sábado, 26 de setembro de 2026

PETRÕNIO GOMES, UM CRONISTA SERGIPANO.


Petrônio Gomes, um cronista sergipano.
(por Antonio Samarone)

Já passei na vida, por muita coisa trabalhosa. Mas, nada se compara em querer disciplinar o trânsito. Uma missão quixotesca. Fui diretor da SMTT, em Aracaju. Cheio de boas intensões e muita ingenuidade, tentei reduzir a velocidade permitida. Aliás, já estabelecida no Código de Trânsito.

Hoje recebi essa crônica do sergipano Petrônio Gomes, presente de um amigo. Um mimo. Uma joia literária. No mesmo nível das crônicas do capixaba, Rubem Braga. A arte e os talentos são universais.

Vou transcrevê-la:

Devagar e sempre.

O dr. Samarone disse que vai ser assim e pronto. Não adianta possuir carrão fogoso com velocímetro de três dígitos, metido a gato mestre. A fábrica inventou motor valente porque quis, mas em Aracaju tudo fica perto. Se quiser correr, procure outra freguesia.

A galera protestou: “Como é possível sair do emprego ao meio-dia, apanhar um filho em cada colégio, passar em casa e almoçar feijão frio sem lavar o rosto, voltar para o batente em uma hora, dirigindo em passo de tartaruga”.
O superintendente respondeu que ainda está para existir uma tartaruga que consiga se locomover a sessenta quilômetros por hora, uma declaração que não ofende a lógica mais elementar.

Mas as opiniões estão divididas, não entre dias facções, e sim entre meia dúzia delas. Pelas ondas radiofônicas, a população disse o que lhe passou pela cabeça, forçando os apresentadores dos programas a soltar uma risada de vez em quando para esfriar os ânimos.

Quando liguei a televisão para assistir ao jornal vespertino, o repórter olhou para mim e ameaçou: “Você, aí, telefone agora e diga sua opinião”.

Ele achou pouco um dia inteiro com um só assunto e martelar os ouvidos da gente e resolveu continuar a briga de noite. Nem dei bolas e desliguei. Mas deixarei aqui a minha opinião sincera, esperando que a maioria dos leitores desse querido jornal não ligue muito para o que eu vou dizer.

Na verdade, dr. Samarone tem suas razões legitimas para tomar suas providências no sentido de diminuir a velocidade permitida aos veículos. Sendo médico, basta-lhe mostrar ao público as estatísticas sombrias dos acidentes automobilísticos com gente estendida no asfalto e sangue para todo o lado. E, sendo o chefe atual do órgão, cabe-lhe até o direito de mudar o assunto.

Muitos dos ouvintes também falam com razão. Sabem o que está causando toda essa confusão? É que no pacote dos que querem um pouco mais de velocidade, existem os motoristas responsáveis e irresponsáveis. Estes últimos sempre falam nos mesmos motivos que levam os primeiros a protestar, perceberam? Como separar uns dos outros no calor da discussão?

O que é fato é que Aracaju tem carros em demasia. Vejam-se as ruas principais da cidade, de uma ponta a outra, em qualquer hora do dia. Existem carros estacionados de um lado e de outro. As garagens dos prédios não comportam o número dos veículos, pois existe o do dono do apartamento, o dos filhos e, as vezes, de um criado ou vigia.

Uma pessoa ligada a engenharia de tráfego me disse um dia que ninguém poderia dirigir em nossa cidade se todos os automóveis saíssem de uma só vez. Multiplique-se o tamanho em média de cada veículo pelo número dos que existem hoje em Aracaju. Em seguida, dividam o resultado pela extensão das vias públicas. E todo mundo ficará sem sair do lugar, a bordo de um carrão parado.

Tenho pena do dr. Samarone, tenho pena dos pais que almoçam feijão frio e que voltam para o batente sem vontade de rir para o chefe. Já passei por tudo isso, e em um tempo muito mais suave, quando a gente diminuía a marcha do carro para esperar que um cachorro atravessasse a rua. Vocês dirão que esse tempo era bom demais.

