Em defesa das causas perdidas
quinta-feira, 30 de julho de 2026
OS HOMENS SÃO ONÍVOROS
(por Antonio Samarone)
Há 500 mil anos, o homem dominou do fogo e iniciou a gastronomia. A Mesopotâmia inventou a cozinha. Itabaiana aperfeiçoou.
No próximo final de semana (02/08), Itabaiana será a capital da fé e da comilança. A tradicional peregrinação de Santa Dulce dos Pobres (a maior do Nordeste) e o Festival de Gastronomia. O festival é uma iniciativa da Prefeitura, sob o comando de Lucas Moura, Secretário da Industria, Comercio e Turismo.
Gastronomia é cultura. O que se come e a forma como se come são específicos de cada sociedade. Muitas vezes, definem as raízes de cada povo. As preferencias alimentares são transmitidas de geração em geração. Gosta-se do que se comeu na infância.
Antes de ser caminhoneiro e comerciante, o Itabaianense foi curraleiro (criou gado), plantou algodão e produziu a melhor farinha do Brasil. Onde quer que seja produzida, a marca é farinha de Itabaiana.
Comer e beber são as principais formas de se festejar. Comilança é uma festa coletiva, que os deuses gregos chamavam de banquete.
Itabaiana vai realizar uma nova “Festa de Babette”, um filme dinamarquês de 1987, onde o centro do enredo é uma grande comilança. O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Em Itabaiana come-se muito e bem. A obesidade média é visível. O principal prato é a carne, no café da manhã, almoço e janta. Há uma crença, que só a carne dar sustança. São as raízes dos curraleiros. Talvez Itabaiana seja a cidade onde a promessa de Lula foi cumprida. Vá no Espetinho do Patola, e como picanha à vontade, com preços populares.
Outra marca cultural da gastronomia em Itabaiana: os comensais comem fora, coletivamente, celebrando a vida. Comer junto fortalece as amizades.
A cidade possui mais de 150 restaurantes, todos cheios. As quatro grandes churrascarias na BR (Carrasco, Riacho Doce, João de Neco e Domício), oferecem 4 mil assentos, todos ocupados nos finais de semana.
Em Itabaiana não se passa fome. É fome zero! Não se nega um prato de comida. O mandamento bíblico é cumprido. “Porque tive fome, e me deste de comer; tive sede, e me deste de beber; era estrangeiro, e me acolheste.” Mateus 25:35 “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos.” Lucas 14:13
Em minha infância, próximo ao meio-dia, os insanos lotavam a porta de Tonho de Rosária, um rico empresário da cidade. Todos comiam. Durval do Açucar distribuía “bolsa família”. Não cito os vivos, para não tirar a força da caridade.
O Chiara parece a noite paulista. Dezenas de restaurante finos, bom atendimento e boa comida. Me lembrei do Tempero do Sertão. A partir das sextas, é comum se ficar esperando vagas.
Até os Self Services são sofisticados. O restaurante “A filha de Maria Minha”, tem uma decoração com fotos antigas da cidade.
As barracas e quiosques mais simples, compensam no tempero e no preço. Existem opções para todo mundo.
O supermercado Nunes Peixoto, na Praça de Santa Cruz, possui um restaurante popular. A fila começas as 6 da manhã, na porta, antes de abrir, e só encerra as 21 horas, quando fecha. Muita gente deixou de fazer feira. É mais barato comer fora.
A iniciativa da Prefeitura em organizar um festival gastronômico atende a uma demanda. Tenho amigos em Aracaju, que aos domingos, o principal programa é ir comer em Itabaiana. Voltam de pança cheia e satisfeitos.
É o Turismo da Gulodice. A classe média do Agreste lota os restaurantes. O Festival Itabaianense de Gastronomia é uma novidade bem-vinda.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana)
quarta-feira, 29 de julho de 2026
A ERMIDA DE SANTA DULCE, AO PÉ DA SERRA.
As trilhas religiosas se espalharam em Sergipe. A devoção por Santa Dulce, em Itabaiana, escolheu um local sagrado para construir a Capela. Simples, bela, afastada da urbe, ao lado de um santuário natural, o Parque do Falcões.
O Parque é um espaço de conservação das aves de rapina, único na América Latina, inspiração de José Percílio Mendoça Costa, um homem dedicado a vida e a natureza. Um Eremita! Santa Dulce entendeu que a capela deveria ser uma Ermida. E assim foi feito. O local já era sagrado.
