Em defesa das causas perdidas
domingo, 15 de março de 2026
O DIREITO A DENTADURA
O Direito a Dentadura...
(por Antonio Samarone)
Recebi um vídeo, onde, o Presidente da República, solenemente, distribuí dentaduras. O Ministro da Saúde, sorridente, anunciou aos microfones: “quero chamar a senhora, fulana de tal, para receber a sua prótese, das mãos do Presidente.”
O que fizeram com o SUS e com a sua política de Saúde Bucal?
Como militante da reforma sanitária, sanitarista e ex-professor de Saúde Pública, sinto-me com o direito ao espanto.
Eu alcancei as dentaduras sendo vendidas nas Feiras, dentro de arupembas. Os clientes banguelos, iam experimentando, olhando-se no espelho, até encontrar uma que lhe agradasse.
O protético, um empreendedor, orientava aos clientes: se ficar folgada, use corega, que aperta; se ficar apertada, coloque-a num copo com água, na hora de dormir, que ela folga.
Itabaiana admirava a arte do doutor Olavo. As suas dentaduras pereciam um teclado de piano, dentes largos e alvos. O sorriso com a dentadura de Olavo era inconfundível. As dentaduras de Olavo eram obras de arte.
Sem dúvidas, Olavo foi um talentoso artista plástico, hoje, uma dentadura dessas vale uma fortuna. Uma modesta perereca usada, com a marca de Olavo, foi recentemente vendida por 2 mil reais.
Olavo, como todo artista, assinava as suas dentaduras. Dava garantias, até se acabar.
Hoje, Olavo estava perdido. As dentaduras são feitas pela inteligência artificial, impressas em 4D, em fino silicone. Já saem na conta, nem mais, nem menos. Ficam prontas, em questão de minutos.
Lula distribuindo essas dentaduras ao eleitorado, produzidas em série, lembrou-me de um Vereador antigo, que nunca perdeu uma eleição. A sua campanha era centrada na distribuição de dentaduras. Sem limites. A justiça eleitoral nunca apurou os gastos, com essas dentaduras. Era um mistério.
Um Promotor recém-chegado, com fama de intransigente, resolveu abrir inquérito para apurar a gastança do Vereador, com as dentaduras eleitorais. A Polícia Federal foi convocada. No depoimento, o Vereador nada escondeu. Ele provou a origem lícita das próteses.
Ele informou que fez um convênio com a maior funerária da cidade, que, mensalmente, lhe repassava as próteses retiradas dos defuntos.
O dono da funerária confirmou o convênio. Onde já se viu, enterrar alguém com uma peça valiosa na boca? Além dos anéis e brincos, as dentaduras são objetos desejados.
O Vereador deixou o Promotor sem graça, a lei eleitoral não proibia. Uma brecha. As dentaduras eram gratuitas. Bastava lavá-las com água sanitária, deixá-las um tempo dentro da cal e passar um branqueador nos dentes. Ficavam com o sorriso de novas.
Depois do inquérito ter esclarecido a origem das dentaduras, o Vereador nunca mais se elegeu. O preconceito do povo: quando ficaram sabendo a origem, não aceitaram mais as dentaduras dos defuntos.
Os votos desapareceram. O nosso eleitor é esclarecido: dentaduras, só novas...
Antonio Samarone – médico sanitarista.
sábado, 14 de março de 2026
O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DA IGREJA VELHA.
(por Antonio Samarone)
Os escombros da Igreja Velha e a lenda de Santo Antonio Fujão, são as marcas materiais e simbólicas, que sobraram da fundação do Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (1602). Inicio do Século XVII.
Sobre a lenda, um grupo de peregrinos, retomou a trilha de Santo Antonio Fujão- (igreja velha ao pé de quixabeira, no miolo do Tabuleiro de Ayres da Rocha). A lenda ainda é viva.
Sobre a preservação dos escombros da Igreja, algumas providências já foram tomadas.
