Em defesa das causas perdidas
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
A PREFEITA EMÍLIA E A CULTURA.
A Prefeita Emília e a Cultura. (por Antonio Samarone)
A Prefeita anunciou a transformação do abandonado Palácio Inácio Barbosa, em Palácio Museu. No térreo, funcionará a Secretaria da Cultura e no 2º andar, o gabinete especial de despacho.
O complexo terá cine-teatro e café recreio. O projeto será do nacionalmente consagrado arquiteto, Ezio Déda. A prefeitura usará recursos próprios.
Palmas! A Prefeita Emília entra para a história da cultura em Sergipe.
As grandes obras da cultura em Sergipe foram feitas por João Alves e Marcelo Déda. O Centro de Criatividade (1985), inspiração de Luiz Antonio Barreto; e o Teatro Tobias Barreto. Déda fez os dois museus (Palácio Museu e o Museu da Gente Sergipana). Já foi muito.
A importância política da cultura em Sergipe tem oscilado. Já esteve sob o comando de gente preparada, grandes nomes: Joel Silveira, Luiz Antonio Barreto, José Carlos Teixeira, Aglaé Fontes, Amaral Cavalcante, Ofenísia Freire, Núbia Marques, Luciano Correia, Luiz Alberto e Fernando Soutelo.
Atualmente, a cultura do Aracaju está sob o comando de Paulo Correia. Um nome reconhecido pelos pares, no mundo da cultura.
Por outro lado, a cultura já foi entregue a políticos decadentes, para facilitar composições eleitoreiras. Prefiro não os citar. Foram muitos. Gente acanhada culturalmente.
O palácio Inácio Barbosa foi construído por Graccho Cardoso. Inaugurado em 1º de janeiro de 1924. O projeto foi do arquiteto italiano, Hugo Bozzi, em estilo neoclássico, refletindo a belle époque de Aracaju. Muito parecido com o Palácio do Catete. O engenheiro foi Alfredo Aranha.
O Palácio Inácio Barbosa foi tombado pelo Decreto Estadual nº 16.559, de 26 de dezembro de 1997. O processo demorou 12 anos. A má vontade com a cultura em Sergipe é endêmica.
O Prefeito Marcelo, em 2005, nos 150 do Aracaju, transferiu a sede da Prefeitura para um prédio desativado do Banco do Brasil, na Rua Acre. O principal argumento foi o preço do imóvel. Uma pechincha, diziam os petistas. Além da agressão a memória histórica, a medida acentuava o esvaziamento comercial do centro da Capital.
A partir do despejo, o palácio ficou abandonado por 21 anos. Um casarão mal assombrado, em plena deterioração. Um colega, Dr. Rômulo, o filho de Lessa, médico e filosofo, todas as vezes que me encontrava, mostrava a sua indignação com o descaso das autoridades com na memória de Sergipe.
Em 2017, o Prefeito Edvaldo Nogueira ofereceu o Palácio a UNIT (lei 4.983, de 20 de dezembro de 2017), de portas fechadas, inclusive com o patrimônio histórico. Quando o reitor da UNIT, com fama de mecenas, descobriu que teria custos para a benemérita instituição de ensino, desistiu da empreitada. A UNIT enjeitou um palácio.
Em maio de 2022, o Prefeito Edvaldo anunciou pomposamente, que o belo palácio abandonado, seria transformado em uma Pinacoteca, dedicado a produção artística sergipana. O projeto nunca saiu do papel.
Finalmente, a Prefeita Emília anunciou o fim do descaso. Deu um destino cultural, com recursos próprios, a esse patrimônio dos sergipanos.
Por justiça, sou obrigado a aplaudir a inciativa da Prefeita Emília.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
FILARMÔNICA SANTO ANTONIO (BANDA DOS CABELUDOS)
No início do século XX, Itabaiana possuía duas filarmônicas: a Nossa Senhora da Conceição, ligada aos Pebas, do Coronel Sebrão (pelados, ou Maria do Arroz); e a filarmônica Santo Antônio, (banda dos cabeludos), ligada aos Cabaús, de Batista Itajahy.
As duas filarmônicas vestiam a camisa política dos seus donos. Sebrão & Itajahy.
A mais famosa, a Nossa Senhora da Conceição, foi criada em 31 de outubro de 1897, pelo maestro Francisco Alves de Carvalho Junior. Ela incorporou os instrumentos, as partituras e os músicos da Filarmônica Eufrosina, de 1879, que vinha, segundo Sebrão sobrinho, da Orquestra Sacra, do padre Francisco da Silva Lobo (1745).
A Filarmônica Santo Antônio, foi criada por Batista Itajahy, em 02 de outubro de 1904. A regência foi entregue ao maestro Esperidião Noronha, primeiro e único a reger essa filarmônica. Ela funcionou até 1925. Batista Itajahy faleceu em 1918.
A Banda Santo Antônio possuía dois destaques musicais: o maestro, Esperidião Noronha e Néo Sapateiro (Manoel das Neves Barreto), um virtuose do sax soprano. Esperidião também era compositor, com três destaques: Marcha de Itabaiana, Família de Vieira e Saudade de Carlota Itajahy.
Em Itabaiana, Manoel das Neves Barreto (Néo Sapateiro), é nome de rua, no bairro Anízio Amâncio de Oliveira. Segundo o caderno de anotações de Seu Jubal, o pai de Vladimir, Néo Sapateiro faleceu em 29 de julho de 1980, no mesmo dia que faleceu Seu Bidó.
No momento (2026), Itabaiana possui duas filarmônicas: a centenária Nossa Senhora da Conceição e a noviça SOFIVA (Sociedade Filarmônica 28 e agosto), que completa 15 anos de bons serviços culturais a sociedade.
