segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A água vira commodity, vende-se a DESO.



A água vira commodity, vende-se a DESO.

Antonio Samarone - médico sanitarista.


A Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO) entrou na mira das privatizações. Trata-se de uma empresa de economia mista que detém 71 concessões municipais para explorar o fornecimento de água e o tratamento do esgoto sanitário. Sei que existem controvérsias jurídicas e econômicas, e que a “venda da DESO” irá aliviar temporariamente o desequilíbrio fiscal do Estado, mas não trato disso. A minha reflexão é de outra ordem: quais as consequências para a saúde pública e para o meio ambiente a transformação do serviço de saneamento básico numa mercadoria, sujeita a lógica dos negócios? O fornecimento da água potável e o tratamento dos esgotos regidos pelo lucro são compatíveis com a sua indispensável universalização? Os problemas de saúde pública e de poluição do meio ambiente obrigaram a humanidade a encontrar soluções para a universalização do saneamento.

O Poder Público está declarando-se incompetente para erradicar a esquistossomose, febre amarela, febre paratifoide, amebíase, ancilostomíase, ascaridíase, cisticercose, cólera, disenterias, elefantíase, malária, leptospirose, teníase e tricuríase, febre tifóide, giardíase, dengue, chikungunya, zica, hepatite A. As metas de Promoção à Saúde proposto pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde a Conferência de Ottawa, em 1986, caem por terra se a universalização do saneamento passar a ser subordinada ao lucro. Dados do Ministério da Saúde afirmam que para cada R$1,00 investido no setor de saneamento, economiza-se R$4,00 na área de medicina curativa.

O mesmo raciocínio aplica-se ao meio ambiente. Como despoluir a bacia do Rio Sergipe sem a universalização do saneamento, com os esgotos sanitários sendo jogado “in-natura” em seu leito, e como universalizar um serviço subordinado a lógica de mercado? Qual o interesse do capitalismo expandir serviços para quem não pode comprar? Ao deixar de fora os que não podem pagar, os mais pobres, os pequenos municípios e regiões carentes, a necessidade de rios limpos e de um meio ambiente sustentável fica inviabilizada. Mesmo nos Estados Unidos, cabeça do capitalismo, água e o esgoto são serviços públicos.


Não sou um devoto da estatização, mas não concordo que tudo possa virar mercadoria e subordinar-se a lógica do mercado. A experiência com a mercantilização da assistência médica em curso no Brasil, não está garantindo um serviço de qualidade nem para os que podem pagar os planos de saúde. É sabido que a agua já é um bem escasso no mundo, entregar o controle dos nossos mananciais, a captação, a adução, o tratamento, a distribuição e a venda desse bem indispensável a vida ao comando do capital, não conta com o meu silencio. O capitalismo cercou as terras de uso comum, tenta transformar a arte, o espaço, a fé, a ciência, a saúde, o oxigênio em mercadorias; agora é a vez da água. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

COMO ACREDITAR QUE EM 2017 TEREMOS UM “FELIZ ANO NOVO”?


COMO ACREDITAR QUE EM 2017 TEREMOS UM “FELIZ ANO NOVO”?

Antonio Samarone.


