segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O CAMINHO DA EDUCAÇÃO


 O caminho da Educação.

(por Antonio Samarone)

O Beco Novo não tinha livros. Em minha casa, não existia nem a bíblia. Nada. Eu desconhecia a sua existência. Fui apresentado a esse artefato cultural, tardiamente, na biblioteca da igreja, num grande salão, onde hoje funciona a secretaria da Paróquia de Santo Antônio e Almas.

Para não cometer injustiça, o filho de Seu Bebé, Benjamim, era o único menino do Beco Novo que lia, cultuava os livros.

Tenho lembranças do ABC, da tabuada e da Cartilha do Povo, de Lourenço Filho. Lembranças dos folhetos de cordel, do meu avô, onde aprendi a ler em carreirinha, sem soletrar. Lia direto. Lia cantando, como se faz com os cordéis.

Mamãe foi professora nas Flechas, sem nunca ter concluído o primário. Sempre cuidou da educação dos filhos. Como as escolas só aceitavam meninos a partir dos sete anos, mamãe contratou uma professora (Marcinha), para me alfabetizar. Já entrei na escola sabendo ler.

Ela tinha consciência da importância da educação. Dizia com firmeza: “você deve a mim a sua formatura.” Papai queria me levar para a roça, para ajudá-lo. Não só botou na escola, como fiscalizava a frequência e o desempenho.

No primário rodei tudo que era escola. Aquelas turmas com todas as series.

A palmatória era o principal recurso pedagógico. Algumas professoras batiam compulsivamente. Castigos cruéis e humilhantes eram aplicados por qualquer besteira.

A escola primária era violenta.

O sofrimento perdurou até o Educandário Cônego Vicente de Jesus (Colégio do Padre), ofertar vagas gratuitas para os filhos dos circulistas. A igreja católica fundou o Círculo Operário, em 1935, coordenado pelo padre João Moreira Lima, para se contrapor a influência do Centro Operário, uma organização ligada aos comunistas.

Filiaram papai no Círculo Operário, mesmo ele sendo um “sem-terra”, arrendatário, pataqueiro e plantador de algodão.

Estudei em numa escola dos ricos, por conta do Círculo Operário. Eu adorava a escola do padre: não batia e ainda tinha merenda escolar. Uns caldeirões com achocolatados. já existia o Toddy, mas eu desconhecia. Conheci chocolate na merenda escolar.

O resto (ginásio e científico), foi no Colégio Estadual Murilo Braga.
No exame de admissão, o professor Gabriel ficou encantado com o meu desembaraço com a leitura. Fui aprovado com louvor.

Sem querer me gabar, não fui um bom aluno, estudioso. Só despertei no científico, quando descobri só existia o caminho educação, para me tirar do buraco social.

O Murilo Braga foi uma escola de cidadania. A farda tornava todos iguais, pelo menos no colégio. O tratamento da diretora, Maria Pereira, era igualitário. Não tinha protegidos. Ali, o critério era a inteligência e o esforço de cada um.

Estudei para ser mais sabido que os outros, por pura competição. Na verdade, o sonho era jogar futebol.

Enfrentei o vestibular sem preparação prévia (pré-vestibular). Estudando à noite e trabalhando pelo dia. Fazer vestibular de quê? Qual era a minha vocação? Não fazia a menor ideia. Mamãe me queria padre. Foi um erro meu, hoje seria um Cônego.

Pensei em medicina pela disputa, eram muitos os candidatos. Fiquei inseguro. fui orientado a entrar primeiro em odontologia, para depois, mais experiente, fazer o vestibular de medicina. Os dois primeiros anos o currículo era o mesmo.

A minha chegada no Beco Novo, de cabeça raspada, foi uma apoteose. Todos os iguais se sentiram comtemplados. “O filho de Elpídio das redes, analfabeto de pai e mãe, vai ser doutor,” disse em voz alta Tonho de Sinhá. Houve comemoração na bodega de Armelindo. Zezito de Dona Bilô, pagou uma rodada de milone.

