Uma tartaruga encalhada.
(por Antonio Samarone).
Fazendo a caminhada matinal nas Praias do Aracaju, no domingo da páscoa. Estirando as pernas, em companhia dos doutores Jorge Motta e Luciano Correia, nos deparamos com uma realidade pouco divulgada: as tartarugas desovam nas Praias do Aracaju, no trecho entre o Robalo e o São José dos Náufragos.
Desovam e são protegidas pelo competente Projeto Tamar. Conversamos com uma profissional do Projeto Tamar, presente no local, que nos prestou todos os esclarecimentos.
Uma diferença profunda: na Bahia, na Praia do Forte, a proteção ambiental do TAMAR é atração para o turismo ambiental. Em Aracaju, o mesmo projeto é quase desconhecido. Só as tartarugas são as mesmas.
Para evitar aborrecimentos, eu sei que a primeira base do Projeto Tamar, foi em Pirambu – Se (1982), sei também da grandeza do nosso Oceanário, o primeiro do Nordeste, e que abriga mais de 30 espécies. O projeto Tamar monitora 150 km de praias em Sergipe, 800 desova e 600 mil filhotes chegam ao oceano.
A minha queixa: precisa mais divulgação!
Estamos vaidosos, eu e os doutores da caminhada, por termos salvo uma tartaruguinha. Com fé em Deus, em breve será uma tartarugona. O Dr. Jorge, em um exame rápido, confirmou que era menina.
Luciano politizou a vivência: “não precisa ser especialista, para saber, que o turismo em Sergipe é o mais atrasado do Nordeste. Não aproveitar uma trilha ecológica, na Praia, tomada por tartarugas e carcarás, é a mais profunda incompetência.”
Encontramos essa tartaruguinha da foto, perdida, desorientada, no vasto areal da Praia. As irmãs acharam o mar, pela madrugada, ela não. Pensamos, vamos salvá-la? Eu logo concordei: “achei que nem era fácil, nem difícil.”
Os eruditos doutores, consultaram primeiro a Inteligência Artificial. O relatório da IA, tinha mais de 50 páginas. Um curso completo sobre as tartarugas.
O meu pragmatismo beco-novista, me empurrou para a ação. Pincei cuidadosamente a recém-nascida pelo casco, e levei-a ao Oceano. Ela balançava freneticamente as frágeis nadadeiras, em sinal de agradecimento.
Pensamos: se tivéssemos socorrido uma baleia encalhada, à noite, estaríamos no Fantástico; como o salvamento foi de uma modesta tartaruga, seremos literalmente ignorados.
Gente, ajude!
Antonio Samarone.
Em defesa das causas perdidas
domingo, 5 de abril de 2026
sexta-feira, 3 de abril de 2026
O ESPETÁCULO DA FÉ.
O Espetáculo da Fé.
(por Antonio Samarone)
As origens do teatro no Brasil são religiosas. No Brasil Colônia, os jesuítas usavam o teatro, como ferramenta de catequese e pedagogia. As peças de José de Anchieta se destacavam. Os autos de Natal eram os mais recitados.
Em Aracaju, em 1904, foi fundado o Teatro Carlos Gomes, criado pelo italiano Nicolau Pungitori. Depois renomeado Cine Teatro Rio Branco, em 1912.
Em Itabaiana, os registros são de 1913, com o cinema mudo. O teatro ganhou folego, com a chegada de luz de Paulo Afonso, e a fundação do Cinema de Zeca Mesquita.
Na década de 1950, o teatro notabilizou-se em Itabaiana, com dramaturgo e ator, José Amâncio Bezerra, discípulo de Procópio Ferreira. Entretanto, a arte em Itabaiana floresceu com a música e a fotografia. O teatro nunca foi protagonista.
Eu conheci o teatro, nos dramas, do Circo de Zé Bezerra: Antes da chegada da TV, com as suas novelas na TV, Itabaiana ficava acordada, esperando a hora dos dramas no Circo.
Além de circo, com palco e picadeiro, era também teatro. Cada dia com uma peça diferente. A louca do Jardim era casa cheia. A peça era uma adaptação para o teatro de um cordel, que começava em versos: “vinde musa mensageira, do reino de Eloim/Traz a pena de Apolo e escreva aqui por mim/o assassino da honra ou a louca do jardim.”
Instalado num alçapão no centro do palco do circo ficava o “Ponto”, profissional do teatro responsável por “assoprar”, em voz baixa, as falas que deviam ser repetidas, em voz alta, pelos atores.
Eu conheci o teatro no Circo de Zé Bezerra, e fiquei com boa impressão.