Sou da geração que assistiu o fim da ditadura, foi às ruas pela anistia e pelas diretas; e sonhou com um Brasil livre. Em 1979, ano cheio de medos e incertezas, enchemos os olhos de lágrimas e cantamos com Elis Regina, o hino de João Bosco e Aldir Blanc. Caia a tarde feito um viaduto (o Paulo de Frontin), e as lembranças de Carlitos (Chaplin tinha morrido no natal de 1977), choravam Marias e Clarisses” (viúvas de Manuel Fiel Filho e Vladimir Herzog); e o bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil Prá noite do Brasil, (e que noite); contudo, sonhávamos com a volta do Betinho, Prestes e Brizola; que tinham partido num rabo de foguete; e pensávamos que aquela dor assim pungente não teria sido inutilmente. Vislumbrávamos a esperança, mesmo de sombrinha numa corda bamba. Era um choro alegre, uma aflição aliviada, pois o amanhã seria outro dia.
Hoje, estamos no limbo, não enxergamos a esperança. Dante Alighieri encontrou na porta do Inferno: "Lasciate ogni esperanza, ó voi que entrate" (Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança); exatamente, o inferno é o fim da esperança... Como desejar feliz 2017? Não acredito num acordo de leniência política e que o PT seja perdoado do envolvimento na ladroagem. Não vejo sinais de uma nova esquerda. A chamada direita não tem projeto para o Brasil onde o povo esteja incluído: nem com esse bando de malfeitores que usurpou o poder, testas de ferro do capital financeiro; nem com a social democracia brasileira de FHC, Serra, Alckmin e Aécio; muito menos com a turma do BBB (boi, bala e bíblia), liderados por Bolsonaro e Malafaia. A sociedade perdeu a confiança em saídas políticas...
Bertold Brecht cunhou uma sentença clássica: Infeliz a nação que precisa de heróis; em outras palavras, infeliz o povo que precisa de salvadores da pátria, de líderes, de libertadores; mas no Brasil estamos numa situação curiosa; e poderíamos completar a frase de Brecht: mais infeliz é a nação que precisa de heróis e eles não existem. Nem temos lideranças, nem instituições políticas com credibilidade. As vagas estão abertas para os tiranos... 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O MERCADO DA AUTOAJUDA



O MERCADO DA AUTOAJUDA

ANTONIO SAMARONE

A previsibilidade do futuro é um desejo atávico da alma humana. Em especial, antecipar-se sobre o futuro da nossa saúde, e as possibilidades em se evitar o sofrimento, as limitações e as enfermidades; o desejo universal em se adiar a velhice e morte. Antes recorria-se aos oráculos, adivinhos, bruxos e clarividentes, atualmente este sonho é confiado a ciência. Para ser mais preciso, confiado ao mercado da autoajuda (travestido de ciência). Infelizmente a vida humana continua imprevisível.
Conhecendo o desejo humano de conhecer o futuro, a medicina, valendo-se dos êxitos com algumas doenças transmissíveis, não perdeu tempo, criou a ilusão de que sabe como identificar e eliminar precocemente os riscos adoecer e morrer. Basta que cada um obedeça aos protocolos da medicalização, procure os médicos com frequência, faça os exames prescritos, tome os remédios necessários (para reduzir pressão, glicemia, colesterol, radicais livres), consuma os alimentos milagrosos (alguns previnem o câncer e retardam o envelhecimento), e frequentem as academias de culto ao corpo. Nota-se nesse campo o crescimento de uma indústria de autoajuda alimentar, liderado pelos nutricionistas.
Sei que você quer perguntar, e esse modo de vida não é saudável? Uma parte sim. Mas não significa que as doenças possam ser antecipadas e eliminadas previamente (salvo em casos específicos), na imensa maioria das situações não existe cientificamente essa comprovação. Trata-se de uma ideologia que atende a diversos interesses. Primeiro, amplia-se o mercado da medicina e do seu complexo industrial, que antes cuidava dos doentes e passa a cuidar dos vivos. Segundo, cria-se a ilusão que cada um pode definir a sua saúde, através do consumo de bens e serviços saudáveis, independente da qualidade da vida social. A doença, o sofrimento e a morte se transformam em punição para os que erram, aos que desobedecem e se rebelam contra as normas. O envelhecimento e a morte viram uma improbabilidade que pode acontecer com os outros. Nesse modelo a juventude é eterna, uma questão de cabeça. Foi essa concepção de saúde que se tornou um direito no pós segunda-guerra.

domingo, 20 de novembro de 2016

CENTENÁRIO DE EUCLIDES PAES MENDONÇA (parte final)


Centenário de Euclides Paes Mendonça.

Antonio Samarone de Santana.