Nem tanto. Havia outros problemas que nem quero dizer agora. Só em outras crônicas.

Petrônio Gomes.

Antonio Samarone (Academia Sergipana de Medicina)
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O INSTITUTO PARREIRAS HORTA.


 O Instituto Parreiras Horta.

(por Antonio Samarone)

Na Rua Campo do Brito, ao lado do Batistão, funcionava o Instituto Parreiras Horta, o templo da Saúde Pública sergipana. Um prédio de inspiração mourisca, imitando a Fundação Manguinhos, no Rio de Janeiro.

O prédio central do IPH foi abandonado há décadas. Em dezembro de 2015, o governador anunciou a cessão de uso do Prédio, para a Academia Sergipana de Medicina, visando a instalação de um memorial da medicina em Sergipe. Promessa vai, promessa vem, e o histórico prédio público continua em “reformas.”

Qual a origem desse berço da medicina em Sergipe?

No começo do Governo Graccho, em 14 de novembro de 1922, a lei n.º 836, em seu artigo 4º, letra K, autorizou a fundação de um Instituto voltado para a Saúde Pública. Em 23 de julho de 1923, a pedra fundamental foi lançada.

O medico e cientista Paulo de Figueiredo Parreiras Horta, desembarcou em Aracaju, junto com a família, em 20 de junho de 1923, para comandar a instalação de um “Instituto Pasteur”, em Sergipe.

Aqui nascia a medicina científica em Sergipe, impulsionada pelo IPH e pelo Hospital de Cirurgia.

O projeto era construir, ao mesmo tempo, um Instituto Pasteur, voltado para o combate à raiva; um Instituto Vacinogênico, para a produção da vacina anti-varíola e um laboratório de análise clínica, bacteriológica e química; e que também funcionasse como um centro de pesquisas médicas.

Entregou a responsabilidade a um médico (clínico e dermatologista), cientista experiente, diplomado pelo Instituto Pasteur na França, o ilustre Dr. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta.

O Instituto foi construído em tempo recorde de apenas oito meses.
Em 05 de maio de 1924, ocorreu a sua festiva inauguração.

O Governador do Estado, em seu discurso durante a inauguração do Instituto, expressou uma esperança: “Sabemos que nossa Capital é tida como uma das cidades mais infamadas, avultando-se novamente o perigo de algumas febres, dizem, de origem desconhecida pelo próprio Oswaldo Cruz, que as denominou como nossas, capitulando como exclusivamente nossos os germes de que elas se geram. Que febres serão essas, que sob o encanto destas paisagens sorridentes, encontrou o seu foco ou o seu berço?

Essa tarefa o Instituto Parreiras Horta cumpriu com competência. Não somente esclareceu a etiologia dessas febres (identificadas como tifoides), como conseguiu o isolamento dos germes e a fabricação de uma vacina oral, por meio de pequenas modificações de um método do Instituto Pasteur.

Na verdade, as febres do Aracaju eram o pesado tributo pago pela população mais pobre às péssimas condições sanitárias da Capital.

A vacina contra as febres tifoide e paratifoides, que no Brasil foi produzida pela primeira vez em Sergipe, era obtida cultivando-se várias amostras de bacilos tíficos e paratíficos “A” e “B”, em garrafas contendo ágar inclinado. No fim de 24 horas, as culturas eram retiradas da superfície do ágar e emulsionadas em água fisiológica esterilizada. Fazia-se a contagem dos germes, previamente mortos com iodo, no hematímetro de Thoma-Zeiss. A solução era diluída a 2% numa solução decinormal de iodo. Após esse processo, a vacina resultante era distribuída em ampolas de 5, 10 e 20 cm3.

A vacina era empregada via oral, 20 gotas diluídas em água, tomadas em jejum, durante três dias consecutivos. Quanto à eficácia da vacina, hoje sabemos que era quase nula, mas, à época, como houve uma importante redução na incidência das febres, por outros motivos, o sucesso foi atribuído automaticamente à vacinação em massa praticada em Sergipe.

