domingo, 28 de junho de 2026

UM INTELECTUAL FREI-PAULISTANO

Um Intelectual frei-paulistano.
(por Antonio Samarone)

Frei Paulo (15 mil habitantes), foi o primeiro município a separar-se de Itabaiana. A autonomia deu-se por conta da força econômica do algodão, na segunda metade do Dezenove. Os frei-paulistanos possuem grande autoestima.

Recentemente, a historiadora Ana Dantas, tornou-se, por méritos, imortal pela Academia de Letras de Itabaiana. É de Frei Paulo, o jornalista Ancelmo Gois, um profissional nacionalmente reconhecido.

Entretanto, esse texto não é sobre Ancelmo. Trato de outro jornalista frei-paulistano: Fragmon Carlos Borges, filho de Francisco Carlos Borges e Maria Lali Carlos Borges, nascido em 12 de abril de 1927. A família Carlos Borges, em Frei Paulo, deu a Sergipe muita gente importante.

O engenheiro civil Josaphat Carlos Borges, foi Prefeito do Aracaju (1946 – 47). Só Gil Francisco, para desvendar o grau de parentesco, com o jornalista vermelho, de Frei Paulo.

Fragmon Carlos Borges foi redator da revista Época (1948/1949), dirigida pelo jovem Walter Sampaio. O primeiro número da revista sergipana saiu em agosto de 1948, com destaque para um artigo do Dr. Walter Cardoso, sobre a fome em Sergipe; uma resenha sobre Monteiro Lobato, ilustrada por Álvaro Santos; um artigo de Walter Sampaio sobre Pablo Neruda; um conto inédito de Carvalho Neto; poemas de José Sampaio e Bonifácio Forte.

Gente, alguém possui essa revista? Quantos números foram publicados?

Fragmon era integrante grupo jovem “Mensagem dos Novos de Sergipe”, do qual faziam parte Márcio Rollemberg Leite, Carlos Garcia, Aluysio e Walter Mendonça Sampaio, Nélson de Araújo, Paulo de Carvalho Neto, Enoch Santiago Filho, Fábio Silva, João Batista Lima e Silva, Lindolfo Campos Sobrinho, Alberto Barreto de Melo, Jenner Augusto, Florival Ramos, José Menezes Campos, Floriano Garangau, José Nunes Mendonça, Armindo Pereira e outros, dedicados às atividades culturais e a política partidária, simpatizantes ou membros do Partido Comunista Brasileiro, estavam todos envolvidos nos seguintes periódicos. Mensagem (órgão cultural, 1939), Símbolo (Órgão Cultural, 1939) e Época (Mensário a Serviço da Cultura e da democracia, 1948/1949).

Os alunos dos mestrados em ciências sociais, em Sergipe, tem essa plêiade de intelectuais para biografar, para que essa memória sergipana, não se apague. Procurem Gil Francisco.

No final dos anos 50, Fragmon Carlos Borges foi o editor-chefe, no Rio de Janeiro, do jornal Novos Rumos, de circulação nacional, pertencente ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). O Jornal Novos Rumos foi publicado entre 1959 e 1964, com uma tiragem de 60 mil exemplares. Novos Rumos foi fechado pelos militares, em 01 de abril de 1964.

Fragmon Carlos Borges, editor-chefe durante quase toda a existência do jornal, morreu em São Paulo, durante a ditadura, de enfarte fulminante, ao qual certamente não estiveram alheias as tensões da clandestinidade, de onde continuava a fazer a imprensa partidária possível.

Fragmon Carlos Borges publicou o ensaio Origens Histórica da Propriedade da Terra – 1958, na revista Estudos Sociais, maio-junho, 1958, republicado em A Questão Agrária – textos dos anos sessenta, Carlos Marighella, Orlando Valverde, Paulo Schilling, Mário Alves, Rui Facó, Fragmon Carlos Borges. São Paulo, Edit. Brasil Debates, Coleção Brasil Estudos, 1980. (foto acima)
Se houver interesse dos pesquisadores, Fragmon publicou artigos e ensaios sobre a realidade brasileira. Gil Francisco já localizou a maioria.

Em Sergipe, Fragmon foi brutalmente perseguido pela polícia, comandada pelo professor e chefe de Polícia, João Monteiro de Araújo. Após críticas ao Governo, ele foi preso e espancado, às dez horas da manhã, de 29 de abril de 1949, em plena Rua São Cristóvão, Centro de Aracaju quando foi abordado por três indivíduos e colocado em um carro de Praça, em seguida conduzido até o Mosqueiro.

