quarta-feira, 19 de agosto de 2020

MÃOS LIMPAS


Mãos Limpas.
(por Antonio Samarone)
Segundo pesquisas, apenas 11% das pessoas conseguem lavar as mãos oito vezes ao dia como recomenda a OMS. Por que é tão difícil cumprir esse ritual sanitário? Muitos preferem lambuzar as mãos com álcool em gel.
Por que ao invés de uma pia com água e sabão, as empresas são obrigadas a fornecer álcool em gel? Habituar-se em lavar as mãos como rotina traria vantagens permanentes, para se evitar novas doenças.
Essa dificuldade com a higiene pessoal vem de longe.
Segundo Gilberto Freyre:
“O contraste de higiene verdadeiramente felina dos maometanos com a imundice dos cristãos, seus vencedores, é traço que aqui se impõe destacar. Os cristãos peninsulares (Portugal e Espanha) dos séculos VIII e IX eram indivíduos que nunca tomavam banho, nem lavavam a roupa, nem a tiravam do corpo senão podre, largando os pedaços.”
O horror a água, o desleixo pela higiene do corpo e do vestuário permaneceu no Brasil até meados do século XX.
Sem contar que o sabonete foi um luxo até pouco tempo. O povo fabricava o seu sabão em casa. (sebo de boi, hidróxido de sódio - NaOH - soda cáustica, água). O sabão de soda ainda é vendido na feira de Itabaiana. O sabão de coco era uma novidade.
A higiene pessoal se manteve em grande atraso no Brasil, até meados do século XX. Foi o discurso sanitário levado as escolas pelas professoras, que introduziu noções e hábitos de higiene nas crianças.
O medo da vistoria nas escolas, a inspeção das unhas sujas, orelhas e pescoços com os “trios de lodo”, levou às mães a adotarem cuidados higiênicos com os filhos.
As crianças reagiam com choro a alarido a rotina do banho frio matinal. Muitas vezes era um banho de sopapo ou um banho de cuia, onde água descia lentamente pelas costas, gerando arrepios na vítima. Muitos passavam apenas uma água no rosto, para tirar a remela e maquiar a cara de sono.
Foi a escola pública que introduziu a higiene pessoal no Brasil. As crianças ensinaram as mães, para não passassem vergonha na inspeção da higiene escolar. Isso foi ontem!
Sem contar que a maioria dos domicílios não possuía instalações sanitárias. As pessoas defecavam no mato, no pé da bananeira, nas praias, nos fundos de quintais, ao pé dos murros e até nas praças. Lugares que estavam sempre melados de excrementos ainda frescos.
Isto sem falarmos no hábito dos homens de urinarem nas ruas; e de nas ruas se jogar a urina choca das casas, acumuladas durante a noite.
A tecnologia dos “walter closet” WC, inglês e do bidet francês chegaram ao Brasil no final do século XIX. O povo demorou a ter acesso a esses avanços sanitários.
As mãos são ferramentas fabulosas de comunicação. O Brasil inventou uma língua de sinais (Libras). “Dar uma mão” é uma ajuda fraterna. Quando uma coisa é muito boa, dizemos que é de “mão cheia”. A mão serve de medida com o palmo e a polegada. Uma mão de milho são cinquenta espigas.
Na tradição bíblica, “lavar as mãos” não simboliza limpeza, mas indiferença e omissão. “Pilatos lavou as mãos” quanto a condenação de Cristo. Ser alcançado pela mão de Deus é receber a manifestação do seu espírito.
A imposição das mãos é uma transferência de energia e poder, um ritual de cura, própria dos iluminados. As ciganas leem as mãos. As mãos postas é um sinal de humildade e devoção.
A mão fechada é o punho, sinal de luta e resistência.
Os pintores dão uma mão de tinta. No trânsito, a mão é o caminho certo. Estar nas mãos dos outros é entregar-se.
Mão cheia é fartura, mão de figa é somiticaria, mão de ferro é rigor, mão boba é saliência, mão grande é força e mão aberta é desperdício.
O capitalismo chama o trabalhador de mão de obra.
Foi a mão humana, com o seu polegar oponível, que permitiu a produção de ferramentas e a evolução do Homo sapiens. Foi a particularidade da mão que nos fez bípedes e nos tirou da selva.
Contudo, a mão que afaga é a mesma que apedreja, a mão que alimenta e protege é a mesma que transmite as doenças.
Com tantas serventias e simbolismos, por que tanta resistência em lavarmos as mãos?
Na reabertura das escolas, eu proponho uma pia com água e sabão em cada sala de aula, com toalhas limpas ou descartáveis. Uma verdadeira operação mãos limpas.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)



