domingo, 15 de abril de 2018

Os Direitos Humanos Serão Proibidos no Brasil



Os direitos humanos serão proibidos no Brasil.

O desprezo pela vida foi a marca da civilização no Brasil. Foi assim com índios e negros, consumidos pela violência, maus tratos e extermínio, ao longo de nossa história. Continua sendo assim com a população mais pobre. Presos e mortos, sem direito aos serviços da justiça. Dependendo do crime, a execução sumária está socialmente autorizada. A vingança substituiu a justiça.

A relação cangaço/volante era mais civilizada. O medo da violência é quem legitima mais violência. Todos os excluídos são suspeitos de tráfico ou de envolvimento com o crime, no mínimo coniventes, e muitas vezes eles não conseguem provar a sua inocência. São mais de 600 mil jovens encarcerados no Brasil, uma boa parte sem a devida condenação judicial.

Os porta-vozes da violência, diante de chacinas, execuções e linchamentos, esbravejam: - não me venham com essa lorota de direitos humanos, quem tiver pena de bandido, que leve para a sua casa. E os últimos e raros defensores dos “direitos humanos” estão intimidados, caíram na clandestinidade. Ficaram com medo de levantarem as suas bandeiras, e caírem em desgraça na opinião pública.

Só falta aparecer um parlamentar, desses da bancada BBB, para apresentar um projeto de lei proibindo os direitos humanos no Brasil, tornando-o crime inafiançável. E por ironia, ainda colher assinaturas, para torna-lo de iniciativa popular. Em pesquisa recente, 87% da população sente-se mais indignada com os maus-tratos aos animais (sobretudo cães e gatos) que aos humanos. A solidariedade, a fraternidade e a compaixão saíram de moda, e até a misericórdia estrou em vias de extinção.
Antônio Samarone.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O SUS AGONIZA


O SUS agoniza.
Não sei porque circula como novidade nas redes sociais, que estão querendo acabar com SUS. Isso vem de longe, acelerado nesse governo. A medicina comercial não se conforma na existência de serviços gratuitos de saúde, e alguns de boa qualidade. A ambição pelos lucros não tem limites. O capital financeiro, que comanda os planos de saúde, quer transformar o SUS em Mais Médicos, ou seja, num serviço primário para as populações na linha da miséria. Transformar a assistência as enfermidades em parte da assistência social aos mais pobres. Nessa visão neoliberal, cabe ao estado apenas assumir o papel da antiga filantropia, um retorno as misericórdias.
Os grupos liberais no Congresso, tendo a frente a bancada BBB, acusam o SUS de ser uma política “comunista cristã”. A Constituição determina que a saúde seja “um direito de todos e um dever do estado”, nada mais comunista; e o modelo assistencial do SUS aponta para uma atenção integral e equânime, nada mais cristão. Do ponto de vista liberal, dos que são contra os direitos sociais, é natural que proponham a entrega da saúde ao mercado. Afinal, eles defendem o reino das mercadorias. Na prática, a União sufoca o SUS, reduzindo a sua participação no financiamento.
Para quem ainda não percebeu, vai sobrar para estados e municípios, que se defrontam com uma demanda de 80% da população, que não pode pagar aos planos de saúde. Entenderam a estupidez em se gastar recursos tão escassos no luxo do Taj Mahal? Resta-nos, aos que acreditam em “saúde como um direito”, organizarmos a resistência.
Antônio Samarone.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

E POR FALAR EM PRÊMIO NOBEL


E por falar em Prêmio Nobel?

Uma questão me incomoda. Por que o Brasil nunca ganhou o Prêmio Nobel? A Academia Sueca premia anualmente, desde 1901, pessoas que se destacam em seis modalidades: física, química, medicina, economia, literatura e paz. Por que nenhum brasileiro fez por merecer esse prêmio? Fui esmiuçar e comecei pela medicina.

Carlos Chagas foi indicado em 1913 e 1921, pela descoberta da doença que leva o seu nome; Antônio Cardoso Fontes, em 1934, pelo trabalho com o bacilo da tuberculose; Adolpho Lutz, em 1938, por seus sobre doenças tropicais; e Manoel de Abreu, em 1946, pela abreugrafia. Todos perderam. De lá para cá, nem indicados temos.

Pelo menos no caso de Carlos Chagas, foi uma profunda injustiça. Ele descobriu uma doença importante, seu agente etiológico, o inseto transmissor, o ciclo biológico do parasito, animais reservatórios, as formas clínicas agudas e crônicas, e a sua sintomatologia. Mesmo assim não foi contemplado. Em 1913, a indicação de Carlos Chagas não chegou nem a ser avaliada; em 1921, a indicação foi avaliada, a documentação apresentada era consistente, mas a Academia Sueca resolveu a não premiar ninguém em medicina. Em 1921, não houve ganhadores.

