sexta-feira, 22 de maio de 2026

O DR. AUGUSTO LEITE

O Dr. Augusto Leite
(por Antonio Samarone)

As pesquisas históricas apontam os médicos que revolucionaram a medicina em Sergipe: Antonio Militão de Bragança, na segunda metade do século XIX, (entre 1884 e 1920); Augusto Leite, no início do século XX (1926 – 1960).

Foi Augusto Leite, no comando do Hospital de Cirurgia, quem incentivou a medicina científica em Sergipe.

A partir da criação da Faculdade de Medicina (1961), outros médicos se destacaram. Usando os critérios do cabedal científico, da cultura geral, da erudição médica e da envergadura moral, os mais citados são: Nestor Piva, José Augusto Barreto, José Teles de Mendonça e Átalo Crispim de Souza.

A Faculdade de Medicina de Sergipe ofertou inicialmente 20 vagas. Em 16 de fevereiro de 1961 realizou-se o primeiro vestibular, com 54 inscritos dos quais apenas 9 foram aprovados. A aula inaugural, foi proferida pelo professor Silvano Isquerdo Laguna, professor da Universidade de Valladolid, na Espanha.

Augusto Leite nasceu em 30 de julho de 1886, no Engenho Espírito Santo, Riachuelo. Filho de Francisco Rabelo Leite e Maria Virgínia Accioli Leite. Diplomou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 2 de janeiro de 1909. Faleceu em 9 de fevereiro de 1978, em Aracaju.

Augusto Leite foi o maior cirurgião de Sergipe, o bisturi de ouro.

Entretanto, a sua maior virtude foi o amor e o cuidado com os pacientes. Um grande humanista. Em um discurso, como Paraninfo de uma turma de auxiliares de enfermagem, Augusto Leite ensinou:

“Não se faz medicina sem bondade. O doente é um angustiado. Ouvi-o com carinho, sem enfado, pacientemente. Falhai-lhe com brandura. Cada doente é um doente distinto, que se precisa conhecer.”

“O coração tem o condão de dar esperanças e de fazer sorrir mesmo os grandes sofredores, já desenganados pela ciência médica.”

Augusto Leite antevia o futuro: “No dia em que o médico não precisar mais do que movimentar aparelhos e máquinas, a medicina será mais perigosa do que útil. A relação médico/paciente deve ser centrada na confiança.”

O Governador Graccho Cardoso passou-lhe as chaves do Hospital de Cirurgia, em 1926. Ele não teve ambições, não se apropriou privadamente do hospital.

Já idoso, em um discurso aos médicos, Augusto Leite declarou:

“Aí está o Hospital de Cirurgia. Ajudei-o a nascer, vi-o crescer e agigantar-se. Sou o mais velho dos seus operários. Digo-vos com emoção: hei de morrer operário, entre os operários moços do Hospital de Cirurgia.”

A medicina é uma só, sonhava o Dr. Augusto Leite, requer ao mesmo tempo, as excelências do artista e do sábio. O doente perdeu o nome e o médico perdeu a liberdade.

O Hospital de Cirurgia nasceu com 40 leitos e virou referencia nacional. O Presidente Juscelino Kubitschek desembarcou em Aracaju, visitou o Hospital de Cirurgia e embarcou de volta. Deixou as autoridades políticas chupando dedo.

Augusto Leite morreu há quase 50 anos. O sonho do Cirurgia, no início resistiu. Depois degringolou. Hoje funciona regularmente. O Hospital é um Fundação de Beneficência, sob intervenção do Ministério Público. Sem entrar em detalhes, o Cirurgia tomou outros rumos.

Nas comemorações do centenário, foi realizada uma festa pomposa, eivada de ingratidões. Nenhuma entidade médica foi convidada. Nem a Sociedade Médica de Sergipe (SOMESE), fundada e dirigida por 11 anos, por Augusto Leite.

Contudo, isso é o de menos.

Os médicos sergipanos, que conhecem a história da medicina e do Hospital de Cirurgia, devem festejar os cem anos do Hospital de Augusto Leite.

Na foto, o primeiro corpo clínico do Hospital de Cirurgia, que não pode ser esquecidos.

No gabinete de estudos do Dr. Augusto Leite, tinha um soneto de Bastos Tigre:

"Entra pela velhice com cuidado/ Pé ante pé, sem provocar rumores/ Do que tiveres no Pomar plantado/ Apanha os frutos e recolhe as flores./ Que a neve caia! O teu ardor não mude." 

