Em defesa das causas perdidas
quinta-feira, 26 de março de 2026
TREMPE, MOQUÉM E FORNO
Trempe, Moquém e Forno.
(por Antonio Samarone)
A carne é anterior à civilização. Antes da invenção da agricultura (11 mil anos) e da domesticação dos animais, a carne vinha da caça e o homem descobriu o fogo.
O primeiro homicídio bíblico, foi motivado pela carne. Abel era pastor e ofereceu o seu rebanho a Deus. Caim era agricultor e ofereceu os frutos da terra. Deus aceitou a oferenda de Abel e rejeitou a de Caim. O final, todos conhecemos.
Estudos recentes, apontaram a carne, em seus diversos preparos, como a comida típica em Itabaiana. Antes de agricultor, o Itabaianense foi pastor. Montou currais para criação do gado.
O gado chegou ao Brasil em 1533, trazido por Martim Afonso de Souza. Com a chegada do Governo Geral, Garcia D’Àvila, expandiu os seus rebanhos. Em Itabaiana, Simão Dias Francês criava manadas, já ambicionadas pelos holandeses, em 1637.
Os curraleiros de Itabaiana (criadores de gado), armaram uma revolta em 1656, invadiram São Cristóvão e prenderam o padre Sebastião Pedroso de Goes (única autoridade presente), por conta dos elevados tributos.
A celebre sentença de Quincas Borba: “ao vencedor, as batatas”, não satisfaz aos vencedores em Itabaiana, eles querem carne.
Das 200 mil cabeças de gado abatidas legalmente em Sergipe (anuais), 150 mil são em Itabaiana. Itabaiana possui 176 restaurantes ativos, em diversas especialidades, com o amplo domínio das churrascarias e espetinhos. Só na BR – 235, são 4 grandes, com 3.800 lugares.
Tem duas churrascarias na BR, a de Domício e a de João de Neco, que a carne é assada. Uma tradição centenária, herança indígena.
Vamos esclarecer: carne assada e churrasco são formas distintas do preparo da carne.
Os indígenas assavam a carne numa trempe, em cima de um moquém de vara. Em fogo brando, lento, longe das brasas. A carne moqueada, pode ser guardada, para se comer depois. Ela é desidratada e defumada. Por isso a sua cor escura.
O churrasco é uma tradição gaúcha, onde a carne vai às brasas num espeto. Um processo rápido, apressado, sem os segredos do moquém.
A carne assada em Itabaiana, não é churrasco. Primeiro a carne é salgada e fica um tempo no sereno. Depois vai ao moquém (as atuais grelhas). Lentamente vai acentuando-se o gosto. Acho que leva temperos. Um pedaço de picanha assado é divino.
O churrasco de picanha é meia boca, quem dar o sabor é a gordura.
Creio que, como a demanda é muito grande, uma parte desse ritual de se assar a carne, seja simplificado ou até suprimido. Perde-se no sabor e ganha-se na produtividade.
Em resumo: no churrasco, a carne é preparada no espeto; na carne assada o preparo é no moquém (grelha).
A carne assada de João de Neco e Domício, é acompanhada de uma farofa gourmet, cujo segredo é guardado a sete chaves. Eu, quando frequento, como só a carne assada com farofa, dispenso os demais acompanhamentos.
De onde vem essa tradição da carne assada, em Itabaiana?
A receita foi de Dona Judite, esposa de Antonio Magneto. O patriarca João de Neco, apreendeu com a irmã Judite. A esposa de João de Neco, Dona Josefa (ainda viva), era irmã de Dona Arlete, esposa de Seu Domício. A tradição tem as mesmas raízes.
Entenderam?
O prato típico em Itabaiana, sempre foi feijão, farinha e carne, em diversos preparos. A carne fresca, frita, com aquela graxa; o lombo de panela e a carne assada. Eu só conheci arroz e macarrão na adolescência, e não gostei.
Se acredita culturalmente em Itabaiana, que só a carne dar sustança. Menino criado com pão, ensanga.
Antonio Samarone (membro da Academia Itabaianense de Letras)
terça-feira, 24 de março de 2026
AS DUAS MATAPOÃ (S)
As duas Matapoã (s).
