sábado, 10 de outubro de 2026

O FUTURO REPETE O PASSADO

O futuro repete o passado.
(por Antonio Samarone)

No Brasil, a extrema direita chegou ao poder pelo voto. O projeto abre mão da soberania, da democracia e dos direitos sociais. Será feito o que for preciso. Sem limites. Essa realidade assustou a quem sonha ou sonhou com o Brasil, como grande Nação.

A derrota de Lula, no segundo turno, será a última pá de cal.

Os da minha geração que perceberam o abismo, ficaram assustados e querem reagir, mas não sabem como. Fazer o que? Vamos para as ruas! Gritou um “antigo progressista” (esse vocábulo ainda existe?). Um mais cético, retrucou: fazer o que nas ruas? Outro, mais jovem, acha que a saída é começar uma guerra, pelas redes sociais.

Quando tudo parecia perdido, sem jeito, uma força solar se acordou, encheu as ruas e afirma sem medo: não queremos retrocessos. Vamos virar!

Quem são?

“Quero falar de uma coisa/ Advinha onde ela anda/ Deve estar dentro do peito/ Ou caminha pelo ar... A folha da juventude/ É o nome certo desse amor.” – Milton Nascimento.

Gente, os jovens acordaram. Eles são o sal da terra. Como ensina a canção: “Se você achar que estamos derrotados, saibam que os dados, ainda estão rolando. O tempo não para.”

Na última manifestação dos estudantes da UFS, fui abordado por um jovem negro, que me chamou pelo nome e se identificou. – “Eu sou neto de Florival, velho comuna do PCB”, Lembra-se? Como não lembrar, eu conheci Florival na juventude. Ele me emprestou o livro: “El arte”, de J. Posadas.

Posadas, era um trotskista argentino, líder da quarta internacional. Pseudônimo de Homero Rómulo Cristalli Frasnelli, lido nos meios universitários daquele tempo. A principal tese de Posadas era que as civilizações extraterrestes eram todas socialistas.

O negro Florival foi um pedreiro do 18 do Forte, amigo de Manuel Vicente, que lia Trótski. Avistei Florival, pela última vez, ele já velhinho, no velório de Marcelo Déda, no Palácio Olímpio Campos.

Perguntei ao jovem da passeata, neto de Florival, como ele se chamava: - “O meu nome é Leon David. Sabe em homenagem a quem?” Não sabia, não fazia a menor ideia. “Uma homenagem a Lev Davidovich Bronstein (Leon Trótsky).”

O jovem Leon abriu o peito e recitou um antigo verso, dos meus tempos de movimento estudantil: “Vim aqui só para dizer/ Ninguém há de me calar/ Se alguém tem que morrer/ que seja para melhorar.” Eita, a juventude ainda ouve Geraldo Vandré!

Contudo, “Ainda é fecundo o ventre que gerou a besta.” – Brecht.

Antonio Samarone.
 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A LITERATURA SERGIPANA

A literatura Sergipana.
(por Antonio Samarone)

Acho o título, literatura de entretenimento, pejorativo e injusto. Toda literatura entretém. O maior nome da literatura brasileira atual, escreve sobre autoajuda. Não estou me valendo do relativismo cultural, onde o gostar do consumidor é critério absoluto. Para todas as artes.

Entretanto, não é fácil classificar, quem ou não, merece o título de escritor, nem quando um texto pode ser considerado literário. Entre a pura literatura e o texto jornalístico a distância é curta, a fronteira é borrada. Sem contar os textos técnicos, os ensaios, causos, panfletos e manifestos.

Cair no senso comum e considerar escritor todo mundo que escreve, torna-se um exagero. Limitar a honraria somente aos que escrevem bem, cria um problema, quem julga? Na falta de um conceito objetivo, sigo a opinião de Paulo Coelho: "escritor é quem vive de escrever, quem tem esse talento como meio de vida."