Depois eu continuo essa prosa.

Antonio Samarone.

domingo, 18 de outubro de 2026

O HOSPITAL DA UNIMED EM SERGIPE

O Hospital da UNIMED, em Sergipe.
(por Antonio Samarone)

Na velhice, além das mazelas naturais do corpo, a maioria ainda sofre com uma assistência médica insuficiente ou inadequado. Muitas vezes, essa falta, supera os sofrimentos da própria doença. Muitos ainda morrem desassistidos.

No Brasil, o acesso dos pobres a assistência médica foi penoso e demorado. Era obra da caridade das Santas Casas de Misericórdia.

Criou-se a medicina previdenciária, na década de 1930. A maioria, que não possuía emprego formal, carteira assinada, era considerada N/C (não Contribuinte), na linguagem usual dos serviços de saúde, eram indigentes.

O acesso universal aos serviços de saúde só se tornou direito, com a Constituição de 1988.

Com o envelhecimento da população, a necessidade de acesso aos serviços de saúde se tornou prioridade. Esse acesso, muitas vezes, torna-se mais um sofrimento, sobretudo para os idosos, onde as necessidades são intensas. São famosas as filas do SUS, a demora para se realizar os procedimentos, mesmos os mais urgentes.

Nos últimos anos, a medicina desenvolveu tecnologias eficazes, sobretudo nos atendimentos de urgência. Os infartos, AVC, neoplasias, antes, eram sentenças de morte. Hoje, eu acabo de sofrer 5 crises de angina (pré infarto) e, por enquanto, estou aqui contando histórias.

A Saúde é um bem super desejado, quase uma unanimidade. Desconheço os que preferem as doenças. Mesmo os hipocondríacos, sofrem para curar as doenças imaginadas.

A saúde como direito foi uma novidade inglesa, do final da Segunda Guerra. Depois da vitória eleitoral do Partido Trabalhista, em 1945, foi criado o National Health Service (NHS), o famoso Serviço de Saúde Inglês, com atendimento universal gratuito.

A Declaração Universal dos Direitos humanos, de 1948, afirmou em seu artigo 25: “o direito a um padrão de vida adequado à saúde e ao bem-estar, incluindo assistência médica e serviços sociais.”

A realidade restringiu esse direito abrangente a saúde, ao direito de acesso aos serviços de saúde (assistência médica). Na Constituição de 1988, o Brasil incorporou tardiamente esse direito à carta magna e estabeleceu como responsabilidade do Estado. A questão é quanto custa e quem paga essa conta.

Foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS), com a responsabilidade de prover uma atenção médica universal e gratuita. Se fez muito, mas ainda longe das necessidades.

O sub financiamento SUS e a sua gestão atrelada a politicagem, nunca foram equacionadas. Sergipe fornece uma evidência indiscutível: nos últimos 40 anos, o secretário estadual de saúde, seja ele bom político ou não, tornou-se o deputado federal mais votado.

O mercado percebeu que o desejo à saúde domina o pensamento social, e os serviços públicos são insuficientes. Montou-se uma sofisticada rede privada, financiada pelo capital financeiro, para oferecer esses serviços privadamente.

A saúde tornou-se uma mercadoria muito desejada. “Saúde não tem preço”, diz o inconsciente coletivo. Os serviços de saúde no Brasil seguiram duas vertentes: direito (SUS) e a rede privada.

A rede de hospitais e clinicas privadas consideram os que não possuem planos privados ou seguros de Saúde, como SUS/dependentes. Vistos por eles, como os antigos N/C - não contribuintes.

O mercado oferece procedimentos variados, dependendo da capacidade de compra do consumidor. Exames, serviços hospitalares e tecnologias variadas, de acordo com a renda de cada um.

Os planos e seguros cobrem seletivamente. Se considera bom, os serviços que ofertam procedimentos mais sofisticados. A qualidade não leva em conta os critérios epidemiológicos. Ter acesso aos profissionais famosos e aos hospitais de ponta de São Paulo, é o top dessa linha.