A subordinação política acabou. As duas são autônomas, voltadas exclusivamente para a música. A função do poder público é apoiar e incentivar a arte, sem interferência política. Elas cumprem papeis diferentes, não disputam o mesmo espaço.
Historicamente, a música e a fotografia foram as duas primeiros manifestações artísticas, com destaque em Itabaiana. São dessas raízes profundas, que brotaram Mestrinho e Natanzinho.
Antônio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
O QUE COMEMORAMOS, EM 28 DE AGOSTO.
O que comemoramos, em 28 de agosto?
(por Antonio Samarone)
O que Itabaiana comemora nesta data? Não é o aniversário! Itabaiana vem de longe. O Arraial de Santo Antônio e Alma de Itabaiana surgiu por volta de 1609. Em 30 de outubro 1675, já éramos a Freguesia (paróquia) de Santo Antônio e Almas, a segunda de Sergipe.
A Freguesia já completou 350 anos.
Não é emancipação, autonomia. Itabaiana já era Villa desde 1697, com Câmara Municipal funcionando, ou seja, autônoma há 329 anos.
Em 28 de agosto, comemoramos a passagem de Villa a Cidade, uma emenda do deputado Guilhermino Bezerra, há 138 anos. Uma mudança cinco meses após o fim da escravidão (Itabaiana possuía 1.683 escravizados), e um anos antes do fim do Império.
À época, a oposição resistiu. O Cônego Domingos de Melo Resende, do Partido Liberal, minimizou, ironizou a iniciativa. Denunciou que a medida só beneficiaria a família de Guilhermino, suas irmãs, passariam ser professoras de cidade, melhorando os seus vencimentos.
Uma simplificação, repetida por alguns historiadores.
O velho Cônego, capelense de família fidalga, filho da Capitão Mor Manuel de Melo Resende, viveu em Itabaiana por 50 anos (1852 – 1902). Domingos de Melo Resende, constituiu um harém, deixando vários filhos, todos registrados.
Cidade é civilidade, cultura, cidadania, onde vivem os "praciantes". Villa é habitação de vilões, de artesanato ou de bodegueiros, dominada pelos tabaréus. Dizia Sebrão, sobrinho.
O Cônego Domingos de Melo Resende, pregava poeticamente: “A Villa gosta de ser Villa.”
À época da mudança (1888), viviam na zona urbana da Villa de Itabaiana, três mil habitantes. Um casario modesto, a maioria casas de rancho, com 21 sobrados de taipa. Só existiam dois prédios públicos: a sede da Câmara, num sobrado, que depois virou o bar de Papinha, e a cadeia pública, na rua do Cotovelo.
Itabaiana ainda não possuía um mercado municipal. O atual mercado é de 1926, construído pelo prefeito Cazuza Queiroz, avô de Zé Queiroz.
A feira regular aos sábados, existe desde 1827. Em documento sobre a litigância entre camponeses e curraleiros, sobre a criação de gado solto, existem referências a feira de Itabaiana.
Em 1935, o Governo Provincial procura atrair os feirantes de Itabaiana para fazer funcionar a feira de São Cristóvão. Em 1952, lei 74, Euclides Paes Mendonça, amplia da feira de Itabaiana, para as quartas-feiras.
Com a derrubada das matas para se plantar algodão, a Villa cresceu, surgiu o comércio, lojas de fazenda, joalherias e a feira passou a ser semanal.
As Praças da Igreja, Santo Antônio e Santa Cruz (rua das tendas dos ferreiros), as ruas do Sol, Flores, Vitória, Futuro, Canto Escuro, Cisco, Beco Novo e início da Rua Nova.
Itabaiana possuía muitos ourives. Desconheço as razões.
A Villa de Itabaiana era pobre, isolada, sem estradas, sem água, a vida era no campo. Os homens vinham para Villa de ceroulas, uns calções compridos de pano rústico, camisa de algodão com a frente para dentro das ceroulas e a parte de trás solta, parecendo fraque.
O último Presidente da Câmara de Vereadores da Villa foi o rico caraibeiro, Cassimiro da Silva Melo, plantador de algodão, grande proprietário de terras nos povoados Chã do Jenipapo, Caraíbas, Flechas e Saco do Ribeiro. Um nome esquecido, aguardando uma homenagem.
Foi o surto do algodão a principal causa da passagem de Itabaiana de Villa a Cidade. Foi o algodão que criou a Villa de Frei Paulo (1890), a primeira a separar-se de Itabaiana, que fortaleceu as povoações de Ribeirópolis, Pedra Mole e Pinhão, que depois se tornaram municípios autônomos.
]
O algodão criou riqueza para Itabaiana, o comércio estabelecido e a feira regular. O efeito adverso, foi a redução do seu território. Vários povoados foram desmembrados e tornaram-se vilas e cidades. Praticamente todo o Agreste.
Tornar-se cidade não produziu efeitos imediatos. A cidade permaneceu com a alma de Villa. À época, o fato teve pouca relevância. Epifânio Dórea, não cita entre as efemérides do 28 de agosto, a passagem de Itabaiana a cidade. Cita a morte de Fausto Cardoso (28 de agosto de 1906) e o nascimento do itabaianense General José de Calazans.
Itabaiana foi a oitava Villa sergipana a virar cidade. O desenvolvimento só veio meio século depois, mas aí já é outra história.
Nesse período, funcionava em Itabaiana a Filarmônica Eufrosina. Em 1879, o maestro Samuel Pereira de Almeida, transformou a Orquestra Sacra do padre Francisco da Silva Lobo, em Banda Marcial, incorporando a percussão.
