sábado, 9 de maio de 2026

HOSPITAIS, ASILOS E NOSOCÔMIOS

Hospitais, Asilos e Nosocômios.
(por Antonio Samarone)
 
No setor da assistência hospitalar na Província de Sergipe, até 1850, tivemos apenas dois hospitais. O Hospital Senhor do Bonfim, em Laranjeiras e o São Matheus em São Cristóvão. 
 
Sem nenhum patrimônio e sob um compromisso aprovado pelo Presidente da Província, foi criada em 1836 uma Instituição de Caridade, visando instalar um hospital em Laranjeiras. 
 
Os médicos, José Cândido de Faria (primeiro diretor) e Francisco Alberto Bragança (o Pai de Francisco Bragança) participaram da sua fundação. Após longos esforços, finalmente, em 29 de junho de 1840, no Governo do Coronel Wenceslau de Oliveira Belo, o “Hospital Senhor do Bonfim” seria inaugurado. O hospital era administrado pela Irmandade do Senhor Bom Jesus do Bonfim.
 
A questão central para o funcionamento desse hospital, era a mesma do antigo Hospital São Mateus (o Hospital de Caridade de São Cristóvão): a falta de financiamento. Os legados e subvenções eram quase inexistentes e o que se arrecadava de esmola era muito pouco. 
 
A lei n.º 28, de 11 de março de 1839, no Governo do Presidente Joaquim José Pacheco, concedeu o privilégio de exploração de loterias, ao Hospital Senhor do Bonfim. Mas, àquela altura, o instrumento das loterias andava bastante desgastado. Era muito difícil arrecadar-se alguma coisa por esse meio. Restava ao hospital à contribuição marítima do porto de Aracaju, em torno de 800$000 réis, que, na prática, era a única efetiva.
 
Em 1847, O Presidente da Província, José Ferreira Souto, solicitou recursos à Assembleia Provincial para comprar uma nova casa para funcionamento dessa instituição, alegando completa falta de condições da existente:
 
“A que ora serve não pode por todos os motivos continuar. É pequena, baixa, quente, e a mais insalubre possível. Os doentes estão confundidos, e tudo ali é tão miserável, que só na última necessidade se poderá procurar aquele asilo.”
 
De fato, as condições de funcionamento do Hospital Senhor do Bonfim, em Laranjeiras, não eram das melhores. O hospital funcionava em uma casa alugada, que possuía apenas 18 palmos de altura e 30 de largura em sua frente, era dividida em três salas e duas enfermarias, onde estavam instaladas de 16 camas, com um mínimo espaço de separação. 
 
A mortalidade atingia cerca de 50% dos internados. Em 1848, foram abrigados neste hospital 27 doentes, dos quais 13 faleceram, 09 receberam alta e 05 permaneceram internados até o ano seguinte.
O Presidente Salvador Correia de Sá e Benevides, em seu relatório de julho de 1856, assim descreveu a citada instituição:
 
“Existe esse pio estabelecimento em um edifício sumamente acanhado e sem nenhuma das condições exigidas para casas dessa ordem.” “A caridade particular pouco sustenta os pobres enfermos, e são tão diminutos, tão precários esses recursos, que apenas um limitadíssimo número de camas pode manter essa santa instituição.”
 
Esse hospital deixou de funcionar em 11 de junho de 1859. Os senhores, Ângelo Custódio Polliciano, José Joaquim Fernandes Sampaio e Eugênio José de Lima assinam o documento que assinala o fechamento do Hospital, com as seguintes justificativas:
 
“Pobre, sem patrimônio, reduzido à subvenção marítima da barra, a qual produz 1:200$000, quando as despesas orçam 3:600$000, não podia mesmo o hospital funcionar.”
 
A situação da assistência hospitalar, na primeira metade do século XIX, na Província de Sergipe, estava limitada a duas instituições de caridade e uma enfermaria militar. “Há somente dois asilos de enfermos, o São Mateus, em São Cristóvão e o do Senhor do Bonfim, na Vila de Laranjeiras”. 
 