Antonio Samarone. Ex professor de história da medicina, na UFS.
 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A ZABUMBA DAS FLECHAS


 A Zabumba das Flechas.
(por Antonio Samarone)

A historiografia itabaianense (com exceções) escondeu os negros e os índios, escondeu os caboclos. Chega a negá-los. Hoje, no Tabuleiro dos Caboclos (Bairro São Cristóvão), será lançado o Instituto de Música Maestro Antonio Silva.

Uma busca da ancestralidade. O Instituto visa a inclusão social, através da música. Vai ensinar percussão, a música afro-brasileiro, aos meninos de Itabaiana. Parabéns maestro, Célio Melo (o pai da criança).

Itabaiana tem uma Filarmônica de 1745, que ensina e mantém uma orquestra sinfônica, tem outra, mais popular, que mantém uma escola de sanfona, e agora passa a ter uma escola de percussão.

O lançamento é daqui a pouco, na Praça da Juventude, as 15 horas, com a presença da maior liderança negra de Sergipe, o grande (literalmente) Severo D´Acelino. No ato, será homenageada a família do maestro e compositor negro, Antonio Silva.

O evento será iluminado por um Workshop de 3 dias (oficina de trabalho), com o mestre Cara de Cobra, um nome internacional da percussão. O Instituto nasce grande.

A administração municipal de Itabaiana, apoia as iniciativas desse calibre. A música ajudando a inclusão, fortalecendo as raízes culturais e provendo a cidadania.

O Instituto vai criar uma banda de pífano, que por aqui se chama de Zabumba. A Terra Vermelha e o Bom Jardins reativarão as respectivas. A primeira manifestação cultural que ficou em minha memória, foi a Zabumba das Flechas.

O banda de pífano do Instituto receberá o nome do itabaianense João Mulungu. Uma justa homenagem. João Mulungu, o Zumbi sergipano, nasceu no engenho Piedade, em Itabaiana.

A partir das 15 horas de hoje, sexta e sábado, o Tabuleiro dos Caboclos estará em festa. É a criação de um ninho de música afro-brasileira em Itabaiana.

A cultura é direito de todos.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

sábado, 16 de maio de 2026

MALUCO BELEZA.

Maluco Beleza
(por Antonio Samarone)

Zé Pretinho ronda a cidade, sem destino e sem objetivos. Zé anda ao léu, fala alto e fórmula sentenças aleatórias. Em nosso último encontro, ele vaticinou, aos gritos: “Haverá grandes sinais, até descer fogo do céu à terra, diante dos homens.”

Fiquei pensando, será se Zé Pretinho está prevendo a terceira guerra?

Zé Pretinho é um doido manso, querido por todos.

A medicina não cuida dos loucos, aliás, nunca cuidou. A medicina atende aos doentes mentais, que é outra coisa. Hoje essas doenças mentais são tratadas como transtornos: TDAH, TOC, TDM, TAG, Transtorno Bipolar, Borderline (TPB), Transtorno do Espectro Autista (TEA).

São quase 500 transtornos. De perto, ninguém é normal.

Eu sei, existem as psicoses, com alucinações, delírios e desorganização do pensamento. Mas o tradicional louco, o doido varrido, o maluco beleza, aluado, abilolado, lelé, tantã, lunático, pinel, doido de pedras, insano, os que rasgam dinheiro e fazem profecias, esses foram banidos.

Há um antigo adágio: “de poeta, médico e louco, todos nós temos um pouco.” Zé Pretinho, é um dos últimos. (nem atira pedras, nem rasga dinheiro). Zé tem a minha estimação.

José Matos (Zé Pretinho) é filho de Alexandre Gregório de Matos e Dona Terezinha Gregório de Matos. Nasceu na velha Rua Nova, Itabaiana, em 23 de setembro de 1969. Foi padeiro e pescador, até deixar tudo para viver livre, sob os cuidados do divino.

Zé mora só. Foi aluno da professora Nazaré, irmã de Gud-Gud, com quem aprendeu ler, escrever e contar. Ainda se lembra de tirar a prova dos noves fora. Zé tem nove irmãos vivos.

No catecismo de mamãe, doido nunca era condenado, as portas do céu estavam sempre abertas. Eu tremia de medo dos infernos, muito presente no catecismo tridentino. O fato dos doidos nunca pecarem, me encantava. Eles não tinham juízo.