Itabaiana passava a ter um médico residente, o lagartense Batista Itajay. Logo cedo, Itajay se casou em primeiras núpcias, com uma itabaianense, Dona Lourdes, filha Manoel Teixeira, e virou chefe político.
Antes, residiu em Itabaiana, o Dr. Francisco Dias César, que faleceu precocemente, aos 35 anos. O doutor era natural de Itaporanga, filho do Barão de Itaporanga e Dona Ana Boena César. O médico participou ativamente da criação do clube de leituras de Itabaiana (1875). Como referência, anterior ao famoso clube de leitura de Maruim (1877).
Entre 1870 e 1880, a vida intelectual é reorganizada: em 1875, funda-se o clube de Leitura e, em 1879, Samuel Pereira de Almeida, o pai de Boanerges Pinheiro, transforma a orquestra sacra do Padre Francisco da Silva Lobo, na Filarmônica Eufrosina, que em 1897, se transforma na atual Filarmônica Nossa Senhora da Conceição.
Entre os 25 intelectuais que fundaram o Clube de Leitura, destacavam-se: Samuel Pereira, Guilhermino Bezerra e os irmãos, José Martins Fontes, juiz de direito; Antônio Cornélio da Fonseca, pai de Anibal Freire da Fonseca, ministro do STF e membro titular da Academia Brasileira de Letras.
Ao lado de Batista Itajay, o outro chefe, José Sebrão de Carvalho (Coronel Sebrão), entra na vida pública como delegado de Polícia. Nascem aí os dois grupos políticos (Peba X Cabaús), que vão dominar a vida itabaianense, até a Revolução de 1930.
O cargo de Prefeito (Intendente) foi criado com a República. A primeira eleição para Prefeito de Itabaiana ocorreu em 1892, sendo vitorioso o Capitão José Ferreira Gomes de Melo, do grupo de Itajay.
Se tornou tradição, comemora-se o 28 de agosto, como feriado em Itabaiana. Aliás, comemora-se como se fosse o aniversário da cidade. Como começou? Em 08 de março de 1954, a lei 119, considerou os dias 13 de junho (Santo Antônio) e 28 de agosto (passagem de vila a cidade), feriados municipais. A lei foi sancionada pelo prefeito em exercício, Percílio da Costa Andrade.
Essa lei de 1954, foi revogada em 05 de março de 1968, pela lei 341, durante a gestão de Vicente de Belo. O 28 de agosto deixou de ser feriado.
O feriado só retorna com a Lei Orgânica, promulgada em 03 de abril de 1990. Em seu artigo 189, comete um erro histórico: a data é considerada como a Emancipação Política de Município. Não houve nenhuma emancipação, com a Resolução Provincial nº 301, de 28 de agosto de 1888. Apenas, a Villa passou a condição de cidade. O 28 de agosto volta a ser feriado.
Esse 2026, os 137 anos serão festejados, com ampla programação cívico/religiosa. Missa de ação de graça, foguetório, girândolas e galhardetes, bandeiras hasteadas e discursos comemorativos. O auge da festa é mais uma Micarana (carnaval fora de época).
As Micaranas vêm dos antigos Micaremes (o primeiro, em abril de 1949, e o ultimo, em 1963, com a morte de Euclides Paes Mendonça). Nas micaremes de Itabaiana desfilavam os blocos: Lobos do Mar, comandado por Fefi; e Gaviões da Lua, da Rua do fato e Beco Novo, comandado pelo barbeiro João Rocha.
Micaremes (Mi-carême), na França, significa festividades realizadas no meio da quaresma. Na Bahia chama-se micareta, e em Itabaiana virou micarana. Tudo carnaval fora de época. Em Aracaju, botaram o nome de pré-caju.
Em 1994, na gestão de João de Zé de Dona, o carnaval fora de época retorna, com o nome de Micarana. A festa cresceu. Agora, em 2026, será uma das maiores. Desde 1994, a micarana sofreu várias interrupções, por motivos diversos.
Tudo acompanhado pelas Filarmônicas 28 de Outubro e Nossa Senhora da Conceição, com os seus tradicionais dobrados.
Itabaiana Grande tem muito a festejar!
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
O que Itabaiana comemora nesta data? Não é o aniversário! Itabaiana vem de longe. O Arraial de Santo Antônio e Alma de Itabaiana surgiu por volta de 1609. Em 30 de outubro 1675, já éramos a Freguesia (paróquia) de Santo Antônio e Almas, a segunda de Sergipe.
A Freguesia já completou 350 anos.
Não é emancipação, autonomia. Itabaiana já era Villa desde 1697, com Câmara Municipal funcionando, ou seja, autônoma há 329 anos.
Em 28 de agosto, comemoramos a passagem de Villa a Cidade, uma emenda do deputado Guilhermino Bezerra, há 138 anos. Uma mudança cinco meses após o fim da escravidão (Itabaiana possuía 1.683 escravizados), e um anos antes do fim do Império.
À época, a oposição resistiu. O Cônego Domingos de Melo Resende, do Partido Liberal, minimizou, ironizou a iniciativa. Denunciou que a medida só beneficiaria a família de Guilhermino, suas irmãs, passariam ser professoras de cidade, melhorando os seus vencimentos.
Uma simplificação, repetida por alguns historiadores.
O velho Cônego, capelense de família fidalga, filho da Capitão Mor Manuel de Melo Resende, viveu em Itabaiana por 50 anos (1852 – 1902). Domingos de Melo Resende, constituiu um harém, deixando vários filhos, todos registrados.
Cidade é civilidade, cultura, cidadania, onde vivem os "praciantes". Villa é habitação de vilões, de artesanato ou de bodegueiros, dominada pelos tabaréus. Dizia Sebrão, sobrinho.
