segunda-feira, 3 de agosto de 2026
ANTONIO LEITE - MESTRE DA CULTURA
(por Antonio Samarone).
Uma manifestação de fé:
O ambientalista Antonio Leite, ator, comediante, publicitário, cineasta, patrono do tradicional bloco “Caranguejo Elétrico”, entrou na fila dos milagres de Santa Dulce, em Itabaiana, pedindo a sua graça.
O pedido foi um gesto de amor de Antonio. Ele pediu a Santa, que a sua esposa (Cecilia), não o abandonasse nos últimos cem metros. Cecilia zela permanentemente por Tonho.
A Santa teve uma surpresa. Antonio Leite não pediu saúde, poder ou riqueza, não pediu sorte, vida longa, nem um lugar no Paraíso. Ele pediu o amor de Cecilia. Mesmo sendo um pedido mais afeito a Santo Antonio (presente na peregrinação), ela atendeu.
A Santa foi suscinta: “Filho, vá em paz, a sua fé te salvou.”
Antonio Leite nasceu em Aracaju (criado em Capela), em 02 de setembro de 1951. Filho de Zeca do Leite e irmão de Sucupira.
Tonho aproximou-se da cultura, através da Sociedade de Cultura Artística de Sergipe. Entrou na arte pelo cinema. Participou dos clássicos Sargento Getúlio, Corisco & Dadá, Fronteiras das Almas e Zé de Julião: Muito Além do Cangaço.
Antonio Leite, foi o primeiro militante ambientalista em Sergipe. Ajudou na fundação do Partido Verde. Foi candidato a Prefeito do Aracaju, Senador e Deputada Federal, sempre em defesa da causa ambiental.
Participou ativamente em defesa da Mata do Junco, em Capela, transformada em reserva ambiental por Marcelo Déda. Liderava cavalgadas ecológicas, em defesa da Mata. Ele e Lizaldo.
Na década de 1990, o caranguejo estava ameaçado de extinção nos manguezais do Aracaju. Antonio Leite saiu de bar em bar, de mesa em mesa, conscientizando os comedores dos crustáceos, com uma bandeira de duplo sentido: “Não comam as fêmeas”.
O vereador Rafael de Oliveira chegou a apresentar um projeto de lei, na Câmara Municipal, proibindo esse crime ecológico.
Tonho Leite criou um bloco carnavalesco (Caranguejo Elétrico) para sair no Pré-Caju, em defesa da preservação do caranguejo uçá.
Uma festa de inspiração baiana, que ocorre em Aracaju, desde 1992. Alguns enricaram, saíram do anonimato e ganharam prestigio político com a folia baiana, fora de época. Só Tonho Leite e Almir Santana desfilavam por uma causa. Tonho o meio ambiente e a Almir o combate as DST.
O monumento mais visitado em Aracaju, o caranguejo de fibra na orla de Atalaia, deveria ter um placa, referenciado Antonio Leite. Em Aracaju tem até uma passarela do caranguejo. Só esqueceram o padrinho da causa.
Antonio Leite é pai de 4 filhos: Merissa, Bianca, Júlia e Daniel. Está casado com Cecilia há 13 anos. Se a graça pedida for alcançada, o casamento vai durar, até que a morte os separe.
O Pré-Caju é amparado pela Lei Municipal nº 1.985, de 21 de Maio de 1993.
Antonio Leite é um patrimônio da cultura sergipana.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
sábado, 1 de agosto de 2026
JOÃO MARCELO - MESTRE DA CULTURA
(por Antonio Samarone)
Numa esquina da Praça de Santa Cruz, com o Beco do Cemitério, João Marcelo tinha um boteco, ao lado de sua bomba de gasolina. Um ponto de cultura, onde os bardos reuniam-se com frequência. Ali se bebia, se cantava e comia, nessa ordem. João arranhava um cavaquinho.
Um canção gravada por Dolores Duram (a mãe é de Itabaiana), era muito tocada: “A Banca do Distinto”. Para quem não conhece.
“Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho, para que tanta pose, doutor, prá que esse orgulho. A bruxa que é cega, esbarra na gente e a vida estanca. O infarto lhe pega e acaba essa banca.” – Billy Blanco.
João Marcelo era descendente dos ferreiros da Matapoã. Filho de Nonô. Segundo o cronista Baldochi, ele foi um dos primeiros taxistas em Itabaiana.
Na política, nunca tomou partido. Nem de Euclides (UDN), nem Manoel Teles (PSD). Mas ganhou de Euclides um ponto na praça, onde montou a sua bomba de gasolina. Não era um Posto, era apenas uma bomba.
João era casado com Judite Gois, filha do Velho Basto e D. Santa, tia de Ivan de Caio. João Marcelo, não sei porque, a chamava de Judate.
Para quem não o conheceu ou não se lembra, o mestre João Marcelo é o da foto itabaianenses, culturalmente mais emblemática, onde ele aparece ao lado de uma Rural, conversando com Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Anastácia. É pouco? Essa foto já rodou o mundo.
Os encontros festivos no bar de João Marcelo era uma reprodução dos “symposion - simpósios” da Grécia antiga, locais onde homens livres reuniam-se para comer, beber vinho, filosofar e recitar poesias.
Em João Marcelo a ordem era invertida: bebia-se muito, filosofava-se, cantava-se e, por último, comia-se. O pirão de D. Judate era demorado, mas saía.
João foi um inveterado festeiro. Quem parasse em seu bar, para tomar uma cerveja, já sabia: ele trazia três copos. O do freguês, o dele e o de Zé, seu filho. Bebia-se juntos, mas a conta era do freguês.
O symposion helênico mais famoso, está retratado num clássico de Platão, “O Banquete”, onde Sócrates, Alcebiades, Agatão, Aristófanes, Erixímaco, Pausânias, Fedro e Platão, comeram, beberam e fundaram a filosofia. Em Itabaiana, lia-se Platão no ginásio.
No symposion de João Marcelo, imitando o grego, tinha-se as libações. Para que vocês não pensem besteira, libação é derramar vinho, oferecendo-se aos deuses. Em Itabaiana, antes de se tomar qualquer dose de cachaça, entornava-se o copo, oferecendo-se um pouco ao Santo.
O auge da atuação festiva de João Marcelo eram as festas juninas. Ele fazia de tudo para ir buscar o mastro. Contratava a zabumba. Um festaço. A cidade parava para o cortejo. Dança, fogueiras, comidas típicas e fogos. Os Buscapé corriam soltos, assustando velhos e crianças. Eu só soltava taquari.
“Bebe-se para se achar os outros interessantes,” João Marcelo repetia como se fosse uma mantra.
Ele se comportava com se estivesse de chegada, nos cem últimos metros. E cantava Noel Rosa: “nosso amor que eu não esqueço, e que teve o seu começo, numa festa de São João. Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar, sem violão.” João Marcelo inventou que Lindaura Martins, a esposa de Noel Rosa, era sergipana.
João Marcelo, nasceu em 12/05/1912 e faleceu em 09/07/1991, em Itabaiana, aos 79 anos. João é um patrimônio cultural de Itabaiana, nunca deve ser esquecido.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
OS HOMENS SÃO ONÍVOROS
(por Antonio Samarone)
Há 500 mil anos, o homem dominou do fogo e iniciou a gastronomia. A Mesopotâmia inventou a cozinha. Itabaiana aperfeiçoou.
No próximo final de semana (02/08), Itabaiana será a capital da fé e da comilança. A tradicional peregrinação de Santa Dulce dos Pobres (a maior do Nordeste) e o Festival de Gastronomia. O festival é uma iniciativa da Prefeitura, sob o comando de Lucas Moura, Secretário da Industria, Comercio e Turismo.
Gastronomia é cultura. O que se come e a forma como se come são específicos de cada sociedade. Muitas vezes, definem as raízes de cada povo. As preferencias alimentares são transmitidas de geração em geração. Gosta-se do que se comeu na infância.
Antes de ser caminhoneiro e comerciante, o Itabaianense foi curraleiro (criou gado), plantou algodão e produziu a melhor farinha do Brasil. Onde quer que seja produzida, a marca é farinha de Itabaiana.
Comer e beber são as principais formas de se festejar. Comilança é uma festa coletiva, que os deuses gregos chamavam de banquete.
