sexta-feira, 1 de maio de 2026

CANTE LÁ, QUE EU CANTO CÁ.


 Cante lá, que eu Canto cá.
(por Antonio Samarone).

Madruguei o 1º de maio, encantado com Elis Regina cantando Billy Blanco:

“Não fala com pobre/ não dar mão a preto/ não carrega embrulho/ para que tanta pose doutor/ para que esse orgulho? A bruxa que é cega esbarra na gente/ e a vista estanca/ o infarto lhe pega/ e acaba essa banca.”

Levado pelo vício, abri o Smartphone. O oráculo da pós-verdade.

Abri o WhatsApp, e estava lá, um belo poema de um velho amigo, professor de literatura na Academia. O mestre não recebeu a graça poética. Compensou a falta de talento, com a erudição literária. Doutor em literatura, pela Sorbonne.

Fiquei feliz com o tardio surto poético, do amigo. Um poema perfeito, obedecendo às normas e tradições da poesia. Bem feito e arrumadinho. Li e reli, e nada, nenhuma emoção. A poesia era fria? Não sei... Fiquei acanhado em revelar essa sensação. O novo poeta é meu amigo, e se não fosse, seria falta de educação.

Ele me ligou: - e aí, gostou do poema? Tangenciei, ainda bem, antes tarde... Ele riu: - “Fiz com a ajuda da inteligência artificial.!” Eu fiquei e continuo sem saber o que dizer. Vou mandar o texto lírico para avaliação de Jozailto Lima, um dos últimos poetas naturais, assumido.

Eu sou antigo. Quando me assuntei como gente, já estava no catecismo do Padre Everaldo (o Bode Cheiroso). Fiz a primeira comunhão no dia que completei sete anos. Caiu numa segunda-feira. Era uma promessa de mamãe, que tive que pagar.

Criado no Beco Novo, brincando de roda e cantando uma música francesa: “Je suis pauvre, pauvre, pauvre; pauvre de Marrais d’ issy” (claro, traduzido). As injustiças me levaram a incredulidade. Cheguei às fronteiras do materialismo histórico.

Li François Rabelais (Gargantua e Pantagruel) aos 17 anos. O livro emprestado pelo Padre Antonino, um italiano que ensinou o catecismo tridentino, em Itabaiana. Abracei ao agnosticismo, por ignorância.

Agora, na reta de chegada, me aparece, de forma arrogante, essa que se autodenomina – Inteligência Artificial. A IA é digital, opera com a ponta dos dedos. Estou forra! Não quero conversa.

O pensamento é analógico, afetivo, arrepia a pele, analisa e conceitua. A inteligência artificial são dados e informações. É incapaz de pensar, de captar comoções.

“O pensamento humano é mais do que cálculos e soluções de problemas. Ele clareia o mundo.” – Chul Han.

A IA não pensa, mas pode levar a humanidade a submeter-se, sucumbir, rebaixar as fantasias e formar um rebanho com pensamento único. Se é que já não se formou.

“No homem, a natureza abre os olhos e põe-se a falar, ainda que veja e fale como homem”. – Marx.

Antonio Samarone. Membro da Academia Itabaianense de Letras.

sábado, 25 de abril de 2026

AS TREZENAS DE SANTO ANTONIO Y OS CAMINHONEIROS.


 As Trezenas de Santo Antonio y os Caminhoneiros.
(por Antonio Samarone)

Faz trezentos e tantos anos, desde a Igreja Velha, que Santo Antonio é festejado em Itabaiana. Foi ele que definiu o local da cidade, para agradar ao Padre Sebastião. As trezenas, antecipavam as festas juninas.

“Fogueiras enormes, as chamas lambendo o alto das palmeiras. O foguetório a escalar as plúmbeas nuvens, espocando nos cimés do céu de minha terra; vibrações festivas dos velhos sinos do campanário, exaltando as glórias de Deus; as rezas do Santo casamenteiro e a afinada Filarmônica Santo Antonio.” - Sebrãozinho.

À porta da Torre da Matriz de Santo Antonio e Almas, a banda de pífano: Domingos de Joana Vapor na Zabumba e Pedro de Marmela na Gaita. O coro da igreja ocupado por um belíssimo coral.

Fogo Capitolino, ordenava o padre, na hora certa. O foguetório bombardeava os arredores da Matriz. A molecada disparava para pegar as flechas. A quantidade que cada menino pegava de flechas, sinalizava a sua coragem.

Eu ficava na lanterna, assombrado com as recomendações de mamãe, me metendo medo: cuidado! Não sei quem, morreu com uma flechada na cabeça. Arrancou a orelha. Essa história nunca foi confirmado, mas o medo era o mesmo.

No início da década de 1960, cada trezena, passou a ter um patrocinador: verdureiros, comerciantes, agricultores... Instaurou-se uma disputa, qual a maior? Quem soltasse mais fogos! Itabaiana era um terra de grandes fogueteiros: Mestre Fio, Zé da Serra, Boanerges e Pedro de Cezário.

Registre-se, o foguetório iniciava-se com a alvorada. A atual zoadeira das madrugadas do dia 12: paredões, buzinaço e fogos, mesmo sendo questionado, pelas consequências, vem de longe. A zoada só aumentou.

Em 1950, Itabaiana era o celeiro agrícola de Sergipe. Vivíamos na Zona Rural (35.802 habitantes – 18.754 mulheres e 17.048 homens. 4.006 na zona urbana; 1.740 na zona suburbana 30.056, na zona Rural.)

A Sede do município (com apenas 4 mil habitantes) possuía: 5 atacadistas; 230 varejistas; 5 estabelecimentos industriais; 1 estabelecimento bancário, 13 automóveis e 52 caminhões.

Em 1960, a frota de caminhões já se aproximava de 500. Tornava-se a categoria econômica mais importante da cidade.

A última trezena, a do dia 12 de junho, começou a ser patrocinada pelos caminhoneiros. Assim começa a celebração dos caminhoneiros, ao santo padroeiro. A trezena do dia 12, passou a ser a mais festiva. Não se limitava a reza, o Santo começou a ser trazido em carreata.

Antes, aos dia 25 de julho, João de Balbino, organizava uma carreata pelo Beco Novo, transportando São Cristóvão, protetor dos motoristas, da Capela, no Tabuleiro dos Caboclos a igreja Matriz.

Essa carreta com São Cristóvão (inicio da década de 1960, esfriou com a mudança de João de Balbino para Aracaju, para prestar serviço a nascente PETROBRAS, em Sergipe.

João de Balbino, neto do Cônego Domingos de Melo Resende, teve grande liderança entre os caminhoneiros. João foi o motorista (e Seu Motinha, o cobrador) da primeira marinete que fez linha Itabaiana/Aracaju.

A linha de ônibus pertenceu, na sequência: a Olívio Tavares, Oviedo Teixeira e Luiz Prado. Terminou em mãos da Empresa Senhor do Bomfim, de Seu Lauro, genro de Oviedo Teixeira. Daí para frente, vocês lembram.

Com o fim da carreata de São Cristóvão e o crescimento da Trezena dos Motoristas, a mudança tornou-se evidente. Os caminhoneiros reavivaram a carreata, só trocaram o Santo. Ocorreu a junção das centenárias Trezenas, com o crescimento em número e prestígio dos caminhoneiros.

Com o crescimento da festa dos caminhoneiros, a parte profana suplantou a religiosa. Os mais devotos continuam celebrando o santo com as rezas e trezenas e procissão, e os demais, caíram nas festas de Lagos: grandes artistas, almoços, atividades esportivas e a celebre carretazinha.

Aliás, as celebrações não são excludentes. O Santo entende.

O capitalismo não brinca em serviço, ao perceber a importância da festa e a força econômica dos caminhoneiros em Itabaiana, organizaram em paralelo, uma Feira do caminhão. Um momento de se fazer negócios. Eu não lembro os valores, mas rola muita grana. Vêm empresas até internacionais.

Durante esse período de festa dos caminhoneiros, compra-se e vende-se, festeja-se, canta-se e dança-se e, ao final, dia 13 pela tarde, todo mundo vai junto à procissão, somar-se a centenária Irmandade das Almas, para venerar Santo Antonio.

É a hora de mostrar a roupa nova, fazer política e falar da vida alheia. A procissão é o momento de se pagar as promessas, pelos milagres alcançados. Que não são poucos.

Tudo abrilhantado pela Filarmônica dos Cabaús.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

sábado, 18 de abril de 2026

VITAL JOSÉ DA LAPA


Vital José da Lapa (1899 – 1981).
(por Antonio Samarone)

O Filme Vou-me embora, sobre a vida desse grande Itabaianense, será exibido em Praça Pública. A memória de Vital da Lapa, está viva.

Vital José da Lapa nasceu em 15/01/1899, no Sobrado, município de Itabaiana. Filho de camponeses, plantadores de algodão. A família Lapa, possui raízes profundas no Agreste sergipano. Logo cedo estabeleceu-se com um armazém de secos e molhados, em Itabaiana.