Um desses episódios frequentes de violência, ocorreu em Itabaiana:

Perseguido pela força policial do governador José Rolemberg Leite, o jornalista do jornal A Verdade, Fragmon Borges foi mais uma vez surrado, na noite do dia 9 de janeiro de 1951. A agressão ocorreu na cidade de Itabaiana, onde existia um dos maiores núcleos do Partido Comunista no estado, depois de Aracaju.

No final dos anos 50 Fragmon Borges passou a residir no Rio de Janeiro. Rompe com o Partido Comunista para viver na clandestinidade, morrendo em 1975, vítima de enfarto. Foi anistiado em 2006.

Frei Paulo não pode esquecer esse ilustre filho.

Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.
 

sábado, 27 de junho de 2026

OFTALMOLOGIA EM SERGIPE

Oftalmologia em Sergipe.
(por Antonio Samarone)

Até as primeiras décadas do século XIX a oftalmologia era apanágio dos cirurgiões aprovados, que realizavam operações de catarata, fístula lacrimal e enucleação do globo ocular.

Os autores antigos responsabilizavam a sífilis, as febres intermitentes e o reumatismo pelo desencadeamento de muitas lesões oculares. Algumas afecções importantes da oftalmologia: conjuntivite, terçol, sapiranga, oftalmia purulenta ou tracoma.

A cátedra de oftalmologia somente foi instalada nas faculdades brasileiras em 1873.

Entretanto, muito antes, médicos conhecedores da especialidade já a praticavam na Corte. O mais afamado deles, em meados do século XIX, foi Charles Joseph Frederic Carron du Villard (1800 – 1860), italiano, natural da Savóia, e naturalizado francês. Morreu no Rio de Janeiro, para onde viera em 1857. Dirigiu o consultório de olhos da Santa Casa de Misericórdia, onde teve como assistente o médico francês Louis-François Bonjean (1808 – 1892). Foram membros da Academia Imperial de Medicina.

Carron du Villard foi um verdadeiro chefe de escola na Santa Casa. Seu discípulo mais importante foi o médico paraense Manuel da Gama Lobo. Sucedeu Carron na direção do serviço na Santa Casa. Foi o primeiro a usar o oftalmoscópio, inventado pelo alemão Helmholtz em 1851, no Brasil. Gama Lobo publicou vários trabalhos sobre a oftalmologia.

Outros oftalmologistas renomados que exerceram a profissão no Rio de Janeiro foram: Hilário Soares de Gouveia, o primeiro a ocupar a cátedra de doenças dos olhos e Fernando Pires Ferreira, piauiense, formado em Paris, que vai ocupar o serviço da Santa Casa.

Pires Ferreira teve como principais discípulos o oftalmologista Rego Lopes e os sergipanos, José Antonio Abreu Fialho, José Lourenço de Magalhães e o cearense José Cardoso de Moura Brasil.

Em Sergipe, a historia oral aponta a destreza oculistas do Dr. Antonio Militão de Bragança, em Laranjeiras. Lampião foi seu cliente, como comprova a ficha clínica encontrada no hospital local. Existe uma polêmica, se Bragança operou ou não Lampião, são muitas versões. O certo é que o olho cego de Lampião, carecia de cuidados frequentes.

A igreja católica considerou Santa Luzia a padroeira dos portadores das afecções oculares. Abusava-se de colírios e remédios caseiros: suco de cansanção (Jatropha urens). Sumo frescos de brotos de imbaúba (Crecópia). Esterco de jacaré e água boricada.

Em 1854, fundou-se no Rio de Janeiro o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, que introduziu o sistema Braile no Brasil.

Na história do ensino médico no Brasil a cadeira de “oftalmologia” clínica foi a primeira disciplina especializada a ser instalada. Na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a cadeira foi criada em 1873, e teve como seu primeiro professor o eminente cientista Hilário Soares de Gouveia. O Doutor Hilário, por divergências políticas com o recém instalado regime republicano, ensinou somente até o ano de 1895.

Para ocupar essa vaga, submeteu-se e foi aprovado em concurso público, no ano de 1898, o médico sergipano José Antonio de Abreu Fialho, que se estabeleceu como lente catedrático de oftalmologia a partir de 1906, indo desempenhar um papel marcante na consolidação da especialidade no Brasil.