Perguntei se ele era assistido pelo CAPS. Ele balançou a cabeça que sim e me mostrou a receita. O CAPS dar os remédios? Ele respondeu que esses da receita, o CAPS não tinha. Ele estava aguardando o dinheiro da aposentadoria para comprá-los.

Ele adiantou: os remédios da farmácia me deixam mole, lerdo, sem muita energia. Eu não gosto. Tenho os meus segredos: abaixou-se e pegou do alforje uma garrafa de meio litro, com um líquido preto. Fiquei curioso, o que é isso? Ele respondeu de pronto: cachaça com café! Me deixa acesso, elétrico, cheio de energia.

Zé Pretinho é quase um filósofo:

“Para evitar a ressaca, antes de sair de casa, tomo água, curtida com duas cabeças de alho. Antes, tinha mais crises. Já baixei no “psicopatio”. Agora, fumo um cigarrinho de cravo com erva-doce. As visagens desapareceram.”

Ele pensa um pouco como o Bispo do Rosário: “não quero ficar totalmente livre da loucura, perderia o direito de dizer o que penso.”

A loucura é bíblica. Tanto Saul, o primeiro Rei dos israelita, quanto Nabucodonosor, o poderoso Rei da Babilônia, ofenderam Javé, e ambos receberam uma punição terrível: foram tornados loucos.

“Um esquizofrênico é um esquizofrênico, mas uma coisa é importante, ele é um homem e tem necessidade de afetos, de dinheiro, de trabalho, ele é um homem total, e nos devemos responder não a sua esquizofrenia, mas ao seu Ser Social e Político.” Basaglia. 

Zé Pretinho não ofendeu Javé, mas vive resignadamente a sua jornada.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

OS CAMINHOS DE SERGIPE


 Os Caminhos de Sergipe.
(por Antonio Samarone)

O historiador Wanderlei Menezes, me cobrou uma explicação: a que se deve essa popularidade de Valmir de Francisquinho?

Convenhamos, talvez não exista uma resposta, ou existam várias.
Ele provocou, releia Maquiavel, vá aos clássicos. Eu fui...

Para Maquiavel, virtù e fortuna são conceitos centrais e complementares para o sucesso político. A virtù é a habilidade, inteligência, astúcia e capacidade de ação do governante, enquanto a fortuna representa a sorte, o acaso ou circunstâncias imprevisíveis. A virtù permite ao político dominar ou adaptar-se à fortuna para manter o poder.

Valmir apreendeu a política na escola itabaianense, onde nada é fácil. A disputa é acirrada. O eleitor precisa ser conquistado, corpo a corpo, porta a porta, olho no olho, até na intimidade. Valmir e o povo se entendem, mesmo em silêncio, com um sorriso, um abraço. Essa é a virtú de Valmir.

Segundo os modernos marqueteiros: isso acabou! A virtú atual é usar bem as redes sociais, memes, fakes, algoritmos. Os políticos tradicionais descem mais fundo: a virtú é dinheiro, para comprar o voto. O resto é conversa fiada.

Sobre a momento político:

Sergipe vive uma carência de grandes líderes. Entre 1982 e 2013, Sergipe foi governado por 4 políticos (João, Albano, Valadares e Déda). Não deixaram herdeiros políticos. Com a morte precoce de Marcelo Déda, abriu-se um vazio, um vácuo político, até agora não preenchido.

O atual grupo político, governa Sergipe há 40 anos. Entraram com Jackson, na Prefeitura do Aracaju, em 1986. Carregavam a bandeira de combate as oligarquias. Tornaram-se oligarquias palacianas. O Estado entrou em decadência.

A eleição se aproxima e eles não têm projetos, nem líderes, nem a confiança do Povo. A política não suporta vácuos. Essa é fortuna (sorte) de Valmir. O cavalo está selado!

Pela primeira vez na história de Sergipe, o projeto político vem do interior. O sucesso na gestão de Itabaiana, credenciou Valmir como um bom gestor. Itabaiana é uma locomotiva econômica bem sucedida. Os sergipanos enxergam.

Enquanto o estado definha, se apequena, a economia desaba, os serviços públicos não funcionam (os corredores do Hospital João Alves, são uma prova), enquanto o povo corre atrás do carro pipa, o governo oferece festas (circo).

O economista sênior da UFS, Dr. Ricardo Lacerda, acaba de publicar “A economia de Sergipe no primeiro quarto do século XXI”. A propaganda foi desmontada. Sergipe patina economicamente. Nenhum projeto viável, tudo cosmético. Sergipe afundou.