A semana passada, um prestigiado radialista, da 93.1 FM, cobrou providências, em seu programa matinal: “cadê o secretário de cultura, fala muito e faz pouco”.
Uma verdade: no atacado, dificilmente as ações superam as falas!
No caso da Igreja Velha, uma falta de informação. Já existe o projeto arquitetônico, mas ainda falta a permissão do IPHAN. Vou tentar explicar:
A Lei Municipal nº 2.207, de 10 de julho de 2018, declarou as ruínas da Igreja Velha, patrimônio cultural. Histórico e imaterial de Itabaiana.
O decreto nº 25.668, de 24 de outubro de 2008, tornou o terreno de utilidade pública, para fins de desapropriação. A Prefeitura já desapropriou o terreno, nas cercanias.
Ocorre, que a Igreja Velha é um sítio arqueológico, portanto, sob a jurisdição federal, sob os cuidados IPHAN. Houve uma tentativa de intervenção municipal, sem um parecer do IPHAN, o que foi suspensa.
Já existe um projeto arquitetônico. Entrei em contato com o Superintendente do IPHAN, em Sergipe, o intelectual Luiz Eduardo Oliva, e marcamos uma audiência. A receptividade do órgão federal foi excelente.
A solução do sítio arqueológico da primeira Igreja de Santo Antonio, em Itabaiana, tem tramitado há décadas, pelos órgãos estaduais de Cultura. O processo 0395/2005 – CEC, pedindo o tombamento da Igreja Velha, recebeu um parecer contrário e humilhante, do virtual Conselho Estadual de Cultura.
O relator do processo de tombamento da Igreja Velha, em Itabaiana, o doutor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, concluiu: “manifesto-me contrário ao tombamento das ruínas da antiga Igreja de Santo Antonio, na Zona Rural do Município de Itabaiana.”
Ainda acrescentou, o relator Soutelo:
“O tombamento das ruínas implicaria num ônus, talvez pesado demais, para o Poder Público Estadual, diante da pequena importância do bem para o universo patrimonial do Estado...”
“Para o Estado, com toda a certeza, é muito mais importante reconhecer-se a feira de Itabaiana com bem material da cultura sergipana.” - Soutelo.
O processo não deixou dúvidas: para o Conselho Estadual de Cultura, a Igreja Velha é uma ruína de interesse local, cabendo as iniciativas de conservação, exclusivamente a Prefeitura.
Procurei na relação atual dos bens tombados pelo Estado de Sergipe, e não encontrei a Igreja Velha, de Itabaiana. Pelo visto, o parecer de Soutelo continua valendo. Aliás, de Itabaiana, não encontrei nenhum bem cultural protegido pelo Estado.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
quinta-feira, 12 de março de 2026
A LIGA DOS JUSTOS
(por Antonio Samarone)
“Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.” – Drummond.
Lembrei-me da cena final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, onde João das Mortes persegue Corisco, no Sertão de Cocorobó. Entretanto, a revolução foi só no cinema. O Dragão da mal contra o Santo guerreiro. Glauber fascinou até Buñuel.
“Se entrega Corisco, eu não me entrego não. Não me entrego ao Tenente, não entrego ao Capitão, me entrego só na morte, com parabélum na mão.” - O Sertão vai virar mar e o mar virar Sertão.
A sequência mais famosa do cinema mundial é o” massacre na escadaria de Odessa’, no filme Couraçado Potemkin. Eu gosto mais da sequência de Glauber Rocha, nessa cena da morte de Corisco.
Ontem, reuni em lugar ermo, na mais absoluta clandestinidade, com um grupo de amigos quixotescos. A pauta: discutir as saídas, em caso de uma provável invasão do Brasil.
Após muitos discursos, debates e apartes, as teses foram aparecendo: resistência armada (ninguém sabia atirar, nem possuía drone), cavar bunker, para se proteger dos bombardeios; se entregar, sem resistência; se esconder no Raso da Catarina; refundar a Liga dos Justos; pedir asilo na China, na condição de simpatizantes.
