercado, que pretende transformar o Parque da Sementeira em área de eventos e feiras, com bons restaurantes, comércio, serviços, entregue à iniciativa privada.
O Prefeito acende duas velas.
Não quer desagradar aos ambientalistas, antes das eleições e não pode contrariar o mercado, a quem representa. Nesse impasse, o projeto continua invisível.
O Prefeito já informou que vai começar pela reforma da cerca externa, pensando que agrada a todos. Uma parte dos urbanistas defendem um Parque público e aberto.
O projeto de privatização prevê a abertura de uma avenida, separando o Parque da Embrapa e da Codevasf, atendendo aos interesses do mercado imobiliário. Seria criada uma vasta área de estacionamentos, semelhante a existente na Av. Sílvio Teixeira.
Nesse período pré-eleitoral, a conjuntura não permite a alternativa privatista. Privatizar o Parque da Sementeira não é defensável antes das eleições.
Na verdade, estamos tratando do futuro de Aracaju, da qualidade de vida, de cidade sustentável e da cidade que queremos construir. As alternativas deveriam tornar-se públicas, submetendo-se a intensos debates, para uma decisão final, com a população esclarecida das opções.
Deveriam!
O poder por muito tempo deforma os seus ocupantes, que passam a sentir-se donos da coisa pública.
Aracaju vem sendo moldada para atender aos interesses da especulação imobiliária. Ruas e calçadas estreitas, praças e espaços de lazer limitados, reduzida arborização e investimentos prioritários na vias de circulação de automóveis.
As forças de mercado se apropriaram da Prefeitura, num processo acelerado de privatização da cidade. Os espaços urbanos foram usurpados pelo mercado imobiliário e de entretenimentos.
Aracaju é uma cidade que odeia os pedestres!
Antonio Samarone (médico sanitarista)
A Arte e a Cultura em Tempos de Pandemia.
(por Antonio Samarone)
Além do ataque do vírus pandêmico, que impõe o isolamento social, a Cultura sofre o ataque dos vírus da intolerância e do obscurantismo. No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou estado de pandemia global.
Antes da Pandemia, as políticas culturais já passavam por um desmonte, uma devastação. O fim do Ministério da Cultura aponta nesse sentido. No Brasil, a Pandemia encontrou a Cultura lutando pela sobrevivência.
As leis de incentivo à Cultura foram criminalizadas. A Petrobras suspendeu os incentivos à Cultura e às Artes.
Com a chegada da Pandemia, a Cultura e as Artes, que poderiam funcionar como canais de escape, fundamentais da solidão, como alimento da alma, como alento e esperança de tempos e vidas sãs, são confinadas nos espaços on-line da internet.
O mundo artístico cultural, foi interditado com a chegada da Peste e precisa sobreviver.
Qual o papel das novas tecnologias digitais na criação, disseminação e fruição de bens culturais, criando formas de consumo e circulação de produtos?
Como essas mudanças afetam os produtores locais de cultura, sem acesso às grandes mídias e aos grandes mercados?
Quem são os trabalhadores da cultura por trás das antigas e das novas criações? Como sobrevivem, ou não, aos tempos de pandemia?
Quais são, ou quais deveriam ser, as ações do Estado, na criação de políticas e programas públicos emergenciais, para o setor da cultura?
Como estão sendo pensadas as ações de futuro? Há algum planejamento de um processo de transição, que permita aos trabalhadores da cultura o retorno gradativo das atividades, no fim do isolamento?
No pós Pandemia, o que espera o mundo da Cultura? Torna-se urgente discutir como a Arte, que respira junto com o povo, vai conviver com o amanhã de máscara?
Como a cultura está sendo vista nesse processo de retomada da economia?
Qual a importância da LEI Nº 14.017, DE 29 DE JUNHO DE 2020, (Lei Aldir Blanc), que dispõe sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural?
Estados e Municípios receberam três bilhões de reais para ações emergenciais no setor da Cultura. Os recursos são destinados a um auxílio emergencial para os trabalhadores da Cultura, aos subsídios para a manutenção de espaços artístico-culturais e aos editais com prêmios e incentivos a manifestações culturais.
Como esses recursos estão sendo empregados em Sergipe? Como andam as políticas culturais em Sergipe? Quais os municípios que se destacam na área cultural?
Qual a realidade do setor artístico-cultural em Sergipe? Quais os setores que se destacam? Qual a inserção desses setores na economia? Quantas pessoas trabalham nas cadeias produtivas culturais?
Na Terça-feira, 25, às 18 horas, no Instagram (@antoniosamaronede), debaterei em live, com Irineu Fontes, um dos grandes pensadores da cultura em Sergipe, sobre essas e outras questões inerentes a Cultura.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)
Vigiar e Punir.
(por Antonio Samarone)
Diante o medo da Peste, entregamos a proteção das nossas vidas ao Estado. Governadores e Prefeitos assumiram poderes imperiais para normatizarem o nosso dia a dia. E eles estão abusando.