A minha memória cultural fixou a passagem do Centro Popular de Cultura, por Aracaju, lembro-me da encenação do “Recital sem Opus”, de João Costa, o maior nome do Teatro em Sergipe. As participações de Luiz Antonio Barreto, João Gama, Chico Varela, Orlando Vieira, Zelita Correia, Aglaé Fontes, Clodoaldo Alencar, e outros que esqueci.
O Secretário de Educação era Luiz Rabelo Leite, no Governo de Seixas Dórea.
Quem são os herdeiros de João Costa, em Sergipe?
Atualmente, funcionam vários grupos teatrais, em Sergipe: Imbuaça, Mamulengo Cheiroso, Raízes, Caixa Cênica, Boca de Cena, Atualona e o Quilombo Ubuntu de Teatro Negro, Teatro Velho Chico, Cobras e Lagartos (Lagarto), loucos por loucos (São Cristóvão), Teatro Retalhos e 7 panos (Lagarto).
Não sou especialista em teatro. Vejo até onde os meus olhos enxergam, ou seja, as aparências. Sinto que em Sergipe, o teatro passa por dificuldades. Um ou outro abnegado.
Sinto que a política cultural em Sergipe, deu as costas ao Teatro.
Esse arrodeio, é para chegar ao atual teatro religioso, em Itabaiana. Na Semana Santa, ocorrem três representações da Paixão de Cristo, em povoados diferentes: Mangabeira, Tabuleiro do Chico e Malhada Velha. São representações grandiosas, e com grande público.
Nesses atos, mesmo a religiosidade sendo o tema, o que move é o teatro. Atores e atrizes se desdobram na representação. Ser o Cristo é uma distinção disputada. Das três representações, a da Mangabeira é a mais antiga.
A Paixão de Cristo no Tabuleiro do Chico, nasce em 2011, por iniciativa do casal Adelson e Hosana. Antes era uma via-sacra, que foi crescendo. Inicialmente, eles botaram um Cristo, Zé de Galdino, carregando uma cruz, que ia de casa em casa, de estação em estação.
São 115 atores, locais e dos povoados vizinhos. O cenário é ao ar livre. A natureza facilitou, pois o Tabuleiro do Chico, parece com a Palestina. O Cristo é o mesmo.
Na Mangabeira, a encenação começou em 1990. No início também foi uma via-sacra. Hoje, participam cem pessoas. A ideia foi de Dona Rita. O cenário é montada em frente a Capela Santa Ana/São Joaquim, onde existe um belo anfiteatro.
A encenação na Mangabeira possui iluminação e som profissionais. O grupo foi institucionalizado e é comandado por Glasdston. Por lei municipal, a Paixão de Cristo da Mangabeira é Patrimonio Cultural e Imaterial de Itabaiana.
A encenação da Mangabeira é transmitida ao vivo, pelo YouTube.
Por último, a encenação da Malhada Velha passa por mudanças profundas. Antes, liderada por Noel, chamava a atenção pelo realismo e simplicidade. O flagelo de Cristo era próximo ao real. O Fel servido a Cristo é mais amargo do que o original, da Palestina.
Um empresário, nativo da Região, Marco Contador, resolveu investir na criação do cenário, dentro do Modelo da Nova Jerusalém, em Pernambuco. Essa mudança está ocorrendo, a cada ano, os palácios de Pilatos, o cenário estão sendo construído, com muito zelo.
Itabaiana considera as três encenações da Paixão de Cristo, em seus povoados, manifestações culturais de fé, demonstrações da criatividade do seu povo.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
quinta-feira, 26 de março de 2026
TREMPE, MOQUÉM E FORNO
Trempe, Moquém e Forno.
(por Antonio Samarone)
A carne é anterior à civilização. Antes da invenção da agricultura (11 mil anos) e da domesticação dos animais, a carne vinha da caça e o homem descobriu o fogo.
O primeiro homicídio bíblico, foi motivado pela carne. Abel era pastor e ofereceu o seu rebanho a Deus. Caim era agricultor e ofereceu os frutos da terra. Deus aceitou a oferenda de Abel e rejeitou a de Caim. O final, todos conhecemos.
Estudos recentes, apontaram a carne, em seus diversos preparos, como a comida típica em Itabaiana. Antes de agricultor, o Itabaianense foi pastor. Montou currais para criação do gado.
O gado chegou ao Brasil em 1533, trazido por Martim Afonso de Souza. Com a chegada do Governo Geral, Garcia D’Àvila, expandiu os seus rebanhos. Em Itabaiana, Simão Dias Francês criava manadas, já ambicionadas pelos holandeses, em 1637.