A tese do bruxo é simples: se o indivíduo vive de escrever é porque tem leitores que compram a sua obra. As editoras se interessam na venda e na distribuição. A literatura tem as suas instituições: editoras, livrarias, bibliotecas, círculos de leituras, sebos, feiras de livros e bienais.

A crítica internacional vê a literatura brasileira com desatenção. Nunca houve um Nobel, apesar dos louvores ocasionais a Machado de Assis e Guimaraes Rosa. Se a atenção se volta para Sergipe, a desgraça é maior. Por aqui, nem o Cordel consegue destaque nacional.

As dificuldades literárias em Sergipe não são por falta de incentivos. Existe uma Academia de Letras em cada esquina. Nem por falta de bons escritores. As livrarias estão apinhadas de livros de autores sergipanos.

Várias corporações, Rotary, Maçonaria, Oratórios, Clubes de Tiro, Profissionais liberais, etc. possuem sociedades literárias. É inegável o prestigio da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, hoje presidida por Lúcio Prado Dias, médico sergipano. Um mecenas abnegado.

A Academia Sergipana de Medicina e a Sociedade de Médicos Escritores não medem esforços em incentivar a produção literária entre os médicos. Publicam anualmente ontologias de médicos. Realizam eventos.

Hoje, 06/10, as 19 horas, estão organizando um lauto banquete para os sócios, onde o talentoso José Marcondes de Jesus (membro da “Sleep Research Society”), vai realizar uma conferência sobre Medicina & Literatura. O convescote é aberto aos leigos convidados e aos amigos dos sócios.

Se incluirmos os que escrevem para as plataformas digitais, a militância literária em Sergipe é expressiva. Não faltam bons cronistas. Sinto uma certa escassez da poesia, mesmo com tantos poetas. Parece haver uma timidez poética. Nem todo mundo tem coragem em publicar poesias. O medo do ridículo esconde talentos. O principal da obra de Fernando Pessoa, só foi publicada após a sua morte.

O que falta mesmo em Sergipe são críticos literários. Quem é besta, ficar arrumando inimigos. As poucas resenhas do muito publicado são louvações. Se elogia sempre, esperando-se a justa contrapartida.

Antônio Samarone. Membro de várias academias e aceitando novos convites.
 

domingo, 4 de outubro de 2026

FOI O SÉTIMO DIA

Foi o Sétimo dia.
(Antônio Samarone)

A missa de sete, do dr. Átalo, foi encomendada para as sete da manhã, de 04 de outubro, na igreja do Salesiano, no antigo morro da Tebaida. Uma igreja colorida, alegre e bem iluminada. Não me lembrava mais, dos encantos da Capela de Dom Bosco, em Aracaju.

O 04 de outubro é o dia de São Francisco e o dia do descobrimento de Sergipe. (04/10/1501).

Celebrar missa pelo defunto, no sétimo dia após a sua morte, é uma tradição mundial dos católicos. Mesmo que coincida com as eleições. Na cosmogonia bíblica, Deus descansou no sétimo dia da criação. Os mortais, terão o descanso eterno.

A tradição abriu uma chance de ainda se pedir misericórdia para o defunto. Ponderar, lembrar as boas ações. Geralmente, se tem boa vontade com os mortos.

A missa de sete ainda permite um último encontro entre amigos e familiares, com quem passou para uma melhor. Prevenindo aos apressados, Átalo não acreditava que a consciência fosse um produto do cérebro, um fenômeno físico/químico, como teoriza uma certa neurociência. Nem por isso era um amante do obscurantismo. Só não acreditava que a consciência fosse um subproduto celular.

O cérebro é um receptor da consciência, defendia ele. Não se trata de negar a ciência, mas de se prescrutar novos paradigmas. A consciência é uma propriedade da matéria, não desaparece com a morte do corpo, aponta a física quântica. Não sei o destino post-mortem: Paraiso ou inferno, dependendo do juízo final.

Claro, estou simplificando, para caber nas redes sociais. A consciência sobrevive ao corpo. Ainda não se sabe se ela permanece individualizada (cada um, continua com a sua) ou se ela é dissolvida na energia cósmica, como proclamam algumas filosofias orientais.