A classe média abomina ser SUS/dependente. Mesmo sindicalistas e gente de esquerda. A defesa do SUS fica nos discursos. Se a renda não permitir o Seguro Bradesco Saúde Premium (R$ 12.500,00), o cristão se vira com planos mais modestos.

Na condição de defensor do SUS e de esquerdista inveterado, optei pelo Plano da UNIMED. Uma cooperativa de médicos. Em Sergipe, depois que a UNIMED rompeu os contratos com os hospitais privados de ponta, foi um desespero dos beneficiários.

A guerra comercial atacou a qualidade dos serviços do hospital da UNIMED. Na impossibilidade de acesso aos planos da burguesia, muitos migraram para a GEAP.

Eu meu primeiro piripaque grave, bati as portas da urgência da UNIMED. Cheio de receios, pelo que ouvia, encontrei profissionais preparados e atenciosos. Toda a equipe. Um atendimento nota 10.

Precisei realizar um procedimento de alta tecnologia. Por coincidência, fiquei no apto 313.

Tudo muito organizado. A enfermagem qualificada e acolhedoras. Técnicas em enfermagem competentes e atenciosas. Nutricionistas vigilantes, personalizando as dietas. Cozinha profissional. Equipes acolhedoras.

O Hospital da UNIMED possui equipes médicas capacitadas e profissionais experientes, instalações adequadas e equipamentos modernos. Uma bela surpresa.

Agradeço a todos os trabalhadores do Hospital da UNIMED, pelo acolhimento e, em especial, ao dr. Aelson Fonseca Costa, renomado cardiologista, onde ciência, arte e empatia pelos pacientes, se fundem num grande médico.

Em resumo: a UNIMED montou um hospital humanizado!

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

domingo, 11 de outubro de 2026

VIDA DE GADO

Vida de Gado
(por Antonio Samarone)

“Na boiada já fui boi/ Mas um dia me montei.../ Porque gado a gente marca/ Tange, fere, engorda e mata/ Mas com gente é diferente...” – Vandré.

A tradição de se comer carne em Itabaiana, vem de longe, dos primeiros momentos da colonização. Acredita-se que só a carne sustenta. O litoral plantou cana, o sertão criou gado. Os poucos engenhos de Itabaiana, ficavam nas fronteiras com o vale da Cotinguiba.

O gado chegou a Itabaiana, antes da ocupação de Sergipe, por Cristóvão de Barros (1590). Em Itabaiana, Simão Dias Francês, por conta da invasão holandesa, tangeu o seu gado, de Itabaiana para as matas do Riacho Caiçá (atual Simão Dias), em 1637.

Depois das frustradas minas de prata de Belchior Dias Moreia, que não encontraram, e da extração de todo o pau brasil, os colonos implantaram o pastoreio. Centenas de currais, para a criação de bovinos. foram instalados. O curral é uma forma primitiva das atuais fazendas.

Economicamente, o boi movia as moendas dos engenhos, fornecia o couro, usado para embalar os rolos de fumo. O gado é uma mercadoria que anda, vai aos mercados com os próprios pés. Os curraleiros de Itabaiana abasteciam o recôncavo Baiano.

O velho Ascendino de Genoveva, agregado do engenho Matebe, criou coragem, se tornou rendeiro e montou um curral de gado, no Saco do Ribeiro. Seu pasto era aberto, sem cercas, criava na Solta.

O branco livre, pobre, podia arriscar-se na criação de gado. Se melhorassem de vida, botavam um vaqueiro, geralmente trabalhando de meia.

Ter um pasto cercado, de pedras ou varas, era um sinal de riqueza. O Brasil só começou a produzir arame farpado, em 1940, pelo Belga Mineira. Antes, o arame era importado.

