terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FERREIROS E FOGUETEIROS

Ferreiros e Fogueteiros.
Por Antonio Samarone.

Parodiando Manuel Bandeira: “Vou-me embora para Itabaiana/ Andarei de bicicleta/ Montarei em burro brabo/ Subirei no pau-de-sebo/ Tomarei banhos de rio!/ E quando estiver cansado/ Deito na beira do rio Jacarecica e chamo a mãe - d’água/ Pra me contar as histórias/ Que no tempo de eu menino/ mamãe me contava.”

Em 1808, Napoleão enxotou a Família Real e 15 mil Nobres e Fidalgos, para o Brasil. Portugal foi abandonado, por sua elite. O povo emigrou logo em seguida. Entre 1836 e 1890, quase 400 mil portugueses deixaram o país, a absoluta maioria, procurando o Brasil.

A transferência da Coorte para o Brasil e o empobrecimento de Portugal levaram a uma onda massiva de imigração para o Brasil.

O ferreiro João José de Oliveira, natural do Minho, Norte de Portugal, vizinho da Galícia, embarcou nessas caravanas. Ele chegou a Maithapan, passando por São Cristóvão, com a sua bigorna de ferro meteorito e um fole surrado, por volta de 1849.

Era um pequeno proprietário rural pobre, rude, originário do norte de Portugal, da região do Minho. Sabia ler e escrever. O ferreiro João José de Oliveira, ao desembarcar no Porto da Bahia, vestia polaina de Saragoça, calção e colete de baetão, encarnados, com seus corações e meias.

O Ferreiro era um ofício mágico, que manipula o ferro e o fogo. Todo o ferro primitivo vinha dos meteoritos, oriundos do "alto", do Céu, por isso, compartiam a sacralidade celeste.

João José desembarcou com um pau às costas, duas réstias de cebolas, e outras tantas de alhos, e uma trouxinha de pano de linho debaixo do braço. Eram os seus pertencem. Chegou sem cabedal.

Os ferreiros primitivos trabalharam apenas o ferro meteórico, muito tempo antes de aprenderem a utilizar os minerais ferros os encontrados à flor da terra. A fusão dos metais era desconhecida.

João José trouxe um facão de ferro meteorito, perdido com o tempo, pelo desconhecimento de sua importância. Eu cheguei a ver esse facão, na Tenda de Pai Totonho.

Quando Cortês perguntou aos chefes astecas de onde tiravam as suas facas - eles lhe apontaram o céu. Como os maias do Iucatã e os incas do Peru, os astecas só se serviam do ferro meteórico: é por esse motivo que lhe davam mais valor do que ao ouro.

João José chegou a Maithapõa com uma bigorna de ferro meteórico, metal do céu, que se mantém em condições de uso. Ouvia-se a esplêndida sonoridade da sua bigorna, às léguas de lonjura.

Ao contrário da metalurgia do cobre e do bronze, a do ferro não tardou a tornar-se industrial. Uma vez descoberto, ou aprendido, o segredo de fundir a magnetita ou a hematita, não se teve dificuldade em conseguir abundância de metal, porque as jazidas eram muito ricas e bastante fáceis de explorar.

Ao lado da sacralidade celeste, imanente aos meteoritos, estamos agora em presença da sacralidade telúrica, de que participam as minas e os minerais.

O ferreiro é, antes de tudo, um trabalhador do ferro, e a sua condição de nômade - uma vez que ele se desloca continuamente à procura do metal bruto e de encomenda de trabalho - leva-o a entrar em contato com diferentes populações.

João José de Oliveira, esbarrou na Maithapan. O ferreiro é o principal agente de difusão de mitologias, ritos e mistérios metalúrgicos.

As ferramentas dos ferreiros participam igualmente da sacralidade. O martelo, o fole, a bigorna apresentam-se como seres animados e miraculosos: gozam da reputação de poder operar por sua própria força mágico-religiosa, sem a ajuda do ferreiro.

Faz todo sentido, quanto também se chama de fole, a sanfona de oito baixos.

O alquimista, tal como o ferreiro, e, antes dele, o oleiro, é um "senhor do fogo". É pelo fogo que ele opera a passagem da matéria de um estado a outro.