Durante a missa, senti uma fresca forte e amena (zéfiro), que monopolizou a minha atenção. Uma fresca contemplativa, prazerosa e que anunciou sem arrodeio: “Estou aqui!” Quem, indaguei? - “A consciência que ocupou o corpo do seu amigo. Estou em transição.” Tentei puxar conversa, saber algumas coisas, algum segredo. Nada. Sem sucesso.

A fresca metafísica não é o vento em movimento, movido por um ventilador cósmico. A fresca pode se apresentar como um fenômeno que refresca a alma e eriça os pelos. Essa fresca é personalizada, cada um sente do seu jeito. Outros, nem a percebem.

A última vez que foi visitado pela fresca metafisica, foi a mais de 60 anos. A fresca para o corpo, qualquer ventilador resolve. Não é dessa que estou falando.
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Coitada da IA, pensa que fresca é exclusivamente o feminino de fresco, uma pessoa afetada, cheia de melindres. Não vai ser fácil explicar a IA, a fresca que senti na igreja do Salesiano. A IA pensa cartesianamente, dentro de um sistema binário.

Só a inteligência humana, analógica, criativa, aberta aos erros, as suposições, aos enganos e as fantasias, podem sentir a fresca metafísica (zéfiro). Só a inteligência humana pode sentir, um fenômeno inexistente. A IA quer provas, evidências.

Na mitologia grega, essa fresca metafisica (zéfiro), amena, convive sem medos, desassombrada, com outras divindades do vento, como ventanias, vendavais, redemoinhos, ciclones, tornados e tufões.
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Suspeito que já foi a influência de Átalo, no Olimpo, que liberou zéfiro, hoje pela manhã, na igreja do Salesiano. Uma resposta a missa de sétimo dia.

Antônio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A FINAL É DOMINGO.

A Final é domingo.
(por Antonio Samarone)

“A cultura é a consciência da civilização” – Norberto Bobbio.

Em Sergipe, não haverá 2º turno. Teremos que decidir o nosso destino, nos próximos 4 anos, no domingo. Lavar as mãos, achar que tanto faz, que é tudo a mesma coisa, se abster, são atitudes coniventes. A indiferença abre as portas para os que parasitam os recursos públicos.

Entre 1982 e 2006, por 24 anos, Sergipe foi governado por três homens (João, Albano e Valadares). Foi a Era João Alves.

Politicamente, existia um projeto de desenvolvimento para o Estado. Concorde-se ou não com os caminhos apontados. Sergipe saía dos pátios dos engenhos. Deixava de ser uma “roça iluminada”, como dizia Joel Silveira.

Nacionalmente, o Partido dos Trabalhadores (PT), chegou ao poder. Em 2002, Lula, um operário nordestino, elege-se Presidente da República. Em 2006, por conta dessa ascensão nacional do PT, Marcelo Déda ganha as eleições em Sergipe. Já são 20 anos no poder.

A Era João chegou ao fim. O novo bloco político prometeu acabar com a mesmice. Esperava-se mudanças. Chegamos onde chegamos. Sergipe retrocedeu.

Hoje patinamos sem projetos. A principal obra do governo é uma nova ponte para a Barra dos Coqueiros. Os investimentos da Petrobrás nas plataformas em águas profundas, passa desapercebida. A crise hídrica não é enfrentada. Pelo contrário, privatizou-se a distribuição, a parte lucrativa. A falta d’água é enfrentada com carros pipas.

Em política, quem escolhe os herdeiros é o povo. Ninguém do PT, foi escolhido para a sucessão de Déda. Talvez, Edvaldo Nogueira, um filho de criação, tenha herdado a prefeitura de Aracaju.

Os herdeiros finais de Déda, são esses jovens, filhos de uma elite predatória, cujo único projeto é a sangria improdutiva do estado, para acumularem patrimônio. Hoje, nenhum deles lembra-se de Déda. O PT continua no palanque, meio constrangido, por conveniências eleitorais.