Na verdade, as profundas mudanças econômicas que estavam ocorrendo em Itabaiana, conforme apontamos nos dois artigos anteriores, permitiram o nascimento de uma nova liderança, Euclides Paes Mendonça, com um jeito diferente de fazer política, colocando o eleitor como uma mercadoria a ser disputada. Líder de ascensão rápida, quase apoteótica, favorecida pela chegada de Leandro Maciel ao poder Estadual.
A política se colocou como uma excelente aliada na guerra comercial emergente, na ocupação dos novos mercados, decorrentes da ligação rodoviária de Itabaiana com o resto do país. Euclides entrou na política para favorecer os seus negócios, melhorar a sua competitividade na guerra comercial, não é por acaso, que a frase principal de Euclides no discurso de posse na Prefeitura de Itabaiana, em sua primeira vitória eleitoral, foi: “agora quem passa contrabando sou eu”, refletindo suas principais motivações.
Em 1947, Euclides entrou na política e perdeu a eleição para Prefeito de Itabaiana para Jason Correia, apoiado por Manoel Teles; no pleito seguinte, em 1950, ele derrotou o próprio Manoel Teles, tornando-se Prefeito de Itabaiana. Nesse primeiro mandato ainda de baixo, pois o PSD governava o Estado. Em 1954 vem o apogeu, Euclides elegeu-se deputado estadual, o segundo mais votado do Estado, elegeu o Serapião Góis prefeito de Itabaiana, e a UDN chegou ao poder, através de Leandro Maciel. O crescimento do império político e econômico de Euclides disparou. Euclides estava de cima, como se dizia.
Em 1958, o já poderoso Euclides Mendonça voltou a prefeitura de Itabaiana, ganhando a eleição para um noviço na política, Dr. Pedro Garcia Moreno, o médico do povo. Aqui apareceu a primeira ameaça à hegemonia de Euclides na região do agreste central; seu irmão, Pedro Paes Mendonça que resolveu disputar o mandato de Deputado Estadual, e se elegeu pelo PSD; Euclides lançou José Sizino de Almeida para estadual e perdeu. Comentários que Sinhá, a esposa de Euclides, tenha votado no compadre e cunhado Pedro, circularam com ares de verdade.
A eleição de Pedro Paes Mendonça ascendeu uma discordância familiar, os dois eram empresários talentosos e ambicionavam expandir seus negócios. Pedro resolveu levantar a bandeira da autonomia da Moita Bonita, e ali estabelecer o seu Condado. A Moita era um pequeno arruado, bem menor que o Capunga, mas Pedro queria a Moita emancipada de Itabaiana. Como Deputado, começou a levantar essa bandeira. Euclides, Prefeito de Itabaiana, não gostava da proposta.
Em 1962, após 12 dominando a política de Itabaiana, 4 na oposição estadual e 8 com governos aliados da UDN (Leandro Maciel e Luiz Garcia), Euclides realizou o seu maior voo, elegeu-se Deputado Federal, elegeu o filho Deputado Estadual e José Sizino de Almeida Prefeito de Itabaiana, aparentemente, a trajetória estava apenas começando, já rico, poderoso, Deputado Federal; mas o destino pregou-lhe uma peça, a UDN perdeu o Governo do Estado, Seixas Dória é eleito pelo PSD.
