quarta-feira, 28 de outubro de 2026

NEGÓCIO DA CHINA

Negócio da China.
(por Antonio Samarone)

O governo Lula anunciou que agora, os chineses podem entrar no Brasil, sem visto, sem pedir licença, só com a carteira de identidade. O turismo fará a festa. Parece que é uma contrapartida, as portas da China também estão abertas para os brasileiros.

Não existem programam de governos no Brasil, estadual ou municipal, que não inclua o turismo entre as prioridades. Dizem: vamos gerar empregos. Essa conversa em Sergipe, nunca saiu do papel. Turistas por aqui, só os vizinhos da Bahia que não gostam de furdunço. Aproveitam, as festas de lá, para descansar em Sergipe.

Não sei porque, sempre gostei da China. Na verdade, não sabia quase nada sobre a China, mas gostava. Não fazia ideia onde ficava no mapa. Quando se queria dizer que um lugar desconhecido era longe, se simplificava: “fica prá lá da Cochinchina”. A Cochinchina, que não é a China, era vizinha da Caixa Prego.

Na infância, existia uma lavanderia chinesa em Itabaiana. Que lavava a seco e sem sabão. A roupa já saia passada e cheirosa. A gravata saia com o nó dado. Eu nunca entendi, parecia mágica. Mamãe lavava uma trouxa de roupa, numa tábua, na beira do açude velho. Usava sabão de soda, feito em casa. Sempre botava a roupa para quarar.

A lavanderia chinesa durou pouco por lá, menos de 3 meses. Acho que o chinês foi embora, sem clientela. Sei que a notícia dessa lavanderia efêmera, correu solta.

Outra marca chinesa em minha infância, foi o cavaco. De vez em quando passava um menino no Beco Novo, tocando um triangulo e gritando: - Cavaco chinês! Cavaco chinês! Não chegava para o bico de todo o mundo, o cavaco era caro. Só os filhos de Justino, Delina, Orece e seu Evilásio da SUCAM, podiam comprar.

Eu ficava encucado: que traz esses cavacos da China? Para mim, Itabaiana acabava no Rio das Pedras.

Ainda tinha as roupas de seda da China, um luxo, que só as filhas de Adalula, Maria Jose e Inês, desfrutavam. E a porcelana Chinesa? Essa, só nos contos de fada, da literatura de cordel. Se contava em Itabaiana, que Dona Zalmor, possuía uma escarradeira de porcelana chinesa. Eu nunca vi.

Agora, quase tudo é “made in China”. Carros elétricos, motos, drones, TV, computador, colher de pedreiro, escapulários, cocar e penachos indígena, tudo! Como devoto do Padim Ciço, fui comprar uma imagem para o meu oratório, só encontrei imagens dele, produzidas na China.

Quando se fazia um negócio onde só um ganhava, se dizia que foi um negócio da China. O governo Lula acertou, o próprio chinês virou o melhor negócio da China.

Agora, quem vem dançar forró no Cariri, sob a batuta do maestro Tatua, são os chineses. Além do pagode russo, teremos o pagode chinês. Espero que o pessoal do turismo, dessa vez, lave a égua.

Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.
 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

A POESIA EM SERGIPE


 A poesia em Sergipe.

(na visão de Mário Cabral)

“Sergipe é uma terra de muitos poetas e pouca poesia”, dizia Joel Silveira.

Botando lenha na fogueira: ontem, com a insônia da convalescência, sem conseguir pegar no sono, recebi uma mensagem psicografada de Mario Cabral (intelectual sergipano), sobre a poesia em Sergipe. O texto é de 1938.

Quem não sabe quem foi Mário Cabral, poeta e crítico literário sergipano, nascido em 26 de março de 1914, existe uma biografia suculenta, escrita por Ana Medina.