O Cônego Domingos de Melo Resende, pregava poeticamente: “A Villa gosta de ser Villa.”
À época da mudança (1888), viviam na zona urbana da Villa de Itabaiana, três mil habitantes. Um casario modesto, a maioria casas de rancho, com 21 sobrados de taipa. Só existiam dois prédios públicos: a sede da Câmara, num sobrado, que depois virou o bar de Papinha, e a cadeia pública, na rua do Cotovelo.
Itabaiana ainda não possuía um mercado municipal. O atual mercado é de 1926, construído pelo prefeito Cazuza Queiroz, avô de Zé Queiroz.
A feira regular aos sábados, existe desde 1827. Em documento sobre a litigância entre camponeses e curraleiros, sobre a criação de gado solto, existem referências a feira de Itabaiana.
Em 1935, o Governo Provincial procura atrair os feirantes de Itabaiana para fazer funcionar a feira de São Cristóvão. Em 1952, lei 74, Euclides Paes Mendonça, amplia da feira de Itabaiana, para as quartas-feiras.
Com a derrubada das matas para se plantar algodão, a Villa cresceu, surgiu o comércio, lojas de fazenda, joalherias e a feira passou a ser semanal.
As Praças da Igreja, Santo Antônio e Santa Cruz (rua das tendas dos ferreiros), as ruas do Sol, Flores, Vitória, Futuro, Canto Escuro, Cisco, Beco Novo e início da Rua Nova.
Itabaiana possuía muitos ourives. Desconheço as razões.
A Villa de Itabaiana era pobre, isolada, sem estradas, sem água, a vida era no campo. Os homens vinham para Villa de ceroulas, uns calções compridos de pano rústico, camisa de algodão com a frente para dentro das ceroulas e a parte de trás solta, parecendo fraque.
O último Presidente da Câmara de Vereadores da Villa foi o rico caraibeiro, Cassimiro da Silva Melo, plantador de algodão, grande proprietário de terras nos povoados Chã do Jenipapo, Caraíbas, Flechas e Saco do Ribeiro. Um nome esquecido, aguardando uma homenagem.
Foi o surto do algodão a principal causa da passagem de Itabaiana de Villa a Cidade. Foi o algodão que criou a Villa de Frei Paulo (1890), a primeira a separar-se de Itabaiana, que fortaleceu as povoações de Ribeirópolis, Pedra Mole e Pinhão, que depois se tornaram municípios autônomos.
]
O algodão criou riqueza para Itabaiana, o comércio estabelecido e a feira regular. O efeito adverso, foi a redução do seu território. Vários povoados foram desmembrados e tornaram-se vilas e cidades. Praticamente todo o Agreste.
Tornar-se cidade não produziu efeitos imediatos. A cidade permaneceu com a alma de Villa. À época, o fato teve pouca relevância. Epifânio Dórea, não cita entre as efemérides do 28 de agosto, a passagem de Itabaiana a cidade. Cita a morte de Fausto Cardoso (28 de agosto de 1906) e o nascimento do itabaianense General José de Calazans.
Itabaiana foi a oitava Villa sergipana a virar cidade. O desenvolvimento só veio meio século depois, mas aí já é outra história.
Nesse período, funcionava em Itabaiana a Filarmônica Eufrosina. Em 1879, o maestro Samuel Pereira de Almeida, transformou a Orquestra Sacra do padre Francisco da Silva Lobo, em Banda Marcial, incorporando a percussão.
Itabaiana passava a ter um médico residente, o lagartense Batista Itajay. Logo cedo, Itajay se casou em primeiras núpcias, com uma itabaianense, Dona Lourdes, filha Manoel Teixeira, e virou chefe político.
Antes, residiu em Itabaiana, o Dr. Francisco Dias César, que faleceu precocemente, aos 35 anos. O doutor era natural de Itaporanga, filho do Barão de Itaporanga e Dona Ana Boena César. O médico participou ativamente da criação do clube de leituras de Itabaiana (1875). Como referência, anterior ao famoso clube de leitura de Maruim (1877).
Entre 1870 e 1880, a vida intelectual é reorganizada: em 1875, funda-se o clube de Leitura e, em 1879, Samuel Pereira de Almeida, o pai de Boanerges Pinheiro, transforma a orquestra sacra do Padre Francisco da Silva Lobo, na Filarmônica Eufrosina, que em 1897, se transforma na atual Filarmônica Nossa Senhora da Conceição.
Entre os 25 intelectuais que fundaram o Clube de Leitura, destacavam-se: Samuel Pereira, Guilhermino Bezerra e os irmãos, José Martins Fontes, juiz de direito; Antônio Cornélio da Fonseca, pai de Anibal Freire da Fonseca, ministro do STF e membro titular da Academia Brasileira de Letras.
Ao lado de Batista Itajay, o outro chefe, José Sebrão de Carvalho (Coronel Sebrão), entra na vida pública como delegado de Polícia. Nascem aí os dois grupos políticos (Peba X Cabaús), que vão dominar a vida itabaianense, até a Revolução de 1930.
O cargo de Prefeito (Intendente) foi criado com a República. A primeira eleição para Prefeito de Itabaiana ocorreu em 1892, sendo vitorioso o Capitão José Ferreira Gomes de Melo, do grupo de Itajay.
Se tornou tradição, comemora-se o 28 de agosto, como feriado em Itabaiana. Aliás, comemora-se como se fosse o aniversário da cidade. Como começou? Em 08 de março de 1954, a lei 119, considerou os dias 13 de junho (Santo Antônio) e 28 de agosto (passagem de vila a cidade), feriados municipais. A lei foi sancionada pelo prefeito em exercício, Percílio da Costa Andrade.
