terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

APONTAMENTOS MÉDICOS

Apontamentos Médicos.
(por Antonio Samarone)

A primeira instituição médica privada em Sergipe (1963), foi a Clínica Santa Maria, o Hospício de Hercílio Cruz, nas imediações da Rua Acre.

Em 1964, existiam registrados no CRM -SE, cento e poucos médicos. A população sabia o número do telefone e a placa dos carros de todos eles. O prestígio social dos médicos, padres e professores era o prestígio atual dos delegados, juristas e magistrados.

No início da década de 1970, encontravam-se no exercício da medicina, em Aracaju:

1. Instituto de Radiologia Clínica Dr. Itazil Benicio dos Santos – Rua de Lagarto/ Laranjeiras. Dr. José Maria Rodrigues Santos.

2. Clínica Infantil São Domingos Sávio – Av. Ivo do Prado. Hyder Gurgel, Bráulio de Abreu e Josué Duarte.

3. Clínica Santa Lúcia – Rua Campos, 76. Hugo Gurgel, Ciro Tavares e Gileno Lima.

4. Clínica Infantil e de Medicina Preventiva – Parque Olímpio Campos. Paulo Carvalho, Jaci Carvalho, José Lisboa e Ana Andrade.
Entre os médicos que exerciam a medicina liberal, em seus consultórios:

Ginecologia – Albino Figueiredo, Gilvan Rocha e Ildete Soares Caldas (atendiam no Hospital São José).

Ginecologia e obstetrícia – Agnaldo Fonseca, Paulo Emilio, Dalmo Melo, Carlos Melo, Aristóteles Silva e Aldemar Reis.

Ortopedia – Clodoaldo Araruna. Dermatologia – Fedro Portugal. Pneumologia – Paulo Faro. Neurologia – Tarcísio Carneiro Leão.

Doenças das Senhoras – Maria do Céu Pereira Santos.

Cirurgia Plástica – José Olino. Clínica médica – Antonio Garcia e Luís Bosco. Pediatria – Margarida Franco e Simone Matos. Alergia – Walter Cardoso.

Marcos Aurélio Prado Dias – Clínica e Cirurgia. Zulmira Freire Resende – Clínica médica. Álvaro Santana – oftalmologia. Lauro Porto – otorrino; Francisco Rollemberg – Clinica Cirúrgica Urologia:

Eduardo Vital Santos Melo – psicoterapia.

Não sei predizer o futuro da prática médica, nem a sua relação com a Inteligência Artificial.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A TABA DE MATIIAPOAN


 A Taba de Matiiapoan, berço da inteligência.
(por Antonio Samarone)

A polêmica começa com o nome, como se escreve? Para Sebrão, o certo é Matiapoan. Fazer o quê? O povo antigo chamava de Maithapã. Matapoã, é o nome oficial. Matapoam?

Quais as origens, dessa comunidade, berço da inteligência ceboleira.

Sebrão, o Sobrinho, enxergou uma origem indígena:

“Às margens do Riacho Canabrava, grandes fogueiras acesas e enormes batuques indicavam reunião do supremo conselho dos chefes das tabas abais, os bravos morubixabas, os príncipes das selvas Boimés...”

“Matu” significa coisa insignificante, pequena; e “apoam” arredondada, gente gorda, sem pescoço, cintura mal formada e enormes batatas das pernas. É a caricatura do povo de lá.

Na metade do século XIX, chegaram os "Oliveiras", ferreiros que trouxeram a arte de Portugal.

O patriarca, João José de Oliveira, cresceu e multiplicou. Gerou os ferreiros. Os "Oliveiras", eram bem formados de feições, gente bonita, atléticos, esbeltos e com uma força física descomunal.

Desentortavam um armador de ferro, com a força das mãos.
Todos os filhos de João José (12), sabiam ler e escrever.

Um povoado rico. Em poucas horas de estadia, Lampião arrecadou 4 vezes mais, que em sua passagem por Capela.

Para evitar esquecimentos, não citarei os seus filhos ilustres. Centenas, milhares...

Faço uma convocação, aos descendentes dos "Oliveiras e Andrades", da Matiapoan. No dia de São José, 19 de março, vamos voltar as raízes, comemorar a saga dos ferreiros. Depois, um almoço por adesão, na carne de sol do Domício.

Na ocasião, a Prefeitura de Itabaiana vai inaugurar uma bela Praça e a pavimentação asfáltica da estrada que liga o povoado a BR – 235.