Eram casas voltadas ao amparo dos necessitados, para que não morressem à míngua. Local, para quem não tinha onde cair morto. Ainda não tinham incorporado as mudanças, já em andamento no mundo desenvolvido, que transformariam os hospitais em instituições voltadas para a cura das doenças.
 
Antonio Samarone – Membro da Academia Sergipana de Medicina. 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

CANTE LÁ, QUE EU CANTO CÁ.


 Cante lá, que eu Canto cá.
(por Antonio Samarone).

Madruguei o 1º de maio, encantado com Elis Regina cantando Billy Blanco:

“Não fala com pobre/ não dar mão a preto/ não carrega embrulho/ para que tanta pose doutor/ para que esse orgulho? A bruxa que é cega esbarra na gente/ e a vista estanca/ o infarto lhe pega/ e acaba essa banca.”

Levado pelo vício, abri o Smartphone. O oráculo da pós-verdade.

Abri o WhatsApp, e estava lá, um belo poema de um velho amigo, professor de literatura na Academia. O mestre não recebeu a graça poética. Compensou a falta de talento, com a erudição literária. Doutor em literatura, pela Sorbonne.

Fiquei feliz com o tardio surto poético, do amigo. Um poema perfeito, obedecendo às normas e tradições da poesia. Bem feito e arrumadinho. Li e reli, e nada, nenhuma emoção. A poesia era fria? Não sei... Fiquei acanhado em revelar essa sensação. O novo poeta é meu amigo, e se não fosse, seria falta de educação.

Ele me ligou: - e aí, gostou do poema? Tangenciei, ainda bem, antes tarde... Ele riu: - “Fiz com a ajuda da inteligência artificial.!” Eu fiquei e continuo sem saber o que dizer. Vou mandar o texto lírico para avaliação de Jozailto Lima, um dos últimos poetas naturais, assumido.

Eu sou antigo. Quando me assuntei como gente, já estava no catecismo do Padre Everaldo (o Bode Cheiroso). Fiz a primeira comunhão no dia que completei sete anos. Caiu numa segunda-feira. Era uma promessa de mamãe, que tive que pagar.

Criado no Beco Novo, brincando de roda e cantando uma música francesa: “Je suis pauvre, pauvre, pauvre; pauvre de Marrais d’ issy” (claro, traduzido). As injustiças me levaram a incredulidade. Cheguei às fronteiras do materialismo histórico.

Li François Rabelais (Gargantua e Pantagruel) aos 17 anos. O livro emprestado pelo Padre Antonino, um italiano que ensinou o catecismo tridentino, em Itabaiana. Abracei ao agnosticismo, por ignorância.

Agora, na reta de chegada, me aparece, de forma arrogante, essa que se autodenomina – Inteligência Artificial. A IA é digital, opera com a ponta dos dedos. Estou forra! Não quero conversa.

O pensamento é analógico, afetivo, arrepia a pele, analisa e conceitua. A inteligência artificial são dados e informações. É incapaz de pensar, de captar comoções.

“O pensamento humano é mais do que cálculos e soluções de problemas. Ele clareia o mundo.” – Chul Han.

A IA não pensa, mas pode levar a humanidade a submeter-se, sucumbir, rebaixar as fantasias e formar um rebanho com pensamento único. Se é que já não se formou.

“No homem, a natureza abre os olhos e põe-se a falar, ainda que veja e fale como homem”. – Marx.

Antonio Samarone. Membro da Academia Itabaianense de Letras.

sábado, 25 de abril de 2026

AS TREZENAS DE SANTO ANTONIO Y OS CAMINHONEIROS.


 As Trezenas de Santo Antonio y os Caminhoneiros.
(por Antonio Samarone)

Faz trezentos e tantos anos, desde a Igreja Velha, que Santo Antonio é festejado em Itabaiana. Foi ele que definiu o local da cidade, para agradar ao Padre Sebastião. As trezenas, antecipavam as festas juninas.

“Fogueiras enormes, as chamas lambendo o alto das palmeiras. O foguetório a escalar as plúmbeas nuvens, espocando nos cimés do céu de minha terra; vibrações festivas dos velhos sinos do campanário, exaltando as glórias de Deus; as rezas do Santo casamenteiro e a afinada Filarmônica Santo Antonio.” - Sebrãozinho.

