Rafael dos Penicos. (por Antonio Samarone)
Rafael Alves de Menezes, um ceboleiro do Pé do Veado, que ainda pequeno, veio morar na localidade Bom Jardim, próximo ao Riacho da Macela Preta.
Durante a construção do Açude da Macela (1955/58), passou uma estrada em seu sítio de Rafael e ele se mudou para a Rua do Futuro, depois da bodega de Nete.
Uma referência importante, Seu Toti do mingau, que vendia bolo na esquina do armazém de Sizino, era genro de Rafael.
Rafael criou a família consertando penico e guarda-chuva, ofícios extintos pelo desenvolvimento. Ninguém mais usa penico e um guarda-chuva custa 8 reais, no comércio de Itabaiana.
Rafael foi casado com Dona Menininha e tiveram 4 filhas: Maria Conceição Lisboa (esposa de Seu Toti), Maria José, Celina e Zefinha.
O seu neto mais conhecido, Zé de Toti, mora na casa que Rafael morou em Aracaju, no Bairro Matadouro. E se esconde num sítio, na Colônia Miranda, em São Cristóvão.
Rafael era um artista popular de grande repertório. Levou o teatro de bonecos para Itabaiana. Fazia todas as vozes dos personagens. Rafael também era ventrículo.
O Beco Novo parava, durante as apresentações de Rafael dos Penicos. Eu sempre estava na plateia. Permaneço encantado com aquela arte. Quando uma neta de Rafael me mostrou um retrato antigo, depois de 60 anos, a minha memória foi taxativa: É ele...
Rafael foi um palhaço engraçadíssimo. Era falador de leilões: “entreguei, tá entregue! Música...”, celebrava casamento caipira. Nos leilões, se o dono quisesse, ele vendia até a mesa.
Rafael chamava a sua arte de presépio, e carregava tudo numa mala. O genro Zé Itabaiana, era quem carregava a mala. Em Itabaiana, teatro de bonecos ou teatro de fantoches era presépio.
Em Pernambuco o teatro de bonecos é mamulengo, babau na Paraíba, João Redondo no Rio Grande do Norte. Em Itabaiana era presépio. Entenderam a origem da palavra presepada.
Quando os tempos apertavam, Rafael virava rezador. Um curandeiro muito solicitado. Quando ia rezar para a dor de dente, ele perguntava ao paciente: se a reza é só para dor, ou queria a queda do dente. Na segunda opção, o dente caia em menos de 8 dias.
Rafael era um orador consagrado, nos comícios de Euclides. Ele chegava a falar durante 2 horas, se fosse necessário. Sempre de terno, para impor respeito. Rafael se intitulava Dr. Rafael, mesmo sendo analfabeto. Só assinava o nome. Para compensar, era de uma inteligência poderosa.
Rafael era muito querido em Itabaiana.
Uma filha de Zé Crispim, botou o nome da filha Rafaela. Na hora do batizado, o Padre deu parabéns, pelo nome: - “que bela homenagem, a Irmã Rafaela”. A mãe retrucou: - “Padre me desculpe, a homenagem é a Rafael dos Penicos”. A igreja caiu no riso.
Rafael, artista, comunicativo, engraçado, se apaixonou pela política. Era cabo eleitoral de Euclides Paes Mendonça. Daqueles apoiadores chatos, ousados e encrenqueiros.
Na eleição de Governador, em 1963, Rafael falava cobras e lagartos sobre o candidato da oposição, Seixas Dórea. Irritou tanto, que os correligionários de Seixas, prometeram, que se ganhassem, iam jogar Rafael numa coivara para ele queimar a língua. E Seixas ganhou.
Em pouco tempo, mataram Euclides Paes Mendonça. Rafael entrou em desespero. Procurou o amigo, padrinho e protetor desembargador Luiz Magalhães, que tinha sido juiz em Itabaiana e tornara-se seu amigo. Magalhaes não o abandonou. Rafael, em menos de 20 dias, se mudou para Aracaju.
Saiu de Itabaiana corrido.
Rafael continuou com as suas presepadas em Aracaju, no bairro Matadouro, onde foi morar. Ia apresentar a sua arte, onde fosse convidado.
Rafael dos Penicos vive, na memória cultural de Itabaiana.
Antonio Samarone. Secretário Itabaianense de Cultura.