Privatizaram a máquina pública. São os donos!

Via de regra, são meninos que nunca precisaram estudar, nem trabalhar. Nasceram com a vida resolvida. Talvez essa insensibilidade com os professores seja atávica. Eles não possuem uma boa lembrança da escola.

A política foi um caminho para resolver a vida deles, que nunca se preparam para nada. Talvez por isso, a arrogância, a prepotência e a ilusão que tudo se resolve com dinheiro. Inclusive, a compra dos mandatos. Votos? “Se compra...”

Faz sentido eles acharem que um marchante não pode governar Sergipe. Só eles...

A oposição apresenta um nome, Valmir de Francisquinho, que ralou para chegar onde chegou. Com talento e sensibilidade política, foi crescendo. Governou e impulsionou o desenvolvimento de Itabaiana. Valmir já deu provas de ser um bom gestor. Conhece Sergipe em detalhes, e pede uma chance.

Essa empatia de Valmir com o povo não é mágica, carisma ou acaso. O povo, em seu inconsciente, sente quem está ao seu lado e quem está contra. Sem grandes teorias. O povo reconhece com um sorriso, um abraço apertado e a esperança renovada.

Acho, que o projeto de Valmir é retomar o desenvolvimento de Sergipe.

Um intelectual da UFS, decano em seu departamento, escreveu sobre Valmir, nas redes sociais: “não voto na extrema direita populista, nem em filho de velhos coronéis. Fiquei curioso. Primeiro, direita, populista ou não, propõem reestatizar a DESO, nem é contra à terceirização da saúde. Quanto a filiação, o doutor pensa que Francisquinho, era o centenário líder Chico de Miguel.

Gente, domingo, na final, é essa a disputa: o poder, o dinheiro e a força versus o sonho popular. Romanticamente, eu acredito no povo.

Antonio Samarone – um filho da escola pública.
 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A MORTE DE ÁTALO CRISPIM DE SOUZA

A morte de Átalo Crispim de Souza.
(por Antonio Samarone)

A morte de uma das maiores cultura médica de Sergipe, ensejou controvérsias, e reascendeu a pretensão da medicina oficial em intitular-se única. A herdeira da ciência, portanto, a dona da verdade sobre a saúde e a doença, a vida e a morte.

A resistência de um homeopata em manter-se fiel a sua doutrina, foi tratada como inaceitável. Uma intolerância corporativa e ideológica. Claro que ele conhecia a causa bacteriana da erisipela e a eficácia da penicilina; mas conhecia também a capacidade de resistência do organismo.

Átalo era um profundo conhecedor dos agentes infecciosos, das descobertas de Pasteur ao "Príon", proteínas com memória, que se propagam no organismo. Agente bem menores que os vírus e não contém nem DNA, nem RNA, e podem causar doenças. Os príons são partículas proteicas infecciosa. Aprendi essa novidade com ele.

Hoje se sabe que as proteínas possuem memória, coisa que Claude Bernard, que inventou a medicina experimentar e descobriu o “meio interno”, não sabia no século XIX. A bioquímica que estudei na faculdade era a tradicional, onde as químicas orgânica e inorgânica ainda obedeciam às mesmas leis.

Átalo era homeopata por convicção, mas conhecia profundamente as narrativas da chamada medicina científica. O arcabouço de sustentação das ciências do corpo é fundado num físico/química tradicional, do início do século XX. Essa química comparada com a atual é quase uma alquimia.

Átalo diagnosticava a esquizofrenia pelo olfato.

Os novos conhecimentos da física quântica e da química orgânica e suas propriedades emergentes, em decorrência dos sistemas vivos, são ainda curiosidades para alguns médicos. A multiplicidade dos exames bioquímicos, hoje solicitados, ainda obedecem a lógica da revolução cientifica do século XIX. Apenas, tentam substituir a falência da propedêutica dos sentidos.