À porta da Torre da Matriz de Santo Antonio e Almas, a banda de pífano: Domingos de Joana Vapor na Zabumba e Pedro de Marmela na Gaita. O coro da igreja ocupado por um belíssimo coral.

Fogo Capitolino, ordenava o padre, na hora certa. O foguetório bombardeava os arredores da Matriz. A molecada disparava para pegar as flechas. A quantidade que cada menino pegava de flechas, sinalizava a sua coragem.

Eu ficava na lanterna, assombrado com as recomendações de mamãe, me metendo medo: cuidado! Não sei quem, morreu com uma flechada na cabeça. Arrancou a orelha. Essa história nunca foi confirmado, mas o medo era o mesmo.

No início da década de 1960, cada trezena, passou a ter um patrocinador: verdureiros, comerciantes, agricultores... Instaurou-se uma disputa, qual a maior? Quem soltasse mais fogos! Itabaiana era um terra de grandes fogueteiros: Mestre Fio, Zé da Serra, Boanerges e Pedro de Cezário.

Registre-se, o foguetório iniciava-se com a alvorada. A atual zoadeira das madrugadas do dia 12: paredões, buzinaço e fogos, mesmo sendo questionado, pelas consequências, vem de longe. A zoada só aumentou.

Em 1950, Itabaiana era o celeiro agrícola de Sergipe. Vivíamos na Zona Rural (35.802 habitantes – 18.754 mulheres e 17.048 homens. 4.006 na zona urbana; 1.740 na zona suburbana 30.056, na zona Rural.)

A Sede do município (com apenas 4 mil habitantes) possuía: 5 atacadistas; 230 varejistas; 5 estabelecimentos industriais; 1 estabelecimento bancário, 13 automóveis e 52 caminhões.

Em 1960, a frota de caminhões já se aproximava de 500. Tornava-se a categoria econômica mais importante da cidade.

A última trezena, a do dia 12 de junho, começou a ser patrocinada pelos caminhoneiros. Assim começa a celebração dos caminhoneiros, ao santo padroeiro. A trezena do dia 12, passou a ser a mais festiva. Não se limitava a reza, o Santo começou a ser trazido em carreata.

Antes, aos dia 25 de julho, João de Balbino, organizava uma carreata pelo Beco Novo, transportando São Cristóvão, protetor dos motoristas, da Capela, no Tabuleiro dos Caboclos a igreja Matriz.

Essa carreta com São Cristóvão (inicio da década de 1960, esfriou com a mudança de João de Balbino para Aracaju, para prestar serviço a nascente PETROBRAS, em Sergipe.

João de Balbino, neto do Cônego Domingos de Melo Resende, teve grande liderança entre os caminhoneiros. João foi o motorista (e Seu Motinha, o cobrador) da primeira marinete que fez linha Itabaiana/Aracaju.

A linha de ônibus pertenceu, na sequência: a Olívio Tavares, Oviedo Teixeira e Luiz Prado. Terminou em mãos da Empresa Senhor do Bomfim, de Seu Lauro, genro de Oviedo Teixeira. Daí para frente, vocês lembram.

Com o fim da carreata de São Cristóvão e o crescimento da Trezena dos Motoristas, a mudança tornou-se evidente. Os caminhoneiros reavivaram a carreata, só trocaram o Santo. Ocorreu a junção das centenárias Trezenas, com o crescimento em número e prestígio dos caminhoneiros.

Com o crescimento da festa dos caminhoneiros, a parte profana suplantou a religiosa. Os mais devotos continuam celebrando o santo com as rezas e trezenas e procissão, e os demais, caíram nas festas de Lagos: grandes artistas, almoços, atividades esportivas e a celebre carretazinha.

Aliás, as celebrações não são excludentes. O Santo entende.

O capitalismo não brinca em serviço, ao perceber a importância da festa e a força econômica dos caminhoneiros em Itabaiana, organizaram em paralelo, uma Feira do caminhão. Um momento de se fazer negócios. Eu não lembro os valores, mas rola muita grana. Vêm empresas até internacionais.

