terça-feira, 11 de agosto de 2020

O DIREITO DE RESPOSTA

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O Direito de Resposta.
(Por Antonio Samarone)

O Dr. Paphonso Azevedo respondeu a minha prosa de ontem, “A Nova Normalidade”, exigindo o direito de resposta. Por isso, passo a publicar o texto dele na íntegra. Vamos lá:

“Meu caro sanitarista,

A sua avaliação sobre a minha fala no Rotary foi enviesada. De fato, estou atordoado com a quarentena, mas contínuo em pleno juízo (ou quase).

Nunca flertei com o marxismo, sempre fui de extrema direita, apenas não existia espaço para tornar públicas as minhas crenças.

O meu Pai foi da Ação Integralista Brasileira, comandava as marchas de rua em Aracaju. Guardo com carinho a sua farda verde e o seu sigma bordado a mão. “Deus, Pátria e Família” continua o meu lema.

O confinamento está me sufocando. Sinto sinais de esquecimento de fatos recente. Mal termino uma conversa eu não lembro mais como começou. Lhe chamei de sanitarista por ter esquecido o seu nome. E não faço questão de lembrar-me.

Como você sabe, moro só. Não tive filhos e a minha esposa faleceu a mais de dez anos. Quem me ajuda são umas primas distantes e Dona Carmelita, que mora em minha casa desde a mocidade.

Sinto que o meu juízo e a minha cognição estão com os dias contados. Tenho pesadelos com o alemão. A demência se aproxima velozmente.

A vida não está fácil para os idosos. Não sou adestrado em rede sociais, portanto, perdi os amigos. O dinheiro de minha aposentadoria não afasta a solidão.

Vivo em profunda depressão e me nego a tomar os remédios da psiquiatria. Os tarjas pretas são drogas legalizadas. Fui paciente por muitos anos do Dr. Garcia Moreno. Depois de sua morte, acho os outros psiquiatras muito superficiais. Saio da consultas piorado.

Acho, doutor sanitarista, que você foi irônico com as minhas teses, um defeito de todos vocês seguidores do pensamento crítico. Não lhe devo justificativas ideológicas. Eu sou o que penso e tenho convicções profundas em minhas crenças.

Ontem o senhor quis me comparar com Tobias Barreto, menos, bem menos. Nunca tive essa pretensão. O senhor é que tem veleidades intelectuais. Nada de proveito. Vá à merda!

São anos observando o ser humano, precisamos de um novo dilúvio.

Tenho muito medo do sofrimento da morte. Quero morrer repentinamente. Não tiro a minha vida por convicções religiosas. Não posso mentir, já tive vontade.

As reuniões do Rotary são as minhas últimas ligação com a sociedade. Passo meses sem receber um telefone de ninguém.

Não gosto de televisão e não sei transitar pelas redes sociais.
Meu caro doutor sanitarista, se preocupe com os vivos. Eu já morri para o mundo.

Paphonso Azevedo (O finado).”

Eu peço desculpa ao Seu Paphonso, não foi esse o objetivo.

A sua resposta me levou a convidar um grande geriatra sergipano, o Dr. Antonio Claudio, para conversarmos numa LIVE sobre os desafios dos Idosos nessa Peste.

Se o senhor se interessar, Dr. Paphonso, será meu convidado nessa live. Comece a frequentar a vida virtual, porque é o que nos resta.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

domingo, 9 de agosto de 2020

A NOVA NORMALIDADE

A Nova Normalidade...
(por Antonio Samarone)

Depois da Pandemia, um chavão caiu na boca do povo: “depois da Peste, teremos uma nova normalidade”. Das socialites aos economistas, dos jornalistas aos filósofos, dos juristas ao baixo clero, sem exceção, todos enxergam essa “nova normalidade”.

Cada um a seu modo...

O Dr. Paphonso Azevedo é o sergipano mais entusiasmado com a “nova normalidade”. O mais criativo. Economista do antigo CONDESE, discípulo de Aloiso Campos, intelectual com formação na CEPAL, na mesma linha de Celso Furtado. O Dr. Paphonso chegou a trabalhar na SUDENE.

