domingo, 1 de novembro de 2026
A INGRATIDÃO DO CORPO
(por Antonio Samarone)
Só agora, na velhice, descobri que o corpo é um poço de ingratidão. Não vale uma bufa. Passei a vida a bajulá-lo, tratando-o a pão de ló. Procurei sempre dar-lhe conforto, sombra e água fresca. Os melhores unguentos.
Para proteger o corpo, evitei o frio e o calor extremo, o vento pelas costas, as sobrecargas, as lesões, as feridas, os insetos picadores, o pano branco, as impinges, as coceiras, a sarna, os piolhos e as pulgas.
Sempre tratei o corpo com as regalias de um príncipe árabe. Mesmo sabendo da sua efemeridade, mesmo sabendo que é ele era pó e não valia grande coisa, e que terminaria na cidade de pés juntos. Acabo de descobri que o corpo não merecia os afagos e mimos.
Na juventude, cheguei a pensar que Eu e o meu corpo éramos da mesma laia. Pensei que Eu era o meu corpo e o meu corpo era Eu, em carne e osso. Um ser humano total.
Hoje, descobri que o corpo não merecia a consideração que lhe devotei, chegando a considera-lo em pé de igualdade. Se a alma, o sopro divino, o espírito, a self, a psiquê, seja lá qual for o nome, não merece essa consideração, imagine o “relés” corpo.
Quem está falando é a minha consciência, que também não sou Eu, mas tem mais autoridade. Pelo menos é imortal. Espero...
O cristianismo medieval tratava o corpo em sua insignificância passageira (tu és pó), merecedor das dores, sofrimentos e flagelos. O corpo era a carne, fonte de pecados e fraquezas. Por outro lado, a igreja criou o corpo de Cristo.
O renascimento descobriu a beleza do corpo e o pintou no teto do Vaticano. A medicina encontrou a sede das doenças, nas dissecações de Vesálius e na patologia de Virchow. A arquitetura encontrou a simetria em Vitrúvio.
O iluminismo encantou-se com o corpo, criou o humanismo (um equívoco). Procura-se, até hoje, os elixires da longa vida, para paparicar o corpo. Aumentou-se, em seu benefício, a vida média. Criou-se as academias, os personal trainers, os fisioterapeutas, os esteticistas, tudo para adular o corpo.
Na velhice, o corpo envaidecido e ingrato responde com covardia, sofrimentos e martírios. Desmonta-se de vez. Enfartei, sem mais nem menos. A ciência médica adiou a minha morte, impondo-me condições tiranas: “Isso não pode, nem aquilo, nem aquilo, e dana-se a impor restrições. Nomeou fiscais.
A medicina, em parceria com a indústria farmacêutica, prescreve uma dúzia de medicamentos. Precisei fazer uma tabela e pregar na parede. Para não esquecer.
Fico filosofando: a quem o organismo, que funciona com os seus controles e vigilâncias, enzimas, hormônios, anticorpos e neurotransmissores, tudo natural, organizados pela evolução, vai ignorá-los, para atender a esses novos comandos. Sei não.
Somos reféns da iatrogenia. Tudo isso é uma ilusão? Pelos menos, a dor é real. Faço qualquer negócio para aliviá-la. Mesmo por instantes. Vivemos uma Era paliativa.
No cateterismo, eu vi o meu coração cravejado de estreitamentos. Sem ilusões. Botei as molas (Stent). Na mesma semana, a artrose mostrou as suas garras. E o que parecia tão consistente, desabou de vez, sem pedir prazo, nem fazer conceções.
A gente descobre que o corpo está se lixando, ele segue o seu fim. Muitas vezes para de pensar, se esquece de tudo; outras vezes, para de obedecer aos comandos e nos joga imóveis no leito, anos a fio. Não pensa duas vezes, vai deixando de funcionar aos poucos.
Sem contar as células rebeldes, que começam a se multiplicar desordenadamente, a doer sem parar, sem motivos conhecidos. Raivosamente. Só de cânceres, são mais de cem.
Com certeza, o corpo pode caprichar em sofrimentos, mas vou viver intensamente, até a prorrogação. A vida é uma graça. O corpo sabe que sou eu que sinto as dores. Ele é uma máquina biológica. Não sente nada. É a sua natureza.
A minha vingança é que o corpo vai virar pó, devorado pelos vermes. Eu sigo em frente, sou a minha consciência, quase eterna. Na reta final, nos últimos cem metros, precisamos de resignação, sofrer sem reclamar. Enfrentar os serviços de saúde agradecido.
Já entendo porque tem hora, que a morte é um descanso. Um martírio muito breve, não faz um grande santo.
Uma curiosidade: as redes sociais passaram a me oferecer tratamentos de todos os tipos. A maioria com resultados garantidos. Para a artrose no ombro, até chifre de unicórnio me ofereceram. Se a dor não ceder, estou disposto a experimentá-lo.
Antonio Samarone. (quem?)
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
NEGÓCIO DA CHINA
(por Antonio Samarone)
O governo Lula anunciou que agora, os chineses podem entrar no Brasil, sem visto, sem pedir licença, só com a carteira de identidade. O turismo fará a festa. Parece que é uma contrapartida, as portas da China também estão abertas para os brasileiros.
Não existem programam de governos no Brasil, estadual ou municipal, que não inclua o turismo entre as prioridades. Dizem: vamos gerar empregos. Essa conversa em Sergipe, nunca saiu do papel. Turistas por aqui, só os vizinhos da Bahia que não gostam de furdunço. Aproveitam, as festas de lá, para descansar em Sergipe.
Não sei porque, sempre gostei da China. Na verdade, não sabia quase nada sobre a China, mas gostava. Não fazia ideia onde ficava no mapa. Quando se queria dizer que um lugar desconhecido era longe, se simplificava: “fica prá lá da Cochinchina”. A Cochinchina, que não é a China, era vizinha da Caixa Prego.
Na infância, existia uma lavanderia chinesa em Itabaiana. Que lavava a seco e sem sabão. A roupa já saia passada e cheirosa. A gravata saia com o nó dado. Eu nunca entendi, parecia mágica. Mamãe lavava uma trouxa de roupa, numa tábua, na beira do açude velho. Usava sabão de soda, feito em casa. Sempre botava a roupa para quarar.
A lavanderia chinesa durou pouco por lá, menos de 3 meses. Acho que o chinês foi embora, sem clientela. Sei que a notícia dessa lavanderia efêmera, correu solta.
Outra marca chinesa em minha infância, foi o cavaco. De vez em quando passava um menino no Beco Novo, tocando um triangulo e gritando: - Cavaco chinês! Cavaco chinês! Não chegava para o bico de todo o mundo, o cavaco era caro. Só os filhos de Justino, Delina, Orece e seu Evilásio da SUCAM, podiam comprar.
Eu ficava encucado: que traz esses cavacos da China? Para mim, Itabaiana acabava no Rio das Pedras.
Ainda tinha as roupas de seda da China, um luxo, que só as filhas de Adalula, Maria Jose e Inês, desfrutavam. E a porcelana Chinesa? Essa, só nos contos de fada, da literatura de cordel. Se contava em Itabaiana, que Dona Zalmor, possuía uma escarradeira de porcelana chinesa. Eu nunca vi.
Agora, quase tudo é “made in China”. Carros elétricos, motos, drones, TV, computador, colher de pedreiro, escapulários, cocar e penachos indígena, tudo! Como devoto do Padim Ciço, fui comprar uma imagem para o meu oratório, só encontrei imagens dele, produzidas na China.
Quando se fazia um negócio onde só um ganhava, se dizia que foi um negócio da China. O governo Lula acertou, o próprio chinês virou o melhor negócio da China.
Agora, quem vem dançar forró no Cariri, sob a batuta do maestro Tatua, são os chineses. Além do pagode russo, teremos o pagode chinês. Espero que o pessoal do turismo, dessa vez, lave a égua.
Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.
terça-feira, 27 de outubro de 2026
A POESIA EM SERGIPE
A poesia em Sergipe. (na visão de Mário Cabral)
“Sergipe é uma terra de muitos poetas e pouca poesia”, dizia Joel Silveira.
Botando lenha na fogueira: ontem, com a insônia da convalescência, sem conseguir pegar no sono, recebi uma mensagem psicografada de Mario Cabral (intelectual sergipano), sobre a poesia em Sergipe. O texto é de 1938.
Quem não sabe quem foi Mário Cabral, poeta e crítico literário sergipano, nascido em 26 de março de 1914, existe uma biografia suculenta, escrita por Ana Medina.