Itabaiana vai realizar uma nova “Festa de Babette”, um filme dinamarquês de 1987, onde o centro do enredo é uma grande comilança. O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Em Itabaiana come-se muito e bem. A obesidade média é visível. O principal prato é a carne, no café da manhã, almoço e janta. Há uma crença, que só a carne dar sustança. São as raízes dos curraleiros. Talvez Itabaiana seja a cidade onde a promessa de Lula foi cumprida. Vá no Espetinho do Patola, e como picanha à vontade, com preços populares.
Outra marca cultural da gastronomia em Itabaiana: os comensais comem fora, coletivamente, celebrando a vida. Comer junto fortalece as amizades.
A cidade possui mais de 150 restaurantes, todos cheios. As quatro grandes churrascarias na BR (Carrasco, Riacho Doce, João de Neco e Domício), oferecem 4 mil assentos, todos ocupados nos finais de semana.
Em Itabaiana não se passa fome. É fome zero! Não se nega um prato de comida. O mandamento bíblico é cumprido. “Porque tive fome, e me deste de comer; tive sede, e me deste de beber; era estrangeiro, e me acolheste.” Mateus 25:35 “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos.” Lucas 14:13
Em minha infância, próximo ao meio-dia, os insanos lotavam a porta de Tonho de Rosária, um rico empresário da cidade. Todos comiam. Durval do Açucar distribuía “bolsa família”. Não cito os vivos, para não tirar a força da caridade.
O Chiara parece a noite paulista. Dezenas de restaurante finos, bom atendimento e boa comida. Me lembrei do Tempero do Sertão. A partir das sextas, é comum se ficar esperando vagas.
Até os Self Services são sofisticados. O restaurante “A filha de Maria Minha”, tem uma decoração com fotos antigas da cidade.
As barracas e quiosques mais simples, compensam no tempero e no preço. Existem opções para todo mundo.
O supermercado Nunes Peixoto, na Praça de Santa Cruz, possui um restaurante popular. A fila começas as 6 da manhã, na porta, antes de abrir, e só encerra as 21 horas, quando fecha. Muita gente deixou de fazer feira. É mais barato comer fora.
A iniciativa da Prefeitura em organizar um festival gastronômico atende a uma demanda. Tenho amigos em Aracaju, que aos domingos, o principal programa é ir comer em Itabaiana. Voltam de pança cheia e satisfeitos.
É o Turismo da Gulodice. A classe média do Agreste lota os restaurantes. O Festival Itabaianense de Gastronomia é uma novidade bem-vinda.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana)
quarta-feira, 29 de julho de 2026
A ERMIDA DE SANTA DULCE, AO PÉ DA SERRA.
As trilhas religiosas se espalharam em Sergipe. A devoção por Santa Dulce, em Itabaiana, escolheu um local sagrado para construir a Capela. Simples, bela, afastada da urbe, ao lado de um santuário natural, o Parque do Falcões.
O Parque é um espaço de conservação das aves de rapina, único na América Latina, inspiração de José Percílio Mendoça Costa, um homem dedicado a vida e a natureza. Um Eremita! Santa Dulce entendeu que a capela deveria ser uma Ermida. E assim foi feito. O local já era sagrado.
Venha conferir no domingo. A trilha é de 13 km, do local do primeiro milagre, ao pé da grande Serra, onde está a Ermida. A primeira graça, todos conseguem, o cansaço desaparece. No caminho, ocorre uma grande confraternização. Um espetáculo de fraternidade.
Para não assustar as pessoas de pouca fé, existe uma trilha menor, com 3 km, saindo do Rio das Pedras. Como uma atração, passa na capela de São Francisco e na chácara de Grampão, um eremita laico.
Estudos recentes, provam que as orações nessa Ermida de Santa Dulce, ao pé dessa Serra, elevam a imunidade, aliviam depressões e ansiedades, consolam os aflitos e amenizam os sofrimentos.
Quem é ateu e viu milagres como Eu...
Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, chegou em Sergipe, em 08 de fevereiro de 1933, aos 18 anos. Aqui ela recebeu o hábito, em 13 de agosto, e entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Em homenagem a sua mãe, recebeu o nome de irmã Dulce.
Não é demais inferir que Maria Rita é baiana e a Irmã Dulce sergipana. Irmã Dulce permaneceu em Sergipe, por um ano e cinco meses.
O seu primeiro milagre foi em Itabaiana, na Maternidade São José. Em janeiro de 2001, Claudia Cristiane dos Santos, deu a luz ao seu segundo filho. Claudia sofreu uma intensa hemorragia pós parto. Desenganada pelos médicos, apelou para a Irmã Dulce. O milagre aconteceu.
Em 2010, o Papa Bento XVI assinou o decreto reconhecendo o milagre. Em 2011, a Irmã Dulce foi beatificada. Em 2019, o Papa Francisco canonizou a Irmã Dulce. Nesse ano, ocorreu a primeira peregrinação em Itabaiana, saindo da maternidade, onde aconteceu o milagre, até o pé da serra, onde foi construída uma ermida. Na chegada foi celebrada uma missa campal. São 13 Km.
Em 2020 e 2021, a peregrinação foi interrompida, por conta da pandemia de Covid. A partir de 2023, ela vem ocorrendo regularmente, no primeiro domingo de agosto. Itabaiana se transformou na Cidade dos Milagres de Santa Dulce dos Pobres.
A tradição católica de Itabaiana (vide IBGE), o arquétipo dos milagres de Santo Antonio (o padroeiro) e a religiosidade atávica dos itabaianenses, tornou a adoração a nova Santa uma explosão de fé. Em pouco tempo, foram criadas instituições religiosas voltadas para a caridade e orações.
As mais relevantes: a Casa de Santa Dulce dos Pobres, voltada para assistencial social; a Paroquia Santa Clara e Santa Dulce dos Pobres; a Ermida de Santa Dulce, ao pé da Serra, ao lado do Parque dos Falcões; Casa de Acolhimento Santa Dulce. Atualmente, com 97 acolhidos.
Para a maioria dos itabaianenses, cada graça alcançada é um milagre. É regra atribuir aos milagres a solução de casos tidos com insolúveis. Mesmo em pequenas ocorrências. Por exemplo: uma criança atravessa descuidada uma rua, no momento, passa um veículo em velocidade. Não acontece nada com a criança. Qual o comentário geral dos circunstantes: não morreu por milagre.
O milagre é a causa de proteção de todos as ocorrências relevantes: uma desgraça, um risco de acidente, a cura de uma doença, um desejo alcançado. É considerado milagre, tudo o que poderia ter acontecido e não ocorre, por razões desconhecidas. Não há dúvidas, houve a intercessão de uma força superior.
Esses devotos de Santa Dulce, em Itabaiana, sonham com a construção de uma Santuário. Deus sabe o tempo certo.
Santa Dulce tem outra ligação com Itabaiana. Segundo o pesquisador Robério Santos, a Irmã Dulce possuía uma sanfona e, em uma visita ao presidio Engenho da Conceição, na Bahia, ela encontrou o cangaceiro Volta Seca (Itabaianense) e cantaram juntos “mulher rendeira”. Nasceu uma amizade.
No próximo Domingo, 02 de agosto, teremos uma nova peregrinação de Santa Dulce em Itabaiana. Os que sobraram da famosa Expedição Serigy, sairão dos sofás, divãs, esteiras e almofadas, e marcharão com cajado, cantil, botas e coragem, sob o comando do eterno ambientalista Antonio Leite. Isso mesmo, o famoso dono e fundador do bloco caranguejo elétrico, nascido e criado tomando água da Mata do Junco.
Itabaiana respira Santa Dulce. Tudo pronto para a peregrinação.
Santa Dulce dos Pobres faleceu em Salvador, à 13 de março de 1992, aos 78 anos.
Antonio Samarone – Eremita urbano.
terça-feira, 28 de julho de 2026
LOUVAÇÃO A AUGUSTO LEITE
(por Antonio Samarone)
Numa solenidade memorável, as entidades médicas e academias de letras, fizeram uma homenagem ao centenário do Hospital de Cirurgia, saudando o seu fundador, Augusto César Leite.
Auditório Cheio. A atual direção do hospital convidada. Vários familiares de Augusto Leite presentes (Walter Franco, Clara Leite...). Augusto Leite fundou e dirigiu a SOMESE por 10 anos.
O Dr. José Teles de Mendonça fez uma conferência, sobre as idas e vindas do Cirurgia. O presidente da ASL, magistrado José Anderson do Nascimento, esclareceu que na fundação da Academia, os membros escolhiam os seus Patronos. Augusto Leite, membro fundador, escolheu o Dr. José Lourenço Magalhaes.