Durante esse período de festa dos caminhoneiros, compra-se e vende-se, festeja-se, canta-se e dança-se e, ao final, dia 13 pela tarde, todo mundo vai junto à procissão, somar-se a centenária Irmandade das Almas, para venerar Santo Antonio.

É a hora de mostrar a roupa nova, fazer política e falar da vida alheia. A procissão é o momento de se pagar as promessas, pelos milagres alcançados. Que não são poucos.

Tudo abrilhantado pela Filarmônica dos Cabaús.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

sábado, 18 de abril de 2026

VITAL JOSÉ DA LAPA


Vital José da Lapa (1899 – 1981).
(por Antonio Samarone)

O Filme Vou-me embora, sobre a vida desse grande Itabaianense, será exibido em Praça Pública. A memória de Vital da Lapa, está viva.

Vital José da Lapa nasceu em 15/01/1899, no Sobrado, município de Itabaiana. Filho de camponeses, plantadores de algodão. A família Lapa, possui raízes profundas no Agreste sergipano. Logo cedo estabeleceu-se com um armazém de secos e molhados, em Itabaiana.

Vital da Lapa era casado com Dona Juvência Emília da Lapa (Dona Sinhá). Casaram-se em Macambira, em 06 de fevereiro de 1923.

Constituíram uma família numerosa: 6 homens – Antonio, Manuelino, Cosme, José, Ataíde e Alonso; e 7 mulheres – Veronica, Madalena, Bernadete, Maria de Lourdes, Julia, Cecília e Josefa.
Na vida política, Vital da Lapa foi Vereador em Itabaiana, e acompanhava Manoel Teles, líder local do PSD.

A chegada da UDN ao poder em Sergipe (1955), ocorreu a ascensão política de novos-ricos (fazendeiros e comerciantes) não nascidos de famílias oligarcas, dos donos do cabaú e dos engenhos.

Em Itabaiana, a ascensão do líder udenista, foi um caso típico. Euclides Paes Mendonça era a maior liderança da UDN no Interior.
Após a vitória de Leandro Maciel (1955), “o emprego mais rendoso no Brasil será o de coveiro em Sergipe”, disse Adauto Cardoso, um liberal da UDN, citado por LEC, em seu livro.

Euclides Paes Mendonça foi um exemplo do “novo” Coronel. Líder de origem humilde, filho de pequenos camponeses da Serra do Machado, que por talento e ousadia assumiu o comércio de secos e molhados do agreste sergipano e virou o chefe político. A ordem pode ter sido inversa.

Um líder sem limites, que quando se viu acobertado pelo poder público, excedeu-se em violências e abusos. Botou famílias tradicionais de Itabaiana, que não se submetiam aos seus caprichos, para correr da cidade.

A UDN usou e abusou da mesma violência dos tradicionais senhores semifeudais, que dominavam o latifúndio açucareiro em Sergipe.

Vital da Lapa teve o seu corpo martirizado, silenciado, o rosto marcado com as brasas de um charuto, exposto como espetáculo, para servir de exemplo e amedrontar os demais insubmissos.

O líder da UDN não mandou terceiros, não transferiu o serviço para os jagunços, ele próprio, apagou um charuto no rosto de Seu Vital da Lapa.

Vital da Lapa foi intimado a comparecer no armazém do Coronel, onde lhe foi feita uma exigência: ele precisava de mudar de lado, deixar o PSD e apoiá-lo. Naquele tempo a proposta era uma afronta e não foi aceita.

Após gritos e desaforos, ameaças e xingamentos, Euclides Paes Mendonça cravou um charuto aceso na face esquerda de Vital da Lapa. Ferrou um adversário político, como se ferra um boi no pasto.

Aquele cidadão, de família descente, gente nascida e criada em Itabaiana, com a admiração e respeito daquela sociedade rural, gente que venceu no comércio, com o seu sortido armazém, sem precisar dos contrabandos e da violência, foi publicamente martirizado.

A dor era usada como meio de dominação política, mesmo assim, a dor moral suplantou a dor física. Vital da Lapa foi abatido pela humilhação.

