Em defesa das causas perdidas
domingo, 13 de setembro de 2026
A FOME E O MOUNJARO EM SERGIPE.
(por Antonio Samarone)
Adiberto Souza, advertiu em sua coluna (11/09): a fome devasta Sergipe. Fui a fonte. O IBGE divulgou em sua última pesquisa: 297 mil lares sergipanos vivem com insegurança alimentar. 199 mil em grau leve, 64 mil no moderado e 34 mil em situação grave, ou seja, são 34 mil famílias passando fome.
Segundo o IBGE, fome é a redução quantitativa de alimentos, com episódios de privação.
O jornalista Adiberto alerta, o Governo limitou-se a criar o “prato do povo”, uma sub quentinha com refresco”, uma refeição de segunda a sexta. Bastava a grana que se gasta em meia dúzia de shows, e um planejamento adequado, para um Sergipe sem fome.
Esse deve ser o compromisso de qualquer governo. Aliás, do governo e da sociedade.
Já tinha percebido, em minhas andanças eleitorais, capital e interior, que os sinais de pobreza aparente, tinham crescido em Sergipe. O IBGE aponta um indicador. A fome mostra as suas garras em Sergipe.
Sergipe apresenta uma desigualdade social inaceitável. Os militantes sociais diziam: “uma parte da sociedade não dorme por conta da fome, outra, não dorme com medo dos que tem fome.” Isso é retórica. Quem tem fome, não mete medo. Eles precisam de justiça social.
A desigualdade social se manifesta por outro caminho. Vivemos em Sergipe, a febre do mounjaro. Virou moda. Os médicos estão em festa. Muitos aplicam diretamente em seus consultórios. A indústria farmacêutica, a Eli Lilly, resolveu dividir o bolo.
Atualizando a sentença: “um parte da sociedade passa fome e outra toma mounjaro.”
O mounjaro foi autorizado pela Anvisa em 2023. Entre junho de 2025 e julho de 2026, o mounjaro movimentou 13,5 bilhões em vendas e alcançou e milhões de usuários.
Atualmente, é a droga de maior faturamento no Brasil. Sem contar com o uso de canetas de mounjaro clandestinas, que ninguém controla, nem sabe a dimensão.
O mounjaro sozinho, representa 5% de todo o faturamento do varejo farmacêutico nacional. Um medicamento recente. Onde isso vai parar?
A situação não é mais grave, pelo preço da droga. Na dose de 5 mg, a caixa custa R$ 1.779 reais, o que equivale a R$ 445 reais por caneta/aplicação.
A conversa dominante em qualquer roda de granfinos em Sergipe, versa sobre quem está usando ou não o mounjaro. O uso da caneta emagrecedora é sinal de distinção social. A tirzepatida, o princípio ativo do mounjaro, é o preferido das estrelas.
Eu sei que vai aparecer algum médico, justificando o seu uso medicamentoso. Não estou tratando da clínica médica. O tema é o uso social do mounjaro. A explosão do consumo. Sem especulação: os interessados podem ler a bula. O que a Ely Lilly informa.
Nos EUA, a droga começou a ser comercializada em 2022. Lá eles são mais sofisticados. A tirzepatida é vendida com o nome comercial de mounjaro, para diabetes; e como Zepbound, para obesidade.
A febre de consumo lá é maior: 31 milhões de americanos usam a celebre caneta. 12% dos adultos estão dependentes. Usam e depois se empanturram.
Resumindo para quem não é especialista em Saúde Pública: vimemos uma distopia alimentar. Dois problemas graves de Saúde: fome e obesidade.
Em Sergipe, o IBGE quantificou: 70 mil sergipanos passam fome (o dado do IBGE é por famílias) e outros 70 mil estão mamando mounjaro (o dado é pelo volume de vendas), entupidos de alimentos.
Bastava um acordo. Promover a educação alimentar dos 5% dependentes do mounjaro, e repassar o alimento excedente para os 5% que passam fome.
Não estou simplificando. O uso do mounjaro ficaria limitado aos que possuíssem patologias, onde o uso medicamentoso fosse hipoteticamente indicado.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
RAFAEL DOS PENICOS
Rafael dos Penicos. (por Antonio Samarone)
Rafael Alves de Menezes, um ceboleiro do Pé do Veado, que ainda pequeno, veio morar na localidade Bom Jardim, próximo ao Riacho da Macela Preta.
Durante a construção do Açude da Macela (1955/58), passou uma estrada em seu sítio de Rafael e ele se mudou para a Rua do Futuro, depois da bodega de Nete.