Cumprindo o acertado com Mário, vou transcrever o texto psicografado:
“A culpa não foi do Tobias, também não foi de Sílvio Romero, nem de Hermes Fontes, Fausto Cardoso, Gumercindo Bessa, Cleómenes Campos, João Ribeiro, Passos Cabral, Barreto Filho, Ranulfo Prata, Amando Fontes, Deodato Maia, Gilberto Amado, etc.”

“A culpa foi do povo. O povo que começou com essa besteira. Primeiro disse que Sergipe exportava talentos. Depois afirmou que sergipano burro nasce morto. E tanto disse, e mexericou, e comentou, e mais isso, e mais aquilo, e tal e coisa, que, quando se deu pelo negócio, a desgraça estava feita.”

“Todo sergipano começou a se julgar intelectual, a se julgar inteligente. Ainda estão fedendo a mijo, usando pano de bunda, e já têm ares de poeta, prosas de poeta.”

“Os poemas se multiplicam, invadem tudo, tomam conta de tudo. A culpa não foi de Tobias, nem do pessoal que citei acima.”

“O sergipano viu Sergipe produzir tanta gente de talento, que pensou que isso fosse regra geral, regra sem exceção. Então todo mundo se considerou intelectual.”

“Já li uma vez sobre as dez pragas do Egito. Pior, mil vezes pior, é a praga dos intelectuais de meia tigela. Em verdade vos digo ó literatos de outras terras, que o pseudointelectual é um sujeitinho chato, convencido, vazio de ideias, analfabeto e burro.”

“E a minha querida Aracaju está cheia deles. Vai o cidadão fazendo o seu passeio calmamente, gozando a honestidade da paisagem, quando, de repente, zás! Dá com o nariz com dois intelectuais.”

“Meia volta volver e o cidadão entra em um bar afim de tomar uma cerveja. Na mesa próxima, um poetinha lê um poema para outro poetinha. Então a cerveja começa a amargar na boca do cidadão e ele então dá o fora.”

“Na rua tropeça numa bengala. É a bengala de outro intelectual que discute, exaltado, as vantagens do regime político. O cidadão está descontrolado, está como um navio sem leme.”

“De tarde, o cidadão compra um jornal e lá encontra uma poesia. O cidadão só sabe que é uma poesia por causa da disposição das palavras. Só por isso. Não há métrica e os intelectuais de meia tigela fazem sonetos. Não há ritmo e eles fazem versos sem métrica, versos sem estilo, sem escola, versos sem essência poética, versos que crítico nenhum do mundo saberá classificá-los.”

“Aí o cidadão se aborrece com os diretores dos Jornais. – Como é que se publica uma porcaria dessas? Mas o cidadão ignora que os diretores não são culpados...”

“Pobre Sergipe! Estás sendo invadido indecorosamente no que tens de mais valioso perante a brasilidade: na tua reputação de fornecedor de valores reais, de valores positivos. Mas reagiremos, acolheremos com carinho apenas os que tenham aptidão para as letras.”

“Os outros, porém, os fúteis, os vaidosos, os que ostentam ser o que não são, a esses, Sergipe, a nossa pena, como um ferro em brasa, saberá cauterizar a chaga que fizeram nascer em ti.”

“Haveremos de por fora do combate, Sergipe, os detratores do seu bom nome, esses famintos de glória imerecida, esses bisonhos intelectuais que enxovalham a sua literatura.”

“O poeta é como o príncipe das nuvens/ que ronda a tempestade e zomba dos arqueiros/ exilado no chão, em meio às vaias/ suas asas de gigante o impedem de caminhar.” – Baudelaire.

Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O CAMINHO DA EDUCAÇÃO


 O caminho da Educação.

(por Antonio Samarone)

O Beco Novo não tinha livros. Em minha casa, não existia nem a bíblia. Nada. Eu desconhecia a sua existência. Fui apresentado a esse artefato cultural, tardiamente, na biblioteca da igreja, num grande salão, onde hoje funciona a secretaria da Paróquia de Santo Antônio e Almas.