Os historiadores da medicina comentam que as derrotas de Carlos Chagas, foi motivada pelas brigas aqui no Brasil. Alguns pesquisadores da própria Fiocruz, entre eles Afrânio Peixoto, Figueiredo de Vasconcelos, e o nosso Parreiras Horta se posicionaram contra, enviaram relatórios e documentos, desclassificando o trabalho de Carlos Chagas. Chegaram a questionar se a doença de chagas existia mesmo. Inimizades pessoais, desavenças, ciúmes e invejas, impediram o primeiro Nobel em medicina para o Brasil.               
Antônio Samarone.   

quarta-feira, 11 de abril de 2018

O DR. SIMPLÍCIO



O Dr. Simplício.

De família remediada, Simplício sempre foi um bom aluno. Bem-comportado, destoando da molecada, em Itabaiana. Não sendo da estreita elite local, compensava estudando. Sempre pronto e perfumado, Simplício era diferente: tímido, falava pouco, ouvia os Beatles, usava calça lee original, colecionava selos e ouvia a Voz da América. Nunca se meteu em política. Isso causava inveja e despeito, gerando dificuldades de convivência para o inteligente Simplício, na vida rude da Aldeia.

Simplício virou o Dr. Simplício, um médico bem-sucedido. Ganhou dinheiro, conheceu o mundo, aprendeu os segredos dos vinhos, refinou os hábitos e as vestes. Dentro do possível, virou um fidalgo. Contudo, o Dr. Simplício permanecia discreto, circulando apenas em seu mundo privado. Sempre sensível e educado, atencioso, incapaz da mínima ofensa ao semelhante. Continuava distante da política.

Com essa irracional onda de ódios e intolerâncias, o Dr. Simplício entrou em ação, assumiu uma militância política inesperada. Bateu panelas, vestiu a camisa da seleção e danou-se a escrever para as redes sociais. Até livro já escreveu. Umberto Eco, num exagero, disse que “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade.” Não é o caso do Dr. Simplício, ele não é um imbecil, pelo contrário.

O Dr. Simplício vestiu a camisa do fascismo. De uma hora para outra, passou a manifestar ódio aos pobres, as cotas, aos nordestinos, a diversidade, aos negros, a inclusão social, a fraternidade, a tolerância, no fundo, passou a odiar o Brasil. O Dr. Simplício sonha em ir embora, ser americano, europeu, até português serve. Ser do primeiro mundo. Os amigos de infância, nunca suspeitaram que no coração daquela alma bondosa, habitasse um monstro. Os textos são rebuscados, com uma erudição de mercado, um certo humor, mas a mensagem central é de ódio, intolerância e violência. O Dr. Simplício revelou-se um preconceituoso. No dia sete de abril, o Dr. Simplício comemorou com um vinho Petrus tinto, de 1945, brindou com os amigos e deu vivas a uma nova intervenção militar, para salvar o Brasil.
Antônio Samarone.

terça-feira, 10 de abril de 2018

JOSÉ CÂNDIDO DE FARIA



JOSÉ CÂNDIDO DE FARIA

Nasceu em 20 de janeiro de 1803, em Salvador/BA. Em 1822, aos 19 anos, foi enviado pelo pai para estudar medicina em França. Formou-se em 29 de julho de 1829, pela Faculté de Médicine de Montpellier, a mais antiga da Europa, que teve como professores celebridades como François Rebelais, Antoine Portal (médico do rei Luiz XVII), entre outros. Anos após a formatura, passou a atuar em Laranjeiras/SE, onde fundou o primeiro hospital da cidade – o Hospital de Caridade Senhor do Bonfim, ao lado de Francisco Alberto de Bragança. Casou-se com Josefa María-Aragonez e com ela teve quatro filhos, Henrique, José, Adolpho e o mais famoso, Cândido José Aragonez Faria, que se destacou internacionalmente na França, como artista plástico.

O médico José Cândido de Faria faleceu aos 52 anos, em 5 de novembro de 1855, em Laranjeiras/SE, de cólera morbus, enfermidade que ele havia descrito em sua tese, na famosa faculdade francesa, e que nesse ano dizimou milhares de vidas em Laranjeiras, em torno de quatro mil óbitos (quase a metade da população da cidade). A esposa, Josefa Aragonez de Faria, espanhola, viúva, 30 anos, faleceu de “tisica pulmonar”, em 1860, no Rio de Janeiro. O filho famoso, Cândido Aragonez, faleceu em Paris, em 17 de dezembro de 1911, sepultado no Cemitério Saint Vincent.

Atestado de óbito de Cândido Aragonês de Farias:

Aragonez de Faria. L’an mil neuf cent onze le dix huit Décembre à neuf heure vingt du matin. Acte de décès de Candido Aragonez de Faria, dessinateur né a Sergipe, (Brésil) le douze Août mil hui cent quarante neuf décédé au domicile conjugal, rue de Clignancourt 16 hier à midi. Fil de Joseph Candido Aragonez de Faria, et de Josepha Aragonez,18 époux décédés. Marié à Berthe Adolphine Berthier cinquante et un ans, sans profession. Dressé par nous, Maurice Moor adjoint au Maire officier de l’Etat civil du 18e. arrondissement de Paris, Chevalier de la légion d’honneur, aprés constatation et sur la déclaration de Gabriel Toucher, vingt neuf ans, employé, 2, Place Saint sulpice e de Felix Boudet, quarante et un ans, emplyé 28 rue Hermel, non parents qui ont signé avec nous aprés lecture.
Antônio Samarone.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

GINÁSIO CHICO DO CANTAGALO



Ginásio poli desportivo Chico do Cantagalo.