Uma referência importante, Seu Toti do mingau, que vendia bolo na esquina do armazém de Sizino, era genro de Rafael.
Rafael criou a família consertando penico e guarda-chuva, ofícios extintos pelo desenvolvimento. Ninguém mais usa penico e um guarda-chuva custa 8 reais, no comércio de Itabaiana.
Rafael foi casado com Dona Menininha e tiveram 4 filhas: Maria Conceição Lisboa (esposa de Seu Toti), Maria José, Celina e Zefinha.
O seu neto mais conhecido, Zé de Toti, mora na casa que Rafael morou em Aracaju, no Bairro Matadouro. E se esconde num sítio, na Colônia Miranda, em São Cristóvão.
Rafael era um artista popular de grande repertório. Levou o teatro de bonecos para Itabaiana. Fazia todas as vozes dos personagens. Rafael também era ventrículo.
O Beco Novo parava, durante as apresentações de Rafael dos Penicos. Eu sempre estava na plateia. Permaneço encantado com aquela arte. Quando uma neta de Rafael me mostrou um retrato antigo, depois de 60 anos, a minha memória foi taxativa: É ele...
Rafael foi um palhaço engraçadíssimo. Era falador de leilões: “entreguei, tá entregue! Música...”, celebrava casamento caipira. Nos leilões, se o dono quisesse, ele vendia até a mesa.
Rafael chamava a sua arte de presépio, e carregava tudo numa mala. O genro Zé Itabaiana, era quem carregava a mala. Em Itabaiana, teatro de bonecos ou teatro de fantoches era presépio.
Em Pernambuco o teatro de bonecos é mamulengo, babau na Paraíba, João Redondo no Rio Grande do Norte. Em Itabaiana era presépio. Entenderam a origem da palavra presepada.
Quando os tempos apertavam, Rafael virava rezador. Um curandeiro muito solicitado. Quando ia rezar para a dor de dente, ele perguntava ao paciente: se a reza é só para dor, ou queria a queda do dente. Na segunda opção, o dente caia em menos de 8 dias.
Rafael era um orador consagrado, nos comícios de Euclides. Ele chegava a falar durante 2 horas, se fosse necessário. Sempre de terno, para impor respeito. Rafael se intitulava Dr. Rafael, mesmo sendo analfabeto. Só assinava o nome. Para compensar, era de uma inteligência poderosa.
Rafael era muito querido em Itabaiana.
Uma filha de Zé Crispim, botou o nome da filha Rafaela. Na hora do batizado, o Padre deu parabéns, pelo nome: - “que bela homenagem, a Irmã Rafaela”. A mãe retrucou: - “Padre me desculpe, a homenagem é a Rafael dos Penicos”. A igreja caiu no riso.
Rafael, artista, comunicativo, engraçado, se apaixonou pela política. Era cabo eleitoral de Euclides Paes Mendonça. Daqueles apoiadores chatos, ousados e encrenqueiros.
Na eleição de Governador, em 1963, Rafael falava cobras e lagartos sobre o candidato da oposição, Seixas Dórea. Irritou tanto, que os correligionários de Seixas, prometeram, que se ganhassem, iam jogar Rafael numa coivara para ele queimar a língua. E Seixas ganhou.
Em pouco tempo, mataram Euclides Paes Mendonça. Rafael entrou em desespero. Procurou o amigo, padrinho e protetor desembargador Luiz Magalhães, que tinha sido juiz em Itabaiana e tornara-se seu amigo. Magalhaes não o abandonou. Rafael, em menos de 20 dias, se mudou para Aracaju.
Saiu de Itabaiana corrido.
Rafael continuou com as suas presepadas em Aracaju, no bairro Matadouro, onde foi morar. Ia apresentar a sua arte, onde fosse convidado.
Rafael dos Penicos vive, na memória cultural de Itabaiana.
Antonio Samarone. Secretário Itabaianense de Cultura.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
07 DE SETEMBRO & 02 DE JULHO.
07 de setembro X 02 de julho.
(por Antonio Samarone)
As críticas à Independência, ao 7 de setembro, viralizaram nas redes sociais. São artigos bem escritos, engraçadinhos, tentando ridicularizar o “Grito do Ipiranga”.
Aquilo nunca houve, repetem bovinamente. Ignoram as simbologias históricas. A direita letrada, prepara o Brasil, para a perda da soberania.
Como repetia Chateaubriand: “somos caboclos querendo ser ingleses. O ataque ideológico ao Brasil e a sua independência, não é por acaso. Eles preparam-se para “alugar” o Brasil, como ironicamente, cantava Raul Seixas. “O dólar deles vai pagar o nosso mingau”.