Parreiras Hortas retornou ao Rio de Janeiro, em 08 de dezembro de 1925. O comando do IPH fica em mãos do Dr. João Firmo. Na década de 1940, o IPH passou para o comando do médico itabaianese Theotonilio Mesquita.

Na visão de Augusto Leite: “O Instituto Parreira Horta dilatou os horizontes da clínica, abrindo para Sergipe uma nova e promissora fase. É amparado no homem de laboratório que o clínico de hoje caminha."

"O cirurgião e o médico, volta e meia, lhe vão pedir orientação terapêutica, a confirmação de um prognóstico mal seguro ou a traça de uma doença que é só observação lhes não permite descobrir e autenticar."

O IPH ainda tem o seu nome vinculado a criação da primeira Faculdade de Medicina de Sergipe. Foi em suas instalações, que Silvano Izquierdo Laguna, professor da Escola de Medicina de Salamanca, ministrou a primeira aula de anatomia da Faculdade de Sergipe, em 21 de março de 1961.

Atualmente, esse relevante prédio público aguarda um destino condizente com a sua história, símbolo da introdução medicina cientifica em Sergipe. O histórico prédio do IPH, se arrasta, em uma reforma interminável.

Ontem, no tradicional almoço da SOMESE, o candidato Valmir de Francisquinho, garantiu a conclusão da obra e a imediata liberação do Prédio, para a Academia de Medicina, cumprindo uma promessa de 11 anos.

Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A ESQUINA DO SEU FLORIANO.


 A Esquina do Seu Floriano.

(por Antonio Samarone)

Na década de 1960, em Itabaiana, existia uma bodega em cada esquina. Bodega ou bar. Creio que em decorrência das mudanças econômicas da cidade. De cidade celeiro (agrícola), para polo comercial.

A bodega do Seu Floriano, chamava a atenção. Era uma bodega especializada em charutos. Localizada na esquina das ruas da Pedreira e Macambira, (atuais ruas Marechal Deodoro e Antonio Dutra).

Até o início da década de 1960, o fumo (Nicotina tabacum) era um produto apreciado por muitos, visto como um hábito saudável. Usado como rapé, mascar, fumar (cachimbos, charutos e elegantes cigarros e cigarretes).

Só os granfinos, fumavam charutos Montecristo ou Romeo y Juliueta. Zeca Mesquita, o único nobre de linhagem, em Itabaiana, só andava com ternos de linho branco, engomados, relógio de algibeira, sapato e meia e, em momentos solenes, fumando um charuto importado.

Os menos ricos, mas com pose de rico, fumavam um Suerdieck, produzidos no Recôncavo Baiano. A classe média e os funcionários do Banco do Brasil, se contentavam com um charuto Walkíria, fabricados na próspera Estância.
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O povo atrevido, se esbaldava nos ‘mata-ratos”. Acho que Durval do Açucar, mesmo rico, traçava um bom mata-rato, pelo prazer das cusparadas. O cuspe dos mata-ratos é denso, pastoso, e contamina com o cheiro forte um raio de 2 Km.

Mamãe, descendente direta dos Tupinambás, mascava capas de fumo e usava um cachimbo de bola de barro e canudo-de-pito. Um vegetal encontrado no sertão baiano. Eu não gostava do cheiro, mas, naquele tempo, menino não apitava.

A bodega de Seu Floriano tinha um bom estoque de charutos.

Não me lembro de granfinos em Itabaiana, fumando cachimbos, a moda inglesa. Desconheço imitadores de Sherlock Holmes em minha infância. Em Aracaju, eu tenho um grande amigo, um aristocrata: Ivan do Cachimbo, que desfilava solene na Atalaia Nova.

O prestigio do fumo declinou, quando um pesquisador inglês, Richard Doll, publicou em 1950, no British Medical Journal, as evidencias que o fumo causava câncer de pulmão. A notícia se espalhou rápido. Fumar virou quase uma estupidez.