Na Juventude, o nosso economista flertava com o pensamento de esquerda, dizem que chegou a ler Marx, superficialmente. Hoje, beirando aos 70 anos, ele é um seguidor do neoliberalismo extremado, esse do Paulo Guedes.

O Dr. Paphonso vê comunismo em tudo que não concorda. Ele fala sobre o marxismo cultural sem pejo, mesmo sem nunca ter lido nada sobre o tema. O marxismo cultural é um biombo cognitivo, usado para condenar de músicas e poemas que ele não gosta, a virtualidade do aquecimento global.

Na Província de Sergipe del’ Rey, o Dr. Paphonso Azevedo é uma sumidade. Escreve crônicas, filosofa e verseja. Prega na Hora Católica. Nunca entrou para a Academia de Letras por cisma, disse uma vez que não queria e agora é obrigado a manter a palavra.

A Peste mexeu com a cabeça do Dr. Paphonso. Não a Peste em si, ele não pegou. Mas, a superdose de hidroxicloroquina que ele ingeriu por devoção ideológica. Dizem os boatos que ele já tomou mais de cem compridos.

Na semana passada, o Dr. Paphonso surpreendeu o mundo intelectual sergipano. Numa palestra despretensiosa no Rotary, sobre a “nova normalidade”, dessas palestras para ocupar o tempo dos comensais, o cerebrino doutor esboçou uma grande novidade.

Começou assim, as suas abstratas especulações:

“O capitalismo não acabará, pelo contrário, sairá mais forte depois da Peste. É mais fácil o mundo acabar. Não podemos voltar à normalidade. O normal é o que nos levou ao caos, à crise financeira e à crise climática. O Presidente Bolsonaro precisa criar o Ministério da Nova Normalidade.”

“O Estado deve oferecer serviços públicos de qualidade e investir na economia informal. A força do novo capitalismo está na informalidade. Apoiar os empresários de si mesmo. Os serviços públicos devem fazer parte de um sistema renovador: cidades inteligentes com inovações sociais e tecnológicas.”

A tese do Dr. Paphonso é original: “a nova normalidade será fundada na economia informal. Cada um explora a si mesmo. A liberdade será absoluta. Cada um será o responsável pelo próprio sucesso ou fracasso. O mundo é dos mais sabidos!”

Ao final da conferência, o Dr. Paphonso Azevedo foi aplaudido de pé pelos rotarianos. Quase ninguém entendeu a mensagem. E nem precisava. A genialidade do doutor é previa, não carece de confirmação.

No entanto, a tese central do doutor sobre a “nova normalidade” foi assimilada pelos presentes. Todos saíram repetindo em uníssono a boa nova: “o mundo é dos mais sabidos!”

Gilberto Freire tinha razão, “quem olhar para Sergipe não espere riqueza, luxo e valentia. Sergipe é uma terra de pensadores”. Tobias Barreto, Sílvio Romero, João Ribeiro, Gilberto Amado e Joel Silveira.

Atualmente, o Dr. Paphonso Azevedo é o nosso luminar.

Antonio Samarone (médico sanitarista).

 

sábado, 8 de agosto de 2020

CEM ML MORTOS!

Cem Mil Mortos!
(por Antonio Samarone)

Tudo está voltando ao normal, independente dos ares pestilentos. A quantos mortos chegaremos? Não se sabe. A sociedade perdeu a empatia pelos que sofrem. Cada um contenta-se em ter escapado, até agora.

Os governos batem cabeça, centrados em livrarem-se da responsabilidade. Divulgam meias verdade, criando um otimismo exagerado. A máquina de propaganda massifica que o pior já passou e que uma vacina salvadora está a caminho.

A narrativa construída procura responsabilizar as vítimas. A Peste só continua porque as pessoas não fazem a sua parte: não usam máscaras, se aglomeram e não lavam as mãos. A saída é multar os infratores.

Mentira!

A sociedade não faz a sua parte, por faltar uma condução responsável do combate a Pandemia, por parte do Poder Público.