Os tratados médicos de farmacologia, quando ainda eram lidos, eram divagações hipotéticas, sobre a farmacodinâmica e a farmacocinética das substancias químicas.

A pratica médica atual ainda é centrada no paradigma celular (Virchow – 1849). A ciência já avançou para os paradigmas moleculares e atômicos. E a medicina ficou com as suas antigas certezas. A transição da pratica médica é lenta, pois contrariaria interesses e saberes constituídos. A substituição do paradigma humoral de Hipócrates e Galeno, se arrastou por 500 anos.

O organismo de Átalo foi derrotado por uma doença aguda, a erisipela, onde possivelmente a antibioticoterapia seria eficaz. Entretanto, essa é uma certeza probabilística. As evidencias de eficácia são percentuais estatísticos.

Outras comorbidades: diabetes descontrolada, estado emocional, nível de resistência imunológica reduzido, entre outras, podem ter contribuído para o desenlace. Não estou negando, apenas relativizando as certezas médicas. O método estatístico tem as suas limitações.

Sem ir longe, as dificuldades atuais no tratamento das septicemias e infecções hospitalares são conhecidas. Um outro amigo, faleceu medicado, dentro da UTI, acompanhado por uma equipe médica que dispunha todo o arsenal da indústria farmacêutica, vítima de uma septicemia originária de uma infecção urinária.

Outras práticas médicas são vistas como obscuras e lesivas. O complexo médico industrial não aceita condutas fora do seu protocolo, mesmo comprovadamente benéficas. ]

Com a hegemonia da medicina de mercado, as necessidades milenares de uma prática voltada para os cuidados e o alivio do sofrimento humano perderam importância. A tradicional dualidade ciência/arte, se tornou coisa do passado. A medicina comercial precisa de técnicos, que realizem procedimentos lucrativos, sob o manto de uma ciência adaptada aos interesses.

A medicina é anterior ao Homo sapiens. Os antigos humanos (neandertal, erectus, denisovanos...) já eram bípedes, fabricavam utensílios, enterravam os mortos e cuidavam dos doentes).

Varias medicinas conviveram por milênios, sem exclusões, com usos distintos. Uma medicina única e oniscientes é uma pretensão ideológica. A ciência é o método, não produz verdades acríticas.

A morte de Átalo foi uma grande perda para a humanidade, os gênios são raríssimos. Mas a homeopatia contina respirando.

Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
 

sábado, 26 de setembro de 2026

PETRÕNIO GOMES, UM CRONISTA SERGIPANO.


Petrônio Gomes, um cronista sergipano.
(por Antonio Samarone)

Já passei na vida, por muita coisa trabalhosa. Mas, nada se compara em querer disciplinar o trânsito. Uma missão quixotesca. Fui diretor da SMTT, em Aracaju. Cheio de boas intensões e muita ingenuidade, tentei reduzir a velocidade permitida. Aliás, já estabelecida no Código de Trânsito.

Hoje recebi essa crônica do sergipano Petrônio Gomes, presente de um amigo. Um mimo. Uma joia literária. No mesmo nível das crônicas do capixaba, Rubem Braga. A arte e os talentos são universais.

Vou transcrevê-la:

Devagar e sempre.

O dr. Samarone disse que vai ser assim e pronto. Não adianta possuir carrão fogoso com velocímetro de três dígitos, metido a gato mestre. A fábrica inventou motor valente porque quis, mas em Aracaju tudo fica perto. Se quiser correr, procure outra freguesia.

A galera protestou: “Como é possível sair do emprego ao meio-dia, apanhar um filho em cada colégio, passar em casa e almoçar feijão frio sem lavar o rosto, voltar para o batente em uma hora, dirigindo em passo de tartaruga”.
O superintendente respondeu que ainda está para existir uma tartaruga que consiga se locomover a sessenta quilômetros por hora, uma declaração que não ofende a lógica mais elementar.