terça-feira, 18 de agosto de 2020

AS PRIMEIRAS PESTES EM SERGIPE


As Primeiras Pestes em Sergipe.
(por Antonio Samarone)
A primeira referência a uma epidemia de varíola (bexiga) no Brasil, encontra-se numa carta de José de Anchieta à Diogo Laínez, segundo superior geral da Companhia de Jesus. São Vicente, 08 de janeiro de 1556.
Entre 1562 e 63, surgiram no litoral brasileiro duas grandes pestes (febre amarela e varíola), que dizimaram os gentios. No espaço de três meses morreram mais de 30 mil índios.
A febre amarela é descrita como uma febre alta, com hemorragias, que matava em poucos dias. A varíola como um pipocar de bexigas, asquerosas e pútridas, que em poucos dias estavam infestadas de bicho de mosca.
Segundo o padre Aurélio Vasconcelos, em 1564, após cessadas as Pestes, as aldeias de Sergipe ficaram muito despovoadas, pois os que escaparam da morte e da escravidão, fugiram sertão adentro em busca da sobrevivência.
Nesse período das Pestes e de muita fome (1562), os portugueses aproveitaram a desgraça e estenderam a sua missão genocida contra os Tupinambás do território sergipano, entre os rios Real e São Francisco, tornando-os escravos.
Como se observa, a primeira escravização dos índios em Sergipe começou bem antes de 1575. A famosa expedição organizada por Luiz de Brito, que a historiografia sergipana descreve romanticamente, como uma ação evangelizadora do Frei Gaspar Lourenço.
A aldeia de Aracaen era a última de Itapicuru, onde viviam os índios subjugados. Adiante, ficavam os temíveis e guerreiros Tupinambás, as 28 aldeias de Sergipe, onde as tropas de Garcia d’Ávila não se atreviam em penetrar. Guerreiros temidos pela fama de terem comido o Bispo Sardinha.
Os Tupinambás do território sergipano, escravizados durante as duas Pestes, promoviam frequentes escaramuças. Muitos deles fugiam retornando às suas aldeias de origem.
Existia um clima de beligerância permanente entre colonos e índios subjugados da Bahia, com os tupinambás do território sergipano.
A varíola cobria-os todo o corpo, dos pés à cabeça, como uma lepra mortal, parecendo couro de cação. Ocupava logo a garganta por dentro e a língua, levando-os a morte em três a quatro dias.
Os que escapavam, a peste quebrava-lhes a carne, pedaço a pedaço, com tanta podridão de matéria, que saia deles um terrível fedor. Eram infestados de moscas, que devoravam a carne morta e apodrecida e lhes depositavam os gusanos (bicho de mosca).
Os índios desesperados, apelavam para uma forma agressiva de tratamento: mandavam fazer covas longas à maneira de sepulturas e depois de bem quentes com muito fogo, quando cheias de brasas, atravessavam paus por cima, com muitas ervas. Os bexiguentos eram ali estendidos até se assarem.
A medicina portuguesa, praticada pelos jesuítas, recomendava a sangria como a melhor conduta no tratamento da varíola.
Os índios desconfiavam que sangrar o bexiguento (doente com varíola), não era um bom socorro.
José de Anchieta descreve a sua medicina contra a varíola:
“A outros que daquele pestilencial mal estavam mui mal eu esfolei parte das pernas e quase todos os pés, cortando-lhes a pele corrupta com uma tesoura, ficando em carne viva, coisa lastimosa de ver, e lavando aquela corrupção com água quente, com o que pela bondade do Senhor sararam."
A Peste de 1562, foi a primeira vitória portuguesa, facilitando a sanha assassina das expedições seguintes, até a conquista definitiva de Sergipe, em 1591.
Antonio Samarone (médico sanitarista)

QUAL A VOCAÇÃO ECONÔMICA DE ARACAJU?