Um grupo moderado propôs a neutralidade. A gente nem adere aos Estados Unidos, nem a China. Fica em cima do muro.
Luiz Carlos, filho do Barbeiro Vermelho, hoje evangélico, se lembrou de um trecho bíblico: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados aqueles que escolhem a neutralidade, em tempos de crise.”
Todos ali, um dia, acreditaram que o socialismo venceria. O XX Congresso condenou Stálin, caiu o muro de Berlim e Gorbachev inventou a Perestroika. A história acabou. Eles venceram...
Mas, não foi bem assim.
Para complicar, o problema é que nem a história acabou, nem os Impérios são eternos. Ainda estamos vivos, certos, que o Juízo Final está próximo. O ponteiro se aproxima da meia-noite.
Trump ganhou, e está governando como o lema: America First – Make America Great Again (MAGA). Trump começo a operar, via as tarifas. Depois foram as vias de fatos.
A Venezuela foi presa fácil. A revolução bolivariana de Chaves, que possuía uma população armada, para defender-se, entregou o seu líder e a esposa, na bandeja da covardia. Sem resistir, sem reclamar, entregaram as chaves das refinarias.
A maioria dos países latinos americanos, já passou a escritura. Quando será a vez do Brasil? Essa foi a pauta principal, da tal reunião secreta.
Começou a ficar tarde, e nada de propostas exequíveis. Tudo devaneio. Estávamos diante do colapso da civilização humana, sem saídas. Eu não disse, mas pensei: tem um lado bom. Eu sempre sonhei em assistir ao Juízo Final, pelo menos pela televisão.
Na saída, o velho esquerdista Salomé, líder do Pombal das Virgens, na Atalaia Nova, pediu a palavra: “Raul Seixas tinha uma proposta”. Raul Seixas? Todos perguntaram espantados e incrédulos. Sim, ele gravou até uma música, reforçou Salomé:
“A solução para o nosso povo eu vou dar. A solução é alugar o Brasil. Negócio bom é assim. Nós não vamos pagar nada. O dólar deles paga o nosso mingau. Vamos embora, dar lugar para o Gringo entrar.”
Quem sabe!
Marcamos a próxima reunião, para o Sábado de Aleluia. A luta contínua...
Antonio Samarone.
segunda-feira, 9 de março de 2026
CADA UM É PARA O QUE NASCE?
Cada um é para o que nasce?
(por Antonio Samarone)
Logo cedo, encontrei um velho personagem da boemia itabaianense, esperando a abertura de um escritório de advocacia, na Praça da Igreja, para pedir socorro.
De cara, pressenti a bronca. A desilusão com a espécie humana estava aflorada em seu rosto. Puxei conversa, ele mal balbuciava.
Terminou me contando: a sua aposentadoria foi suspensa, esse mês. Um furo de cinco mil reais apareceu em sua conta, na CEF. Ele não entendeu a explicação do banco. Alguém próximo a ele é o principal suspeito. Ele, no fundo, sabe quem foi quem deu o golpe, mas não admite, nega, sem muita convicção.
Peloco, 86 anos, boa memória, comedido, não se lamente de nada. A vida é boa assim mesmo, ele conclui, apesar da profunda descrença no Ser Humano. Ele quer apenas que a sua modesta aposentadoria seja restabelecida. É a sua única renda.
Peloco, nasceu nas Flechas, em 01 de fevereiro de 1940. Filho de Maria Francisca dos Santos (Nini), mãe avulsa, que lhe abandonou novinho, ainda sem nome. Só foi registrado muito depois, já adulto.
A rua não perdoa. Como se chama um passarinho depenado? Peloco! O batismo dele estava feito.
“Quando, seu moço, nasceu meu rebento/ Não era o momento dele rebentar/ Já foi nascendo com cara de fome/ E eu não tinha nem nome pra lhe dar”. - Chico Buarque.