Os curraleiros de Itabaiana (criadores de gado), armaram uma revolta em 1656, invadiram São Cristóvão e prenderam o padre Sebastião Pedroso de Goes (única autoridade presente), por conta dos elevados tributos.
A celebre sentença de Quincas Borba: “ao vencedor, as batatas”, não satisfaz aos vencedores em Itabaiana, eles querem carne.
Das 200 mil cabeças de gado abatidas legalmente em Sergipe (anuais), 150 mil são em Itabaiana. Itabaiana possui 176 restaurantes ativos, em diversas especialidades, com o amplo domínio das churrascarias e espetinhos. Só na BR – 235, são 4 grandes, com 3.800 lugares.
Tem duas churrascarias na BR, a de Domício e a de João de Neco, que a carne é assada. Uma tradição centenária, herança indígena.
Vamos esclarecer: carne assada e churrasco são formas distintas do preparo da carne.
Os indígenas assavam a carne numa trempe, em cima de um moquém de vara. Em fogo brando, lento, longe das brasas. A carne moqueada, pode ser guardada, para se comer depois. Ela é desidratada e defumada. Por isso a sua cor escura.
O churrasco é uma tradição gaúcha, onde a carne vai às brasas num espeto. Um processo rápido, apressado, sem os segredos do moquém.
A carne assada em Itabaiana, não é churrasco. Primeiro a carne é salgada e fica um tempo no sereno. Depois vai ao moquém (as atuais grelhas). Lentamente vai acentuando-se o gosto. Acho que leva temperos. Um pedaço de picanha assado é divino.
O churrasco de picanha é meia boca, quem dar o sabor é a gordura.
Creio que, como a demanda é muito grande, uma parte desse ritual de se assar a carne, seja simplificado ou até suprimido. Perde-se no sabor e ganha-se na produtividade.
Em resumo: no churrasco, a carne é preparada no espeto; na carne assada o preparo é no moquém (grelha).
A carne assada de João de Neco e Domício, é acompanhada de uma farofa gourmet, cujo segredo é guardado a sete chaves. Eu, quando frequento, como só a carne assada com farofa, dispenso os demais acompanhamentos.
De onde vem essa tradição da carne assada, em Itabaiana?
A receita foi de Dona Judite, esposa de Antonio Magneto. O patriarca João de Neco, apreendeu com a irmã Judite. A esposa de João de Neco, Dona Josefa (ainda viva), era irmã de Dona Arlete, esposa de Seu Domício. A tradição tem as mesmas raízes.
Entenderam?
O prato típico em Itabaiana, sempre foi feijão, farinha e carne, em diversos preparos. A carne fresca, frita, com aquela graxa; o lombo de panela e a carne assada. Eu só conheci arroz e macarrão na adolescência, e não gostei.
Se acredita culturalmente em Itabaiana, que só a carne dar sustança. Menino criado com pão, ensanga.
Antonio Samarone (membro da Academia Itabaianense de Letras)
terça-feira, 24 de março de 2026
AS DUAS MATAPOÃ (S)
As duas Matapoã (s).
(por Antonio Samarone)
O mapa de Itapuama (Itabaiana), dos holandeses Marcgraf e Golliat, de 1646, já registrava a Maithapan. No mapa, está Potaepuã, uma área em torno das Serras dos Picos e das Araras, dos Rios Jacoca e Traíras.
Frei Paulo, Campo do Brito e Macambira não existiam.
A selva dos Boimés, depois Matas de Itabaiana, eram ocupadas pela Taba Matüapoan.
A Maithapan fica na Bacia do Vaza Barris, pois os rios Jacoca, e o das Traíras, são seus afluentes. O jacoca deságua nas imediações da Serra das Araras, e o Rio das Traíras soma-se ao Rio das Pedras, formando a barragem da Cajaíba. (é a mesma barragem do Campo do Brito). Esses dois rios, irmanados, avançam para o Vaza Barris.
O mapa holandês de 1646, também registra a serra de Itapuamuçu (Itabaiana Grande), a Capela de Santo Antonio (igreja velha, no vale do Rio Jacarecica), a propriedade de Simão Dias Francês e a Migueba (Serra da Miaba).
O Mapa dos holandeses (1646) é anterior a Villa de Santo Antonio e Almas. Por dedução, a Maithapan é anterior a Villa de Itabaiana.
A presença significativa dos brancos, na Maithapan, só ocorreu no Século XIX, por conta do algodão. A Guerra Civil Americana (1861 – 65), afetou a produção mundial do algodão. O ouro branco subiu de preço. Sergipe embarcou nessa febre. Chegamos a 50 descaroçadoras, segundo Thetis Nunes.