Qual a vocação econômica de Aracaju?
(por Antonio Samarone)
O fim da Era Petrobrás (com o fechamento do Tecarmos, da sede na Rua Acre e o desmonte das plataformas), obriga Aracaju repensar a sua economia. A suposta reserva em águas profundas será leiloada.
Qual o nosso futuro?
O primeiro poço de petróleo em Sergipe, o 1-CP-1-SE, teve a perfuração iniciada a 1º de agosto de 1963. Quinze dias depois, viria a confirmação: a bacia de Carmópolis era um dos maiores campos petrolíferos da América Latina, com um volume total de óleo no reservatório de 1 bilhão 300 milhões de barris.
Era o caminho sergipano para o desenvolvimento.
Em fevereiro de 1965, ocorreu o primeiro embarque do petróleo sergipano para a refinaria Landulpho Alves, na Bahia. Os vagões-tanque da Viação Leste Brasileiro, partindo de Carmópolis, percorriam 57 quilômetros até Aracaju, em duas composições de cinco vagões cada, puxadas por máquinas a vapor.
Em Aracaju, uma possante máquina a diesel substituía as duas a vapor, transportando a composição até o campo de Catu, na Bahia, a cerca de 400 quilômetros de distância.
Em 1968, foi descoberto o campo de Guaricema e Sergipe se tornou o primeiro Estado a produzir petróleo no mar, no Brasil.
Em 15 de maio de 1968, foi criada a Universidade Federal de Sergipe. A Petrobrás e a UFS foram os alicerces do desenvolvimento de Sergipe.
Saímos de uma economia rural, centrada no açúcar, para uma economia moderna, fundada na exploração estatal de minérios.
É importante fazer justiça ao Governador Luiz Garcia (1959 – 1962). Foi um modernizador, que preparou Sergipe para um salto econômico. O JK sergipano.
Luiz Garcia (foto) criou o Condese, o Banese, a Energipe, a Secretaria de Educação, Cultura e Saúde; a Estação Rodoviária, o Hotel Palace de Aracaju, o Centro de Reabilitação Ninota Garcia, o Museu Histórico de Sergipe, a Faculdade de Medicina e o IPES.
No início da década de 1960, Aracaju era uma bucólica capital, com apenas 112 mil habitantes. Essa metrópole, com 657 mil habitantes, eivada de arranha-céus, rios poluídos, trânsito engarrafado é, em boa parte, decorrência da força da Petrobrás em Sergipe.
A Petrobrás foi embora. Qual o destino econômico de Aracaju?
Agricultura e indústria são geograficamente inviáveis. A área de serviço (comércio, educação e saúde), falta-nos escala, para uma concorrência exitosa com Pernambuco e Bahia. Um parque de alta tecnologia, seria uma pretensão desmedida.
A nossa vocação é o turismo ecológico. Com a despoluição dos nossos rios Sergipe, Vaza-barris, Poxim e do Sal, com a criação de áreas verdes, limpeza e preservação dos manguezais e recuperação de dunas e restingas. Aracaju estaria pronta para um desenvolvimento sustentável.
Por isso, defendo que a área do Tecarmo seja imediatamente incorporado ao patrimônio natural de Aracaju, como uma reserva de restinga.
Claro, são ideias para submeter-se ao debate com gente mais qualificada em meio-ambiente, urbanismo e economia.
Se esse caminho for viável, não poderemos aceitar que a prefeitura privatize o Parque da Sementeira, transformando-o em área de eventos, como está previsto.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)