O Dr. Jose Antonio de Abreu Fialho natural de Aracaju, filho de Tito de Abreu Fialho, Delegado Fiscal da União, e D. Maria José de Abreu Fialho, nascido a 20 de janeiro de 1874. Bacharel em Ciências e Letras pelo Imperial Colégio Pedro II, matricula-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, recebendo o grau de doutor em 16 de janeiro de 1897, defendendo a tese “A oculística perante a patologia: perturbações oculares nas moléstias cerebrais”. Fez especialização em Viena, na clínica Fuchs.

O seu filho, Sílvio Abreu Fialho, escreveu a biografia do Pai, chamada “Páginas Viradas”. Durante a sucessão de Gracco Cardoso no Governo de Sergipe, o Presidente Arthur Bernardes procurou um sergipano ilustre, e não envolvido com as disputas políticas locais. A personalidade consultada foi o Dr. Fialho, que de pronto não aceitou, alegando não conhecer Sergipe, e não querer deixar as atividades clínicas. Com a rejeição de Fialho, o escolhido foi o diplomata Ciro Franklin de Azevedo.

A SBO - SOCIEDADE BRASILEIRA DE OFTALMOLOGIA - foi fundada em 6 de setembro de l922, por JOSÉ ANTONIO ABREU FIALHO, catedrático de Oftalmologia da Faculdade de Medicina e Farmácia do Rio de Janeiro e Diretor da Faculdade por mais de 10 anos.

A extraordinária contribuição de FIALHO, ao desenvolvimento da oftalmologia brasileira, tem seguidores desde então, na liderança da especialidade e qualquer tentativa de citar nomes, poderá ficar incompleta, gerando injustiça.

O Dr. Abreu Fialho, nasceu em 20 de janeiro de 1874 em Aracaju/SE, filho de Tito de Abreu Fialho, delegado fiscal da União e Maria José de Abreu Fialho e faleceu em 17 de março de 1940.

Antonio Samarone. Academia Sergipana de Medicina.
 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

PENSANDO ALTO


 Pensando Alto!
(Antonio Samarone)

Max Weber, em seu ensaio, “a política como vocação”, flexibilizou o papel da ética na política: “a política utiliza-se de duas éticas: a da CONVICÇÃO, quando obedece a valores e princípios; e a ética da RESPONSABILIDADE, quando obedecem às exigências da realidade e ao pragmatismo.”

Em Sergipe, na atual eleição, o PT usou a ética da Responsabilidade, para subir no palanque do Governador.

Um exemplo recente do uso da ética da Responsabilidade: os Estados Unidos, nessa guerra de agressão contra o Irã, assassinou Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica, no primeiro dia dos combates.

A ética da Convicção exige vingança! A ética da Responsabilidade obrigou ao Irã continuar negociando com os Estados Unidos, mesmo indignados. A ética da Responsabilidade indicou um caminho diferente da ética da Convicção.

Usando a moral comum, do dia-a-dia, não vingar a morte de Khamenei é uma indecência. Pensando politicamente, o Irã está certo.

Em Sergipe, o PT precisou tapar o nariz, para fortalecer a reeleição de Lula. Foi o caminho pragmático.

No segundo turno de 2022, o PT foi derrotado por Mitidieri. A população delegou ao PT, o papel de oposição. Foram quatro anos. Às vésperas dessas eleições - 2026, o PT pediu que esqueçam o que foi dito, apaguem os vídeos.

Para fortalecer a reeleição de Lula, o PT vai subir no palanque da situação.

Percebem, o PT mudou de posição em Sergipe, para fortalecer a reeleição de Lula. O Partido do atual governador (PSD), tem candidato à Presidência da República, Ronaldo Caiado. O PSD de Sergipe, movido pela força eleitoral de Lula, procurou uma sombra.

Não acredito que as bases lulistas em Sergipe, votem em Mitidieri.
O preço é muito alto. São muitas as contradições. Nem como troca, como agradecimento aos votos que Lula, teoricamente, receberia das hostes governistas.

A liderança de Lula em Sergipe, foi construída ao longo da vida.

Também não acredito que a direita palaciana vote em Lula.

Os exemplos dos petistas históricos, Renatinho, em Propriá; e Mané de Rosinha, em Porto da Folha, no apoio a Valmir de Francisquinho, no apoio a chapa Lula/Valmir, são pontas do Iceberg. As mudanças em Sergipe precisam desses votos.

No segundo turno de 2022, em Sergipe, Lula obteve 67% dos votos válidos. Faço um alerta: as mudanças em Sergipe, com Valmir de Francisquinho, também precisam do apoio dessas bases lulistas.

Quem estiver ideologizando a campanha, não está ajudando. As necessidades em Sergipe, não são ideológicas. Precisamos de um bom administrador, que governe para todos!