As matas de Itabaiana (Maithapan, Flechas, Caraíbas, Chã do Jenipapo (Frei Paulo), Saco do Ribeiro (Ribeirópolis), foram pintadas do branco do algodão. Os ferreiros vieram do Norte de Portugal, para produzir as foices e os machados.
Os ferreiros da Maithapan tinham um provérbio profundo, que ouvi do meu avô: “Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram: o cabo é um dos nossos”.
A Maithapan dos ferreiros e plantadores de algodão formaram a raiz espiritual da autoestima itabaianense. Os maitapoenses carregam a fama de inteligentes.
Na Zona de Expansão do Aracaju, formou-se uma nova Matapoã, um bairro de ricos e bem sucedidos, às margens do Rio Vaza Barris.
(por Antonio Samarone)
O mapa de Itapuama (Itabaiana), dos holandeses Marcgraf e Golliat, de 1646, já registrava a Maithapan. No mapa, está Potaepuã, uma área em torno das Serras dos Picos e das Araras, dos Rios Jacoca e Traíras.
Frei Paulo, Campo do Brito e Macambira não existiam.
A selva dos Boimés, depois Matas de Itabaiana, eram ocupadas pela Taba Matüapoan.
A Maithapan fica na Bacia do Vaza Barris, pois os rios Jacoca, e o das Traíras, são seus afluentes. O jacoca deságua nas imediações da Serra das Araras, e o Rio das Traíras soma-se ao Rio das Pedras, formando a barragem da Cajaíba. (é a mesma barragem do Campo do Brito). Esses dois rios, irmanados, avançam para o Vaza Barris.
O mapa holandês de 1646, também registra a serra de Itapuamuçu (Itabaiana Grande), a Capela de Santo Antonio (igreja velha, no vale do Rio Jacarecica), a propriedade de Simão Dias Francês e a Migueba (Serra da Miaba).
O Mapa dos holandeses (1646) é anterior a Villa de Santo Antonio e Almas. Por dedução, a Maithapan é anterior a Villa de Itabaiana.
A presença significativa dos brancos, na Maithapan, só ocorreu no Século XIX, por conta do algodão. A Guerra Civil Americana (1861 – 65), afetou a produção mundial do algodão. O ouro branco subiu de preço. Sergipe embarcou nessa febre. Chegamos a 50 descaroçadoras, segundo Thetis Nunes.
As matas de Itabaiana (Maithapan, Flechas, Caraíbas, Chã do Jenipapo (Frei Paulo), Saco do Ribeiro (Ribeirópolis), foram pintadas do branco do algodão. Os ferreiros vieram do Norte de Portugal, para produzir as foices e os machados.
Os ferreiros da Maithapan tinham um provérbio profundo, que ouvi do meu avô: “Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram: o cabo é um dos nossos”.
A Maithapan dos ferreiros e plantadores de algodão formaram a raiz espiritual da autoestima itabaianense. Os maitapoenses carregam a fama de inteligentes.
Na Zona de Expansão do Aracaju, formou-se uma nova Matapoã, um bairro de ricos e bem sucedidos, às margens do Rio Vaza Barris.
Os Gordinhos da Norcon (Luiz e Tarcísio Teixeira, filhos de Oviedo e netos de Dona Caçula), compraram um sítio às margens do Vaza Barris e, em homenagem a suas raízes, o denominaram de Sítio Matapoã (Maithapan).
As duas Matapoã (s) ficam na bacia do Vaza Barris. O nome do sítio dos Teixeira, tornou-se o nome de uma região (hoje, bairro). O prestígio dos Teixeiras, deram o nome do seu sítio, a um novo bairro. O povo adotou o nome.
A ligação fluvial tornou-se afetiva, memorial e histórica.
As duas Maithapan ficam na Bacia do Vaza Barris e são raízes da memória sergipana.
Parodiando Gonzaga: “o rio das Traíras corre para o Rio das Pedras, o Rio das Pedras corre para o Vaza Barris e o Vaza vai bater no meio do mar.”,
Antonio Samarone.
sexta-feira, 20 de março de 2026
UM DESERTO DE SOLIDÃO
Um deserto de solidão.
(por Antonio Samarone)
Seu José Vicente Oliveira, camponês da Sambaíba, completou oitenta anos, sozinho, num quarto quente do Asilo São João de Deus. Uma casa de repouso, onde não se tem sossego.