O Pai, foi um barbeiro famoso, em Itabaiana. Ele sabia que Peloco era seu filho, e vice-versa. Mas ficou por isso mesmo. O menino foi criado por Zezé Machado e Dona Maria, na Rua Nova.
Com a morte do Pai biológico, Peloco nunca reivindicou a sua parte na herança. Não por falta de conselhos: - “peça para fazer os exames de DNA.” Ele nunca se mexeu. “Direito”, para ele, é uma palavra vazia, sem sentido.
Quando precisou dos documentos, para se aposentar, o Tabelião deu-lhe um nome de personagem de Nelson Rodrigues: “Álvaro Maciel”. Até hoje, ninguém sabe o nome cartorial de Peloco. Ele próprio, às vezes se esquece.
Peloco nunca pôs os pés numa escola. Aprendeu tudo o que sabe, com a vida. Viveu de bicos e da esperteza nas casas de jogos de azar. Em Itabaiana, as cafuas eram bem frequentadas. Jogar, beber e fumar são vícios tolerados pela sociedade.
Se criou solto, nas ruas e botecos. Se tornou um temível no carteado. Peloco conhecia as cartas dos baralhos pelas costas. Se dessem o baralho para ele traçar, os demais jogadores só recebiam cartas marcadas.
Se Peloco fosse americano, teria sido um grande crupiê, nos cassinos de Los Angeles, como nasceu em Itabaiana, foi o Barão das Cafuas. Era bom no sinuca, mas longe de Alemão (Dodó), João Criano e Filadelfo de Zezé de Jones.
A vida nunca lhe ofereceu moleza: casa, comida e roupa lavada. Tudo foi incerto, mas ele não se queixa. É assim mesmo, sentencia Peloco: - “o ser humano não presta.” Ele naturalizou os sofrimentos.
Peloco tinha como justificar qualquer caminho, mas permaneceu íntegro. As trapaças nos jogos de azar é parte das regras. Passar um “caga fogo” no dominó é esperteza.
No futebol, Peloco foi o Gerson – canhotinha de ouro das peladas. Ele foi o melhor jogador do Mangueira, da Rua Nova, treinado pelo célebre Josafá Mão de Onça.
Enquanto puxo pela memória, para rabiscar essas mal traçadas linhas, me bateu um peso na consciência: vou acompanhar essa catástrofe financeira de Peloco.
Enquanto as redes sociais espantam-se com os mimos do Banco Master, para os mandarins da República, Álvaro Maciel (Peloco), não tem como fazer a feira.
A sua aposentadoria continua suspensa.
Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras
sábado, 7 de março de 2026
A FORÇA DO MATRIARCADO - 08 DE MARÇO.
(por Antonio Samarone)
A força social das mulheres é raramente realçada. Sabe-se que somente 2 capitanias hereditárias prosperaram: São Vicente e Pernambuco. O que não é dito, é que ambas, eram administradas por mulheres. São Vicente por Ana Pimentel e Pernambuco por Brites de Albuquerque.
Em Itabaiana, as mulheres sempre estiveram na vanguarda. O presbítero Marcos Antonio de Souza, em suas memórias da Capitania de Sergipe (1808), noticiou sobre as mulheres Itabaianenses:
“São industriosas as mulheres de Itabaiana; suas grosseiras manufaturas constituem o principal comércio de seus maridos e toda a vantagem de seu país. Levam os itabaianistas para os sertões altos vinte mil varas de pano de algodão, que se reputam em valor metálico dez mil cruzados.”
“Com grande trabalho fiam o algodão em uns fusos movidos com os dedos e uma pessoa mal pode fiar no espaço de um dia um quarto de libra. Depois do fiado a dispõem em teias e uma diligente tecedeira desde a manhã até a noite tece libra e meia do fio, ou nove varas do pano de algodão.”
Quem desconhece essas raízes, espanta-se!