Tal como os xamãs, também os ferreiros são tidos como "senhores do fogo". Dessa maneira, o ferreiro é considerado, em certas zonas culturais, como igual ou até superior ao xamã. "Ferreiros e xamãs vêm do mesmo ninho", diz um provérbio chinês.

Zentonho Ferreiro, o caçula de João José, cauteriza uma ferida braba, em sua perna, com o ferro quente, saído diretamente da sua forja.

A mulher de um xamã é respeitável; a de um ferreiro é venerável. O primeiro ferreiro, o primeiro xamã e o primeiro oleiro eram irmãos de sangue. O ferreiro era o mais velho e o xamã o do meio. Isso explica por que o xamã não pode provocar a morte de um ferreiro."

Os chineses atribuem aos ferreiros o poder de curar por meios naturais, e não com a assistência dos espíritos, como fazem os xamãs.

A cada nove gerações, um ferreiro dispõe de poderes sobrenaturais; já não teme os espíritos e é por isso que ousa forjar os objetos de ferro que adornam o traje do xamã (o ruído do ferro afasta os espíritos).

A forja é venerada como lugar de culto, e onde não existe uma casa especial para as preces e para as assembleias é na forja que se realizam as reuniões.

Os ferreiros ocupavam uma posição social bastante elevada; o seu ofício não era considerado comercial: tratava-se de uma vocação ou de uma transmissão hereditária, que implicava, por conseguinte, segredos iniciatórios.

Os ferreiros são protegidos por espíritos especiais. A sua arte é uma dádiva do "profeta Davi", e é graças a isso que ele tem de ser puro, tanto física quanto espiritualmente.

Essa é a nossa herança.

Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras.

Quem quiser ir fundo, leia “Ferreiros e Alquimistas – Eliade Mircea”, um clássico.
 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O PÉ DO VEADO

O Pé do Veado
(por Antonio Samarone)

A noroeste do município de Itabaiana, vizinho a Moita Bonita, os povoados Pé do Veado, Várzea do Gama, Água Branca e Terra Vermelha possuem as mesmas raízes históricas. Desde a segunda metade do Dezenove, abasteciam parte de Sergipe – Laranjeiras, Maruim, Vale do Cotinguiba, Sertões e a Capital, Aracaju.

São minifúndios produtores de alimentos. Parte desses produtores, eram comerciantes nos finais de semana, muitos com pontos fixos (grades) nos mercados do Aracaju.

O Pé Veado foi a encruzilhada dos tropeiros, que dava o Rumo, para a estrada da Boca da Mata, porta do Sertão e para Roque Mendes, em Riachuelo, onde os produtos passavam para os Saveiros, com destino ao mercado do Aracaju.

A fama de Cidade Celeiro, se deve em boa parte, ao Pé do Veado e adjacências. A produção e distribuição dos alimentos em Sergipe, dependiam de Itabaiana. Hoje, só a distribuição: não se come uma cenoura em Sergipe, sem que ela tenha passado por Itabaiana.

A partir da segunda metade do Século XX, a maioria dos comerciantes, que dominavam a economia serrana e além-fronteiras, foram oriundos da região do grande Pé do Veado.

Como a riqueza passou para o comércio, os políticos (Vicente de Belo, Chico de Miguel, João de Zé de Dona e Valmir de Francisquinho) que emergiram nos últimos 50 anos, em Itabaiana, são da mesma origem econômica e da mesma região.

Um pouco antes, Euclides Paes Mendonça era da Serra do Machado, a época, Itabaiana; e Manoel Teles da Cova da Onça. Todos, comerciantes...

O grande Pé do Veado foi o berço dos políticos, em Itabaiana.
O Pé do Veado, antes, foi uma terra de tropeiros.

O tradicional Cemitério do Rumo, é tomado por pequenas capelas mortuárias (foto), familiares, ainda domina a paisagem do povoado. Aliás, o Pé do Veado, ainda possui um cemitério particular, dos “Peixotos”. Os dois lotados. A Prefeitura está ampliando o Cemitério do Rumo (público).