Senti uma certa perplexidade no auditório: quem seria o tal Dr. José Lourenço de Magalhaes?
Na segunda metade do Século XIX, houve uma diáspora de médicos sergipanos. As elites locais mandavam os seus filhos estudarem medicina na Bahia e no Rio de janeiro. Quando retornavam, os doutores não encontravam mercado de trabalho no pobre e pequeno Sergipe. Migravam para o Sul. Muitos se destacaram, fizeram história.
Sergipe já exportou cérebros, especialistas, gente culta e pensante. Um dos maiores: Dr. José Lourenço de Magalhães, que dava nome ao antigo Leprosário do Bairro Vermelho, em Aracaju.
José Lourenço de Magalhaes (1831 – 1905), nasceu na Estância, em 11 de setembro de 1831. Filho do rico comerciante Português Romão Lourenço de Magalhães e D. Antônia Isabel Fernandes.
José Lourenco casou-se com D. Luísa Fernades de Magalhaes e tiveram dois filhos, ambos médicos:
José Fernandes de Magalhaes, nascido em Estância, em 23 de outubro 1861. Aos três anos, vai morar com o avô Romão, em Portugal. Formou-se em Coimbra. Tornou-se professor na Faculdade de Medicina do Porto.
Eduardo Fernandes de Magalhaes, nascido em Estância, em 16 de fevereiro de 1866. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro. Tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina.
O nosso personagem, José Lourenço de Magalhaes formou-se na velha faculdade de medicina, do Terreiro de Jesus, em 1856, defendendo a Tese inaugural “Como reconhecer que o cadáver que morreu de afogamento”.
José Lourenço retornou a Sergipe. Foi clinicar em Estância e depois em Laranjeiras. No início, exercia a oftalmologia. A sua curiosidade científica foi precoce. Em 1864, publicou na Gazeta Médica da Bahia, “Correção cirúrgica da Ectopia”.
Após o seu retorno, José Lourenço viveu em Sergipe até 1868. Participou ativamente do combate aos surtos de Cólera de 1862/63. Durante a grande epidemia de 1855, ele ajudou como estudante.
José Lourenço exerceu cargos políticos em sua terra natal: delegado de polícia em Estância, delegado de saúde e Deputado da Assembleia Provincial, por quatro legislaturas (1862 – 1869), chegando a ocupar a presidência.
Sergipe tornou-se pequeno. José Lourenço resolveu emigrar para o Sul, estabelecendo-se primeiro em Salvador. A Bahia era um centro de pesquisas médicas, onde vicejava a Escola Tropicalista Baiana. Talvez aí, nasceu o seu interesse pela Lepra.
No Sul (Rio e São Paulo), a sua fama como leprologista se difundiu. O pesquisador José Lourenço de Magalhaes publicou obras importantes: “a morfeia no Brasil” (1882), a curabilidade da morfeia (1855).
José Lourenço de Magalhaes não aceitava a etiologia bacteriológica da Lepra. Mesmo com a descoberta da Mycobactérium leprae já tendo ocorrido, em 1873, pelo norueguês Gerhard Amauer Hanse. Lourenço não considerava a lepra um doença contagiosa.
A segunda divergência de Lourenço: ele considerava a lepra curável e afirmava ter o método de cura. Só que ele não revelava. Ele testou o seu método de tratamento no Hospital dos Lázaros, no Bairro São Cristóvão, em 1878. Afirmava bons resultados, mesmo sem nunca tendo divulgado claramente os segredos da cura.
Ele criou, com recursos próprios, o Instituto Lourenço de Magalhães, em Cascadura, zona rural do Rio de Janeiro, para demonstrar a sua tese. O tratamento consistia em higiene pessoal rigorosa, fortalecer o organismo com dietas especais e repouso, e um medicamento, cuja a fórmula ele morreu sem divulgar.
A sua batalha decisiva deu-se em Berlim, durante a 1ª Conferência Internacional sobre a lepra, entre 11 e 16 de outubro de 1897. Lá estavam a nata do comunidade científica, inclusive o descobridor da bactéria, que no evento, foi batizada de bacilo de Hanse.
José Lourenço não foi a Berlim para ouvir, ele levou as suas convicções prontas: a lepra não é contagiosa e tem cura. Mesmo com autoridade de ex-Presidente da Academia Nacional de Medicina (1895/96), ele foi derrotado! A conferencia reconheceu a etiologia bacteriológica e recomendou o isolamento, como forma de prevenção.
A sua reputação continuou alta no Brasil. José Lourenço de Magalhaes foi o único sergipano a presidir a secular Academia Nacional de Medicina e ter projeção internacional com leprologista. Ele assumiu a Academia como membro titular, em 1885.
Com a derrota na Conferencia de Berlim, José Lourenço mudou-se para São Paulo. Foi diretor do Hospital dos Lázaros de Guapira, bairro de São Paulo, onde hoje é Jaçanã.
José Lourenço faleceu em 23 de novembro de 1905, em São Paulo, aos 74 anos.
Entre os que emigraram, ele foi o maior nome da medicina sergipana na segunda metade do século XIX, e Antonio Militao de Bragança, o maior entre os que permaneceram em Sergipe.
Augusto Leite, escolheu um grande Patrono para a cadeira nº 3, da Academia Sergipana de Letras.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
sábado, 25 de julho de 2026
AS RAÍZES DA HISTÓRIA
(por Antonio Samarone)
A história oral, contada pelos mais velhos, nas rodas de conversa, é a raiz das narrativas comunitárias. Basta ouvi-las com atenção.
Este senhor da foto é Pedro Nila. Uma enciclopédia da vida itabaianense, do dia-a-dia. Um depositário das crenças, valores e modos de vida, da segunda metade do século XX.
Perguntei a Inteligência Artificial (IA), que tudo sabe, quem era Pedro Nila, de Itabaiana. Ela me respondeu que não existia nenhuma pessoa de destaque com esse nome.
Pedro Nila é um remanescente, um arquivo vivo de uma sociedade, que se acabou. Uma fonte preciosa da história que não foi escrita.
Insistir com a IA, numa forma de desafio. Ela revirou as gavetas, e foi no ponto: “Pedro Nila é um conhecido sapateiro do Beco Novo e também jogador do Cantagalo, fazendo parte daquela geração de artesões e esportistas que marcaram a história popular de Itabaiana.”
Betinho de Seu Bebé, estamos perdidos: a IA conhece o povo do Beco Novo. E agora? Vão copiar até as fotos.
Para a IA anotar:
Pedro Nila é Pedro Fraga Rocha, filho de Seu Francisquinho e Dona Nila. Nascido na Rua do Fato, em 29 de julho de 1936. Pedro tem 90 anos, com memória e juízo plenos. Lembra-se de tudo e de todos.
Um esclarecimento a IA: o nome Fato, da Rua, não é o fato contra o qual não há argumentos. O fato da Rua, são as vísceras do boi, o bucho, tripa, bofe, com os quais se faz as buchadas e a dobradinha. Quem cuida do fato não são os açougueiros, nem os magarefes. São as fateiras. O nome da Rua é uma homenagem a elas, que dominavam o logradouro.
Pedro Nila era casado com Josefa, filha do grande Santinho de Nia. O casal teve 6 filhos.
Depois de casado, Pedro domiciliou-se no Beco Novo. Montou a sua tenda, e foi criar a família fazendo sapatos. Um mestre: cortava, costurava e solava. Ele relembra: se me dessem uma folha de papel eu entregava o sapato pronto.
É que sobrava para o menino pobre em Itabaiana, era ser sapateiro (pedreiro, marceneiro, alfaiate, balconista...) e jogar futebol. O capitalismo chegou com os sapatos de fábrica, bonitinhos e ordinários) e os sapateiros foram a falência.
Perguntei a Pedro se ele tinha frequentado a escola e quem foi a sua primeira professora. Ele disse-me que frequentou, mas não lembrava quem foi a professora, nem a escola. Um esquecimento seletivo.
Lembrei-me de papai, que próximo as eleições, treinava desenhando o nome, para ter o voto garantido nas urnas. Não era permitido o voto do analfabeto, e a cidadania para ser exercida exigia a assinatura na lista de votação.