A aristocracia rural vivia da caça aos índios, pastoreio, agricultura (cana, fumo e mandioca) e da mineração. Ascendino não era um fidalgo capitalista, não herdou sesmaria. O seu pequeno curral, em terras arrendadas, nunca passou 20 reses. Era um curral de sobrevivência.

Ascendino de Genoveva vestia couro. Era um homem rude, quase um Tapuia. A sua alimentação era carne de boi, assada num moquém de vara (trempe), com farinha de mandioca, rapadura, queijo de coalho e milho. O mel, quando encontrado no oco do pau, era uma iguaria.

Essa mesma carne assada, ainda é encontrada em Itabaiana, em João de Neco e Domício, restaurantes que resistiram ao churrasco gaúcho. Eles servem carne assada. Se até hoje você nunca percebeu a diferença, eu nada posso fazer.

O tataravô de Ascendino, participou da revolta dos curraleiros, na primeira metade do século XVII (1655), quando ocuparam São Cristóvão. O local onde acamparam chama-se até hoje “Alto de Itabaiana”. Essa revolta, foi a primeira no Brasil, onde colonos brancos rebelaram-se contra a Coroa portuguesa.

Nesses currais primitivos, o gado crescia e se multiplicava sem maiores cuidados. Meu velho pai, analfabeto, pobre, mascate de redes de dormir, me deu um conselho, que eu não seguir. – “quando se formar, junte dinheiro e compre uma fazenda. Segure no rabo do boi que ele lhe puxa.” Não obedeci, virei funcionário público.

Com a chegada do algodão, Ascendino foi proibido de criar gado solto, precisava cercar o curral. Nada feito. Ascendino vendeu o pouco gado que possuía. Voltou para as Candeias, fronteira com o antigo engenho Matebe, e foi viver de um pequeno sítio e da pataca. Casou-se com Georgina, filha de uma negra liberta, por foça da lei do ventre (1871).

Ascendino, descendente da Galícia, branco de olhos azuis; e Gina descendente da Senzala, negra, filha de escravizados. São as minhas raízes.

Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
 

sábado, 10 de outubro de 2026

O FUTURO REPETE O PASSADO

O futuro repete o passado.
(por Antonio Samarone)

No Brasil, a extrema direita chegou ao poder pelo voto. O projeto abre mão da soberania, da democracia e dos direitos sociais. Será feito o que for preciso. Sem limites. Essa realidade assustou a quem sonha ou sonhou com o Brasil, como grande Nação.

A derrota de Lula, no segundo turno, será a última pá de cal.

Os da minha geração que perceberam o abismo, ficaram assustados e querem reagir, mas não sabem como. Fazer o que? Vamos para as ruas! Gritou um “antigo progressista” (esse vocábulo ainda existe?). Um mais cético, retrucou: fazer o que nas ruas? Outro, mais jovem, acha que a saída é começar uma guerra, pelas redes sociais.

Quando tudo parecia perdido, sem jeito, uma força solar se acordou, encheu as ruas e afirma sem medo: não queremos retrocessos. Vamos virar!

Quem são?

“Quero falar de uma coisa/ Advinha onde ela anda/ Deve estar dentro do peito/ Ou caminha pelo ar... A folha da juventude/ É o nome certo desse amor.” – Milton Nascimento.

Gente, os jovens acordaram. Eles são o sal da terra. Como ensina a canção: “Se você achar que estamos derrotados, saibam que os dados, ainda estão rolando. O tempo não para.”

Na última manifestação dos estudantes da UFS, fui abordado por um jovem negro, que me chamou pelo nome e se identificou. – “Eu sou neto de Florival, velho comuna do PCB”, Lembra-se? Como não lembrar, eu conheci Florival na juventude. Ele me emprestou o livro: “El arte”, de J. Posadas.

Posadas, era um trotskista argentino, líder da quarta internacional. Pseudônimo de Homero Rómulo Cristalli Frasnelli, lido nos meios universitários daquele tempo. A principal tese de Posadas era que as civilizações extraterrestes eram todas socialistas.

