quinta-feira, 16 de abril de 2026

A SAÚDE PÚBLICA EM ARACAJU

A Saúde Pública em Aracaju.
(por Antonio Samarone)

Higéia e Panacéia, filhas de Asclépio, vivem de mãos dadas em Aracaju.

A atenção primaria é, sobretudo, medicina preventiva. Com o tempo, o SUS foi cedendo as armadilhas dos modelos da medicina comercial. Vende a ilusão de eficácia. A atenção integral perdeu espaço para a tríade: consulta – exames – remédios. Custos elevados e baixo impacto epidemiológico.

A Prefeitura de Aracaju, está retornando os princípios do SUS, priorizando a Saúde Pública. A Secretária Débora Leite, anunciou a consolidação do Programa de Fortalecimento do “Cuidado em Saúde Mental, na Atenção Primária à Saúde” (PROAPS – Saúde Mental) como referência no acolhimento emocional dos pacientes.

Um avanço esperançoso. Na Saúde, a Prefeita Emília está no caminho certo.

Um programa com o nome comprido, que precisa ser explicado. Muitos usuários da rede básico, apresentam um sofrimento, sem doenças evidentes. O acolhimento ser feito por um psicólogo, por exemplo, garante maior resolutividade do serviço.

Estamos acostumados com ações supostamente curativas: procedimentos, consultas, receitas, exames, internamentos, medicamentos, que nem sempre é a melhor conduta. O sofrimento humano é complexo, raramente responde ao que o mercado oferece.

Aracaju ensaia o fortalecimento da Saúde Pública. A saúde é filha da qualidade de vida e de uma assistência integral e holística. As políticas de doenças, voltadas para o consumo de serviços, insumos e ofertas eventuais de mutirões de procedimentos, são ineficazes e caras.

Em Sergipe, o uso político e distorcido desse desejo à saúde, levou que, no último meio século, os secretários estaduais de saúde, tornaram-se os Deputados Federais mais votados. Preciso lembrar os nomes?

A rede do SUS é de Saúde. Superamos o postinho médico, atendendo doenças agudas: sintomas/medicamentos. A ação é integral e o paciente acompanhado a longo prazo.

Vivemos uma epidemia de transtornos mentais. Depressão, ansiedade, TDAH, TOC, autismo. Um número elevado de alunos da escola básica são atípicos. O "PROAPS" pode atender a essa demanda. O único reparo: o programa não contempla menores de 18 anos. Não entendi essa restrição.

Enquanto o Estado insiste em mutirões politiqueiros, o município do Aracaju, enxerga mais longe: prioriza a prevenção e os programas de saúde pública.

Depois da aposentar-me no cargo de professor de Saúde Pública, da medicina da UFS, confesso que reduzir as leituras especializadas em saúde.

Estou cuidando da Cultura, em Itabaiana.

Vejo com tristeza o abandono do modelo assistencial do SUS, previsto na Lei Orgânica da Saúde. Denomino o meu Blog: Em defesa das Causas Perdidas. O neoliberalismo não convive com o direito à Saúde. Tudo vira mercadoria.

As utopias não morrem, Aracaju aponta uma estrela.

Portanto, sinto a iniciativa da Saúde do Município do Aracaju, em fortalecer as ações humanizadas e preventivas, fortalecendo o acolhimento, e oferecendo ações básicas em saúde mental, na rede básica, como um sopro de esperança na Saúde Pública.

Esse exemplo, precisa ser copiado!

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

terça-feira, 14 de abril de 2026

O PREGADOR DO FIM DO MUNDO, SANTO OU LOUCO?

O Pregador do Fim do Mundo, Santo ou Louco?
(por Antonio Samarone)

Na segunda metade do século XIX, foram pródigas no Nordeste, as experiências místicas. O Padre Ibiapina, Padim Cícero e Antonio Conselheiro foram os mais destacados. Em Sergipe, tivemos duas: os Caipiras, no Agreste, e o Céu dos Caraíbas, em Riachão dos Dantas.