Pedro Nila, aos 90 anos, é uma fonte inesgotável da história de Itabaiana, queira ou não os letrados. Um homem gentil e sorridente, que não se lembra de ter tido inimigos.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
terça-feira, 21 de julho de 2026
A FALTA D'ÁGUA EM SERGIPE
SERGIPE TEM JEITO
domingo, 19 de julho de 2026
A LOUCURA DO DR. JOÃO VIEIRA
A loucura do Dr. João Vieira.
(por Antonio Samarone)
A “loucura” do Dr. João Vieira Leite, um caso tenebroso da medicina, no início do século XX: o tratamento da “loucura” do Dr. João Vieira Leite, médico e Governador de Sergipe (por poucos dias).
O Dr. João Vieira Leite é filho do Coronel Sizenando de Souza Vieira e D. Adelaide Leite Vieira, nascido no engenho São Félix, cidade de Santa Luzia do Itanhy, a 04 de setembro de 1867. Irmão do famoso médico Dr. Berilo Leite, que fez história na Estância.
Dr. João Vieira Leite colou grau em medicina pela Faculdade da Bahia, em 27 de outubro de 1890, defendendo a tese “Apreciação dos métodos operatórios gerais adotados na operação cesariana”.
Em seu retorno a Sergipe, montou a sua clínica na praça da Matriz em Estância, sendo bastante aceito. Foi diretor e grande benfeitor do Hospital Amparo de Maria.
Em Sergipe, entre 1890 e 1901, o Dr. João Vieira teve carreira meteórica, como médico e como político. Um personagem destacado da vida sergipana.
Foi Intendente municipal em Estância (Prefeito), Deputado Estadual nas legislaturas 1894-95, 1896-97, Presidente da Assembleia Legislativa, e nessa condição, Governador de Sergipe por 44 dias, após a deposição de José Calazans (1894).
João Vieira era um homem culto. Fundou o jornal “A Razão”, periódico criado em Estância, Sergipe, pelo médico João Vieira Leite e seu cunhado, o comerciante Augusto Ramos Gomes. O recorte temporal inicia-se em 1898, ano de fundação do periódico, e 1923, ano que corresponde ao início da mudança na estrutura editorial do jornal, impulsionada pelo falecimento de Augusto Gomes. Um jornal voltado para a difusão do iluminismo.
Até quando ocorreu uma grande tragédia: o Dr. João Vieira, ainda moço, com apenas 35 anos, começou a apresentar um comportamento “estranho”, “esquisito”, o que não demorou muito tempo para que a comunidade suspeitasse de que o facultativo estivesse ficando maluco. E nessa condição de louco, foi levado à força, pela família, para o Rio de Janeiro, em busca de tratamento.
O Dr. João Vieira resistiu à ida para o Rio de Janeiro. Não houve acordo. O ex-governador de Sergipe foi apeado numa camisa de força e, sob intensa violência, embarcado para a sua última viagem.
Durante a viagem, que durava de cinco a oito dias, o Dr. João Vieira foi enclausurado num apertado compartimento do “Vapor Manaus”, da Cia. Esperança Marítima”, transformado em solitária. João Vieira reagiu à repressão insana.
Após muita violência, tortura física e mental, de bater-se insistentemente com a cabeça nas paredes, de muita luta para libertar-se, muita automutilação. João Vieira, médico, governador de Sergipe, foi abatido pelas práticas psiquiátricas da época.
Em 21 de janeiro de 1902, nas proximidades do porto de Vitória, no Espírito Santo, antes de chegar ao seu destino no Rio de Janeiro, o Dr. João Vieira não resistiu aos sofrimentos e faleceu de forma absurda, resistindo à violência da internação e lutando por liberdade.
O grande Epifânio Dória, em suas efemérides, cita a morte do Dr. João Vieira, omitindo a violência, a suposta loucura e o internamento forçado. Epifânio limita-se a dizer que ele faleceu de uma enfermidade grave. Claro, Epifânio conhecia o triste episódio, mas omite.
Dr. João Vieira Leite, um esquecido mártir da psiquiatria.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
sexta-feira, 17 de julho de 2026
A CULTURA EM SERGIPE DEL' REY
A Cultura em Sergipe del' Rey.
(por Antonio Samarone)
A cultura sergipana é expressiva, rica, diversa e criativa. Por que não ganha protagonismo nacional? Com exceções: Mestrinho, Natanzinho... Quem mais? Eu sei, a gestão estadual é inoperante, comandada por uma elite acomodada e interesseira. Os mesmos, mandam em quase tudo. Entra e sai governo e eles permanecem.
O Governo Valadares (1987 – 1991),criou a Secretaria da Cultura e nomeou o sergipano Joel Silveira, um jornalista e intelectual nacionalmente reconhecido. Existia a Fundesc, criada em 1984, por João Alves.
Outros nomes de peso passaram pela Cultura: Aglaé Fontes, José Carlos Teixeira, Luiz Antonio Barreto, João Gama, Luiz Alberto. Hoje, vivemos um período de vacas magras.
Conta-se que, na passagem de Joel Silveira por Sergipe, diante da escassez, seu melhor amigo foi o arcebispo conservador Luciano Duarte. Como viabilizar esse convívio entre duas pessoas cultas, com pensamentos divergentes? Fizeram um pacto: nas conversas, não se falava nem de sexo, nem de política.
A competente jornalista Clara Angélica Porto, foi a secretária adjunta de Joel Silveira. Valadares apostou alto na Cultura.
Não se pode esconder a importância de João Alves para a cultura em Sergipe.
João criou o Centro de Criatividade (projeto de Jaime Lerner), o Teatro Tobias Barreto e a Orquestra Sinfônica. Déda criou o Museu da Gente Sergipana e o Palácio Museu. O Conservatório de Música é de 1945 e o Teatro Atheneu, de 1954.
No mais, resta pouco. Não me lembro de nada relevante do atual governo. Implantou a terça do arrocha? Só festas e mais festas, com artistas renomados. É muito pouco. Eu sei que a burocracia chapa branca vai enfatizar algumas ações relevantes. Mas foi quase nada.
O mais conhecido dessa elite intelectual, que comanda a cultura há meio século, me justificou sucintamente o motivo das grandes festas: “o gosto popular”! Não adianta trazer o Ballet Bolshoi, se o povo quer “arrocha”.
Fiquei pensando, será?
O governador João Alves implantou na Orla de Atalaia, um memorial ao ar livre, uma roda de convivência, com estátuas em bronze, dos 10 maiores intelectuais sergipanos.
João criou outro memorial na Orla: os formadores da humanidade, com dez nomes da história nacional. Um adendo: entre esses nomes nacionais, Marcelo Déda incluiu, com justiça, Zumbi dos Palmares. Desse memorial sobraram nove, a estátua do Barão do Rio Branco encontra-se desaparecida.
Como se não bastasse, João Alves ainda construiu um grande monumento (15 metros), em aço escovado, a Inácio Barbosa. A obra é do artista plástico Léo Santana.
Está tudo lá, mal conservados, esquecidos, mas permanecem altaneiros. A obra é de bronze, feita para durar. Com todo esse investimento cultural, qual é o monumento mais visitado na Orla de Atalaia?
Um caranguejo gigante, feito de resinas sintéticas. São filas e mais filas de turistas. Todos querem uma foto ao lado do caranguejo-uçá. Nos pacotes turísticos, não falta a grande atração: visita, com direito a fotos, ao “Ucides cordatus”.
Ia esquecendo, a transformação da antiga alfândega em Centro Cultural de Aracaju, belo projeto da arquiteta Ana Libório, também foi iniciativa de João Alves. Hoje, comporta o Palácio Museu Luiz Antonio Barreto.
Uma boa notícia: soube que a prefeita Emília Correia decidiu transformar o Palácio Inácio Barbosa, abandonado há décadas, no Memorial da Cidade. Nesse longo descaso, o Palácio chegou a ser oferecido a um empresário do ensino.
A cultura em Sergipe está na UTI, necessitando de sangue de caranguejo e um transplante.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
O ANALISTA DA SERRA
(por Antonio Samarone)
Na primeira metade do século XX, pacientes mentalmente atormentados encontraram na terapia da fala (psicoterapia) um alívio. A psicanálise freudiana tomou corpo nos Estados Unidos. Em 1948, o psicanalista William Menninger foi eleito presidente da Associação Americana de Psiquiatria (APA).
Em meados da década de 1950, apareceu em Itabaiana, no segundo trecho do Beco Novo, um senhor de meia-idade, cabelos grisalhos, fala castelhana anasalada, o doutor Sorin, um romeno, que possuía diploma de psicanalista, assinado pelo Dr. Menninger.