Antonio Samarone.
(Membro da Academia Itabaianense de Letras)

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A CULTURA DO FUTEBOL


 A Cultura do Futebol
(por Antonio Samarone)

A Itabaiana agrícola, produtora de alimentos, celeiro de Sergipe, predominou na primeira metade do século XX. Uma sociedade rural, isolada, voltada para a economia de subsistência.

Conta-se que o alfaiate Órpilio, dizia que só se interessava pelo que ocorria até o Rio das Pedras. Justificava o Mestre: “Do Rio das Pedras para lá, ninguém nunca me encomendou um terno”.

A política era o caminho para se proteger os amigos e perseguir, de todas as formas, os adversários. A divisão entre os de cima e os de baixo, o nós e o eles. Uma paixão política odienta, era disseminada entre as partes.

No final da década de 1960, as disputas políticas em Itabaiana, terminaram em um banho de sangue. A sociedade, dividida, buscava vingança. A violência encontrou solo fértil. Itabaiana, baixou a cabeça.

No final da década de 1960, um pequeno grupo, refundou o futebol. A Associação Olímpica de Itabaiana, assumiu uma missão: reunificar a cidade. O Itabaiana passou a ser bem mais que um time de futebol, se tornou a cidade de chuteiras.

Na letra do Hino do Itabaiana, Alberto Carvalho deixa isso claro num verso: “Somos Itabaiana, cidade – celeiro!”. O time era a cidade.

O futebol ajudou a cidade dividida, fragmentada, a afirmar-se como uma comunidade única. A invejada autoestima dos itabaianenses, ressurgiu forte e ousada.

O crescimento econômico precisava de confiança, sentimento de grandeza e identidade coletiva. O futebol trouxe tudo isso.

O futebol é uma organização onde as regras valem para todos. Um exemplo para o mundo daquela política, onde a regra eram os privilégios. O futebol proporcionava aos pobres uma esperança de ascensão social.

Para os meninos do Beco Novo, o Tabuleiro dos Caboclos (atual Bairro São Cristóvão), era a Meca do futebol, com vários campos e tabuleiros, onde o futebol era livre. Sonhávamos em sair do buraco da pobreza, e o futebol era um caminho.

Depois descobri que criaram um ginásio em Itabaiana, o Murilo Braga, em 1949. A escola pública era a verdadeira porta, mas invisível. Quando descobri, me danei a estudar. Não sei se a educação, ainda permite esse acesso à cidadania.

A distância da escola pública das profissões socialmente valorizados (padre, juiz e doutor) era imensa. Quando fiz vestibular de medicina, uma tia, tirada a rica, censurou: “Esse menino deveria procurar o lugar dele.”

Me formei, especializei-me no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. No retorno, após 4 anos, um cartola do futebol, em Itabaiana, me perguntou, se eu já estava trabalhando. Respondi que não. Ele foi “generoso”: "se eu quisesse ir treinar no Itabaiana, as portas estariam abertas."

O futebol permitia, ou parecia permitir, uma certa ascensão social, para os talentosos e disciplinados. Não sou Samarone de Batismo, o nome vem da ilusão futebolística. A aliança entre o talento e o desempenho, prometiam conduzir as vitórias.

O menino Gustinho, um humilde engraxate, em pouco tempo passou a ser um atleta admirado na cidade. Os craques do Tabuleiro dos Caboclos, “quase todos Pretos ou quase Pretos”, encontraram as portas do futebol.

A minha memória guardou: Enfinca, Coringa, Zé de Chico, Augusto, Elísio, Dedé, Tonho de Preta, Nado, Zé de Vitinha, Cosme e Damião. Antes, se dizia que Itabaiana não tinha Pretos. O Futebol desmontou essa mentira.

Gente, peço licença para sugerir a leitura de “Pelé, O Negão Planetário”, de Antonio Risério. Uma reflexão sobre o povo brasileiro.

Concluindo, sonhei em ser Pelé, mas quem me salvou foi a Escola Pública.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

A FARRA DO BOI

A Farra do Boi.
(por Antonio Samarone)

A grandeza da Feira do Agronegócio (SEALBA), no Parque Cunha Menezes, demonstrou uma obviedade: Itabaiana é o coração econômico de Sergipe.

Se não bastasse, em outro espaço, ocorria o “4º Simpósio de Criadores de Gado de Corte do Nordeste”.

Quem não conhece Itabaiana fica confuso. Agronegócios em Itabaiana? Onde? Primeiro, do Sertão adentro, 70% do plantio do milho, são em terras arrendadas por ceboleiros. Até o Maranhão. Segundo, o comércio de máquinas e implementos agrícolas concentra-se em Itabaiana.