Ao nível nacional o país vivia a ebulição das reformas de base, renuncia de Jânio, parlamentarismo, Jango, e desconheço qualquer posição de Euclides Paes Mendonça sobre qualquer coisa da grande política; em Sergipe, Seixas Dória prometia um governo de mudanças, também Euclides silenciava, suas preocupações centravam-se no domínio político de sua região e na expansão dos seus negócios. Minha tese, defendida ao longo deste ensaio, é que Euclides foi um grande empresário, e que usava a política apenas para fortalecer seus negócios. Na ocasião de sua morte, era o mais rico dos três irmãos famosos.
Como continuar sendo o Manda-Chuva do agreste se agora, com a eleição de um Governador do PSD, ele perdia o controle da polícia e do fisco? No quesito polícia, ele resolveu fortalecer a guarda municipal, e Itabaiana passou a ter duas policias uma da UDN e outra do PSD, isso não poderia dar certo, como não deu. Os adversários locais de Euclides começaram a criar asas. Manoel Teles voltou a ter os privilégios do fisco, Pedro, o irmão, se fortaleceu, viabilizando a emancipação da Moita Bonita, onde se tornou o seu primeiro prefeito. Tudo gerou muito atrito e muito foram os ódios acumulados.
É evidente, que o assassinato de um Coronel da Polícia, numa troca de tiros com a Guarda Municipal, foi um estopim para o que veria acontecer em seguida. Os principais inimigos políticos com relações envenenadas, inclusive o irmão, governo do Estado contra, policia militar ressentida com a morte de um Coronel, nessa conjuntura, os estudantes realizaram uma passeata reivindicando água, durante o evento, ocorrem desentendimentos entre Euclides e o filho, com os manifestantes, e os dois são assassinados, numa história contada e recontada por muitos.
Pouco depois do ocorrido, instalou-se uma ditadura no país, Seixas Dória foi cassado, Pedro Paes Mendonça aconselhado a ir embora, indo para Pernambuco, onde construiu a bem-sucedida rede de supermercado Bom Preço, Manoel Teles foi assassinado, como vingança pela morte de Euclides, os correligionários pessedistas envolvidos fugiram de Sergipe. Gentil Barbosa, sobrinho de Sinhá, comprou o armazém de Euclides em Itabaiana, e iniciou a construção da bem-sucedida rede G. Barbosa; e Mamede Paes Mendonça estabeleceu-se na Bahia, montando a famosa rede Paes Mendonça.
Acredito, que a história dos três irmãos famosos, os Paes Mendonça, Euclides (depois Gentil Barbosa), com a rede G. Barbosa; Pedro com a rede Bom Preço, em Pernambuco; Mamede, com a rede Paes Mendonça, na Bahia, constituíram-se num raro episódio da história econômica brasileira, de como três talentos empresariais saído de Serra do Machado, à época município de Itabaiana, (Ribeirópolis foi emancipado em 1936), nascidos uma sociedade agrícola tradicional, se constituem em três potências econômicas regionais; sendo que no caso de Euclides, teve uma correlação com a política pelo tempo de 13 anos.

