João Marcelo – Mestre da Cultura.
(por Antonio Samarone)
Numa esquina da Praça de Santa Cruz, com o Beco do Cemitério, João Marcelo tinha um boteco, ao lado de sua bomba de gasolina. Um ponto de cultura, onde os bardos reuniam-se com frequência. Ali se bebia, se cantava e comia, nessa ordem. João arranhava um cavaquinho.
Um canção gravada por Dolores Duram (a mãe é de Itabaiana), era muito tocada: “A Banca do Distinto”. Para quem não conhece.
“Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho, para que tanta pose, doutor, prá que esse orgulho. A bruxa que é cega, esbarra na gente e a vida estanca. O infarto lhe pega e acaba essa banca.” – Billy Blanco.
João Marcelo era descendente dos ferreiros da Matapoã. Filho de Nonô. Segundo o cronista Baldochi, ele foi um dos primeiros taxistas em Itabaiana.
Na política, nunca tomou partido. Nem de Euclides (UDN), nem Manoel Teles (PSD). Mas ganhou de Euclides um ponto na praça, onde montou a sua bomba de gasolina. Não era um Posto, era apenas uma bomba.
João era casado com Judite Gois, filha do Velho Basto e D. Santa, tia de Ivan de Caio. João Marcelo, não sei porque, a chamava de Judate.
Para quem não o conheceu ou não se lembra, o mestre João Marcelo é o da foto itabaianenses, culturalmente mais emblemática, onde ele aparece ao lado de uma Rural, conversando com Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Anastácia. É pouco? Essa foto já rodou o mundo.
Os encontros festivos no bar de João Marcelo era uma reprodução dos “symposion - simpósios” da Grécia antiga, locais onde homens livres reuniam-se para comer, beber vinho, filosofar e recitar poesias.
Em João Marcelo a ordem era invertida: bebia-se muito, filosofava-se, cantava-se e, por último, comia-se. O pirão de D. Judate era demorado, mas saía.
João foi um inveterado festeiro. Quem parasse em seu bar, para tomar uma cerveja, já sabia: ele trazia três copos. O do freguês, o dele e o de Zé, seu filho. Bebia-se juntos, mas a conta era do freguês.
O symposion helênico mais famoso, está retratado num clássico de Platão, “O Banquete”, onde Sócrates, Alcebiades, Agatão, Aristófanes, Erixímaco, Pausânias, Fedro e Platão, comeram, beberam e fundaram a filosofia. Em Itabaiana, lia-se Platão no ginásio.
No symposion de João Marcelo, imitando o grego, tinha-se as libações. Para que vocês não pensem besteira, libação é derramar vinho, oferecendo-se aos deuses. Em Itabaiana, antes de se tomar qualquer dose de cachaça, entornava-se o copo, oferecendo-se um pouco ao Santo.
O auge da atuação festiva de João Marcelo eram as festas juninas. Ele fazia de tudo para ir buscar o mastro. Contratava a zabumba. Um festaço. A cidade parava para o cortejo. Dança, fogueiras, comidas típicas e fogos. Os Buscapé corriam soltos, assustando velhos e crianças. Eu só soltava taquari.
“Bebe-se para se achar os outros interessantes,” João Marcelo repetia como se fosse uma mantra.
Ele se comportava com se estivesse de chegada, nos cem últimos metros. E cantava Noel Rosa: “nosso amor que eu não esqueço, e que teve o seu começo, numa festa de São João. Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar, sem violão.” João Marcelo inventou que Lindaura Martins, a esposa de Noel Rosa, era sergipana.
João Marcelo, nasceu em 12/05/1912 e faleceu em 09/07/1991, em Itabaiana, aos 79 anos. João é um patrimônio cultural de Itabaiana, nunca deve ser esquecido.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