O Padre Felismino da Costa Fontes, nasceu em Itabaiana, em 08 de abril de 1848. Filho do capitão e negociante Antônio Manuel da Costa (residente na sede da Villa) e da dona de casa, D. Maria da Conceição Costa Fontes. Era o segundo filho do casal, que gerou como primogênito o Tenente José da Costa Fontes, três anos mais velho.

Felismino da Costa Fontes seguiu a carreira eclesiástica, ordenando-se em 1874, justamente no ano em que Antonio Conselheiro viveu em Itabaiana, na Rua da Pedreira. Não há registros, mas as possibilidades de terem se conhecido é muita grande.

“Era o tempo do Anticristo, do Fim do Mundo, das leituras simbólicas do Apocalipse, das apostásias, que gerava uma discussão que alcançava a Santa Missa e a autoridade do Papa.” – Luiz Antonio Barreto.

Após a formatura, Felismino viajou a Roma. Retornou a sua natal, sendo auxiliar o Cônego Domingos de Mello Resende, em Itabaiana. Em 1886, foi transferido para a recém-criada Freguesia de São Paulo da Mata.

O capuchinho, Frei Paulo Antonio Casanova, dedicou-se a uma Missão do Chã do Jenipapo, onde fundou uma Capela, dedicada ao Apóstolo São Paulo.

O povoado passou a Distrito Administrativo, em 1861, e a Vila, independente de Itabaiana, em 1890. Foi elevada a cidade, em 1920. Mais tarde, São Paulo passou a ser denominada Frei Paulo.

A pregação empreendida por Felismino a partir da Freguesia de São Paulo da Mata avançou sobre as localidades de Carira, Alagadiço, Vila Senhora Sant’Ana de Simão Dias, Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, estendendo-se até os limites da Serra Negra, fronteira com a Bahia, chegando a arrebanhar mais de dois mil seguidores.

O Padre Felismino autointitulou-se “o pregador do fim do mundo”. O pároco liderou o movimento religioso caipira (integrado por trabalhadores rurais, donas de casa e letrados) no agreste sergipano, no intervalo temporal de 1885-1890.

O Padre Felismino enquanto professava seu ministério junto à população do povoado da Chã do Jenipapo, nas Matas de Itabaiana, no período de 1881 a 1886, foi se desvirtuando do método adotado pela Igreja Católica Apostólica Romana e findou sendo denominada de “Seita dos Caipiras”, que trazia os fundamentos do Apocalipse e da Missão Abreviada.

“Eu tenho treze profecias, e outras tantas provas evidentes, mariando estes dias, que atravessamos, como próximos ao Juízo Universal. Vivo resignado no meio da guerra, porque já foi dito pelo venerado Padre Francisco: o pregador do fim do mundo será perseguido pelos Padres e até considerado como o Anti-cristo.” Padre Felismino.

Ataques a Felismino e aos caipiras foram publicados nos jornais, a exemplo do noticioso A Reforma (1888), D. Quixote (1890), e dos semanários Cidade de Salvador (s/d), União Federal (1891). Dois desses artigos foram assinados pelo capitão e latifundiário são paulino João Tavares da Mota, outros, anônimos.

Houve uma resistência do clero local, sob a liderança do Monsenhor João Batista de Carvalho Daltro. Em 1890, o padre Felismino foi convocado a comparecer na sede da Cúria Metropolitana, da Bahia, para um encontro pessoal com o Arcebispo Dom Antônio de Macedo Costa.

Esse fato culminou na prisão e internamento do Padre Felismino, no Asilo São João de Deus, na Bahia. Onde o pregador do fim do mundo continuou a se comunicar com os seus seguidores mediante cartas.

Os intelectuais, ficaram ao lado da loucura. O estigma de doido era definitivo.