Os mesmo que atacam o 07 de setembro, exaltam o 02 de julho: o “Independence Day” deles, é outra coisa, houve uma guerra. O líder foi George Washigton. Eles celebram com desfiles, embandeiram as casas, fazem piqueniques, queimam fogos, e reafirmam o orgulho de serem americanos. Reforçam a crença que são donos do mundo.
O Irmão do Norte, sob o comando de Trump, já decidiu: a América é dos americanos, ou seja, deles.
O crescimento do mundo multipolar assustou o Império. O ataque ao Irã, para controlar o petróleo e favorecer a aventura sionista de Israel, não deu certo. Ao contrário, acabou a hegemonia do petrodólar e desmontou as bases americanas no Golfo Pérsico.
A prioridade passou a ser o domínio do continente americano.
Retomaram o canal de Panamá, sequestraram o presidente da Venezuela e controlaram as suas reservas de petróleo. A invasão a Cuba já foi anunciada. Estão aguardando um vaga na agenda. Até o Canadá tá na lista.
Manipularam as eleições no restante da América latina. O modelo do líder desejado, passou a ser Javier Milei, Espriella, Noboa, Fujimori, Pena, Asfura, Kast, Rodrigo Paz, Laura Fernandes e Bukele.
Só resta o Brasil, membro fundador do BRICS. As eleições estão próximas. Se o resultado não for o esperado por Trump, eles não aceitarão pacificamente. O lançamento da campanha do principal candidato, ligado ao “Make America Great Again” – MAGA, foi em Copacabana, enfeitado com bandeiras dos Estados Unidos.
A ultima tentativa de golpe no Brasil, foi sustada pelo STF.
Entenderam o movimento do Ministro, terrivelmente evangélico, em desmoralizar a suprema corte, há 30 dias das eleições. O terreno para a contestação dos resultados eleitorais está sendo preparado. As urnas não são confiáveis, vem sendo pregado há muito tempo.
Esses ataques as comemorações do 07 de setembro, era tema preferido de Olavo de Carvalho. Muitos argumentos, são repetições do velho guru.
Não é teoria da conspiração. Apenas, geopolítica.
Esse ataque ao Brasil, da direita perfumada, tentando desmontar o 7 de setembro, é parte dessa ação, orquestrada, na aceitação de uma ocupação americana. Não penso em ocupação com tropas. Não! Eles não possuem mais esse poderio militar. E o Brasil é um continente.
Ocupação institucional, econômica, cultural e política. Em síntese, o fim de qualquer pretensão a soberania. Uma ocupação com líderes locais, subordinados aos interesses americanos.
No Brasil, não faltarão as Delcy Rodríguez, militante chavista, presidente da Venezuela. Não tomarei como surpresa, se o próprio PT, pragmaticamente, aceitar essa tarefa.
Antonio Samarone.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
GEOGRAFIA SOCIAL DE ITABAIANA - 1960
A Geografia Social de Itabaiana (1960). (por Antonio Samarone).
A divisão social não era a europeia (burgueses X proletários). Em Itabaiana, na década de 1960, as classes sociais tinham endereço. Primeiro, a grande divisão Rural X Urbana.
Os rurais eram subdivididos em dois grupos: os proprietários, que possuíam casa de rancho, uma moradia na cidade, para as feiras e festas religiosas; e os pataqueiros, sem-terra, que viviam de ganho, da venda do dia de serviço. Muitas vezes, apenas pela comida.
Os dois grupos eram tratados pelos urbanos, com preconceito:
Eram os tabaréus. Visíveis a olho nu. Distintos pela fala, roupas, festas, apelidos, modos de vida, escolaridade e referências culturais. Mesmo os urbanos mais miseráveis, tinham um sentimento de superioridade, não queriam ser confundidos com os tabaréus.
As classes sociais entre os urbanos, eram definidas pelo endereço:
1. nas ruas do Sol e das Flores e na Praça da igreja, moravam os comerciantes, servidores federais, clero, políticos e magistrados. Os bem nascidos, os riquinhos e fidalgos ostentavam a pose dos ricos. Possuíam um clube social, a Associação Atlética, criada pelo médico da cidade, para festa e comemorações.
2. No Beco Novo e ruas Nova e do Fato, residiam os artesões (alfaiates e sapateiros, biscateiros, camelôs, comerciários, feirantes, motoristas e o povo em geral). A zona popular tinha o Clube dos Trabalhadores, criado pelos comunistas de Aldeia.