Antonio Samarone. Médico Sanitarista.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A VIOLENCIA POLÍTICA EM ITABAIANA

A Violência Política em Itabaiana.
(por Antonio Samarone)

Na década de 1960, Itabaiana foi marcada pela lei do mais forte. Quem comandava a política, tudo podia, impunemente. O auge da violência, durou 4 anos.

Nas eleições de 1962, Euclides Paes Mendonça elegeu-se Deputado Federal, o filho, Antonio, Deputado Estadual; e um correligionário, Jose Sizino de Almeida, Prefeito.

Fez barba e cabelo, mandava em tudo, nas coisas e nas gentes. Uma nota: essa violência em Itabaiana, era aliada do crescimento econômico local, criando os espaços urbanos exigidos.

Como nem tudo é perfeito, os adversários (PSD) elegeram o Governador – Seixas Dórea. A contradição era evidente. Euclides perdeu o mando do Fisco (o contrabando) e da Polícia (a violência).
Euclides continuou com polícia própria. Uma milícia (a Guarda Municipal, "armada até os dentes").

Em 20 de abril de 1963, um sábado agitado, na feira de Itabaiana. Euclides, pessoalmente, resolver relocar a banca de rede de Seu Antonio de Genoveva. “É um desaforo, esse velho pessedista, ficar nesse ponto privilegiado”. A banca do velho, ficava defronte ao armazém de Manoel Teles, o chefe da oposição municipal.

Antonio Joaquim de Santana, Seu Antonio das redes, era um velhinho baixo, cabelos loiros e olhos azuis. Gente de fibra. Esclarecido. Natural das Candeias. Um pessedista raiz, conhecido de Leite Neto, que veio a Itabaiana, para proteger o seu amigo, depois do conflito. Euclides pensava o quê?

A família de Seu Antonio era do engenho Matebe, vizinho a Riachuelo dos Leites. Por isso, ele era pessedista.

O chefe da UDN era acostumado a prender e judiar os adversários. Muitas famílias fugiram, outras sofreram. O vereador Vital da Lapa teve o seu rosto queimado com um charuto, pessoalmente por Euclides.

Nesse tempo, era costume, os presos políticos serem obrigados a encher a caixa d’água da cadeia, carregando água do Tanque do Povo. Entre apanhar, ser esbofeteado, e a humilhação da lata furada, a segunda era uma opção menos dolorosa.

Seu Antonio, era um velho de fibra. Não aceitou a transferência. Cruzou a rua, e foi prestar queixa a Manoel Teles. A coisa ficou feia, arma em punho, xingamentos e palavrões. O que se sabe é que o velhinho ficou.

Seu Antonio de Genoveva era irmão de Erundino das redes, que formou uma grande família, em Aracaju, na Rua Santa Rosa (Padaria Garça). Erundino era avô de Americo Alves, o presidente da Federação Sergipana de Futebol. O outro irmão de Seu Antonio, era Ascendino, meu avô paterno, que eu não conheci.

Antonio Joaquim de Santana, Antonio das redes, foi casado com Zulmira Francisca Teles. Enviuvou, e casou-se dom Dona Ernestina. Antonio das redes era pai de Oliveira, José das redes e Rosália.

O desembargador Vladimir Carvalho, da loja do pai, assistiu pessoalmente o arranca rabo entre os dois coronéis, por conta da resistência de Seu Antonio. “Se Euclides, aquela altura, tivesse atirado, ou determinado que alguém da Guarda o fizesse, Manoel Teles, que estava desarmado, era alvo fácil” – Vladimir.

No dia seguinte, domingo, 21 de abril de 1963, a Guarda Municipal, comandada por Sólon e Daniel, e a polícia Militar, comandada pelo Major Teles entraram em combate aberto. A praça da Igreja virou campo de guerra. O Major tombou. Não se mata um oficial impunemente.

Em 08 de agosto de 1963, durante uma passeata estudantil, Euclides (deputado Federal) e o filho (depurado estadual), foram fuzilados no meio da rua.

Em 31 de agosto de 1967, Manoel Teles, o chefe da oposição, foi assassinado, por vingança, na porta de casa, por um pistoleiro de aluguel. Uma vingança simbólica.

A próspera Itabaiana abateu-se, com a violência política.

A ditadura de 1964, acabou com os partidos políticos, e jogou mesmo os mais odientos adversários locais, num mesmo saco (ARENA). Virou tudo ARENA. PSD e UDN. A resistência criou o MDB.