O doutor Lacerda não é nenhum esquerdista, nem faz oposição ao governo. Pelo contrário, o doutor é assessor palaciano desde o governo Déda. Homem de confiança do poder. Entretanto, o doutor Lacerda é um cientista, não podia falsear a realidade.

Meu amigo Wanderlei, é essa a minha explicação para a popularidade de Valmir.

Se dependesse somente do voto popular, a eleição estava decidida. Contudo, o poder serve a muita gente. Esses, lutarão com todas as forças, lícitas e ilícitas, para não deixarem os mimos e as sinecuras.

Já começaram o vale-tudo. Pegaram uma fala de Valmir, tiraram do contexto, e saíram a bradar aos quatro cantos: Valmir é machista! Valmir não quer mulher em cargos públicos! Valmir odeia as mulheres! Valmir é um feminicida!

O que Valmir disse na entrevista foi que a sua esposa não seria candidata.

Não importa que as mulheres sejam maioria no secretariado de Itabaiana, não importa que a vice seja mulher, não importa que o seu maior apoio, seja a Prefeita do Aracaju, uma mulher.

Numa era da pós-verdade, o fake tem mais força que os fatos. Não importa, vão botar defeito em Valmir, mesmo conscientes que estão mentindo. As redes sociais são abertas, cada um fala o que quer.

Na política, como na guerra, quem primeiro sofre é a verdade. Quem acha que a elite sergipana será derrotada com facilidade é um tolo.

Antonio Samarone. Médico Sanitarista.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O HOSPITAL DE CIRURGIA DE AUGUSTO LEITE E A ENFERMAGEM.

O Hospital de Cirurgia de Augusto Leite e a Enfermagem.
(por Antonio Samarone)

A medicina científica chegou a Sergipe pelas mãos de Augusto Leite, após a criação do Hospital de Cirurgia. Enfrentou dificuldades para encontrar um pessoal de enfermagem capacitado.

Desde o início do funcionamento do Hospital de Cirurgia (02/05/1926), uma das grandes preocupações do Doutor Augusto Leite foi na qualificação dos profissionais da Enfermagem.

O que fazer?

Naquele momento não existia ainda em Sergipe “Enfermeiras” (registered nurse), só o pessoal prático. Dr. Augusto optou pelo razoável naquelas circunstancias, entregou o serviço às “Irmãs de Caridade”.

No século XIX as Santas Casas de Misericórdia contratavam religiosas, as irmãs de caridade, para a direção dos serviços hospitalares e também para os serviços de enfermagem. Eram auxiliadas por enfermeiros leigos.

A Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, atuaram no Hospital de Cirurgia de 1930 a 1962.

Não havia enfermeiros instruídos e habilitados em Sergipe, no início do século XX. Florence Nightingale ("the Angel of the Crimea"), lançou as bases dos modernos serviços de enfermagem.

Já em 1860, Florence fundará a Nithghtingale School for Nurses.

 
No Brasil, por ocasião da Guerra do Paraguai (1864-70), Ana Justina Ferreira Néri uma mulher nordestina, viúva, incorporou-se no exército brasileiro como enfermeira, para acompanhar os filhos. Ana Néri é a patrona das enfermeiras brasileiras.

Os serviços de enfermagem do Hospital de Cirurgia foram entregues as “Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição”. Úrsula, Bernadina, Beralda, Theodata, Jolenta, Inocência, Amália e Clara foram de grande competência e operosidade. Essas religiosas alemãs, com o estímulo do Dr. Augusto Leite, criaram a primeira escola de auxiliares de enfermagem de Sergipe.

Catarina de Fischer (Irmã Jolenta), nasceu a 19 de abril de 1899 em Westfalen, na Alemanha. Filha de Elizabeth Fischer e Caspar Fischer. Em 1926 chegou ao Brasil, para morar em regime de internato no Hospital de Cirurgia. Aqui já se encontrava a Irmã Clara. Com a idade, passou a residir no Hospital São José, com as Irmãs Concepcionistas, irmandade a que pertenceu. Faleceu aos 90 anos, em 09 de julho de 1989, em Aracaju.