Para não cometer injustiça, o filho de Seu Bebé, Benjamim, era o único menino do Beco Novo que lia, cultuava os livros.

Tenho lembranças do ABC, da tabuada e da Cartilha do Povo, de Lourenço Filho. Lembranças dos folhetos de cordel, do meu avô, onde aprendi a ler em carreirinha, sem soletrar. Lia direto. Lia cantando, como se faz com os cordéis.

Mamãe foi professora nas Flechas, sem nunca ter concluído o primário. Sempre cuidou da educação dos filhos. Como as escolas só aceitavam meninos a partir dos sete anos, mamãe contratou uma professora (Marcinha), para me alfabetizar. Já entrei na escola sabendo ler.

Ela tinha consciência da importância da educação. Dizia com firmeza: “você deve a mim a sua formatura.” Papai queria me levar para a roça, para ajudá-lo. Não só botou na escola, como fiscalizava a frequência e o desempenho.

No primário rodei tudo que era escola. Aquelas turmas com todas as series.

A palmatória era o principal recurso pedagógico. Algumas professoras batiam compulsivamente. Castigos cruéis e humilhantes eram aplicados por qualquer besteira.

A escola primária era violenta.

O sofrimento perdurou até o Educandário Cônego Vicente de Jesus (Colégio do Padre), ofertar vagas gratuitas para os filhos dos circulistas. A igreja católica fundou o Círculo Operário, em 1935, coordenado pelo padre João Moreira Lima, para se contrapor a influência do Centro Operário, uma organização ligada aos comunistas.

Filiaram papai no Círculo Operário, mesmo ele sendo um “sem-terra”, arrendatário, pataqueiro e plantador de algodão.

Estudei em numa escola dos ricos, por conta do Círculo Operário. Eu adorava a escola do padre: não batia e ainda tinha merenda escolar. Uns caldeirões com achocolatados. já existia o Toddy, mas eu desconhecia. Conheci chocolate na merenda escolar.

O resto (ginásio e científico), foi no Colégio Estadual Murilo Braga.
No exame de admissão, o professor Gabriel ficou encantado com o meu desembaraço com a leitura. Fui aprovado com louvor.

Sem querer me gabar, não fui um bom aluno, estudioso. Só despertei no científico, quando descobri só existia o caminho educação, para me tirar do buraco social.

O Murilo Braga foi uma escola de cidadania. A farda tornava todos iguais, pelo menos no colégio. O tratamento da diretora, Maria Pereira, era igualitário. Não tinha protegidos. Ali, o critério era a inteligência e o esforço de cada um.

Estudei para ser mais sabido que os outros, por pura competição. Na verdade, o sonho era jogar futebol.

Enfrentei o vestibular sem preparação prévia (pré-vestibular). Estudando à noite e trabalhando pelo dia. Fazer vestibular de quê? Qual era a minha vocação? Não fazia a menor ideia. Mamãe me queria padre. Foi um erro meu, hoje seria um Cônego.

Pensei em medicina pela disputa, eram muitos os candidatos. Fiquei inseguro. fui orientado a entrar primeiro em odontologia, para depois, mais experiente, fazer o vestibular de medicina. Os dois primeiros anos o currículo era o mesmo.

A minha chegada no Beco Novo, de cabeça raspada, foi uma apoteose. Todos os iguais se sentiram comtemplados. “O filho de Elpídio das redes, analfabeto de pai e mãe, vai ser doutor,” disse em voz alta Tonho de Sinhá. Houve comemoração na bodega de Armelindo. Zezito de Dona Bilô, pagou uma rodada de milone.

Depois eu continuo essa prosa.

Antonio Samarone.

domingo, 18 de outubro de 2026

O HOSPITAL DA UNIMED EM SERGIPE

O Hospital da UNIMED, em Sergipe.
(por Antonio Samarone)

Na velhice, além das mazelas naturais do corpo, a maioria ainda sofre com uma assistência médica insuficiente ou inadequado. Muitas vezes, essa falta, supera os sofrimentos da própria doença. Muitos ainda morrem desassistidos.