3. Nas ruas de Maraba, Sete Casa, rua do Tanquinho, residiam os “sans-culottes”, o lúmpen, os miseráveis, os deserdados da terra. Hoje, a rua de Maraba cresceu, se expandiu até a Praça João Pereira, e passou a se chamar rua Gumercindo de Oliveira (pai de Chico do Cantagalo. A região virou o bairro Bananeira.
Segundo Almeida Bispo, a rua de Maraba ocupa geograficamente os vestígios da passagem da estrada real Salvador/Olinda. Nisso em não me meto.
No gueto da rua de Maraba, brotava cultura. Rafael, que consertava penicos e guarda-chuvas, tinha um teatro de bonecos ou mamulengo. A memória de Rafael dos Penicos está se apagando, sem deixar ao menos o sobrenome. A minha hipótese, é que Rafael foi mais um flagelado, trazido pela seca, como veremos adiante.
O que unia a todos era a escola pública e a igreja católica. O Colégio Murilo Braga e Santo Antônio. O que desunia: a política e a economia. A farda do ginásio (caqui Floriano), dava uma ilusão de igualdade.
A inteligência artificial está confusa, sobre a rua de “Maraba”. Quem foi o tal “Maraba”, que deu nome à rua e quando? Também, a IA não é obrigada a saber de tudo. Como nasceu a rua de Maraba, quem foi o Maraba, que criou esse foco de pobreza extrema em Itabaiana?
A grande seca de 1951/53, aumentou a fome no Nordeste. O Governo Federal, através do DNOCS, organizou frentes de trabalho, para construir açudes, estradas e barragens. A calamidade da seca agravou a fome. Foi em 1953, que Luiz Gonzaga e Zé Dantas, lançaram um protesto musical: As Vozes da Seca.
Relembrando parte da letra:
“Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão/ Pelo auxílio dos sulistas nesta seca do sertão/ Mas doutor, uma esmola a um homem que é são/ Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.
É por isso que pedimos proteção a vosmicê/ Homem, por nós, escolhido, para as rédias o poder/ Pois doutor, dos vinte estados, temos oito sem chover/ Veja bem, mais da metade do Brasil tá sem comer.
Dê serviço a nosso povo, encha os rios e barragens/ Dê comida a preço bom, não esqueça a açudagem/ Livre assim, nós da esmola, que no fim desta estiagem/ Lhe pagamo inté os juros sem gastar nossa coragem.
E o Governo Federal abriu frentes de trabalho, recrutou os flagelados, e começaram a construir açudes. Em Sergipe, o primeiro foi o açude de Carira. O barramento do riacho Grutião. O açude foi concluído em 1955.
Euclides Paes Mendonça, usando o seu prestígio, convenceu o DNOCS a deslocar uma frente de flagelados, para construir o açude da Macela (1953 – 1957). O açude foi inaugurado em 1958.
O Dr. Mazze Lucas, em um conto – Açude, descreve essa jornada dantesca.
A maior obra pública de Itabaiana, o açude novo, foi construído com o suor dos flagelados da Seca de 1951/53. A grandeza da obra era dita com entusiasmo: “A barragem é tão grande, que por cima, passa até caminhão.”
A obra foi feita por empreitadas, diretamente, por trabalhadores avulsos, pagos por produtividade, e por pequenos feitores, chefes de turma. Aqui surge Seu Maraba.
Maraba era um flagelado empreendedor, do agreste alagoano, das proximidades da Serra da Maraba. Até hoje, ainda não se sabe o nome de batismo, mesmo ele tendo construído família em Itabaiana. Tenho notícias de dois filhos: José e Miguel. O Zé de Maraba era figura habitual nas cafuas e casas de jogatina.
Seu Maraba não foi apenas um peão de trecho, que, terminada a obra, açude da Macela, ficou em Itabaiana. Um saruabo, baixo, astuto, inteligente, um pequeno empreiteiro, que ganhou dinheiro na construção do açude de Carira.
Quando iniciou a construção do Açude da Macela (1953), Seu Maraba veio ganhar a vida em Itabaiana, como feitor, chefe de turma. Logo, construiu uma bodega, e passou a vender fiado, produtos básicos, para atender aos trabalhadores da frente, miseravelmente acampados nas proximidades.
Como ele era o feitor, era quem fazia os pagamentos. Inadimplência zero. Antes de pagar o devido, ele descontava a dívida da bodega. Simples!