“O Padre Felismino, antigo Vigário da freguesia de Frei Paulo, Sergipe, o qual, tendo enlouquecido, começou a pregar sobre o fim do mundo, iniciando uma seita baseada no Apocalipse e na ‘Missão Abreviada” - Carvalho Déda.

“O padre Felismino, ordenou-se presbítero da ordem de San-Pedro, virtuosíssimo e muito inteligente, foi o primeiro vigário da sergipana paróquia de San-Paulo. Em sua vida sacerdotal, sem mácula, pouco a pouco insidiosa moléstia mental atacou-lhe o cérebro e, sobe essa ação, sem que logo o apercebessem seus superiores, criou visionária religião entre os matutos das matas de Itabaiana, que foi chamada Seita dos Caipiras.” – Sebrão Sobrinho.

Em seus escritos, Felismino afirmava ser um enviado divino, com a missão de transmitir o conhecimento, combater o mal e comandar a salvação de seus seguidores.

Dom Daltro, Vigário Geral em Sergipe, conhecido pelo combate dado a Conselheiro, em sua passagem por Sergipe, foi um dos principais responsáveis por difundir a ideia da loucura do padre Felismino e denunciá-lo a seu superior hierárquico.

O Padre Felismino foi internado no Hospício San-João de Deus, na Baía, onde concluiu tristemente sua existência em dias do ano de 1892. A psiquiatria cumpria o seu papel.

Descobriu-se recentemente, que ele não morreu no Asilo. Após sair do Asilo, o Padre Felismino transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde faleceu em 1919. Eu fico sem ter como opinar sobre as duas versões.

“O padre Felismino era detentor de uma mediunidade, que se externava através da imposição das mãos sobre os doentes e da vidência. Contudo, seus métodos não foram aceitos pelas autoridades da província e as eclesiásticas, porque redundaram em pregar profecias e anunciar o fim do mundo, mediante uma interpretação um tanto deturpada do livro Missão Abreviada e do livro Apocalipse.” – João da Santa.

Depois do enclausuramento do Padre no hospício, várias missões foram organizadas em Frei Paulo e Itabaiana, para afastar a influência do Padre Santo, sobre os devotos.

Espero que esse registro chegue ao conhecimento do Papa Leão XIV e o Vaticano inicie o processo de santificação do Padre Felismino, na mesma lógica, da justa santificação do “Padim Ciço”.

Minha mãe era devota do Padre Felismino (depois virou Crente) e leitora assídua da Missão Abreviada. Ela citava de “cor e salteado“, trechos das cartas do Santo Felismino. Eu aprendi cedo, que o mundo ia se acabar pelo fogo, segundo o Padre Felismino. O dilúvio não resolveu.

Mamãe era leitora assídua da “Missão Abreviada”, e vivia esperando a chegada do anticristo. Ela repetia: “haverá Sinais no sol, na lua, nas estrelas, e na terra opressão das gentes.” Se ela tivesse esperado, tinha conhecido o Laranjão, o anticristo americano.

Eu cresci acreditando que assistiria o Juízo Final. Acho que vou conseguir (pelo menos pelas redes sociais). A qualquer instante, os Estados Unidos perdem a guerra com o Irã, e Trump cumprirá as profecias do Padre Felismino: os humanos serão extintos pelo fogo atômico.

A Igreja em Sergipe baniu, entre os católicos, a memória do Padre Felismino da Costa Fontes.

Antonio Samarone – Um caipira fora de época.
 

domingo, 5 de abril de 2026

UMA TARTARUGA ENCALHADA

Uma tartaruga encalhada.
(por Antonio Samarone).

Fazendo a caminhada matinal nas Praias do Aracaju, no domingo da páscoa. Estirando as pernas, em companhia dos doutores Jorge Motta e Luciano Correia, nos deparamos com uma realidade pouco divulgada: as tartarugas desovam nas Praias do Aracaju, no trecho entre o Robalo e o São José dos Náufragos.

Desovam e são protegidas pelo competente Projeto Tamar. Conversamos com uma profissional do Projeto Tamar, presente no local, que nos prestou todos os esclarecimentos.