Dr. Sorin se gabava de ter conhecido Freud, em Hampstead, poucos dias antes de sua morte. (setembro de 1939). Vítima de câncer de esôfago.
O Dr. Sorin montou o primeiro consultório psicanalítico em Sergipe. Na mesma época, o Dr. Gracia Moreno estreava um aparelho de eletrochoque, no Adauto Botelho. Era a época de ouro das terapias corporais da psiquiatria.
O médico romeno não foi bem-sucedido em Itabaiana. Ninguém estranhava esses peregrinos pós-guerra. Em Itabaiana, já residia um engenheiro polonês. A bronca foi outra.
Sorin era um visionário, não batia bem, montou um consultório original. O divã era uma rede de varanda, onde os pacientes eram agraciados com leves embalos relaxantes. Dizia-se que a rede onde Euclides Paes Mendonça atendia aos puxa-sacos e fuxiqueiros, era uma imitação do Divã de Sorin.
A psicanálise crescia na América do Norte. As explicações da psicanálise sobre o inconsciente fizeram grande sucesso. Freud, profeta do pessimismo, considerava a religião uma neurose, e a criação de Deus, um anseio infantil. Como tornou-se palatável num país religioso?
As duas Guerras Mundiais trouxeram consequências psiquiátricas. As neuroses de guerra e a fadiga dos combatentes. Depois das guerras, por pressão dos ex-combatentes, que reinjetavam o estigma da loucura, a APA criou uma nova categoria patológica, os “Transtornos”. O primeiro foi o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Nasceu uma psiquiatria orgânica, biológica, dependente da indústria farmacêutica. Surge os psicotrópicos. Nessa época, o Dr. Renato Maze Lucas mudou-se para Itabaiana, um psiquiatra brasileiro.
A passagem do psicanalista Sorin durou apenas 90 dias. Ele, com a sua ciência, arrumou uma encrenca com o poderoso Miguel Fagundes, delegado do Beco Novo.
Seu Miguel emprestava dinheiro a juros. Para o dinheiro não embolorar, ele, a cada 15 dias, espalhava as cédulas na calçada, dentro de arupembas, para tomar sol.
A medida extravagante não deixava de funcionar como propaganda dos serviços bancários de Seu Miguel. A agiotagem não era bem vista, condenada na Bíblia como usura e avareza, pecados capitais.
Correu um boato de que o psicanalista Dr. Sorin, calvinista, encontrou um transtorno para seu Miguel: TAC (Transtorno da Avareza Crônica). Seu Miguel não levava desaforo para casa. Deu um prazo de 24 horas, para o Dr. Sorin arrumar as malas.
Na madrugada do dia seguinte, a carroça de Zé de Sancho partiu carregada, levando os bregueços do Dr. Sorin até o ponto das marinetes de Luiz Prado. Partiu, sem deixar registro. A rede, que funcionou como divã, foi deixada para Sinhá Fonfom, sua vizinha.
Eu não conheci o doutor, mas me balancei na rede Dona Sinhá Fonfom.
Antonio Samarone (Academia Itabaianense de Letras)
domingo, 12 de julho de 2026
A PIMENTA E O SAL.
(por Antonio Samarone)
“Ó mar, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!” – Fernando Pessoa.
Em busca de especiarias, ouro e prata, os portugueses passaram além do Bojador e cruzaram o tenebroso mar. Em busca de louro, coentro, noz-moscada, açafrão, alho-poró, cominho, alho e cebola, urucum, cravo, canela e gengibre. Parece pouco...
O poeta perguntou: valeu a pena? Vocês conhecem a resposta. De positivo: eles, procurando o caminho das Índias, descobriram o Brasil.
A chegada dos portugueses, foi cantada por Antonio Nóbrega: “Mas de repente/ Me acordei com a surpresa/ Uma esquadra portuguesa/ Veio na praia atracar. Me levantei/ de borduna já na mão/ Aí senti no coração/ O Brasil vai começar.”
Especiarias eram produtos exóticos, com fins medicinais. Não apenas temperos. Segundo o “Le Thresor de Santé” (1607): “A pimenta-do-reino mantém a saúde, conforma o estômago, dissipa os gases, faz urinar, cura os calafrios, picadas de cobras e provoca aborto de fetos mortos. O cravo da Índia serve para os olhos, fígado, coração, diarreia e dor de dente.”
Encontrei todas as especiarias (pimenta-do-reino, cravo, canela e noz-moscada) na feira de Itabaiana. (veja a foto). Se os portugueses soubessem, não precisariam ter dobrado o Cabo das Tormentas. A Índia era em Itabaiana!
“Todo trabalho do homem é para a sua boca” – Eclesiastes, VI, 7.
Quem come, amansa!
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
domingo, 5 de julho de 2026
A REFORMA SANITÁRIA EM SERGIPE.
(por Antonio Samarone).
Em Sergipe, a Lei Orgânica da Saúde (8.080/1990), que regulamentou o Sistema Único de Saúde (SUS), foi rejeitada pelo governo estadual. Não sei as razões. Eles queriam continuar no SUDS, um sistema unificado.
A sorte foi uma crise do Hospital de Cirurgia que, para não fechar, exigia um aporte financeiro. O governo estadual não tinha. Procurou-se o INAMPS, que impôs uma condição: só liberava o socorro para o Hospital de Cirurgia se o governo estadual ingressasse no SUS.
O Governo Valadares cedeu! Como os prazos estavam se esgotando, copiou-se o contrato da Bahia, só mudou o nome: onde encontrava-se Bahia, substituía-se por Sergipe. Virou piada nacional. As divergências seriam resolvidas em um cartório na Bahia. Não deu tempo de encontrar um cartório sergipano.
Tudo foi assinado às pressas.
Lembro-me de que a UFS organizou um grande seminário, pretensiosamente chamado de “Pensar Sergipe”. Um reitor, Zé Lima, um crente na ciência e no iluminismo, dizia pomposamente: “A UFS possui mil doutores (hoje é mais) e tem o compromisso de encontrar os caminhos de Sergipe.” Foi a última tentativa. Hoje, os doutores cuidam dos seus currículos.
No dia 30 de agosto de 1990, no auditório do Tribunal de Justiça, o Pensar Sergipe reuniu os doutores da UFS, as autoridades sanitárias, políticos e populares, para debaterem, de peito aberto, os caminhos da Saúde.
O conferencista principal foi David Capistrano, um sanitarista vermelho, que revolucionou o Sistema de Saúde em Santos, com destaque para a Saúde Mental. Um nome respeitado nacionalmente.
Os primeiros nordestinos que foram trabalhar no Porto de Santos, foram sergipanos, no final do século XIX. Muitos médicos (Doutor Silvério Fontes, o mais famoso, Martins Fontes, seu filho; Ranulfo Prata, entre tantos...).
Para o seminário da UFS, o governador designou o Dr. Sérgio Garcez, um conceituado sanitarista, para representá-lo.
A secretária da Saúde era Marta Barreto. Sérgio informou que, em Sergipe, os 75 municípios já possuíam autonomia na atenção básica e os programas de Saúde da Família e Agentes Comunitários estavam sendo implantados.
O doutor Ricardo Gurgel falou em nome do Hospital Universitário. A secretária municipal, doutora Rosa Sampaio, representou Aracaju. Simpaticamente, a secretária realçou o papel da UFS, alunos e professores, na construção do SUS, em Sergipe.
Muita gente perguntando, formulando ideias, fazendo sugestões. A saúde estava exposta. A saúde como um direito, ofertada gratuitamente em um sistema integrado. Um modelo assistencial humanizado. Não se perguntava quem pagaria a conta. Era o sonho do welfare state.
A saúde seguiu a sociedade. O surto neoliberal atropelou os planos e rebaixou os sonhos.
Um sanitarista pretensioso, professor de Saúde Pública da UFS, sentenciou durante o seminário: “venho tentando refletir por que as coisas em Sergipe são lentas, sempre atrasam. Nada para exaltar, nenhuma experiência exitosa do SUS.”
Ao contrário, em Sergipe, o Estado resistiu ao SUS. Historicamente, a Secretaria da Saúde se notabilizou por eleger vários Deputados Federais, sempre os mais votados. De memória, lembro-me de quase uma dezena.