Por conta da medicina inglesa, a marinete de Seu Oviedo, que fazia linha para Aracaju, estampou no para-brisa: “É proibido fumar charutos, cachimbo e cigarros de palha”. Os cigarros da Souza-Cruz, ainda eram permitidos. O hábito de fumar foi combatido.

Com a perda de prestigio do fumo, difamado pela medicina inglesa, os consumidores dos charutos diminuíram. Para a minha tristeza a bodega do Seu Floriano, sem clientes, fechou.

Deixe-me explicar. Não fiquei triste pelo fim dos charutos.

A bodega de Seu Floriano não vendia só charutos. Foi lá, que pela primeira vez eu comi “espécia”. Um doce divino, que eu chamei de ambrosia. Talvez influenciado pela ambrosia (doce de leite, com ovos), ou pela mitologia grega, onde ambrosia era um alimento dos deuses no Olimpo.

Eu ainda não tinha lido Homero, mas lembrei-me da ambrosia.
A minha ambrosia é um doce de amendoim, que não é paçoca, popularmente chamado de “espécia” ou “espeça”, composto de amendoim torrado, pisado no pilão; com raspa de rapadura ou açúcar mascavo; canela, cravo-da-índia, noz-moscada e gengibre.

O doce é uma mistura das especiarias da Índia, com a culinária portuguesa. A “espécia” recebeu forte influência árabe.

Hoje, o doce foi muito modificado. Ando a procura da “espécia” com o sabor da primeira, da bodega do Seu Floriano. Já experimentei várias, sem sucesso. Cada doceira, inventa a sua receita.

Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.

domingo, 13 de setembro de 2026

A FOME E O MOUNJARO EM SERGIPE.

A fome e o mounjaro em Sergipe.
(por Antonio Samarone)

Adiberto Souza, advertiu em sua coluna (11/09): a fome devasta Sergipe. Fui a fonte. O IBGE divulgou em sua última pesquisa: 297 mil lares sergipanos vivem com insegurança alimentar. 199 mil em grau leve, 64 mil no moderado e 34 mil em situação grave, ou seja, são 34 mil famílias passando fome.

Segundo o IBGE, fome é a redução quantitativa de alimentos, com episódios de privação.

O jornalista Adiberto alerta, o Governo limitou-se a criar o “prato do povo”, uma sub quentinha com refresco”, uma refeição de segunda a sexta. Bastava a grana que se gasta em meia dúzia de shows, e um planejamento adequado, para um Sergipe sem fome.

Esse deve ser o compromisso de qualquer governo. Aliás, do governo e da sociedade.

Já tinha percebido, em minhas andanças eleitorais, capital e interior, que os sinais de pobreza aparente, tinham crescido em Sergipe. O IBGE aponta um indicador. A fome mostra as suas garras em Sergipe.

Sergipe apresenta uma desigualdade social inaceitável. Os militantes sociais diziam: “uma parte da sociedade não dorme por conta da fome, outra, não dorme com medo dos que tem fome.” Isso é retórica. Quem tem fome, não mete medo. Eles precisam de justiça social.

A desigualdade social se manifesta por outro caminho. Vivemos em Sergipe, a febre do mounjaro. Virou moda. Os médicos estão em festa. Muitos aplicam diretamente em seus consultórios. A indústria farmacêutica, a Eli Lilly, resolveu dividir o bolo.

Atualizando a sentença: “um parte da sociedade passa fome e outra toma mounjaro.”

O mounjaro foi autorizado pela Anvisa em 2023. Entre junho de 2025 e julho de 2026, o mounjaro movimentou 13,5 bilhões em vendas e alcançou e milhões de usuários.

Atualmente, é a droga de maior faturamento no Brasil. Sem contar com o uso de canetas de mounjaro clandestinas, que ninguém controla, nem sabe a dimensão.

O mounjaro sozinho, representa 5% de todo o faturamento do varejo farmacêutico nacional. Um medicamento recente. Onde isso vai parar?