E esse Simpósio Nordestino sobre gado de corte, do que se trata? Aqui a história é mais complexa. Por que esses criadores foram se reunir logo em Itabaiana?

Um empreendedor com alma itabaianense, Luís Góes, resolveu investir em tecnologia. Fez parceria com uma empresa paulista, a Katayama Guararapes, e trouxe para Sergipe o que existe de mais avançado, na melhoria genética dos rebanhos.

Entenderam? Cada reprodutor tem o genoma identificado. Todos “PO”, puros de origem. Um simpósio, prestigiado por grandes fazendeiros, especialistas e pelo mundo político. Governo e oposição: O vice-governador, o vice Prefeito, a Presidenta do Sebrae. O ex Governador Belivaldo. Deputados e Vereadores.

Eu não conhecia esse Luís Góes, um sujeito com grandes ideias. Itabaiana ainda me surpreende.

Esse polo de tecnologia, Góes Nelore, em Itabaiana, tem raízes seculares. No século XVII, os curraleiros, criadores de gado, dominavam a economia em Itabaiana. Para quem não se lembra, a Estrada Real Salvador/Olinda, passava em Itabaiana. Os rebanhos abasteciam o Recôncavo Baiano e Pernambuco.

O gado é uma mercadoria que anda. As boiadas iam a pé para os mercados, seguindo os aboios. Eu alcancei.

O Barão da Torre, estendeu os curais até o São Francisco. Quando os holandeses chegaram (1624), expropriaram muito gado em Itabaiana. Obrigaram Simão Dias Frances, fugir para as matas do Caiçara, fundando a próspera Simao Dias.

Em 05 de novembro de 1656, os curraleiros de Itabaiana invadiram a Capital, São Cristóvão, insatisfeitos com os altos impostos. Prenderam até padre. O quartel-general foi no Alto de Itabaiana em São Cristóvão, hoje um polo gastronômico. Foi primeira revolta antilusitana no Brasil.

A pecuária foi a principal atividade econômica em Itabaiana, até a segunda metade do Século XIX. A vida acontecia no campo, a Villa era diminuta, um arruado em torno da Igreja (desde 1656).

A vida urbana emergiu em Itabaiana, com o algodão. Derrubam-se as matas para se plantar algodão, por conta guerra de secessão. Itabaiana chegou a possuir 50 descaroçadoras. Chã do Jenipapo se transformou na Vila de São Paulo (Frei Paulo).

A força do algodão: a feira permanente em Itabaiana é de 1874. Constitui-se o comércio: destacam-se as lojas de tecidos e ourivesarias. O ouro vem de longe.

A criação de gado avançou para o Sertão. Itabaiana, por conta da divisão da terra, predomínio das pequenas propriedades, passa produzir alimentos, para abastecer a Capital e o Sertão.

Na primeira metade do Século XX, Itabaiana se transformou no Celeiro de Sergipe. A transformação de polo agrícola em comercial, inicia-se após a chegada da BR – 235 (1953), permitindo o surgimento de uma nova categoria econômica: os caminhoneiros.

Vamos voltar ao gado.

Os longos séculos de pecuária deixaram raízes. A carne é a maior expressão culinária da cidade: só na BR - 235, existem 4 grandes churrascarias (Pirata, Riacho Doce, João de Neco e Domício). Sempre lotadas. São 600 mesas, 2.400 lugares.

Sem contar as menores. A Churrascaria Serrano, no Marianga, tem fila. O Espetinho do Patola, enche a praça de mesas, e não chega para quem quer. Em Itabaiana, a promessa de picanha para todos foi cumprida.

A carne é o prato preferido em Itabaiana, quase exclusivo.

 
Quando Luís Góes Montou o maior polo tecnológico de criação de Nelore, em Itabaiana, sem querer, estava ressuscitando os curraleiros.

A força do boi está no inconsciente coletivo. É um desejo atávico. Se dizia em Itabaiana: que quem quisesse prosperar economicamente, segurasse no rabo do boi, que ele arrastava.

Hoje, não é mais assim. É mais rentável plantar milho transgênico. Só que a cultura é mais lenta, demora a mudar. Quando se quer elogiar a riqueza de alguém, o chamamos alto: fazendeiro!

