O Dr. Augusto Leite
(por Antonio Samarone)
As pesquisas históricas apontam os médicos que revolucionaram a medicina em Sergipe: Antonio Militão de Bragança, na segunda metade do século XIX, (entre 1884 e 1920); Augusto Leite, no início do século XX (1926 – 1960).
Foi Augusto Leite, no comando do Hospital de Cirurgia, quem incentivou a medicina científica em Sergipe.
A partir da criação da Faculdade de Medicina (1961), outros médicos se destacaram. Usando os critérios do cabedal científico, da cultura geral, da erudição médica e da envergadura moral, os mais citados são: Nestor Piva, José Augusto Barreto, José Teles de Mendonça e Átalo Crispim de Souza.
A Faculdade de Medicina de Sergipe ofertou inicialmente 20 vagas. Em 16 de fevereiro de 1961 realizou-se o primeiro vestibular, com 54 inscritos dos quais apenas 9 foram aprovados. A aula inaugural, foi proferida pelo professor Silvano Isquerdo Laguna, professor da Universidade de Valladolid, na Espanha.
Augusto Leite nasceu em 30 de julho de 1886, no Engenho Espírito Santo, Riachuelo. Filho de Francisco Rabelo Leite e Maria Virgínia Accioli Leite. Diplomou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 2 de janeiro de 1909. Faleceu em 9 de fevereiro de 1978, em Aracaju.
Augusto Leite foi o maior cirurgião de Sergipe, o bisturi de ouro.
Entretanto, a sua maior virtude foi o amor e o cuidado com os pacientes. Um grande humanista. Em um discurso, como Paraninfo de uma turma de auxiliares de enfermagem, Augusto Leite ensinou:
“Não se faz medicina sem bondade. O doente é um angustiado. Ouvi-o com carinho, sem enfado, pacientemente. Falhai-lhe com brandura. Cada doente é um doente distinto, que se precisa conhecer.”
“O coração tem o condão de dar esperanças e de fazer sorrir mesmo os grandes sofredores, já desenganados pela ciência médica.”
Augusto Leite antevia o futuro: “No dia em que o médico não precisar mais do que movimentar aparelhos e máquinas, a medicina será mais perigosa do que útil. A relação médico/paciente deve ser centrada na confiança.”
O Governador Graccho Cardoso passou-lhe as chaves do Hospital de Cirurgia, em 1926. Ele não teve ambições, não se apropriou privadamente do hospital.
Já idoso, em um discurso aos médicos, Augusto Leite declarou:
“Aí está o Hospital de Cirurgia. Ajudei-o a nascer, vi-o crescer e agigantar-se. Sou o mais velho dos seus operários. Digo-vos com emoção: hei de morrer operário, entre os operários moços do Hospital de Cirurgia.”
A medicina é uma só, sonhava o Dr. Augusto Leite, requer ao mesmo tempo, as excelências do artista e do sábio. O doente perdeu o nome e o médico perdeu a liberdade.
O Hospital de Cirurgia nasceu com 40 leitos e virou referencia nacional. O Presidente Juscelino Kubitschek desembarcou em Aracaju, visitou o Hospital de Cirurgia e embarcou de volta. Deixou as autoridades políticas chupando dedo.
Augusto Leite morreu há quase 50 anos. O sonho do Cirurgia, no início resistiu. Depois degringolou. Hoje funciona regularmente. O Hospital é um Fundação de Beneficência, sob intervenção do Ministério Público. Sem entrar em detalhes, o Cirurgia tomou outros rumos.
Nas comemorações do centenário, foi realizada uma festa pomposa, eivada de ingratidões. Nenhuma entidade médica foi convidada. Nem a Sociedade Médica de Sergipe (SOMESE), fundada e dirigida por 11 anos, por Augusto Leite.
Contudo, isso é o de menos.
Os médicos sergipanos, que conhecem a história da medicina e do Hospital de Cirurgia, devem festejar os cem anos do Hospital de Augusto Leite.
Na foto, o primeiro corpo clínico do Hospital de Cirurgia, que não pode ser esquecidos.
No gabinete de estudos do Dr. Augusto Leite, tinha um soneto de Bastos Tigre:
"Entra pela velhice com cuidado/ Pé ante pé, sem provocar rumores/ Do que tiveres no Pomar plantado/ Apanha os frutos e recolhe as flores./ Que a neve caia! O teu ardor não mude."
Antonio Samarone. Ex professor de história da medicina, na UFS.

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