Cumprindo o acertado com Mário, vou transcrever o texto psicografado:
“A culpa não foi do Tobias, também não foi de Sílvio Romero, nem de Hermes Fontes, Fausto Cardoso, Gumercindo Bessa, Cleómenes Campos, João Ribeiro, Passos Cabral, Barreto Filho, Ranulfo Prata, Amando Fontes, Deodato Maia, Gilberto Amado, etc.”
“A culpa foi do povo. O povo que começou com essa besteira. Primeiro disse que Sergipe exportava talentos. Depois afirmou que sergipano burro nasce morto. E tanto disse, e mexericou, e comentou, e mais isso, e mais aquilo, e tal e coisa, que, quando se deu pelo negócio, a desgraça estava feita.”
“Todo sergipano começou a se julgar intelectual, a se julgar inteligente. Ainda estão fedendo a mijo, usando pano de bunda, e já têm ares de poeta, prosas de poeta.”
“Os poemas se multiplicam, invadem tudo, tomam conta de tudo. A culpa não foi de Tobias, nem do pessoal que citei acima.”
“O sergipano viu Sergipe produzir tanta gente de talento, que pensou que isso fosse regra geral, regra sem exceção. Então todo mundo se considerou intelectual.”
“Já li uma vez sobre as dez pragas do Egito. Pior, mil vezes pior, é a praga dos intelectuais de meia tigela. Em verdade vos digo ó literatos de outras terras, que o pseudointelectual é um sujeitinho chato, convencido, vazio de ideias, analfabeto e burro.”
“E a minha querida Aracaju está cheia deles. Vai o cidadão fazendo o seu passeio calmamente, gozando a honestidade da paisagem, quando, de repente, zás! Dá com o nariz com dois intelectuais.”
“Meia volta volver e o cidadão entra em um bar afim de tomar uma cerveja. Na mesa próxima, um poetinha lê um poema para outro poetinha. Então a cerveja começa a amargar na boca do cidadão e ele então dá o fora.”
“Na rua tropeça numa bengala. É a bengala de outro intelectual que discute, exaltado, as vantagens do regime político. O cidadão está descontrolado, está como um navio sem leme.”
“De tarde, o cidadão compra um jornal e lá encontra uma poesia. O cidadão só sabe que é uma poesia por causa da disposição das palavras. Só por isso. Não há métrica e os intelectuais de meia tigela fazem sonetos. Não há ritmo e eles fazem versos sem métrica, versos sem estilo, sem escola, versos sem essência poética, versos que crítico nenhum do mundo saberá classificá-los.”
“Aí o cidadão se aborrece com os diretores dos Jornais. – Como é que se publica uma porcaria dessas? Mas o cidadão ignora que os diretores não são culpados...”
“Pobre Sergipe! Estás sendo invadido indecorosamente no que tens de mais valioso perante a brasilidade: na tua reputação de fornecedor de valores reais, de valores positivos. Mas reagiremos, acolheremos com carinho apenas os que tenham aptidão para as letras.”
“Os outros, porém, os fúteis, os vaidosos, os que ostentam ser o que não são, a esses, Sergipe, a nossa pena, como um ferro em brasa, saberá cauterizar a chaga que fizeram nascer em ti.”
“Haveremos de por fora do combate, Sergipe, os detratores do seu bom nome, esses famintos de glória imerecida, esses bisonhos intelectuais que enxovalham a sua literatura.”
“O poeta é como o príncipe das nuvens/ que ronda a tempestade e zomba dos arqueiros/ exilado no chão, em meio às vaias/ suas asas de gigante o impedem de caminhar.” – Baudelaire.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
O CAMINHO DA EDUCAÇÃO
O caminho da Educação. (por Antonio Samarone)
O Beco Novo não tinha livros. Em minha casa, não existia nem a bíblia. Nada. Eu desconhecia a sua existência. Fui apresentado a esse artefato cultural, tardiamente, na biblioteca da igreja, num grande salão, onde hoje funciona a secretaria da Paróquia de Santo Antônio e Almas.
Para não cometer injustiça, o filho de Seu Bebé, Benjamim, era o único menino do Beco Novo que lia, cultuava os livros.
Tenho lembranças do ABC, da tabuada e da Cartilha do Povo, de Lourenço Filho. Lembranças dos folhetos de cordel, do meu avô, onde aprendi a ler em carreirinha, sem soletrar. Lia direto. Lia cantando, como se faz com os cordéis.
Mamãe foi professora nas Flechas, sem nunca ter concluído o primário. Sempre cuidou da educação dos filhos. Como as escolas só aceitavam meninos a partir dos sete anos, mamãe contratou uma professora (Marcinha), para me alfabetizar. Já entrei na escola sabendo ler.
Ela tinha consciência da importância da educação. Dizia com firmeza: “você deve a mim a sua formatura.” Papai queria me levar para a roça, para ajudá-lo. Não só botou na escola, como fiscalizava a frequência e o desempenho.
No primário rodei tudo que era escola. Aquelas turmas com todas as series.
A palmatória era o principal recurso pedagógico. Algumas professoras batiam compulsivamente. Castigos cruéis e humilhantes eram aplicados por qualquer besteira.
A escola primária era violenta.
O sofrimento perdurou até o Educandário Cônego Vicente de Jesus (Colégio do Padre), ofertar vagas gratuitas para os filhos dos circulistas. A igreja católica fundou o Círculo Operário, em 1935, coordenado pelo padre João Moreira Lima, para se contrapor a influência do Centro Operário, uma organização ligada aos comunistas.
Filiaram papai no Círculo Operário, mesmo ele sendo um “sem-terra”, arrendatário, pataqueiro e plantador de algodão.
Estudei em numa escola dos ricos, por conta do Círculo Operário. Eu adorava a escola do padre: não batia e ainda tinha merenda escolar. Uns caldeirões com achocolatados. já existia o Toddy, mas eu desconhecia. Conheci chocolate na merenda escolar.
O resto (ginásio e científico), foi no Colégio Estadual Murilo Braga.
No exame de admissão, o professor Gabriel ficou encantado com o meu desembaraço com a leitura. Fui aprovado com louvor.
Sem querer me gabar, não fui um bom aluno, estudioso. Só despertei no científico, quando descobri só existia o caminho educação, para me tirar do buraco social.
O Murilo Braga foi uma escola de cidadania. A farda tornava todos iguais, pelo menos no colégio. O tratamento da diretora, Maria Pereira, era igualitário. Não tinha protegidos. Ali, o critério era a inteligência e o esforço de cada um.
Estudei para ser mais sabido que os outros, por pura competição. Na verdade, o sonho era jogar futebol.
Enfrentei o vestibular sem preparação prévia (pré-vestibular). Estudando à noite e trabalhando pelo dia. Fazer vestibular de quê? Qual era a minha vocação? Não fazia a menor ideia. Mamãe me queria padre. Foi um erro meu, hoje seria um Cônego.
Pensei em medicina pela disputa, eram muitos os candidatos. Fiquei inseguro. fui orientado a entrar primeiro em odontologia, para depois, mais experiente, fazer o vestibular de medicina. Os dois primeiros anos o currículo era o mesmo.
A minha chegada no Beco Novo, de cabeça raspada, foi uma apoteose. Todos os iguais se sentiram comtemplados. “O filho de Elpídio das redes, analfabeto de pai e mãe, vai ser doutor,” disse em voz alta Tonho de Sinhá. Houve comemoração na bodega de Armelindo. Zezito de Dona Bilô, pagou uma rodada de milone.
Depois eu continuo essa prosa.
Antonio Samarone.
domingo, 18 de outubro de 2026
O HOSPITAL DA UNIMED EM SERGIPE
(por Antonio Samarone)
Na velhice, além das mazelas naturais do corpo, a maioria ainda sofre com uma assistência médica insuficiente ou inadequado. Muitas vezes, essa falta, supera os sofrimentos da própria doença. Muitos ainda morrem desassistidos.
No Brasil, o acesso dos pobres a assistência médica foi penoso e demorado. Era obra da caridade das Santas Casas de Misericórdia.
Criou-se a medicina previdenciária, na década de 1930. A maioria, que não possuía emprego formal, carteira assinada, era considerada N/C (não Contribuinte), na linguagem usual dos serviços de saúde, eram indigentes.
O acesso universal aos serviços de saúde só se tornou direito, com a Constituição de 1988.
Com o envelhecimento da população, a necessidade de acesso aos serviços de saúde se tornou prioridade. Esse acesso, muitas vezes, torna-se mais um sofrimento, sobretudo para os idosos, onde as necessidades são intensas. São famosas as filas do SUS, a demora para se realizar os procedimentos, mesmos os mais urgentes.