A situação não é mais grave, pelo preço da droga. Na dose de 5 mg, a caixa custa R$ 1.779 reais, o que equivale a R$ 445 reais por caneta/aplicação.

A conversa dominante em qualquer roda de granfinos em Sergipe, versa sobre quem está usando ou não o mounjaro. O uso da caneta emagrecedora é sinal de distinção social. A tirzepatida, o princípio ativo do mounjaro, é o preferido das estrelas.

Eu sei que vai aparecer algum médico, justificando o seu uso medicamentoso. Não estou tratando da clínica médica. O tema é o uso social do mounjaro. A explosão do consumo. Sem especulação: os interessados podem ler a bula. O que a Ely Lilly informa.

Nos EUA, a droga começou a ser comercializada em 2022. Lá eles são mais sofisticados. A tirzepatida é vendida com o nome comercial de mounjaro, para diabetes; e como Zepbound, para obesidade.

A febre de consumo lá é maior: 31 milhões de americanos usam a celebre caneta. 12% dos adultos estão dependentes. Usam e depois se empanturram.

Resumindo para quem não é especialista em Saúde Pública: vimemos uma distopia alimentar. Dois problemas graves de Saúde: fome e obesidade.

Em Sergipe, o IBGE quantificou: 70 mil sergipanos passam fome (o dado do IBGE é por famílias) e outros 70 mil estão mamando mounjaro (o dado é pelo volume de vendas), entupidos de alimentos.

Bastava um acordo. Promover a educação alimentar dos 5% dependentes do mounjaro, e repassar o alimento excedente para os 5% que passam fome.

Não estou simplificando. O uso do mounjaro ficaria limitado aos que possuíssem patologias, onde o uso medicamentoso fosse hipoteticamente indicado.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

RAFAEL DOS PENICOS


 Rafael dos Penicos.

(por Antonio Samarone)

Rafael Alves de Menezes, um ceboleiro do Pé do Veado, que ainda pequeno, veio morar na localidade Bom Jardim, próximo ao Riacho da Macela Preta.

Durante a construção do Açude da Macela (1955/58), passou uma estrada em seu sítio de Rafael e ele se mudou para a Rua do Futuro, depois da bodega de Nete.

Uma referência importante, Seu Toti do mingau, que vendia bolo na esquina do armazém de Sizino, era genro de Rafael.

Rafael criou a família consertando penico e guarda-chuva, ofícios extintos pelo desenvolvimento. Ninguém mais usa penico e um guarda-chuva custa 8 reais, no comércio de Itabaiana.

Rafael foi casado com Dona Menininha e tiveram 4 filhas: Maria Conceição Lisboa (esposa de Seu Toti), Maria José, Celina e Zefinha.

O seu neto mais conhecido, Zé de Toti, mora na casa que Rafael morou em Aracaju, no Bairro Matadouro. E se esconde num sítio, na Colônia Miranda, em São Cristóvão.

Rafael era um artista popular de grande repertório. Levou o teatro de bonecos para Itabaiana. Fazia todas as vozes dos personagens. Rafael também era ventrículo.

O Beco Novo parava, durante as apresentações de Rafael dos Penicos. Eu sempre estava na plateia. Permaneço encantado com aquela arte. Quando uma neta de Rafael me mostrou um retrato antigo, depois de 60 anos, a minha memória foi taxativa: É ele...

Rafael foi um palhaço engraçadíssimo. Era falador de leilões: “entreguei, tá entregue! Música...”, celebrava casamento caipira. Nos leilões, se o dono quisesse, ele vendia até a mesa.

Rafael chamava a sua arte de presépio, e carregava tudo numa mala. O genro Zé Itabaiana, era quem carregava a mala. Em Itabaiana, teatro de bonecos ou teatro de fantoches era presépio.

Em Pernambuco o teatro de bonecos é mamulengo, babau na Paraíba, João Redondo no Rio Grande do Norte. Em Itabaiana era presépio. Entenderam a origem da palavra presepada.