Na ilusão de que estão agindo para nos proteger, aceitamos a tutela. A política avançou na esfera privada, nos hábitos e comportamentos pessoais. O receio é que isso perdure no pós pandemia.
Com a desculpa da presença da Peste, vivemos sob um estado de exceção, onde direitos individuais foram suprimidos. O Estado regula o comércio, as igrejas, os bares e as escolas, em mínimos detalhes, impondo um funcionamento extravagante e anormal. Parte das normas não possui relações com a transmissão da covid-19.
O cidadão tornou-se uma ameaça sanitária a ser vigiado e punido. Trocamos a liberdade pela segurança e ninguém se sente seguro. Todos somos prováveis contaminadores, por isso, a regra básica é o distanciamento social. Cada qual em seu canto.
A mudança de hábitos pessoais de higiene, a introdução de cuidados e preocupações com a limpeza e conservação do corpo, em sua intimidade, não se faz por decreto. São mudanças lentas, construídas pela própria sociedade.
O filósofo italiano Agamben, sentenciou: “Se estamos dispostos a sacrificar praticamente tudo – trabalho, amizade, afeto, convicções políticas e religiosas – é porque a vida não têm outro valor que não seja a sobrevivência”.
A vigilância estatal sobre a vida privada durante a Pandemia, pode ser um ensaio para um regime totalitário, onde a vida de cada um passa a ser controlada. Em nome de reduzir o contágio, o estado passou a bisbilhotar e normatizar a vida social e econômica.
A doença, em sua fase aguda atual, epidêmica, está sendo reduzida espontaneamente, pela natureza da enfermidade, por sua história natural. Esses planos de reabertura, com medidas de higiene escalonadas, protocolos, blitz de fiscalização, mapas coloridos são espetáculos midiáticos, manobras ilusionistas maquiadas com um discurso técnico.
É a “vida nua”, a vida biológica, o valor supremo a orientar a sociedade, o estado de exceção encontra condições adequadas para se perpetuar. Chama a atenção a facilidade com a qual uma sociedade inteira aceitou sentir-se empestada, isolar-se em casa e suspender suas condições normais de vida”.
A estratégia de isolar as pessoas e deixar o vírus livre, foi uma adesão ao modelo chinês de combate a Peste, implementado em Wuhan. A medicina ocidental havia desmontado os antigos serviços de saúde pública, treinados para isolar o vírus. Na urgência, usou-se o modelo chinês do isolamento social, recomendado pela OMS.
O modelo de isolamento social e lockdown funcionou bem nos países asiáticos, mais ou menos nos países europeus e não funcionou nem no Brasil, nem nos EUA. O saldo de 114 mil mortos, até agora, é um indício da falência do isolamento social no Brasil.
No Brasil, o isolamento protegeu os que tiveram condições e vontade de isolar-se, mas pouco contribuiu para a redução da taxa de contágio. Os que estão cumprindo disciplinadamente o isolamento continuam susceptíveis, portanto, sem saber como retornar a vida social de forma segura.
Não existe uma estratégia sanitária segura para se sair do isolamento. Quem baixar a guarda corre riscos. Para não perdermos as esperanças, sonhamos com uma vacina salvadora. Apenas sonhamos, a vacina não vai erradicar a doença.
Vamos sintetizar: o isolamento protegeu individualmente os confinados, mas foi coletivamente ineficaz para reduzir a taxa de propagação da Pandemia. Para que o isolamento reduzisse a taxa de propagação, necessitava-se de uma taxa de isolamento elevada, o que não ocorreu.
Do ponto de vista da saúde pública, a redução do contágio dependia de taxas elevadas de isolamento, da observância das normas pessoais de higiene e de ações de vigilância em saúde. Nada disso funcionou adequadamente.
O contágio está reduzindo espontaneamente, obedecendo a história natural da doença. Como livremente o vírus caminha para a sua etapa endêmica. Não podemos esquecer que o vírus ficou latente em todos os infectados (sintomáticos ou não), não sendo possível saber se ocorrerão e quais serão as manifestações crônicas da doença.
No pós pandemia, os velhos serão vítimas de duras restrições sanitárias. Serão vistos como uma bomba viral, capazes de reanimar uma segunda onda. O velho tornar-se-á um “perigo sanitário” e, nessa condição, será tratado.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
O Novo Normal!
(por Antonio Samarone)
Fiz parte de uma geração que acreditou na revolução, no progresso e na laicidade. Fomos movidos pelo otimismo tecnológico e científico, acreditamos no fim das injustiças sociais e na criação de um novo mundo.
Fomos derrotados! Só o indivíduo e a sociedade de consumo sobreviveram! Quanto mais a gente se expressa, menos se há o que dizer. Ninguém está interessado.
A pós-modernidade criou uma vida sem sentido, com múltiplas possibilidades, com sentidos provisórios, individuais, grupais ou simplesmente fictícios. Uma sociedade que não tem uma imagem gloriosa de si mesma, um projeto histórico mobilizador.