Nos últimos anos, a medicina desenvolveu tecnologias eficazes, sobretudo nos atendimentos de urgência. Os infartos, AVC, neoplasias, antes, eram sentenças de morte. Hoje, eu acabo de sofrer 5 crises de angina (pré infarto) e, por enquanto, estou aqui contando histórias.
A Saúde é um bem super desejado, quase uma unanimidade. Desconheço os que preferem as doenças. Mesmo os hipocondríacos, sofrem para curar as doenças imaginadas.
A saúde como direito foi uma novidade inglesa, do final da Segunda Guerra. Depois da vitória eleitoral do Partido Trabalhista, em 1945, foi criado o National Health Service (NHS), o famoso Serviço de Saúde Inglês, com atendimento universal gratuito.
A Declaração Universal dos Direitos humanos, de 1948, afirmou em seu artigo 25: “o direito a um padrão de vida adequado à saúde e ao bem-estar, incluindo assistência médica e serviços sociais.”
A realidade restringiu esse direito abrangente a saúde, ao direito de acesso aos serviços de saúde (assistência médica). Na Constituição de 1988, o Brasil incorporou tardiamente esse direito à carta magna e estabeleceu como responsabilidade do Estado. A questão é quanto custa e quem paga essa conta.
Foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS), com a responsabilidade de prover uma atenção médica universal e gratuita. Se fez muito, mas ainda longe das necessidades.
O sub financiamento SUS e a sua gestão atrelada a politicagem, nunca foram equacionadas. Sergipe fornece uma evidência indiscutível: nos últimos 40 anos, o secretário estadual de saúde, seja ele bom político ou não, tornou-se o deputado federal mais votado.
O mercado percebeu que o desejo à saúde domina o pensamento social, e os serviços públicos são insuficientes. Montou-se uma sofisticada rede privada, financiada pelo capital financeiro, para oferecer esses serviços privadamente.
A saúde tornou-se uma mercadoria muito desejada. “Saúde não tem preço”, diz o inconsciente coletivo. Os serviços de saúde no Brasil seguiram duas vertentes: direito (SUS) e a rede privada.
A rede de hospitais e clinicas privadas consideram os que não possuem planos privados ou seguros de Saúde, como SUS/dependentes. Vistos por eles, como os antigos N/C - não contribuintes.
O mercado oferece procedimentos variados, dependendo da capacidade de compra do consumidor. Exames, serviços hospitalares e tecnologias variadas, de acordo com a renda de cada um.
Os planos e seguros cobrem seletivamente. Se considera bom, os serviços que ofertam procedimentos mais sofisticados. A qualidade não leva em conta os critérios epidemiológicos. Ter acesso aos profissionais famosos e aos hospitais de ponta de São Paulo, é o top dessa linha.
A classe média abomina ser SUS/dependente. Mesmo sindicalistas e gente de esquerda. A defesa do SUS fica nos discursos. Se a renda não permitir o Seguro Bradesco Saúde Premium (R$ 12.500,00), o cristão se vira com planos mais modestos.
Na condição de defensor do SUS e de esquerdista inveterado, optei pelo Plano da UNIMED. Uma cooperativa de médicos. Em Sergipe, depois que a UNIMED rompeu os contratos com os hospitais privados de ponta, foi um desespero dos beneficiários.
A guerra comercial atacou a qualidade dos serviços do hospital da UNIMED. Na impossibilidade de acesso aos planos da burguesia, muitos migraram para a GEAP.
Eu meu primeiro piripaque grave, bati as portas da urgência da UNIMED. Cheio de receios, pelo que ouvia, encontrei profissionais preparados e atenciosos. Toda a equipe. Um atendimento nota 10.
Precisei realizar um procedimento de alta tecnologia. Por coincidência, fiquei no apto 313.
Tudo muito organizado. A enfermagem qualificada e acolhedoras. Técnicas em enfermagem competentes e atenciosas. Nutricionistas vigilantes, personalizando as dietas. Cozinha profissional. Equipes acolhedoras.
O Hospital da UNIMED possui equipes médicas capacitadas e profissionais experientes, instalações adequadas e equipamentos modernos. Uma bela surpresa.
Agradeço a todos os trabalhadores do Hospital da UNIMED, pelo acolhimento e, em especial, ao dr. Aelson Fonseca Costa, renomado cardiologista, onde ciência, arte e empatia pelos pacientes, se fundem num grande médico.
Em resumo: a UNIMED montou um hospital humanizado!
Antonio Samarone – médico sanitarista.
domingo, 11 de outubro de 2026
VIDA DE GADO
(por Antonio Samarone)
“Na boiada já fui boi/ Mas um dia me montei.../ Porque gado a gente marca/ Tange, fere, engorda e mata/ Mas com gente é diferente...” – Vandré.
A tradição de se comer carne em Itabaiana, vem de longe, dos primeiros momentos da colonização. Acredita-se que só a carne sustenta. O litoral plantou cana, o sertão criou gado. Os poucos engenhos de Itabaiana, ficavam nas fronteiras com o vale da Cotinguiba.
O gado chegou a Itabaiana, antes da ocupação de Sergipe, por Cristóvão de Barros (1590). Em Itabaiana, Simão Dias Francês, por conta da invasão holandesa, tangeu o seu gado, de Itabaiana para as matas do Riacho Caiçá (atual Simão Dias), em 1637.
Depois das frustradas minas de prata de Belchior Dias Moreia, que não encontraram, e da extração de todo o pau brasil, os colonos implantaram o pastoreio. Centenas de currais, para a criação de bovinos. foram instalados. O curral é uma forma primitiva das atuais fazendas.
Economicamente, o boi movia as moendas dos engenhos, fornecia o couro, usado para embalar os rolos de fumo. O gado é uma mercadoria que anda, vai aos mercados com os próprios pés. Os curraleiros de Itabaiana abasteciam o recôncavo Baiano.
O velho Ascendino de Genoveva, agregado do engenho Matebe, criou coragem, se tornou rendeiro e montou um curral de gado, no Saco do Ribeiro. Seu pasto era aberto, sem cercas, criava na Solta.
O branco livre, pobre, podia arriscar-se na criação de gado. Se melhorassem de vida, botavam um vaqueiro, geralmente trabalhando de meia.
Ter um pasto cercado, de pedras ou varas, era um sinal de riqueza. O Brasil só começou a produzir arame farpado, em 1940, pelo Belga Mineira. Antes, o arame era importado.
A aristocracia rural vivia da caça aos índios, pastoreio, agricultura (cana, fumo e mandioca) e da mineração. Ascendino não era um fidalgo capitalista, não herdou sesmaria. O seu pequeno curral, em terras arrendadas, nunca passou 20 reses. Era um curral de sobrevivência.
Ascendino de Genoveva vestia couro. Era um homem rude, quase um Tapuia. A sua alimentação era carne de boi, assada num moquém de vara (trempe), com farinha de mandioca, rapadura, queijo de coalho e milho. O mel, quando encontrado no oco do pau, era uma iguaria.
Essa mesma carne assada, ainda é encontrada em Itabaiana, em João de Neco e Domício, restaurantes que resistiram ao churrasco gaúcho. Eles servem carne assada. Se até hoje você nunca percebeu a diferença, eu nada posso fazer.
O tataravô de Ascendino, participou da revolta dos curraleiros, na primeira metade do século XVII (1655), quando ocuparam São Cristóvão. O local onde acamparam chama-se até hoje “Alto de Itabaiana”. Essa revolta, foi a primeira no Brasil, onde colonos brancos rebelaram-se contra a Coroa portuguesa.
Nesses currais primitivos, o gado crescia e se multiplicava sem maiores cuidados. Meu velho pai, analfabeto, pobre, mascate de redes de dormir, me deu um conselho, que eu não seguir. – “quando se formar, junte dinheiro e compre uma fazenda. Segure no rabo do boi que ele lhe puxa.” Não obedeci, virei funcionário público.
Com a chegada do algodão, Ascendino foi proibido de criar gado solto, precisava cercar o curral. Nada feito. Ascendino vendeu o pouco gado que possuía. Voltou para as Candeias, fronteira com o antigo engenho Matebe, e foi viver de um pequeno sítio e da pataca. Casou-se com Georgina, filha de uma negra liberta, por foça da lei do ventre (1871).