À época, ingenuamente, eu não suspeitava que o SUS só era aceito no discurso. Os sindicatos dos trabalhadores queriam planos de saúde. Participei de um debate na UFS sobre o SUS, na ocasião o Reitor aproveitou para assinar um convênio dos professores e funcionários com um plano de saúde. Os servidores estaduais fugiam dos serviços do SUS. Não abriam mão dos serviços médicos do IPES.
Quem carregaria as bandeiras do SUS?
O Dr. Capistrano deu uma lição, aos mais radicais: “A saúde não é um raio de sol em um céu azul. A saúde é um processo que vai se instalando.”
Revendo os anais do Pensar Sergipe, faço uma autocrítica: as secretárias Marta Barreto (Estado) e Rosa Sampaio (Aracaju), estavam no caminho certo.
O Dr. David Capistrano encerrou o evento com uma parábola:
“Deus perguntou se as pessoas tinham fé. Elas responderam que sim. Vocês acreditam na vida eterna? Acreditamos! Acreditam no juízo final e na reencarnação? Acreditamos. Então, quem quer morrer hoje para ir para o céu? Ninguém levantou a mão."
"As pessoas têm fé, mas querem ficar aqui, neste vale de lágrimas, o máximo possível. Querem viver, ter saúde, e nós temos que estar atentos a isso: todo mundo tem direito a essa aspiração básica da humanidade.”
Encerramos o seminário nesse tom.
O principal programa de saúde do atual governo do estado é um mutirão de cirurgias. É o fundo do poço da saúde pública.
Entretanto, o secretário será um dos federais mais votados. Mantém-se a tradição.
Renovo as esperanças na Reforma Sanitária, prevista na 8ª Conferência de Saúde – 1986. Em noventa dias, teremos eleições. Deixem o povo votar livremente, sem abusos jurídicos ou financeiros, que o povo muda.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
O REI DA MACAXEIRA
(por Antonio Samarone).
Em 1889, a Monarquia caiu no Brasil, com uma quartelada. Os Marechais assumiram, a suposta República. Contudo, popularmente, o rei não perdeu a majestade. Rei continuou sendo uma honraria concedida aos melhores. Pelé foi o rei do futebol e Roberto Carlos o rei da jovem-guarda.
Em Itabaiana, temos o rei da cenoura, a rainha do milho, o rei da sucata, e até o rei da cocada preta. Tivemos o rei das cafuas, o rei do sinuca e o rei da ginga. Por muitos anos, tivemos a rainha dos caminhoneiros. Esta última, o MP fez tantas exigências, tantos protocolos, que a brincadeira acabou.
Na esquina das ruas São Paulo com Sete de Setembro, no coração do comércio itabaianense, descobri o rei da macaxeira. Isso mesmo, do Aipim.
Logo cedo, a banca de Rodrigo está superlotado. Se faz até fila. Desde 2013, que chova ou faça sol, logo cedo, lá está ele descascando a macaxeira. O produto vem direto do sítio do seu avô, Valdo de Pureza (90 anos), no sítio Poço Terreiro, vizinho ao Alecrim, no Malhador.
A tradição de vender macaxeira descascada vem do pai de Rodrigo, Seu Petróleo, conhecido nos bairros populares do Aracaju. Rodrigo teve a quem puxar.
O sucesso de Rodrigo deve-se a simpatia no atendimento, ao preço e a qualidade da macaxeira.
O seu avô só planta macaxeira cardeal, semente herdada de Messias do Gringo, da Moita Formosa. Fiquei curioso e perguntei, por que a macaxeira se chama cardeal? Rodrigo deu uma risada: “cardeal, porque é quase papa.” É verdade! A macaxeira de Rodrigo desmancha-se na boca.
Rodrigo foi coroado pelo povo: o rei da macaxeira. Ao lado, a mãe, Dona Rachel, vende coco. Um pouco abaixo, mas perto da feira, a esposa, Dona Aline, vende jaca. Rodrigo controla uma rede de abastecimento. Entretanto, o carro chefe é a macaxeira.
Chama a atenção é que as calçadas em Itabaiana são livre, pertencem aos pedestre. Os ambulantes, ficam abaixo do meio-fio.
Com dez reais, se leva até 4 kg de macaxeira. Basta pechinchar. Se a família for pequena, passa-se o mês.
Por que o povo coroa os melhores? Alguém se destacou, o povo logo apelida de rei. É rei disso, rei daquilo. Ninguém que se destaca recebe o nome de presidente, governador, ministro, vereador, nada disso, o melhor vira rei. Alguém conhece um vereador do futebol?
Os mais apressados podem concluir que o brasileiro tem a alma monarquista. Não creio. Em 21 de abril de 1993, houve um plebiscito, uma consulta popular, para saber se o povo queria viver em uma república ou em uma monarquia. Lembram-se? A monarquia teve apenas 10% dos votos.
Como as chapas do plebiscito não informavam quem seria o Rei, gerou-se uma grave desconfiança no eleitorado. Era um salto no escuro. Os descendentes de Pedro II, eram uns príncipes esquisitos. E Rei, é um cargo de confiança de Deus. Não se vota em rei.
No final, o Centrão indicaria alguém do baixo clero para Rei, e conferia os cargos de vice-rei ao PT.
É o Brasil!
Viva o Rei da macaxeira.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
domingo, 28 de junho de 2026
UM INTELECTUAL FREI-PAULISTANO
(por Antonio Samarone)
Frei Paulo (15 mil habitantes), foi o primeiro município a separar-se de Itabaiana. A autonomia deu-se por conta da força econômica do algodão, na segunda metade do Dezenove. Os frei-paulistanos possuem grande autoestima.
Recentemente, a historiadora Ana Dantas, tornou-se, por méritos, imortal pela Academia de Letras de Itabaiana. É de Frei Paulo, o jornalista Ancelmo Gois, um profissional nacionalmente reconhecido.
Entretanto, esse texto não é sobre Ancelmo. Trato de outro jornalista frei-paulistano: Fragmon Carlos Borges, filho de Francisco Carlos Borges e Maria Lali Carlos Borges, nascido em 12 de abril de 1927. A família Carlos Borges, em Frei Paulo, deu a Sergipe muita gente importante.
O engenheiro civil Josaphat Carlos Borges, foi Prefeito do Aracaju (1946 – 47). Só Gil Francisco, para desvendar o grau de parentesco, com o jornalista vermelho, de Frei Paulo.
Fragmon Carlos Borges foi redator da revista Época (1948/1949), dirigida pelo jovem Walter Sampaio. O primeiro número da revista sergipana saiu em agosto de 1948, com destaque para um artigo do Dr. Walter Cardoso, sobre a fome em Sergipe; uma resenha sobre Monteiro Lobato, ilustrada por Álvaro Santos; um artigo de Walter Sampaio sobre Pablo Neruda; um conto inédito de Carvalho Neto; poemas de José Sampaio e Bonifácio Forte.
Gente, alguém possui essa revista? Quantos números foram publicados?
Fragmon era integrante grupo jovem “Mensagem dos Novos de Sergipe”, do qual faziam parte Márcio Rollemberg Leite, Carlos Garcia, Aluysio e Walter Mendonça Sampaio, Nélson de Araújo, Paulo de Carvalho Neto, Enoch Santiago Filho, Fábio Silva, João Batista Lima e Silva, Lindolfo Campos Sobrinho, Alberto Barreto de Melo, Jenner Augusto, Florival Ramos, José Menezes Campos, Floriano Garangau, José Nunes Mendonça, Armindo Pereira e outros, dedicados às atividades culturais e a política partidária, simpatizantes ou membros do Partido Comunista Brasileiro, estavam todos envolvidos nos seguintes periódicos. Mensagem (órgão cultural, 1939), Símbolo (Órgão Cultural, 1939) e Época (Mensário a Serviço da Cultura e da democracia, 1948/1949).
Os alunos dos mestrados em ciências sociais, em Sergipe, tem essa plêiade de intelectuais para biografar, para que essa memória sergipana, não se apague. Procurem Gil Francisco.
No final dos anos 50, Fragmon Carlos Borges foi o editor-chefe, no Rio de Janeiro, do jornal Novos Rumos, de circulação nacional, pertencente ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). O Jornal Novos Rumos foi publicado entre 1959 e 1964, com uma tiragem de 60 mil exemplares. Novos Rumos foi fechado pelos militares, em 01 de abril de 1964.