As máscaras quando não usadas adequadamente podem se transformar em veículo de transmissão da doença. As máscaras (EPI) e as máscaras cirúrgicas precisam de um descarte adequado. São materiais infectados.

As máscaras de pano protegem limitadamente e precisam ser higienizadas após o uso. As máscaras não devem ser manuseadas.

Nada disso é observado pelos gestores da pandemia. Aplicar multas nos desmascarados é uma medida pirotécnica, um faz de conta. Os políticos estão jogando para a plateia, com conivência dos meios de comunicação.

Os boletins oficiais divulgam o número de “curados”. Estamos na fase aguda da doença. Não se sabe quais as sequelas, quais as manifestações futuras da doença em sua fase crônica.

Os vírus podem permanecer em latência no organismo. Mesmo os que não tiveram sintomas agora, não estão livres de manifestações futuras. Como será a forma crônica da covid-19? Ainda não se sabe.

A hepatite C é uma doença viral que não se manifesta na fase aguda, os infectados são assintomáticos. Muito tempo depois vem a cirrose e câncer de fígado. As doenças são eventos complexos.

Os que se salvaram da forma aguda grave da covid-19, que ficaram muito tempo hospitalizados, vão precisar de assistência especializada por muito tempo. O que está sendo feito para isso em Sergipe?

As trombetas públicas anunciam uma vacina salvadora até dezembro. Uma bala de prata para matar o vampiro. Não é bem assim. Não se sabe ainda se haverá a formação de uma imunidade coletiva, seja pela doença, seja por vacinas. É o que diz a OMS.

É evidente que uma vacina eficaz vai ajudar, mas não vai erradicar a doença. Na história da medicina, só a varíola foi erradicada por uma vacina, depois de duzentos anos de uso.

Nada é levado a sério pelos gestores públicos e alguns ainda vão encher o bolso com a Peste.

Nenhuma providência de saúde pública foi tomada em Sergipe, para conter a transmissão da doença. Faltam testagem em massa, ações de vigilância, isolamento dos infectados, bloqueio dos casos, investigação dos contactantes, rastreamento e busca ativa.

Os boletins em Aracaju omitem os nomes das vítimas, numa manobra infame de naturalizar as mortes, transformá-las em números, em estatísticas. A ocultação das vítimas visa minimizar a empatia, esconder os mortos, numa atitude nojenta e vil.

Muitas mortes seriam evitáveis. Uns morreram da Peste, outros da irresponsabilidade dos políticos. Espero que depois da tempestade, uma comissão da verdade seja criada para apurar esses crimes.

Além das mortes, muitas vidas estão sendo destruídas.

Estou com uma profunda sensação de impotência, de omissão, de vergonha, de acomodação. Não sei como reagir a indignidade que está sendo cometida pelos governantes.

Não é só Bolsonaro. Muitos governadores e prefeitos não assumiram as suas responsabilidades.

O Brasil marcha para a desgraça sem reação. Quando o auxílio emergência findar a fome baterá em muitas portas.

Muito dinheiro público, que a sociedade vai pagar, foi repassado para estados e municípios. Como esses recursos estão sendo gastos? Falta transparência!

Espero que uma faxina seja feita e os malfeitores punidos.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

ARACAJU, UM PARADOXO SANITÁRIO.


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Aracaju, um Paradoxo Sanitário.
(por Antonio Samarone)

Quando Inácio Barbosa resolveu transferir a capital de São Cristóvão para os alagados do Aracaju, não imaginou que estivesse se aproximando das Pestes.

O povoado Santo Antonio do Aracaju ficava na Colina, mas a cidade desceu para a baixada, às margens do Rio Sergipe. Baixada pantanosa, insalubre, infestada de miasmas, tomada pelas febres malignas, sezões e bexigas.

Aracaju não escolheu um sítio geográfico acolhedor. Tudo foi construído com muito trabalho. O desenho quadriculado de Pirro foi traçado no papel e os sergipanos o tornaram realidade.