Em Itabaiana, a descendência, a herança das terras, o nome das famílias, são transmitidas através da linhagem feminina (matrilinear). Isso pressupõe uma secular igualdade de gênero. Exemplos: João de Zé de Ana; Zé de João de Sá Joaninha, Tonho de Chico de Miguel de Maria de Carrola... Quase todos os nomes familiares, terminam numa matriarca. Têm uma mulher como referência.
Em Itabaiana, entre os empresarialmente bem sucedidos, a presença feminina é destacada. As mulheres estão na linha de frente nas gerências, profissões liberais, nas feiras, música, arte e poesia. No magistério e na medicina elas são maioria.
Nos costumes, um aspecto me chama a atenção.
A Capital Nacional dos Caminhoneiros, possui um trânsito intenso. Itabaiana, com 110 mil habitantes (estimativa - IBGE), possui 49 mil motos em circulação: (28 mil motocicletas, 11 mil motonetas e 10 mil cinquentinha). Como referência, a cidade possui 18.500 automóveis, num total de 81 mil veículos registrados.
Não precisa fazer as contas para concluir: as motos dominam os meios de transporte. Eu sei, o transporte em veículos de 2 rodas nem é o mais seguro, nem é o mais confortável. Mas essa é a realidade, em Itabaiana. Talvez a liberdade e a rapidez, pesem a favor das motos. De todo o jeito, se fossem mais 49 mil automóveis, o trânsito travava.
As mulheres predominam, em Itabaiana, nessa opção de transporte?
As mulheres são quase maioria no uso dessas motos. Nada intimida as mulheres. Todas, senhoras de certa idade, gordas, magras, fazem quase tudo de moto: levam os filhos na escola, compram e vendem, vão à feira e as missas, tudo de moto. Trabalham e passeiam de moto.
Eu sei que os “caga-raiva” vão dizer: “é assim em todo o canto.” Não, na proporção de Itabaiana, não.
Eu enxergo essa força feminina em Itabaiana, há muito tempo. Mamãe nunca leu Betty Friedan, nem Simone de Beauvoir, mas sempre foi dona do seu nariz, mandava e desmandava em quase tudo. Papai que cuidasse, em obedecê-la.
Mamãe nunca soube do 08 março. Desconhecia a marcha das mulheres, pela jornada de 8 horas, em Nova Iorque; desconhecia Clara Zetkin; desconhecia o incêndio da fábrica de tecidos, ondes as mulheres foram sacrificadas; mas conhecia os seus direitos e lutava por eles.
Mamãe não andava de moto, não tinha nem bicicleta. Mas amansava burro brabo.
Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras
sábado, 28 de fevereiro de 2026
UMA LOUVAÇÃO A INTELIGÊNCIA
(por Antonio Samarone)
Ontem, a Academia Itabaianense de Letras concedeu uma Comenda ao Dr. Átalo Crispim de Souza. A Comenda é concedida anualmente, a um itabaianense destacado positivamente na sociedade.
O destaque do Dr. Átalo é a sua reconhecida inteligência.
Os céticos indagaram: o que seria essa inteligência? Essa pergunta foge a objetividade. Geralmente, a inteligência se manifesta em áreas específicas: “Fulano é muito inteligente em matemática, música, comercio, política, etc.
A homenagem à inteligência do Dr. Átalo foi genérica. Como justificar, sem cair no senso comum: eu sei que ele é inteligente, mas não sei explicar. Os conceitos de inteligência são subjetivos.
Quando se tenta avaliar objetivamente, caímos no besteirol de medir o “QI”. O sujeito responde a um questionário, faz associações e preenche um quebra cabeça. No final, recebe uma nota. É o seu quociente de inteligência (QI). A nota máxima é cem.
O senso comum atribui a inteligência aos bem-sucedidos. Uma pessoa que sai do zero, se mete em uma atividade e, por talento próprio, fica rico, o título de inteligência é logo outorgado pela sociedade. Fulano é muito inteligente.
Ser bem-sucedido na escola, já foi critério de inteligência. Hoje, nem tanto. O bom aluno, bom profissional após formado, mas se não se tornar famoso e não souber ganhar dinheiro, a sua inteligência é vista com desconfiança. Pergunta-se logo, de que serviu ser inteligente?