Em Itabaiana, o MDB de Zé Carlos Teixeira foi entregue a professores esclarecidos (Guga), estudantes universitários e meia dúzia de alfaiates. Entre esses, Seu Filadelfo Araújo, que, por circunstâncias, virou Prefeito.

Mesmo com todos na ARENA, a política em Itabaiana não foi pacificada. A violência recuou muito pouco, mas recuou. Foi recuando lentamente.

A ditadura limitou a violência política local, tirou dos chefes os plenos poderes sobre a justiça, a polícia e o fisco. Surgiu uma nova forma de violência em Itabaiana, essa, adversária da economia.
Uma política voltada para dentro dos grupos, para os correligionários.

O novo acirramento político não fazia concessões aos adversários. Qualquer iniciativa empresarial era antecedida com a pergunta: eles votam em quem? O desenvolvimento de Itabaiana foi sufocado pela politicagem. Mesmo iniciativas boas para o município, partindo dos adversários, eram ignoradas.

Foi preciso esperar o século XXI, com a consolidação da liderança Valmir de Francisquinho, voltada para a lógica da conciliação, do bem público e do respeito aos adversários, para a economia itabaianense mostrar a sua cara. A violência política ficou na história.

Com o fim da violência política como regra, com a redução das tensões, dos conflitos e dos ódios políticos, a cidade desabrochou. Os empreendedores tiveram liberdade. A cidade encontrou o seu caminho.

A paixão política em Itabaiana, possui longas raízes. O PSD e a UDN foram extintos em 1965. O AI nº 2, extinguiu 13 legendas e criou o bipartidarismo. O meu pai faleceu no início de fevereiro de 2011, mas continuava pessedista (PSD), extinto há 46 anos.

Papai era analfabeto. Antigamente, antes das eleições, onde analfabeto não podia votar, papai treinava, desenhando o nome, para votar em que ele acreditava ser o herdeiro do PSD, de Leite Neto. Trenei papai, com o punho duro, sem habilidades com o lápis, para ele votar no PSD, de Manoel Teles.

Era uma vingança, ao que fizeram com o seu Tio Antonio. Meu pai tinha medos, não comentava política publicamente. Calado, votava em Zé de Brió. Cochichava pelos cantos, com os amigos. Papai também vendia redes.

Nos últimos 14 anos, Itabaiana passou por uma revolução cultural, com a pacificação da violência política.

Antonio Samarone.
 

sábado, 13 de junho de 2026

SANTO ANTONIO E ALMAS.

Santo Antonio e Almas
(por Antonio Samarone)

Lá em casa, somos todos Antonio. A devoção de mamãe era exagerada (depois virou Crente). Se o primeiro filho fosse menino, seria Antonio. E foi. A promessa foi paga.

O primeiro colono que chegou à Itabaiana, trouxe um Santo Antonio, de Portugal. Veio de Coimbra. Conta-se, que essa imagem acompanhou Conselheiro (1874), em sua peregrinação ao Monte Santo.

Os primeiros colonos, sofreram influências dos franciscanos (Santo Antonio) e dos beneditinos (São Bento). Fundaram a Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana. Itabaiana Grande era o nome indígena da Serra.

E “Almas”? Almas foi uma referência a São Miguel, patrono dos beneditinos e padroeiro das almas do purgatório.

No altar principal da Matriz de Itabaiana, encontram-se os dois Santos (veja a foto). Santo Antonio o guerreiro, demiurgo e casamenteiro. Mais recentemente, padroeiro dos caminhoneiros.

Itabaiana antes de Villa, foi Freguesia. A cruz antecedeu a espada.
A Villa deve a sua fé e a sua religiosidade ao franciscano Santo Antonio.

A influência dos beneditinos (São Miguel), deu-se no modo de vida. “Ora et labora” – ora e trabalha. Itabaiana não dorme. Muitos dos colonos eram cristãos novos. Talento para os negócios.

Em 1665, os beneditinos em Itabaiana, criaram a “A Irmandade das Santas Almas do Fogo do Purgatório”, a centenária Irmandade das Almas, que daqui a pouco (13/06), puxará a maior procissão de Sergipe.

O capítulo XII, dos compromissos da Irmandade das Almas, obriga:

“Os irmãos desta Santa Irmandade serão obrigados no dia de São Miguel, 29 de setembro, como protetor das Almas, fazer-lhe a sua festa, que consta de missa cantada e pregação, com toda a solenidade, e lhe dirão uma capela de missas em seu altar, as quartas-feiras.”

A Capela de São Miguel está erguida no Cemitério de Santo Antonio e Almas.