Ascendino, descendente da Galícia, branco de olhos azuis; e Gina descendente da Senzala, negra, filha de escravizados. São as minhas raízes.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
sábado, 10 de outubro de 2026
O FUTURO REPETE O PASSADO
(por Antonio Samarone)
No Brasil, a extrema direita chegou ao poder pelo voto. O projeto abre mão da soberania, da democracia e dos direitos sociais. Será feito o que for preciso. Sem limites. Essa realidade assustou a quem sonha ou sonhou com o Brasil, como grande Nação.
A derrota de Lula, no segundo turno, será a última pá de cal.
Os da minha geração que perceberam o abismo, ficaram assustados e querem reagir, mas não sabem como. Fazer o que? Vamos para as ruas! Gritou um “antigo progressista” (esse vocábulo ainda existe?). Um mais cético, retrucou: fazer o que nas ruas? Outro, mais jovem, acha que a saída é começar uma guerra, pelas redes sociais.
Quando tudo parecia perdido, sem jeito, uma força solar se acordou, encheu as ruas e afirma sem medo: não queremos retrocessos. Vamos virar!
Quem são?
“Quero falar de uma coisa/ Advinha onde ela anda/ Deve estar dentro do peito/ Ou caminha pelo ar... A folha da juventude/ É o nome certo desse amor.” – Milton Nascimento.
Gente, os jovens acordaram. Eles são o sal da terra. Como ensina a canção: “Se você achar que estamos derrotados, saibam que os dados, ainda estão rolando. O tempo não para.”
Na última manifestação dos estudantes da UFS, fui abordado por um jovem negro, que me chamou pelo nome e se identificou. – “Eu sou neto de Florival, velho comuna do PCB”, Lembra-se? Como não lembrar, eu conheci Florival na juventude. Ele me emprestou o livro: “El arte”, de J. Posadas.
Posadas, era um trotskista argentino, líder da quarta internacional. Pseudônimo de Homero Rómulo Cristalli Frasnelli, lido nos meios universitários daquele tempo. A principal tese de Posadas era que as civilizações extraterrestes eram todas socialistas.
O negro Florival foi um pedreiro do 18 do Forte, amigo de Manuel Vicente, que lia Trótski. Avistei Florival, pela última vez, ele já velhinho, no velório de Marcelo Déda, no Palácio Olímpio Campos.
Perguntei ao jovem da passeata, neto de Florival, como ele se chamava: - “O meu nome é Leon David. Sabe em homenagem a quem?” Não sabia, não fazia a menor ideia. “Uma homenagem a Lev Davidovich Bronstein (Leon Trótsky).”
O jovem Leon abriu o peito e recitou um antigo verso, dos meus tempos de movimento estudantil: “Vim aqui só para dizer/ Ninguém há de me calar/ Se alguém tem que morrer/ que seja para melhorar.” Eita, a juventude ainda ouve Geraldo Vandré!
Contudo, “Ainda é fecundo o ventre que gerou a besta.” – Brecht.
Antonio Samarone.
terça-feira, 6 de outubro de 2026
A LITERATURA SERGIPANA
(por Antonio Samarone)
Acho o título, literatura de entretenimento, pejorativo e injusto. Toda literatura entretém. O maior nome da literatura brasileira atual, escreve sobre autoajuda. Não estou me valendo do relativismo cultural, onde o gostar do consumidor é critério absoluto. Para todas as artes.
Entretanto, não é fácil classificar, quem ou não, merece o título de escritor, nem quando um texto pode ser considerado literário. Entre a pura literatura e o texto jornalístico a distância é curta, a fronteira é borrada. Sem contar os textos técnicos, os ensaios, causos, panfletos e manifestos.
Cair no senso comum e considerar escritor todo mundo que escreve, torna-se um exagero. Limitar a honraria somente aos que escrevem bem, cria um problema, quem julga? Na falta de um conceito objetivo, sigo a opinião de Paulo Coelho: "escritor é quem vive de escrever, quem tem esse talento como meio de vida."
A tese do bruxo é simples: se o indivíduo vive de escrever é porque tem leitores que compram a sua obra. As editoras se interessam na venda e na distribuição. A literatura tem as suas instituições: editoras, livrarias, bibliotecas, círculos de leituras, sebos, feiras de livros e bienais.
A crítica internacional vê a literatura brasileira com desatenção. Nunca houve um Nobel, apesar dos louvores ocasionais a Machado de Assis e Guimaraes Rosa. Se a atenção se volta para Sergipe, a desgraça é maior. Por aqui, nem o Cordel consegue destaque nacional.
As dificuldades literárias em Sergipe não são por falta de incentivos. Existe uma Academia de Letras em cada esquina. Nem por falta de bons escritores. As livrarias estão apinhadas de livros de autores sergipanos.
Várias corporações, Rotary, Maçonaria, Oratórios, Clubes de Tiro, Profissionais liberais, etc. possuem sociedades literárias. É inegável o prestigio da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, hoje presidida por Lúcio Prado Dias, médico sergipano. Um mecenas abnegado.
A Academia Sergipana de Medicina e a Sociedade de Médicos Escritores não medem esforços em incentivar a produção literária entre os médicos. Publicam anualmente ontologias de médicos. Realizam eventos.
Hoje, 06/10, as 19 horas, estão organizando um lauto banquete para os sócios, onde o talentoso José Marcondes de Jesus (membro da “Sleep Research Society”), vai realizar uma conferência sobre Medicina & Literatura. O convescote é aberto aos leigos convidados e aos amigos dos sócios.
Se incluirmos os que escrevem para as plataformas digitais, a militância literária em Sergipe é expressiva. Não faltam bons cronistas. Sinto uma certa escassez da poesia, mesmo com tantos poetas. Parece haver uma timidez poética. Nem todo mundo tem coragem em publicar poesias. O medo do ridículo esconde talentos. O principal da obra de Fernando Pessoa, só foi publicada após a sua morte.
O que falta mesmo em Sergipe são críticos literários. Quem é besta, ficar arrumando inimigos. As poucas resenhas do muito publicado são louvações. Se elogia sempre, esperando-se a justa contrapartida.
Antônio Samarone. Membro de várias academias e aceitando novos convites.
domingo, 4 de outubro de 2026
FOI O SÉTIMO DIA
(Antônio Samarone)
A missa de sete, do dr. Átalo, foi encomendada para as sete da manhã, de 04 de outubro, na igreja do Salesiano, no antigo morro da Tebaida. Uma igreja colorida, alegre e bem iluminada. Não me lembrava mais, dos encantos da Capela de Dom Bosco, em Aracaju.
O 04 de outubro é o dia de São Francisco e o dia do descobrimento de Sergipe. (04/10/1501).
Celebrar missa pelo defunto, no sétimo dia após a sua morte, é uma tradição mundial dos católicos. Mesmo que coincida com as eleições. Na cosmogonia bíblica, Deus descansou no sétimo dia da criação. Os mortais, terão o descanso eterno.
A tradição abriu uma chance de ainda se pedir misericórdia para o defunto. Ponderar, lembrar as boas ações. Geralmente, se tem boa vontade com os mortos.
A missa de sete ainda permite um último encontro entre amigos e familiares, com quem passou para uma melhor. Prevenindo aos apressados, Átalo não acreditava que a consciência fosse um produto do cérebro, um fenômeno físico/químico, como teoriza uma certa neurociência. Nem por isso era um amante do obscurantismo. Só não acreditava que a consciência fosse um subproduto celular.
O cérebro é um receptor da consciência, defendia ele. Não se trata de negar a ciência, mas de se prescrutar novos paradigmas. A consciência é uma propriedade da matéria, não desaparece com a morte do corpo, aponta a física quântica. Não sei o destino post-mortem: Paraiso ou inferno, dependendo do juízo final.
Claro, estou simplificando, para caber nas redes sociais. A consciência sobrevive ao corpo. Ainda não se sabe se ela permanece individualizada (cada um, continua com a sua) ou se ela é dissolvida na energia cósmica, como proclamam algumas filosofias orientais.
Durante a missa, senti uma fresca forte e amena (zéfiro), que monopolizou a minha atenção. Uma fresca contemplativa, prazerosa e que anunciou sem arrodeio: “Estou aqui!” Quem, indaguei? - “A consciência que ocupou o corpo do seu amigo. Estou em transição.” Tentei puxar conversa, saber algumas coisas, algum segredo. Nada. Sem sucesso.
A fresca metafísica não é o vento em movimento, movido por um ventilador cósmico. A fresca pode se apresentar como um fenômeno que refresca a alma e eriça os pelos. Essa fresca é personalizada, cada um sente do seu jeito. Outros, nem a percebem.
A última vez que foi visitado pela fresca metafisica, foi a mais de 60 anos. A fresca para o corpo, qualquer ventilador resolve. Não é dessa que estou falando.