(por Antonio Samarone)
O mapa de Itapuama (Itabaiana), dos holandeses Marcgraf e Golliat, de 1646, já registrava a Maithapan. No mapa, está Potaepuã, uma área em torno das Serras dos Picos e das Araras, dos Rios Jacoca e Traíras.
Frei Paulo, Campo do Brito e Macambira não existiam.
A selva dos Boimés, depois Matas de Itabaiana, eram ocupadas pela Taba Matüapoan.
A Maithapan fica na Bacia do Vaza Barris, pois os rios Jacoca, e o das Traíras, são seus afluentes. O jacoca deságua nas imediações da Serra das Araras, e o Rio das Traíras soma-se ao Rio das Pedras, formando a barragem da Cajaíba. (é a mesma barragem do Campo do Brito). Esses dois rios, irmanados, avançam para o Vaza Barris.
O mapa holandês de 1646, também registra a serra de Itapuamuçu (Itabaiana Grande), a Capela de Santo Antonio (igreja velha, no vale do Rio Jacarecica), a propriedade de Simão Dias Francês e a Migueba (Serra da Miaba).
O Mapa dos holandeses (1646) é anterior a Villa de Santo Antonio e Almas. Por dedução, a Maithapan é anterior a Villa de Itabaiana.
A presença significativa dos brancos, na Maithapan, só ocorreu no Século XIX, por conta do algodão. A Guerra Civil Americana (1861 – 65), afetou a produção mundial do algodão. O ouro branco subiu de preço. Sergipe embarcou nessa febre. Chegamos a 50 descaroçadoras, segundo Thetis Nunes.
As matas de Itabaiana (Maithapan, Flechas, Caraíbas, Chã do Jenipapo (Frei Paulo), Saco do Ribeiro (Ribeirópolis), foram pintadas do branco do algodão. Os ferreiros vieram do Norte de Portugal, para produzir as foices e os machados.
Os ferreiros da Maithapan tinham um provérbio profundo, que ouvi do meu avô: “Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram: o cabo é um dos nossos”.
A Maithapan dos ferreiros e plantadores de algodão formaram a raiz espiritual da autoestima itabaianense. Os maitapoenses carregam a fama de inteligentes.
Na Zona de Expansão do Aracaju, formou-se uma nova Matapoã, um bairro de ricos e bem sucedidos, às margens do Rio Vaza Barris.
(por Antonio Samarone)
O mapa de Itapuama (Itabaiana), dos holandeses Marcgraf e Golliat, de 1646, já registrava a Maithapan. No mapa, está Potaepuã, uma área em torno das Serras dos Picos e das Araras, dos Rios Jacoca e Traíras.
Frei Paulo, Campo do Brito e Macambira não existiam.
A selva dos Boimés, depois Matas de Itabaiana, eram ocupadas pela Taba Matüapoan.
A Maithapan fica na Bacia do Vaza Barris, pois os rios Jacoca, e o das Traíras, são seus afluentes. O jacoca deságua nas imediações da Serra das Araras, e o Rio das Traíras soma-se ao Rio das Pedras, formando a barragem da Cajaíba. (é a mesma barragem do Campo do Brito). Esses dois rios, irmanados, avançam para o Vaza Barris.
O mapa holandês de 1646, também registra a serra de Itapuamuçu (Itabaiana Grande), a Capela de Santo Antonio (igreja velha, no vale do Rio Jacarecica), a propriedade de Simão Dias Francês e a Migueba (Serra da Miaba).
O Mapa dos holandeses (1646) é anterior a Villa de Santo Antonio e Almas. Por dedução, a Maithapan é anterior a Villa de Itabaiana.
A presença significativa dos brancos, na Maithapan, só ocorreu no Século XIX, por conta do algodão. A Guerra Civil Americana (1861 – 65), afetou a produção mundial do algodão. O ouro branco subiu de preço. Sergipe embarcou nessa febre. Chegamos a 50 descaroçadoras, segundo Thetis Nunes.
As matas de Itabaiana (Maithapan, Flechas, Caraíbas, Chã do Jenipapo (Frei Paulo), Saco do Ribeiro (Ribeirópolis), foram pintadas do branco do algodão. Os ferreiros vieram do Norte de Portugal, para produzir as foices e os machados.