Vital da Lapa era casado com Dona Juvência Emília da Lapa (Dona Sinhá). Casaram-se em Macambira, em 06 de fevereiro de 1923.

Constituíram uma família numerosa: 6 homens – Antonio, Manuelino, Cosme, José, Ataíde e Alonso; e 7 mulheres – Veronica, Madalena, Bernadete, Maria de Lourdes, Julia, Cecília e Josefa.
Na vida política, Vital da Lapa foi Vereador em Itabaiana, e acompanhava Manoel Teles, líder local do PSD.

A chegada da UDN ao poder em Sergipe (1955), ocorreu a ascensão política de novos-ricos (fazendeiros e comerciantes) não nascidos de famílias oligarcas, dos donos do cabaú e dos engenhos.

Em Itabaiana, a ascensão do líder udenista, foi um caso típico. Euclides Paes Mendonça era a maior liderança da UDN no Interior.
Após a vitória de Leandro Maciel (1955), “o emprego mais rendoso no Brasil será o de coveiro em Sergipe”, disse Adauto Cardoso, um liberal da UDN, citado por LEC, em seu livro.

Euclides Paes Mendonça foi um exemplo do “novo” Coronel. Líder de origem humilde, filho de pequenos camponeses da Serra do Machado, que por talento e ousadia assumiu o comércio de secos e molhados do agreste sergipano e virou o chefe político. A ordem pode ter sido inversa.

Um líder sem limites, que quando se viu acobertado pelo poder público, excedeu-se em violências e abusos. Botou famílias tradicionais de Itabaiana, que não se submetiam aos seus caprichos, para correr da cidade.

A UDN usou e abusou da mesma violência dos tradicionais senhores semifeudais, que dominavam o latifúndio açucareiro em Sergipe.

Vital da Lapa teve o seu corpo martirizado, silenciado, o rosto marcado com as brasas de um charuto, exposto como espetáculo, para servir de exemplo e amedrontar os demais insubmissos.

O líder da UDN não mandou terceiros, não transferiu o serviço para os jagunços, ele próprio, apagou um charuto no rosto de Seu Vital da Lapa.

Vital da Lapa foi intimado a comparecer no armazém do Coronel, onde lhe foi feita uma exigência: ele precisava de mudar de lado, deixar o PSD e apoiá-lo. Naquele tempo a proposta era uma afronta e não foi aceita.

Após gritos e desaforos, ameaças e xingamentos, Euclides Paes Mendonça cravou um charuto aceso na face esquerda de Vital da Lapa. Ferrou um adversário político, como se ferra um boi no pasto.

Aquele cidadão, de família descente, gente nascida e criada em Itabaiana, com a admiração e respeito daquela sociedade rural, gente que venceu no comércio, com o seu sortido armazém, sem precisar dos contrabandos e da violência, foi publicamente martirizado.

A dor era usada como meio de dominação política, mesmo assim, a dor moral suplantou a dor física. Vital da Lapa foi abatido pela humilhação.

Euclides sabia que não dobraria Vital da Lapa só na pancada, por isso apelou para a humilhação. Nasci e cresci em Itabaiana ouvindo essa história. Ela agora virou filme - "Vou-me Embora..."

Vital da Lapa além de Vereador do PSD (“rabo-branco”), politicamente ligado a Manuel Teles, era um comerciante bem-sucedido. Talvez essa concorrência comercial, deixasse Euclides mais aborrecido que a simpatia política da vítima.

Vital da Lapa sempre fez uma oposição respeitosa a Euclides Paes Mendonça, como era regra naqueles tempos. A maior ameaça de Seu Vital era o seu bem-sucedido armazém, bem localizado, que disputava o mercado com quem queria o monopólio.

A guerra política em Itabaiana na década de 1950, era a consequência da guerra comercial, e controlar o fisco era uma arma decisiva. O contrabando permitido, desequilibrava a concorrência comercial.

Depois do rosário de perseguição do fisco, humilhações, violências, ameaças de morte, Seu Vital da Lapa resolveu ir embora.
“Corpos martirizados são insígnias do Poder. A dor é um meio de dominação” – Chu-Han

Em 1958, Vital José da Lapa vendeu o que tinha, desarrumou a vida, e partiu para recomeçar a vida em terras estranhas, com o intuito de criar os seus filhos com dignidade. Mudou-se para São Caetano do Sul, São Paulo, e os seus descendentes por lá continuam.

Ele não gostava de relembrar a face queimada por um algoz violento, covarde, impiedoso, para não entristecer a família. Vital da Lapa não pode ser apagado da memória dos que lutam por justiça.
Itabaiana foi a sua grande saudade. Morreu amando a sua terra, de onde foi expulso pela brutalidade política da UDN.

Vital da Lapa, um homem alegre, bem-humorado, contador de estórias, politizado, digno, voltado para a família, precisou migrar para terras distantes.

Vital José da Lapa faleceu em 27 de outubro de 1981, aos 82 anos, em São Caetano, São Paulo. O corpo foi transladado para Macambira, Se.

Seu Vital é natural do Sobrado, povoado fronteiriço, separado de Macambira pelo Riacho das Traíras.

A minha homenagem aos que resistiram dignamente à violência política, sem transigir.

No próximo 29 de abril de 2026, na Praça do Chiara, as 19 horas; e no sábado, 02 de maio, no Povoado Sobrado, será exibido um filme sobre a saga de Seu Vital. A história em forma de arte.

Antonio Samarone (médico sanitarista)
 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A SAÚDE PÚBLICA EM ARACAJU

A Saúde Pública em Aracaju.
(por Antonio Samarone)

Higéia e Panacéia, filhas de Asclépio, vivem de mãos dadas em Aracaju.

A atenção primaria é, sobretudo, medicina preventiva. Com o tempo, o SUS foi cedendo as armadilhas dos modelos da medicina comercial. Vende a ilusão de eficácia. A atenção integral perdeu espaço para a tríade: consulta – exames – remédios. Custos elevados e baixo impacto epidemiológico.

A Prefeitura de Aracaju, está retornando os princípios do SUS, priorizando a Saúde Pública. A Secretária Débora Leite, anunciou a consolidação do Programa de Fortalecimento do “Cuidado em Saúde Mental, na Atenção Primária à Saúde” (PROAPS – Saúde Mental) como referência no acolhimento emocional dos pacientes.

Um avanço esperançoso. Na Saúde, a Prefeita Emília está no caminho certo.

Um programa com o nome comprido, que precisa ser explicado. Muitos usuários da rede básico, apresentam um sofrimento, sem doenças evidentes. O acolhimento ser feito por um psicólogo, por exemplo, garante maior resolutividade do serviço.

Estamos acostumados com ações supostamente curativas: procedimentos, consultas, receitas, exames, internamentos, medicamentos, que nem sempre é a melhor conduta. O sofrimento humano é complexo, raramente responde ao que o mercado oferece.

Aracaju ensaia o fortalecimento da Saúde Pública. A saúde é filha da qualidade de vida e de uma assistência integral e holística. As políticas de doenças, voltadas para o consumo de serviços, insumos e ofertas eventuais de mutirões de procedimentos, são ineficazes e caras.

Em Sergipe, o uso político e distorcido desse desejo à saúde, levou que, no último meio século, os secretários estaduais de saúde, tornaram-se os Deputados Federais mais votados. Preciso lembrar os nomes?

A rede do SUS é de Saúde. Superamos o postinho médico, atendendo doenças agudas: sintomas/medicamentos. A ação é integral e o paciente acompanhado a longo prazo.

Vivemos uma epidemia de transtornos mentais. Depressão, ansiedade, TDAH, TOC, autismo. Um número elevado de alunos da escola básica são atípicos. O "PROAPS" pode atender a essa demanda. O único reparo: o programa não contempla menores de 18 anos. Não entendi essa restrição.

Enquanto o Estado insiste em mutirões politiqueiros, o município do Aracaju, enxerga mais longe: prioriza a prevenção e os programas de saúde pública.

Depois da aposentar-me no cargo de professor de Saúde Pública, da medicina da UFS, confesso que reduzir as leituras especializadas em saúde.

Estou cuidando da Cultura, em Itabaiana.

Vejo com tristeza o abandono do modelo assistencial do SUS, previsto na Lei Orgânica da Saúde. Denomino o meu Blog: Em defesa das Causas Perdidas. O neoliberalismo não convive com o direito à Saúde. Tudo vira mercadoria.

As utopias não morrem, Aracaju aponta uma estrela.

Portanto, sinto a iniciativa da Saúde do Município do Aracaju, em fortalecer as ações humanizadas e preventivas, fortalecendo o acolhimento, e oferecendo ações básicas em saúde mental, na rede básica, como um sopro de esperança na Saúde Pública.

Esse exemplo, precisa ser copiado!

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

terça-feira, 14 de abril de 2026

O PREGADOR DO FIM DO MUNDO, SANTO OU LOUCO?

O Pregador do Fim do Mundo, Santo ou Louco?
(por Antonio Samarone)

Na segunda metade do século XIX, foram pródigas no Nordeste, as experiências místicas. O Padre Ibiapina, Padim Cícero e Antonio Conselheiro foram os mais destacados. Em Sergipe, tivemos duas: os Caipiras, no Agreste, e o Céu dos Caraíbas, em Riachão dos Dantas.