O negro Florival foi um pedreiro do 18 do Forte, amigo de Manuel Vicente, que lia Trótski. Avistei Florival, pela última vez, ele já velhinho, no velório de Marcelo Déda, no Palácio Olímpio Campos.

Perguntei ao jovem da passeata, neto de Florival, como ele se chamava: - “O meu nome é Leon David. Sabe em homenagem a quem?” Não sabia, não fazia a menor ideia. “Uma homenagem a Lev Davidovich Bronstein (Leon Trótsky).”

O jovem Leon abriu o peito e recitou um antigo verso, dos meus tempos de movimento estudantil: “Vim aqui só para dizer/ Ninguém há de me calar/ Se alguém tem que morrer/ que seja para melhorar.” Eita, a juventude ainda ouve Geraldo Vandré!

Contudo, “Ainda é fecundo o ventre que gerou a besta.” – Brecht.

Antonio Samarone.
 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A LITERATURA SERGIPANA

A literatura Sergipana.
(por Antonio Samarone)

Acho o título, literatura de entretenimento, pejorativo e injusto. Toda literatura entretém. O maior nome da literatura brasileira atual, escreve sobre autoajuda. Não estou me valendo do relativismo cultural, onde o gostar do consumidor é critério absoluto. Para todas as artes.

Entretanto, não é fácil classificar, quem ou não, merece o título de escritor, nem quando um texto pode ser considerado literário. Entre a pura literatura e o texto jornalístico a distância é curta, a fronteira é borrada. Sem contar os textos técnicos, os ensaios, causos, panfletos e manifestos.

Cair no senso comum e considerar escritor todo mundo que escreve, torna-se um exagero. Limitar a honraria somente aos que escrevem bem, cria um problema, quem julga? Na falta de um conceito objetivo, sigo a opinião de Paulo Coelho: "escritor é quem vive de escrever, quem tem esse talento como meio de vida."

A tese do bruxo é simples: se o indivíduo vive de escrever é porque tem leitores que compram a sua obra. As editoras se interessam na venda e na distribuição. A literatura tem as suas instituições: editoras, livrarias, bibliotecas, círculos de leituras, sebos, feiras de livros e bienais.

A crítica internacional vê a literatura brasileira com desatenção. Nunca houve um Nobel, apesar dos louvores ocasionais a Machado de Assis e Guimaraes Rosa. Se a atenção se volta para Sergipe, a desgraça é maior. Por aqui, nem o Cordel consegue destaque nacional.

As dificuldades literárias em Sergipe não são por falta de incentivos. Existe uma Academia de Letras em cada esquina. Nem por falta de bons escritores. As livrarias estão apinhadas de livros de autores sergipanos.

Várias corporações, Rotary, Maçonaria, Oratórios, Clubes de Tiro, Profissionais liberais, etc. possuem sociedades literárias. É inegável o prestigio da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, hoje presidida por Lúcio Prado Dias, médico sergipano. Um mecenas abnegado.

A Academia Sergipana de Medicina e a Sociedade de Médicos Escritores não medem esforços em incentivar a produção literária entre os médicos. Publicam anualmente ontologias de médicos. Realizam eventos.

Hoje, 06/10, as 19 horas, estão organizando um lauto banquete para os sócios, onde o talentoso José Marcondes de Jesus (membro da “Sleep Research Society”), vai realizar uma conferência sobre Medicina & Literatura. O convescote é aberto aos leigos convidados e aos amigos dos sócios.

Se incluirmos os que escrevem para as plataformas digitais, a militância literária em Sergipe é expressiva. Não faltam bons cronistas. Sinto uma certa escassez da poesia, mesmo com tantos poetas. Parece haver uma timidez poética. Nem todo mundo tem coragem em publicar poesias. O medo do ridículo esconde talentos. O principal da obra de Fernando Pessoa, só foi publicada após a sua morte.

O que falta mesmo em Sergipe são críticos literários. Quem é besta, ficar arrumando inimigos. As poucas resenhas do muito publicado são louvações. Se elogia sempre, esperando-se a justa contrapartida.