Uma diferença profunda: na Bahia, na Praia do Forte, a proteção ambiental do TAMAR é atração para o turismo ambiental. Em Aracaju, o mesmo projeto é quase desconhecido. Só as tartarugas são as mesmas.

Para evitar aborrecimentos, eu sei que a primeira base do Projeto Tamar, foi em Pirambu – Se (1982), sei também da grandeza do nosso Oceanário, o primeiro do Nordeste, e que abriga mais de 30 espécies. O projeto Tamar monitora 150 km de praias em Sergipe, 800 desova e 600 mil filhotes chegam ao oceano.

A minha queixa: precisa mais divulgação!

Estamos vaidosos, eu e os doutores da caminhada, por termos salvo uma tartaruguinha. Com fé em Deus, em breve será uma tartarugona. O Dr. Jorge, em um exame rápido, confirmou que era menina.

Luciano politizou a vivência: “não precisa ser especialista, para saber, que o turismo em Sergipe é o mais atrasado do Nordeste. Não aproveitar uma trilha ecológica, na Praia, tomada por tartarugas e carcarás, é a mais profunda incompetência.”

Encontramos essa tartaruguinha da foto, perdida, desorientada, no vasto areal da Praia. As irmãs acharam o mar, pela madrugada, ela não. Pensamos, vamos salvá-la? Eu logo concordei: “achei que nem era fácil, nem difícil.”

Os eruditos doutores, consultaram primeiro a Inteligência Artificial. O relatório da IA, tinha mais de 50 páginas. Um curso completo sobre as tartarugas.

O meu pragmatismo beco-novista, me empurrou para a ação. Pincei cuidadosamente a recém-nascida pelo casco, e levei-a ao Oceano. Ela balançava freneticamente as frágeis nadadeiras, em sinal de agradecimento.

Pensamos: se tivéssemos socorrido uma baleia encalhada, à noite, estaríamos no Fantástico; como o salvamento foi de uma modesta tartaruga, seremos literalmente ignorados.

Gente, ajude!

Antonio Samarone.
 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O ESPETÁCULO DA FÉ.

 O Espetáculo da Fé.

(por Antonio Samarone)
 
As origens do teatro no Brasil são religiosas. No Brasil Colônia, os jesuítas usavam o teatro, como ferramenta de catequese e pedagogia. As peças de José de Anchieta se destacavam. Os autos de Natal eram os mais recitados. 
 
Em Aracaju, em 1904, foi fundado o Teatro Carlos Gomes, criado pelo italiano Nicolau Pungitori. Depois renomeado Cine Teatro Rio Branco, em 1912.
 
Em Itabaiana, os registros são de 1913, com o cinema mudo. O teatro ganhou folego, com a chegada de luz de Paulo Afonso, e a fundação do Cinema de Zeca Mesquita. 
 
Na década de 1950, o teatro notabilizou-se em Itabaiana, com dramaturgo e ator, José Amâncio Bezerra, discípulo de Procópio Ferreira. Entretanto, a arte em Itabaiana floresceu com a música e a fotografia. O teatro nunca foi protagonista.
 
Eu conheci o teatro, nos dramas, do Circo de Zé Bezerra: Antes da chegada da TV, com as suas novelas na TV, Itabaiana ficava acordada, esperando a hora dos dramas no Circo. 
 
Além de circo, com palco e picadeiro, era também teatro. Cada dia com uma peça diferente. A louca do Jardim era casa cheia. A peça era uma adaptação para o teatro de um cordel, que começava em versos: “vinde musa mensageira, do reino de Eloim/Traz a pena de Apolo e escreva aqui por mim/o assassino da honra ou a louca do jardim.” 
 
Instalado num alçapão no centro do palco do circo ficava o “Ponto”, profissional do teatro responsável por “assoprar”, em voz baixa, as falas que deviam ser repetidas, em voz alta, pelos atores.
Eu conheci o teatro no Circo de Zé Bezerra, e fiquei com boa impressão. 
 