O Padre Felismino da Costa Fontes, nasceu em Itabaiana, em 08 de abril de 1848. Filho do capitão e negociante Antônio Manuel da Costa (residente na sede da Villa) e da dona de casa, D. Maria da Conceição Costa Fontes. Era o segundo filho do casal, que gerou como primogênito o Tenente José da Costa Fontes, três anos mais velho.

Felismino da Costa Fontes seguiu a carreira eclesiástica, ordenando-se em 1874, justamente no ano em que Antonio Conselheiro viveu em Itabaiana, na Rua da Pedreira. Não há registros, mas as possibilidades de terem se conhecido é muita grande.

“Era o tempo do Anticristo, do Fim do Mundo, das leituras simbólicas do Apocalipse, das apostásias, que gerava uma discussão que alcançava a Santa Missa e a autoridade do Papa.” – Luiz Antonio Barreto.

Após a formatura, Felismino viajou a Roma. Retornou a sua natal, sendo auxiliar o Cônego Domingos de Mello Resende, em Itabaiana. Em 1886, foi transferido para a recém-criada Freguesia de São Paulo da Mata.

O capuchinho, Frei Paulo Antonio Casanova, dedicou-se a uma Missão do Chã do Jenipapo, onde fundou uma Capela, dedicada ao Apóstolo São Paulo.

O povoado passou a Distrito Administrativo, em 1861, e a Vila, independente de Itabaiana, em 1890. Foi elevada a cidade, em 1920. Mais tarde, São Paulo passou a ser denominada Frei Paulo.

A pregação empreendida por Felismino a partir da Freguesia de São Paulo da Mata avançou sobre as localidades de Carira, Alagadiço, Vila Senhora Sant’Ana de Simão Dias, Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, estendendo-se até os limites da Serra Negra, fronteira com a Bahia, chegando a arrebanhar mais de dois mil seguidores.

O Padre Felismino autointitulou-se “o pregador do fim do mundo”. O pároco liderou o movimento religioso caipira (integrado por trabalhadores rurais, donas de casa e letrados) no agreste sergipano, no intervalo temporal de 1885-1890.

O Padre Felismino enquanto professava seu ministério junto à população do povoado da Chã do Jenipapo, nas Matas de Itabaiana, no período de 1881 a 1886, foi se desvirtuando do método adotado pela Igreja Católica Apostólica Romana e findou sendo denominada de “Seita dos Caipiras”, que trazia os fundamentos do Apocalipse e da Missão Abreviada.

“Eu tenho treze profecias, e outras tantas provas evidentes, mariando estes dias, que atravessamos, como próximos ao Juízo Universal. Vivo resignado no meio da guerra, porque já foi dito pelo venerado Padre Francisco: o pregador do fim do mundo será perseguido pelos Padres e até considerado como o Anti-cristo.” Padre Felismino.

Ataques a Felismino e aos caipiras foram publicados nos jornais, a exemplo do noticioso A Reforma (1888), D. Quixote (1890), e dos semanários Cidade de Salvador (s/d), União Federal (1891). Dois desses artigos foram assinados pelo capitão e latifundiário são paulino João Tavares da Mota, outros, anônimos.

Houve uma resistência do clero local, sob a liderança do Monsenhor João Batista de Carvalho Daltro. Em 1890, o padre Felismino foi convocado a comparecer na sede da Cúria Metropolitana, da Bahia, para um encontro pessoal com o Arcebispo Dom Antônio de Macedo Costa.

Esse fato culminou na prisão e internamento do Padre Felismino, no Asilo São João de Deus, na Bahia. Onde o pregador do fim do mundo continuou a se comunicar com os seus seguidores mediante cartas.

Os intelectuais, ficaram ao lado da loucura. O estigma de doido era definitivo.

“O Padre Felismino, antigo Vigário da freguesia de Frei Paulo, Sergipe, o qual, tendo enlouquecido, começou a pregar sobre o fim do mundo, iniciando uma seita baseada no Apocalipse e na ‘Missão Abreviada” - Carvalho Déda.

“O padre Felismino, ordenou-se presbítero da ordem de San-Pedro, virtuosíssimo e muito inteligente, foi o primeiro vigário da sergipana paróquia de San-Paulo. Em sua vida sacerdotal, sem mácula, pouco a pouco insidiosa moléstia mental atacou-lhe o cérebro e, sobe essa ação, sem que logo o apercebessem seus superiores, criou visionária religião entre os matutos das matas de Itabaiana, que foi chamada Seita dos Caipiras.” – Sebrão Sobrinho.

Em seus escritos, Felismino afirmava ser um enviado divino, com a missão de transmitir o conhecimento, combater o mal e comandar a salvação de seus seguidores.

Dom Daltro, Vigário Geral em Sergipe, conhecido pelo combate dado a Conselheiro, em sua passagem por Sergipe, foi um dos principais responsáveis por difundir a ideia da loucura do padre Felismino e denunciá-lo a seu superior hierárquico.

O Padre Felismino foi internado no Hospício San-João de Deus, na Baía, onde concluiu tristemente sua existência em dias do ano de 1892. A psiquiatria cumpria o seu papel.

Descobriu-se recentemente, que ele não morreu no Asilo. Após sair do Asilo, o Padre Felismino transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde faleceu em 1919. Eu fico sem ter como opinar sobre as duas versões.

“O padre Felismino era detentor de uma mediunidade, que se externava através da imposição das mãos sobre os doentes e da vidência. Contudo, seus métodos não foram aceitos pelas autoridades da província e as eclesiásticas, porque redundaram em pregar profecias e anunciar o fim do mundo, mediante uma interpretação um tanto deturpada do livro Missão Abreviada e do livro Apocalipse.” – João da Santa.

Depois do enclausuramento do Padre no hospício, várias missões foram organizadas em Frei Paulo e Itabaiana, para afastar a influência do Padre Santo, sobre os devotos.

Espero que esse registro chegue ao conhecimento do Papa Leão XIV e o Vaticano inicie o processo de santificação do Padre Felismino, na mesma lógica, da justa santificação do “Padim Ciço”.

Minha mãe era devota do Padre Felismino (depois virou Crente) e leitora assídua da Missão Abreviada. Ela citava de “cor e salteado“, trechos das cartas do Santo Felismino. Eu aprendi cedo, que o mundo ia se acabar pelo fogo, segundo o Padre Felismino. O dilúvio não resolveu.

Mamãe era leitora assídua da “Missão Abreviada”, e vivia esperando a chegada do anticristo. Ela repetia: “haverá Sinais no sol, na lua, nas estrelas, e na terra opressão das gentes.” Se ela tivesse esperado, tinha conhecido o Laranjão, o anticristo americano.

Eu cresci acreditando que assistiria o Juízo Final. Acho que vou conseguir (pelo menos pelas redes sociais). A qualquer instante, os Estados Unidos perdem a guerra com o Irã, e Trump cumprirá as profecias do Padre Felismino: os humanos serão extintos pelo fogo atômico.

A Igreja em Sergipe baniu, entre os católicos, a memória do Padre Felismino da Costa Fontes.

Antonio Samarone – Um caipira fora de época.
 

domingo, 5 de abril de 2026

UMA TARTARUGA ENCALHADA

Uma tartaruga encalhada.
(por Antonio Samarone).

Fazendo a caminhada matinal nas Praias do Aracaju, no domingo da páscoa. Estirando as pernas, em companhia dos doutores Jorge Motta e Luciano Correia, nos deparamos com uma realidade pouco divulgada: as tartarugas desovam nas Praias do Aracaju, no trecho entre o Robalo e o São José dos Náufragos.

Desovam e são protegidas pelo competente Projeto Tamar. Conversamos com uma profissional do Projeto Tamar, presente no local, que nos prestou todos os esclarecimentos.

Uma diferença profunda: na Bahia, na Praia do Forte, a proteção ambiental do TAMAR é atração para o turismo ambiental. Em Aracaju, o mesmo projeto é quase desconhecido. Só as tartarugas são as mesmas.

Para evitar aborrecimentos, eu sei que a primeira base do Projeto Tamar, foi em Pirambu – Se (1982), sei também da grandeza do nosso Oceanário, o primeiro do Nordeste, e que abriga mais de 30 espécies. O projeto Tamar monitora 150 km de praias em Sergipe, 800 desova e 600 mil filhotes chegam ao oceano.

A minha queixa: precisa mais divulgação!

Estamos vaidosos, eu e os doutores da caminhada, por termos salvo uma tartaruguinha. Com fé em Deus, em breve será uma tartarugona. O Dr. Jorge, em um exame rápido, confirmou que era menina.

Luciano politizou a vivência: “não precisa ser especialista, para saber, que o turismo em Sergipe é o mais atrasado do Nordeste. Não aproveitar uma trilha ecológica, na Praia, tomada por tartarugas e carcarás, é a mais profunda incompetência.”