O canteiro de obra do açude da macela foi descrito realisticamente, por Mazze Lucas, em seu livro de contos “Anum Preto”:
“Lá embaixo, erguendo-se preguiçosamente sobre o vale do Riacho da Macela, o paredão do açude enxameava de trabalhadores, uns afanosamente operando mangueiras d’água, outros descarregando a piçarra dos caminhões, enquanto outros ainda, espalhavam-na em camadas de um palmo de espessura.”
Na hora do almoço, descreve Mazze Lucas:
“os cossacos (trabalhadores flagelados da seca), procuravam as sombras das escassas árvores das cercanias. A maioria acocorou-se no mesmo local onde estavam. Abriram as mochilas ou latas e começaram a atirar na boca, sem perder um fragmento, a farinha de mandioca e os raros pedaços de carne seca, que as vezes conseguiram encontrar. Não lavavam as mãos nem o rosto, cobertos daquele barro amarelo com tonalidade de enxofre.”
“Quando há seca no Nordeste, o governo manda construir açudes. O interesse do flagelado seria não faltar açudes para construir, porque não lhe faltaria trabalho. O governo tinha pressa, para inaugurar a obra. Daí o trabalho ser pago na base da produção.”
Outro fato importante, sobre a seca de 1951/53. O grande José Viera Lima, chegou a Itabaiana em janeiro de 1952, vindo da empreitada de construção do açude de Cocorobó. Ele foi o principal encarregado, representando o DNOCS. Veio preparar o terreno para a construção do Açude da Macela. É notória a importância do Vieira Lima, o Barão do Beco Novo, para o desenvolvimento de Itabaiana.
Em pouco tempo, o arruado em torno da bodega de Maraba, nas proximidades do futuro açude, estava formado. Nascia a Rua de Maraba. Esses migrantes do flagelo da seca, se estabeleceram em Itabaiana. Tempos depois, foi nesse espaço que foram construídas as famosas Vilas de Zé de Melinha.
A formação étnica de Itabaiana, além dos sesmeiros portugueses, árabes e judeus, as sefarditas de Amsterdã, também recebeu quilombolas e flagelados. A minha hipótese: foi essa variedade de origens, que formou a alma itabaianense.
A seca de 1951/53, trouxe para Itabaiana os flagelados, para a construção da sua maior obra pública: o Açude da Macela. Eu sei, o Posto Agropecuário Fazenda Grande, com o seu lendário Jegue, foi importante para Itabaiana, mas não era uma obra, era um serviço.
Euclides Paes Mendoça inaugurou a obra dos flagelados da seca de 1951/53, como Açude Municipal, construído pelo DNOCS, em 1958. Sem muito foguetório. Esse aspecto nunca foi acentuado. Uma obra sem padrinhos, ao contrário do Campo de Aviação, no terrenos dos Breus.
Voltei no local, e o núcleo básico da Rua de Maraba e as vilas de Zé de Melinha, continuam intactas. A foto é prova. Mudou-se a cachaça que se tomava. Hoje, a mineirinha, uma cachaça adocicada, vendida em pequenos potes, 6 reais cada, que substituiu a casca de pau.
A urbanização do Bairro Bananeira cresceu em volta. Acho que o pequeno núcleo da Rua de Maraba deveria ser preservada, para essa história não cair no esquecimento. “A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer.” – Peter Burke.
A Rua Gumercindo de Oliveira é um prolongamento da Rua de Maraba, até a Praça General João Pereira. Não mudou o nome da Rua de Maraba.
Encontrado quem foi Seu Maraba, continuo procurando os rastros de Rafael dos Penicos, artista popular de minha infância, que morava naquela comunidade.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
CARLOS ALBERTO PINHEIRO (BEM)
(por Antonio Samarone)
Carlos Alberto Pinheiro (Bem), nasceu em 12/12/1955, em Itabaiana. É um filho da história, descendente de personalidades da música e da política local.
O pai de Carlos Alberto, Francisco Alves, era filho de Cazuza Queiroz, intendente de Itabaiana entre 1926/28, deixando como maior obra a construção do mercado municipal, no Largo Santo Antônio.
Seu Cazuza, foi assassinado a pauladas, em 20 de fevereiro de 1955. Eram filhas de Cazuza, Dona Rosinha, casada com Antônio Sacristão e a mãe de Zé Queiroz, e Dona Odete, casada com Erisvaldo Correia, irmão do Prefeito Jason Correia (1947/51).
A mãe de Carlos Alberto, Josefa Helena, era filha de Boanerges Pinheiro (1882 – 1967) e Maria da Conceição Carvalho (Dona Ceça). Boanerges de Almeida Pinheiro, musico, compositor e fogueteiro, era filho de Samuel Almeida.