As cavalgadas, pegas de boi, vaquejadas, brincadeiras dos curraleiros, ainda atraem muita gente. É a nostalgia do Boi. Botou um chapéu, calçou uma bota e montou num cavalo fica parecendo os fazendeiros antigos. Hoje, precisa-se de uma caminhoneta a diesel, com tração nas quatros.

O boi virou commodity, exige alta tecnologia. Acabou-se o romantismo da vaca estrela e do boi fubá.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O DONO DA BOLA


 

O Dono da Bola.
(por Antonio Samarone)
 
A minha aproximação com a bola foi cuidadosa. A bola reconhece os íntimos, os que a chamam de “você!”. A primeira foi uma bola de meia, que eu brincava com a minha irmã. Não estranhe, as meninas já jogavam, antes de existir o futebol feminino. Nas “peladas” de rua, elas compunham os times. 
 
Se aprendia a chutar com as bolas de meia. Isso mesmo, meias de calçar. Enchia-se uma meia velha de algodão ou retalhos de tecidos, arredondava-se a pelota, e a bola estava pronta. As bolas de couro eram numeradas, de dois a cinco, além das bolas oficiais. Não era para o nosso bico. 
 
Se comprava a bexiga e mandava-se um bom sapateiro encouraçar. Envolvê-la com sola batida. Em Itabaiana, só Mestre Dé e Joãozinho Baú possuíam essa maestria. Eram bolas duras. Passava-se sebo de carneiro capado, para amaciá-las. Após as partidas, as bolas eram esvaziadas, para evitar a deformação. As bolas ficavam ovais. 
 
As bolas de couro de fábrica, de couro macio, aveludado, veio depois. Um luxo. As bolas antigas, artesanais, eram quase balas de canhão. Um chute forte, chamava-se de petardo ou bomba.
As bolas de couro eram inacessíveis para a molecada do Beco Novo. 
 
Por vezes alguém aparecia com uma bola de borracha, que pulava e ardia quando se chutava. A bola de borracha não emplacou. Depois veio a bola Pelé. Essa, sim, uma novidade. Eram de um plástico resistente, macias, redondas, boas de se dominar. O sonho da bola de couro, era relevado. 
 
Rosa de Rosalvo do Cabo Quirino, ocasionalmente, aparecia com uma bola Pelé, novinha, cheirando a leite. Ele a subtraia do supermercado. Um mistério, como ele saia da loja com a bola e ninguém via? A verdade, as bolas Pelé de Rosa, eram compartidas com todos. Um roubo com fins sociais.
Além das peladas, brincávamos de piruetar, bater bola sem a deixar cair. 
 
Um fato inesperado abalou o Beco Novo: Benjamin de Seu Bebé dos passarinhos - Beijo, para os amigos, ganhou uma bola de couro número 5. Os irmãos Adélson e Alberto, mandaram de São Paulo. Era quase uma bola oficial. 
 
Benjamin era forte, bom de bola, disciplinado, educado, amigueiro e adorava ler. Sem dúvidas, era o mais culto da turma. Morava no quarto trecho da rua, quase defronte ao Clube dos Trabalhadores.
Benjamin virou Rei, era o dono da bola. Não ficava mais de fora. 
 
Paparicado, cercado pela molecada, cobrando que ele levasse a bola de couro, para tudo que era tabuleiro. Agora a gente ia saber quem era ou não bom de bola. 
 
Os invejosos diziam: Beijo quer a bola para dormir na cama. Mentira! Ele sempre repartia o divino brinquedo. 
 
Quando ganhei o meu primeiro campeonato, Beijo, era do meu time: Grilo de Firmino, Vadinho de Nilo, Beijo de Seu Bebé, Zé Augusto de Zé Olhinho, Eu e Nego Gato de Bonito. Era futebol de seis. Fomos campeões no torneio do Campo do Tenente Baltasar. 
 
Demos a volta olímpica. Os campeões foram premiados com uma boa quantia em dinheiro. O time inteiro foi a casa de Seu Bebé, entregar o prêmio de Beijo.
 
Benjamin Nogueira Campos Neto não deu para o futebol. Estudou, formou-se em Medicina, e tornou-se um cardiologista famoso em São José dos Pinhais, Paraná. 
 
O dono da bola tornou-se dono de uma sólida carreira na medicina. Saiu, por lá ficou e constituiu família. O Beco Novo foi a porta de saída, para a ascensão social de muitos.
 
Antonio Samarone.

sábado, 31 de janeiro de 2026

O CENTENÁRIO DO FERREIRO BERNARDINO.