A Irmandade das Almas possuía vida própria, independência da igreja e patrimônio: cemitério e o laudêmio, cobrado pelo terreno comprado ao Padre Sebastião Pedroso de Goes, onde se instalou a sede da Villa. Por aqui passou um padre, que reformou os estatutos. A Paroquia tomou conta da Irmandade.

Sou dos tempos, que o presidente da Irmandade das Almas era Zé Bigodinho. Que representava a loteria federal em Itabaiana.

Comemora-se a festa de Santo Antonio em Itabaiana, desde o início do século XVII. Na segunda metade do século XX, o trezenário foi diversificado. Os caminhoneiros juntaram a folia e os negócios, a parte religiosa. A festa religiosa juntou-se a festa pagã. A alvorada de fogos virou o buzinaço.

Após muitas comemorações, alegria e zoada, hoje, (13/06), para-se um pouco, para se acompanhar a procissão. Uns pagando promessa, outros rezando distraídos e, uma minoria, prestando a atenção a vida dos outros.

No meio dos devotos, os políticos distribuem acenos, risos sinceros e simpatias. Não posso esquecer de ressaltar a garbosa filarmônica, executando seus velhos dobrados.

Esse ano, depois da procissão, teremos uma novidade: o Brasil estreia na Copa do Mundo.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 6 de junho de 2026

O SAGRADO E O PROFANO

O Sagrado e o Profano.
(por Antonio Samarone)

As festas juninas em Itabaiana, começam com Santo Antonio. São treze dias! São as primeiras fogueiras.

Amanha, 07 de junho, acontecerá em Itabaiana a tradicional “Carreata Mirim”. Milhares de crianças desfilarão pelas ruas da cidade, puxando o seu caminhãozinho, em memória aos que lutaram nas estradas, para trazer o progresso para Itabaiana.

Itabaiana é a Capital Nacional do Caminhão, pelo afeto. As crianças respondem, majoritariamente, a indagação: o que você quer ser quando crescer: caminhoneiro! E consideram o caminhãozinho, o brinquedo preferido.

A carreata mirim celebra quem tombou nas estradas. Celebra o sofrimento, a solidão, a vida dura, a pressa para chegar, os riscos e a saudade da família, marcas dos caminhoneiros.

Os meninos e as meninas que desfilarão com os seus caminhõezinhos, são filhos (alguns órfãos), netos, sobrinhos, irmãos, parentes e aderentes, dos que ganham a vida nas estradas.

A carreta mirim, a maior do mundo, é uma festa das famílias. Um reconhecimento social, aos que formam os alicerces do desenvolvimento itabaianense.

A manifestação faz parte da festa dos caminhoneiros, parte profana das centenárias Trezenas de Santo Antonio.

A estrada de rodagem chegou a Itabaiana em 22 de abril de 1928. (a foto acima é da inauguração) Governo de Manuel Dantas.

Pouco tempo depois, o primeiro caminhão, de Esperidião Noronha, fazendo linha de feira para Laranjeiras. A produção agrícola se livrava da dependência dos tropeiros.

Na década de 1950, registrava-se cerca de 20 caminhões, em Itabaiana. A explosão aconteceu com a chegada de BR – 235. Uma rodovia federal, que liga Sergipe ao Pará, que chegou em Itabaiana em 1953. Foi o ponto de partida, para o crescimento da frota de caminhões.

Oviedo Teixeira e Euclides Paes Mendonça implantaram concessionárias da Ford e da Chevrolet e passaram a financiar, com capital próprio, a venda de caminhão. Se comprava com notas promissoras. A frota cresceu. No auge, Itabaiana teve a segunda maior transportadora do Brasil.

Entre os dias 09 a 12/06, começa a Feira do Caminhão: negócios, histórias e tradição. Junto, a Feirinha Cultural, a Boleia do Caminhão (SEBRAE) e um festival estadual de quadrilha junina.

Paralelo, em outro horário e local, tem a Festa do Caminhoneiro, com mais brilho que os 2 meses de festa do governo do estado. No dia 12/06, é a Trezena dos Motoristas e a alvorada (fogos). Tradição centenária, dos velhos fogueteiros.

No dia 13/06, ocorre a maior procissão de Santo Antonio, do Nordeste. Em Itabaiana, Santo Antonio, além de casamenteiro e demiurgo, e padroeiro dos motoristas.

A procissão é a hora de pagar as promessas, agradecer as graças recebidas e se fazer novos planos. A procissão realiza-se regularmente desde 1785, quando a primeira imagem do Santo, de madeira, chegou de Coimbra.