O maestro Samuel Pereira de Almeida (1853 – 1892), foi quem transformou a Orquestra Sacra do Padre Francisco da Silva Lobo (1745), na “Philarmônicca Euphrosina”(1879), incorporando os instrumentos de percussão. Samuel foi um dos 25 fundadores do Gabinete Literário de Itabaiana (1875).
Na mitologia grega, Eufrosina era uma das três graças, ao lado Agláia e Tália.
O bisavô de Carlos Alberto, Samuel Almeida) é uma referência cultural em Itabaiana.
Seu Boanerges, o avô, ao lado de Esperidião Noronha e Othoniel Dórea, fundaram a UDN em Itabaiana (1950). Depois Euclides Paes Mendonça entrou e tomou conta.
Seu Boanerges é um patrimônio de Itabaiana. Era obrigatório a passagem de um grande cortejo, defronte a sua casa, para assistir a queima de fogos, no dia Santo Antônio.
A casa é a mesma, herdada por Carlos Alberto (Bem). A avenida leva o nome do seu morador mais importante. Boanerges Pinheiro foi o elo entre a política da República Velha (Itajahy x Sebrão), com a Política da redemocratização (Euclides x Manoel Teles).
Maria da Conceição Carvalho (Dona Ceça), a avó de Carlos Alberto, era filha do músico Francisco Alves de Carvalho Junior (irmão do Coronel Sebrão). O que transformou a Eufrosina na Filarmônica Nossa Senhora da Conceição (1897).
Seu Boanerges e Dona Ceça, tiveram 15 filhos: José, Lindaura, Josefa, José Sizino de Almeida (Prefeito de Itabaiana - 1963/67), Pedro, João, Mariquinha (mãe de Maria Vieira), Helena (mãe de Bem), Cristina (mãe do Tenente Noronha), Antônio, Samuel, Manoel (morreu carbonizado, no incêndio da fábrica de fogos do pai), Maria (mãe de Tereza Cristina), Leontina, Iaiá e Eusébio.
Como se percebe, Carlos Alberto Pinheiro (Bem), teve uma genealogia privilegiada, raízes da cultura itabaianense. Por isso, fiz essa volta, para chegar a nossa personalidade.
Carlos Alberto Pinheiro (Bem), passou a primeira infância em Itabaiana, até os 16 anos. Fez as primeiras letras, com a professora Marivalda, no final da Rua do Futuro. Estudou o primário nos Educandários Santa Terezinha e João XXIII, colégios de fama no Beco Novo. Iniciou o ginasial no Murilo Braga.
Mesmo sendo um menino filho da elite cultural de Itabaiana, Bem, quando menino, carregava lavagem de ganho e botava água num jegue, para complementar a renda familiar. A mãe, Dona Helena, era inspetora no Murilo Braga. O pai era sapateiro.
Traquino e trabalhador, Bem, contava na família, que estava tentando ser expulso do Murilo Braga. A mãe, precavida, informou a Maria Pereira, eterna diretora do Murilo. “meu filho está querendo ser expulso”.
Dona Maria Pereira, que não era só diretora, era a mãe dos alunos, tranquilizou Dona Helena: “não se preocupe, Bem pode derrubar o Murilo Braga, que mesmo assim eu não o expulso.”
A família se mudou para Aracaju. Bem concluiu o científico no Atheneu Sergipense. Trabalhou na Gráfica Nacional, do tio Samuel Almeida.
Bem, foi aluno da primeira turma de comunicação social – jornalismo, da UFS (1993). O primeiro jornalista formado, de Itabaiana. Carlos Alberto, com diploma universitário em mãos, retornou a Itabaiana.
Carlos Alberto, editou vários jornais em Itabaiana, todos quase esquecidos. O jornal Movimento, onde Baldochi publicou o seu primeiro texto; o Jornal de Itabaiana, de José Queiroz (1988/89); e o Jornal A Voz de Itabaiana (1982/96), de Chico de Miguel. Todos editados pelo jornalista Carlos Alberto.
Quem possui algum número dessas raridades jornalísticas? Dessa época, só restaram arquivos completos do Jornal o Serrano (1968/86), editado pela turma da Rua do Sol. Os arquivos são públicos e estão na Secretaria Municipal de Cultura.
Ressalvados os jornais itabaianenses, editados pelo historiador Almeida Bispo, Tribuna do Povo (1982) e o Serra-Shopping (1999), registra-se o Cebolão (1978), editado por Luciano Correia; o Progresso (1941), Vanguarda (1964).
A história do jornalismo em Itabaiana ainda é uma ilustre desconhecida.