Mas as opiniões estão divididas, não entre dias facções, e sim entre meia dúzia delas. Pelas ondas radiofônicas, a população disse o que lhe passou pela cabeça, forçando os apresentadores dos programas a soltar uma risada de vez em quando para esfriar os ânimos.

Quando liguei a televisão para assistir ao jornal vespertino, o repórter olhou para mim e ameaçou: “Você, aí, telefone agora e diga sua opinião”.

Ele achou pouco um dia inteiro com um só assunto e martelar os ouvidos da gente e resolveu continuar a briga de noite. Nem dei bolas e desliguei. Mas deixarei aqui a minha opinião sincera, esperando que a maioria dos leitores desse querido jornal não ligue muito para o que eu vou dizer.

Na verdade, dr. Samarone tem suas razões legitimas para tomar suas providências no sentido de diminuir a velocidade permitida aos veículos. Sendo médico, basta-lhe mostrar ao público as estatísticas sombrias dos acidentes automobilísticos com gente estendida no asfalto e sangue para todo o lado. E, sendo o chefe atual do órgão, cabe-lhe até o direito de mudar o assunto.

Muitos dos ouvintes também falam com razão. Sabem o que está causando toda essa confusão? É que no pacote dos que querem um pouco mais de velocidade, existem os motoristas responsáveis e irresponsáveis. Estes últimos sempre falam nos mesmos motivos que levam os primeiros a protestar, perceberam? Como separar uns dos outros no calor da discussão?

O que é fato é que Aracaju tem carros em demasia. Vejam-se as ruas principais da cidade, de uma ponta a outra, em qualquer hora do dia. Existem carros estacionados de um lado e de outro. As garagens dos prédios não comportam o número dos veículos, pois existe o do dono do apartamento, o dos filhos e, as vezes, de um criado ou vigia.

Uma pessoa ligada a engenharia de tráfego me disse um dia que ninguém poderia dirigir em nossa cidade se todos os automóveis saíssem de uma só vez. Multiplique-se o tamanho em média de cada veículo pelo número dos que existem hoje em Aracaju. Em seguida, dividam o resultado pela extensão das vias públicas. E todo mundo ficará sem sair do lugar, a bordo de um carrão parado.

Tenho pena do dr. Samarone, tenho pena dos pais que almoçam feijão frio e que voltam para o batente sem vontade de rir para o chefe. Já passei por tudo isso, e em um tempo muito mais suave, quando a gente diminuía a marcha do carro para esperar que um cachorro atravessasse a rua. Vocês dirão que esse tempo era bom demais.

Nem tanto. Havia outros problemas que nem quero dizer agora. Só em outras crônicas.

Petrônio Gomes.

Antonio Samarone (Academia Sergipana de Medicina)
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O INSTITUTO PARREIRAS HORTA.


 O Instituto Parreiras Horta.

(por Antonio Samarone)

Na Rua Campo do Brito, ao lado do Batistão, funcionava o Instituto Parreiras Horta, o templo da Saúde Pública sergipana. Um prédio de inspiração mourisca, imitando a Fundação Manguinhos, no Rio de Janeiro.

O prédio central do IPH foi abandonado há décadas. Em dezembro de 2015, o governador anunciou a cessão de uso do Prédio, para a Academia Sergipana de Medicina, visando a instalação de um memorial da medicina em Sergipe. Promessa vai, promessa vem, e o histórico prédio público continua em “reformas.”

Qual a origem desse berço da medicina em Sergipe?

No começo do Governo Graccho, em 14 de novembro de 1922, a lei n.º 836, em seu artigo 4º, letra K, autorizou a fundação de um Instituto voltado para a Saúde Pública. Em 23 de julho de 1923, a pedra fundamental foi lançada.

O medico e cientista Paulo de Figueiredo Parreiras Horta, desembarcou em Aracaju, junto com a família, em 20 de junho de 1923, para comandar a instalação de um “Instituto Pasteur”, em Sergipe.

Aqui nascia a medicina científica em Sergipe, impulsionada pelo IPH e pelo Hospital de Cirurgia.