O Pé do Veado foi a terra de Francisquinho de Nanã, um artista que produzia peças móveis, em movimento: casas de farinha, carros de boi, brinquedos. Um artista, que não pode ser esquecido.

A terra do professor Zé de Bila, um educador sensível e dedicado a comunidade. Terra do “descamisado”, Zé Carlos, que organizou um restaurante típico, exótico, que mesmo com a sua morte, o restaurante continua sendo uma atração.

Soube que, recentemente, faleceu Arnaldo de Tonho de Sabino, o pioneiro do Futebol no povoado. Residia no Rosa Elze, em São Cristóvão, onde tinha um mercadinho.

O Pé do Veado foi o povoado dos políticos e comerciantes. A Maithapan dos intelectuais.

Flechas, Sambaíba e Caraíbas são fronteiras entre duas regiões citadas. Na segunda metade do Dezenove, derrubaram as matas, para plantarem algodão. Como fizeram, os atuais municípios de Ribeirópolis e Frei Paulo, à época, território de Itabaiana Grande.

A Prefeitura de Itabaiana está realizando a pavimentação asfáltica da cidade ao Pé do Veado. Um reconhecimento da força e da importância econômica e cultural da região.

A antiga estrada da Boca da Mata, do Sertão de Canindé, será pavimentada. Se houver criatividade, um roteiro turístico. Trilha dos tropeiros.

A vocação itabaianense pelo transporte vem de longe: dos tropeiros aos caminhoneiros e dos feirantes aos comerciantes. Uma terra de negociantes, gente vocacionada para o empreendedorismo.

A estrada das Flechas levava ao sertão de Canudos, a do Pé do Veado a Boca da Mata (Glória e Canindé). A estrada de São Cristóvão passava no Bairro São Luís, a de Laranjeiras, no Beco Novo e a estada Real – Salvador/Olinda, cruzava Itabaiana de leste ao oeste.

Sem ir muito fundo, a formação do itabaianense, a sua cultura, o seu modo de vida, é um amálgama dos vários povoados e municípios vizinhos. Cada recanto, com os seus modos. Existe uma identidade cultural do Agreste, pouco estudada e pouco valorizada pelos intelectuais da Zona da Mata (Aracaju, Laranjeiras, Japaratuba e São Cristóvão).

O Agreste e o Sertão sergipano não são contemplados pelo política cultural do Estado. Aliás, nunca foram. Os tropeiros do Pé do Veado e os vaqueiros do Sertão são esquecidos pelas Academias.

A Prefeitura de Itabaiana, através da Secretaria Municipal da Cultura, está resgatando parte dessa memória. Ainda não descobri de onde vem o nome, Pé do Veado.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

OS DOCES DA VÁRZEA DO GAMA

Os doces da Várzea do Gama.
(por Antonio Samarone).

A culinária é uma herança cultural.

Em Itabaiana, os bijus e manuês dominam os doces. Uma tradição indígena. Os portugueses enriqueceram com ovos, leite, açúcar e gorduras. Antes, os manuês eram apenas de milho, consumidos nas festas juninas.

Para quem não é daqui, manauê é um tipo de bolo ancestral, sem farinha-do-reino.

No povoado Várzea do Gama, seu Luís e dona Lúcia aperfeiçoaram os manuês, variaram os sabores e odores. Hoje, além do milho, eles produzem manuês de puba, aipim, leite e arroz.

Gente, a culinária nos leva as raízes. Vale a pena, uma visita. A Prefeitura de Itabaiana está asfaltando até o Pé do Veado. É rodar no macio.

Soube que o Governo do Estado vai asfaltar do Pé do Veado a Ribeirópolis. A antiga estrada da Boca da Mata, entra no roteiro turístico da culinária indígena.

Dona Lúcia e Seu Luís são patrimônios da Cultura Itabaianense.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

CRISTÃO NOVO.

Cristão Novo.
(por Antonio Samarone)

Final do século XIX: a vida nas matas de Itabaiana, não era para mofinos. Os Oliveiras, descendentes de João José de Oliveira, cristão novo, do Norte de Portugal, ferreiro de profissão, ocuparam a Maithapan, com fama de forçudos e valentes.