No Hospital Santa Isabel as Irmãs de Caridade também realizavam as funções de enfermeiras. Serafina Guinard (Irmã Santa Juliana), filha de Joan Batista Guinard e Melaine Lamberton Guinard, nasceu em Saint Roman, na França. Tornou-se freira em 25 de janeiro de 1873. Em 1904 veio para o Brasil, chegando em Sergipe 09 de janeiro de 1905, indo realizar seu trabalho religioso e de enfermagem no Hospital Santa Isabel, permanecendo até a sua morte em 02 de agosto de 1937.

A situação dos serviços de enfermagem em Sergipe, por volta da década de 1920, foi bem relatado pelo prático José Ribeiro do Bonfim, (“enfermeiro treinado por Augusto Leite), num livro de reminiscências:

“O enfermeiro de então era, além disso, também condutor de ambulância, cavador de sepulturas e sepultador dos cadáveres do hospital. Não havia trabalho que o enfermeiro não estivesse presente. Tinha que estar à frente das baldeações das enfermeiras (Irmãs de Caridade), ao lado da Irmã Joana que, trepada nuns tamancos, de hábito arregaçado e empunhando uma vassoura, esfregava um assoalho que não havia força humana que o fizesse alvejar”.

Entre as primeiras enfermeiras diplomadas atuando em Sergipe, destaco: Opelina Rollemberg, Acaciamaria da Conceição Oliveira, Valquíria Ferreira de Oliveira, Georgina Ferreira de Oliveira, Carmem de Aguiar Novaes, Maria Edna Silva, Maria Almira de Menezes e Gueisha Albuquerque Silva.

Antonio Samarone (médico sanitarista)
 

sábado, 9 de maio de 2026

HOSPITAIS, ASILOS E NOSOCÔMIOS

Hospitais, Asilos e Nosocômios.
(por Antonio Samarone)
 
No setor da assistência hospitalar na Província de Sergipe, até 1850, tivemos apenas dois hospitais. O Hospital Senhor do Bonfim, em Laranjeiras e o São Matheus em São Cristóvão. 
 
Sem nenhum patrimônio e sob um compromisso aprovado pelo Presidente da Província, foi criada em 1836 uma Instituição de Caridade, visando instalar um hospital em Laranjeiras. 
 
Os médicos, José Cândido de Faria (primeiro diretor) e Francisco Alberto Bragança (o Pai de Francisco Bragança) participaram da sua fundação. Após longos esforços, finalmente, em 29 de junho de 1840, no Governo do Coronel Wenceslau de Oliveira Belo, o “Hospital Senhor do Bonfim” seria inaugurado. O hospital era administrado pela Irmandade do Senhor Bom Jesus do Bonfim.
 
A questão central para o funcionamento desse hospital, era a mesma do antigo Hospital São Mateus (o Hospital de Caridade de São Cristóvão): a falta de financiamento. Os legados e subvenções eram quase inexistentes e o que se arrecadava de esmola era muito pouco. 
 
A lei n.º 28, de 11 de março de 1839, no Governo do Presidente Joaquim José Pacheco, concedeu o privilégio de exploração de loterias, ao Hospital Senhor do Bonfim. Mas, àquela altura, o instrumento das loterias andava bastante desgastado. Era muito difícil arrecadar-se alguma coisa por esse meio. Restava ao hospital à contribuição marítima do porto de Aracaju, em torno de 800$000 réis, que, na prática, era a única efetiva.
 
Em 1847, O Presidente da Província, José Ferreira Souto, solicitou recursos à Assembleia Provincial para comprar uma nova casa para funcionamento dessa instituição, alegando completa falta de condições da existente:
 
“A que ora serve não pode por todos os motivos continuar. É pequena, baixa, quente, e a mais insalubre possível. Os doentes estão confundidos, e tudo ali é tão miserável, que só na última necessidade se poderá procurar aquele asilo.”
 
De fato, as condições de funcionamento do Hospital Senhor do Bonfim, em Laranjeiras, não eram das melhores. O hospital funcionava em uma casa alugada, que possuía apenas 18 palmos de altura e 30 de largura em sua frente, era dividida em três salas e duas enfermarias, onde estavam instaladas de 16 camas, com um mínimo espaço de separação. 
 
A mortalidade atingia cerca de 50% dos internados. Em 1848, foram abrigados neste hospital 27 doentes, dos quais 13 faleceram, 09 receberam alta e 05 permaneceram internados até o ano seguinte.
O Presidente Salvador Correia de Sá e Benevides, em seu relatório de julho de 1856, assim descreveu a citada instituição:
 
“Existe esse pio estabelecimento em um edifício sumamente acanhado e sem nenhuma das condições exigidas para casas dessa ordem.” “A caridade particular pouco sustenta os pobres enfermos, e são tão diminutos, tão precários esses recursos, que apenas um limitadíssimo número de camas pode manter essa santa instituição.”
 