A minha memória cultural fixou a passagem do Centro Popular de Cultura, por Aracaju, lembro-me da encenação do “Recital sem Opus”, de João Costa, o maior nome do Teatro em Sergipe. As participações de Luiz Antonio Barreto, João Gama, Chico Varela, Orlando Vieira, Zelita Correia, Aglaé Fontes, Clodoaldo Alencar, e outros que esqueci.
 
O Secretário de Educação era Luiz Rabelo Leite, no Governo de Seixas Dórea.
 
Quem são os herdeiros de João Costa, em Sergipe?
 
Atualmente, funcionam vários grupos teatrais, em Sergipe: Imbuaça, Mamulengo Cheiroso, Raízes, Caixa Cênica, Boca de Cena, Atualona e o Quilombo Ubuntu de Teatro Negro, Teatro Velho Chico, Cobras e Lagartos (Lagarto), loucos por loucos (São Cristóvão), Teatro Retalhos e 7 panos (Lagarto).
Não sou especialista em teatro. Vejo até onde os meus olhos enxergam, ou seja, as aparências. Sinto que em Sergipe, o teatro passa por dificuldades. Um ou outro abnegado. 
 
Sinto que a política cultural em Sergipe, deu as costas ao Teatro.
 
Esse arrodeio, é para chegar ao atual teatro religioso, em Itabaiana. Na Semana Santa, ocorrem três representações da Paixão de Cristo, em povoados diferentes: Mangabeira, Tabuleiro do Chico e Malhada Velha. São representações grandiosas, e com grande público.
 
Nesses atos, mesmo a religiosidade sendo o tema, o que move é o teatro. Atores e atrizes se desdobram na representação. Ser o Cristo é uma distinção disputada. Das três representações, a da Mangabeira é a mais antiga.
 
A Paixão de Cristo no Tabuleiro do Chico, nasce em 2011, por iniciativa do casal Adelson e Hosana. Antes era uma via-sacra, que foi crescendo. Inicialmente, eles botaram um Cristo, Zé de Galdino, carregando uma cruz, que ia de casa em casa, de estação em estação. 
 
São 115 atores, locais e dos povoados vizinhos. O cenário é ao ar livre. A natureza facilitou, pois o Tabuleiro do Chico, parece com a Palestina. O Cristo é o mesmo.
 
Na Mangabeira, a encenação começou em 1990. No início também foi uma via-sacra. Hoje, participam cem pessoas. A ideia foi de Dona Rita. O cenário é montada em frente a Capela Santa Ana/São Joaquim, onde existe um belo anfiteatro. 
 
A encenação na Mangabeira possui iluminação e som profissionais. O grupo foi institucionalizado e é comandado por Glasdston. Por lei municipal, a Paixão de Cristo da Mangabeira é Patrimonio Cultural e Imaterial de Itabaiana. 
 
A encenação da Mangabeira é transmitida ao vivo, pelo YouTube.
 
Por último, a encenação da Malhada Velha passa por mudanças profundas. Antes, liderada por Noel, chamava a atenção pelo realismo e simplicidade. O flagelo de Cristo era próximo ao real. O Fel servido a Cristo é mais amargo do que o original, da Palestina.
 
Um empresário, nativo da Região, Marco Contador, resolveu investir na criação do cenário, dentro do Modelo da Nova Jerusalém, em Pernambuco. Essa mudança está ocorrendo, a cada ano, os palácios de Pilatos, o cenário estão sendo construído, com muito zelo.
 
Itabaiana considera as três encenações da Paixão de Cristo, em seus povoados, manifestações culturais de fé, demonstrações da criatividade do seu povo.
 
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

quinta-feira, 26 de março de 2026

TREMPE, MOQUÉM E FORNO


 Trempe, Moquém e Forno.
(por Antonio Samarone)

A carne é anterior à civilização. Antes da invenção da agricultura (11 mil anos) e da domesticação dos animais, a carne vinha da caça e o homem descobriu o fogo.