A capital de Sergipe nasceu no furacão da sua maior tragédia sanitária. A cidade, fundada em março de 1855, recebeu o sopro maligno da Peste Asiática sete meses depois. A grande Pandemia de cólera “morbus” matou mais de trinta mil sergipanos.

O fundador de Aracaju, Inácio Barbosa, morreu de sezão braba, em 06 de outubro de 1855, aos 35 anos. A cidade devorou o seu criador.

O alerta foi decisivo: Aracaju necessitava aterrar os seus mangues, apicuns e pantanais. Precisava encontrar água para beber. Remexer dunas e areais, drenar braços de rios e aterrar lagoas.

Os casebres, ruas, avenidas, praças e parques, palácios, mercados, fábricas, quartéis e igrejas, tudo fora construído sobre os charcos.

O medo da Peste apressou o passo. A cidade brotou das trevas sanitárias. Esse primeiro aterramento foi pela vida e sobrevivência. Um enfrentamento à Peste.

A cidade aprendeu a conviver com a malária, varíola, febre tifoide, tifos e disenterias. No final do Dezenove, a tuberculose (Peste branca) surgiu altaneira.

Quando se achava que tudo ia bem, explodiu uma nova Peste: a Gripe Espanhola de 1918. Os sergipanos se juntaram ao governo e, num esforço conjunto, eliminaram o mal.

Os sergipanos eram escaldados por grandes desgraças sanitárias, sabiam então o que fazer.

Essa Peste de 1918, serviu de estímulo para se iniciar a construção dos serviços de saúde pública e hospitais. O Instituto Parreira Horta e o Hospital de Cirurgia foram os maiores exemplos.

Aracaju iniciou a construção da sua rede de esgoto sanitário, até hoje não concluída.

A luta dos sergipanos para tornar Aracaju uma cidade saudável, salubre e quem sabe, bela, continua. Tivemos a ajuda da Fundação Rockefeller, dos engenheiros, arquitetos, urbanistas, sanitaristas e políticos visionários.

O primeiro conjunto habitacional de Aracaju, o Agamenon Magalhães, foi construído por razões sanitárias, para retirar os pobres e as raparigas da Ilha das Cobras e do Curral do Bomfim. O favelamento de Aracaju foi sufocado.

Na década de 1950, apareceu em Aracaju um mosquito africano, de hábito domiciliar e que transmitia a malária. Foi um desespero. Desmanchamos o morro do Bonfim, drenamos as últimas lagoas, construímos os canais, ocupamos os mangues com aterros e jogamos a cidade por cima.

Como não existia limitações ambientais, jogamos merda nos rios, invadimos as suas margens, criamos uma capital bela e insalubre. Os aterros do fundo do Batistão, do entorno da igreja São José e da Coroa do meio já foram por ambições econômicas.

A Petrobrás chegou! Aracaju se transformou num Paraíso da especulação imobiliária.

A cidade foi privatizada. Voltou-se para os interesses econômicos do mercado de imóveis. A cidade perdeu a qualidade de vida. A prefeitura virou um escritório das construtoras. Até hoje!

No alvorecer do Século XXI (2020), recebemos a visita inesperada de uma nova Peste. Uma doença nova, desconhecida, um vírus agressivo, que se espalhou pelo mundo em poucos dias. Aracaju não estava preparada.

Nesse momento a doença continua fazendo o seu estrago. Mas vai passar!

Espero que no pós Pandemia, os sergipanos que resistirem, retomem a tarefa da construção de Aracaju. Concluam a obra de saneamento, despoluam os rios, construam parques, áreas verdes, humanizem a mobilidade, protejam as calçadas, os ciclistas e os pedestres. Preservem o patrimônio cultural.

Preservem o que sobrou dos manguezais, dunas e restingas.
No Século XIX. Quando Aracaju nasceu, o aterramento foi movido por razões sanitárias, uma luta contra os miasmas, em defesa da vida.

No Século XXI, os aterramentos são movidos pela ganância econômica, nocivos à saúde e à qualidade de vida.

Aracaju é um paradoxo sanitário. Para nascer precisou destruir o meio ambiente e para continuar vivendo precisa preservar o que restou da natureza.