Euclides sabia que não dobraria Vital da Lapa só na pancada, por isso apelou para a humilhação. Nasci e cresci em Itabaiana ouvindo essa história. Ela agora virou filme - "Vou-me Embora..."

Vital da Lapa além de Vereador do PSD (“rabo-branco”), politicamente ligado a Manuel Teles, era um comerciante bem-sucedido. Talvez essa concorrência comercial, deixasse Euclides mais aborrecido que a simpatia política da vítima.

Vital da Lapa sempre fez uma oposição respeitosa a Euclides Paes Mendonça, como era regra naqueles tempos. A maior ameaça de Seu Vital era o seu bem-sucedido armazém, bem localizado, que disputava o mercado com quem queria o monopólio.

A guerra política em Itabaiana na década de 1950, era a consequência da guerra comercial, e controlar o fisco era uma arma decisiva. O contrabando permitido, desequilibrava a concorrência comercial.

Depois do rosário de perseguição do fisco, humilhações, violências, ameaças de morte, Seu Vital da Lapa resolveu ir embora.
“Corpos martirizados são insígnias do Poder. A dor é um meio de dominação” – Chu-Han

Em 1958, Vital José da Lapa vendeu o que tinha, desarrumou a vida, e partiu para recomeçar a vida em terras estranhas, com o intuito de criar os seus filhos com dignidade. Mudou-se para São Caetano do Sul, São Paulo, e os seus descendentes por lá continuam.

Ele não gostava de relembrar a face queimada por um algoz violento, covarde, impiedoso, para não entristecer a família. Vital da Lapa não pode ser apagado da memória dos que lutam por justiça.
Itabaiana foi a sua grande saudade. Morreu amando a sua terra, de onde foi expulso pela brutalidade política da UDN.

Vital da Lapa, um homem alegre, bem-humorado, contador de estórias, politizado, digno, voltado para a família, precisou migrar para terras distantes.

Vital José da Lapa faleceu em 27 de outubro de 1981, aos 82 anos, em São Caetano, São Paulo. O corpo foi transladado para Macambira, Se.

Seu Vital é natural do Sobrado, povoado fronteiriço, separado de Macambira pelo Riacho das Traíras.

A minha homenagem aos que resistiram dignamente à violência política, sem transigir.

No próximo 29 de abril de 2026, na Praça do Chiara, as 19 horas; e no sábado, 02 de maio, no Povoado Sobrado, será exibido um filme sobre a saga de Seu Vital. A história em forma de arte.

Antonio Samarone (médico sanitarista)
 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A SAÚDE PÚBLICA EM ARACAJU

A Saúde Pública em Aracaju.
(por Antonio Samarone)

Higéia e Panacéia, filhas de Asclépio, vivem de mãos dadas em Aracaju.

A atenção primaria é, sobretudo, medicina preventiva. Com o tempo, o SUS foi cedendo as armadilhas dos modelos da medicina comercial. Vende a ilusão de eficácia. A atenção integral perdeu espaço para a tríade: consulta – exames – remédios. Custos elevados e baixo impacto epidemiológico.

A Prefeitura de Aracaju, está retornando os princípios do SUS, priorizando a Saúde Pública. A Secretária Débora Leite, anunciou a consolidação do Programa de Fortalecimento do “Cuidado em Saúde Mental, na Atenção Primária à Saúde” (PROAPS – Saúde Mental) como referência no acolhimento emocional dos pacientes.

Um avanço esperançoso. Na Saúde, a Prefeita Emília está no caminho certo.

Um programa com o nome comprido, que precisa ser explicado. Muitos usuários da rede básico, apresentam um sofrimento, sem doenças evidentes. O acolhimento ser feito por um psicólogo, por exemplo, garante maior resolutividade do serviço.

Estamos acostumados com ações supostamente curativas: procedimentos, consultas, receitas, exames, internamentos, medicamentos, que nem sempre é a melhor conduta. O sofrimento humano é complexo, raramente responde ao que o mercado oferece.