O primeiro homicídio bíblico, foi motivado pela carne. Abel era pastor e ofereceu o seu rebanho a Deus. Caim era agricultor e ofereceu os frutos da terra. Deus aceitou a oferenda de Abel e rejeitou a de Caim. O final, todos conhecemos.

Estudos recentes, apontaram a carne, em seus diversos preparos, como a comida típica em Itabaiana. Antes de agricultor, o Itabaianense foi pastor. Montou currais para criação do gado.

O gado chegou ao Brasil em 1533, trazido por Martim Afonso de Souza. Com a chegada do Governo Geral, Garcia D’Àvila, expandiu os seus rebanhos. Em Itabaiana, Simão Dias Francês criava manadas, já ambicionadas pelos holandeses, em 1637.

Os curraleiros de Itabaiana (criadores de gado), armaram uma revolta em 1656, invadiram São Cristóvão e prenderam o padre Sebastião Pedroso de Goes (única autoridade presente), por conta dos elevados tributos.

A celebre sentença de Quincas Borba: “ao vencedor, as batatas”, não satisfaz aos vencedores em Itabaiana, eles querem carne.

Das 200 mil cabeças de gado abatidas legalmente em Sergipe (anuais), 150 mil são em Itabaiana. Itabaiana possui 176 restaurantes ativos, em diversas especialidades, com o amplo domínio das churrascarias e espetinhos. Só na BR – 235, são 4 grandes, com 3.800 lugares.

Tem duas churrascarias na BR, a de Domício e a de João de Neco, que a carne é assada. Uma tradição centenária, herança indígena.

Vamos esclarecer: carne assada e churrasco são formas distintas do preparo da carne.

Os indígenas assavam a carne numa trempe, em cima de um moquém de vara. Em fogo brando, lento, longe das brasas. A carne moqueada, pode ser guardada, para se comer depois. Ela é desidratada e defumada. Por isso a sua cor escura.

O churrasco é uma tradição gaúcha, onde a carne vai às brasas num espeto. Um processo rápido, apressado, sem os segredos do moquém.

A carne assada em Itabaiana, não é churrasco. Primeiro a carne é salgada e fica um tempo no sereno. Depois vai ao moquém (as atuais grelhas). Lentamente vai acentuando-se o gosto. Acho que leva temperos. Um pedaço de picanha assado é divino.

O churrasco de picanha é meia boca, quem dar o sabor é a gordura.

Creio que, como a demanda é muito grande, uma parte desse ritual de se assar a carne, seja simplificado ou até suprimido. Perde-se no sabor e ganha-se na produtividade.

Em resumo: no churrasco, a carne é preparada no espeto; na carne assada o preparo é no moquém (grelha).

A carne assada de João de Neco e Domício, é acompanhada de uma farofa gourmet, cujo segredo é guardado a sete chaves. Eu, quando frequento, como só a carne assada com farofa, dispenso os demais acompanhamentos.

De onde vem essa tradição da carne assada, em Itabaiana?

A receita foi de Dona Judite, esposa de Antonio Magneto. O patriarca João de Neco, apreendeu com a irmã Judite. A esposa de João de Neco, Dona Josefa (ainda viva), era irmã de Dona Arlete, esposa de Seu Domício. A tradição tem as mesmas raízes.

Entenderam?

O prato típico em Itabaiana, sempre foi feijão, farinha e carne, em diversos preparos. A carne fresca, frita, com aquela graxa; o lombo de panela e a carne assada. Eu só conheci arroz e macarrão na adolescência, e não gostei.

Se acredita culturalmente em Itabaiana, que só a carne dar sustança. Menino criado com pão, ensanga.