O ar condicionado do quarto, quebrou há 70 dias. Ele não teve a quem reclamar. Para ser mais preciso, por sabedoria, ele sabe que se reclamar é pior.
O quarto tem um ventilador de teto, barulhento, que deixou de funcionar. A família cobrou um ar condicionado, mesmo usado. No momento encontra-se quebrado.
Os demais abrigados, cinquenta e poucos, quase não se falam. São desconhecidos por opção. Não se suportam. O sonho de cada um é que o outro morra primeiro.
Vicentinho, o filho, meu primo distante, me levou para visitá-lo. Eu fui, mais por curiosidade, do que por compaixão. Queria ver o asilo por dentro, o dia-a-dia.
Vicentinho é um bom filho. No começo, ia visitar o pai semanalmente, depois mensal, e agora, vai raramente, em dias especiais: no aniversário do velho, na páscoa e no Natal.
Na ida, Vicentinho foi me contando os maus tratos, recebidos pelo pai. Mesmo pagando 2 salários e meio mensais. O mais grave era a desatenção dos cuidadores: o pai passava horas, às vezes dias, mijado, sem trocarem a fralda. O cheiro da urina impregnou, virou crônico.
O seu único consolo, um rádio de pilha, usado para amenizar a solidão noturna, foi retirado por orientação da psicóloga. A doutora achou que a insônia era causada pelo rádio, e proibiu.
Também houve uma queixa do quarto vizinho, o rádio tocava alto. Zé Vicente é um ceboleiro, viciado desde menino, em rádio, sobretudo, naqueles programas de música sertaneja.
Zé Vicente adora, quando o radialista da rádio Comunitária de Itabaiana (87.9 – FM), manda uma música para ele, durante a madrugada. Ele renasce por vários dias.
Eu fui me indignando com as histórias de Vicentinho, sobre o tratamento desumanizado, dado ao seu Zé Vicente.
Na chegada, fui logo reclamar na sala da administração, vizinho a cozinha. Senti Vicentinho constrangido, em dúvidas, sobre a conveniência de minha atitude impulsiva.
Tereza, a enfermeira chefe, ao ouvir a minha denúncia emocionada, saiu em defesa do seu serviço e dos seus comandados. Retrucou, maus tratos? Como assim, você vai ter que provar. Não admito, denuncia vazia.
A experiente enfermeira, nos acompanhou até o quarto de seu José Vicente. Já entrou falando alto e com firmeza. “Seu Vicente, quem foi que lhe maltratou?” O velho respondeu espantado: - “Ninguém! Eu aqui eu sou tratado como um Príncipe.”
Vicentinho, o filho, para não passar por mentiroso, tentou avivar a memória do velho: “Papai, e aquilo que o senhor me contou, lembra-se? O pai reagiu: “Eu não lhe contei nada!” A situação foi ficando difícil. Quem estava mentindo?
Tereza deixou o quarto fumaçando, falando pelos cotovelos. Falar é fácil, o difícil é provar!
Quando ficamos a sós, no quarto, José Vicente nos deu uma aula de Sabedoria: “Vicentinho, meu filho, você e o seu amigo são dois irresponsáveis! Depois da visita, vocês vão embora. Eu, ficarei sozinho, isolado, sem forças para reagir a nada.”
Desabafou Vicente: - “Eu, calado, pacientemente agradecido as migalhas de atenção, sou mal atendido. Imaginem, vocês me arrumam uma má querência com os funcionários do asilo e vão embora. Como será o atendimento depois?”
José Vicente, na velhice, retomou a religiosidade da juventude. Na saída, nos contou uma bela passagem do Velho Testamento, que eu desconhecia. O encontro do profeta Elias, com Deus – livro dos Reis 19:11.
“Sai e põe-te de pé no monte, diante do Senhor! Eis que ele vai passar.”
“Houve então um grande furacão, tão violento que rasgava os montes e despedaçava os rochedos diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor não estava no fogo.”
“Finalmente, passado o fogo, percebeu-se o sussurro de uma brisa suave e amena. Quando Elias a percebeu, cobriu o rosto com o manto.”
Verdadeiramente, o velho José Vicente, se preparou para o descanso eterno.
Antonio Samarone.
(por Antonio Samarone)
Seu José Vicente Oliveira, camponês da Sambaíba, completou oitenta anos, sozinho, num quarto quente do Asilo São João de Deus. Uma casa de repouso, onde não se tem sossego.
O ar condicionado do quarto, quebrou há 70 dias. Ele não teve a quem reclamar. Para ser mais preciso, por sabedoria, ele sabe que se reclamar é pior.