Quando os tempos apertavam, Rafael virava rezador. Um curandeiro muito solicitado. Quando ia rezar para a dor de dente, ele perguntava ao paciente: se a reza é só para dor, ou queria a queda do dente. Na segunda opção, o dente caia em menos de 8 dias.

Rafael era um orador consagrado, nos comícios de Euclides. Ele chegava a falar durante 2 horas, se fosse necessário. Sempre de terno, para impor respeito. Rafael se intitulava Dr. Rafael, mesmo sendo analfabeto. Só assinava o nome. Para compensar, era de uma inteligência poderosa.

Rafael era muito querido em Itabaiana.

Uma filha de Zé Crispim, botou o nome da filha Rafaela. Na hora do batizado, o Padre deu parabéns, pelo nome: - “que bela homenagem, a Irmã Rafaela”. A mãe retrucou: - “Padre me desculpe, a homenagem é a Rafael dos Penicos”. A igreja caiu no riso.

Rafael, artista, comunicativo, engraçado, se apaixonou pela política. Era cabo eleitoral de Euclides Paes Mendonça. Daqueles apoiadores chatos, ousados e encrenqueiros.

Na eleição de Governador, em 1963, Rafael falava cobras e lagartos sobre o candidato da oposição, Seixas Dórea. Irritou tanto, que os correligionários de Seixas, prometeram, que se ganhassem, iam jogar Rafael numa coivara para ele queimar a língua. E Seixas ganhou.

Em pouco tempo, mataram Euclides Paes Mendonça. Rafael entrou em desespero. Procurou o amigo, padrinho e protetor desembargador Luiz Magalhães, que tinha sido juiz em Itabaiana e tornara-se seu amigo. Magalhaes não o abandonou. Rafael, em menos de 20 dias, se mudou para Aracaju.

Saiu de Itabaiana corrido.

Rafael continuou com as suas presepadas em Aracaju, no bairro Matadouro, onde foi morar. Ia apresentar a sua arte, onde fosse convidado.

Faleceu no final na década 1980, no Hospital Santa Isabel, aos 84 anos. Está sepultado no Cemitério São João Batista.

Rafael dos Penicos vive, na memória cultural de Itabaiana.

Antonio Samarone. Secretário Itabaianense de Cultura.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

07 DE SETEMBRO & 02 DE JULHO.


 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

GEOGRAFIA SOCIAL DE ITABAIANA - 1960


 A Geografia Social de Itabaiana (1960).

(por Antonio Samarone).

A divisão social não era a europeia (burgueses X proletários). Em Itabaiana, na década de 1960, as classes sociais tinham endereço. Primeiro, a grande divisão Rural X Urbana.

Os rurais eram subdivididos em dois grupos: os proprietários, que possuíam casa de rancho, uma moradia na cidade, para as feiras e festas religiosas; e os pataqueiros, sem-terra, que viviam de ganho, da venda do dia de serviço. Muitas vezes, apenas pela comida.

Os dois grupos eram tratados pelos urbanos, com preconceito:

Eram os tabaréus. Visíveis a olho nu. Distintos pela fala, roupas, festas, apelidos, modos de vida, escolaridade e referências culturais. Mesmo os urbanos mais miseráveis, tinham um sentimento de superioridade, não queriam ser confundidos com os tabaréus.

As classes sociais entre os urbanos, eram definidas pelo endereço:

1. nas ruas do Sol e das Flores e na Praça da igreja, moravam os comerciantes, servidores federais, clero, políticos e magistrados. Os bem nascidos, os riquinhos e fidalgos ostentavam a pose dos ricos. Possuíam um clube social, a Associação Atlética, criada pelo médico da cidade, para festa e comemorações.

2. No Beco Novo e ruas Nova e do Fato, residiam os artesões (alfaiates e sapateiros, biscateiros, camelôs, comerciários, feirantes, motoristas e o povo em geral). A zona popular tinha o Clube dos Trabalhadores, criado pelos comunistas de Aldeia.