Venha conferir no domingo. A trilha é de 13 km, do local do primeiro milagre, ao pé da grande Serra, onde está a Ermida. A primeira graça, todos conseguem, o cansaço desaparece. No caminho, ocorre uma grande confraternização. Um espetáculo de fraternidade.
Para não assustar as pessoas de pouca fé, existe uma trilha menor, com 3 km, saindo do Rio das Pedras. Como uma atração, passa na capela de São Francisco e na chácara de Grampão, um eremita laico.
Estudos recentes, provam que as orações nessa Ermida de Santa Dulce, ao pé dessa Serra, elevam a imunidade, aliviam depressões e ansiedades, consolam os aflitos e amenizam os sofrimentos.
Quem é ateu e viu milagres como Eu...
Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, chegou em Sergipe, em 08 de fevereiro de 1933, aos 18 anos. Aqui ela recebeu o hábito, em 13 de agosto, e entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Em homenagem a sua mãe, recebeu o nome de irmã Dulce.
Não é demais inferir que Maria Rita é baiana e a Irmã Dulce sergipana. Irmã Dulce permaneceu em Sergipe, por um ano e cinco meses.
O seu primeiro milagre foi em Itabaiana, na Maternidade São José. Em janeiro de 2001, Claudia Cristiane dos Santos, deu a luz ao seu segundo filho. Claudia sofreu uma intensa hemorragia pós parto. Desenganada pelos médicos, apelou para a Irmã Dulce. O milagre aconteceu.
Em 2010, o Papa Bento XVI assinou o decreto reconhecendo o milagre. Em 2011, a Irmã Dulce foi beatificada. Em 2019, o Papa Francisco canonizou a Irmã Dulce. Nesse ano, ocorreu a primeira peregrinação em Itabaiana, saindo da maternidade, onde aconteceu o milagre, até o pé da serra, onde foi construída uma ermida. Na chegada foi celebrada uma missa campal. São 13 Km.
Em 2020 e 2021, a peregrinação foi interrompida, por conta da pandemia de Covid. A partir de 2023, ela vem ocorrendo regularmente, no primeiro domingo de agosto. Itabaiana se transformou na Cidade dos Milagres de Santa Dulce dos Pobres.
A tradição católica de Itabaiana (vide IBGE), o arquétipo dos milagres de Santo Antonio (o padroeiro) e a religiosidade atávica dos itabaianenses, tornou a adoração a nova Santa uma explosão de fé. Em pouco tempo, foram criadas instituições religiosas voltadas para a caridade e orações.
As mais relevantes: a Casa de Santa Dulce dos Pobres, voltada para assistencial social; a Paroquia Santa Clara e Santa Dulce dos Pobres; a Ermida de Santa Dulce, ao pé da Serra, ao lado do Parque dos Falcões; Casa de Acolhimento Santa Dulce. Atualmente, com 97 acolhidos.
Para a maioria dos itabaianenses, cada graça alcançada é um milagre. É regra atribuir aos milagres a solução de casos tidos com insolúveis. Mesmo em pequenas ocorrências. Por exemplo: uma criança atravessa descuidada uma rua, no momento, passa um veículo em velocidade. Não acontece nada com a criança. Qual o comentário geral dos circunstantes: não morreu por milagre.
O milagre é a causa de proteção de todos as ocorrências relevantes: uma desgraça, um risco de acidente, a cura de uma doença, um desejo alcançado. É considerado milagre, tudo o que poderia ter acontecido e não ocorre, por razões desconhecidas. Não há dúvidas, houve a intercessão de uma força superior.
Esses devotos de Santa Dulce, em Itabaiana, sonham com a construção de uma Santuário. Deus sabe o tempo certo.
Santa Dulce tem outra ligação com Itabaiana. Segundo o pesquisador Robério Santos, a Irmã Dulce possuía uma sanfona e, em uma visita ao presidio Engenho da Conceição, na Bahia, ela encontrou o cangaceiro Volta Seca (Itabaianense) e cantaram juntos “mulher rendeira”. Nasceu uma amizade.
No próximo Domingo, 02 de agosto, teremos uma nova peregrinação de Santa Dulce em Itabaiana. Os que sobraram da famosa Expedição Serigy, sairão dos sofás, divãs, esteiras e almofadas, e marcharão com cajado, cantil, botas e coragem, sob o comando do eterno ambientalista Antonio Leite. Isso mesmo, o famoso dono e fundador do bloco caranguejo elétrico, nascido e criado tomando água da Mata do Junco.