Aracaju ensaia o fortalecimento da Saúde Pública. A saúde é filha da qualidade de vida e de uma assistência integral e holística. As políticas de doenças, voltadas para o consumo de serviços, insumos e ofertas eventuais de mutirões de procedimentos, são ineficazes e caras.

Em Sergipe, o uso político e distorcido desse desejo à saúde, levou que, no último meio século, os secretários estaduais de saúde, tornaram-se os Deputados Federais mais votados. Preciso lembrar os nomes?

A rede do SUS é de Saúde. Superamos o postinho médico, atendendo doenças agudas: sintomas/medicamentos. A ação é integral e o paciente acompanhado a longo prazo.

Vivemos uma epidemia de transtornos mentais. Depressão, ansiedade, TDAH, TOC, autismo. Um número elevado de alunos da escola básica são atípicos. O "PROAPS" pode atender a essa demanda. O único reparo: o programa não contempla menores de 18 anos. Não entendi essa restrição.

Enquanto o Estado insiste em mutirões politiqueiros, o município do Aracaju, enxerga mais longe: prioriza a prevenção e os programas de saúde pública.

Depois da aposentar-me no cargo de professor de Saúde Pública, da medicina da UFS, confesso que reduzir as leituras especializadas em saúde.

Estou cuidando da Cultura, em Itabaiana.

Vejo com tristeza o abandono do modelo assistencial do SUS, previsto na Lei Orgânica da Saúde. Denomino o meu Blog: Em defesa das Causas Perdidas. O neoliberalismo não convive com o direito à Saúde. Tudo vira mercadoria.

As utopias não morrem, Aracaju aponta uma estrela.

Portanto, sinto a iniciativa da Saúde do Município do Aracaju, em fortalecer as ações humanizadas e preventivas, fortalecendo o acolhimento, e oferecendo ações básicas em saúde mental, na rede básica, como um sopro de esperança na Saúde Pública.

Esse exemplo, precisa ser copiado!

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

terça-feira, 14 de abril de 2026

O PREGADOR DO FIM DO MUNDO, SANTO OU LOUCO?

O Pregador do Fim do Mundo, Santo ou Louco?
(por Antonio Samarone)

Na segunda metade do século XIX, foram pródigas no Nordeste, as experiências místicas. O Padre Ibiapina, Padim Cícero e Antonio Conselheiro foram os mais destacados. Em Sergipe, tivemos duas: os Caipiras, no Agreste, e o Céu dos Caraíbas, em Riachão dos Dantas.

O Padre Felismino da Costa Fontes, nasceu em Itabaiana, em 08 de abril de 1848. Filho do capitão e negociante Antônio Manuel da Costa (residente na sede da Villa) e da dona de casa, D. Maria da Conceição Costa Fontes. Era o segundo filho do casal, que gerou como primogênito o Tenente José da Costa Fontes, três anos mais velho.

Felismino da Costa Fontes seguiu a carreira eclesiástica, ordenando-se em 1874, justamente no ano em que Antonio Conselheiro viveu em Itabaiana, na Rua da Pedreira. Não há registros, mas as possibilidades de terem se conhecido é muita grande.

“Era o tempo do Anticristo, do Fim do Mundo, das leituras simbólicas do Apocalipse, das apostásias, que gerava uma discussão que alcançava a Santa Missa e a autoridade do Papa.” – Luiz Antonio Barreto.

Após a formatura, Felismino viajou a Roma. Retornou a sua natal, sendo auxiliar o Cônego Domingos de Mello Resende, em Itabaiana. Em 1886, foi transferido para a recém-criada Freguesia de São Paulo da Mata.

O capuchinho, Frei Paulo Antonio Casanova, dedicou-se a uma Missão do Chã do Jenipapo, onde fundou uma Capela, dedicada ao Apóstolo São Paulo.

O povoado passou a Distrito Administrativo, em 1861, e a Vila, independente de Itabaiana, em 1890. Foi elevada a cidade, em 1920. Mais tarde, São Paulo passou a ser denominada Frei Paulo.