Esse hospital deixou de funcionar em 11 de junho de 1859. Os senhores, Ângelo Custódio Polliciano, José Joaquim Fernandes Sampaio e Eugênio José de Lima assinam o documento que assinala o fechamento do Hospital, com as seguintes justificativas:
 
“Pobre, sem patrimônio, reduzido à subvenção marítima da barra, a qual produz 1:200$000, quando as despesas orçam 3:600$000, não podia mesmo o hospital funcionar.”
 
A situação da assistência hospitalar, na primeira metade do século XIX, na Província de Sergipe, estava limitada a duas instituições de caridade e uma enfermaria militar. “Há somente dois asilos de enfermos, o São Mateus, em São Cristóvão e o do Senhor do Bonfim, na Vila de Laranjeiras”. 
 
Eram casas voltadas ao amparo dos necessitados, para que não morressem à míngua. Local, para quem não tinha onde cair morto. Ainda não tinham incorporado as mudanças, já em andamento no mundo desenvolvido, que transformariam os hospitais em instituições voltadas para a cura das doenças.
 
Antonio Samarone – Membro da Academia Sergipana de Medicina. 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

CANTE LÁ, QUE EU CANTO CÁ.


 Cante lá, que eu Canto cá.
(por Antonio Samarone).

Madruguei o 1º de maio, encantado com Elis Regina cantando Billy Blanco:

“Não fala com pobre/ não dar mão a preto/ não carrega embrulho/ para que tanta pose doutor/ para que esse orgulho? A bruxa que é cega esbarra na gente/ e a vista estanca/ o infarto lhe pega/ e acaba essa banca.”

Levado pelo vício, abri o Smartphone. O oráculo da pós-verdade.

Abri o WhatsApp, e estava lá, um belo poema de um velho amigo, professor de literatura na Academia. O mestre não recebeu a graça poética. Compensou a falta de talento, com a erudição literária. Doutor em literatura, pela Sorbonne.

Fiquei feliz com o tardio surto poético, do amigo. Um poema perfeito, obedecendo às normas e tradições da poesia. Bem feito e arrumadinho. Li e reli, e nada, nenhuma emoção. A poesia era fria? Não sei... Fiquei acanhado em revelar essa sensação. O novo poeta é meu amigo, e se não fosse, seria falta de educação.

Ele me ligou: - e aí, gostou do poema? Tangenciei, ainda bem, antes tarde... Ele riu: - “Fiz com a ajuda da inteligência artificial.!” Eu fiquei e continuo sem saber o que dizer. Vou mandar o texto lírico para avaliação de Jozailto Lima, um dos últimos poetas naturais, assumido.

Eu sou antigo. Quando me assuntei como gente, já estava no catecismo do Padre Everaldo (o Bode Cheiroso). Fiz a primeira comunhão no dia que completei sete anos. Caiu numa segunda-feira. Era uma promessa de mamãe, que tive que pagar.

Criado no Beco Novo, brincando de roda e cantando uma música francesa: “Je suis pauvre, pauvre, pauvre; pauvre de Marrais d’ issy” (claro, traduzido). As injustiças me levaram a incredulidade. Cheguei às fronteiras do materialismo histórico.

Li François Rabelais (Gargantua e Pantagruel) aos 17 anos. O livro emprestado pelo Padre Antonino, um italiano que ensinou o catecismo tridentino, em Itabaiana. Abracei ao agnosticismo, por ignorância.

Agora, na reta de chegada, me aparece, de forma arrogante, essa que se autodenomina – Inteligência Artificial. A IA é digital, opera com a ponta dos dedos. Estou forra! Não quero conversa.

O pensamento é analógico, afetivo, arrepia a pele, analisa e conceitua. A inteligência artificial são dados e informações. É incapaz de pensar, de captar comoções.

“O pensamento humano é mais do que cálculos e soluções de problemas. Ele clareia o mundo.” – Chul Han.

A IA não pensa, mas pode levar a humanidade a submeter-se, sucumbir, rebaixar as fantasias e formar um rebanho com pensamento único. Se é que já não se formou.

“No homem, a natureza abre os olhos e põe-se a falar, ainda que veja e fale como homem”. – Marx.

Antonio Samarone. Membro da Academia Itabaianense de Letras.