Hoje é o vazio que nos domina.
“O sujeito contemporâneo é um empreendedor de si mesmo que se auto explora. Ao mesmo tempo é um fiscalizador de si próprio. O sujeito auto explorador traz consigo um campo de trabalhos forçados, no qual é ao mesmo tempo carrasco e vítima.” Byung
É claro que o capitalismo não é eterno. O que não se sabe é o que acontecerá depois. Nada garante um paraíso, nem uma vida melhor.
A ante visão do Pós Pandemia é tenebrosa.
O novo normal é o velho normal maquiado. Com um agravante no Brasil: a sociedade está dividida de forma irreconciliável. O episódio do estrupo da menina de dez anos, por um tio, escancarou essa divisão.
A mensagem da Pandemia não foi entendida: O planeta não suporta a degradação, os recursos naturais são finitos e a questão ambiental não pode ser protelada. A solução não é uma vacina, mas a mudança do modo de vida.
Isso de crise ambiental parece distante, ingênuo, pensamento de estudante sueca (Greta Thunberg). A urgência não é reconhecida, isto é uma dificuldade. Se até agora se deu um jeitinho, pôde-se adiar, poderemos esperar mais um pouco. Os sinais (a Pandemia é um) apontam que não.
O sujeito contemporâneo é um empreendedor de si mesmo que se auto explora. Ao mesmo tempo é um fiscalizador de si próprio. O sujeito auto explorador traz consigo um campo de trabalhos forçados, no qual é ao mesmo tempo carrasco e vítima. Byung
Um segundo obstáculo é a crescente automação. A riqueza passa a ser criada sem o trabalho humano. Para não causar controvérsia desnecessária, com menos trabalho humano. Dizendo de forma mais direta: o desemprego é estrutural.
Qual o destino dessa riqueza produzida pelas novas tecnologias? O que se pode fazer com as pessoas invisíveis, desnecessárias ao capitalismo? Prolongar o auxílio de emergência, criar penitenciárias, vigilância policial e circo?
Quais os projetos da esquerda para o Brasil?
Acabo de ler “O Projeto Nacional de Ciro Gomes”. O que ele propõe? Um capitalismo liberal de faceta humana. Teve o mérito de estudar, fazer o diagnóstico e uma proposta. A viabilidade de criação desse paraíso capitalista é outra discussão.
O Partido dos Trabalhadores insiste em seu projeto de distribuição de renda, sem mudanças estruturais. Como diz Lula, botar um prato de feijão na mesa do pobre. Essa conciliação se tornou inviável no Brasil. O “Natal sem fome” do Betinho acabou.
O mercado está faminto e quer raspar o tacho.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
Bom Apetite.
(por Antonio Samarone)
Em minha infância, Itabaiana não tinha gordos. Lembro-me de Chiquinho Gordo, dos três gordinhos da Rua do Fato e, do mais famoso, Zé Gorducho, um solteirão que vivia às custas da mãe, a doceira Dona Aurelina.
O Beco Novo não tinha gordos!
Tinha muitos meninos inchadinhos, comidos pela verme do amarelão. Gente de bucho grande e perna fina. Comedores de barro.
Menino gordo era difícil. A igreja católica tinha dificuldade em encontrar “anjos”, gordos e rosados, para as procissões de Santo Antonio. Eu fiz o teste e fui reprovado.
A gordura era associada a prosperidade, abundância, riqueza e saúde. A fome era endêmica. Na bíblia, quando José do Egito sonhou com a prosperidade, a imagem onírica foi a de sete vacas gordas.
A Gula, um pecado capital, era tolerada com simpatia e às vezes com admiração. “Deus benza, fulano come que é uma beleza”. A gulodice era quase uma virtude.
Claro, o prestígio de ser gordo não chegava ao muito gordo, ao disforme. Nesses casos, a patologia era incontestável. Ainda tinha os portadores de hidropisia, os edemaciados.
Em um mundo de escassez, saúde é barriga cheia! “Fulano está gordo, parecendo um Major”. “Já sicrano é magro de ruim”.
A obesidade tornou-se um problema de saúde pública, decorrente da mudança do padrão alimentar, do sedentarismo e do modo de vida. A obesidade é uma patologia social. Contudo, os gordos continuam recebendo sansões morais. O que era admirado hoje é rejeitado.
Atualmente a gordura é vista como um descuido, lerdeza, preguiça, falta de vontade e amor-próprio. O gordo tornou-se vítima de bullying, preconceitos, insultos e discriminações.
Só os gordos, os velhos e os feios são objetos do humor grosseiro, sem que o palhaço possa ser punido juridicamente.
Os feios não buscam defender-se, pois acham o insulto indevido. Ninguém se acha feio! Já os gordos, esses não tem a quem recorrer.
Botar apelido em gordo é passatempo dos medíocres. Aliás, os gordos ainda carregam a fama de serem bem humorados.
Não me lembro de nenhum gordo “caga raiva”.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)