Encontramos essa tartaruguinha da foto, perdida, desorientada, no vasto areal da Praia. As irmãs acharam o mar, pela madrugada, ela não. Pensamos, vamos salvá-la? Eu logo concordei: “achei que nem era fácil, nem difícil.”

Os eruditos doutores, consultaram primeiro a Inteligência Artificial. O relatório da IA, tinha mais de 50 páginas. Um curso completo sobre as tartarugas.

O meu pragmatismo beco-novista, me empurrou para a ação. Pincei cuidadosamente a recém-nascida pelo casco, e levei-a ao Oceano. Ela balançava freneticamente as frágeis nadadeiras, em sinal de agradecimento.

Pensamos: se tivéssemos socorrido uma baleia encalhada, à noite, estaríamos no Fantástico; como o salvamento foi de uma modesta tartaruga, seremos literalmente ignorados.

Gente, ajude!

Antonio Samarone.
 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O ESPETÁCULO DA FÉ.

 O Espetáculo da Fé.

(por Antonio Samarone)
 
As origens do teatro no Brasil são religiosas. No Brasil Colônia, os jesuítas usavam o teatro, como ferramenta de catequese e pedagogia. As peças de José de Anchieta se destacavam. Os autos de Natal eram os mais recitados. 
 
Em Aracaju, em 1904, foi fundado o Teatro Carlos Gomes, criado pelo italiano Nicolau Pungitori. Depois renomeado Cine Teatro Rio Branco, em 1912.
 
Em Itabaiana, os registros são de 1913, com o cinema mudo. O teatro ganhou folego, com a chegada de luz de Paulo Afonso, e a fundação do Cinema de Zeca Mesquita. 
 
Na década de 1950, o teatro notabilizou-se em Itabaiana, com dramaturgo e ator, José Amâncio Bezerra, discípulo de Procópio Ferreira. Entretanto, a arte em Itabaiana floresceu com a música e a fotografia. O teatro nunca foi protagonista.
 
Eu conheci o teatro, nos dramas, do Circo de Zé Bezerra: Antes da chegada da TV, com as suas novelas na TV, Itabaiana ficava acordada, esperando a hora dos dramas no Circo. 
 
Além de circo, com palco e picadeiro, era também teatro. Cada dia com uma peça diferente. A louca do Jardim era casa cheia. A peça era uma adaptação para o teatro de um cordel, que começava em versos: “vinde musa mensageira, do reino de Eloim/Traz a pena de Apolo e escreva aqui por mim/o assassino da honra ou a louca do jardim.” 
 
Instalado num alçapão no centro do palco do circo ficava o “Ponto”, profissional do teatro responsável por “assoprar”, em voz baixa, as falas que deviam ser repetidas, em voz alta, pelos atores.
Eu conheci o teatro no Circo de Zé Bezerra, e fiquei com boa impressão. 
 
A minha memória cultural fixou a passagem do Centro Popular de Cultura, por Aracaju, lembro-me da encenação do “Recital sem Opus”, de João Costa, o maior nome do Teatro em Sergipe. As participações de Luiz Antonio Barreto, João Gama, Chico Varela, Orlando Vieira, Zelita Correia, Aglaé Fontes, Clodoaldo Alencar, e outros que esqueci.
 
O Secretário de Educação era Luiz Rabelo Leite, no Governo de Seixas Dórea.
 
Quem são os herdeiros de João Costa, em Sergipe?
 
Atualmente, funcionam vários grupos teatrais, em Sergipe: Imbuaça, Mamulengo Cheiroso, Raízes, Caixa Cênica, Boca de Cena, Atualona e o Quilombo Ubuntu de Teatro Negro, Teatro Velho Chico, Cobras e Lagartos (Lagarto), loucos por loucos (São Cristóvão), Teatro Retalhos e 7 panos (Lagarto).
Não sou especialista em teatro. Vejo até onde os meus olhos enxergam, ou seja, as aparências. Sinto que em Sergipe, o teatro passa por dificuldades. Um ou outro abnegado. 
 
Sinto que a política cultural em Sergipe, deu as costas ao Teatro.
 
Esse arrodeio, é para chegar ao atual teatro religioso, em Itabaiana. Na Semana Santa, ocorrem três representações da Paixão de Cristo, em povoados diferentes: Mangabeira, Tabuleiro do Chico e Malhada Velha. São representações grandiosas, e com grande público.
 
Nesses atos, mesmo a religiosidade sendo o tema, o que move é o teatro. Atores e atrizes se desdobram na representação. Ser o Cristo é uma distinção disputada. Das três representações, a da Mangabeira é a mais antiga.
 
A Paixão de Cristo no Tabuleiro do Chico, nasce em 2011, por iniciativa do casal Adelson e Hosana. Antes era uma via-sacra, que foi crescendo. Inicialmente, eles botaram um Cristo, Zé de Galdino, carregando uma cruz, que ia de casa em casa, de estação em estação. 
 
São 115 atores, locais e dos povoados vizinhos. O cenário é ao ar livre. A natureza facilitou, pois o Tabuleiro do Chico, parece com a Palestina. O Cristo é o mesmo.
 
Na Mangabeira, a encenação começou em 1990. No início também foi uma via-sacra. Hoje, participam cem pessoas. A ideia foi de Dona Rita. O cenário é montada em frente a Capela Santa Ana/São Joaquim, onde existe um belo anfiteatro. 
 
A encenação na Mangabeira possui iluminação e som profissionais. O grupo foi institucionalizado e é comandado por Glasdston. Por lei municipal, a Paixão de Cristo da Mangabeira é Patrimonio Cultural e Imaterial de Itabaiana. 
 
A encenação da Mangabeira é transmitida ao vivo, pelo YouTube.
 
Por último, a encenação da Malhada Velha passa por mudanças profundas. Antes, liderada por Noel, chamava a atenção pelo realismo e simplicidade. O flagelo de Cristo era próximo ao real. O Fel servido a Cristo é mais amargo do que o original, da Palestina.
 
Um empresário, nativo da Região, Marco Contador, resolveu investir na criação do cenário, dentro do Modelo da Nova Jerusalém, em Pernambuco. Essa mudança está ocorrendo, a cada ano, os palácios de Pilatos, o cenário estão sendo construído, com muito zelo.
 
Itabaiana considera as três encenações da Paixão de Cristo, em seus povoados, manifestações culturais de fé, demonstrações da criatividade do seu povo.
 
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

quinta-feira, 26 de março de 2026

TREMPE, MOQUÉM E FORNO


 Trempe, Moquém e Forno.
(por Antonio Samarone)

A carne é anterior à civilização. Antes da invenção da agricultura (11 mil anos) e da domesticação dos animais, a carne vinha da caça e o homem descobriu o fogo.

O primeiro homicídio bíblico, foi motivado pela carne. Abel era pastor e ofereceu o seu rebanho a Deus. Caim era agricultor e ofereceu os frutos da terra. Deus aceitou a oferenda de Abel e rejeitou a de Caim. O final, todos conhecemos.

Estudos recentes, apontaram a carne, em seus diversos preparos, como a comida típica em Itabaiana. Antes de agricultor, o Itabaianense foi pastor. Montou currais para criação do gado.

O gado chegou ao Brasil em 1533, trazido por Martim Afonso de Souza. Com a chegada do Governo Geral, Garcia D’Àvila, expandiu os seus rebanhos. Em Itabaiana, Simão Dias Francês criava manadas, já ambicionadas pelos holandeses, em 1637.

Os curraleiros de Itabaiana (criadores de gado), armaram uma revolta em 1656, invadiram São Cristóvão e prenderam o padre Sebastião Pedroso de Goes (única autoridade presente), por conta dos elevados tributos.

A celebre sentença de Quincas Borba: “ao vencedor, as batatas”, não satisfaz aos vencedores em Itabaiana, eles querem carne.

Das 200 mil cabeças de gado abatidas legalmente em Sergipe (anuais), 150 mil são em Itabaiana. Itabaiana possui 176 restaurantes ativos, em diversas especialidades, com o amplo domínio das churrascarias e espetinhos. Só na BR – 235, são 4 grandes, com 3.800 lugares.

Tem duas churrascarias na BR, a de Domício e a de João de Neco, que a carne é assada. Uma tradição centenária, herança indígena.

Vamos esclarecer: carne assada e churrasco são formas distintas do preparo da carne.

Os indígenas assavam a carne numa trempe, em cima de um moquém de vara. Em fogo brando, lento, longe das brasas. A carne moqueada, pode ser guardada, para se comer depois. Ela é desidratada e defumada. Por isso a sua cor escura.

O churrasco é uma tradição gaúcha, onde a carne vai às brasas num espeto. Um processo rápido, apressado, sem os segredos do moquém.

A carne assada em Itabaiana, não é churrasco. Primeiro a carne é salgada e fica um tempo no sereno. Depois vai ao moquém (as atuais grelhas). Lentamente vai acentuando-se o gosto. Acho que leva temperos. Um pedaço de picanha assado é divino.

O churrasco de picanha é meia boca, quem dar o sabor é a gordura.

Creio que, como a demanda é muito grande, uma parte desse ritual de se assar a carne, seja simplificado ou até suprimido. Perde-se no sabor e ganha-se na produtividade.