Essa lei de 1954, foi revogada em 05 de março de 1968, pela lei 341, durante a gestão de Vicente de Belo. O 28 de agosto deixou de ser feriado.
O feriado só retorna com a Lei Orgânica, promulgada em 03 de abril de 1990. Em seu artigo 189, comete um erro histórico: a data é considerada como a Emancipação Política de Município. Não houve nenhuma emancipação, com a Resolução Provincial nº 301, de 28 de agosto de 1888. Apenas, a Villa passou a condição de cidade. O 28 de agosto volta a ser feriado.
Esse 2026, os 137 anos serão festejados, com ampla programação cívico/religiosa. Missa de ação de graça, foguetório, girândolas e galhardetes, bandeiras hasteadas e discursos comemorativos. O auge da festa é mais uma Micarana (carnaval fora de época).
As Micaranas vêm dos antigos Micaremes (o primeiro, em abril de 1949, e o ultimo, em 1963, com a morte de Euclides Paes Mendonça). Nas micaremes de Itabaiana desfilavam os blocos: Lobos do Mar, comandado por Fefi; e Gaviões da Lua, da Rua do fato e Beco Novo, comandado pelo barbeiro João Rocha.
Micaremes (Mi-carême), na França, significa festividades realizadas no meio da quaresma. Na Bahia chama-se micareta, e em Itabaiana virou micarana. Tudo carnaval fora de época. Em Aracaju, botaram o nome de pré-caju.
Em 1994, na gestão de João de Zé de Dona, o carnaval fora de época retorna, com o nome de Micarana. A festa cresceu. Agora, em 2026, será uma das maiores. Desde 1994, a micarana sofreu várias interrupções, por motivos diversos.
Tudo acompanhado pelas Filarmônicas 28 de Outubro e Nossa Senhora da Conceição, com os seus tradicionais dobrados.
Itabaiana Grande tem muito a festejar!
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
terça-feira, 25 de agosto de 2026
A SUBVERSÃO EM ITABAIANA.
A Subversão em Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
Havia uma perplexidade sobre o “porquê” da homenagem prestada ao presidente Médici, nomeando com o seu nome o Estádio de Futebol em Itabaiana. Recentemente o estádio foi rebatizado como Etelvino Mendonça.
De onde surgiu a motivação para a homenagem ao Presidente Garrastazu?
Em novembro de 1971, o 28º Batalhão de Caçadores realizou um treinamento anti-guerrilha em Itabaiana, combinado com uma ação de presença e ações cívicos sociais.
Era o Exército buscando legitimação para o regime de exceção. A manchete do Jornal “O Serrano”, sobre o acontecimento: “Exercito Comunga com o Povo.”
O Rotary Clube de Itabaiana prestou uma homenagem especial ao Exército Nacional pelas ações de treinamento anti-guerrilha em Itabaiana, na pessoa do comandante do 28º BC, João Neiva de Mello Távora.
O comandante do 28º BC, em discurso no Rotary, justificou a escolha de Itabaiana para o local dos exercícios militares: a presença da sub estação da CHESF na cidade. Contudo, o serviço de inteligência militar apontava a presença de subversivos na cidade.
Exagero!
Itabaiana sempre foi um ninho de devotos, onde se beijava as mãos dos padres (ainda de batina); guardavam-se os domingos e dias santos, ia-se ao catecismo e rezava-se todas as noites para o anjo da guarda.
A operação ante guerrilha incluía uma ação cívico social. O exército realizou atendimento médico, odontológico e veterinário em vários povoados de Itabaiana. Observando o relatório do exército, vários serviços foram realizados, incluindo 700 cortes de cabelo. O corte preferido foi o “Príncipe Danilo”.
A ação anti-guerrilha em Itabaiana, coincidiu com a visita do Presidente Médici a Sergipe. Na ocasião, foi anunciada pelo Ministro Eliseu Resende a pavimentação asfáltica da BR – 235, no trecho Aracaju / Carira. A pavimentação foi concluída em 1973.
No mesmo mês da ação, novembro de 1971, o Presidente Garrastazu Médici Visitou Sergipe. O jornal itabaianense “O Serrano” noticiou: “A viagem do terceiro presidente revolucionário as Terras sergipanas foi coroado de pleno êxito, já que Aracaju inteira se floriu com o calor da visita presidencial.”
Continuou o Serrano: “Itabaiana cumprimentou o General Garrastazu Médici através do Deputado Pedro Garcia Moreno, que lhe ofereceu uma flâmula do Tremendão da Serra. Quebrando a rigidez do protocolo, o Deputado foi a única pessoa a se dizer torcedor do Flamengo, como Médici.”
Por que uma da ação ante guerrilha em Itabaiana? Uma cidade religiosa, apesar de ser governada pelo MDB, do Prefeito Filadelfo Araújo, um pacato alfaiate. Foi ele quem transferiu o Serviço Municipal de Água, para a DESO.
Estampou o Serrano em suas páginas: “Encerrada a semana de congraçamento Exército & Povo.” A cidade ficou literalmente ocupada, com a exposição do arsenal militar.
A ação anti-guerrilha foi real. Meia dúzia de soldados (os mais feios) fantasiados de guerrilheiros, se esconderam nos quintais e matagais do Beco Novo. A Inteligência do Exército identificou uma célula subversiva no Beco Novo. O Clube dos Trabalhadores era obra deles.
A tropa, bem armada (balas de festim), eliminou os dublês de subversivos em poucos dias. No Beco Novo, ninguém entendeu. Depois da guerra, a molecada saiu procurando as cascas das balas. Eu conseguir encontrar 7 capsula, uma em meu quintal.