Fragmon Carlos Borges, editor-chefe durante quase toda a existência do jornal, morreu em São Paulo, durante a ditadura, de enfarte fulminante, ao qual certamente não estiveram alheias as tensões da clandestinidade, de onde continuava a fazer a imprensa partidária possível.
Fragmon Carlos Borges publicou o ensaio Origens Histórica da Propriedade da Terra – 1958, na revista Estudos Sociais, maio-junho, 1958, republicado em A Questão Agrária – textos dos anos sessenta, Carlos Marighella, Orlando Valverde, Paulo Schilling, Mário Alves, Rui Facó, Fragmon Carlos Borges. São Paulo, Edit. Brasil Debates, Coleção Brasil Estudos, 1980. (foto acima)
Se houver interesse dos pesquisadores, Fragmon publicou artigos e ensaios sobre a realidade brasileira. Gil Francisco já localizou a maioria.
Em Sergipe, Fragmon foi brutalmente perseguido pela polícia, comandada pelo professor e chefe de Polícia, João Monteiro de Araújo. Após críticas ao Governo, ele foi preso e espancado, às dez horas da manhã, de 29 de abril de 1949, em plena Rua São Cristóvão, Centro de Aracaju quando foi abordado por três indivíduos e colocado em um carro de Praça, em seguida conduzido até o Mosqueiro.
Um desses episódios frequentes de violência, ocorreu em Itabaiana:
Perseguido pela força policial do governador José Rolemberg Leite, o jornalista do jornal A Verdade, Fragmon Borges foi mais uma vez surrado, na noite do dia 9 de janeiro de 1951. A agressão ocorreu na cidade de Itabaiana, onde existia um dos maiores núcleos do Partido Comunista no estado, depois de Aracaju.
No final dos anos 50 Fragmon Borges passou a residir no Rio de Janeiro. Rompe com o Partido Comunista para viver na clandestinidade, morrendo em 1975, vítima de enfarto. Foi anistiado em 2006.
Frei Paulo não pode esquecer esse ilustre filho.
Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.
sábado, 27 de junho de 2026
OFTALMOLOGIA EM SERGIPE
(por Antonio Samarone)
Até as primeiras décadas do século XIX a oftalmologia era apanágio dos cirurgiões aprovados, que realizavam operações de catarata, fístula lacrimal e enucleação do globo ocular.
Os autores antigos responsabilizavam a sífilis, as febres intermitentes e o reumatismo pelo desencadeamento de muitas lesões oculares. Algumas afecções importantes da oftalmologia: conjuntivite, terçol, sapiranga, oftalmia purulenta ou tracoma.
A cátedra de oftalmologia somente foi instalada nas faculdades brasileiras em 1873.
Entretanto, muito antes, médicos conhecedores da especialidade já a praticavam na Corte. O mais afamado deles, em meados do século XIX, foi Charles Joseph Frederic Carron du Villard (1800 – 1860), italiano, natural da Savóia, e naturalizado francês. Morreu no Rio de Janeiro, para onde viera em 1857. Dirigiu o consultório de olhos da Santa Casa de Misericórdia, onde teve como assistente o médico francês Louis-François Bonjean (1808 – 1892). Foram membros da Academia Imperial de Medicina.
Carron du Villard foi um verdadeiro chefe de escola na Santa Casa. Seu discípulo mais importante foi o médico paraense Manuel da Gama Lobo. Sucedeu Carron na direção do serviço na Santa Casa. Foi o primeiro a usar o oftalmoscópio, inventado pelo alemão Helmholtz em 1851, no Brasil. Gama Lobo publicou vários trabalhos sobre a oftalmologia.
Outros oftalmologistas renomados que exerceram a profissão no Rio de Janeiro foram: Hilário Soares de Gouveia, o primeiro a ocupar a cátedra de doenças dos olhos e Fernando Pires Ferreira, piauiense, formado em Paris, que vai ocupar o serviço da Santa Casa.
Pires Ferreira teve como principais discípulos o oftalmologista Rego Lopes e os sergipanos, José Antonio Abreu Fialho, José Lourenço de Magalhães e o cearense José Cardoso de Moura Brasil.
Em Sergipe, a historia oral aponta a destreza oculistas do Dr. Antonio Militão de Bragança, em Laranjeiras. Lampião foi seu cliente, como comprova a ficha clínica encontrada no hospital local. Existe uma polêmica, se Bragança operou ou não Lampião, são muitas versões. O certo é que o olho cego de Lampião, carecia de cuidados frequentes.
A igreja católica considerou Santa Luzia a padroeira dos portadores das afecções oculares. Abusava-se de colírios e remédios caseiros: suco de cansanção (Jatropha urens). Sumo frescos de brotos de imbaúba (Crecópia). Esterco de jacaré e água boricada.
Em 1854, fundou-se no Rio de Janeiro o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, que introduziu o sistema Braile no Brasil.
Na história do ensino médico no Brasil a cadeira de “oftalmologia” clínica foi a primeira disciplina especializada a ser instalada. Na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a cadeira foi criada em 1873, e teve como seu primeiro professor o eminente cientista Hilário Soares de Gouveia. O Doutor Hilário, por divergências políticas com o recém instalado regime republicano, ensinou somente até o ano de 1895.
Para ocupar essa vaga, submeteu-se e foi aprovado em concurso público, no ano de 1898, o médico sergipano José Antonio de Abreu Fialho, que se estabeleceu como lente catedrático de oftalmologia a partir de 1906, indo desempenhar um papel marcante na consolidação da especialidade no Brasil.
O Dr. Jose Antonio de Abreu Fialho natural de Aracaju, filho de Tito de Abreu Fialho, Delegado Fiscal da União, e D. Maria José de Abreu Fialho, nascido a 20 de janeiro de 1874. Bacharel em Ciências e Letras pelo Imperial Colégio Pedro II, matricula-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, recebendo o grau de doutor em 16 de janeiro de 1897, defendendo a tese “A oculística perante a patologia: perturbações oculares nas moléstias cerebrais”. Fez especialização em Viena, na clínica Fuchs.
O seu filho, Sílvio Abreu Fialho, escreveu a biografia do Pai, chamada “Páginas Viradas”. Durante a sucessão de Gracco Cardoso no Governo de Sergipe, o Presidente Arthur Bernardes procurou um sergipano ilustre, e não envolvido com as disputas políticas locais. A personalidade consultada foi o Dr. Fialho, que de pronto não aceitou, alegando não conhecer Sergipe, e não querer deixar as atividades clínicas. Com a rejeição de Fialho, o escolhido foi o diplomata Ciro Franklin de Azevedo.
A SBO - SOCIEDADE BRASILEIRA DE OFTALMOLOGIA - foi fundada em 6 de setembro de l922, por JOSÉ ANTONIO ABREU FIALHO, catedrático de Oftalmologia da Faculdade de Medicina e Farmácia do Rio de Janeiro e Diretor da Faculdade por mais de 10 anos.
A extraordinária contribuição de FIALHO, ao desenvolvimento da oftalmologia brasileira, tem seguidores desde então, na liderança da especialidade e qualquer tentativa de citar nomes, poderá ficar incompleta, gerando injustiça.
O Dr. Abreu Fialho, nasceu em 20 de janeiro de 1874 em Aracaju/SE, filho de Tito de Abreu Fialho, delegado fiscal da União e Maria José de Abreu Fialho e faleceu em 17 de março de 1940.
Antonio Samarone. Academia Sergipana de Medicina.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
PENSANDO ALTO
Pensando Alto!
(Antonio Samarone)
Max Weber, em seu ensaio, “a política como vocação”, flexibilizou o papel da ética na política: “a política utiliza-se de duas éticas: a da CONVICÇÃO, quando obedece a valores e princípios; e a ética da RESPONSABILIDADE, quando obedecem às exigências da realidade e ao pragmatismo.”
Em Sergipe, na atual eleição, o PT usou a ética da Responsabilidade, para subir no palanque do Governador.
Um exemplo recente do uso da ética da Responsabilidade: os Estados Unidos, nessa guerra de agressão contra o Irã, assassinou Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica, no primeiro dia dos combates.
A ética da Convicção exige vingança! A ética da Responsabilidade obrigou ao Irã continuar negociando com os Estados Unidos, mesmo indignados. A ética da Responsabilidade indicou um caminho diferente da ética da Convicção.
Usando a moral comum, do dia-a-dia, não vingar a morte de Khamenei é uma indecência. Pensando politicamente, o Irã está certo.
Em Sergipe, o PT precisou tapar o nariz, para fortalecer a reeleição de Lula. Foi o caminho pragmático.