Voltei hoje ao Bairro São Cristóvão, que na infância eu chamava de Cruzeiro. Bairro de gente pobre, negros e mulatos, paneleiros e sapateiros, celeiro do futebol em Itabaiana. Ali ficavam o Etelvino Mendonça, os campos do Cantagalo e o de Mané Barraca. O governo construiu no local um ginásio poli desportivo, imenso, confortável, digno do espirito esportivo do Itabaianense, e o batizou com o nome de Chico do Cantagalo. Justa homenagem.

Em Itabaiana o futebol de salão vem de longe, no final da década de 1950, já se disputava campeonatos na Praça da Feira. Depois, no campo do padre, ao lado da Igreja e, finalmente, no GLEI, criado pelo Dr. Mazze Lucas, e administrado por Chico do Cantagalo. Já tivemos até campeonatos de basquete. E hoje? Não sei informar...

No Cruzeiro existiam vários times de futebol, os melhores da cidade. O São Cristóvão e o Ideal foram várias vezes campeões; o Margem da Serra, o juvenil de Mané Barraca. São do Cruzeiro os craques Lima, Zé Luiz, Faete, Coringa, Dedé, Nado (o preto e o branco), Zé de Chico, Elísio, Augusto, Tonho de Preta, Zé de Vitinha, Divo, e mais um monte que eu esqueci.

Mudando a prosa.

Na visita ao Cruzeiro, fui procurar a casa de Seu Mané Barraca. Um negro alto, desportista, líder da comunidade, rezador de fama e quebrador de pedras. Foi ele, com um pequeno canivete aquecido, que debelou a minha primeira ulceração de Tunga penetrans, o “bicho-de-pé, pulga-de-areia, bicho-de-porco, tunga (para os índios). Uma parasitose encontrada pelos Jesuítas em sua chegada ao Brasil, descrita por Hans Staden, Gabriel Soares de Souza, Thevet e Lery. Uma parasitose histórica, decorrente da mais absoluta falta de higiene. O Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (1630), assim descreveu: “são uns bichinhos de feição de pulgas, que se metem nos dedos e solas dos pés de quem anda descalço. Quem sabe tirá-los inteiros sem lesão o faz com a ponta de uma faca, mas quem não sabe, rebenta-os e ficando a pele dentro, cria matéria.”

Só retirava a tunga quem sabia, tinha prática, não podia deixar os ovos, nem fragmentar o nódulo. Mané Barraca era um perito, preciso e rápido, e a gente tinha vergonha de reclamar se doesse. O tratamento clínico era demorado, com pomada de vaselina com DDT ou mel de fumo. A indicação era cirúrgica. Quem já teve bicho-de-pé não me deixa mentir, era uma coceira dos infernos. Seu Mané Barraca me curou.
Antônio Samarone.

terça-feira, 3 de abril de 2018

ACABARAM COM O SERIGY



Acabaram com o Serigy.

Um crime contra a memória da Saúde Pública. A destruição já começou, toda a fiação está sendo retirada. Os corredores vazios e as salas abandonadas. Fui na antiga sala da abreugrafia, procurar Seu Luís, nada. O berço da Saúde Pública em Sergipe, inaugurado em 1936, com a presença do Ministro da Saúde, Centro de Saúde de excelência, a nível nacional, foi fechado por Jackson Barreto. Lembro-me do orgulho do Dr. José Machado de Souza, quando tomou posse como Secretário da Saúde, no Palácio Serigy. Grandes nomes da medicina e da enfermagem sergipana passaram pelo Serigy.

O governador Jackson Barreto apagou a memória da Saúde Pública em Sergipe. O prédio está conservado, amplo, mas ficou pequeno para as ambições políticas do primo, que ele coroou como Secretário da Saúde. Passamos por um período de trevas na Saúde Pública. Soube que vão botar o SAMU na parte dos fundos do Serigy, onde ficavam os expedicionários da Segunda Guerra. Vamos aguardar.

Hoje na visita ao Serigy, senti a revolta dos que construíram a Saúde Pública em Sergipe. Costa Pinto, Garcia Moreno, Walter Cardoso, Gilton Resende, Eduardo Vital; as nossas enfermeiras da Ana Nery, as assistentes sociais, todos os funcionários que por ali passaram, unidos, me fizeram um pedido: lute para o Serigy não acabar. A sala da Dra. Jacy estava vazia, nenhuma parteira. Na saída, fui ao quartinho do Seu Zé Carlos, e ele estava lá, triste, Dona Maria continua na sala do cafezinho, cheia de estórias; esses são eternos, nem Jackson Barreto remove. Por fim, um desabafo de impotência: Não tirem o Serigy da Saúde Pública.

Antônio Samarone.