(por Antonio Samarone)
Já passei na vida, por muita coisa trabalhosa. Mas, nada se compara em querer disciplinar o trânsito. Uma missão quixotesca. Fui diretor da SMTT, em Aracaju. Cheio de boas intensões e muita ingenuidade, tentei reduzir a velocidade permitida. Aliás, já estabelecida no Código de Trânsito.
Hoje recebi essa crônica do sergipano Petrônio Gomes, presente de um amigo. Um mimo. Uma joia literária. No mesmo nível das crônicas do capixaba, Rubem Braga. A arte e os talentos são universais.
Vou transcrevê-la:
Devagar e sempre.
O dr. Samarone disse que vai ser assim e pronto. Não adianta possuir carrão fogoso com velocímetro de três dígitos, metido a gato mestre. A fábrica inventou motor valente porque quis, mas em Aracaju tudo fica perto. Se quiser correr, procure outra freguesia.
A galera protestou: “Como é possível sair do emprego ao meio-dia, apanhar um filho em cada colégio, passar em casa e almoçar feijão frio sem lavar o rosto, voltar para o batente em uma hora, dirigindo em passo de tartaruga”.
O superintendente respondeu que ainda está para existir uma tartaruga que consiga se locomover a sessenta quilômetros por hora, uma declaração que não ofende a lógica mais elementar.
Mas as opiniões estão divididas, não entre dias facções, e sim entre meia dúzia delas. Pelas ondas radiofônicas, a população disse o que lhe passou pela cabeça, forçando os apresentadores dos programas a soltar uma risada de vez em quando para esfriar os ânimos.
Quando liguei a televisão para assistir ao jornal vespertino, o repórter olhou para mim e ameaçou: “Você, aí, telefone agora e diga sua opinião”.
Ele achou pouco um dia inteiro com um só assunto e martelar os ouvidos da gente e resolveu continuar a briga de noite. Nem dei bolas e desliguei. Mas deixarei aqui a minha opinião sincera, esperando que a maioria dos leitores desse querido jornal não ligue muito para o que eu vou dizer.
Na verdade, dr. Samarone tem suas razões legitimas para tomar suas providências no sentido de diminuir a velocidade permitida aos veículos. Sendo médico, basta-lhe mostrar ao público as estatísticas sombrias dos acidentes automobilísticos com gente estendida no asfalto e sangue para todo o lado. E, sendo o chefe atual do órgão, cabe-lhe até o direito de mudar o assunto.
Muitos dos ouvintes também falam com razão. Sabem o que está causando toda essa confusão? É que no pacote dos que querem um pouco mais de velocidade, existem os motoristas responsáveis e irresponsáveis. Estes últimos sempre falam nos mesmos motivos que levam os primeiros a protestar, perceberam? Como separar uns dos outros no calor da discussão?
O que é fato é que Aracaju tem carros em demasia. Vejam-se as ruas principais da cidade, de uma ponta a outra, em qualquer hora do dia. Existem carros estacionados de um lado e de outro. As garagens dos prédios não comportam o número dos veículos, pois existe o do dono do apartamento, o dos filhos e, as vezes, de um criado ou vigia.
Uma pessoa ligada a engenharia de tráfego me disse um dia que ninguém poderia dirigir em nossa cidade se todos os automóveis saíssem de uma só vez. Multiplique-se o tamanho em média de cada veículo pelo número dos que existem hoje em Aracaju. Em seguida, dividam o resultado pela extensão das vias públicas. E todo mundo ficará sem sair do lugar, a bordo de um carrão parado.
Tenho pena do dr. Samarone, tenho pena dos pais que almoçam feijão frio e que voltam para o batente sem vontade de rir para o chefe. Já passei por tudo isso, e em um tempo muito mais suave, quando a gente diminuía a marcha do carro para esperar que um cachorro atravessasse a rua. Vocês dirão que esse tempo era bom demais.
Nem tanto. Havia outros problemas que nem quero dizer agora. Só em outras crônicas.
Petrônio Gomes.
Antonio Samarone (Academia Sergipana de Medicina)