A preservação do meio ambiente é principal questão do Aracaju. A sua principal prioridade.

Sei que é difícil enxergar essa realidade ambiental. Tem muita coisa imediata pela frente nos assustando e que precisam de respostas.

Insisto, Aracaju só se tornará uma cidade sustentável quando pudermos nadar no Rio Sergipe, na rua da frente. Quando os Rios Poxim, do Sal e Vaza Barris forem limpos. Quando se puder tomar banho no Riacho Tramandaí, no fundo do Batistão.

Aracaju no pós Pandemia, precisa acabar com o grande fedor da Praia Formosa!

A Peste da covid-19 trouxe essa mensagem ambiental. Aracaju fará a sua parte?

Antonio Samarone (médico sanitarista)

terça-feira, 4 de agosto de 2020

A REALIDADE DOS IDOSOS EM SERGIPE.



A Realidade dos Idosos em Sergipe.
(por Antonio Samarone)

Sobre a evolução da Pandemia, duas visões se chocam: uma que negligencia a doença e defende que o pior já passou, e a outra, que acredita que a doença está apenas em seu início.

Eu compartilho com a visão da OMS: "A pandemia é uma crise de saúde que ocorre a cada cem anos e cujos efeitos serão sentidos por décadas".

Embora as esperanças de uma vacina sejam fortes, pode nunca haver uma "bala de prata" para o coronavírus, alerta a OMS.

Não se sabe ainda quanto tempo dura a imunidade adquirida pela covid-19, muito menos a imunidade decorrente da futura imunidade vacinal.

Sem contar, que estamos convivendo com a covid-19 em sua fase aguda. Quais serão as manifestações futuras da doença, a covid-19 crônica? As pessoas que tiveram a infecção em sua forma leve e até assintomática, não estão livres da covid-19 crônica.

A pandemia provavelmente será "longa" e a fadiga da resposta é um risco.

Nesse cenário da permanência do vírus, em sua forma endêmica, é que a situação dos idosos precisa ser enfrentada. Como será a vida dos idosos no pós Pandemia?

A população mundial está envelhecendo rapidamente. Entre 2015 e 2050, a proporção da população mundial acima de 60 anos se multiplicará quase duas vezes, passando de 12% para 22%. Em Sergipe, não será diferente.

Os idosos são vulneráveis ao abuso, seja físico, sexual, psicológico, emocional, financeiro ou material; abandono; à falta de atenção e grave perda de dignidade e respeito. Os dados atuais indicam que um em cada dez idosos sofre abuso.

O abuso aos idosos não se limita a causar lesões físicas, mas também a problemas mentais crônicos sérios, como depressão e ansiedade.

Além disso, entre os idosos, experiências como tristeza pela morte de um ente querido, diminuição do status socioeconômico como consequência da aposentadoria ou incapacidade são mais frequentes. Todos esses fatores podem causar isolamento, perda de independência, solidão e angústia.

Demência e depressão em idosos são problemas de saúde pública.

Estima-se que 47,5 milhões de pessoas com demência em todo o mundo. Prevê-se que o número dessas pessoas aumente para 75,6 milhões em 2030 e 135,5 milhões em 2050; além disso, a maioria desses pacientes vive em países de baixa e média renda. Sergipe não está fora disso.

Com a pandemia, foi divulgada uma meia verdade: a covid-19 só é grave para os velhos.

Os idosos foram apresentados durante a Pandemia como um risco para a sociedade. Basta observar a reação intolerante das pessoas, quando encontram idosos aglomerados ou usando a máscara inadequadamente.

A tendência de crescimento da discriminação aos idosos é visível a olho nu.

O que eu estou alertando é da necessidade dos idosos, que serão maioria, em começar a discutir sobre a realidade que estar por vir. Como ficaremos no pós Pandemia? Qual a qualidade de vida que precisamos?

Quais serão os novos problemas que os idosos terão de enfrentar?