Em resumo: no churrasco, a carne é preparada no espeto; na carne assada o preparo é no moquém (grelha).

A carne assada de João de Neco e Domício, é acompanhada de uma farofa gourmet, cujo segredo é guardado a sete chaves. Eu, quando frequento, como só a carne assada com farofa, dispenso os demais acompanhamentos.

De onde vem essa tradição da carne assada, em Itabaiana?

A receita foi de Dona Judite, esposa de Antonio Magneto. O patriarca João de Neco, apreendeu com a irmã Judite. A esposa de João de Neco, Dona Josefa (ainda viva), era irmã de Dona Arlete, esposa de Seu Domício. A tradição tem as mesmas raízes.

Entenderam?

O prato típico em Itabaiana, sempre foi feijão, farinha e carne, em diversos preparos. A carne fresca, frita, com aquela graxa; o lombo de panela e a carne assada. Eu só conheci arroz e macarrão na adolescência, e não gostei.

Se acredita culturalmente em Itabaiana, que só a carne dar sustança. Menino criado com pão, ensanga.

Antonio Samarone (membro da Academia Itabaianense de Letras)

terça-feira, 24 de março de 2026

AS DUAS MATAPOÃ (S)

As duas Matapoã (s).
(por Antonio Samarone)

O mapa de Itapuama (Itabaiana), dos holandeses Marcgraf e Golliat, de 1646, já registrava a Maithapan. No mapa, está Potaepuã, uma área em torno das Serras dos Picos e das Araras, dos Rios Jacoca e Traíras.

Frei Paulo, Campo do Brito e Macambira não existiam.

A selva dos Boimés, depois Matas de Itabaiana, eram ocupadas pela Taba Matüapoan.

A Maithapan fica na Bacia do Vaza Barris, pois os rios Jacoca, e o das Traíras, são seus afluentes. O jacoca deságua nas imediações da Serra das Araras, e o Rio das Traíras soma-se ao Rio das Pedras, formando a barragem da Cajaíba. (é a mesma barragem do Campo do Brito). Esses dois rios, irmanados, avançam para o Vaza Barris.

O mapa holandês de 1646, também registra a serra de Itapuamuçu (Itabaiana Grande), a Capela de Santo Antonio (igreja velha, no vale do Rio Jacarecica), a propriedade de Simão Dias Francês e a Migueba (Serra da Miaba).

O Mapa dos holandeses (1646) é anterior a Villa de Santo Antonio e Almas. Por dedução, a Maithapan é anterior a Villa de Itabaiana.

A presença significativa dos brancos, na Maithapan, só ocorreu no Século XIX, por conta do algodão. A Guerra Civil Americana (1861 – 65), afetou a produção mundial do algodão. O ouro branco subiu de preço. Sergipe embarcou nessa febre. Chegamos a 50 descaroçadoras, segundo Thetis Nunes.

As matas de Itabaiana (Maithapan, Flechas, Caraíbas, Chã do Jenipapo (Frei Paulo), Saco do Ribeiro (Ribeirópolis), foram pintadas do branco do algodão. Os ferreiros vieram do Norte de Portugal, para produzir as foices e os machados.

Os ferreiros da Maithapan tinham um provérbio profundo, que ouvi do meu avô: “Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram: o cabo é um dos nossos”.

A Maithapan dos ferreiros e plantadores de algodão formaram a raiz espiritual da autoestima itabaianense. Os maitapoenses carregam a fama de inteligentes.

Na Zona de Expansão do Aracaju, formou-se uma nova Matapoã, um bairro de ricos e bem sucedidos, às margens do Rio Vaza Barris. 

 
Os Gordinhos da Norcon (Luiz e Tarcísio Teixeira, filhos de Oviedo e netos de Dona Caçula), compraram um sítio às margens do Vaza Barris e, em homenagem a suas raízes, o denominaram de Sítio Matapoã (Maithapan).

As duas Matapoã (s) ficam na bacia do Vaza Barris. O nome do sítio dos Teixeira, tornou-se o nome de uma região (hoje, bairro). O prestígio dos Teixeiras, deram o nome do seu sítio, a um novo bairro. O povo adotou o nome.

A ligação fluvial tornou-se afetiva, memorial e histórica. 

 
As duas Maithapan ficam na Bacia do Vaza Barris e são raízes da memória sergipana.

Parodiando Gonzaga: “o rio das Traíras corre para o Rio das Pedras, o Rio das Pedras corre para o Vaza Barris e o Vaza vai bater no meio do mar.”,

Antonio Samarone.
 

sexta-feira, 20 de março de 2026

UM DESERTO DE SOLIDÃO

Um deserto de solidão.
(por Antonio Samarone)

Seu José Vicente Oliveira, camponês da Sambaíba, completou oitenta anos, sozinho, num quarto quente do Asilo São João de Deus. Uma casa de repouso, onde não se tem sossego.

O ar condicionado do quarto, quebrou há 70 dias. Ele não teve a quem reclamar. Para ser mais preciso, por sabedoria, ele sabe que se reclamar é pior.

O quarto tem um ventilador de teto, barulhento, que deixou de funcionar. A família cobrou um ar condicionado, mesmo usado. No momento encontra-se quebrado.

Os demais abrigados, cinquenta e poucos, quase não se falam. São desconhecidos por opção. Não se suportam. O sonho de cada um é que o outro morra primeiro.

Vicentinho, o filho, meu primo distante, me levou para visitá-lo. Eu fui, mais por curiosidade, do que por compaixão. Queria ver o asilo por dentro, o dia-a-dia.

Vicentinho é um bom filho. No começo, ia visitar o pai semanalmente, depois mensal, e agora, vai raramente, em dias especiais: no aniversário do velho, na páscoa e no Natal.

Na ida, Vicentinho foi me contando os maus tratos, recebidos pelo pai. Mesmo pagando 2 salários e meio mensais. O mais grave era a desatenção dos cuidadores: o pai passava horas, às vezes dias, mijado, sem trocarem a fralda. O cheiro da urina impregnou, virou crônico.

O seu único consolo, um rádio de pilha, usado para amenizar a solidão noturna, foi retirado por orientação da psicóloga. A doutora achou que a insônia era causada pelo rádio, e proibiu.

Também houve uma queixa do quarto vizinho, o rádio tocava alto. Zé Vicente é um ceboleiro, viciado desde menino, em rádio, sobretudo, naqueles programas de música sertaneja.

Zé Vicente adora, quando o radialista da rádio Comunitária de Itabaiana (87.9 – FM), manda uma música para ele, durante a madrugada. Ele renasce por vários dias.

Eu fui me indignando com as histórias de Vicentinho, sobre o tratamento desumanizado, dado ao seu Zé Vicente.

Na chegada, fui logo reclamar na sala da administração, vizinho a cozinha. Senti Vicentinho constrangido, em dúvidas, sobre a conveniência de minha atitude impulsiva.

Tereza, a enfermeira chefe, ao ouvir a minha denúncia emocionada, saiu em defesa do seu serviço e dos seus comandados. Retrucou, maus tratos? Como assim, você vai ter que provar. Não admito, denuncia vazia.

A experiente enfermeira, nos acompanhou até o quarto de seu José Vicente. Já entrou falando alto e com firmeza. “Seu Vicente, quem foi que lhe maltratou?” O velho respondeu espantado: - “Ninguém! Eu aqui eu sou tratado como um Príncipe.”

Vicentinho, o filho, para não passar por mentiroso, tentou avivar a memória do velho: “Papai, e aquilo que o senhor me contou, lembra-se? O pai reagiu: “Eu não lhe contei nada!” A situação foi ficando difícil. Quem estava mentindo?

Tereza deixou o quarto fumaçando, falando pelos cotovelos. Falar é fácil, o difícil é provar!

Quando ficamos a sós, no quarto, José Vicente nos deu uma aula de Sabedoria: “Vicentinho, meu filho, você e o seu amigo são dois irresponsáveis! Depois da visita, vocês vão embora. Eu, ficarei sozinho, isolado, sem forças para reagir a nada.”

Desabafou Vicente: - “Eu, calado, pacientemente agradecido as migalhas de atenção, sou mal atendido. Imaginem, vocês me arrumam uma má querência com os funcionários do asilo e vão embora. Como será o atendimento depois?”

José Vicente, na velhice, retomou a religiosidade da juventude. Na saída, nos contou uma bela passagem do Velho Testamento, que eu desconhecia. O encontro do profeta Elias, com Deus – livro dos Reis 19:11.

“Sai e põe-te de pé no monte, diante do Senhor! Eis que ele vai passar.”

“Houve então um grande furacão, tão violento que rasgava os montes e despedaçava os rochedos diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor não estava no fogo.”

“Finalmente, passado o fogo, percebeu-se o sussurro de uma brisa suave e amena. Quando Elias a percebeu, cobriu o rosto com o manto.”

Verdadeiramente, o velho José Vicente, se preparou para o descanso eterno.