]
Coitada da IA, pensa que fresca é exclusivamente o feminino de fresco, uma pessoa afetada, cheia de melindres. Não vai ser fácil explicar a IA, a fresca que senti na igreja do Salesiano. A IA pensa cartesianamente, dentro de um sistema binário.
Só a inteligência humana, analógica, criativa, aberta aos erros, as suposições, aos enganos e as fantasias, podem sentir a fresca metafísica (zéfiro). Só a inteligência humana pode sentir, um fenômeno inexistente. A IA quer provas, evidências.
Na mitologia grega, essa fresca metafisica (zéfiro), amena, convive sem medos, desassombrada, com outras divindades do vento, como ventanias, vendavais, redemoinhos, ciclones, tornados e tufões.
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Suspeito que já foi a influência de Átalo, no Olimpo, que liberou zéfiro, hoje pela manhã, na igreja do Salesiano. Uma resposta a missa de sétimo dia.
Antônio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
A FINAL É DOMINGO.
(por Antonio Samarone)
“A cultura é a consciência da civilização” – Norberto Bobbio.
Em Sergipe, não haverá 2º turno. Teremos que decidir o nosso destino, nos próximos 4 anos, no domingo. Lavar as mãos, achar que tanto faz, que é tudo a mesma coisa, se abster, são atitudes coniventes. A indiferença abre as portas para os que parasitam os recursos públicos.
Entre 1982 e 2006, por 24 anos, Sergipe foi governado por três homens (João, Albano e Valadares). Foi a Era João Alves.
Politicamente, existia um projeto de desenvolvimento para o Estado. Concorde-se ou não com os caminhos apontados. Sergipe saía dos pátios dos engenhos. Deixava de ser uma “roça iluminada”, como dizia Joel Silveira.
Nacionalmente, o Partido dos Trabalhadores (PT), chegou ao poder. Em 2002, Lula, um operário nordestino, elege-se Presidente da República. Em 2006, por conta dessa ascensão nacional do PT, Marcelo Déda ganha as eleições em Sergipe. Já são 20 anos no poder.
A Era João chegou ao fim. O novo bloco político prometeu acabar com a mesmice. Esperava-se mudanças. Chegamos onde chegamos. Sergipe retrocedeu.
Hoje patinamos sem projetos. A principal obra do governo é uma nova ponte para a Barra dos Coqueiros. Os investimentos da Petrobrás nas plataformas em águas profundas, passa desapercebida. A crise hídrica não é enfrentada. Pelo contrário, privatizou-se a distribuição, a parte lucrativa. A falta d’água é enfrentada com carros pipas.
Em política, quem escolhe os herdeiros é o povo. Ninguém do PT, foi escolhido para a sucessão de Déda. Talvez, Edvaldo Nogueira, um filho de criação, tenha herdado a prefeitura de Aracaju.
Os herdeiros finais de Déda, são esses jovens, filhos de uma elite predatória, cujo único projeto é a sangria improdutiva do estado, para acumularem patrimônio. Hoje, nenhum deles lembra-se de Déda. O PT continua no palanque, meio constrangido, por conveniências eleitorais.
Privatizaram a máquina pública. São os donos!
Via de regra, são meninos que nunca precisaram estudar, nem trabalhar. Nasceram com a vida resolvida. Talvez essa insensibilidade com os professores seja atávica. Eles não possuem uma boa lembrança da escola.
A política foi um caminho para resolver a vida deles, que nunca se preparam para nada. Talvez por isso, a arrogância, a prepotência e a ilusão que tudo se resolve com dinheiro. Inclusive, a compra dos mandatos. Votos? “Se compra...”
Faz sentido eles acharem que um marchante não pode governar Sergipe. Só eles...
A oposição apresenta um nome, Valmir de Francisquinho, que ralou para chegar onde chegou. Com talento e sensibilidade política, foi crescendo. Governou e impulsionou o desenvolvimento de Itabaiana. Valmir já deu provas de ser um bom gestor. Conhece Sergipe em detalhes, e pede uma chance.
Essa empatia de Valmir com o povo não é mágica, carisma ou acaso. O povo, em seu inconsciente, sente quem está ao seu lado e quem está contra. Sem grandes teorias. O povo reconhece com um sorriso, um abraço apertado e a esperança renovada.
Acho, que o projeto de Valmir é retomar o desenvolvimento de Sergipe.
Um intelectual da UFS, decano em seu departamento, escreveu sobre Valmir, nas redes sociais: “não voto na extrema direita populista, nem em filho de velhos coronéis. Fiquei curioso. Primeiro, direita, populista ou não, propõem reestatizar a DESO, nem é contra à terceirização da saúde. Quanto a filiação, o doutor pensa que Francisquinho, era o centenário líder Chico de Miguel.
Gente, domingo, na final, é essa a disputa: o poder, o dinheiro e a força versus o sonho popular. Romanticamente, eu acredito no povo.
Antonio Samarone – um filho da escola pública.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
A MORTE DE ÁTALO CRISPIM DE SOUZA
(por Antonio Samarone)
A morte de uma das maiores cultura médica de Sergipe, ensejou controvérsias, e reascendeu a pretensão da medicina oficial em intitular-se única. A herdeira da ciência, portanto, a dona da verdade sobre a saúde e a doença, a vida e a morte.
A resistência de um homeopata em manter-se fiel a sua doutrina, foi tratada como inaceitável. Uma intolerância corporativa e ideológica. Claro que ele conhecia a causa bacteriana da erisipela e a eficácia da penicilina; mas conhecia também a capacidade de resistência do organismo.
Átalo era um profundo conhecedor dos agentes infecciosos, das descobertas de Pasteur ao "Príon", proteínas com memória, que se propagam no organismo. Agente bem menores que os vírus e não contém nem DNA, nem RNA, e podem causar doenças. Os príons são partículas proteicas infecciosa. Aprendi essa novidade com ele.
Hoje se sabe que as proteínas possuem memória, coisa que Claude Bernard, que inventou a medicina experimentar e descobriu o “meio interno”, não sabia no século XIX. A bioquímica que estudei na faculdade era a tradicional, onde as químicas orgânica e inorgânica ainda obedeciam às mesmas leis.
Átalo era homeopata por convicção, mas conhecia profundamente as narrativas da chamada medicina científica. O arcabouço de sustentação das ciências do corpo é fundado num físico/química tradicional, do início do século XX. Essa química comparada com a atual é quase uma alquimia.
Átalo diagnosticava a esquizofrenia pelo olfato.
Os novos conhecimentos da física quântica e da química orgânica e suas propriedades emergentes, em decorrência dos sistemas vivos, são ainda curiosidades para alguns médicos. A multiplicidade dos exames bioquímicos, hoje solicitados, ainda obedecem a lógica da revolução cientifica do século XIX. Apenas, tentam substituir a falência da propedêutica dos sentidos.
Os tratados médicos de farmacologia, quando ainda eram lidos, eram divagações hipotéticas, sobre a farmacodinâmica e a farmacocinética das substancias químicas.
A pratica médica atual ainda é centrada no paradigma celular (Virchow – 1849). A ciência já avançou para os paradigmas moleculares e atômicos. E a medicina ficou com as suas antigas certezas. A transição da pratica médica é lenta, pois contrariaria interesses e saberes constituídos. A substituição do paradigma humoral de Hipócrates e Galeno, se arrastou por 500 anos.
O organismo de Átalo foi derrotado por uma doença aguda, a erisipela, onde possivelmente a antibioticoterapia seria eficaz. Entretanto, essa é uma certeza probabilística. As evidencias de eficácia são percentuais estatísticos.
Outras comorbidades: diabetes descontrolada, estado emocional, nível de resistência imunológica reduzido, entre outras, podem ter contribuído para o desenlace. Não estou negando, apenas relativizando as certezas médicas. O método estatístico tem as suas limitações.
Sem ir longe, as dificuldades atuais no tratamento das septicemias e infecções hospitalares são conhecidas. Um outro amigo, faleceu medicado, dentro da UTI, acompanhado por uma equipe médica que dispunha todo o arsenal da indústria farmacêutica, vítima de uma septicemia originária de uma infecção urinária.
Outras práticas médicas são vistas como obscuras e lesivas. O complexo médico industrial não aceita condutas fora do seu protocolo, mesmo comprovadamente benéficas. ]
Com a hegemonia da medicina de mercado, as necessidades milenares de uma prática voltada para os cuidados e o alivio do sofrimento humano perderam importância. A tradicional dualidade ciência/arte, se tornou coisa do passado. A medicina comercial precisa de técnicos, que realizem procedimentos lucrativos, sob o manto de uma ciência adaptada aos interesses.