No Brasil, o acesso dos pobres a assistência médica foi penoso e demorado. Era obra da caridade das Santas Casas de Misericórdia.

Criou-se a medicina previdenciária, na década de 1930. A maioria, que não possuía emprego formal, carteira assinada, era considerada N/C (não Contribuinte), na linguagem usual dos serviços de saúde, eram indigentes.

O acesso universal aos serviços de saúde só se tornou direito, com a Constituição de 1988.

Com o envelhecimento da população, a necessidade de acesso aos serviços de saúde se tornou prioridade. Esse acesso, muitas vezes, torna-se mais um sofrimento, sobretudo para os idosos, onde as necessidades são intensas. São famosas as filas do SUS, a demora para se realizar os procedimentos, mesmos os mais urgentes.

Nos últimos anos, a medicina desenvolveu tecnologias eficazes, sobretudo nos atendimentos de urgência. Os infartos, AVC, neoplasias, antes, eram sentenças de morte. Hoje, eu acabo de sofrer 5 crises de angina (pré infarto) e, por enquanto, estou aqui contando histórias.

A Saúde é um bem super desejado, quase uma unanimidade. Desconheço os que preferem as doenças. Mesmo os hipocondríacos, sofrem para curar as doenças imaginadas.

A saúde como direito foi uma novidade inglesa, do final da Segunda Guerra. Depois da vitória eleitoral do Partido Trabalhista, em 1945, foi criado o National Health Service (NHS), o famoso Serviço de Saúde Inglês, com atendimento universal gratuito.

A Declaração Universal dos Direitos humanos, de 1948, afirmou em seu artigo 25: “o direito a um padrão de vida adequado à saúde e ao bem-estar, incluindo assistência médica e serviços sociais.”

A realidade restringiu esse direito abrangente a saúde, ao direito de acesso aos serviços de saúde (assistência médica). Na Constituição de 1988, o Brasil incorporou tardiamente esse direito à carta magna e estabeleceu como responsabilidade do Estado. A questão é quanto custa e quem paga essa conta.

Foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS), com a responsabilidade de prover uma atenção médica universal e gratuita. Se fez muito, mas ainda longe das necessidades.

O sub financiamento SUS e a sua gestão atrelada a politicagem, nunca foram equacionadas. Sergipe fornece uma evidência indiscutível: nos últimos 40 anos, o secretário estadual de saúde, seja ele bom político ou não, tornou-se o deputado federal mais votado.

O mercado percebeu que o desejo à saúde domina o pensamento social, e os serviços públicos são insuficientes. Montou-se uma sofisticada rede privada, financiada pelo capital financeiro, para oferecer esses serviços privadamente.

A saúde tornou-se uma mercadoria muito desejada. “Saúde não tem preço”, diz o inconsciente coletivo. Os serviços de saúde no Brasil seguiram duas vertentes: direito (SUS) e a rede privada.

A rede de hospitais e clinicas privadas consideram os que não possuem planos privados ou seguros de Saúde, como SUS/dependentes. Vistos por eles, como os antigos N/C - não contribuintes.

O mercado oferece procedimentos variados, dependendo da capacidade de compra do consumidor. Exames, serviços hospitalares e tecnologias variadas, de acordo com a renda de cada um.

Os planos e seguros cobrem seletivamente. Se considera bom, os serviços que ofertam procedimentos mais sofisticados. A qualidade não leva em conta os critérios epidemiológicos. Ter acesso aos profissionais famosos e aos hospitais de ponta de São Paulo, é o top dessa linha.

A classe média abomina ser SUS/dependente. Mesmo sindicalistas e gente de esquerda. A defesa do SUS fica nos discursos. Se a renda não permitir o Seguro Bradesco Saúde Premium (R$ 12.500,00), o cristão se vira com planos mais modestos.