No segundo turno de 2022, o PT foi derrotado por Mitidieri. A população delegou ao PT, o papel de oposição. Foram quatro anos. Às vésperas dessas eleições - 2026, o PT pediu que esqueçam o que foi dito, apaguem os vídeos.
Para fortalecer a reeleição de Lula, o PT vai subir no palanque da situação.
Percebem, o PT mudou de posição em Sergipe, para fortalecer a reeleição de Lula. O Partido do atual governador (PSD), tem candidato à Presidência da República, Ronaldo Caiado. O PSD de Sergipe, movido pela força eleitoral de Lula, procurou uma sombra.
Não acredito que as bases lulistas em Sergipe, votem em Mitidieri.
O preço é muito alto. São muitas as contradições. Nem como troca, como agradecimento aos votos que Lula, teoricamente, receberia das hostes governistas.
A liderança de Lula em Sergipe, foi construída ao longo da vida.
Também não acredito que a direita palaciana vote em Lula.
Os exemplos dos petistas históricos, Renatinho, em Propriá; e Mané de Rosinha, em Porto da Folha, no apoio a Valmir de Francisquinho, no apoio a chapa Lula/Valmir, são pontas do Iceberg. As mudanças em Sergipe precisam desses votos.
No segundo turno de 2022, em Sergipe, Lula obteve 67% dos votos válidos. Faço um alerta: as mudanças em Sergipe, com Valmir de Francisquinho, também precisam do apoio dessas bases lulistas.
Quem estiver ideologizando a campanha, não está ajudando. As necessidades em Sergipe, não são ideológicas. Precisamos de um bom administrador, que governe para todos!
Antonio Samarone. Médico Sanitarista.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
A VIOLENCIA POLÍTICA EM ITABAIANA
A Violência Política em Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
Na década de 1960, Itabaiana foi marcada pela lei do mais forte. Quem comandava a política, tudo podia, impunemente. O auge da violência, durou 4 anos.
Nas eleições de 1962, Euclides Paes Mendonça elegeu-se Deputado Federal, o filho, Antonio, Deputado Estadual; e um correligionário, Jose Sizino de Almeida, Prefeito.
Fez barba e cabelo, mandava em tudo, nas coisas e nas gentes. Uma nota: essa violência em Itabaiana, era aliada do crescimento econômico local, criando os espaços urbanos exigidos.
Como nem tudo é perfeito, os adversários (PSD) elegeram o Governador – Seixas Dórea. A contradição era evidente. Euclides perdeu o mando do Fisco (o contrabando) e da Polícia (a violência).
Euclides continuou com polícia própria. Uma milícia (a Guarda Municipal, "armada até os dentes").
Em 20 de abril de 1963, um sábado agitado, na feira de Itabaiana. Euclides, pessoalmente, resolver relocar a banca de rede de Seu Antonio de Genoveva. “É um desaforo, esse velho pessedista, ficar nesse ponto privilegiado”. A banca do velho, ficava defronte ao armazém de Manoel Teles, o chefe da oposição municipal.
Antonio Joaquim de Santana, Seu Antonio das redes, era um velhinho baixo, cabelos loiros e olhos azuis. Gente de fibra. Esclarecido. Natural das Candeias. Um pessedista raiz, conhecido de Leite Neto, que veio a Itabaiana, para proteger o seu amigo, depois do conflito. Euclides pensava o quê?
A família de Seu Antonio era do engenho Matebe, vizinho a Riachuelo dos Leites. Por isso, ele era pessedista.
O chefe da UDN era acostumado a prender e judiar os adversários. Muitas famílias fugiram, outras sofreram. O vereador Vital da Lapa teve o seu rosto queimado com um charuto, pessoalmente por Euclides.
Nesse tempo, era costume, os presos políticos serem obrigados a encher a caixa d’água da cadeia, carregando água do Tanque do Povo. Entre apanhar, ser esbofeteado, e a humilhação da lata furada, a segunda era uma opção menos dolorosa.
Seu Antonio, era um velho de fibra. Não aceitou a transferência. Cruzou a rua, e foi prestar queixa a Manoel Teles. A coisa ficou feia, arma em punho, xingamentos e palavrões. O que se sabe é que o velhinho ficou.
Seu Antonio de Genoveva era irmão de Erundino das redes, que formou uma grande família, em Aracaju, na Rua Santa Rosa (Padaria Garça). Erundino era avô de Americo Alves, o presidente da Federação Sergipana de Futebol. O outro irmão de Seu Antonio, era Ascendino, meu avô paterno, que eu não conheci.
Antonio Joaquim de Santana, Antonio das redes, foi casado com Zulmira Francisca Teles. Enviuvou, e casou-se dom Dona Ernestina. Antonio das redes era pai de Oliveira, José das redes e Rosália.
O desembargador Vladimir Carvalho, da loja do pai, assistiu pessoalmente o arranca rabo entre os dois coronéis, por conta da resistência de Seu Antonio. “Se Euclides, aquela altura, tivesse atirado, ou determinado que alguém da Guarda o fizesse, Manoel Teles, que estava desarmado, era alvo fácil” – Vladimir.
No dia seguinte, domingo, 21 de abril de 1963, a Guarda Municipal, comandada por Sólon e Daniel, e a polícia Militar, comandada pelo Major Teles entraram em combate aberto. A praça da Igreja virou campo de guerra. O Major tombou. Não se mata um oficial impunemente.
Em 08 de agosto de 1963, durante uma passeata estudantil, Euclides (deputado Federal) e o filho (depurado estadual), foram fuzilados no meio da rua.
Em 31 de agosto de 1967, Manoel Teles, o chefe da oposição, foi assassinado, por vingança, na porta de casa, por um pistoleiro de aluguel. Uma vingança simbólica.
A próspera Itabaiana abateu-se, com a violência política.
A ditadura de 1964, acabou com os partidos políticos, e jogou mesmo os mais odientos adversários locais, num mesmo saco (ARENA). Virou tudo ARENA. PSD e UDN. A resistência criou o MDB.
Em Itabaiana, o MDB de Zé Carlos Teixeira foi entregue a professores esclarecidos (Guga), estudantes universitários e meia dúzia de alfaiates. Entre esses, Seu Filadelfo Araújo, que, por circunstâncias, virou Prefeito.
Mesmo com todos na ARENA, a política em Itabaiana não foi pacificada. A violência recuou muito pouco, mas recuou. Foi recuando lentamente.
A ditadura limitou a violência política local, tirou dos chefes os plenos poderes sobre a justiça, a polícia e o fisco. Surgiu uma nova forma de violência em Itabaiana, essa, adversária da economia.
Uma política voltada para dentro dos grupos, para os correligionários.
O novo acirramento político não fazia concessões aos adversários. Qualquer iniciativa empresarial era antecedida com a pergunta: eles votam em quem? O desenvolvimento de Itabaiana foi sufocado pela politicagem. Mesmo iniciativas boas para o município, partindo dos adversários, eram ignoradas.
Foi preciso esperar o século XXI, com a consolidação da liderança Valmir de Francisquinho, voltada para a lógica da conciliação, do bem público e do respeito aos adversários, para a economia itabaianense mostrar a sua cara. A violência política ficou na história.
Com o fim da violência política como regra, com a redução das tensões, dos conflitos e dos ódios políticos, a cidade desabrochou. Os empreendedores tiveram liberdade. A cidade encontrou o seu caminho.
A paixão política em Itabaiana, possui longas raízes. O PSD e a UDN foram extintos em 1965. O AI nº 2, extinguiu 13 legendas e criou o bipartidarismo. O meu pai faleceu no início de fevereiro de 2011, mas continuava pessedista (PSD), extinto há 46 anos.
Papai era analfabeto. Antigamente, antes das eleições, onde analfabeto não podia votar, papai treinava, desenhando o nome, para votar em que ele acreditava ser o herdeiro do PSD, de Leite Neto. Trenei papai, com o punho duro, sem habilidades com o lápis, para ele votar no PSD, de Manoel Teles.
Era uma vingança, ao que fizeram com o seu Tio Antonio. Meu pai tinha medos, não comentava política publicamente. Calado, votava em Zé de Brió. Cochichava pelos cantos, com os amigos. Papai também vendia redes.
Nos últimos 14 anos, Itabaiana passou por uma revolução cultural, com a pacificação da violência política.
Antonio Samarone.