A medicina é anterior ao Homo sapiens. Os antigos humanos (neandertal, erectus, denisovanos...) já eram bípedes, fabricavam utensílios, enterravam os mortos e cuidavam dos doentes).
Varias medicinas conviveram por milênios, sem exclusões, com usos distintos. Uma medicina única e oniscientes é uma pretensão ideológica. A ciência é o método, não produz verdades acríticas.
A morte de Átalo foi uma grande perda para a humanidade, os gênios são raríssimos. Mas a homeopatia contina respirando.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
sábado, 26 de setembro de 2026
PETRÕNIO GOMES, UM CRONISTA SERGIPANO.
(por Antonio Samarone)
Já passei na vida, por muita coisa trabalhosa. Mas, nada se compara em querer disciplinar o trânsito. Uma missão quixotesca. Fui diretor da SMTT, em Aracaju. Cheio de boas intensões e muita ingenuidade, tentei reduzir a velocidade permitida. Aliás, já estabelecida no Código de Trânsito.
Hoje recebi essa crônica do sergipano Petrônio Gomes, presente de um amigo. Um mimo. Uma joia literária. No mesmo nível das crônicas do capixaba, Rubem Braga. A arte e os talentos são universais.
Vou transcrevê-la:
Devagar e sempre.
O dr. Samarone disse que vai ser assim e pronto. Não adianta possuir carrão fogoso com velocímetro de três dígitos, metido a gato mestre. A fábrica inventou motor valente porque quis, mas em Aracaju tudo fica perto. Se quiser correr, procure outra freguesia.
A galera protestou: “Como é possível sair do emprego ao meio-dia, apanhar um filho em cada colégio, passar em casa e almoçar feijão frio sem lavar o rosto, voltar para o batente em uma hora, dirigindo em passo de tartaruga”.
O superintendente respondeu que ainda está para existir uma tartaruga que consiga se locomover a sessenta quilômetros por hora, uma declaração que não ofende a lógica mais elementar.
Mas as opiniões estão divididas, não entre dias facções, e sim entre meia dúzia delas. Pelas ondas radiofônicas, a população disse o que lhe passou pela cabeça, forçando os apresentadores dos programas a soltar uma risada de vez em quando para esfriar os ânimos.
Quando liguei a televisão para assistir ao jornal vespertino, o repórter olhou para mim e ameaçou: “Você, aí, telefone agora e diga sua opinião”.
Ele achou pouco um dia inteiro com um só assunto e martelar os ouvidos da gente e resolveu continuar a briga de noite. Nem dei bolas e desliguei. Mas deixarei aqui a minha opinião sincera, esperando que a maioria dos leitores desse querido jornal não ligue muito para o que eu vou dizer.
Na verdade, dr. Samarone tem suas razões legitimas para tomar suas providências no sentido de diminuir a velocidade permitida aos veículos. Sendo médico, basta-lhe mostrar ao público as estatísticas sombrias dos acidentes automobilísticos com gente estendida no asfalto e sangue para todo o lado. E, sendo o chefe atual do órgão, cabe-lhe até o direito de mudar o assunto.
Muitos dos ouvintes também falam com razão. Sabem o que está causando toda essa confusão? É que no pacote dos que querem um pouco mais de velocidade, existem os motoristas responsáveis e irresponsáveis. Estes últimos sempre falam nos mesmos motivos que levam os primeiros a protestar, perceberam? Como separar uns dos outros no calor da discussão?
O que é fato é que Aracaju tem carros em demasia. Vejam-se as ruas principais da cidade, de uma ponta a outra, em qualquer hora do dia. Existem carros estacionados de um lado e de outro. As garagens dos prédios não comportam o número dos veículos, pois existe o do dono do apartamento, o dos filhos e, as vezes, de um criado ou vigia.
Uma pessoa ligada a engenharia de tráfego me disse um dia que ninguém poderia dirigir em nossa cidade se todos os automóveis saíssem de uma só vez. Multiplique-se o tamanho em média de cada veículo pelo número dos que existem hoje em Aracaju. Em seguida, dividam o resultado pela extensão das vias públicas. E todo mundo ficará sem sair do lugar, a bordo de um carrão parado.
Tenho pena do dr. Samarone, tenho pena dos pais que almoçam feijão frio e que voltam para o batente sem vontade de rir para o chefe. Já passei por tudo isso, e em um tempo muito mais suave, quando a gente diminuía a marcha do carro para esperar que um cachorro atravessasse a rua. Vocês dirão que esse tempo era bom demais.
Nem tanto. Havia outros problemas que nem quero dizer agora. Só em outras crônicas.
Petrônio Gomes.
Antonio Samarone (Academia Sergipana de Medicina)
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
O INSTITUTO PARREIRAS HORTA.
O Instituto Parreiras Horta. (por Antonio Samarone)
Na Rua Campo do Brito, ao lado do Batistão, funcionava o Instituto Parreiras Horta, o templo da Saúde Pública sergipana. Um prédio de inspiração mourisca, imitando a Fundação Manguinhos, no Rio de Janeiro.
O prédio central do IPH foi abandonado há décadas. Em dezembro de 2015, o governador anunciou a cessão de uso do Prédio, para a Academia Sergipana de Medicina, visando a instalação de um memorial da medicina em Sergipe. Promessa vai, promessa vem, e o histórico prédio público continua em “reformas.”
Qual a origem desse berço da medicina em Sergipe?
No começo do Governo Graccho, em 14 de novembro de 1922, a lei n.º 836, em seu artigo 4º, letra K, autorizou a fundação de um Instituto voltado para a Saúde Pública. Em 23 de julho de 1923, a pedra fundamental foi lançada.
O medico e cientista Paulo de Figueiredo Parreiras Horta, desembarcou em Aracaju, junto com a família, em 20 de junho de 1923, para comandar a instalação de um “Instituto Pasteur”, em Sergipe.
Aqui nascia a medicina científica em Sergipe, impulsionada pelo IPH e pelo Hospital de Cirurgia.
O projeto era construir, ao mesmo tempo, um Instituto Pasteur, voltado para o combate à raiva; um Instituto Vacinogênico, para a produção da vacina anti-varíola e um laboratório de análise clínica, bacteriológica e química; e que também funcionasse como um centro de pesquisas médicas.
Entregou a responsabilidade a um médico (clínico e dermatologista), cientista experiente, diplomado pelo Instituto Pasteur na França, o ilustre Dr. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta.
O Instituto foi construído em tempo recorde de apenas oito meses.
Em 05 de maio de 1924, ocorreu a sua festiva inauguração.
O Governador do Estado, em seu discurso durante a inauguração do Instituto, expressou uma esperança: “Sabemos que nossa Capital é tida como uma das cidades mais infamadas, avultando-se novamente o perigo de algumas febres, dizem, de origem desconhecida pelo próprio Oswaldo Cruz, que as denominou como nossas, capitulando como exclusivamente nossos os germes de que elas se geram. Que febres serão essas, que sob o encanto destas paisagens sorridentes, encontrou o seu foco ou o seu berço?
Essa tarefa o Instituto Parreiras Horta cumpriu com competência. Não somente esclareceu a etiologia dessas febres (identificadas como tifoides), como conseguiu o isolamento dos germes e a fabricação de uma vacina oral, por meio de pequenas modificações de um método do Instituto Pasteur.
Na verdade, as febres do Aracaju eram o pesado tributo pago pela população mais pobre às péssimas condições sanitárias da Capital.
A vacina contra as febres tifoide e paratifoides, que no Brasil foi produzida pela primeira vez em Sergipe, era obtida cultivando-se várias amostras de bacilos tíficos e paratíficos “A” e “B”, em garrafas contendo ágar inclinado. No fim de 24 horas, as culturas eram retiradas da superfície do ágar e emulsionadas em água fisiológica esterilizada. Fazia-se a contagem dos germes, previamente mortos com iodo, no hematímetro de Thoma-Zeiss. A solução era diluída a 2% numa solução decinormal de iodo. Após esse processo, a vacina resultante era distribuída em ampolas de 5, 10 e 20 cm3.
A vacina era empregada via oral, 20 gotas diluídas em água, tomadas em jejum, durante três dias consecutivos. Quanto à eficácia da vacina, hoje sabemos que era quase nula, mas, à época, como houve uma importante redução na incidência das febres, por outros motivos, o sucesso foi atribuído automaticamente à vacinação em massa praticada em Sergipe.