Sempre puxada pela Irmandade das Santas Almas do Purgatório e pelo estandarte do Sagrado Coração de Jesus.

Fogo Capitulino!

Antonio Samarone – devoto de Santo Antonio.
 

sábado, 30 de maio de 2026

QUINTINO DE LACERDA

Quintino de Lacerda e a Consciência Negra.
(Por Antonio Samarone)

(das Flechas ao Quilombo Abolicionista do Jabaquara).

Comemora-se 20 de novembro, como o dia da Consciência Negra nacional, em homenagem a Zumbi dos Palmares, morto em 1695. A data foi instituída em 2011, pela Lei Federal 12.519 e, em 2023, tornou-se feriado nacional.

O Brasil é surpreendente. O dia da Consciência Negra Municipal, em Itabaiana, é 08 de junho, dia do nascimento de Quintino de Lacerda (08/06/1829), instituído pela Lei Municipal 965, de 2001, ou seja, 10 anos antes, da consciência nacional. O projeto de Lei foi autoria de José Francisco Andrade (Zé de Brió).

Essa mesma lei, elevou Quintino de Lacerda a herói abolicionista municipal, em Itabaiana.

Em Itabaiana, Quintino foi escravizado por Antonio dos Santos Leite, no povoado Flechas, em suas plantações de algodão. Ele foi vendido em 1874, aos 35 anos, para Antonio Lacerda Santos, em São Paulo. Foi escravo de ganho de Lacerda, de quem se tornou amigo e herdou o sobrenome. Foi alforriado em 1882.

Quintino liderou a resistência do Quilombo de Jabaquara, em Santos–SP, lutou pela abolição, ganhou fama e se tornou o primeiro Vereador negro do Brasil, em 1895.

“Aos oito dias do mês de abril de mil oitocentos e noventa e cinco, na Secretaria da Assembleia Municipal desta cidade de Santos, às 11 horas da manhã, compareceu o Major Quintino de Lacerda, perante a mim 1º secretário em exercício da presente Assembleia, por ter resignado o cargo o cidadão José André do Nascimento Macuco, a quem dei posse por ter prestado juramento do cargo de vereador.”

Quintino de Lacerda não era igual aos outros quilombolas. Levou a marca de sua origem Itabaianense, declarava-se com uma profissão diferente. Não era roceiro como seus companheiros: dizia-se negociante. As relações pessoais que estabeleceu ao longo de sua vida com certeza abriram portas para uma ascensão social almejada.

Em sua casa, em Jabaquara, Quintino tinha uma pequena bodega: a primeira Mercearia Itabaiana.

No seu inventário, encontra-se a relação de várias peças de ouro (novamente, a alma Itabaianense). Outra herança é a religiosidade: em Santos, Quintino tornou-se membro da prestigiosa Irmandade de São benedito (o turco). Santo da mesma Ordem de Santo Antonio, a Ordem dos Frades Menores.

Antigamente, em Itabaiana, São Benedito era o único a sair na tradicional procissão de Santo Antonio. A devoção de Quintino, não era coincidência.

“Quintino de Lacerda possuía um cavalo branco e nele subia a serra, à noite, para encontrar partidas de negros fugidos, que vinham em demanda do Quilombo do Jabaquara. [...] Muitas vezes ele com sua gente enfrentou na estrada de São Paulo os capitães de mato que pretendiam prender os fugitivos, e Quintino, que era valente com as armas, os fazia fugir, para não serem trucidados.”

O ilustre Doutor Petronio Domingues, professor de história da UFS, em seu polêmico texto “João Mulungu: a invenção de um herói afro-brasileiro”, publicado em 2015, numa revista de Curitiba, também nega o heroísmo abolicionista do itabaianense Quintino de Lacerda, acusando-o de ter furado uma greve, em 1891, no Porto de Santos, e de ter oferecido serviços ao Governo de Floriano Peixoto, na Revolta da Armada, em 1893, tornando-se “Major Honorário do Exército".

O Dr. Petronio ressalva que, mesmo assim, Quintino se tronou um cidadão respeitado pela patuleia, granjeando prestígio político, tornando-se uma liderança popular e negociadora.

O doutor da UFS tem a sua régua de medir a história, os seus valores, as suas crenças e a legitimação acadêmica. Quintino foi um guerreiro pelo fim da escravidão.