Na condição de defensor do SUS e de esquerdista inveterado, optei pelo Plano da UNIMED. Uma cooperativa de médicos. Em Sergipe, depois que a UNIMED rompeu os contratos com os hospitais privados de ponta, foi um desespero dos beneficiários.

A guerra comercial atacou a qualidade dos serviços do hospital da UNIMED. Na impossibilidade de acesso aos planos da burguesia, muitos migraram para a GEAP.

Eu meu primeiro piripaque grave, bati as portas da urgência da UNIMED. Cheio de receios, pelo que ouvia, encontrei profissionais preparados e atenciosos. Toda a equipe. Um atendimento nota 10.

Precisei realizar um procedimento de alta tecnologia. Por coincidência, fiquei no apto 313.

Tudo muito organizado. A enfermagem qualificada e acolhedoras. Técnicas em enfermagem competentes e atenciosas. Nutricionistas vigilantes, personalizando as dietas. Cozinha profissional. Equipes acolhedoras.

O Hospital da UNIMED possui equipes médicas capacitadas e profissionais experientes, instalações adequadas e equipamentos modernos. Uma bela surpresa.

Agradeço a todos os trabalhadores do Hospital da UNIMED, pelo acolhimento e, em especial, ao dr. Aelson Fonseca Costa, renomado cardiologista, onde ciência, arte e empatia pelos pacientes, se fundem num grande médico.

Em resumo: a UNIMED montou um hospital humanizado!

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

domingo, 11 de outubro de 2026

VIDA DE GADO

Vida de Gado
(por Antonio Samarone)

“Na boiada já fui boi/ Mas um dia me montei.../ Porque gado a gente marca/ Tange, fere, engorda e mata/ Mas com gente é diferente...” – Vandré.

A tradição de se comer carne em Itabaiana, vem de longe, dos primeiros momentos da colonização. Acredita-se que só a carne sustenta. O litoral plantou cana, o sertão criou gado. Os poucos engenhos de Itabaiana, ficavam nas fronteiras com o vale da Cotinguiba.

O gado chegou a Itabaiana, antes da ocupação de Sergipe, por Cristóvão de Barros (1590). Em Itabaiana, Simão Dias Francês, por conta da invasão holandesa, tangeu o seu gado, de Itabaiana para as matas do Riacho Caiçá (atual Simão Dias), em 1637.

Depois das frustradas minas de prata de Belchior Dias Moreia, que não encontraram, e da extração de todo o pau brasil, os colonos implantaram o pastoreio. Centenas de currais, para a criação de bovinos. foram instalados. O curral é uma forma primitiva das atuais fazendas.

Economicamente, o boi movia as moendas dos engenhos, fornecia o couro, usado para embalar os rolos de fumo. O gado é uma mercadoria que anda, vai aos mercados com os próprios pés. Os curraleiros de Itabaiana abasteciam o recôncavo Baiano.

O velho Ascendino de Genoveva, agregado do engenho Matebe, criou coragem, se tornou rendeiro e montou um curral de gado, no Saco do Ribeiro. Seu pasto era aberto, sem cercas, criava na Solta.

O branco livre, pobre, podia arriscar-se na criação de gado. Se melhorassem de vida, botavam um vaqueiro, geralmente trabalhando de meia.

Ter um pasto cercado, de pedras ou varas, era um sinal de riqueza. O Brasil só começou a produzir arame farpado, em 1940, pelo Belga Mineira. Antes, o arame era importado.

A aristocracia rural vivia da caça aos índios, pastoreio, agricultura (cana, fumo e mandioca) e da mineração. Ascendino não era um fidalgo capitalista, não herdou sesmaria. O seu pequeno curral, em terras arrendadas, nunca passou 20 reses. Era um curral de sobrevivência.