Os ferreiros da Maithapan tinham um provérbio profundo, que ouvi do meu avô: “Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram: o cabo é um dos nossos”.
A Maithapan dos ferreiros e plantadores de algodão formaram a raiz espiritual da autoestima itabaianense. Os maitapoenses carregam a fama de inteligentes.
Na Zona de Expansão do Aracaju, formou-se uma nova Matapoã, um bairro de ricos e bem sucedidos, às margens do Rio Vaza Barris.
Os Gordinhos da Norcon (Luiz e Tarcísio Teixeira, filhos de Oviedo e netos de Dona Caçula), compraram um sítio às margens do Vaza Barris e, em homenagem a suas raízes, o denominaram de Sítio Matapoã (Maithapan).
As duas Matapoã (s) ficam na bacia do Vaza Barris. O nome do sítio dos Teixeira, tornou-se o nome de uma região (hoje, bairro). O prestígio dos Teixeiras, deram o nome do seu sítio, a um novo bairro. O povo adotou o nome.
A ligação fluvial tornou-se afetiva, memorial e histórica.
As duas Maithapan ficam na Bacia do Vaza Barris e são raízes da memória sergipana.
Parodiando Gonzaga: “o rio das Traíras corre para o Rio das Pedras, o Rio das Pedras corre para o Vaza Barris e o Vaza vai bater no meio do mar.”,
Antonio Samarone.
sexta-feira, 20 de março de 2026
UM DESERTO DE SOLIDÃO
Um deserto de solidão.
(por Antonio Samarone)
Seu José Vicente Oliveira, camponês da Sambaíba, completou oitenta anos, sozinho, num quarto quente do Asilo São João de Deus. Uma casa de repouso, onde não se tem sossego.
O ar condicionado do quarto, quebrou há 70 dias. Ele não teve a quem reclamar. Para ser mais preciso, por sabedoria, ele sabe que se reclamar é pior.
O quarto tem um ventilador de teto, barulhento, que deixou de funcionar. A família cobrou um ar condicionado, mesmo usado. No momento encontra-se quebrado.
Os demais abrigados, cinquenta e poucos, quase não se falam. São desconhecidos por opção. Não se suportam. O sonho de cada um é que o outro morra primeiro.
Vicentinho, o filho, meu primo distante, me levou para visitá-lo. Eu fui, mais por curiosidade, do que por compaixão. Queria ver o asilo por dentro, o dia-a-dia.
Vicentinho é um bom filho. No começo, ia visitar o pai semanalmente, depois mensal, e agora, vai raramente, em dias especiais: no aniversário do velho, na páscoa e no Natal.
Na ida, Vicentinho foi me contando os maus tratos, recebidos pelo pai. Mesmo pagando 2 salários e meio mensais. O mais grave era a desatenção dos cuidadores: o pai passava horas, às vezes dias, mijado, sem trocarem a fralda. O cheiro da urina impregnou, virou crônico.
O seu único consolo, um rádio de pilha, usado para amenizar a solidão noturna, foi retirado por orientação da psicóloga. A doutora achou que a insônia era causada pelo rádio, e proibiu.
Também houve uma queixa do quarto vizinho, o rádio tocava alto. Zé Vicente é um ceboleiro, viciado desde menino, em rádio, sobretudo, naqueles programas de música sertaneja.
Zé Vicente adora, quando o radialista da rádio Comunitária de Itabaiana (87.9 – FM), manda uma música para ele, durante a madrugada. Ele renasce por vários dias.
Eu fui me indignando com as histórias de Vicentinho, sobre o tratamento desumanizado, dado ao seu Zé Vicente.
Na chegada, fui logo reclamar na sala da administração, vizinho a cozinha. Senti Vicentinho constrangido, em dúvidas, sobre a conveniência de minha atitude impulsiva.
Tereza, a enfermeira chefe, ao ouvir a minha denúncia emocionada, saiu em defesa do seu serviço e dos seus comandados. Retrucou, maus tratos? Como assim, você vai ter que provar. Não admito, denuncia vazia.
A experiente enfermeira, nos acompanhou até o quarto de seu José Vicente. Já entrou falando alto e com firmeza. “Seu Vicente, quem foi que lhe maltratou?” O velho respondeu espantado: - “Ninguém! Eu aqui eu sou tratado como um Príncipe.”