O Centenário do Ferreiro Bernardino.
(por Antonio Samarone)

A profissão de ferreiro é antiga. No Canto VI, dos Lusíadas, Camões descreve os ferreiros de Vulcano, no monte Etna, fabricando armas, raios e caldeando o ferro para as tempestades.

Numa terça-feira nublada, 17 de agosto de 1926, o velho ferreiro Bernardino Francisco de Oliveira, viúvo de dois casamentos (Maria Rosa de Jesus e Maria Wenceslau do Sacramento), faleceu, tragicamente, aos 68 anos.

Bernardino, nasceu em Matapoã, Itabaiana, em 11 de maio de 1858, filho do ferreiro português, João José de Oliveira (1829 – 1899) e Maria Pastora do Sacramento. João José instalou as tendas de ferreiro na Matapoã, por volta de 1850.

Bernardino era o mais velho dos ferreiros da “Maithapan”, entre os filhos de João José: Maria Venceslau; Bernadino, o mais velho; Chico Antonio; Felismino; Quirino; Benvindo; Tertino; Nonô – Pai de João Marcelo e Zentonho, o mais novo, pai de Graça de Rosendo. Posso ter esquecido alguém.

Bernardino deixou uma imensa prole: Servina; Clemencia, casada com Alexandre Fava Pura e mãe do Frei Fidelis; Francisca; Josefa; Firmina; Maria da Neves; Chico Antonio; Ana, casada com Chiquinho Gordo, pais de Marcelino; Felismina; Antonio Francisco de Oliveira (Pai Totonho), que nasceu em 05 de agosto de 1896 e faleceu em 16 de maio de 1965, aos 68 anos; Libanio; Ângelo, Lilia, Maria Rosa (Neném).

O velho ferreiro Bernardino, branco, alto, de aspecto sisudo, orelhas de abano, afamado pela força física, largou-se da Sambaíba, em Itabaiana, para comprar ferro em Maruim, matéria-prima da sua secular profissão. Cumpria a sua rotina.

A bigorna de Bernardino era famosa pelo som arredondado, parecendo um sino do Vaticano. A peça está conservada. Depois foi do meu avô e dos meus tios (Zé e Omero). Hoje, está sob a posse do primo Arnaldo, nas Flechas.

Se escutava o toque da bigorna de Bernardino, a mais de légua.

Próximo ao destino da sua última viagem, por volta das 9:40 da manhã, no povoado Caititu, entre Riachuelo e Maruim, KM 337 da ferrovia, o burro em que Bernardinho ia montado, assustou-se com o trem de passageiros n.º 72, da “Companhia Ferroviária Leste Brasileiro”, que vinha de Propriá com destino a Aracaju.

O trem era conduzido por um maquinista experiente, Caetano Antônio de Jesus, que ao avistar a aflição, danou-se a apitar e puxar o freio de emergência. Assustou os burros.

A tragédia se anunciava, o velho Bernardino (68 anos) não conseguiu tirar a sua montaria da linha do trem, o animal agitado não obedecia às rédeas. E o maquinista, impotente para frear.

O local era uma curva em declive, próxima a um pontilhão. Tudo muito rápido. A verdade é que o velho ferreiro não saltou do burro, talvez por amor ao animal, um burro castanho de estimação. A contingência os empurrou para o mesmo destino.

Em frações de minutos, o ferreiro e o animal estavam esmagados sob peso da locomotiva. A massa ensanguentada, irreconhecível, foi recolhida com a pá de carvão, e colocada num saco, depositada num salão de chão batido, da Estação que servia de parada do trem, em Caititu.

Ao final da tarde, os corpos foram transportados para o Departamento de Assistência Pública, na rua de Boquim, em Aracaju, para serem periciados.

Os drs. Carlos Moraes de Menezes e Mário de Macedo Costa, levaram mais tempo para separar as partes do ferreiro, que para a devida necropsia. O estado de mutilação do corpo de Bernardino chocou a província.

A emissão do laudo pericial foi acompanhada pelo Senhor Doutor Chefe de Polícia do Estado, Álvaro Fontes da Silva (é como está no laudo cadavérico).

O ferreiro Bernardino foi enterrado no Cemitério Santa Isabel, em Aracaju.

Chegamos ao centenário da morte do velho ferreiro Bernardino (1926 – 2026). A família vai relembrar a data. No dia de São José, padroeiro da Matapoã, a Prefeitura de Itabaiana vai inaugurar uma praça e a ligação asfáltica do povoado com a BR – 235.

Estaremos lá!