O quarto tem um ventilador de teto, barulhento, que deixou de funcionar. A família cobrou um ar condicionado, mesmo usado. No momento encontra-se quebrado.
Os demais abrigados, cinquenta e poucos, quase não se falam. São desconhecidos por opção. Não se suportam. O sonho de cada um é que o outro morra primeiro.
Vicentinho, o filho, meu primo distante, me levou para visitá-lo. Eu fui, mais por curiosidade, do que por compaixão. Queria ver o asilo por dentro, o dia-a-dia.
Vicentinho é um bom filho. No começo, ia visitar o pai semanalmente, depois mensal, e agora, vai raramente, em dias especiais: no aniversário do velho, na páscoa e no Natal.
Na ida, Vicentinho foi me contando os maus tratos, recebidos pelo pai. Mesmo pagando 2 salários e meio mensais. O mais grave era a desatenção dos cuidadores: o pai passava horas, às vezes dias, mijado, sem trocarem a fralda. O cheiro da urina impregnou, virou crônico.
O seu único consolo, um rádio de pilha, usado para amenizar a solidão noturna, foi retirado por orientação da psicóloga. A doutora achou que a insônia era causada pelo rádio, e proibiu.
Também houve uma queixa do quarto vizinho, o rádio tocava alto. Zé Vicente é um ceboleiro, viciado desde menino, em rádio, sobretudo, naqueles programas de música sertaneja.
Zé Vicente adora, quando o radialista da rádio Comunitária de Itabaiana (87.9 – FM), manda uma música para ele, durante a madrugada. Ele renasce por vários dias.
Eu fui me indignando com as histórias de Vicentinho, sobre o tratamento desumanizado, dado ao seu Zé Vicente.
Na chegada, fui logo reclamar na sala da administração, vizinho a cozinha. Senti Vicentinho constrangido, em dúvidas, sobre a conveniência de minha atitude impulsiva.
Tereza, a enfermeira chefe, ao ouvir a minha denúncia emocionada, saiu em defesa do seu serviço e dos seus comandados. Retrucou, maus tratos? Como assim, você vai ter que provar. Não admito, denuncia vazia.
A experiente enfermeira, nos acompanhou até o quarto de seu José Vicente. Já entrou falando alto e com firmeza. “Seu Vicente, quem foi que lhe maltratou?” O velho respondeu espantado: - “Ninguém! Eu aqui eu sou tratado como um Príncipe.”
Vicentinho, o filho, para não passar por mentiroso, tentou avivar a memória do velho: “Papai, e aquilo que o senhor me contou, lembra-se? O pai reagiu: “Eu não lhe contei nada!” A situação foi ficando difícil. Quem estava mentindo?
Tereza deixou o quarto fumaçando, falando pelos cotovelos. Falar é fácil, o difícil é provar!
Quando ficamos a sós, no quarto, José Vicente nos deu uma aula de Sabedoria: “Vicentinho, meu filho, você e o seu amigo são dois irresponsáveis! Depois da visita, vocês vão embora. Eu, ficarei sozinho, isolado, sem forças para reagir a nada.”
Desabafou Vicente: - “Eu, calado, pacientemente agradecido as migalhas de atenção, sou mal atendido. Imaginem, vocês me arrumam uma má querência com os funcionários do asilo e vão embora. Como será o atendimento depois?”
José Vicente, na velhice, retomou a religiosidade da juventude. Na saída, nos contou uma bela passagem do Velho Testamento, que eu desconhecia. O encontro do profeta Elias, com Deus – livro dos Reis 19:11.
“Sai e põe-te de pé no monte, diante do Senhor! Eis que ele vai passar.”
“Houve então um grande furacão, tão violento que rasgava os montes e despedaçava os rochedos diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor não estava no fogo.”
“Finalmente, passado o fogo, percebeu-se o sussurro de uma brisa suave e amena. Quando Elias a percebeu, cobriu o rosto com o manto.”
Verdadeiramente, o velho José Vicente, se preparou para o descanso eterno.
Antonio Samarone.
domingo, 15 de março de 2026
O DIREITO A DENTADURA
O Direito a Dentadura...
(por Antonio Samarone)
Recebi um vídeo, onde, o Presidente da República, solenemente, distribuí dentaduras. O Ministro da Saúde, sorridente, anunciou aos microfones: “quero chamar a senhora, fulana de tal, para receber a sua prótese, das mãos do Presidente.”
O que fizeram com o SUS e com a sua política de Saúde Bucal?
Como militante da reforma sanitária, sanitarista e ex-professor de Saúde Pública, sinto-me com o direito ao espanto.