João de Oliveira (João de Benicio) – 88 anos, advogado em Itabaiana por 40 anos, inteligência cortante e fina ironia, descende dos Oliveiras, por pai e mãe. Dona Joana Maria de Oliveira (a mãe) é filha de Benvindo Francisco de Oliveira (famoso pela valentia) e Benício José de Oliveira (o pai), é neto de João José.

Benvindo era o ferreiro mais perverso. Conta-se de boca em boca, que ele foi sepultado num formigueiro, no mourão da cancela do seu sítio, (como vingança, por ele fazer o mesmo com a primeira esposa). Para quem duvida, a sepultara permanece no mesmo local.

João Benicio foi procurador concursado do município de Itabaiana e assessor parlamentar, da Câmara de Vereadores.

A origem judaica dos Oliveiras da Maithapan, não precisa do DNA, tá no semblante. O nariz aquilino é uma marca. (veja a foto). A lenda da origem judaica, do espírito mercantil dos ceboleiros, é mais que uma lenda.

João de Benicio nasceu em 17 de outubro de 1938. Não fez as primeiras letras. Entrou direto no Ginásio. Para se fazer o exame de admissão, bastava uma declaração de apto, prestada por uma professora. Os mestres possuíam fé pública. Ele foi aprovado direto, passou no exame de admissão.

João foi mecânico, na oficina do seu Aniceto. Precisando de tempo para estudar, virou alfaiate, discípulo do mestre Antonio de Lídia. Se tornou um alfaiate disputado.

Entretanto, o sonho de João de Oliveira, era a carreira militar. Dedicou-se a música, aluno do Maestro Antonio Silva. A música era uma senha para a carreira militar. João tocava vários instrumentos.

Quando João se apresentou ao exército, teve uma profunda decepção. Foi dispensado por incompatibilidade física. O peso mínimo exigido para soldado, era de 48 kg. João só pesava 43 kg. Um sonho desfeito por 5 kg.

Antes, João tentou engordar.

Dr. Pedro Garcia Moreno prescreveu uma dieta infalível: rapadura, mel de engenho, tutano, rabada e toucinho de porco. Não deu certo. O doutor chegou a um diagnóstico definitivo: João não engorda, tem carne de carcará.

João tentou ser médico. Fez o vestibular e não passou. Foi o 3º excedente. Deu um grande azar, nesse ano, os vestibulares nos estados tiveram a sua data unificada. Antes, se fazia vários vestibulares, em locais diferentes. Os melhores alunos, passavam para várias faculdades. Sempre se abria vagas em Sergipe.

Sem descuidar dos estudos, João voltou à máquina de costura.
Não sei se por brincadeira, o único advogado da cidade, Bosco de Jubal, resolveu apreender a arte da alfaiataria. Por pirraça, João decidiu ser advogado. Se é concorrência, vamos nessa. João virou advogado.

Além de advogado militante, João foi professor de história, no Murilo Braga, chegando a ser diretor do Colégio Estadual César Leite. João, foi pau para toda obra. Uma boa prosa, culto, engraçado, religioso e competente.

Um homem movido por princípios. João nunca tomou partido na política local. Por circunstâncias, na gestão do Prefeito Filadelfo e Josias, vice, ambos alfaiates, o MDB era tão pequeno em Itabaiana, que João de Benicio chegou a presidência do Partido.

João passou por três casamentos: Marlene, de Pedro Brilhante, Júlia e vive com Maria Tomico Uelda. Tem duas filhas: Telma e Acácia.

Os cristãos novos da Maithapan, além dos Oliveiras, também são Andrades, Teixeiras, Machados e Pereiras. Afirmo, João de Benicio (João de Oliveira), reforça a fama da inteligência dos cristãos novos.

Fiz essa entrevista com João, acompanhado do historiador Almeida Bispo, para que não houvesse distorções. Só a memória refinada das raízes itabaianenses.

Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

APONTAMENTOS MÉDICOS

Apontamentos Médicos.
(por Antonio Samarone)

A primeira instituição médica privada em Sergipe (1963), foi a Clínica Santa Maria, o Hospício de Hercílio Cruz, nas imediações da Rua Acre.