Todos os descendentes dos ferreiros da Matapoã, estão convidados. E não são poucos. O povoado tem a fama de produzir couve e inteligências.

Pensei em requerer aos Vereadores, que o nome da nova Praça do Povoado, fosse uma homenagem a Bernardino Francisco de Oliveira. Um herói do ferro e do fogo.

Desisti. Soube que a disputa é grande.

Antonio Samarone. (Ponta de rama, dos Ferreiros da Matapoã)
 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O ESPORTE BRETÃO (um)


 O Esporte Bretão (um)...
(por Antonio Samarone)

O futebol é um esporte inglês, canibalizado no Brasil. O bi campeonato mundial (1958/62), fomentou uma ilusão nos meninos: é possível deixar a pobreza pelo futebol. Basta talento! O exemplo de Pelé, criava esperança.

O menino pobre, esperava de Papai Noel uma bola. Velocípede, era sonho de rico. Bastava uma bola.

A intelectualidade, no início, rejeitou o esporte inglês. Cito Lima Barreto, em “Feiras e Mafuás”, e Graciliano Ramos, em “Linhas Tortas”. “A moda pode dar certo nas grandes cidades, que estão no litoral. Isto aqui é diferente, é Sertão. Parece-me que o football não se adapta a estas boas paragens do cangaço. O football não pega, tenham certeza.” – Graciliano Ramos.

Fiquei sabendo, lendo a obra-prima, “Pelé, o negão planetário”, de Antonio Risério, o nosso maior livre-pensador, na atualidade.

O mundo parou em 20 de julho de 1969, para assistir à chegada do homem à lua. O Beco Novo, parou em 19 de novembro de 1969, para assistir o milésimo gol de Pelé. Eu assisti ao pé do rádio, com lagrimas nos olhos. Pelé dedicou o gol aos meninos pobres.

Em 9 de julho de 1969, a Seleção Brasileira inaugurou o Batistão. Juntei dinheiro e embarquei no pau de arara de Mané de Jason. Às 17 horas, eu já estava na arquibancada, quase lotada. Achei muito distante do campo, desci para a geral e encostei-me no alambrado – como no velho Etelvino Mendonça. Um pouco antes do início da partida, sair para mijar. Perdi o ponto.

O Brasil vivia sob as patas da ditadura – O AI-5, foi baixado em 13 de dezembro de 1968. A minha geração só pensava em jogar bola. Admirávamos as feras de Saldanha. Eu só li “1968: O Ano que não Terminou”, de Zuenir Ventura, em 1975, na UFS, sob influência do Movimento Estudantil.

Bastava um terreno baldio, duas traves de pedra e uma bola qualquer (mesmo de meia), para se montar o palco. Fazer um gol numa pelada de rua, despertava as mesmas emoções que um gol na final de Copa do Mundo. Jogávamos descalços. Muitos craques esquecidos, nunca calçaram uma chuteira.

Tonho de Marieta foi o maior craque da minha geração. Desconhecia as chuteiras.

Em 1968, Dr. Pedro criou o juvenil do Itabaiana. Encarei como uma chance de ascensão social. O treinador, Miguel de Rola, era um disciplinador. Nada de atrasos nos treinos. Um problema: eu trabalhava, e nem sempre chegava a tempo.

Outro empecilho: o Itabaiana encomendou as chuteiras a Joãozinho Baú, uma marca de qualidade. As chuteiras vestiam de 38 a 42. Não se suspeitava que um menino, calçasse um número maior. Eu calçava 44. Imaginem o aperto, correr com um calçado 2 números a menos. Não tive jeito. Terminava as partidas com os dedos estropiados.

Em 1968, aos 14 anos, eu trabalhava num armazém de cerais, estudava a noite no Murilo Braga e era juvenil do Itabaiana. Cheio de esperanças em ser alguém e sair do atoleiro da pobreza.

Política, só as brigas locais entre UDN e PSD. Com exceção do contato com um padre italiano, Antonino Ruffalo (foto), que apareceu por Itabaiana, na década de 1960. Não sei, até hoje, qual era a missão desse padre: pregar o evangelho, politizar ou vigiar os jovens.

Foi nessas catequeses, que soube da existência de livros proibidos. Paulinho de Maria de Branquinha me emprestou um. Li e nada entendi. Acho que foi “Teses sobre Feuerbach”, do Velho Marx. Um ensaio sobre a essência religiosa do homem.

O meu sonho era ser jogador de futebol. Aliás, era o sonho de muitos meninos daquela época.

Antonio Samarone. Juvenil do Itabaiana.