A boca miúda, se comentava que a escolha de Itabaiana para uma ação anti-guerrilha, foi a ameaça de um grupo de idosos, viciados em dominó. Não é piada. Vamos aos fatos: um grupo de velhos, viciados em dominó, reunia-se diariamente na Farmácia Americana. A farmácia fechou.
Para continuarem com a jogatina, eles conseguiram as chaves do Diretório Municipal do MDB, dirigido em Itabaiana, pelo deputado Baltazar Francisco dos Santos, de Ribeirópolis. Os Velhos do Dominó criaram uma nova cafua.
Não se sabe quem levou, mas foi encontrado um panfleto com a foto de Fidel Castro entre os viciados no Dominó dos Velhos. Baltazar, para evitar complicações, retomou as chaves e acabou com o nicho de subversivos.
Esse fato, colocou o 28 BC em alerta máximo. A inteligência militar decidiu por uma ação anti-guerrilha em Itabaiana. Comunista tem astúcia do Cão, inventaram até um dominó subversivo em Itabaiana.
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
(por Antonio Samarone)
Havia uma perplexidade sobre o “porquê” da homenagem prestada ao presidente Médici, nomeando com o seu nome o Estádio de Futebol em Itabaiana. Recentemente o estádio foi rebatizado como Etelvino Mendonça.
De onde surgiu a motivação para a homenagem ao Presidente Garrastazu?
Em novembro de 1971, o 28º Batalhão de Caçadores realizou um treinamento anti-guerrilha em Itabaiana, combinado com uma ação de presença e ações cívicos sociais.
Era o Exército buscando legitimação para o regime de exceção. A manchete do Jornal “O Serrano”, sobre o acontecimento: “Exercito Comunga com o Povo.”
O Rotary Clube de Itabaiana prestou uma homenagem especial ao Exército Nacional pelas ações de treinamento anti-guerrilha em Itabaiana, na pessoa do comandante do 28º BC, João Neiva de Mello Távora.
O comandante do 28º BC, em discurso no Rotary, justificou a escolha de Itabaiana para o local dos exercícios militares: a presença da sub estação da CHESF na cidade. Contudo, o serviço de inteligência militar apontava a presença de subversivos na cidade.
Exagero!
Itabaiana sempre foi um ninho de devotos, onde se beijava as mãos dos padres (ainda de batina); guardavam-se os domingos e dias santos, ia-se ao catecismo e rezava-se todas as noites para o anjo da guarda.
A operação ante guerrilha incluía uma ação cívico social. O exército realizou atendimento médico, odontológico e veterinário em vários povoados de Itabaiana. Observando o relatório do exército, vários serviços foram realizados, incluindo 700 cortes de cabelo. O corte preferido foi o “Príncipe Danilo”.
A ação anti-guerrilha em Itabaiana, coincidiu com a visita do Presidente Médici a Sergipe. Na ocasião, foi anunciada pelo Ministro Eliseu Resende a pavimentação asfáltica da BR – 235, no trecho Aracaju / Carira. A pavimentação foi concluída em 1973.
No mesmo mês da ação, novembro de 1971, o Presidente Garrastazu Médici Visitou Sergipe. O jornal itabaianense “O Serrano” noticiou: “A viagem do terceiro presidente revolucionário as Terras sergipanas foi coroado de pleno êxito, já que Aracaju inteira se floriu com o calor da visita presidencial.”
Continuou o Serrano: “Itabaiana cumprimentou o General Garrastazu Médici através do Deputado Pedro Garcia Moreno, que lhe ofereceu uma flâmula do Tremendão da Serra. Quebrando a rigidez do protocolo, o Deputado foi a única pessoa a se dizer torcedor do Flamengo, como Médici.”
Por que uma da ação ante guerrilha em Itabaiana? Uma cidade religiosa, apesar de ser governada pelo MDB, do Prefeito Filadelfo Araújo, um pacato alfaiate. Foi ele quem transferiu o Serviço Municipal de Água, para a DESO.
Estampou o Serrano em suas páginas: “Encerrada a semana de congraçamento Exército & Povo.” A cidade ficou literalmente ocupada, com a exposição do arsenal militar.
A ação anti-guerrilha foi real. Meia dúzia de soldados (os mais feios) fantasiados de guerrilheiros, se esconderam nos quintais e matagais do Beco Novo. A Inteligência do Exército identificou uma célula subversiva no Beco Novo. O Clube dos Trabalhadores era obra deles.
A tropa, bem armada (balas de festim), eliminou os dublês de subversivos em poucos dias. No Beco Novo, ninguém entendeu. Depois da guerra, a molecada saiu procurando as cascas das balas. Eu conseguir encontrar 7 capsula, uma em meu quintal.
A boca miúda, se comentava que a escolha de Itabaiana para uma ação anti-guerrilha, foi a ameaça de um grupo de idosos, viciados em dominó. Não é piada. Vamos aos fatos: um grupo de velhos, viciados em dominó, reunia-se diariamente na Farmácia Americana. A farmácia fechou.
Para continuarem com a jogatina, eles conseguiram as chaves do Diretório Municipal do MDB, dirigido em Itabaiana, pelo deputado Baltazar Francisco dos Santos, de Ribeirópolis. Os Velhos do Dominó criaram uma nova cafua.
Não se sabe quem levou, mas foi encontrado um panfleto com a foto de Fidel Castro entre os viciados no Dominó dos Velhos. Baltazar, para evitar complicações, retomou as chaves e acabou com o nicho de subversivos.
Esse fato, colocou o 28 BC em alerta máximo. A inteligência militar decidiu por uma ação anti-guerrilha em Itabaiana. Comunista tem astúcia do Cão, inventaram até um dominó subversivo em Itabaiana.
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
A CULTURA AFRO-ITABAIANENSE.