Itabaiana respira Santa Dulce. Tudo pronto para a peregrinação.
Santa Dulce dos Pobres faleceu em Salvador, à 13 de março de 1992, aos 78 anos.
Antonio Samarone – Eremita urbano.
terça-feira, 28 de julho de 2026
LOUVAÇÃO A AUGUSTO LEITE
(por Antonio Samarone)
Numa solenidade memorável, as entidades médicas e academias de letras, fizeram uma homenagem ao centenário do Hospital de Cirurgia, saudando o seu fundador, Augusto César Leite.
Auditório Cheio. A atual direção do hospital convidada. Vários familiares de Augusto Leite presentes (Walter Franco, Clara Leite...). Augusto Leite fundou e dirigiu a SOMESE por 10 anos.
O Dr. José Teles de Mendonça fez uma conferência, sobre as idas e vindas do Cirurgia. O presidente da ASL, magistrado José Anderson do Nascimento, esclareceu que na fundação da Academia, os membros escolhiam os seus Patronos. Augusto Leite, membro fundador, escolheu o Dr. José Lourenço Magalhaes.
Senti uma certa perplexidade no auditório: quem seria o tal Dr. José Lourenço de Magalhaes?
Na segunda metade do Século XIX, houve uma diáspora de médicos sergipanos. As elites locais mandavam os seus filhos estudarem medicina na Bahia e no Rio de janeiro. Quando retornavam, os doutores não encontravam mercado de trabalho no pobre e pequeno Sergipe. Migravam para o Sul. Muitos se destacaram, fizeram história.
Sergipe já exportou cérebros, especialistas, gente culta e pensante. Um dos maiores: Dr. José Lourenço de Magalhães, que dava nome ao antigo Leprosário do Bairro Vermelho, em Aracaju.
José Lourenço de Magalhaes (1831 – 1905), nasceu na Estância, em 11 de setembro de 1831. Filho do rico comerciante Português Romão Lourenço de Magalhães e D. Antônia Isabel Fernandes.
José Lourenco casou-se com D. Luísa Fernades de Magalhaes e tiveram dois filhos, ambos médicos:
José Fernandes de Magalhaes, nascido em Estância, em 23 de outubro 1861. Aos três anos, vai morar com o avô Romão, em Portugal. Formou-se em Coimbra. Tornou-se professor na Faculdade de Medicina do Porto.
Eduardo Fernandes de Magalhaes, nascido em Estância, em 16 de fevereiro de 1866. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro. Tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina.
O nosso personagem, José Lourenço de Magalhaes formou-se na velha faculdade de medicina, do Terreiro de Jesus, em 1856, defendendo a Tese inaugural “Como reconhecer que o cadáver que morreu de afogamento”.
José Lourenço retornou a Sergipe. Foi clinicar em Estância e depois em Laranjeiras. No início, exercia a oftalmologia. A sua curiosidade científica foi precoce. Em 1864, publicou na Gazeta Médica da Bahia, “Correção cirúrgica da Ectopia”.
Após o seu retorno, José Lourenço viveu em Sergipe até 1868. Participou ativamente do combate aos surtos de Cólera de 1862/63. Durante a grande epidemia de 1855, ele ajudou como estudante.
José Lourenço exerceu cargos políticos em sua terra natal: delegado de polícia em Estância, delegado de saúde e Deputado da Assembleia Provincial, por quatro legislaturas (1862 – 1869), chegando a ocupar a presidência.
Sergipe tornou-se pequeno. José Lourenço resolveu emigrar para o Sul, estabelecendo-se primeiro em Salvador. A Bahia era um centro de pesquisas médicas, onde vicejava a Escola Tropicalista Baiana. Talvez aí, nasceu o seu interesse pela Lepra.
No Sul (Rio e São Paulo), a sua fama como leprologista se difundiu. O pesquisador José Lourenço de Magalhaes publicou obras importantes: “a morfeia no Brasil” (1882), a curabilidade da morfeia (1855).
José Lourenço de Magalhaes não aceitava a etiologia bacteriológica da Lepra. Mesmo com a descoberta da Mycobactérium leprae já tendo ocorrido, em 1873, pelo norueguês Gerhard Amauer Hanse. Lourenço não considerava a lepra um doença contagiosa.
A segunda divergência de Lourenço: ele considerava a lepra curável e afirmava ter o método de cura. Só que ele não revelava. Ele testou o seu método de tratamento no Hospital dos Lázaros, no Bairro São Cristóvão, em 1878. Afirmava bons resultados, mesmo sem nunca tendo divulgado claramente os segredos da cura.