Portanto, a Comenda do Dr. Átalo, por sua inteligência, gerou polêmica. Um imortal cobrou realizações palpáveis. Fez o quê?
Na fala de agradecimento a Comenda, o doutor Átalo discordou da fama que possui. Disse, que a sua virtude era a curiosidade. Sempre quis entender o mundo. Rejeitou e pôs em dúvida, a sua propalada inteligência.
Fez bem, a humildade é inseparável da inteligência. A vaidade é filha da burrice.
A biologia define a inteligência como um recurso de sobrevivência a variações do meio ambiente e da sociedade. A inteligência é uma estratégia para a competição evolutiva. Os bem sucedidos evoluem e deixam descendência.
Durante a solenidade, ouvi cochichos: “a Academia está fora do tempo, elogiar a inteligência humana, um recurso analógico, sujeito a enganos; quando se sabe, que a inteligência artificial (IA), já esmagou a irmã natural.”
Aqui o debate pegou fogo.
A falta de clareza é maior na IA: que peste é inteligência artificial? O cientista brasileiro mais conhecido no mundo, Miguel Nicolelis, nega a sua existência. Ele diz que a IA, nem é inteligência, nem é artificial. Eu não entendo direito.
Quanto mais leio e escuto, a confusão aumenta. Que a IA existe, eu suponho, mas o que é, eu não sei. Sei que a IA sabe quase tudo de muita coisa. A IA elabora teses, traduz hieróglifos, escreve livros, faz poesia e conta piadas. Na medicina, coitados dos médicos, ficam distantes em conhecimentos.
Eu sei que a “IA”, compõem músicas de qualidade, em segundos. Há um Chico, um Gil e um Caetano em cada iPhone.
O Restaurante de Dona Marizete do Capunga, importou um fogão inteligente, da China. Basta ele programar qualquer prato, disponibilizar os ingredientes, que o prato sai sem erros e o ponto na hora certa. As receitas estão no programa.
Soube que o fogão inteligente de Dona Marizete, faz até quebra-queixo, dar o ponto no doce de barata, faz amarradinho, rabada e costela de boi defumada. Assa tripa de porco e faz buchada de bode.
Soube que a pichilin noz-moscada, vendida na banca de Vadinho de Nilo Base, na feira de Itabaiana, é produzido pela IA. Já se falsifica até a castanha do Carrilho.
Uma covardia com as cozinheiras de forno e fogão. Em breve, cada banca de frito e sarapatel no mercado de Itabaiana, vai ter um fogão inteligente.
Eu não sei como funciona, mas a IA existe. Parece assombração. Os pedantes sintetizam: são os algoritmos! Sim, mas o que são esses algoritmos? Quase uma tautologia.
Sair da solenidade do jeito que entrei: admirando a frágil inteligência humana e, convencido, que o Dr. Átalo herdou e cultivou, uma generosa fatia dessa antiga inteligência.
Antonio Samarone – membro da Academia Itabaianense de Letras e outros penduricalhos.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
O INCONSCIENTE COLETIVO
O Inconsciente Coletivo.
(por Antonio Samarone)
A cultura na Itabaiana agrária, primeira metade do Século XX, era restrita a música (filarmônica) e a fotografia (Miguel Teixeira, Joãozinho Retratista, Paulo de Dóci e Percílio Andrade).
Depois vieram os cinemas, (Zeca Mesquita e do Padre); o circo/teatro, (com Zé Bezerra); a tourada, com Geraldo Sem Medo e o mamulengo, com Rafael dos Penicos.
As principais festas eram religiosas (o Natal e as Trezenas de Santo Antonio).
Bailes, recitais, saraus e folguedos eram em recintos privados. As festas na casa do maestro Esperidião Noronha, foram as mais famosas.