Economicamente, Itabaiana consolidou-se como um grande polo de comercio em Sergipe, permanecendo forte em armazéns e supermercados, mesmo esses setores tendo passado por um processo de internacionalização, e pelo setor de transporte, tornando-se a capital dos caminhoneiros. A competência comercial da cidade e dos seus filhos é reconhecida. As coisas são mais baratas em Itabaiana do que nas fábricas, e tudo com nota fiscal.  Exportamos ouro e castanha para o Brasil, sem ter nem cajueiros nem mina de ouro. Uma coisa é certa, continuamos produzindo a melhor farinha de mandioca do Brasil. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

HISTÓRIA DA VARÍOLA (BEXIGA) NO BRASIL.


HISTÓRIA DA VARÍOLA NO BRASIL 

ANTONIO SAMARONE DE SANTANA

A primeira referência a uma epidemia de varíola (bexiga) no Brasil, encontra-se numa carta de José de Anchieta a Diogo Laínez, segundo superior geral da Companhia de Jesus. São Vicente, 08 de Janeiro de 1556. Observem os assombrosos tratamentos disponíveis no século XVI.
A principal destas doenças hão sido varíolas, as quais ainda brandas e com as costumadas que não têm perigo e facilmente saram; mas ha outras que é coisa terrível: cobre-se todo o corpo dos pés á cabeça de uma lepra mortal que parece couro de cação e ocupa logo a garganta por dentro e a língua de maneira que com muita dificuldade se pode confessar e em três, quatro dias morrem; outros que vivem, mas fendendo-se todos e quebrasse-lhes a carne pedaço a pedaço com tanta podridão de matéria, que sai deles um terrível fedor, de maneira que lhe acodem as moscas como á carne morta e apodrecida sobre eles e lhe põem gusanos (bicho de mosca) que se não lhes socorressem, vivos os comeriam.
José de Anchieta revela na carta: estive acudindo a todos, sangrando dez, doze cada dia, que esta é a melhor medicina que achamos para aquela enfermidade, e era necessário correr suas casas cada dia uma ou mais vezes, a buscar deles que, ainda que passeis por suas casas, se não a revolveis toda e perguntais por cada pessoa em particular, não vos hão de dizer que estão enfermos. E o melhor é que em pago destas boas obras, alguns deles, como são de baixo e rude entendimento, diziam que as sangrias os matavam, e escondiam-se de nós outros. Os índios desconfiavam que sangrar o bexiguento (doente com varíola), não era um bom socorro.
Contudo, os índios escolhiam outra forma agressiva de tratamento: mandavam fazer umas covas longas á maneira de sepulturas, e depois de bem quentes com muito fogo, deixando-as cheias de brasas e atravessando paus por cima e muitas ervas, se estendiam ali tão cobertos de ar e tão vestidos como eles andam, e se assavam, os quais comumente depois morriam, e suas carnes, assim com aquele fogo exterior como com o interior da febre, pareciam assadas. Três destes que achei revolvendo as casas, como sempre fazia, que se começava a assar, e levantando-os por força do fogo, os sangrei e sararam pela bondade de Deus.

José de Anchieta continua descrevendo as vantagens de sua medicina: a outros que daquele pestilencial mal estavam mui mal e esfolei parte das pernas e quase todos os pés, cotando-lhes a pele corrupta com uma tesoura, ficando em carne viva, coisa lastimosa de ver, e lavando aquela corrupção com água quente, com o que pela bondade do Senhor sararam; de um em especial se me recorda que com as grandes dores não fazia senão gritar, e gastando já todo o corpo estava em ponto de morte, sem saber seus pais que lhe fazer, senão chorar-lhe, o qual, como lhe cortámos com uma tesoura toda aquela corrupção dos pés, e os deixámos esfolados, logo começou a se dar bem e cobrou a saúde.

sábado, 22 de outubro de 2016

CENTENÁRIO DE EUCLIDES PAES MENDONÇA (Parte dois).

CENTENÁRIO DE EUCLIDES PAES MENDONÇA (parte dois)