3. Nas ruas de Maraba, Sete Casa, rua do Tanquinho, residiam os “sans-culottes”, o lúmpen, os miseráveis, os deserdados da terra. Hoje, a rua de Maraba cresceu, se expandiu até a Praça João Pereira, e passou a se chamar rua Gumercindo de Oliveira (pai de Chico do Cantagalo. A região virou o bairro Bananeira.

Segundo Almeida Bispo, a rua de Maraba ocupa geograficamente os vestígios da passagem da estrada real Salvador/Olinda. Nisso em não me meto.

No gueto da rua de Maraba, brotava cultura. Rafael, que consertava penicos e guarda-chuvas, tinha um teatro de bonecos ou mamulengo. A memória de Rafael dos Penicos está se apagando, sem deixar ao menos o sobrenome. A minha hipótese, é que Rafael foi mais um flagelado, trazido pela seca, como veremos adiante.

O que unia a todos era a escola pública e a igreja católica. O Colégio Murilo Braga e Santo Antônio. O que desunia: a política e a economia. A farda do ginásio (caqui Floriano), dava uma ilusão de igualdade.

A inteligência artificial está confusa, sobre a rua de “Maraba”. Quem foi o tal “Maraba”, que deu nome à rua e quando? Também, a IA não é obrigada a saber de tudo. Como nasceu a rua de Maraba, quem foi o Maraba, que criou esse foco de pobreza extrema em Itabaiana?

A grande seca de 1951/53, aumentou a fome no Nordeste. O Governo Federal, através do DNOCS, organizou frentes de trabalho, para construir açudes, estradas e barragens. A calamidade da seca agravou a fome. Foi em 1953, que Luiz Gonzaga e Zé Dantas, lançaram um protesto musical: As Vozes da Seca.

Relembrando parte da letra:

“Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão/ Pelo auxílio dos sulistas nesta seca do sertão/ Mas doutor, uma esmola a um homem que é são/ Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.

É por isso que pedimos proteção a vosmicê/ Homem, por nós, escolhido, para as rédias o poder/ Pois doutor, dos vinte estados, temos oito sem chover/ Veja bem, mais da metade do Brasil tá sem comer.

Dê serviço a nosso povo, encha os rios e barragens/ Dê comida a preço bom, não esqueça a açudagem/ Livre assim, nós da esmola, que no fim desta estiagem/ Lhe pagamo inté os juros sem gastar nossa coragem.

E o Governo Federal abriu frentes de trabalho, recrutou os flagelados, e começaram a construir açudes. Em Sergipe, o primeiro foi o açude de Carira. O barramento do riacho Grutião. O açude foi concluído em 1955.

Euclides Paes Mendonça, usando o seu prestígio, convenceu o DNOCS a deslocar uma frente de flagelados, para construir o açude da Macela (1953 – 1957). O açude foi inaugurado em 1958.

O Dr. Mazze Lucas, em um conto – Açude, descreve essa jornada dantesca.

A maior obra pública de Itabaiana, o açude novo, foi construído com o suor dos flagelados da Seca de 1951/53. A grandeza da obra era dita com entusiasmo: “A barragem é tão grande, que por cima, passa até caminhão.”

A obra foi feita por empreitadas, diretamente, por trabalhadores avulsos, pagos por produtividade, e por pequenos feitores, chefes de turma. Aqui surge Seu Maraba.

Maraba era um flagelado empreendedor, do agreste alagoano, das proximidades da Serra da Maraba. Até hoje, ainda não se sabe o nome de batismo, mesmo ele tendo construído família em Itabaiana. Tenho notícias de dois filhos: José e Miguel. O Zé de Maraba era figura habitual nas cafuas e casas de jogatina.

Seu Maraba não foi apenas um peão de trecho, que, terminada a obra, açude da Macela, ficou em Itabaiana. Um saruabo, baixo, astuto, inteligente, um pequeno empreiteiro, que ganhou dinheiro na construção do açude de Carira.