Carlos Alberto Pinheiro ainda foi dirigente do futebol menor em Itabaiana. Foi presidente do Sergipe, local. Se não bastasse, foi o segundo time, fardado, que eu joguei. O primeiro foi o Santos do Beco Novo, de Roberto de Órece.
O Sergipe de Bem, revelou para o futebol de várzea: Romilto (Dito), Baldochi, Samarone, Negro Gato, Melchíades, Ratinho, Beto de Firmino do fosforo, os filhos de Dequinha (Welligton e Wilson), os filhos de Bebé dos passarinhos (Betinho, Jurinha e Beijo) e Coquinho de Ribeirópolis. Todos, craques das peladas de rua.
Destaco em Carlos Alberto, além da atuação no jornalismo local, o seu caráter: um homem de princípios inflexíveis. Herdou do avô, seu Boanerges.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
sábado, 29 de agosto de 2026
A ARTE DE ENVELHECER - ARS LONGA, VITA BREVIS.
(por Antonio Samarone)
A medicina, filosofia, antropologia, psicologia, sociologia, arte e religião tratam o envelhecimento com critérios diferentes. A Academia Sergipana de Medicina vai ouvir a palavra da ciência, de um especialista (geriatra), Dr. Antônio Claudio, sobre a “arte de envelhecer”. Suponho que arte, no sentido filosófico de sabedoria.
Só ficou de fora a religião. Não sei se o tema é mesmo a velhice, ou é uma fuga, para não se tratar diretamente da morte, um tema proibido. Ficamos dando voltas em torno da morte.
É a medicina que atesta a morte, usando critérios neurológicos. A morte encefálica. Sem o atestado de óbito, não estamos legalmente mortos. Os cemitérios negam-se aos sepultamentos.
Acho que poderíamos tratar, pelo menos, da imortalidade cósmica de Borges. Ou, quem sabe, do Deus de Spinoza.
Como o tema oficial da Academia é a “arte” de envelhecer, vamos buscar na poesia de Pessoa:
“Quando vier a primavera, / Se eu já estiver morto, / As flores florirão da mesma maneira/ E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. / A realidade não precisa de mim.”
“Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele... Porque tudo é real e tudo está certo.”
A Academia de Medicina vai falar sobre o envelhecimento, para evitar falar da morte. Não pega bem se falar da morte. Os médicos encaram a morte como uma limitação da medicina. Ou, quem sabe, até uma falha médica.
Por que a velhice é deplorável e precisamos de sabedoria para enfrentá-la? Marcus Tullius Cícero, já ensinava uma arte de envelhecer: ela nos afasta da vida ativa; enfraquece o nosso corpo; nos privas dos melhores prazeres e nos aproxima da morte. O fio da lembrança: com a velhice, a memória declina. Os velhos lembram-se sempre daquilo que os interessas.
Não se precisa de arte para ser criança.
Sócrates e Platão tratavam a morte como separação da alma do corpo. A alma seria imortal. Epicuro, simplificava: enquanto existimos a morte está ausente, quando ela chega deixamos de existir. Por que temer o que nunca experimentaremos.
Os estoicos aceitam a morte como parte da natureza. A morte só importa, porque sabemos que vamos morrer. Aliás, esse sentimento da morte não é inato.
O Cristianismo trata a morte mantendo a continuidade das pessoas. O cristianismo preserva as pessoas, com o fenômeno da ressureição. Creio na ressureição da carne e na vida eterna. Eu espero o Juízo Final.
Jorge Luiz Borges admitia que o indivíduo morre (corpo e alma), mas os seus efeitos continuam. Ele acreditava na imortalidade cósmica. Borges não desejava a imortalidade pessoal. Continuamos nos outros.
Deus é a realidade infinita da qual tudo faz parte. Deus é a natureza. Sentimos e experimentamos que somos eternos. Esse é o Deus de Spinoza.
Spinoza, Einstein e Borges chegaram, por caminhos diferentes, a uma concepção em que o indivíduo deixa de ocupar o centro do universo. Nessas concepções, a morte é o fim do indivíduo biográfico.
A questão é a eternidade e não a imortalidade. O que há de eterno em nós pertence a ordem eterna da própria natureza, isto é, Deus.
Deus é a ordem profunda da realidade – Albert Einstein.
Mas o Dr. Antônio Claúdio, nem é filosofo, nem teólogo, vamos ouvi-lo como geriatra. Nem filosofia, nem religião, ele nos ensinará a “arte” de envelhecer pelos caminhos científicos. Procurando os atalhos. Indo pela sombra.