Eu alcancei as dentaduras sendo vendidas nas Feiras, dentro de arupembas. Os clientes banguelos, iam experimentando, olhando-se no espelho, até encontrar uma que lhe agradasse.
O protético, um empreendedor, orientava aos clientes: se ficar folgada, use corega, que aperta; se ficar apertada, coloque-a num copo com água, na hora de dormir, que ela folga.
Itabaiana admirava a arte do doutor Olavo. As suas dentaduras pereciam um teclado de piano, dentes largos e alvos. O sorriso com a dentadura de Olavo era inconfundível. As dentaduras de Olavo eram obras de arte.
Sem dúvidas, Olavo foi um talentoso artista plástico, hoje, uma dentadura dessas vale uma fortuna. Uma modesta perereca usada, com a marca de Olavo, foi recentemente vendida por 2 mil reais.
Olavo, como todo artista, assinava as suas dentaduras. Dava garantias, até se acabar.
Hoje, Olavo estava perdido. As dentaduras são feitas pela inteligência artificial, impressas em 4D, em fino silicone. Já saem na conta, nem mais, nem menos. Ficam prontas, em questão de minutos.
Lula distribuindo essas dentaduras ao eleitorado, produzidas em série, lembrou-me de um Vereador antigo, que nunca perdeu uma eleição. A sua campanha era centrada na distribuição de dentaduras. Sem limites. A justiça eleitoral nunca apurou os gastos, com essas dentaduras. Era um mistério.
Um Promotor recém-chegado, com fama de intransigente, resolveu abrir inquérito para apurar a gastança do Vereador, com as dentaduras eleitorais. A Polícia Federal foi convocada. No depoimento, o Vereador nada escondeu. Ele provou a origem lícita das próteses.
Ele informou que fez um convênio com a maior funerária da cidade, que, mensalmente, lhe repassava as próteses retiradas dos defuntos.
O dono da funerária confirmou o convênio. Onde já se viu, enterrar alguém com uma peça valiosa na boca? Além dos anéis e brincos, as dentaduras são objetos desejados.
O Vereador deixou o Promotor sem graça, a lei eleitoral não proibia. Uma brecha. As dentaduras eram gratuitas. Bastava lavá-las com água sanitária, deixá-las um tempo dentro da cal e passar um branqueador nos dentes. Ficavam com o sorriso de novas.
Depois do inquérito ter esclarecido a origem das dentaduras, o Vereador nunca mais se elegeu. O preconceito do povo: quando ficaram sabendo a origem, não aceitaram mais as dentaduras dos defuntos.
Os votos desapareceram. O nosso eleitor é esclarecido: dentaduras, só novas...
Antonio Samarone – médico sanitarista.
sábado, 14 de março de 2026
O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DA IGREJA VELHA.
O Sítio Arqueológico da Igreja Velha.
(por Antonio Samarone)
Os escombros da Igreja Velha e a lenda de Santo Antonio Fujão, são as marcas materiais e simbólicas, que sobraram da fundação do Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (1602). Inicio do Século XVII.
Sobre a lenda, um grupo de peregrinos, retomou a trilha de Santo Antonio Fujão- (igreja velha ao pé de quixabeira, no miolo do Tabuleiro de Ayres da Rocha). A lenda ainda é viva.
Sobre a preservação dos escombros da Igreja, algumas providências já foram tomadas.
A semana passada, um prestigiado radialista, da 93.1 FM, cobrou providências, em seu programa matinal: “cadê o secretário de cultura, fala muito e faz pouco”.
Uma verdade: no atacado, dificilmente as ações superam as falas!
No caso da Igreja Velha, uma falta de informação. Já existe o projeto arquitetônico, mas ainda falta a permissão do IPHAN. Vou tentar explicar:
A Lei Municipal nº 2.207, de 10 de julho de 2018, declarou as ruínas da Igreja Velha, patrimônio cultural. Histórico e imaterial de Itabaiana.
O decreto nº 25.668, de 24 de outubro de 2008, tornou o terreno de utilidade pública, para fins de desapropriação. A Prefeitura já desapropriou o terreno, nas cercanias.
Ocorre, que a Igreja Velha é um sítio arqueológico, portanto, sob a jurisdição federal, sob os cuidados IPHAN. Houve uma tentativa de intervenção municipal, sem um parecer do IPHAN, o que foi suspensa.
Já existe um projeto arquitetônico. Entrei em contato com o Superintendente do IPHAN, em Sergipe, o intelectual Luiz Eduardo Oliva, e marcamos uma audiência. A receptividade do órgão federal foi excelente.