Antonio Samarone de Santana

Foi na conjuntura (apontada na parte um do texto), na transição entre o predomínio da atividade agrícola para o crescimento do comércio e do transporte, favorecidos pela chegada da estrade de rodagem, a BR-235, que Itabaiana ganhou um grande impulso de desenvolvimento. Aqueles homens treinados nos pequenos negócios nas feiras do Estado, com o corpo no campo numa produção camponesa e espírito voando para o mercantilismo. Gente simples, sempre poupando, levando vida franciscana, de pequenos gastos, poucos luxos, muito trabalho e muita avareza. O dinheiro era tudo, ganhar, investir e ganhar, o esquema clássico do capitalismo.
Euclides Paes Mendonça chegou a Itabaiana disposto a ganhar dinheiro, descobriu rápido que com o fim do Estado Novo, a política ia abrir espaços pelo voto, para quem tivesse ambição. O eleitor passou a valer alguma coisa e precisava ser conquistado, com mimos e afagos, ou com ameaças e retaliações. O chefe político não era mais o coronel da República Velha, um latifundiário com os seus vassalos e capangas, o voto precisava ser conquistado. O eleitor precisava mais que o cabresto para ser domado, além da proteção, precisava de outras regalias. O cumprimento, o aperto de mão e até do abraço, em época de eleição.
Euclides percebeu os novos tempos, bom comerciante, impetuoso, tendo prosperado na padaria, resolveu ampliar os seus negócios. Em 1944, comprou uma casa velha no Largo da Feira e construiu um grande armazém de secos e molhados, o precursor dos atuais supermercados. O estabelecimento prosperou e logo-logo se tornou o maior da cidade, em competição direta com o Armazém de Manoel Teles, mais antigo, e situado no mesmo logradouro.
Euclides Paes Mendonça, diante da necessidade de expansão dos negócios e do enriquecimento constatou que sem o contrabando, a velocidade de crescimento não seria a mesma. Não era difícil identificar que possuir força, poder, capacidade de ameaçar e do exercer a violência, era de grande utilidade, nesta fase de acumulação primitiva de um mercantilismo nascente. Era preciso controlar a exatoria (o fisco) e a polícia, e se possível, a justiça e a igreja, mas isso se veria depois. Estava clara a necessidade de envolvimento com a política.
Dos irmãos Mendonça, apenas Mamede Paes Mendonça não se envolveu diretamente com a política; Pedro Paes Mendonça foi Deputado Estadual e Prefeito de Moita Bonita. Gentil Barbosa, sobrinho de Sinhá Barbosa (esposa de Euclides), assumiu os armazéns de Euclides após a sua morte precoce (1963) e fundou o G. Barbosa, a maior rede de supermercado de Sergipe; em sociedade com o seu irmão, Noel Barbosa. Com a morte trágica de Euclides e inicio da ditadura em 1964, os irmãos Barbosa não se envolveram diretamente com a política. Albino Silva da Fonseca e Oviedo Teixeira, outro empresários de Itabaiana esse período, saíram da cidade, cresceram em Aracaju, estavam envolvidos até os cabelos com a política, cada um ao seu modo.
Em Itabaiana, só ficou Euclides Paes Mendonça, dos empresários bem sucedidos. Euclides chamou a atenção pelo o seu caráter expansivo e provocador, ousado, temperamental, sangue quente, que falava mais do que fazia, sensível às fofocas e os fuxicos da política. Euclides entrou na política visitando os eleitores de casa em casa, oferecendo vantagens para quem aderisse ao seu comando, ameaçando os resistentes, fazendo festas (leilões, micaremes e bailes), comprando votos e apoios, bagunçando a forma antiga de se fazer política em Itabaiana. Foi um furacão.
Na política, depois da atritada era dos pebas e cabaús, o Coronel Sebrão versus Itajay, da República Velha, Itabaiana passou pela ditadura do Estado Novo, com um recrudescimento da politicagem local. Sílvio Teixeira governou a cidade de 1935 a 1941 e Manoel Teles, de 1941 a 1946. Após a redemocratização de 1945, constituíram-se dois grupos fortes na política, de um lado o PSD, ligado aos proprietários rurais, liderado por Manoel Teles, Jason Correia e Toinho do Bar; e do outro a UDN, mais vinculado aos comerciantes, tendo a frente Otoniel Dórea, Esperidião Noronha e Boanerges Pinheiro.
Euclides entrou no grupo da UDN, começou quando o velho mundo pebas/cabaús tinha desmoronado, após o longo período de ditadura do Estado Novo. Quando Walter do Prado Franco, usineiro da cotinguiba, começou a organizar a UDN na redemocratização de pós 1945, teve dificuldades de encontrar uma liderança forte em Itabaiana. Euclides ocupou esse espaço. Manoel Teles, o interventor, figura entranhada no poder durante todo período ditatorial, chegando depois a ligações familiares, ficou com o PSD de Leite Neto. Manoel Teles era um homem contido, de pouca conversa, ciosos da sua condição de rico e chefe político. Não fazia gracinha para eleitor.

Os: O texto continua em outro momento...

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

CENTENÁRIO DE EUCLIDES PAES MENDONÇA (parte um)


CENTENÁRIO DE EUCLIDES PAES MENDONÇA (parte um)

Antonio Samarone de Santana.