Em 1964, existiam registrados no CRM -SE, cento e poucos médicos. A população sabia o número do telefone e a placa dos carros de todos eles. O prestígio social dos médicos, padres e professores era o prestígio atual dos delegados, juristas e magistrados.

No início da década de 1970, encontravam-se no exercício da medicina, em Aracaju:

1. Instituto de Radiologia Clínica Dr. Itazil Benicio dos Santos – Rua de Lagarto/ Laranjeiras. Dr. José Maria Rodrigues Santos.

2. Clínica Infantil São Domingos Sávio – Av. Ivo do Prado. Hyder Gurgel, Bráulio de Abreu e Josué Duarte.

3. Clínica Santa Lúcia – Rua Campos, 76. Hugo Gurgel, Ciro Tavares e Gileno Lima.

4. Clínica Infantil e de Medicina Preventiva – Parque Olímpio Campos. Paulo Carvalho, Jaci Carvalho, José Lisboa e Ana Andrade.
Entre os médicos que exerciam a medicina liberal, em seus consultórios:

Ginecologia – Albino Figueiredo, Gilvan Rocha e Ildete Soares Caldas (atendiam no Hospital São José).

Ginecologia e obstetrícia – Agnaldo Fonseca, Paulo Emilio, Dalmo Melo, Carlos Melo, Aristóteles Silva e Aldemar Reis.

Ortopedia – Clodoaldo Araruna. Dermatologia – Fedro Portugal. Pneumologia – Paulo Faro. Neurologia – Tarcísio Carneiro Leão.

Doenças das Senhoras – Maria do Céu Pereira Santos.

Cirurgia Plástica – José Olino. Clínica médica – Antonio Garcia e Luís Bosco. Pediatria – Margarida Franco e Simone Matos. Alergia – Walter Cardoso.

Marcos Aurélio Prado Dias – Clínica e Cirurgia. Zulmira Freire Resende – Clínica médica. Álvaro Santana – oftalmologia. Lauro Porto – otorrino; Francisco Rollemberg – Clinica Cirúrgica Urologia:

Eduardo Vital Santos Melo – psicoterapia.

Não sei predizer o futuro da prática médica, nem a sua relação com a Inteligência Artificial.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A TABA DE MATIIAPOAN


 A Taba de Matiiapoan, berço da inteligência.
(por Antonio Samarone)

A polêmica começa com o nome, como se escreve? Para Sebrão, o certo é Matiapoan. Fazer o quê? O povo antigo chamava de Maithapã. Matapoã, é o nome oficial. Matapoam?

Quais as origens, dessa comunidade, berço da inteligência ceboleira.

Sebrão, o Sobrinho, enxergou uma origem indígena:

“Às margens do Riacho Canabrava, grandes fogueiras acesas e enormes batuques indicavam reunião do supremo conselho dos chefes das tabas abais, os bravos morubixabas, os príncipes das selvas Boimés...”

“Matu” significa coisa insignificante, pequena; e “apoam” arredondada, gente gorda, sem pescoço, cintura mal formada e enormes batatas das pernas. É a caricatura do povo de lá.

Na metade do século XIX, chegaram os "Oliveiras", ferreiros que trouxeram a arte de Portugal.

O patriarca, João José de Oliveira, cresceu e multiplicou. Gerou os ferreiros. Os "Oliveiras", eram bem formados de feições, gente bonita, atléticos, esbeltos e com uma força física descomunal.

Desentortavam um armador de ferro, com a força das mãos.
Todos os filhos de João José (12), sabiam ler e escrever.

Um povoado rico. Em poucas horas de estadia, Lampião arrecadou 4 vezes mais, que em sua passagem por Capela.

Para evitar esquecimentos, não citarei os seus filhos ilustres. Centenas, milhares...

Faço uma convocação, aos descendentes dos "Oliveiras e Andrades", da Matiapoan. No dia de São José, 19 de março, vamos voltar as raízes, comemorar a saga dos ferreiros. Depois, um almoço por adesão, na carne de sol do Domício.