sábado, 15 de agosto de 2020

O FUTURO DO TECARMO


O futuro do Tecarmo.
(por Antonio Samarone).
Os políticos governistas em Sergipe, assistem silenciosos e omissos o desmonte do Terminal Aquaviário de Aracaju, no Tecarmo. Mais um desastre para a economia sergipana.
É o fim de uma Era, onde a Petrobrás alavancou a economia sergipana. O Processamento de gás hidrocarboneto no Tecarno acabou. As plataformas marinhas de Sergipe serão desmontadas.
E agora? Nada! Ninguém diz nada...
Sergipe é uma terra sem líderes. Todos caladinhos, esperando migalhas compensatórias. Os novos campos descobertos serão privatizados.
Qual o destino da área física do Tecarmo? Uma reserva de restinga pronta. Aracaju é carente de áreas verdes. Vamos transformar o Tecarmo numa reserva ambiental?
Por onde andam a bancada federal, a bancada estadual, os vereadores de Aracaju, os senadores, o prefeito da capital, o governador do Estado?
Aracaju possui dois Parques abandonados (Parques da Cidade e dos Cajueiros). O Parque da Sementeira está sendo preparado para a privatização, para a transformação numa área de eventos.
A prefeitura tem os recursos, mas falta-lhe as ideias. O projeto da Sementeira é escondido a sete capas. A Sementeira é uma área cobiçada pela especulação imobiliária.
O Tecarmo está pronto para se transformar numa reserva de restinga, uma área verde, para fortalecer a qualidade de vida.
Aracaju tem uma vocação turística, infelizmente não aproveitada pela cegueira dos dirigentes políticos.
O Presidente Bolsonaro vem a Sergipe no dia 17, segunda-feira. Vamos reivindicar a área do Tecarmo para a cidade de Aracaju. Seria uma compensação da Petrobrás, que tanta riqueza tirou do subsolo sergipano.
Aracaju precisa resolver a sua principal pendência ambiental, a contaminação dos seus rios pelo esgoto sanitário. O saneamento em Sergipe é uma balcão de negócios políticos.
A economia sergipana afunda velozmente. As causas da decadência são múltiplas. Contudo, é gritante a falta de ideias dos nosso governantes.
Um deserto!
Sergipe foi ocupado por uma safra de políticos menores, politiqueiros, gente voltada para interesses imediatos, e as vezes pessoais.
Senhores governantes, a transformação do Tecarmo numa reserva ambiental, será de grande importância para o futuro de Aracaju.
Só um estadista nos tira do atoleiro econômico. Está difícil...
Antonio Samarone. (médico sanitarista)

SERGIPE DO CONDE

 


Sergipe do Conde.
(por Antonio Samarone)

Mem de Sá governou o Brasil por 15 anos.

Mem de Sá partiu de Lisboa em 30 de abril de 1557, só chegando ao Brasil nos últimos dias de 1557, numa penosa viagem de oito meses. Mem de Sá tomou posse em 03 de janeiro de 1558.

Mem de Sá chegou ao Brasil viúvo, a sua esposa Dona Guiomar de Faria, faleceu em Lisboa no ano de 1542. Tiveram cinco filhos: João Rodrigues de Sá, morto em Celta, pelos Mouros; Fernão de Sá, morto no Espírito Santo, pelos Tamoios; Breatis de Sá, que faleceu em Lisboa. Padre Francisco de Sá, que morreu poucos meses após o pai, sem deixar descendentes; restando como única herdeira Felipa de Sá (Condessa de Linhares).

Mem de Sá foi o dono do engenho Sergipe do Conde, o maior da Bahia. O engenho Sergipe é anterior a Província de Sergipe.

O engenho Sergipe do Conde foi instalado em 1563 nas terras de uma grande sesmaria, que ia de “Marapé até a ponta de Saubara”. O engenho ficava entre os atuais municípios de São Francisco do Conde, Santo Amaro da Purificação e Saubara.

Em testamento Mem de Sá afirmou: “tenho na Capitania da Bahia do Salvador três léguas e meia de costa e quatro para o sertão com duas ilhas, e Sergipe onde fiz um engenho de açúcar, com quinhentas e tanta vacas parideiras e roças de mandioca.”

No século XVII, o engenho Sergipe ficou conhecido como a Rainha do Recôncavo.

Sua localização estratégica, imponência arquitetônica e força produtiva o colocavam na liderança da produção no Recôncavo. Além de ter a maior casa de moenda da região, dispunha de grande contingente de escravos, cerca de 300, quando a média de um engenho de grande porte era de 100 escravizados por propriedade.

Mem de Sá, senhor dos engenhos (Sergipe do Conde e Santana), exportador de açúcar e pau brasil, importador dos produtos do Reino e de outras localidades, criador de gado, proprietário de terras além das necessárias aos currais e engenhos, e participante no resgate dos escravos da terra (índios).

O engenho de Santana ficava na Capitania de Ilhéus, duas léguas e meia de terra, tocado pelos escravos da terra (índios) e uns poucos de Guiné.

O engenho Sergipe pertenceu a Mem de Sá, ao Genro, D. Fernando de Noronha, (Conde de Linhares) e, finalmente aos jesuítas. O engenho chamava-se Sergipe do Conde, exatamente por ter pertencido ao Conde de Linhares, genro e herdeiro do governador.

Em testamento, Mem de Sá deixou para o médico Afonso Mendes, hum mil e seiscentos reis. O mestre Afonso Mendes foi o médico particular de Mem de Sá e da sua família desde a sua chegada ao Brasil, até o falecimento.