A luta política em Itabaiana entre 1945 e 1964, tinha como pano de fundo uma guerra comercial pelo domínio do mercado Regional. A cidade voltada para a agricultura de subsistência e o pequeno comércio, com a chegada da BR-235 (1953), teve um surto de crescimento. O abastecimento das feiras municipais, sobretudo Aracaju, dependia do transporte no lombo de burros e saveiros; com a BR chega, o caminhão elevou a escala da economia. Os tropeiros viram caminhoneiros; e o pequeno feirante se fortaleceu. A base econômica de Itabaiana, Comércio e transporte, têm a sua origem com a chegada da BR-235.
Antes, camponeses e tropeiros dominavam a vida econômica do agreste sergipano. Uma particularidade, parte desses camponeses exercia algum tipo de comércio, como complemento da renda familiar. Era comum se possuir um sítio em Itabaiana e uma grade no mercado de Aracaju ou uma banca em qualquer feira de Sergipe, para se comercializar farinha, grãos, galinhas e ovos, e todo o tipo criação. Ganhamos fama de cidade celeiro, abastecendo a população de Aracaju e alhures de farinha, feijão, hortaliças e frutas.
Os tropeiros transportavam em lombo de burros as mercadorias dos sítios de Itabaiana até Roque Mendes, pequeno porto do Rio Sergipe, em Riachuelo, e através dos veleiros, chegava-se ao mercado do Aracaju. Os mesmos burros abasteciam as demais feiras de Sergipe, no retorno, trazia sal, açúcar, óleos, produtos industrializados em geral, para os armazéns locais de secos e molhados e pequenas bodegas.
Com a mudança na base econômica, a disputa política passou a ser pelo comando do comércio, dos armazéns de secos e molhados (futuros supermercados), dos centros de distribuição de mercadorias, numa cidade tida como celeiro. O poder político era decisivo para o sucesso econômico. A meta era controlar a exatoria e a polícia. Quem estava autorizado a passar o contrabando? Quem mandava prender e soltar e podia acobertar os malfeitores? Essa era a essência do poder no interior de Sergipe. Em Itabaiana, o embate político entre Manoel Francisco Teles (PSD) e Euclides Paes Mendonça (UDN) foi violento e apaixonado. A população dividiu-se de forma irreconciliável.   
Manoel Francisco Teles, nasceu a 11/11/1899, filho de José Francisco Teles e Dona Maria da Graça Bomfim, oriundo de família de baixa renda, começando a trabalhar logo cedo. Em 1937, monta sua primeira Casa Comercial, depois expandindo filial em Carira. Torna-se um pecuarista de porte médio, e com a herança pela morte do sogro, torna-se um homem rico. Casou-se com Maria Mendonça Teles (Dona Pequena), filha única do Tenente Honório Francisco de Mendonça. O casal teve apenas um filho, o Dr. Airton Mendonça Teles, nascido em 07 de outubro de 1924, formado em medicina em Salvador, em 1947. Manoel Francisco Teles foi assassinado em 31 de agosto de 1967, na porta de sua residência.
Euclides Paes Mendonça nasceu a 16 de novembro de 1916, filho de Eliziário Paes e Maria da Conceição Mendonça, no povoado Serra do Machado, à época, território de Itabaiana. Chegou à cidade por volta de 1941, aos 25 anos, maduro e já casado com Dona Sinhá, uma matriarca da importante família Barbosa, das Candeias. Encontrou uma cidade pobre, acanhada, habitações precárias, sem água e sem luz elétrica. A população residente no núcleo urbano não passava de cinco mil almas. A população, em sua ampla maioria, era rural.
Euclides teve dois irmãos famosos, Mamede Paes Mendonça (1915 – 1995), que veio com ele para Itabaiana, e montaram como sócio uma padaria, no Beco Novo, esquina com a Rua da Pedreira; e Pedro Paes Mendonça (1900 – 1978), optou por estabelecer um comércio em Ribeirópolis. Mamede depois construiu a rede de Supermercado Paes Mendonça, o maior da Bahia; e Pedro construiu a rede de Supermercado Bom Preço, a maior de Pernambuco. Convenhamos não é pouco. Nesse período onde o comércio de Itabaiana explodiu, Itabaiana deu ao Brasil Oviedo Teixeira, Gentil Barbosa, Noel Barbosa e Albino Silva da Fonseca, empresários de grande sucesso em Sergipe, e na região Nordeste. Ganhamos a fama de grandes comerciantes...  

OS: O texto continua em outro momento...