Parreiras Hortas retornou ao Rio de Janeiro, em 08 de dezembro de 1925. O comando do IPH fica em mãos do Dr. João Firmo. Na década de 1940, o IPH passou para o comando do médico itabaianese Theotonilio Mesquita.
Na visão de Augusto Leite: “O Instituto Parreira Horta dilatou os horizontes da clínica, abrindo para Sergipe uma nova e promissora fase. É amparado no homem de laboratório que o clínico de hoje caminha."
"O cirurgião e o médico, volta e meia, lhe vão pedir orientação terapêutica, a confirmação de um prognóstico mal seguro ou a traça de uma doença que é só observação lhes não permite descobrir e autenticar."
O IPH ainda tem o seu nome vinculado a criação da primeira Faculdade de Medicina de Sergipe. Foi em suas instalações, que Silvano Izquierdo Laguna, professor da Escola de Medicina de Salamanca, ministrou a primeira aula de anatomia da Faculdade de Sergipe, em 21 de março de 1961.
Atualmente, esse relevante prédio público aguarda um destino condizente com a sua história, símbolo da introdução medicina cientifica em Sergipe. O histórico prédio do IPH, se arrasta, em uma reforma interminável.
Ontem, no tradicional almoço da SOMESE, o candidato Valmir de Francisquinho, garantiu a conclusão da obra e a imediata liberação do Prédio, para a Academia de Medicina, cumprindo uma promessa de 11 anos.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
A ESQUINA DO SEU FLORIANO.
A Esquina do Seu Floriano. (por Antonio Samarone)
Na década de 1960, em Itabaiana, existia uma bodega em cada esquina. Bodega ou bar. Creio que em decorrência das mudanças econômicas da cidade. De cidade celeiro (agrícola), para polo comercial.
A bodega do Seu Floriano, chamava a atenção. Era uma bodega especializada em charutos. Localizada na esquina das ruas da Pedreira e Macambira, (atuais ruas Marechal Deodoro e Antonio Dutra).
Até o início da década de 1960, o fumo (Nicotina tabacum) era um produto apreciado por muitos, visto como um hábito saudável. Usado como rapé, mascar, fumar (cachimbos, charutos e elegantes cigarros e cigarretes).
Só os granfinos, fumavam charutos Montecristo ou Romeo y Juliueta. Zeca Mesquita, o único nobre de linhagem, em Itabaiana, só andava com ternos de linho branco, engomados, relógio de algibeira, sapato e meia e, em momentos solenes, fumando um charuto importado.
Os menos ricos, mas com pose de rico, fumavam um Suerdieck, produzidos no Recôncavo Baiano. A classe média e os funcionários do Banco do Brasil, se contentavam com um charuto Walkíria, fabricados na próspera Estância.
]
O povo atrevido, se esbaldava nos ‘mata-ratos”. Acho que Durval do Açucar, mesmo rico, traçava um bom mata-rato, pelo prazer das cusparadas. O cuspe dos mata-ratos é denso, pastoso, e contamina com o cheiro forte um raio de 2 Km.
Mamãe, descendente direta dos Tupinambás, mascava capas de fumo e usava um cachimbo de bola de barro e canudo-de-pito. Um vegetal encontrado no sertão baiano. Eu não gostava do cheiro, mas, naquele tempo, menino não apitava.
A bodega de Seu Floriano tinha um bom estoque de charutos.
Não me lembro de granfinos em Itabaiana, fumando cachimbos, a moda inglesa. Desconheço imitadores de Sherlock Holmes em minha infância. Em Aracaju, eu tenho um grande amigo, um aristocrata: Ivan do Cachimbo, que desfilava solene na Atalaia Nova.
O prestigio do fumo declinou, quando um pesquisador inglês, Richard Doll, publicou em 1950, no British Medical Journal, as evidencias que o fumo causava câncer de pulmão. A notícia se espalhou rápido. Fumar virou quase uma estupidez.
Por conta da medicina inglesa, a marinete de Seu Oviedo, que fazia linha para Aracaju, estampou no para-brisa: “É proibido fumar charutos, cachimbo e cigarros de palha”. Os cigarros da Souza-Cruz, ainda eram permitidos. O hábito de fumar foi combatido.
Com a perda de prestigio do fumo, difamado pela medicina inglesa, os consumidores dos charutos diminuíram. Para a minha tristeza a bodega do Seu Floriano, sem clientes, fechou.
Deixe-me explicar. Não fiquei triste pelo fim dos charutos.
A bodega de Seu Floriano não vendia só charutos. Foi lá, que pela primeira vez eu comi “espécia”. Um doce divino, que eu chamei de ambrosia. Talvez influenciado pela ambrosia (doce de leite, com ovos), ou pela mitologia grega, onde ambrosia era um alimento dos deuses no Olimpo.
Eu ainda não tinha lido Homero, mas lembrei-me da ambrosia.
A minha ambrosia é um doce de amendoim, que não é paçoca, popularmente chamado de “espécia” ou “espeça”, composto de amendoim torrado, pisado no pilão; com raspa de rapadura ou açúcar mascavo; canela, cravo-da-índia, noz-moscada e gengibre.
O doce é uma mistura das especiarias da Índia, com a culinária portuguesa. A “espécia” recebeu forte influência árabe.
Hoje, o doce foi muito modificado. Ando a procura da “espécia” com o sabor da primeira, da bodega do Seu Floriano. Já experimentei várias, sem sucesso. Cada doceira, inventa a sua receita.
Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.
domingo, 13 de setembro de 2026
A FOME E O MOUNJARO EM SERGIPE.
(por Antonio Samarone)
Adiberto Souza, advertiu em sua coluna (11/09): a fome devasta Sergipe. Fui a fonte. O IBGE divulgou em sua última pesquisa: 297 mil lares sergipanos vivem com insegurança alimentar. 199 mil em grau leve, 64 mil no moderado e 34 mil em situação grave, ou seja, são 34 mil famílias passando fome.
Segundo o IBGE, fome é a redução quantitativa de alimentos, com episódios de privação.
O jornalista Adiberto alerta, o Governo limitou-se a criar o “prato do povo”, uma sub quentinha com refresco”, uma refeição de segunda a sexta. Bastava a grana que se gasta em meia dúzia de shows, e um planejamento adequado, para um Sergipe sem fome.
Esse deve ser o compromisso de qualquer governo. Aliás, do governo e da sociedade.
Já tinha percebido, em minhas andanças eleitorais, capital e interior, que os sinais de pobreza aparente, tinham crescido em Sergipe. O IBGE aponta um indicador. A fome mostra as suas garras em Sergipe.
Sergipe apresenta uma desigualdade social inaceitável. Os militantes sociais diziam: “uma parte da sociedade não dorme por conta da fome, outra, não dorme com medo dos que tem fome.” Isso é retórica. Quem tem fome, não mete medo. Eles precisam de justiça social.
A desigualdade social se manifesta por outro caminho. Vivemos em Sergipe, a febre do mounjaro. Virou moda. Os médicos estão em festa. Muitos aplicam diretamente em seus consultórios. A indústria farmacêutica, a Eli Lilly, resolveu dividir o bolo.
Atualizando a sentença: “um parte da sociedade passa fome e outra toma mounjaro.”
O mounjaro foi autorizado pela Anvisa em 2023. Entre junho de 2025 e julho de 2026, o mounjaro movimentou 13,5 bilhões em vendas e alcançou e milhões de usuários.
Atualmente, é a droga de maior faturamento no Brasil. Sem contar com o uso de canetas de mounjaro clandestinas, que ninguém controla, nem sabe a dimensão.
O mounjaro sozinho, representa 5% de todo o faturamento do varejo farmacêutico nacional. Um medicamento recente. Onde isso vai parar?
A situação não é mais grave, pelo preço da droga. Na dose de 5 mg, a caixa custa R$ 1.779 reais, o que equivale a R$ 445 reais por caneta/aplicação.
A conversa dominante em qualquer roda de granfinos em Sergipe, versa sobre quem está usando ou não o mounjaro. O uso da caneta emagrecedora é sinal de distinção social. A tirzepatida, o princípio ativo do mounjaro, é o preferido das estrelas.
Eu sei que vai aparecer algum médico, justificando o seu uso medicamentoso. Não estou tratando da clínica médica. O tema é o uso social do mounjaro. A explosão do consumo. Sem especulação: os interessados podem ler a bula. O que a Ely Lilly informa.
Nos EUA, a droga começou a ser comercializada em 2022. Lá eles são mais sofisticados. A tirzepatida é vendida com o nome comercial de mounjaro, para diabetes; e como Zepbound, para obesidade.
A febre de consumo lá é maior: 31 milhões de americanos usam a celebre caneta. 12% dos adultos estão dependentes. Usam e depois se empanturram.