Em 1557, com a chegada de Mem de Sá, chegou a Bahia o Mestre Afonso, Cirurgião-Mor das partes do Brasil, com um ordenado de 18 mil reis anuais; aumentados depois em 6 mil reis, pela administração da Botica Real.

O mestre Afonso Mendes morreu pobre em Salvador, sem deixar cabedais. Mestre Afonso era cristão novo, dizia-se que todas as sextas-feiras, ele e a família, açoitavam o crucifixo.

Os primeiros médicos que chegaram ao Brasil eram judeus.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

O DELIRIUM DA QUARENTENA


O Delirium da Quarentena.
(por Antonio Samarone)

A demora ficou rápida. O tempo do confinamento é uma sequência de instantes fragmentados, indistinguíveis, sem rumo e sem destino. O tempo atomizado perde a profundidade.

A quarentena ultrapassou o tempo bíblico dos 40 dias (número da espera, da preparação, da provação e do castigo). O tempo perdeu a narrativa!

A realidade digital é enfadonha, repetitiva, objetiva e sem novidades. A realidade analógica é imaginada, imprecisa, inesperada, subjetiva e cheia de erros. Não tenho interesse nessa troca. Continuo analógico. Entre o erro humano e o acerto da máquina, fico com o primeiro.

As redes sociais criaram uma vida paralela que, aos poucos, substitui a vida presencial. Uma modesta reunião de condomínio consumia uma energia insuportável. Virtualmente, os tempos são encurtados. As pautas são cumpridas com objetividade, sem arrodeio e sem divagações.

Uma violonista itabaianense foi convidada a fazer parte de uma orquestra sinfônica mundial. Cada músico em sua casa, em países diferentes, com o maestro em Berlim. A tecnologia juntou e harmonizou tudo. O concerto foi assistido pela internet, no Pé do Veado, na bodega de Galeguinho.

Os filhos de Caetano acabam de emocionar uma multidão, sem saírem de casa. As antigas turnês pelo Brasil, perderam o sentido.

Ontem eu visitei a Chapada Diamantina, num sobrevoo de 30 minutos, assistindo ao “Brasil Visto de Cima”. Fiquei encantado com a cidade de Lençóis. Esse ano a romaria do meu ”Padin Padre Ciço” será virtual. Já comprei o chapéu de palha e a imagem do Santo pela Amazon. Tudo made in China.

Impressionante como os chineses fabricam chapéu de palha, iguais aos vendidos no Mercado Thales Ferraz. Passei a acreditar que aqueles ovos das Kombis (cem ovos por dez reais), são mesmo fabricados lá. Galinha saiu de moda.

Não tenho visto encontros virtuais (lives) para conversar “miolo de pote”, jogar conversa fora, ter momentos de divagações. Tudo parece muito produtivo. É chato!

Estou sentindo falta de alguns amigos! Das reuniões da confraria da cebola, todas as quintas-feiras, na Praça Luciano Barreto. Ouvir as mesmas lorotas, as mesmas piadas, as mesmas estórias. As antigas novidades são necessárias, reforçam os laços sociais, aprofundam as raízes e sustentam a cultura.

A solidão atrai as demências. Voltamos à caverna de Platão. As imagens do mundo chegam pela internet, sempre distorcidas.

Estou com saudade das feiras livres, do cuscuz com carne de bode, em Zé Buraqueiro, do mingau de puba, das castanhas do Carrilho, do coco mole, de saber as notícias das Flechas, trazida pelo caraibeiro que vende farinha, feita em forno de barro.

Saudade dos papos de feira, “museu de grandes novidades”, com dizia Raul.

Saudade dos feirantes das Palmeiras, para saber as estórias do Zanguê e do Pé da Serra de Itabaiana. Saber as notícias do Bom Jardim e da Cova da Onça. Saber se a Igreja do Barro Preto, que o Padre Edvaldo estava construindo, já acabou.

Me recuso a assistir as missas do Bom Jardim, pela Internet. Na Igreja tem um anjo serafim, aquele de seis asas: duas para cobrir os olhos e não ver Deus; duas para cobrir o sexo e duas para voar. A câmara virtual não capta o anjo.

Por outro lado, a pandemia tornou a vida fora de casa muito chata. Sob o comando das autoridades, a vida se tornou insuportável. O que abre ou não abre, o que pode ou não pode, depende deles.