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

quarta-feira, 29 de julho de 2020

A NUVEM DE CUPINS


A Nuvem de Cupins.
(por Antonio Samarone)
A sacralidade do ferro é reforçada por sua origem, seja por ter caído da abóbada celeste (os meteoritos), ou por ser extraído das vísceras da terra. O ferro está carregado da potência sagrada.
Os beduínos do Sinai eram convencidos de que, aquele que consegue fabricar uma espada de ferro meteórico se faz invulnerável nas batalhas e pode estar seguro de abater todos os seus inimigos.
As ferramentas do ferreiro participam deste modo, desse caráter sagrado. O martelo, o fole e a bigorna, revelam-se como seres animados e maravilhosos: supõe-se que podem obrar por sua própria força mágico-religiosa, sem ajuda do ferreiro.
Madrugada adentro, ouvia-se os tinidos da centenária bigorna de Totonho de Bernardino, meu avô, nas profundezas das Flechas e do Nicó. O som propagava-se pelas Caraíbas, Pé do Veado, Terra Vermelha, Sambaíba e Várzea do Gama.
Os que possuíam ouvidos de tuberculoso, chagavam a ouvir a bigorna na Matapoã.
O Bernardino, o pai de Totonho, foi atropelado em 1936, pelo trem da Leste Brasileira, no povoado Caititu, indo comprar ferro em Maruim. Foi esmagado pelo trem, em cima da montaria, dando dificuldade ao instituto de criminalista em Aracaju, para separar os despojos.
A Tenda Sagrada dos ferreiros das Flechas, está conservada sob os cuidados de um descendente do clã, lá no miolo das Flechas.
Essa bigorna foi trazida de Portugal por João José de Oliveira, o patriarca dos ferreiros das flechas. A bigorna ainda é viva, um pouco cansada, mas viva.
Os mitos dos ferreiros eram os da passagem da idade da pedra para a idade dos metais. O fogo de Prometeu continuava aceso. Fui criado seguindo o rito de mijar nas fogueiras, como uma forma de adoração ao fogo. E com um profundo pavor do fogo eterno.
Os ferreiros sempre foram contadores de estórias. Todos sebastianistas, aguardando o milênio. Conheciam as estórias de Gonçalo Annes Bandarra, de Trancoso.
As “Estórias de Trancoso”, do sapateiro e profeta português, autor de trovas messiânicas, eram famosas nas Flechas. Cansei de dormir ouvindo a minha mãe debulhar essas maravilhas.
Os ferreiros das Flechas liam em voz alta os Sermões do Padre Vieira, os cordéis encantados de Leandro Gomes de Barros e um velho livro de Antero de Figueiredo, que meu avô guardava sob sete capas, sobre Dom Sebastião, Rei de Portugal, onde a batalha de Alcacer-Quibir era contada em forma de versos.
Contei esses pormenores, para facilitar o discernimento de quem está lendo, sobre se é realidade ou fantasia o último acontecimento das Flechas. Joãozinho de Honorato anda contando que por lá apareceu uma nuvem de cupins, que já devorou a cumeeira de mais de vinte casas.
Na visão de Seu Joãozinho, essa nuvem cupins é da mesma natureza das nuvens de gafanhotos que rondam o mundo, e fazem parte da mesma mensagem que a grande Peste da covid-19 quer transmitir.
Nessas viagens, eles já estão esperando a Rainha do Meio Dia, e quem sabe, até o Anticristo.
Eu lavo as mãos!
Antonio Samarone (médico sanitarista)