A solução do sítio arqueológico da primeira Igreja de Santo Antonio, em Itabaiana, tem tramitado há décadas, pelos órgãos estaduais de Cultura. O processo 0395/2005 – CEC, pedindo o tombamento da Igreja Velha, recebeu um parecer contrário e humilhante, do virtual Conselho Estadual de Cultura.
O relator do processo de tombamento da Igreja Velha, em Itabaiana, o doutor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, concluiu: “manifesto-me contrário ao tombamento das ruínas da antiga Igreja de Santo Antonio, na Zona Rural do Município de Itabaiana.”
Ainda acrescentou, o relator Soutelo:
“O tombamento das ruínas implicaria num ônus, talvez pesado demais, para o Poder Público Estadual, diante da pequena importância do bem para o universo patrimonial do Estado...”
“Para o Estado, com toda a certeza, é muito mais importante reconhecer-se a feira de Itabaiana com bem material da cultura sergipana.” - Soutelo.
O processo não deixou dúvidas: para o Conselho Estadual de Cultura, a Igreja Velha é uma ruína de interesse local, cabendo as iniciativas de conservação, exclusivamente a Prefeitura.
Procurei na relação atual dos bens tombados pelo Estado de Sergipe, e não encontrei a Igreja Velha, de Itabaiana. Pelo visto, o parecer de Soutelo continua valendo. Aliás, de Itabaiana, não encontrei nenhum bem cultural protegido pelo Estado.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
(por Antonio Samarone)
Os escombros da Igreja Velha e a lenda de Santo Antonio Fujão, são as marcas materiais e simbólicas, que sobraram da fundação do Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (1602). Inicio do Século XVII.
Sobre a lenda, um grupo de peregrinos, retomou a trilha de Santo Antonio Fujão- (igreja velha ao pé de quixabeira, no miolo do Tabuleiro de Ayres da Rocha). A lenda ainda é viva.
Sobre a preservação dos escombros da Igreja, algumas providências já foram tomadas.
A semana passada, um prestigiado radialista, da 93.1 FM, cobrou providências, em seu programa matinal: “cadê o secretário de cultura, fala muito e faz pouco”.
Uma verdade: no atacado, dificilmente as ações superam as falas!
No caso da Igreja Velha, uma falta de informação. Já existe o projeto arquitetônico, mas ainda falta a permissão do IPHAN. Vou tentar explicar:
A Lei Municipal nº 2.207, de 10 de julho de 2018, declarou as ruínas da Igreja Velha, patrimônio cultural. Histórico e imaterial de Itabaiana.
O decreto nº 25.668, de 24 de outubro de 2008, tornou o terreno de utilidade pública, para fins de desapropriação. A Prefeitura já desapropriou o terreno, nas cercanias.
Ocorre, que a Igreja Velha é um sítio arqueológico, portanto, sob a jurisdição federal, sob os cuidados IPHAN. Houve uma tentativa de intervenção municipal, sem um parecer do IPHAN, o que foi suspensa.
Já existe um projeto arquitetônico. Entrei em contato com o Superintendente do IPHAN, em Sergipe, o intelectual Luiz Eduardo Oliva, e marcamos uma audiência. A receptividade do órgão federal foi excelente.
A solução do sítio arqueológico da primeira Igreja de Santo Antonio, em Itabaiana, tem tramitado há décadas, pelos órgãos estaduais de Cultura. O processo 0395/2005 – CEC, pedindo o tombamento da Igreja Velha, recebeu um parecer contrário e humilhante, do virtual Conselho Estadual de Cultura.
O relator do processo de tombamento da Igreja Velha, em Itabaiana, o doutor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, concluiu: “manifesto-me contrário ao tombamento das ruínas da antiga Igreja de Santo Antonio, na Zona Rural do Município de Itabaiana.”
Ainda acrescentou, o relator Soutelo:
“O tombamento das ruínas implicaria num ônus, talvez pesado demais, para o Poder Público Estadual, diante da pequena importância do bem para o universo patrimonial do Estado...”
“Para o Estado, com toda a certeza, é muito mais importante reconhecer-se a feira de Itabaiana com bem material da cultura sergipana.” - Soutelo.
O processo não deixou dúvidas: para o Conselho Estadual de Cultura, a Igreja Velha é uma ruína de interesse local, cabendo as iniciativas de conservação, exclusivamente a Prefeitura.
Procurei na relação atual dos bens tombados pelo Estado de Sergipe, e não encontrei a Igreja Velha, de Itabaiana. Pelo visto, o parecer de Soutelo continua valendo. Aliás, de Itabaiana, não encontrei nenhum bem cultural protegido pelo Estado.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
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