Ele criou, com recursos próprios, o Instituto Lourenço de Magalhães, em Cascadura, zona rural do Rio de Janeiro, para demonstrar a sua tese. O tratamento consistia em higiene pessoal rigorosa, fortalecer o organismo com dietas especais e repouso, e um medicamento, cuja a fórmula ele morreu sem divulgar.
A sua batalha decisiva deu-se em Berlim, durante a 1ª Conferência Internacional sobre a lepra, entre 11 e 16 de outubro de 1897. Lá estavam a nata do comunidade científica, inclusive o descobridor da bactéria, que no evento, foi batizada de bacilo de Hanse.
José Lourenço não foi a Berlim para ouvir, ele levou as suas convicções prontas: a lepra não é contagiosa e tem cura. Mesmo com autoridade de ex-Presidente da Academia Nacional de Medicina (1895/96), ele foi derrotado! A conferencia reconheceu a etiologia bacteriológica e recomendou o isolamento, como forma de prevenção.
A sua reputação continuou alta no Brasil. José Lourenço de Magalhaes foi o único sergipano a presidir a secular Academia Nacional de Medicina e ter projeção internacional com leprologista. Ele assumiu a Academia como membro titular, em 1885.
Com a derrota na Conferencia de Berlim, José Lourenço mudou-se para São Paulo. Foi diretor do Hospital dos Lázaros de Guapira, bairro de São Paulo, onde hoje é Jaçanã.
José Lourenço faleceu em 23 de novembro de 1905, em São Paulo, aos 74 anos.
Entre os que emigraram, ele foi o maior nome da medicina sergipana na segunda metade do século XIX, e Antonio Militao de Bragança, o maior entre os que permaneceram em Sergipe.
Augusto Leite, escolheu um grande Patrono para a cadeira nº 3, da Academia Sergipana de Letras.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
sábado, 25 de julho de 2026
AS RAÍZES DA HISTÓRIA
(por Antonio Samarone)
A história oral, contada pelos mais velhos, nas rodas de conversa, é a raiz das narrativas comunitárias. Basta ouvi-las com atenção.
Este senhor da foto é Pedro Nila. Uma enciclopédia da vida itabaianense, do dia-a-dia. Um depositário das crenças, valores e modos de vida, da segunda metade do século XX.
Perguntei a Inteligência Artificial (IA), que tudo sabe, quem era Pedro Nila, de Itabaiana. Ela me respondeu que não existia nenhuma pessoa de destaque com esse nome.
Pedro Nila é um remanescente, um arquivo vivo de uma sociedade, que se acabou. Uma fonte preciosa da história que não foi escrita.
Insistir com a IA, numa forma de desafio. Ela revirou as gavetas, e foi no ponto: “Pedro Nila é um conhecido sapateiro do Beco Novo e também jogador do Cantagalo, fazendo parte daquela geração de artesões e esportistas que marcaram a história popular de Itabaiana.”
Betinho de Seu Bebé, estamos perdidos: a IA conhece o povo do Beco Novo. E agora? Vão copiar até as fotos.
Para a IA anotar:
Pedro Nila é Pedro Fraga Rocha, filho de Seu Francisquinho e Dona Nila. Nascido na Rua do Fato, em 29 de julho de 1936. Pedro tem 90 anos, com memória e juízo plenos. Lembra-se de tudo e de todos.
Um esclarecimento a IA: o nome Fato, da Rua, não é o fato contra o qual não há argumentos. O fato da Rua, são as vísceras do boi, o bucho, tripa, bofe, com os quais se faz as buchadas e a dobradinha. Quem cuida do fato não são os açougueiros, nem os magarefes. São as fateiras. O nome da Rua é uma homenagem a elas, que dominavam o logradouro.
Pedro Nila era casado com Josefa, filha do grande Santinho de Nia. O casal teve 6 filhos.
Depois de casado, Pedro domiciliou-se no Beco Novo. Montou a sua tenda, e foi criar a família fazendo sapatos. Um mestre: cortava, costurava e solava. Ele relembra: se me dessem uma folha de papel eu entregava o sapato pronto.
É que sobrava para o menino pobre em Itabaiana, era ser sapateiro (pedreiro, marceneiro, alfaiate, balconista...) e jogar futebol. O capitalismo chegou com os sapatos de fábrica, bonitinhos e ordinários) e os sapateiros foram a falência.