Na ocasião, a Prefeitura de Itabaiana vai inaugurar uma bela Praça e a pavimentação asfáltica da estrada que liga o povoado a BR – 235.

Antonio Samarone.
(Membro da Academia Itabaianense de Letras)

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A CULTURA DO FUTEBOL


 A Cultura do Futebol
(por Antonio Samarone)

A Itabaiana agrícola, produtora de alimentos, celeiro de Sergipe, predominou na primeira metade do século XX. Uma sociedade rural, isolada, voltada para a economia de subsistência.

Conta-se que o alfaiate Órpilio, dizia que só se interessava pelo que ocorria até o Rio das Pedras. Justificava o Mestre: “Do Rio das Pedras para lá, ninguém nunca me encomendou um terno”.

A política era o caminho para se proteger os amigos e perseguir, de todas as formas, os adversários. A divisão entre os de cima e os de baixo, o nós e o eles. Uma paixão política odienta, era disseminada entre as partes.

No final da década de 1960, as disputas políticas em Itabaiana, terminaram em um banho de sangue. A sociedade, dividida, buscava vingança. A violência encontrou solo fértil. Itabaiana, baixou a cabeça.

No final da década de 1960, um pequeno grupo, refundou o futebol. A Associação Olímpica de Itabaiana, assumiu uma missão: reunificar a cidade. O Itabaiana passou a ser bem mais que um time de futebol, se tornou a cidade de chuteiras.

Na letra do Hino do Itabaiana, Alberto Carvalho deixa isso claro num verso: “Somos Itabaiana, cidade – celeiro!”. O time era a cidade.

O futebol ajudou a cidade dividida, fragmentada, a afirmar-se como uma comunidade única. A invejada autoestima dos itabaianenses, ressurgiu forte e ousada.

O crescimento econômico precisava de confiança, sentimento de grandeza e identidade coletiva. O futebol trouxe tudo isso.

O futebol é uma organização onde as regras valem para todos. Um exemplo para o mundo daquela política, onde a regra eram os privilégios. O futebol proporcionava aos pobres uma esperança de ascensão social.

Para os meninos do Beco Novo, o Tabuleiro dos Caboclos (atual Bairro São Cristóvão), era a Meca do futebol, com vários campos e tabuleiros, onde o futebol era livre. Sonhávamos em sair do buraco da pobreza, e o futebol era um caminho.

Depois descobri que criaram um ginásio em Itabaiana, o Murilo Braga, em 1949. A escola pública era a verdadeira porta, mas invisível. Quando descobri, me danei a estudar. Não sei se a educação, ainda permite esse acesso à cidadania.

A distância da escola pública das profissões socialmente valorizados (padre, juiz e doutor) era imensa. Quando fiz vestibular de medicina, uma tia, tirada a rica, censurou: “Esse menino deveria procurar o lugar dele.”

Me formei, especializei-me no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. No retorno, após 4 anos, um cartola do futebol, em Itabaiana, me perguntou, se eu já estava trabalhando. Respondi que não. Ele foi “generoso”: "se eu quisesse ir treinar no Itabaiana, as portas estariam abertas."

O futebol permitia, ou parecia permitir, uma certa ascensão social, para os talentosos e disciplinados. Não sou Samarone de Batismo, o nome vem da ilusão futebolística. A aliança entre o talento e o desempenho, prometiam conduzir as vitórias.

O menino Gustinho, um humilde engraxate, em pouco tempo passou a ser um atleta admirado na cidade. Os craques do Tabuleiro dos Caboclos, “quase todos Pretos ou quase Pretos”, encontraram as portas do futebol.

A minha memória guardou: Enfinca, Coringa, Zé de Chico, Augusto, Elísio, Dedé, Tonho de Preta, Nado, Zé de Vitinha, Cosme e Damião. Antes, se dizia que Itabaiana não tinha Pretos. O Futebol desmontou essa mentira.

Gente, peço licença para sugerir a leitura de “Pelé, O Negão Planetário”, de Antonio Risério. Uma reflexão sobre o povo brasileiro.

Concluindo, sonhei em ser Pelé, mas quem me salvou foi a Escola Pública.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.