A Cultura afro-itabaianense.
(Por Antonio Samarone).
O itabaianense é vaidoso da sua descendência sefardita, cristão novos portugueses. Entre os primeiros colonos do vale do Jacarecica, os judeus novos predominavam.
A expertise dos itabaianense para os negócios é atribuída a essa origem judaica. Os historiadores acadêmicos, ainda não encontraram provas documentais. A sabedoria popular atávica, confirma a origem.
E os negros, qual a sua participação na cultura itabaianense? Preto é uma categoria usada pelo IBGE, com fundo biológico. Negro é uma identificação cultural, de povo, nação.
Antigamente, se negava: “Itabaiana não tem negros.” Tese defendida até por historiadores consagrados. Nem pretos, nem índios. Os dados da época apontam em direção contrária. Segundo o mapa estatístico, organizado por Manoel Diniz Vilas Boas, em 1854, Itabaiana possuía uma população de 7.879 habitantes, com 1.560 escravizados. Ou seja, 20% de pretos.
No último censo (2022), o IBGE promoveu uma confusão: criou a categoria dos pardos, que representam em Itabaiana 59%, quase todo o mundo. 32% se declararam brancos e 8,3 pretos.
Do ponto de vista histórico, são conhecidos 5 quilombos em Itabaiana: Carrilho, Dendezeiro, Tabocas, Barro Preto e Tabuleiro dos Caboclos.
A famosa castanha assada de Itabaiana é uma herança da culinária negra.
Não confundir as castanhas do Ceará, tipo exportação, que primeiro são autoclavadas, amolecidas e as amêndoas retiradas para se torrar no forno. As castanhas do Carrilho são assadas diretamente sobre chapas aquecidas sobre o fogo, E depois quebradas.
Polêmicas à parte, Itabaiana foi a pátria de dois heróis do movimento negro: Quintino de Lacerda e João Mulungu, que serão homenageados no próximo 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, pela Câmara Municipal.
Amanha, teremos uma amostra: A Câmara de Vereadores, por iniciativa do vereador João Cândido, concederá o título de Cidadão Itabaianense, ao mais importante líder do movimento negro em Sergipe, Severo D”Acelino.
Na oportunidade, entre as homenagens prestadas a Severo, o Instituto Maestro Antonio Silva, acontecerá a primeira apresentação da recém criada “Banda de Pífano João Mulungu”.
Quem puder prestigiar, a solenidade será no dia 19/08, as 18:30 horas, na Câmara Municipal de Itabaiana.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
DULCE DOS POBRES
Dulce dos Pobres.
(por Antonio Samarone)
Eu fui a festa de Santa Dulce dos Pobres, na Bahia (13 de agosto). O Largo de Roma superlotado de deserdados. Gente humilde, velhos, coxos, cegos, sofredores de todos os males, tomados de emoções, louvavam a Santa.
“In hac lacrimarum valle”! Não, não era o vale de lágrimas, da Salve Rainha. Era uma vale carregado alegria, amor e felicidade.
Quando o Padre Antonio Maria cantou noite traiçoeira, nas passagens “Deus está aqui nesse momento, sua presença é real em meu viver... e ainda que vier noite traiçoeira... o mundo quer ver você chorar, mas Deus te quer sorrindo...” a multidão de devotos explodiu de emoção, cantaram alto num coro divino, riam e choravam de felicidade.
Eu, perdido na multidão.
Não sei explicar. A felicidade não precisa da razão. Aquele solo sagrado do Largo de Roma, em Salvador é santificado. Meus anos de pretensões intelectuais, de ateísmo arrogante, era soterrado por aquela manifestação de fé, onde a vida estava sendo ressacralizada.
Não falo dos padres, eles defendem a igreja, enquanto instituição. Falo da fé coletiva.
Baixei a cabeça e chorei silenciosamente. Estava ali a “sarça ardente”? Lembrei-me da passagem do Êxodo: “Moisés, Moisés! E ele respondeu: Eis-me aqui. Tire as sandálias, poque o lugar onde estás é terra santa.” Deus se manifesta coletivamente.
Aquela multidão sofredora estava feliz. Esse é o maior milagre de Santa Dulce dos Pobres.
Encontrei com Dona Terezinha (foto), que faz parte de um grupo terapêutico “Piscontente”. Onde pessoas depressivas, infelizes, enxarcadas de psicotrópicos, superam a tristeza com a graça divina.
Dona Terezinha irradiava felicidade.
As senhoras do “psicontente” recuperaram a alegria de viver. Eu vi.
Senti-me envergonhado das minhas tristezas.
Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.
(por Antonio Samarone)
Eu fui a festa de Santa Dulce dos Pobres, na Bahia (13 de agosto). O Largo de Roma superlotado de deserdados. Gente humilde, velhos, coxos, cegos, sofredores de todos os males, tomados de emoções, louvavam a Santa.
“In hac lacrimarum valle”! Não, não era o vale de lágrimas, da Salve Rainha. Era uma vale carregado alegria, amor e felicidade.
Quando o Padre Antonio Maria cantou noite traiçoeira, nas passagens “Deus está aqui nesse momento, sua presença é real em meu viver... e ainda que vier noite traiçoeira... o mundo quer ver você chorar, mas Deus te quer sorrindo...” a multidão de devotos explodiu de emoção, cantaram alto num coro divino, riam e choravam de felicidade.
Eu, perdido na multidão.
Não sei explicar. A felicidade não precisa da razão. Aquele solo sagrado do Largo de Roma, em Salvador é santificado. Meus anos de pretensões intelectuais, de ateísmo arrogante, era soterrado por aquela manifestação de fé, onde a vida estava sendo ressacralizada.