Ascendino de Genoveva vestia couro. Era um homem rude, quase um Tapuia. A sua alimentação era carne de boi, assada num moquém de vara (trempe), com farinha de mandioca, rapadura, queijo de coalho e milho. O mel, quando encontrado no oco do pau, era uma iguaria.

Essa mesma carne assada, ainda é encontrada em Itabaiana, em João de Neco e Domício, restaurantes que resistiram ao churrasco gaúcho. Eles servem carne assada. Se até hoje você nunca percebeu a diferença, eu nada posso fazer.

O tataravô de Ascendino, participou da revolta dos curraleiros, na primeira metade do século XVII (1655), quando ocuparam São Cristóvão. O local onde acamparam chama-se até hoje “Alto de Itabaiana”. Essa revolta, foi a primeira no Brasil, onde colonos brancos rebelaram-se contra a Coroa portuguesa.

Nesses currais primitivos, o gado crescia e se multiplicava sem maiores cuidados. Meu velho pai, analfabeto, pobre, mascate de redes de dormir, me deu um conselho, que eu não seguir. – “quando se formar, junte dinheiro e compre uma fazenda. Segure no rabo do boi que ele lhe puxa.” Não obedeci, virei funcionário público.

Com a chegada do algodão, Ascendino foi proibido de criar gado solto, precisava cercar o curral. Nada feito. Ascendino vendeu o pouco gado que possuía. Voltou para as Candeias, fronteira com o antigo engenho Matebe, e foi viver de um pequeno sítio e da pataca. Casou-se com Georgina, filha de uma negra liberta, por foça da lei do ventre (1871).

Ascendino, descendente da Galícia, branco de olhos azuis; e Gina descendente da Senzala, negra, filha de escravizados. São as minhas raízes.

Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
 

sábado, 10 de outubro de 2026

O FUTURO REPETE O PASSADO

O futuro repete o passado.
(por Antonio Samarone)

No Brasil, a extrema direita chegou ao poder pelo voto. O projeto abre mão da soberania, da democracia e dos direitos sociais. Será feito o que for preciso. Sem limites. Essa realidade assustou a quem sonha ou sonhou com o Brasil, como grande Nação.

A derrota de Lula, no segundo turno, será a última pá de cal.

Os da minha geração que perceberam o abismo, ficaram assustados e querem reagir, mas não sabem como. Fazer o que? Vamos para as ruas! Gritou um “antigo progressista” (esse vocábulo ainda existe?). Um mais cético, retrucou: fazer o que nas ruas? Outro, mais jovem, acha que a saída é começar uma guerra, pelas redes sociais.

Quando tudo parecia perdido, sem jeito, uma força solar se acordou, encheu as ruas e afirma sem medo: não queremos retrocessos. Vamos virar!

Quem são?

“Quero falar de uma coisa/ Advinha onde ela anda/ Deve estar dentro do peito/ Ou caminha pelo ar... A folha da juventude/ É o nome certo desse amor.” – Milton Nascimento.

Gente, os jovens acordaram. Eles são o sal da terra. Como ensina a canção: “Se você achar que estamos derrotados, saibam que os dados, ainda estão rolando. O tempo não para.”

Na última manifestação dos estudantes da UFS, fui abordado por um jovem negro, que me chamou pelo nome e se identificou. – “Eu sou neto de Florival, velho comuna do PCB”, Lembra-se? Como não lembrar, eu conheci Florival na juventude. Ele me emprestou o livro: “El arte”, de J. Posadas.

Posadas, era um trotskista argentino, líder da quarta internacional. Pseudônimo de Homero Rómulo Cristalli Frasnelli, lido nos meios universitários daquele tempo. A principal tese de Posadas era que as civilizações extraterrestes eram todas socialistas.

O negro Florival foi um pedreiro do 18 do Forte, amigo de Manuel Vicente, que lia Trótski. Avistei Florival, pela última vez, ele já velhinho, no velório de Marcelo Déda, no Palácio Olímpio Campos.