Antonio Samarone.
 

domingo, 15 de março de 2026

O DIREITO A DENTADURA


 O Direito a Dentadura...
(por Antonio Samarone)

Recebi um vídeo, onde, o Presidente da República, solenemente, distribuí dentaduras. O Ministro da Saúde, sorridente, anunciou aos microfones: “quero chamar a senhora, fulana de tal, para receber a sua prótese, das mãos do Presidente.”

O que fizeram com o SUS e com a sua política de Saúde Bucal?

Como militante da reforma sanitária, sanitarista e ex-professor de Saúde Pública, sinto-me com o direito ao espanto.

Eu alcancei as dentaduras sendo vendidas nas Feiras, dentro de arupembas. Os clientes banguelos, iam experimentando, olhando-se no espelho, até encontrar uma que lhe agradasse.

O protético, um empreendedor, orientava aos clientes: se ficar folgada, use corega, que aperta; se ficar apertada, coloque-a num copo com água, na hora de dormir, que ela folga.

Itabaiana admirava a arte do doutor Olavo. As suas dentaduras pereciam um teclado de piano, dentes largos e alvos. O sorriso com a dentadura de Olavo era inconfundível. As dentaduras de Olavo eram obras de arte.

Sem dúvidas, Olavo foi um talentoso artista plástico, hoje, uma dentadura dessas vale uma fortuna. Uma modesta perereca usada, com a marca de Olavo, foi recentemente vendida por 2 mil reais.
Olavo, como todo artista, assinava as suas dentaduras. Dava garantias, até se acabar.

Hoje, Olavo estava perdido. As dentaduras são feitas pela inteligência artificial, impressas em 4D, em fino silicone. Já saem na conta, nem mais, nem menos. Ficam prontas, em questão de minutos.

Lula distribuindo essas dentaduras ao eleitorado, produzidas em série, lembrou-me de um Vereador antigo, que nunca perdeu uma eleição. A sua campanha era centrada na distribuição de dentaduras. Sem limites. A justiça eleitoral nunca apurou os gastos, com essas dentaduras. Era um mistério.

Um Promotor recém-chegado, com fama de intransigente, resolveu abrir inquérito para apurar a gastança do Vereador, com as dentaduras eleitorais. A Polícia Federal foi convocada. No depoimento, o Vereador nada escondeu. Ele provou a origem lícita das próteses.

Ele informou que fez um convênio com a maior funerária da cidade, que, mensalmente, lhe repassava as próteses retiradas dos defuntos.

O dono da funerária confirmou o convênio. Onde já se viu, enterrar alguém com uma peça valiosa na boca? Além dos anéis e brincos, as dentaduras são objetos desejados.

O Vereador deixou o Promotor sem graça, a lei eleitoral não proibia. Uma brecha. As dentaduras eram gratuitas. Bastava lavá-las com água sanitária, deixá-las um tempo dentro da cal e passar um branqueador nos dentes. Ficavam com o sorriso de novas.

Depois do inquérito ter esclarecido a origem das dentaduras, o Vereador nunca mais se elegeu. O preconceito do povo: quando ficaram sabendo a origem, não aceitaram mais as dentaduras dos defuntos.

Os votos desapareceram. O nosso eleitor é esclarecido: dentaduras, só novas...

Antonio Samarone – médico sanitarista.

sábado, 14 de março de 2026

O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DA IGREJA VELHA.

O Sítio Arqueológico da Igreja Velha.
(por Antonio Samarone)

Os escombros da Igreja Velha e a lenda de Santo Antonio Fujão, são as marcas materiais e simbólicas, que sobraram da fundação do Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (1602). Inicio do Século XVII.

Sobre a lenda, um grupo de peregrinos, retomou a trilha de Santo Antonio Fujão- (igreja velha ao pé de quixabeira, no miolo do Tabuleiro de Ayres da Rocha). A lenda ainda é viva.

Sobre a preservação dos escombros da Igreja, algumas providências já foram tomadas.

A semana passada, um prestigiado radialista, da 93.1 FM, cobrou providências, em seu programa matinal: “cadê o secretário de cultura, fala muito e faz pouco”.

Uma verdade: no atacado, dificilmente as ações superam as falas!

No caso da Igreja Velha, uma falta de informação. Já existe o projeto arquitetônico, mas ainda falta a permissão do IPHAN. Vou tentar explicar:

A Lei Municipal nº 2.207, de 10 de julho de 2018, declarou as ruínas da Igreja Velha, patrimônio cultural. Histórico e imaterial de Itabaiana.

O decreto nº 25.668, de 24 de outubro de 2008, tornou o terreno de utilidade pública, para fins de desapropriação. A Prefeitura já desapropriou o terreno, nas cercanias.

Ocorre, que a Igreja Velha é um sítio arqueológico, portanto, sob a jurisdição federal, sob os cuidados IPHAN. Houve uma tentativa de intervenção municipal, sem um parecer do IPHAN, o que foi suspensa.

Já existe um projeto arquitetônico. Entrei em contato com o Superintendente do IPHAN, em Sergipe, o intelectual Luiz Eduardo Oliva, e marcamos uma audiência. A receptividade do órgão federal foi excelente.

A solução do sítio arqueológico da primeira Igreja de Santo Antonio, em Itabaiana, tem tramitado há décadas, pelos órgãos estaduais de Cultura. O processo 0395/2005 – CEC, pedindo o tombamento da Igreja Velha, recebeu um parecer contrário e humilhante, do virtual Conselho Estadual de Cultura.

O relator do processo de tombamento da Igreja Velha, em Itabaiana, o doutor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, concluiu: “manifesto-me contrário ao tombamento das ruínas da antiga Igreja de Santo Antonio, na Zona Rural do Município de Itabaiana.”

Ainda acrescentou, o relator Soutelo:

“O tombamento das ruínas implicaria num ônus, talvez pesado demais, para o Poder Público Estadual, diante da pequena importância do bem para o universo patrimonial do Estado...”

“Para o Estado, com toda a certeza, é muito mais importante reconhecer-se a feira de Itabaiana com bem material da cultura sergipana.” - Soutelo.

O processo não deixou dúvidas: para o Conselho Estadual de Cultura, a Igreja Velha é uma ruína de interesse local, cabendo as iniciativas de conservação, exclusivamente a Prefeitura.

Procurei na relação atual dos bens tombados pelo Estado de Sergipe, e não encontrei a Igreja Velha, de Itabaiana. Pelo visto, o parecer de Soutelo continua valendo. Aliás, de Itabaiana, não encontrei nenhum bem cultural protegido pelo Estado.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

quinta-feira, 12 de março de 2026

A LIGA DOS JUSTOS

A Liga dos Justos...
(por Antonio Samarone)

“Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.” – Drummond.

Lembrei-me da cena final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, onde João das Mortes persegue Corisco, no Sertão de Cocorobó. Entretanto, a revolução foi só no cinema. O Dragão da mal contra o Santo guerreiro. Glauber fascinou até Buñuel.

“Se entrega Corisco, eu não me entrego não. Não me entrego ao Tenente, não entrego ao Capitão, me entrego só na morte, com parabélum na mão.” - O Sertão vai virar mar e o mar virar Sertão.

A sequência mais famosa do cinema mundial é o” massacre na escadaria de Odessa’, no filme Couraçado Potemkin. Eu gosto mais da sequência de Glauber Rocha, nessa cena da morte de Corisco.

Ontem, reuni em lugar ermo, na mais absoluta clandestinidade, com um grupo de amigos quixotescos. A pauta: discutir as saídas, em caso de uma provável invasão do Brasil.

Após muitos discursos, debates e apartes, as teses foram aparecendo: resistência armada (ninguém sabia atirar, nem possuía drone), cavar bunker, para se proteger dos bombardeios; se entregar, sem resistência; se esconder no Raso da Catarina; refundar a Liga dos Justos; pedir asilo na China, na condição de simpatizantes.

Um grupo moderado propôs a neutralidade. A gente nem adere aos Estados Unidos, nem a China. Fica em cima do muro.

Luiz Carlos, filho do Barbeiro Vermelho, hoje evangélico, se lembrou de um trecho bíblico: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados aqueles que escolhem a neutralidade, em tempos de crise.”

Todos ali, um dia, acreditaram que o socialismo venceria. O XX Congresso condenou Stálin, caiu o muro de Berlim e Gorbachev inventou a Perestroika. A história acabou. Eles venceram...

Mas, não foi bem assim.

Para complicar, o problema é que nem a história acabou, nem os Impérios são eternos. Ainda estamos vivos, certos, que o Juízo Final está próximo. O ponteiro se aproxima da meia-noite.

Trump ganhou, e está governando como o lema: America First – Make America Great Again (MAGA). Trump começo a operar, via as tarifas. Depois foram as vias de fatos.

A Venezuela foi presa fácil. A revolução bolivariana de Chaves, que possuía uma população armada, para defender-se, entregou o seu líder e a esposa, na bandeja da covardia. Sem resistir, sem reclamar, entregaram as chaves das refinarias.

A maioria dos países latinos americanos, já passou a escritura. Quando será a vez do Brasil? Essa foi a pauta principal, da tal reunião secreta.