Antonio Samarone (membro da Academia Itabaianense de Letras)

terça-feira, 24 de março de 2026

AS DUAS MATAPOÃ (S)

As duas Matapoã (s).
(por Antonio Samarone)

O mapa de Itapuama (Itabaiana), dos holandeses Marcgraf e Golliat, de 1646, já registrava a Maithapan. No mapa, está Potaepuã, uma área em torno das Serras dos Picos e das Araras, dos Rios Jacoca e Traíras.

Frei Paulo, Campo do Brito e Macambira não existiam.

A selva dos Boimés, depois Matas de Itabaiana, eram ocupadas pela Taba Matüapoan.

A Maithapan fica na Bacia do Vaza Barris, pois os rios Jacoca, e o das Traíras, são seus afluentes. O jacoca deságua nas imediações da Serra das Araras, e o Rio das Traíras soma-se ao Rio das Pedras, formando a barragem da Cajaíba. (é a mesma barragem do Campo do Brito). Esses dois rios, irmanados, avançam para o Vaza Barris.

O mapa holandês de 1646, também registra a serra de Itapuamuçu (Itabaiana Grande), a Capela de Santo Antonio (igreja velha, no vale do Rio Jacarecica), a propriedade de Simão Dias Francês e a Migueba (Serra da Miaba).

O Mapa dos holandeses (1646) é anterior a Villa de Santo Antonio e Almas. Por dedução, a Maithapan é anterior a Villa de Itabaiana.

A presença significativa dos brancos, na Maithapan, só ocorreu no Século XIX, por conta do algodão. A Guerra Civil Americana (1861 – 65), afetou a produção mundial do algodão. O ouro branco subiu de preço. Sergipe embarcou nessa febre. Chegamos a 50 descaroçadoras, segundo Thetis Nunes.

As matas de Itabaiana (Maithapan, Flechas, Caraíbas, Chã do Jenipapo (Frei Paulo), Saco do Ribeiro (Ribeirópolis), foram pintadas do branco do algodão. Os ferreiros vieram do Norte de Portugal, para produzir as foices e os machados.

Os ferreiros da Maithapan tinham um provérbio profundo, que ouvi do meu avô: “Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram: o cabo é um dos nossos”.

A Maithapan dos ferreiros e plantadores de algodão formaram a raiz espiritual da autoestima itabaianense. Os maitapoenses carregam a fama de inteligentes.

Na Zona de Expansão do Aracaju, formou-se uma nova Matapoã, um bairro de ricos e bem sucedidos, às margens do Rio Vaza Barris. 

 
Os Gordinhos da Norcon (Luiz e Tarcísio Teixeira, filhos de Oviedo e netos de Dona Caçula), compraram um sítio às margens do Vaza Barris e, em homenagem a suas raízes, o denominaram de Sítio Matapoã (Maithapan).

As duas Matapoã (s) ficam na bacia do Vaza Barris. O nome do sítio dos Teixeira, tornou-se o nome de uma região (hoje, bairro). O prestígio dos Teixeiras, deram o nome do seu sítio, a um novo bairro. O povo adotou o nome.

A ligação fluvial tornou-se afetiva, memorial e histórica. 

 
As duas Maithapan ficam na Bacia do Vaza Barris e são raízes da memória sergipana.

Parodiando Gonzaga: “o rio das Traíras corre para o Rio das Pedras, o Rio das Pedras corre para o Vaza Barris e o Vaza vai bater no meio do mar.”,

Antonio Samarone.
 

sexta-feira, 20 de março de 2026

UM DESERTO DE SOLIDÃO

Um deserto de solidão.
(por Antonio Samarone)

Seu José Vicente Oliveira, camponês da Sambaíba, completou oitenta anos, sozinho, num quarto quente do Asilo São João de Deus. Uma casa de repouso, onde não se tem sossego.

O ar condicionado do quarto, quebrou há 70 dias. Ele não teve a quem reclamar. Para ser mais preciso, por sabedoria, ele sabe que se reclamar é pior.

O quarto tem um ventilador de teto, barulhento, que deixou de funcionar. A família cobrou um ar condicionado, mesmo usado. No momento encontra-se quebrado.