Antônio Samarone. Membro de várias academias e aceitando novos convites.
 

domingo, 4 de outubro de 2026

FOI O SÉTIMO DIA

Foi o Sétimo dia.
(Antônio Samarone)

A missa de sete, do dr. Átalo, foi encomendada para as sete da manhã, de 04 de outubro, na igreja do Salesiano, no antigo morro da Tebaida. Uma igreja colorida, alegre e bem iluminada. Não me lembrava mais, dos encantos da Capela de Dom Bosco, em Aracaju.

O 04 de outubro é o dia de São Francisco e o dia do descobrimento de Sergipe. (04/10/1501).

Celebrar missa pelo defunto, no sétimo dia após a sua morte, é uma tradição mundial dos católicos. Mesmo que coincida com as eleições. Na cosmogonia bíblica, Deus descansou no sétimo dia da criação. Os mortais, terão o descanso eterno.

A tradição abriu uma chance de ainda se pedir misericórdia para o defunto. Ponderar, lembrar as boas ações. Geralmente, se tem boa vontade com os mortos.

A missa de sete ainda permite um último encontro entre amigos e familiares, com quem passou para uma melhor. Prevenindo aos apressados, Átalo não acreditava que a consciência fosse um produto do cérebro, um fenômeno físico/químico, como teoriza uma certa neurociência. Nem por isso era um amante do obscurantismo. Só não acreditava que a consciência fosse um subproduto celular.

O cérebro é um receptor da consciência, defendia ele. Não se trata de negar a ciência, mas de se prescrutar novos paradigmas. A consciência é uma propriedade da matéria, não desaparece com a morte do corpo, aponta a física quântica. Não sei o destino post-mortem: Paraiso ou inferno, dependendo do juízo final.

Claro, estou simplificando, para caber nas redes sociais. A consciência sobrevive ao corpo. Ainda não se sabe se ela permanece individualizada (cada um, continua com a sua) ou se ela é dissolvida na energia cósmica, como proclamam algumas filosofias orientais.

Durante a missa, senti uma fresca forte e amena (zéfiro), que monopolizou a minha atenção. Uma fresca contemplativa, prazerosa e que anunciou sem arrodeio: “Estou aqui!” Quem, indaguei? - “A consciência que ocupou o corpo do seu amigo. Estou em transição.” Tentei puxar conversa, saber algumas coisas, algum segredo. Nada. Sem sucesso.

A fresca metafísica não é o vento em movimento, movido por um ventilador cósmico. A fresca pode se apresentar como um fenômeno que refresca a alma e eriça os pelos. Essa fresca é personalizada, cada um sente do seu jeito. Outros, nem a percebem.

A última vez que foi visitado pela fresca metafisica, foi a mais de 60 anos. A fresca para o corpo, qualquer ventilador resolve. Não é dessa que estou falando.
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Coitada da IA, pensa que fresca é exclusivamente o feminino de fresco, uma pessoa afetada, cheia de melindres. Não vai ser fácil explicar a IA, a fresca que senti na igreja do Salesiano. A IA pensa cartesianamente, dentro de um sistema binário.

Só a inteligência humana, analógica, criativa, aberta aos erros, as suposições, aos enganos e as fantasias, podem sentir a fresca metafísica (zéfiro). Só a inteligência humana pode sentir, um fenômeno inexistente. A IA quer provas, evidências.

Na mitologia grega, essa fresca metafisica (zéfiro), amena, convive sem medos, desassombrada, com outras divindades do vento, como ventanias, vendavais, redemoinhos, ciclones, tornados e tufões.
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Suspeito que já foi a influência de Átalo, no Olimpo, que liberou zéfiro, hoje pela manhã, na igreja do Salesiano. Uma resposta a missa de sétimo dia.

Antônio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A FINAL É DOMINGO.