segunda-feira, 27 de julho de 2020

AS CLOROQUINAS E O PENSAMENTO MÉDICO


As Cloroquinas e o Pensamento Médico.
(por Antonio Samarone)
Esse texto é em parte uma resenha do pensamento de Régis Rodrigues Vieira e Carla Rosane Ouriques Couto, publicado no site do movimento “slow.medicine”, em 23/07/2020, e em outra parte uma discordância da tese central do mesmo pensamento.
Por que os médicos estão divididos sobre a utilização ou não da Hidroxicloroquina e da ivermectina no tratamento da Covid 19?
Existem médicos defendendo o uso dessas medicações baseados em suas experiências, no histórico da droga, na fisiopatologia das infecções e em possíveis casos exitosos. Analisam usando o método clínico dedutivo.
O desenvolvimento do raciocínio clínico e consequentemente o tratamento das doenças está fortemente enraizado no pensamento anátomo-fisiopatológico desses médicos que defendem a cloroquina.
Por outro lado, existem médicos desaconselhando o uso das mesmas medicações baseados nos ensaios clínicos realizados, e na falta de evidências estatísticas sobre a eficácia, efetividade e segurança delas no tratamento à covid-19.
Apesar da evolução do pensamento probabilístico, da chamada Medicina Baseada em Evidências (MBE) e do fato de que todas as Escolas Médicas, de alguma forma, incluírem a Epidemiologia Clínica nas suas grades curriculares, o fato é que a assimilação pelos médicos do método estatístico ainda é pequena.
Portanto, essa dicotomia não é somente uma questão ideológica. O que se observa é o embate entre o pensamento fisiopatológico versus o pensamento probabilístico.
O Dr. João Claudio Flores Cardosos foi quem introduziu a epidemiologia clínica no ensino da medicina em Sergipe. Ele se divertia com o espanto dos alunos, todos catequizados pelo pensamento anátomo-fisiopatológico, adotado na Escola. O Dr. Nestor Piva foi o sumo sacerdote dessa ciência médica em Sergipe.
Diz o texto publicado pela “slow.medicine”:
“Não temos na atual crise sanitária, um manual de comportamento ou pensamento médico único. Diante de nós há toda a ciência produzida, de Hipócrates passando por William Osler e Foucault, aos grandes epidemiologistas atuais, num cenário social, estrutural e político complexo, que muitas vezes pouco contribui para a serenidade na tomada de decisões.”
Os arautos do movimento “slow medicine” defendem integração dos métodos anátomo fisiopatológico e probabilístico na prática médica, não percebendo a incompatibilidade entre os dois caminhos.
Acreditam que basta o médico agir com empatia, compaixão, olhar humano, sob a luz da justiça social e da racionalidade científica, na condução do seu pensamento e na tomada de decisões, que o milagre da unificação dos métodos acontecerá.
O método anátomo fisiopatológico conduz a individualização dos doentes, cada caso é um caso, em sua forma de adoecer e morrer, o objeto do cuidado médico é o doente, que requer cuidados específicos, próprio da medicina artesanal. Nesse método, a Clínica é soberana!
O método probabilístico conduz aos protocolos, a padronização dos procedimentos, a uma terapêutica uniformizada e impessoal. O objeto da medicina é a doença. Esse método estatístico esvazia a subjetividade do cuidado médico, permitindo o seu consumo no mercado, em sua forma de mercadoria.
Claro, os médicos podem usar dos dois métodos, ora um, ora outro, em pessoas diferentes. Mas não podem fundir os dois métodos num mesmo paciente. Ou se usa o raciocínio clínico dedutivo, individualizado, ou se usa os protocolos, centrados em evidências estatísticas, com as suas condutas padronizadas.
Existe uma contradição entre a medicina assumir a responsabilidade de cuidar de uma pessoa doente e que esteja sofrendo, para a assistência sanitária voltada para curar de modo eficiente o maior número de pessoas, reduzindo os custos e os tempos.
As discussões não são bizantinas, elas expressam uma dualidade do pensamento médico atual.
A medicina de mercado é incompatível com as subjetividades, ela precisa dos protocolos, da objetividade, da produtividade medida e da previsibilidade segura dos lucros.
A medicina artesanal produz cuidados, a medicina de mercado produz procedimentos. São consumos distintos.
Quando os médicos ignoram as evidências do método probabilístico, cientificamente dominante, e prescrevem as cloroquinas, optando por seguir a sua casuística, a sua sensibilidade (a arte médica), mesmo que inconscientemente e de forma passageira, eles estão resistindo.
Quantos abdomens os cientistas já palparam? Perguntou enfático um velho clínico, devoto da cloroquina...
Essa discussão metodológica não é excludente, não afasta outras motivações de natureza político ideológica que permeiam a conjuntura.
Antonio Samarone (médico sanitarista)