A pregação empreendida por Felismino a partir da Freguesia de São Paulo da Mata avançou sobre as localidades de Carira, Alagadiço, Vila Senhora Sant’Ana de Simão Dias, Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, estendendo-se até os limites da Serra Negra, fronteira com a Bahia, chegando a arrebanhar mais de dois mil seguidores.

O Padre Felismino autointitulou-se “o pregador do fim do mundo”. O pároco liderou o movimento religioso caipira (integrado por trabalhadores rurais, donas de casa e letrados) no agreste sergipano, no intervalo temporal de 1885-1890.

O Padre Felismino enquanto professava seu ministério junto à população do povoado da Chã do Jenipapo, nas Matas de Itabaiana, no período de 1881 a 1886, foi se desvirtuando do método adotado pela Igreja Católica Apostólica Romana e findou sendo denominada de “Seita dos Caipiras”, que trazia os fundamentos do Apocalipse e da Missão Abreviada.

“Eu tenho treze profecias, e outras tantas provas evidentes, mariando estes dias, que atravessamos, como próximos ao Juízo Universal. Vivo resignado no meio da guerra, porque já foi dito pelo venerado Padre Francisco: o pregador do fim do mundo será perseguido pelos Padres e até considerado como o Anti-cristo.” Padre Felismino.

Ataques a Felismino e aos caipiras foram publicados nos jornais, a exemplo do noticioso A Reforma (1888), D. Quixote (1890), e dos semanários Cidade de Salvador (s/d), União Federal (1891). Dois desses artigos foram assinados pelo capitão e latifundiário são paulino João Tavares da Mota, outros, anônimos.

Houve uma resistência do clero local, sob a liderança do Monsenhor João Batista de Carvalho Daltro. Em 1890, o padre Felismino foi convocado a comparecer na sede da Cúria Metropolitana, da Bahia, para um encontro pessoal com o Arcebispo Dom Antônio de Macedo Costa.

Esse fato culminou na prisão e internamento do Padre Felismino, no Asilo São João de Deus, na Bahia. Onde o pregador do fim do mundo continuou a se comunicar com os seus seguidores mediante cartas.

Os intelectuais, ficaram ao lado da loucura. O estigma de doido era definitivo.

“O Padre Felismino, antigo Vigário da freguesia de Frei Paulo, Sergipe, o qual, tendo enlouquecido, começou a pregar sobre o fim do mundo, iniciando uma seita baseada no Apocalipse e na ‘Missão Abreviada” - Carvalho Déda.

“O padre Felismino, ordenou-se presbítero da ordem de San-Pedro, virtuosíssimo e muito inteligente, foi o primeiro vigário da sergipana paróquia de San-Paulo. Em sua vida sacerdotal, sem mácula, pouco a pouco insidiosa moléstia mental atacou-lhe o cérebro e, sobe essa ação, sem que logo o apercebessem seus superiores, criou visionária religião entre os matutos das matas de Itabaiana, que foi chamada Seita dos Caipiras.” – Sebrão Sobrinho.

Em seus escritos, Felismino afirmava ser um enviado divino, com a missão de transmitir o conhecimento, combater o mal e comandar a salvação de seus seguidores.

Dom Daltro, Vigário Geral em Sergipe, conhecido pelo combate dado a Conselheiro, em sua passagem por Sergipe, foi um dos principais responsáveis por difundir a ideia da loucura do padre Felismino e denunciá-lo a seu superior hierárquico.

O Padre Felismino foi internado no Hospício San-João de Deus, na Baía, onde concluiu tristemente sua existência em dias do ano de 1892. A psiquiatria cumpria o seu papel.

Descobriu-se recentemente, que ele não morreu no Asilo. Após sair do Asilo, o Padre Felismino transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde faleceu em 1919. Eu fico sem ter como opinar sobre as duas versões.

“O padre Felismino era detentor de uma mediunidade, que se externava através da imposição das mãos sobre os doentes e da vidência. Contudo, seus métodos não foram aceitos pelas autoridades da província e as eclesiásticas, porque redundaram em pregar profecias e anunciar o fim do mundo, mediante uma interpretação um tanto deturpada do livro Missão Abreviada e do livro Apocalipse.” – João da Santa.