Eu estou velho, e até agora não tenho do que me queixar. Até já abrir mão do meu direito de furar filas, o único artigo do estatuto do idoso, que se cumpre mais ou menos.
Para Hipócrates, o envelhecimento estava associado a perda do calor vital e a uma constituição mais fria e seca. Há um aforismo que afirma que os idosos suportam melhor o jejum que os jovens...
Galeno chegou a discutir se a velhice era uma doença ou um estado natural.
Saramago, em seu clássico, “As Intermitências da Morte”, as pessoas simplesmente deixam de morrer. Envelhecem, adoecem, sofrem acidentes, mas ninguém consegue morrer. Só lendo, para saber a confusão.
A imortalidade pessoal, em vez de uma benção, torna-se uma tragédia. Mesmo assim, eu sonho morrer com a idade de Matusalém.
Que a velhice não seja medicalizada!
Antonio Samarone. Membro da Academia Sergipana de Medicina.
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
A PREFEITA EMÍLIA E A CULTURA.
A Prefeita Emília e a Cultura. (por Antonio Samarone)
A Prefeita anunciou a transformação do abandonado Palácio Inácio Barbosa, em Palácio Museu. No térreo, funcionará a Secretaria da Cultura e no 2º andar, o gabinete especial de despacho.
O complexo terá cine-teatro e café recreio. O projeto será do nacionalmente consagrado arquiteto, Ezio Déda. A prefeitura usará recursos próprios.
Palmas! A Prefeita Emília entra para a história da cultura em Sergipe.
As grandes obras da cultura em Sergipe foram feitas por João Alves e Marcelo Déda. O Centro de Criatividade (1985), inspiração de Luiz Antonio Barreto; e o Teatro Tobias Barreto. Déda fez os dois museus (Palácio Museu e o Museu da Gente Sergipana). Já foi muito.
A importância política da cultura em Sergipe tem oscilado. Já esteve sob o comando de gente preparada, grandes nomes: Joel Silveira, Luiz Antonio Barreto, José Carlos Teixeira, Aglaé Fontes, Amaral Cavalcante, Ofenísia Freire, Núbia Marques, Luciano Correia, Luiz Alberto e Fernando Soutelo.
Atualmente, a cultura do Aracaju está sob o comando de Paulo Correia. Um nome reconhecido pelos pares, no mundo da cultura.
Por outro lado, a cultura já foi entregue a políticos decadentes, para facilitar composições eleitoreiras. Prefiro não os citar. Foram muitos. Gente acanhada culturalmente.
O palácio Inácio Barbosa foi construído por Graccho Cardoso. Inaugurado em 1º de janeiro de 1924. O projeto foi do arquiteto italiano, Hugo Bozzi, em estilo neoclássico, refletindo a belle époque de Aracaju. Muito parecido com o Palácio do Catete. O engenheiro foi Alfredo Aranha.
O Palácio Inácio Barbosa foi tombado pelo Decreto Estadual nº 16.559, de 26 de dezembro de 1997. O processo demorou 12 anos. A má vontade com a cultura em Sergipe é endêmica.
O Prefeito Marcelo, em 2005, nos 150 do Aracaju, transferiu a sede da Prefeitura para um prédio desativado do Banco do Brasil, na Rua Acre. O principal argumento foi o preço do imóvel. Uma pechincha, diziam os petistas. Além da agressão a memória histórica, a medida acentuava o esvaziamento comercial do centro da Capital.
A partir do despejo, o palácio ficou abandonado por 21 anos. Um casarão mal assombrado, em plena deterioração. Um colega, Dr. Rômulo, o filho de Lessa, médico e filosofo, todas as vezes que me encontrava, mostrava a sua indignação com o descaso das autoridades com na memória de Sergipe.
Em 2017, o Prefeito Edvaldo Nogueira ofereceu o Palácio a UNIT (lei 4.983, de 20 de dezembro de 2017), de portas fechadas, inclusive com o patrimônio histórico. Quando o reitor da UNIT, com fama de mecenas, descobriu que teria custos para a benemérita instituição de ensino, desistiu da empreitada. A UNIT enjeitou um palácio.
Em maio de 2022, o Prefeito Edvaldo anunciou pomposamente, que o belo palácio abandonado, seria transformado em uma Pinacoteca, dedicado a produção artística sergipana. O projeto nunca saiu do papel.
Finalmente, a Prefeita Emília anunciou o fim do descaso. Deu um destino cultural, com recursos próprios, a esse patrimônio dos sergipanos.
Por justiça, sou obrigado a aplaudir a inciativa da Prefeita Emília.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.