Com a força econômica do comércio, uma elite, liderado pelo Dr. Gileno Costa, criou a Associação Atlética. As festas passaram para o novo clube, tendo à frente, Abraão Crispim. Eu, lá, nunca pus os pés. Para ser preciso, participei de um concurso de beleza masculina. Não perguntem o resultado.
O ilustrado Cibalena (Luciano de Oliveirinha), dividiu culturalmente a Itabaiana daquele tempo, em duas Zonas, em conflito: a praça da igreja, ruas do Sol e das Flores – dos bem nascidos; e o Beco Novo, do povo em geral.
Para se contrapor ao Clube da Praça (Atlética); os comunas, liderados por Tonho de Dóci e Renato Mazze Lucas, criaram o Clube dos Trabalhadores. No quarto quarteirão do Beco Novo.
Sapateiros e alfaiates tiveram a sua casa de bailes. O Beco Novo, liderava no futebol (três campos) e a Praça, nas festas.
Nascia em Itabaiana o embrião do lazer e do entretenimento, anteriores a cultura de massas. Os cinemas de Zeca Mesquita e do Padre eram casas cheias.
Antes da televisão, a indústria cultural chegou timidamente a Itabaiana, pelos cinemas, rádios, grafofones (invenção de Graham Bell) e dos gramofones (vitrolas): as pornochanchadas de Ankito, Zé Trindade e Grande Otelo; os faroestes americanos; Tarzan e Mazaropi.
Os filmes podiam ser de guerra, amor, espada, cowboy, terror, comedia e brasileiros. Os filmes deveriam ter um final feliz. Não se perdoava a morte do artista.
Os discos, foram os primeiros produtos da indústria cultural, disponíveis para os endinheirados. Os discos eram caros. Abrahão Crispim assombrou, quando abriu o “Casbão, a primeira loja de discos em Itabaiana. Foi motivo de orgulho cívico.
A cultura era rigorosamente dividida em alta cultura e cultura popular. Depois, a indústria cultural criou o “kitsch”, para satisfazer a demanda do mercado.
O cinema (sétima arte), foi usado para aproximar a chamada alta cultura da cultura popular. Os filmes cult eram produtos culturalmente sofisticados, geralmente ignorados pelas bilheterias.
Nas décadas de 1950/60, houve um surto de cultura erudita, em Itabaiana: Dona Ritinha Noronha, filha do Maestro Esperidião, esposa de Álvaro de Antonio Agostinho, abriu uma escola de piano. Ter um piano em casa, era um sinal de distinção e bom gosto musical.
Tinham o piano e sabiam tocar. As casas que possuíam piano, na década de 1960, em Itabaiana:
Marilene Lobo, irmã de Djalma; Terezinha Correia, professora de canto orfeônico; Maria de Toinho de Libânio; Marcelino Andrade; Zeca Araújo; Seu Xavier; Tenisson Oliveira, da farmácia; Dr. Ormeil Oliveira (doado ao museu); Colégio Dom Bosco (professora Irmã Elvira e Dona Nicinha); Dona Linda, esposa de Irineu; Nicinha Noronha, esposa de Edson Leal e Dona Zizi, esposa do Coletor Josafá.
A professora Lenita Porto, ensinou piano. Outras casas onde existiam pianos: Maria de Tonho de Libânio, Marcelino Andrade, Zeca Araújo, Seu Xavier, Tenisson de Oliveirinha e Dona Zizi, esposa de Josafá,
Esse levantamento foi realizado por Marcelino e Carlinho Siqueira.
É um bom indicador, do nível de interesse pela música erudita. A centenária Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, só adquiriu os seus pianos no século XXI.
Isso tudo, foi ontem.
Hoje, a indústria cultural hegemonizou o entretenimento. Nessa era digital, dominada pelas telinhas, redes sociais e inteligência artificial, os talentos tornaram-se raros e efêmeros.
O inconsciente coletivo foi capturado pelos algoritmos.
Antonio Samarone (membro da Academia Itabaianense de Letras).