Depois do enclausuramento do Padre no hospício, várias missões foram organizadas em Frei Paulo e Itabaiana, para afastar a influência do Padre Santo, sobre os devotos.

Espero que esse registro chegue ao conhecimento do Papa Leão XIV e o Vaticano inicie o processo de santificação do Padre Felismino, na mesma lógica, da justa santificação do “Padim Ciço”.

Minha mãe era devota do Padre Felismino (depois virou Crente) e leitora assídua da Missão Abreviada. Ela citava de “cor e salteado“, trechos das cartas do Santo Felismino. Eu aprendi cedo, que o mundo ia se acabar pelo fogo, segundo o Padre Felismino. O dilúvio não resolveu.

Mamãe era leitora assídua da “Missão Abreviada”, e vivia esperando a chegada do anticristo. Ela repetia: “haverá Sinais no sol, na lua, nas estrelas, e na terra opressão das gentes.” Se ela tivesse esperado, tinha conhecido o Laranjão, o anticristo americano.

Eu cresci acreditando que assistiria o Juízo Final. Acho que vou conseguir (pelo menos pelas redes sociais). A qualquer instante, os Estados Unidos perdem a guerra com o Irã, e Trump cumprirá as profecias do Padre Felismino: os humanos serão extintos pelo fogo atômico.

A Igreja em Sergipe baniu, entre os católicos, a memória do Padre Felismino da Costa Fontes.

Antonio Samarone – Um caipira fora de época.
 

domingo, 5 de abril de 2026

UMA TARTARUGA ENCALHADA

Uma tartaruga encalhada.
(por Antonio Samarone).

Fazendo a caminhada matinal nas Praias do Aracaju, no domingo da páscoa. Estirando as pernas, em companhia dos doutores Jorge Motta e Luciano Correia, nos deparamos com uma realidade pouco divulgada: as tartarugas desovam nas Praias do Aracaju, no trecho entre o Robalo e o São José dos Náufragos.

Desovam e são protegidas pelo competente Projeto Tamar. Conversamos com uma profissional do Projeto Tamar, presente no local, que nos prestou todos os esclarecimentos.

Uma diferença profunda: na Bahia, na Praia do Forte, a proteção ambiental do TAMAR é atração para o turismo ambiental. Em Aracaju, o mesmo projeto é quase desconhecido. Só as tartarugas são as mesmas.

Para evitar aborrecimentos, eu sei que a primeira base do Projeto Tamar, foi em Pirambu – Se (1982), sei também da grandeza do nosso Oceanário, o primeiro do Nordeste, e que abriga mais de 30 espécies. O projeto Tamar monitora 150 km de praias em Sergipe, 800 desova e 600 mil filhotes chegam ao oceano.

A minha queixa: precisa mais divulgação!

Estamos vaidosos, eu e os doutores da caminhada, por termos salvo uma tartaruguinha. Com fé em Deus, em breve será uma tartarugona. O Dr. Jorge, em um exame rápido, confirmou que era menina.

Luciano politizou a vivência: “não precisa ser especialista, para saber, que o turismo em Sergipe é o mais atrasado do Nordeste. Não aproveitar uma trilha ecológica, na Praia, tomada por tartarugas e carcarás, é a mais profunda incompetência.”

Encontramos essa tartaruguinha da foto, perdida, desorientada, no vasto areal da Praia. As irmãs acharam o mar, pela madrugada, ela não. Pensamos, vamos salvá-la? Eu logo concordei: “achei que nem era fácil, nem difícil.”

Os eruditos doutores, consultaram primeiro a Inteligência Artificial. O relatório da IA, tinha mais de 50 páginas. Um curso completo sobre as tartarugas.

O meu pragmatismo beco-novista, me empurrou para a ação. Pincei cuidadosamente a recém-nascida pelo casco, e levei-a ao Oceano. Ela balançava freneticamente as frágeis nadadeiras, em sinal de agradecimento.

Pensamos: se tivéssemos socorrido uma baleia encalhada, à noite, estaríamos no Fantástico; como o salvamento foi de uma modesta tartaruga, seremos literalmente ignorados.

Gente, ajude!

Antonio Samarone.