Não falo dos padres, eles defendem a igreja, enquanto instituição. Falo da fé coletiva.
Baixei a cabeça e chorei silenciosamente. Estava ali a “sarça ardente”? Lembrei-me da passagem do Êxodo: “Moisés, Moisés! E ele respondeu: Eis-me aqui. Tire as sandálias, poque o lugar onde estás é terra santa.” Deus se manifesta coletivamente.
Aquela multidão sofredora estava feliz. Esse é o maior milagre de Santa Dulce dos Pobres.
Encontrei com Dona Terezinha (foto), que faz parte de um grupo terapêutico “Piscontente”. Onde pessoas depressivas, infelizes, enxarcadas de psicotrópicos, superam a tristeza com a graça divina.
Dona Terezinha irradiava felicidade.
As senhoras do “psicontente” recuperaram a alegria de viver. Eu vi.
Senti-me envergonhado das minhas tristezas.
Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
ULISSES DE HOMERO.
A Odisseia de Homero.
(por Antonio Samarone)
O cinema internacional agita-se com Ulisses, o novo filme de Nolan. Volta-se a se falar na Odisseia. Eu entrei na onda e fui reler. O que diz a Odisseia? Porque continua sendo um dos maiores clássicos da humanidade.
Na verdade, o poema trata da jornada da alma humana. Com o fim da guerra de Troia, Ulisses enfrentou a viagem de volta ao pequeno Reino de Ítaca. A guerra durou 10 anos.
Ele precisou enfrentar 10 obstáculos, no mar bravio, cheio de tempestades e monstros. O mar representa a vida, e as dificuldades são os arquétipos da natureza humana.
A ele é oferecido a imortalidade e a eterna juventude, com um preço: deixar de ser quem ele era. Ele opta pelo envelhecimento, a dor e o sofrimento, para não abrir mão da identidade.
Quem está envelhecendo, enfrenta os mesmos arquétipos (padrões estabelecidos atavicamente), que definem o nosso destino Não é fácil, esperar a morte com sobriedade. Geralmente, a escolha é não prestar a atenção. Procura-se uma zona de conforto.
Cada capítulo da Odisseia é uma reflexão sobre a alma humana.
Esse meu escrito, efêmero, destinado a leitores apressados das redes sociais, não permite aprofundar sobre as reflexões de Ulisses. Nem mesmos, as mais conhecidos, como o canto das sereias.
O risco é a zona de conforto ofuscar a realidade: a jornada da vida ainda não terminou. Tirésias, o sábio cego da odisseia, orienta que a principal providencia na velhice é abandonar a tirania dos desejos, cuidar do corpo e manter a vida ativa.
O segredo é continuar plantando árvores, memo sabendo que não aproveitará nem da sombra, nem dos frutos.
O medo da morte não pode impedir que se viva o tempo que ainda resta. A velhice não é uma espera. Se alma continua depois da morte, há esperanças; se não continua, não haverá sofrimento. Não vagaremos sem rumo, no Cosmo frio e escuro. As trevas (buraco negro), deixam de ser uma ameaça.
Vou chegar a Ítaca, anônimo, como mendigo, espero que pelo menos “Argos” me reconheça. A ansiedade, é que não sabemos o tempo que resta até a chegada.
Esse texto me ajudou a enfrentar uma madrugada insone.
Antonio Samarone (Academia Itabaianense de Letras)
(por Antonio Samarone)
O cinema internacional agita-se com Ulisses, o novo filme de Nolan. Volta-se a se falar na Odisseia. Eu entrei na onda e fui reler. O que diz a Odisseia? Porque continua sendo um dos maiores clássicos da humanidade.
Na verdade, o poema trata da jornada da alma humana. Com o fim da guerra de Troia, Ulisses enfrentou a viagem de volta ao pequeno Reino de Ítaca. A guerra durou 10 anos.
Ele precisou enfrentar 10 obstáculos, no mar bravio, cheio de tempestades e monstros. O mar representa a vida, e as dificuldades são os arquétipos da natureza humana.
A ele é oferecido a imortalidade e a eterna juventude, com um preço: deixar de ser quem ele era. Ele opta pelo envelhecimento, a dor e o sofrimento, para não abrir mão da identidade.
Quem está envelhecendo, enfrenta os mesmos arquétipos (padrões estabelecidos atavicamente), que definem o nosso destino Não é fácil, esperar a morte com sobriedade. Geralmente, a escolha é não prestar a atenção. Procura-se uma zona de conforto.
Cada capítulo da Odisseia é uma reflexão sobre a alma humana.
Esse meu escrito, efêmero, destinado a leitores apressados das redes sociais, não permite aprofundar sobre as reflexões de Ulisses. Nem mesmos, as mais conhecidos, como o canto das sereias.
O risco é a zona de conforto ofuscar a realidade: a jornada da vida ainda não terminou. Tirésias, o sábio cego da odisseia, orienta que a principal providencia na velhice é abandonar a tirania dos desejos, cuidar do corpo e manter a vida ativa.
O segredo é continuar plantando árvores, memo sabendo que não aproveitará nem da sombra, nem dos frutos.
O medo da morte não pode impedir que se viva o tempo que ainda resta. A velhice não é uma espera. Se alma continua depois da morte, há esperanças; se não continua, não haverá sofrimento. Não vagaremos sem rumo, no Cosmo frio e escuro. As trevas (buraco negro), deixam de ser uma ameaça.
Vou chegar a Ítaca, anônimo, como mendigo, espero que pelo menos “Argos” me reconheça. A ansiedade, é que não sabemos o tempo que resta até a chegada.
Esse texto me ajudou a enfrentar uma madrugada insone.
Antonio Samarone (Academia Itabaianense de Letras)
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