A greve, que ele é acusado de furar, é um instrumento de luta dos trabalhadores livres. O negro queria liberdade e a condições de trabalho dos brancos. A greve do Porto de Santos, de 1891, foi liderada pelo anarcossindicalismo, recém-chegado ao Brasil, pelas mãos dos imigrantes italianos. Foi praticamente uma greve geral, que durou 11 dias.

A greve de 1891, no Porto de Santos, foi duramente perseguida, centenas de trabalhadores demitidos. O que se poderia esperar dos negros do Quilombo Jabaquara, desempregados, em luta pela sobrevivência, que não aceitasse os empregos do Porto, em solidariedade aos trabalhadores brancos?

O Doutor Petronio acusa Quintino de fura-greve, e minimiza a sua importância na luta abolicionista. Acho que a academia, por vezes, dar passos errados. A influência da sociologia da USP. Octávio Ianni em seu livro Escravidão e racismo, defende que o abolicionismo teria sido unicamente o resultado de uma ação política das elites.

Desconheço a luta desse anarcossindicalismo branco, pelo fim da escravidão. Pelo contrário, via-se o negro recém-liberto, mão de obra barata, como uma ameaça a sua luta. Uma contradição dentro do mundo do trabalho.

Chamar os negros de krumiros (fura-greves), é tomar partido um século depois, usando os valores da atualidade. A partir desse conflito, os trabalhadores negros tiveram acesso ao trabalho no Trapiche de Santos.

Exatamente nesse período surgem as primeiras organizações locais que pleiteavam o predomínio sobre o movimento operário, como um jornal socialista chamado A Ação Social (1892) e um centro socialista (1895), ambos tendo como principal responsável pela sua fundação o médico sergipano Silvério Fontes.

Na questão da Revolta da Armada, a contradição da crítica é mais evidente. O alto comando das forças armadas, paulistas e cariocas, ensaiam um golpe, para derrubar Floriano. Quintino, forma um batalhão de negros, para defender o governo legitimo de Floriano.

Por que Quintino deve ser condenado? A opção politicamente correta, deveria ser a defesa os golpistas? Aliás, o povo de Santos defendeu o republicanismo de Floriano Peixoto.

Desconsiderando os saberes acadêmicos, Itabaiana continuará homenageando o seu líder abolicionista. Na próxima segunda (08 de junho de 2026), no Plenário da Câmara de Vereadores de Itabaiana, vamos comemorar o dia municipal da Consciência negra e celebrar o heroísmo do abolicionista Quintino de Lacerda.

Em 14 de novembro de 2025, a Câmara Municipal aprovou a criação da Medalha Quintino de Lacerda. A Comenda será concedida, anualmente, as personalidades negras, naturais ou residentes em Itabaiana, que tenham prestado relevantes serviços a sociedade.

No dia 20 de novembro de 1926, a Câmara de Vereadores de Itabaiana vai entronizar uma estátua de Quintino, em sua sede. Merecida!

No momento da abolição, os pais de Quintino ainda estavam vivos. É possível que seus pais tenham sido vendidos para Santos juntamente com Quintino, porém cabe também dizer que seus pais poderiam ter permanecido em Sergipe e só tenham conseguido reencontrar seu filho graças às posses que Quintino conseguiu adquirir ao longo da vida, possibilitando-lhe mandar trazer seus pais para Santos.

O itabaianense, do povoado Flechas, Quintino de Lacerda, faleceu em 10 de agosto de 1898, em Santos, aos 69 anos. O seu féretro foi conduzido por uma multidão.

Todos queriam prestar suas últimas homenagens ao homem que havia dedicado “sua existência afanosa e útil em prol de todas as causas justas, liberais e humanitárias”.

Os seus restos mortais estão sepultados na Campa n.º 42, localizada no Jazigo da I.S.B. Irmandade São Benedito, no cemitério municipal do Paquetá, localizado na cidade de Santos/SP.

Com sua morte, Quintino de Lacerda deixava órfãos três filhos menores – Alzira, com 13 anos, Arcelino, com 12 anos, e Sabina, com 7 anos –, além de diversos bens representados por imóveis, móveis, semoventes, dinheiro e joias. Sua esposa, Maria Isidora de Sousa, havia falecido exatamente um ano antes, no dia 20 de agosto de 1897.

Arcelino, “com a idade de 28 anos, cor preta, estado solteiro, natural de Santos, de nacionalidade brasileira” faleceu no Hospital da Santa Casa de “tuberculose pulmonar”.

Com as epidemias tropicais que assolaram a cidade de Santos em todo o fim do século XIX e início do XX, a tuberculose era uma das principais causas de morte, principalmente nas camadas mais populares, na cidade.

Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.