Perguntei ao jovem da passeata, neto de Florival, como ele se chamava: - “O meu nome é Leon David. Sabe em homenagem a quem?” Não sabia, não fazia a menor ideia. “Uma homenagem a Lev Davidovich Bronstein (Leon Trótsky).”

O jovem Leon abriu o peito e recitou um antigo verso, dos meus tempos de movimento estudantil: “Vim aqui só para dizer/ Ninguém há de me calar/ Se alguém tem que morrer/ que seja para melhorar.” Eita, a juventude ainda ouve Geraldo Vandré!

Contudo, “Ainda é fecundo o ventre que gerou a besta.” – Brecht.

Antonio Samarone.
 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A LITERATURA SERGIPANA

A literatura Sergipana.
(por Antonio Samarone)

Acho o título, literatura de entretenimento, pejorativo e injusto. Toda literatura entretém. O maior nome da literatura brasileira atual, escreve sobre autoajuda. Não estou me valendo do relativismo cultural, onde o gostar do consumidor é critério absoluto. Para todas as artes.

Entretanto, não é fácil classificar, quem ou não, merece o título de escritor, nem quando um texto pode ser considerado literário. Entre a pura literatura e o texto jornalístico a distância é curta, a fronteira é borrada. Sem contar os textos técnicos, os ensaios, causos, panfletos e manifestos.

Cair no senso comum e considerar escritor todo mundo que escreve, torna-se um exagero. Limitar a honraria somente aos que escrevem bem, cria um problema, quem julga? Na falta de um conceito objetivo, sigo a opinião de Paulo Coelho: "escritor é quem vive de escrever, quem tem esse talento como meio de vida."

A tese do bruxo é simples: se o indivíduo vive de escrever é porque tem leitores que compram a sua obra. As editoras se interessam na venda e na distribuição. A literatura tem as suas instituições: editoras, livrarias, bibliotecas, círculos de leituras, sebos, feiras de livros e bienais.

A crítica internacional vê a literatura brasileira com desatenção. Nunca houve um Nobel, apesar dos louvores ocasionais a Machado de Assis e Guimaraes Rosa. Se a atenção se volta para Sergipe, a desgraça é maior. Por aqui, nem o Cordel consegue destaque nacional.

As dificuldades literárias em Sergipe não são por falta de incentivos. Existe uma Academia de Letras em cada esquina. Nem por falta de bons escritores. As livrarias estão apinhadas de livros de autores sergipanos.

Várias corporações, Rotary, Maçonaria, Oratórios, Clubes de Tiro, Profissionais liberais, etc. possuem sociedades literárias. É inegável o prestigio da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, hoje presidida por Lúcio Prado Dias, médico sergipano. Um mecenas abnegado.

A Academia Sergipana de Medicina e a Sociedade de Médicos Escritores não medem esforços em incentivar a produção literária entre os médicos. Publicam anualmente ontologias de médicos. Realizam eventos.

Hoje, 06/10, as 19 horas, estão organizando um lauto banquete para os sócios, onde o talentoso José Marcondes de Jesus (membro da “Sleep Research Society”), vai realizar uma conferência sobre Medicina & Literatura. O convescote é aberto aos leigos convidados e aos amigos dos sócios.

Se incluirmos os que escrevem para as plataformas digitais, a militância literária em Sergipe é expressiva. Não faltam bons cronistas. Sinto uma certa escassez da poesia, mesmo com tantos poetas. Parece haver uma timidez poética. Nem todo mundo tem coragem em publicar poesias. O medo do ridículo esconde talentos. O principal da obra de Fernando Pessoa, só foi publicada após a sua morte.

O que falta mesmo em Sergipe são críticos literários. Quem é besta, ficar arrumando inimigos. As poucas resenhas do muito publicado são louvações. Se elogia sempre, esperando-se a justa contrapartida.

Antônio Samarone. Membro de várias academias e aceitando novos convites.