O projeto era construir, ao mesmo tempo, um Instituto Pasteur, voltado para o combate à raiva; um Instituto Vacinogênico, para a produção da vacina anti-varíola e um laboratório de análise clínica, bacteriológica e química; e que também funcionasse como um centro de pesquisas médicas.

Entregou a responsabilidade a um médico (clínico e dermatologista), cientista experiente, diplomado pelo Instituto Pasteur na França, o ilustre Dr. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta.

O Instituto foi construído em tempo recorde de apenas oito meses.
Em 05 de maio de 1924, ocorreu a sua festiva inauguração.

O Governador do Estado, em seu discurso durante a inauguração do Instituto, expressou uma esperança: “Sabemos que nossa Capital é tida como uma das cidades mais infamadas, avultando-se novamente o perigo de algumas febres, dizem, de origem desconhecida pelo próprio Oswaldo Cruz, que as denominou como nossas, capitulando como exclusivamente nossos os germes de que elas se geram. Que febres serão essas, que sob o encanto destas paisagens sorridentes, encontrou o seu foco ou o seu berço?

Essa tarefa o Instituto Parreiras Horta cumpriu com competência. Não somente esclareceu a etiologia dessas febres (identificadas como tifoides), como conseguiu o isolamento dos germes e a fabricação de uma vacina oral, por meio de pequenas modificações de um método do Instituto Pasteur.

Na verdade, as febres do Aracaju eram o pesado tributo pago pela população mais pobre às péssimas condições sanitárias da Capital.

A vacina contra as febres tifoide e paratifoides, que no Brasil foi produzida pela primeira vez em Sergipe, era obtida cultivando-se várias amostras de bacilos tíficos e paratíficos “A” e “B”, em garrafas contendo ágar inclinado. No fim de 24 horas, as culturas eram retiradas da superfície do ágar e emulsionadas em água fisiológica esterilizada. Fazia-se a contagem dos germes, previamente mortos com iodo, no hematímetro de Thoma-Zeiss. A solução era diluída a 2% numa solução decinormal de iodo. Após esse processo, a vacina resultante era distribuída em ampolas de 5, 10 e 20 cm3.

A vacina era empregada via oral, 20 gotas diluídas em água, tomadas em jejum, durante três dias consecutivos. Quanto à eficácia da vacina, hoje sabemos que era quase nula, mas, à época, como houve uma importante redução na incidência das febres, por outros motivos, o sucesso foi atribuído automaticamente à vacinação em massa praticada em Sergipe.

Parreiras Hortas retornou ao Rio de Janeiro, em 08 de dezembro de 1925. O comando do IPH fica em mãos do Dr. João Firmo. Na década de 1940, o IPH passou para o comando do médico itabaianese Theotonilio Mesquita.

Na visão de Augusto Leite: “O Instituto Parreira Horta dilatou os horizontes da clínica, abrindo para Sergipe uma nova e promissora fase. É amparado no homem de laboratório que o clínico de hoje caminha."

"O cirurgião e o médico, volta e meia, lhe vão pedir orientação terapêutica, a confirmação de um prognóstico mal seguro ou a traça de uma doença que é só observação lhes não permite descobrir e autenticar."

O IPH ainda tem o seu nome vinculado a criação da primeira Faculdade de Medicina de Sergipe. Foi em suas instalações, que Silvano Izquierdo Laguna, professor da Escola de Medicina de Salamanca, ministrou a primeira aula de anatomia da Faculdade de Sergipe, em 21 de março de 1961.

Atualmente, esse relevante prédio público aguarda um destino condizente com a sua história, símbolo da introdução medicina cientifica em Sergipe. O histórico prédio do IPH, se arrasta, em uma reforma interminável.

Ontem, no tradicional almoço da SOMESE, o candidato Valmir de Francisquinho, garantiu a conclusão da obra e a imediata liberação do Prédio, para a Academia de Medicina, cumprindo uma promessa de 11 anos.

Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.