Perguntei a Pedro se ele tinha frequentado a escola e quem foi a sua primeira professora. Ele disse-me que frequentou, mas não lembrava quem foi a professora, nem a escola. Um esquecimento seletivo.
Lembrei-me de papai, que próximo as eleições, treinava desenhando o nome, para ter o voto garantido nas urnas. Não era permitido o voto do analfabeto, e a cidadania para ser exercida exigia a assinatura na lista de votação.
Pedro Nila, aos 90 anos, é uma fonte inesgotável da história de Itabaiana, queira ou não os letrados. Um homem gentil e sorridente, que não se lembra de ter tido inimigos.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
terça-feira, 21 de julho de 2026
A FALTA D'ÁGUA EM SERGIPE
SERGIPE TEM JEITO
domingo, 19 de julho de 2026
A LOUCURA DO DR. JOÃO VIEIRA
A loucura do Dr. João Vieira.
(por Antonio Samarone)
A “loucura” do Dr. João Vieira Leite, um caso tenebroso da medicina, no início do século XX: o tratamento da “loucura” do Dr. João Vieira Leite, médico e Governador de Sergipe (por poucos dias).
O Dr. João Vieira Leite é filho do Coronel Sizenando de Souza Vieira e D. Adelaide Leite Vieira, nascido no engenho São Félix, cidade de Santa Luzia do Itanhy, a 04 de setembro de 1867. Irmão do famoso médico Dr. Berilo Leite, que fez história na Estância.
Dr. João Vieira Leite colou grau em medicina pela Faculdade da Bahia, em 27 de outubro de 1890, defendendo a tese “Apreciação dos métodos operatórios gerais adotados na operação cesariana”.
Em seu retorno a Sergipe, montou a sua clínica na praça da Matriz em Estância, sendo bastante aceito. Foi diretor e grande benfeitor do Hospital Amparo de Maria.
Em Sergipe, entre 1890 e 1901, o Dr. João Vieira teve carreira meteórica, como médico e como político. Um personagem destacado da vida sergipana.
Foi Intendente municipal em Estância (Prefeito), Deputado Estadual nas legislaturas 1894-95, 1896-97, Presidente da Assembleia Legislativa, e nessa condição, Governador de Sergipe por 44 dias, após a deposição de José Calazans (1894).
João Vieira era um homem culto. Fundou o jornal “A Razão”, periódico criado em Estância, Sergipe, pelo médico João Vieira Leite e seu cunhado, o comerciante Augusto Ramos Gomes. O recorte temporal inicia-se em 1898, ano de fundação do periódico, e 1923, ano que corresponde ao início da mudança na estrutura editorial do jornal, impulsionada pelo falecimento de Augusto Gomes. Um jornal voltado para a difusão do iluminismo.
Até quando ocorreu uma grande tragédia: o Dr. João Vieira, ainda moço, com apenas 35 anos, começou a apresentar um comportamento “estranho”, “esquisito”, o que não demorou muito tempo para que a comunidade suspeitasse de que o facultativo estivesse ficando maluco. E nessa condição de louco, foi levado à força, pela família, para o Rio de Janeiro, em busca de tratamento.
O Dr. João Vieira resistiu à ida para o Rio de Janeiro. Não houve acordo. O ex-governador de Sergipe foi apeado numa camisa de força e, sob intensa violência, embarcado para a sua última viagem.
Durante a viagem, que durava de cinco a oito dias, o Dr. João Vieira foi enclausurado num apertado compartimento do “Vapor Manaus”, da Cia. Esperança Marítima”, transformado em solitária. João Vieira reagiu à repressão insana.
Após muita violência, tortura física e mental, de bater-se insistentemente com a cabeça nas paredes, de muita luta para libertar-se, muita automutilação. João Vieira, médico, governador de Sergipe, foi abatido pelas práticas psiquiátricas da época.
Em 21 de janeiro de 1902, nas proximidades do porto de Vitória, no Espírito Santo, antes de chegar ao seu destino no Rio de Janeiro, o Dr. João Vieira não resistiu aos sofrimentos e faleceu de forma absurda, resistindo à violência da internação e lutando por liberdade.
O grande Epifânio Dória, em suas efemérides, cita a morte do Dr. João Vieira, omitindo a violência, a suposta loucura e o internamento forçado. Epifânio limita-se a dizer que ele faleceu de uma enfermidade grave. Claro, Epifânio conhecia o triste episódio, mas omite.
Dr. João Vieira Leite, um esquecido mártir da psiquiatria.
Antonio Samarone (médico sanitarista)