Resumindo para quem não é especialista em Saúde Pública: vimemos uma distopia alimentar. Dois problemas graves de Saúde: fome e obesidade.
Em Sergipe, o IBGE quantificou: 70 mil sergipanos passam fome (o dado do IBGE é por famílias) e outros 70 mil estão mamando mounjaro (o dado é pelo volume de vendas), entupidos de alimentos.
Bastava um acordo. Promover a educação alimentar dos 5% dependentes do mounjaro, e repassar o alimento excedente para os 5% que passam fome.
Não estou simplificando. O uso do mounjaro ficaria limitado aos que possuíssem patologias, onde o uso medicamentoso fosse hipoteticamente indicado.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
RAFAEL DOS PENICOS
Rafael dos Penicos. (por Antonio Samarone)
Rafael Alves de Menezes, um ceboleiro do Pé do Veado, que ainda pequeno, veio morar na localidade Bom Jardim, próximo ao Riacho da Macela Preta.
Durante a construção do Açude da Macela (1955/58), passou uma estrada em seu sítio de Rafael e ele se mudou para a Rua do Futuro, depois da bodega de Nete.
Uma referência importante, Seu Toti do mingau, que vendia bolo na esquina do armazém de Sizino, era genro de Rafael.
Rafael criou a família consertando penico e guarda-chuva, ofícios extintos pelo desenvolvimento. Ninguém mais usa penico e um guarda-chuva custa 8 reais, no comércio de Itabaiana.
Rafael foi casado com Dona Menininha e tiveram 4 filhas: Maria Conceição Lisboa (esposa de Seu Toti), Maria José, Celina e Zefinha.
O seu neto mais conhecido, Zé de Toti, mora na casa que Rafael morou em Aracaju, no Bairro Matadouro. E se esconde num sítio, na Colônia Miranda, em São Cristóvão.
Rafael era um artista popular de grande repertório. Levou o teatro de bonecos para Itabaiana. Fazia todas as vozes dos personagens. Rafael também era ventrículo.
O Beco Novo parava, durante as apresentações de Rafael dos Penicos. Eu sempre estava na plateia. Permaneço encantado com aquela arte. Quando uma neta de Rafael me mostrou um retrato antigo, depois de 60 anos, a minha memória foi taxativa: É ele...
Rafael foi um palhaço engraçadíssimo. Era falador de leilões: “entreguei, tá entregue! Música...”, celebrava casamento caipira. Nos leilões, se o dono quisesse, ele vendia até a mesa.
Rafael chamava a sua arte de presépio, e carregava tudo numa mala. O genro Zé Itabaiana, era quem carregava a mala. Em Itabaiana, teatro de bonecos ou teatro de fantoches era presépio.
Em Pernambuco o teatro de bonecos é mamulengo, babau na Paraíba, João Redondo no Rio Grande do Norte. Em Itabaiana era presépio. Entenderam a origem da palavra presepada.
Quando os tempos apertavam, Rafael virava rezador. Um curandeiro muito solicitado. Quando ia rezar para a dor de dente, ele perguntava ao paciente: se a reza é só para dor, ou queria a queda do dente. Na segunda opção, o dente caia em menos de 8 dias.
Rafael era um orador consagrado, nos comícios de Euclides. Ele chegava a falar durante 2 horas, se fosse necessário. Sempre de terno, para impor respeito. Rafael se intitulava Dr. Rafael, mesmo sendo analfabeto. Só assinava o nome. Para compensar, era de uma inteligência poderosa.
Rafael era muito querido em Itabaiana.
Uma filha de Zé Crispim, botou o nome da filha Rafaela. Na hora do batizado, o Padre deu parabéns, pelo nome: - “que bela homenagem, a Irmã Rafaela”. A mãe retrucou: - “Padre me desculpe, a homenagem é a Rafael dos Penicos”. A igreja caiu no riso.
Rafael, artista, comunicativo, engraçado, se apaixonou pela política. Era cabo eleitoral de Euclides Paes Mendonça. Daqueles apoiadores chatos, ousados e encrenqueiros.
Na eleição de Governador, em 1963, Rafael falava cobras e lagartos sobre o candidato da oposição, Seixas Dórea. Irritou tanto, que os correligionários de Seixas, prometeram, que se ganhassem, iam jogar Rafael numa coivara para ele queimar a língua. E Seixas ganhou.
Em pouco tempo, mataram Euclides Paes Mendonça. Rafael entrou em desespero. Procurou o amigo, padrinho e protetor desembargador Luiz Magalhães, que tinha sido juiz em Itabaiana e tornara-se seu amigo. Magalhaes não o abandonou. Rafael, em menos de 20 dias, se mudou para Aracaju.
Saiu de Itabaiana corrido.
Rafael continuou com as suas presepadas em Aracaju, no bairro Matadouro, onde foi morar. Ia apresentar a sua arte, onde fosse convidado.
Rafael dos Penicos vive, na memória cultural de Itabaiana.
Antonio Samarone. Secretário Itabaianense de Cultura.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
07 DE SETEMBRO & 02 DE JULHO.
07 de setembro X 02 de julho.
(por Antonio Samarone)
As críticas à Independência, ao 7 de setembro, viralizaram nas redes sociais. São artigos bem escritos, engraçadinhos, tentando ridicularizar o “Grito do Ipiranga”.
Aquilo nunca houve, repetem bovinamente. Ignoram as simbologias históricas. A direita letrada, prepara o Brasil, para a perda da soberania.
Como repetia Chateaubriand: “somos caboclos querendo ser ingleses. O ataque ideológico ao Brasil e a sua independência, não é por acaso. Eles preparam-se para “alugar” o Brasil, como ironicamente, cantava Raul Seixas. “O dólar deles vai pagar o nosso mingau”.
Os mesmo que atacam o 07 de setembro, exaltam o 02 de julho: o “Independence Day” deles, é outra coisa, houve uma guerra. O líder foi George Washigton. Eles celebram com desfiles, embandeiram as casas, fazem piqueniques, queimam fogos, e reafirmam o orgulho de serem americanos. Reforçam a crença que são donos do mundo.
O Irmão do Norte, sob o comando de Trump, já decidiu: a América é dos americanos, ou seja, deles.
O crescimento do mundo multipolar assustou o Império. O ataque ao Irã, para controlar o petróleo e favorecer a aventura sionista de Israel, não deu certo. Ao contrário, acabou a hegemonia do petrodólar e desmontou as bases americanas no Golfo Pérsico.
A prioridade passou a ser o domínio do continente americano.
Retomaram o canal de Panamá, sequestraram o presidente da Venezuela e controlaram as suas reservas de petróleo. A invasão a Cuba já foi anunciada. Estão aguardando um vaga na agenda. Até o Canadá tá na lista.
Manipularam as eleições no restante da América latina. O modelo do líder desejado, passou a ser Javier Milei, Espriella, Noboa, Fujimori, Pena, Asfura, Kast, Rodrigo Paz, Laura Fernandes e Bukele.
Só resta o Brasil, membro fundador do BRICS. As eleições estão próximas. Se o resultado não for o esperado por Trump, eles não aceitarão pacificamente. O lançamento da campanha do principal candidato, ligado ao “Make America Great Again” – MAGA, foi em Copacabana, enfeitado com bandeiras dos Estados Unidos.
A ultima tentativa de golpe no Brasil, foi sustada pelo STF.
Entenderam o movimento do Ministro, terrivelmente evangélico, em desmoralizar a suprema corte, há 30 dias das eleições. O terreno para a contestação dos resultados eleitorais está sendo preparado. As urnas não são confiáveis, vem sendo pregado há muito tempo.
Esses ataques as comemorações do 07 de setembro, era tema preferido de Olavo de Carvalho. Muitos argumentos, são repetições do velho guru.
Não é teoria da conspiração. Apenas, geopolítica.
Esse ataque ao Brasil, da direita perfumada, tentando desmontar o 7 de setembro, é parte dessa ação, orquestrada, na aceitação de uma ocupação americana. Não penso em ocupação com tropas. Não! Eles não possuem mais esse poderio militar. E o Brasil é um continente.
Ocupação institucional, econômica, cultural e política. Em síntese, o fim de qualquer pretensão a soberania. Uma ocupação com líderes locais, subordinados aos interesses americanos.
No Brasil, não faltarão as Delcy Rodríguez, militante chavista, presidente da Venezuela. Não tomarei como surpresa, se o próprio PT, pragmaticamente, aceitar essa tarefa.
Antonio Samarone.