Quando iniciou a construção do Açude da Macela (1953), Seu Maraba veio ganhar a vida em Itabaiana, como feitor, chefe de turma. Logo, construiu uma bodega, e passou a vender fiado, produtos básicos, para atender aos trabalhadores da frente, miseravelmente acampados nas proximidades.

Como ele era o feitor, era quem fazia os pagamentos. Inadimplência zero. Antes de pagar o devido, ele descontava a dívida da bodega. Simples!

O canteiro de obra do açude da macela foi descrito realisticamente, por Mazze Lucas, em seu livro de contos “Anum Preto”:

“Lá embaixo, erguendo-se preguiçosamente sobre o vale do Riacho da Macela, o paredão do açude enxameava de trabalhadores, uns afanosamente operando mangueiras d’água, outros descarregando a piçarra dos caminhões, enquanto outros ainda, espalhavam-na em camadas de um palmo de espessura.”

Na hora do almoço, descreve Mazze Lucas:

“os cossacos (trabalhadores flagelados da seca), procuravam as sombras das escassas árvores das cercanias. A maioria acocorou-se no mesmo local onde estavam. Abriram as mochilas ou latas e começaram a atirar na boca, sem perder um fragmento, a farinha de mandioca e os raros pedaços de carne seca, que as vezes conseguiram encontrar. Não lavavam as mãos nem o rosto, cobertos daquele barro amarelo com tonalidade de enxofre.”

“Quando há seca no Nordeste, o governo manda construir açudes. O interesse do flagelado seria não faltar açudes para construir, porque não lhe faltaria trabalho. O governo tinha pressa, para inaugurar a obra. Daí o trabalho ser pago na base da produção.”

Outro fato importante, sobre a seca de 1951/53. O grande José Viera Lima, chegou a Itabaiana em janeiro de 1952, vindo da empreitada de construção do açude de Cocorobó. Ele foi o principal encarregado, representando o DNOCS. Veio preparar o terreno para a construção do Açude da Macela. É notória a importância do Vieira Lima, o Barão do Beco Novo, para o desenvolvimento de Itabaiana.

Em pouco tempo, o arruado em torno da bodega de Maraba, nas proximidades do futuro açude, estava formado. Nascia a Rua de Maraba. Esses migrantes do flagelo da seca, se estabeleceram em Itabaiana. Tempos depois, foi nesse espaço que foram construídas as famosas Vilas de Zé de Melinha.

A formação étnica de Itabaiana, além dos sesmeiros portugueses, árabes e judeus, as sefarditas de Amsterdã, também recebeu quilombolas e flagelados. A minha hipótese: foi essa variedade de origens, que formou a alma itabaianense.

A seca de 1951/53, trouxe para Itabaiana os flagelados, para a construção da sua maior obra pública: o Açude da Macela. Eu sei, o Posto Agropecuário Fazenda Grande, com o seu lendário Jegue, foi importante para Itabaiana, mas não era uma obra, era um serviço.

Euclides Paes Mendoça inaugurou a obra dos flagelados da seca de 1951/53, como Açude Municipal, construído pelo DNOCS, em 1958. Sem muito foguetório. Esse aspecto nunca foi acentuado. Uma obra sem padrinhos, ao contrário do Campo de Aviação, no terrenos dos Breus.

Voltei no local, e o núcleo básico da Rua de Maraba e as vilas de Zé de Melinha, continuam intactas. A foto é prova. Mudou-se a cachaça que se tomava. Hoje, a mineirinha, uma cachaça adocicada, vendida em pequenos potes, 6 reais cada, que substituiu a casca de pau.

A urbanização do Bairro Bananeira cresceu em volta. Acho que o pequeno núcleo da Rua de Maraba deveria ser preservada, para essa história não cair no esquecimento. “A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer.” – Peter Burke.

A Rua Gumercindo de Oliveira é um prolongamento da Rua de Maraba, até a Praça General João Pereira. Não mudou o nome da Rua de Maraba.

Encontrado quem foi Seu Maraba, continuo procurando os rastros de Rafael dos Penicos, artista popular de minha infância, que morava naquela comunidade.

Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.