Começou a ficar tarde, e nada de propostas exequíveis. Tudo devaneio. Estávamos diante do colapso da civilização humana, sem saídas. Eu não disse, mas pensei: tem um lado bom. Eu sempre sonhei em assistir ao Juízo Final, pelo menos pela televisão.

Na saída, o velho esquerdista Salomé, líder do Pombal das Virgens, na Atalaia Nova, pediu a palavra: “Raul Seixas tinha uma proposta”. Raul Seixas? Todos perguntaram espantados e incrédulos. Sim, ele gravou até uma música, reforçou Salomé:

“A solução para o nosso povo eu vou dar. A solução é alugar o Brasil. Negócio bom é assim. Nós não vamos pagar nada. O dólar deles paga o nosso mingau. Vamos embora, dar lugar para o Gringo entrar.”

Quem sabe!

Marcamos a próxima reunião, para o Sábado de Aleluia. A luta contínua...

Antonio Samarone.
 

segunda-feira, 9 de março de 2026

CADA UM É PARA O QUE NASCE?


 Cada um é para o que nasce?
(por Antonio Samarone)

Logo cedo, encontrei um velho personagem da boemia itabaianense, esperando a abertura de um escritório de advocacia, na Praça da Igreja, para pedir socorro.

De cara, pressenti a bronca. A desilusão com a espécie humana estava aflorada em seu rosto. Puxei conversa, ele mal balbuciava.

Terminou me contando: a sua aposentadoria foi suspensa, esse mês. Um furo de cinco mil reais apareceu em sua conta, na CEF. Ele não entendeu a explicação do banco. Alguém próximo a ele é o principal suspeito. Ele, no fundo, sabe quem foi quem deu o golpe, mas não admite, nega, sem muita convicção.

Peloco, 86 anos, boa memória, comedido, não se lamente de nada. A vida é boa assim mesmo, ele conclui, apesar da profunda descrença no Ser Humano. Ele quer apenas que a sua modesta aposentadoria seja restabelecida. É a sua única renda.

Peloco, nasceu nas Flechas, em 01 de fevereiro de 1940. Filho de Maria Francisca dos Santos (Nini), mãe avulsa, que lhe abandonou novinho, ainda sem nome. Só foi registrado muito depois, já adulto.

A rua não perdoa. Como se chama um passarinho depenado? Peloco! O batismo dele estava feito.

“Quando, seu moço, nasceu meu rebento/ Não era o momento dele rebentar/ Já foi nascendo com cara de fome/ E eu não tinha nem nome pra lhe dar”. - Chico Buarque.

O Pai, foi um barbeiro famoso, em Itabaiana. Ele sabia que Peloco era seu filho, e vice-versa. Mas ficou por isso mesmo. O menino foi criado por Zezé Machado e Dona Maria, na Rua Nova.

Com a morte do Pai biológico, Peloco nunca reivindicou a sua parte na herança. Não por falta de conselhos: - “peça para fazer os exames de DNA.” Ele nunca se mexeu. “Direito”, para ele, é uma palavra vazia, sem sentido.

Quando precisou dos documentos, para se aposentar, o Tabelião deu-lhe um nome de personagem de Nelson Rodrigues: “Álvaro Maciel”. Até hoje, ninguém sabe o nome cartorial de Peloco. Ele próprio, às vezes se esquece.

Peloco nunca pôs os pés numa escola. Aprendeu tudo o que sabe, com a vida. Viveu de bicos e da esperteza nas casas de jogos de azar. Em Itabaiana, as cafuas eram bem frequentadas. Jogar, beber e fumar são vícios tolerados pela sociedade.

Se criou solto, nas ruas e botecos. Se tornou um temível no carteado. Peloco conhecia as cartas dos baralhos pelas costas. Se dessem o baralho para ele traçar, os demais jogadores só recebiam cartas marcadas.

Se Peloco fosse americano, teria sido um grande crupiê, nos cassinos de Los Angeles, como nasceu em Itabaiana, foi o Barão das Cafuas. Era bom no sinuca, mas longe de Alemão (Dodó), João Criano e Filadelfo de Zezé de Jones.

A vida nunca lhe ofereceu moleza: casa, comida e roupa lavada. Tudo foi incerto, mas ele não se queixa. É assim mesmo, sentencia Peloco: - “o ser humano não presta.” Ele naturalizou os sofrimentos.

Peloco tinha como justificar qualquer caminho, mas permaneceu íntegro. As trapaças nos jogos de azar é parte das regras. Passar um “caga fogo” no dominó é esperteza.

No futebol, Peloco foi o Gerson – canhotinha de ouro das peladas. Ele foi o melhor jogador do Mangueira, da Rua Nova, treinado pelo célebre Josafá Mão de Onça.

Enquanto puxo pela memória, para rabiscar essas mal traçadas linhas, me bateu um peso na consciência: vou acompanhar essa catástrofe financeira de Peloco.

Enquanto as redes sociais espantam-se com os mimos do Banco Master, para os mandarins da República, Álvaro Maciel (Peloco), não tem como fazer a feira.

A sua aposentadoria continua suspensa.

Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras

sábado, 7 de março de 2026

A FORÇA DO MATRIARCADO - 08 DE MARÇO.

A Força do Matriarcado - 08 de março.
(por Antonio Samarone)

A força social das mulheres é raramente realçada. Sabe-se que somente 2 capitanias hereditárias prosperaram: São Vicente e Pernambuco. O que não é dito, é que ambas, eram administradas por mulheres. São Vicente por Ana Pimentel e Pernambuco por Brites de Albuquerque.

Em Itabaiana, as mulheres sempre estiveram na vanguarda. O presbítero Marcos Antonio de Souza, em suas memórias da Capitania de Sergipe (1808), noticiou sobre as mulheres Itabaianenses:

“São industriosas as mulheres de Itabaiana; suas grosseiras manufaturas constituem o principal comércio de seus maridos e toda a vantagem de seu país. Levam os itabaianistas para os sertões altos vinte mil varas de pano de algodão, que se reputam em valor metálico dez mil cruzados.”

“Com grande trabalho fiam o algodão em uns fusos movidos com os dedos e uma pessoa mal pode fiar no espaço de um dia um quarto de libra. Depois do fiado a dispõem em teias e uma diligente tecedeira desde a manhã até a noite tece libra e meia do fio, ou nove varas do pano de algodão.”

Quem desconhece essas raízes, espanta-se!

Em Itabaiana, a descendência, a herança das terras, o nome das famílias, são transmitidas através da linhagem feminina (matrilinear). Isso pressupõe uma secular igualdade de gênero. Exemplos: João de Zé de Ana; Zé de João de Sá Joaninha, Tonho de Chico de Miguel de Maria de Carrola... Quase todos os nomes familiares, terminam numa matriarca. Têm uma mulher como referência.

Em Itabaiana, entre os empresarialmente bem sucedidos, a presença feminina é destacada. As mulheres estão na linha de frente nas gerências, profissões liberais, nas feiras, música, arte e poesia. No magistério e na medicina elas são maioria.

Nos costumes, um aspecto me chama a atenção.

A Capital Nacional dos Caminhoneiros, possui um trânsito intenso. Itabaiana, com 110 mil habitantes (estimativa - IBGE), possui 49 mil motos em circulação: (28 mil motocicletas, 11 mil motonetas e 10 mil cinquentinha). Como referência, a cidade possui 18.500 automóveis, num total de 81 mil veículos registrados.

Não precisa fazer as contas para concluir: as motos dominam os meios de transporte. Eu sei, o transporte em veículos de 2 rodas nem é o mais seguro, nem é o mais confortável. Mas essa é a realidade, em Itabaiana. Talvez a liberdade e a rapidez, pesem a favor das motos. De todo o jeito, se fossem mais 49 mil automóveis, o trânsito travava.

As mulheres predominam, em Itabaiana, nessa opção de transporte?

As mulheres são quase maioria no uso dessas motos. Nada intimida as mulheres. Todas, senhoras de certa idade, gordas, magras, fazem quase tudo de moto: levam os filhos na escola, compram e vendem, vão à feira e as missas, tudo de moto. Trabalham e passeiam de moto.

Eu sei que os “caga-raiva” vão dizer: “é assim em todo o canto.” Não, na proporção de Itabaiana, não.

Eu enxergo essa força feminina em Itabaiana, há muito tempo. Mamãe nunca leu Betty Friedan, nem Simone de Beauvoir, mas sempre foi dona do seu nariz, mandava e desmandava em quase tudo. Papai que cuidasse, em obedecê-la.

Mamãe nunca soube do 08 março. Desconhecia a marcha das mulheres, pela jornada de 8 horas, em Nova Iorque; desconhecia Clara Zetkin; desconhecia o incêndio da fábrica de tecidos, ondes as mulheres foram sacrificadas; mas conhecia os seus direitos e lutava por eles.

Mamãe não andava de moto, não tinha nem bicicleta. Mas amansava burro brabo.

Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras
 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

UMA LOUVAÇÃO A INTELIGÊNCIA

Uma louvação a inteligência.
(por Antonio Samarone)

Ontem, a Academia Itabaianense de Letras concedeu uma Comenda ao Dr. Átalo Crispim de Souza. A Comenda é concedida anualmente, a um itabaianense destacado positivamente na sociedade.

O destaque do Dr. Átalo é a sua reconhecida inteligência.

Os céticos indagaram: o que seria essa inteligência? Essa pergunta foge a objetividade. Geralmente, a inteligência se manifesta em áreas específicas: “Fulano é muito inteligente em matemática, música, comercio, política, etc.

A homenagem à inteligência do Dr. Átalo foi genérica. Como justificar, sem cair no senso comum: eu sei que ele é inteligente, mas não sei explicar. Os conceitos de inteligência são subjetivos.

Quando se tenta avaliar objetivamente, caímos no besteirol de medir o “QI”. O sujeito responde a um questionário, faz associações e preenche um quebra cabeça. No final, recebe uma nota. É o seu quociente de inteligência (QI). A nota máxima é cem.

O senso comum atribui a inteligência aos bem-sucedidos. Uma pessoa que sai do zero, se mete em uma atividade e, por talento próprio, fica rico, o título de inteligência é logo outorgado pela sociedade. Fulano é muito inteligente.

Ser bem-sucedido na escola, já foi critério de inteligência. Hoje, nem tanto. O bom aluno, bom profissional após formado, mas se não se tornar famoso e não souber ganhar dinheiro, a sua inteligência é vista com desconfiança. Pergunta-se logo, de que serviu ser inteligente?

Portanto, a Comenda do Dr. Átalo, por sua inteligência, gerou polêmica. Um imortal cobrou realizações palpáveis. Fez o quê?

Na fala de agradecimento a Comenda, o doutor Átalo discordou da fama que possui. Disse, que a sua virtude era a curiosidade. Sempre quis entender o mundo. Rejeitou e pôs em dúvida, a sua propalada inteligência.

Fez bem, a humildade é inseparável da inteligência. A vaidade é filha da burrice.

A biologia define a inteligência como um recurso de sobrevivência a variações do meio ambiente e da sociedade. A inteligência é uma estratégia para a competição evolutiva. Os bem sucedidos evoluem e deixam descendência.

Durante a solenidade, ouvi cochichos: “a Academia está fora do tempo, elogiar a inteligência humana, um recurso analógico, sujeito a enganos; quando se sabe, que a inteligência artificial (IA), já esmagou a irmã natural.”

Aqui o debate pegou fogo.

A falta de clareza é maior na IA: que peste é inteligência artificial? O cientista brasileiro mais conhecido no mundo, Miguel Nicolelis, nega a sua existência. Ele diz que a IA, nem é inteligência, nem é artificial. Eu não entendo direito.

Quanto mais leio e escuto, a confusão aumenta. Que a IA existe, eu suponho, mas o que é, eu não sei. Sei que a IA sabe quase tudo de muita coisa. A IA elabora teses, traduz hieróglifos, escreve livros, faz poesia e conta piadas. Na medicina, coitados dos médicos, ficam distantes em conhecimentos.

Eu sei que a “IA”, compõem músicas de qualidade, em segundos. Há um Chico, um Gil e um Caetano em cada iPhone.

O Restaurante de Dona Marizete do Capunga, importou um fogão inteligente, da China. Basta ele programar qualquer prato, disponibilizar os ingredientes, que o prato sai sem erros e o ponto na hora certa. As receitas estão no programa.

Soube que o fogão inteligente de Dona Marizete, faz até quebra-queixo, dar o ponto no doce de barata, faz amarradinho, rabada e costela de boi defumada. Assa tripa de porco e faz buchada de bode.

Soube que a pichilin noz-moscada, vendida na banca de Vadinho de Nilo Base, na feira de Itabaiana, é produzido pela IA. Já se falsifica até a castanha do Carrilho.

Uma covardia com as cozinheiras de forno e fogão. Em breve, cada banca de frito e sarapatel no mercado de Itabaiana, vai ter um fogão inteligente.

Eu não sei como funciona, mas a IA existe. Parece assombração. Os pedantes sintetizam: são os algoritmos! Sim, mas o que são esses algoritmos? Quase uma tautologia.

Sair da solenidade do jeito que entrei: admirando a frágil inteligência humana e, convencido, que o Dr. Átalo herdou e cultivou, uma generosa fatia dessa antiga inteligência.

Antonio Samarone – membro da Academia Itabaianense de Letras e outros penduricalhos.
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O INCONSCIENTE COLETIVO

O Inconsciente Coletivo.
(por Antonio Samarone)

A cultura na Itabaiana agrária, primeira metade do Século XX, era restrita a música (filarmônica) e a fotografia (Miguel Teixeira, Joãozinho Retratista, Paulo de Dóci e Percílio Andrade).

Depois vieram os cinemas, (Zeca Mesquita e do Padre); o circo/teatro, (com Zé Bezerra); a tourada, com Geraldo Sem Medo e o mamulengo, com Rafael dos Penicos.

As principais festas eram religiosas (o Natal e as Trezenas de Santo Antonio).

Bailes, recitais, saraus e folguedos eram em recintos privados. As festas na casa do maestro Esperidião Noronha, foram as mais famosas.

Com a força econômica do comércio, uma elite, liderado pelo Dr. Gileno Costa, criou a Associação Atlética. As festas passaram para o novo clube, tendo à frente, Abraão Crispim. Eu, lá, nunca pus os pés. Para ser preciso, participei de um concurso de beleza masculina. Não perguntem o resultado.

O ilustrado Cibalena (Luciano de Oliveirinha), dividiu culturalmente a Itabaiana daquele tempo, em duas Zonas, em conflito: a praça da igreja, ruas do Sol e das Flores – dos bem nascidos; e o Beco Novo, do povo em geral.

Para se contrapor ao Clube da Praça (Atlética); os comunas, liderados por Tonho de Dóci e Renato Mazze Lucas, criaram o Clube dos Trabalhadores. No quarto quarteirão do Beco Novo.

Sapateiros e alfaiates tiveram a sua casa de bailes. O Beco Novo, liderava no futebol (três campos) e a Praça, nas festas.

Nascia em Itabaiana o embrião do lazer e do entretenimento, anteriores a cultura de massas. Os cinemas de Zeca Mesquita e do Padre eram casas cheias.

Antes da televisão, a indústria cultural chegou timidamente a Itabaiana, pelos cinemas, rádios, grafofones (invenção de Graham Bell) e dos gramofones (vitrolas): as pornochanchadas de Ankito, Zé Trindade e Grande Otelo; os faroestes americanos; Tarzan e Mazaropi.

Os filmes podiam ser de guerra, amor, espada, cowboy, terror, comedia e brasileiros. Os filmes deveriam ter um final feliz. Não se perdoava a morte do artista.

Os discos, foram os primeiros produtos da indústria cultural, disponíveis para os endinheirados. Os discos eram caros. Abrahão Crispim assombrou, quando abriu o “Casbão, a primeira loja de discos em Itabaiana. Foi motivo de orgulho cívico.

A cultura era rigorosamente dividida em alta cultura e cultura popular. Depois, a indústria cultural criou o “kitsch”, para satisfazer a demanda do mercado.

O cinema (sétima arte), foi usado para aproximar a chamada alta cultura da cultura popular. Os filmes cult eram produtos culturalmente sofisticados, geralmente ignorados pelas bilheterias.

Nas décadas de 1950/60, houve um surto de cultura erudita, em Itabaiana: Dona Ritinha Noronha, filha do Maestro Esperidião, esposa de Álvaro de Antonio Agostinho, abriu uma escola de piano. Ter um piano em casa, era um sinal de distinção e bom gosto musical.

Tinham o piano e sabiam tocar. As casas que possuíam piano, na década de 1960, em Itabaiana:

Marilene Lobo, irmã de Djalma; Terezinha Correia, professora de canto orfeônico; Maria de Toinho de Libânio; Marcelino Andrade; Zeca Araújo; Seu Xavier; Tenisson Oliveira, da farmácia; Dr. Ormeil Oliveira (doado ao museu); Colégio Dom Bosco (professora Irmã Elvira e Dona Nicinha); Dona Linda, esposa de Irineu; Nicinha Noronha, esposa de Edson Leal e Dona Zizi, esposa do Coletor Josafá. 

A professora Lenita Porto, ensinou piano. Outras casas onde existiam pianos: Maria de Tonho de Libânio, Marcelino Andrade, Zeca Araújo, Seu Xavier, Tenisson de Oliveirinha e Dona Zizi, esposa de Josafá,  

Esse levantamento foi realizado por Marcelino e Carlinho Siqueira.

É um bom indicador, do nível de interesse pela música erudita. A centenária Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, só adquiriu os seus pianos no século XXI.

Isso tudo, foi ontem.

Hoje, a indústria cultural hegemonizou o entretenimento. Nessa era digital, dominada pelas telinhas, redes sociais e inteligência artificial, os talentos tornaram-se raros e efêmeros.

O inconsciente coletivo foi capturado pelos algoritmos.

Antonio Samarone (membro da Academia Itabaianense de Letras).