A Final é domingo.
(por Antonio Samarone)

“A cultura é a consciência da civilização” – Norberto Bobbio.

Em Sergipe, não haverá 2º turno. Teremos que decidir o nosso destino, nos próximos 4 anos, no domingo. Lavar as mãos, achar que tanto faz, que é tudo a mesma coisa, se abster, são atitudes coniventes. A indiferença abre as portas para os que parasitam os recursos públicos.

Entre 1982 e 2006, por 24 anos, Sergipe foi governado por três homens (João, Albano e Valadares). Foi a Era João Alves.

Politicamente, existia um projeto de desenvolvimento para o Estado. Concorde-se ou não com os caminhos apontados. Sergipe saía dos pátios dos engenhos. Deixava de ser uma “roça iluminada”, como dizia Joel Silveira.

Nacionalmente, o Partido dos Trabalhadores (PT), chegou ao poder. Em 2002, Lula, um operário nordestino, elege-se Presidente da República. Em 2006, por conta dessa ascensão nacional do PT, Marcelo Déda ganha as eleições em Sergipe. Já são 20 anos no poder.

A Era João chegou ao fim. O novo bloco político prometeu acabar com a mesmice. Esperava-se mudanças. Chegamos onde chegamos. Sergipe retrocedeu.

Hoje patinamos sem projetos. A principal obra do governo é uma nova ponte para a Barra dos Coqueiros. Os investimentos da Petrobrás nas plataformas em águas profundas, passa desapercebida. A crise hídrica não é enfrentada. Pelo contrário, privatizou-se a distribuição, a parte lucrativa. A falta d’água é enfrentada com carros pipas.

Em política, quem escolhe os herdeiros é o povo. Ninguém do PT, foi escolhido para a sucessão de Déda. Talvez, Edvaldo Nogueira, um filho de criação, tenha herdado a prefeitura de Aracaju.

Os herdeiros finais de Déda, são esses jovens, filhos de uma elite predatória, cujo único projeto é a sangria improdutiva do estado, para acumularem patrimônio. Hoje, nenhum deles lembra-se de Déda. O PT continua no palanque, meio constrangido, por conveniências eleitorais.

Privatizaram a máquina pública. São os donos!

Via de regra, são meninos que nunca precisaram estudar, nem trabalhar. Nasceram com a vida resolvida. Talvez essa insensibilidade com os professores seja atávica. Eles não possuem uma boa lembrança da escola.

A política foi um caminho para resolver a vida deles, que nunca se preparam para nada. Talvez por isso, a arrogância, a prepotência e a ilusão que tudo se resolve com dinheiro. Inclusive, a compra dos mandatos. Votos? “Se compra...”

Faz sentido eles acharem que um marchante não pode governar Sergipe. Só eles...

A oposição apresenta um nome, Valmir de Francisquinho, que ralou para chegar onde chegou. Com talento e sensibilidade política, foi crescendo. Governou e impulsionou o desenvolvimento de Itabaiana. Valmir já deu provas de ser um bom gestor. Conhece Sergipe em detalhes, e pede uma chance.

Essa empatia de Valmir com o povo não é mágica, carisma ou acaso. O povo, em seu inconsciente, sente quem está ao seu lado e quem está contra. Sem grandes teorias. O povo reconhece com um sorriso, um abraço apertado e a esperança renovada.

Acho, que o projeto de Valmir é retomar o desenvolvimento de Sergipe.

Um intelectual da UFS, decano em seu departamento, escreveu sobre Valmir, nas redes sociais: “não voto na extrema direita populista, nem em filho de velhos coronéis. Fiquei curioso. Primeiro, direita, populista ou não, propõem reestatizar a DESO, nem é contra à terceirização da saúde. Quanto a filiação, o doutor pensa que Francisquinho, era o centenário líder Chico de Miguel.

Gente, domingo, na final, é essa a disputa: o poder, o dinheiro e a força versus o sonho popular. Romanticamente, eu acredito no povo.

Antonio Samarone – um filho da escola pública.