Os demais abrigados, cinquenta e poucos, quase não se falam. São desconhecidos por opção. Não se suportam. O sonho de cada um é que o outro morra primeiro.

Vicentinho, o filho, meu primo distante, me levou para visitá-lo. Eu fui, mais por curiosidade, do que por compaixão. Queria ver o asilo por dentro, o dia-a-dia.

Vicentinho é um bom filho. No começo, ia visitar o pai semanalmente, depois mensal, e agora, vai raramente, em dias especiais: no aniversário do velho, na páscoa e no Natal.

Na ida, Vicentinho foi me contando os maus tratos, recebidos pelo pai. Mesmo pagando 2 salários e meio mensais. O mais grave era a desatenção dos cuidadores: o pai passava horas, às vezes dias, mijado, sem trocarem a fralda. O cheiro da urina impregnou, virou crônico.

O seu único consolo, um rádio de pilha, usado para amenizar a solidão noturna, foi retirado por orientação da psicóloga. A doutora achou que a insônia era causada pelo rádio, e proibiu.

Também houve uma queixa do quarto vizinho, o rádio tocava alto. Zé Vicente é um ceboleiro, viciado desde menino, em rádio, sobretudo, naqueles programas de música sertaneja.

Zé Vicente adora, quando o radialista da rádio Comunitária de Itabaiana (87.9 – FM), manda uma música para ele, durante a madrugada. Ele renasce por vários dias.

Eu fui me indignando com as histórias de Vicentinho, sobre o tratamento desumanizado, dado ao seu Zé Vicente.

Na chegada, fui logo reclamar na sala da administração, vizinho a cozinha. Senti Vicentinho constrangido, em dúvidas, sobre a conveniência de minha atitude impulsiva.

Tereza, a enfermeira chefe, ao ouvir a minha denúncia emocionada, saiu em defesa do seu serviço e dos seus comandados. Retrucou, maus tratos? Como assim, você vai ter que provar. Não admito, denuncia vazia.

A experiente enfermeira, nos acompanhou até o quarto de seu José Vicente. Já entrou falando alto e com firmeza. “Seu Vicente, quem foi que lhe maltratou?” O velho respondeu espantado: - “Ninguém! Eu aqui eu sou tratado como um Príncipe.”

Vicentinho, o filho, para não passar por mentiroso, tentou avivar a memória do velho: “Papai, e aquilo que o senhor me contou, lembra-se? O pai reagiu: “Eu não lhe contei nada!” A situação foi ficando difícil. Quem estava mentindo?

Tereza deixou o quarto fumaçando, falando pelos cotovelos. Falar é fácil, o difícil é provar!

Quando ficamos a sós, no quarto, José Vicente nos deu uma aula de Sabedoria: “Vicentinho, meu filho, você e o seu amigo são dois irresponsáveis! Depois da visita, vocês vão embora. Eu, ficarei sozinho, isolado, sem forças para reagir a nada.”

Desabafou Vicente: - “Eu, calado, pacientemente agradecido as migalhas de atenção, sou mal atendido. Imaginem, vocês me arrumam uma má querência com os funcionários do asilo e vão embora. Como será o atendimento depois?”

José Vicente, na velhice, retomou a religiosidade da juventude. Na saída, nos contou uma bela passagem do Velho Testamento, que eu desconhecia. O encontro do profeta Elias, com Deus – livro dos Reis 19:11.

“Sai e põe-te de pé no monte, diante do Senhor! Eis que ele vai passar.”

“Houve então um grande furacão, tão violento que rasgava os montes e despedaçava os rochedos diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor não estava no fogo.”

“Finalmente, passado o fogo, percebeu-se o sussurro de uma brisa suave e amena. Quando Elias a percebeu, cobriu o rosto com o manto.”

Verdadeiramente, o velho José Vicente, se preparou para o descanso eterno.

Antonio Samarone.