O cafezinho do Shopping perdeu o sentido! O governador só permite uma pessoa por vez, em pé, e numa distância de três metros e setenta centímetros entre as pessoas.

Tenho a sensação de que estou sendo governado por Faraós, no antigo Egito. Ontem, no calçadão da João Pessoa, tinha um bando de burocratas bisbilhotando a vida dos outros. Sob o comando do Procon. Isso mesmo, do Procon!

Até o bate papo foi criminalizado, sujeito a multas. O governo lacrou as livrarias. Em Sergipe, o livro foi considerado um transmissor da Peste. Tudo para nos proteger.

Para acabar com esses decretos governamentais, tomo até a vacina russa! A pressa é amiga da perfeição.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A PESTE MASCARADA


A Peste Mascarada.
(por Antonio Samarone)

As máscaras protegem, evitando o contágio da covid-19?

Na ausência de medidas sanitárias de bloqueio dos contágios (isolamento dos infectado, testagem dos contactantes, bloqueio dos casos, rastreamento e busca ativa), o Poder Público torna o uso de máscaras obrigatório, sob pena de sanções.

São conhecidas três tipos de máscaras.

1. As máscaras cirúrgicas.

As máscaras cirúrgicas, que cobre a boca e o nariz, são usadas por médicos e assistentes para não infectar os pacientes na mesa de operação. Essas máscaras precisam ser trocadas regularmente e descartada de forma higiênica e segura. Na sala de cirurgia, a máscara deve ser trocada pelo menos a cada duas horas.

Essas máscaras não podem ser manuseadas e exigem cuidados ao retirá-las após o uso, evitando-se a contaminação das mãos.

Está claro, que esse tipo de máscaras, usadas e descartadas adequadamente, reduz a emissão de gotículas e aerossóis por quem está expelindo. Se o vírus já está circulando, elas pouco impedem que os seus usuários se contaminem.

Em resumo, a máscara cirúrgica serve mais para proteger as pessoas ao redor de quem a está usando do que propriamente quem está de máscara. O uso das máscaras cirúrgicas traz um benefício indireto, serve de aleta, para que não se leve as mãos sujas ao rosto e evite-se aglomerações.

Essas máscaras cirúrgicas não protegem o usuário de uma possível infecção através de gotículas e secreções que saem da boca de uma pessoa infectada, quando ela espirra ou tosse. Geralmente, o vírus entra no corpo pela boca, o nariz ou pelos olhos.

2. As máscaras de pano.

Essas padecem das mesmas limitações das máscaras cirúrgicas, agravadas pela necessidade de higienizações frequentes. As máscaras de tecido também devem ser trocadas com frequência e lavadas com água quente, ou com detergentes adequados, para que os vírus não sobrevivam.

Essas máscaras de pano, mesmo reutilizáveis, devem ser trocadas com frequência, para funcionarem com equipamento de proteção. As pessoas desinformadas não tomam os cuidados necessários com essas máscaras após o uso.

Na prática, essas máscaras de pano se transformaram em adereços do vestuário, com marcas famosas, personalizações, símbolos, estilos e sutilezas. São burcas ocidentais.

3. As máscaras de proteção (EPIs)

São máscaras que filtram o ar – tanto na versão descartável, feita a partir de fibra de celulose com um elemento filtrante e uma válvula expiratória, quanto de material sintético, à qual é acoplado um filtro.

As máscaras EPI são usadas em hospitais quando profissionais de saúde entram em contato com pacientes de doenças altamente infecciosas. São usadas juntamente com outros EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), como protetor ocular, luvas, aventais e macacões descartáveis.

As máscaras EPI são usados pelos profissionais de saúde que estão na linha de frente no atendimento da covid-19. No Brasil, essas máscaras seguem a regulamentação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e precisam de CA (certificado de aprovação). São os tipos N95, N99, R95 ou PFF2.

Não é aconselhável, nem viável, o uso dessa máscaras (EPI) pelo público em geral. Elas são reservadas para os trabalhadores expostos a riscos extremos.

Portanto, as máscaras em geral ajudam na redução do contágio da covid-19, quando usadas de forma adequada e somadas a outras medidas de higiene e vigilância. As máscaras usadas de forma incorreta podem tornar-se em um veículos de transmissão do vírus.

Portanto, leis obrigando o uso de máscaras, sem o devido esclarecimento e treinamento, são apenas jogadas de marketing.

Antonio Samarone (médico sanitarista)