Vicentinho, o filho, para não passar por mentiroso, tentou avivar a memória do velho: “Papai, e aquilo que o senhor me contou, lembra-se? O pai reagiu: “Eu não lhe contei nada!” A situação foi ficando difícil. Quem estava mentindo?
Tereza deixou o quarto fumaçando, falando pelos cotovelos. Falar é fácil, o difícil é provar!
Quando ficamos a sós, no quarto, José Vicente nos deu uma aula de Sabedoria: “Vicentinho, meu filho, você e o seu amigo são dois irresponsáveis! Depois da visita, vocês vão embora. Eu, ficarei sozinho, isolado, sem forças para reagir a nada.”
Desabafou Vicente: - “Eu, calado, pacientemente agradecido as migalhas de atenção, sou mal atendido. Imaginem, vocês me arrumam uma má querência com os funcionários do asilo e vão embora. Como será o atendimento depois?”
José Vicente, na velhice, retomou a religiosidade da juventude. Na saída, nos contou uma bela passagem do Velho Testamento, que eu desconhecia. O encontro do profeta Elias, com Deus – livro dos Reis 19:11.
“Sai e põe-te de pé no monte, diante do Senhor! Eis que ele vai passar.”
“Houve então um grande furacão, tão violento que rasgava os montes e despedaçava os rochedos diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor não estava no fogo.”
“Finalmente, passado o fogo, percebeu-se o sussurro de uma brisa suave e amena. Quando Elias a percebeu, cobriu o rosto com o manto.”
Verdadeiramente, o velho José Vicente, se preparou para o descanso eterno.
Antonio Samarone.
(por Antonio Samarone)
Seu José Vicente Oliveira, camponês da Sambaíba, completou oitenta anos, sozinho, num quarto quente do Asilo São João de Deus. Uma casa de repouso, onde não se tem sossego.
O ar condicionado do quarto, quebrou há 70 dias. Ele não teve a quem reclamar. Para ser mais preciso, por sabedoria, ele sabe que se reclamar é pior.
O quarto tem um ventilador de teto, barulhento, que deixou de funcionar. A família cobrou um ar condicionado, mesmo usado. No momento encontra-se quebrado.
Os demais abrigados, cinquenta e poucos, quase não se falam. São desconhecidos por opção. Não se suportam. O sonho de cada um é que o outro morra primeiro.
Vicentinho, o filho, meu primo distante, me levou para visitá-lo. Eu fui, mais por curiosidade, do que por compaixão. Queria ver o asilo por dentro, o dia-a-dia.
Vicentinho é um bom filho. No começo, ia visitar o pai semanalmente, depois mensal, e agora, vai raramente, em dias especiais: no aniversário do velho, na páscoa e no Natal.
Na ida, Vicentinho foi me contando os maus tratos, recebidos pelo pai. Mesmo pagando 2 salários e meio mensais. O mais grave era a desatenção dos cuidadores: o pai passava horas, às vezes dias, mijado, sem trocarem a fralda. O cheiro da urina impregnou, virou crônico.
O seu único consolo, um rádio de pilha, usado para amenizar a solidão noturna, foi retirado por orientação da psicóloga. A doutora achou que a insônia era causada pelo rádio, e proibiu.
Também houve uma queixa do quarto vizinho, o rádio tocava alto. Zé Vicente é um ceboleiro, viciado desde menino, em rádio, sobretudo, naqueles programas de música sertaneja.
Zé Vicente adora, quando o radialista da rádio Comunitária de Itabaiana (87.9 – FM), manda uma música para ele, durante a madrugada. Ele renasce por vários dias.
Eu fui me indignando com as histórias de Vicentinho, sobre o tratamento desumanizado, dado ao seu Zé Vicente.
Na chegada, fui logo reclamar na sala da administração, vizinho a cozinha. Senti Vicentinho constrangido, em dúvidas, sobre a conveniência de minha atitude impulsiva.
Tereza, a enfermeira chefe, ao ouvir a minha denúncia emocionada, saiu em defesa do seu serviço e dos seus comandados. Retrucou, maus tratos? Como assim, você vai ter que provar. Não admito, denuncia vazia.
A experiente enfermeira, nos acompanhou até o quarto de seu José Vicente. Já entrou falando alto e com firmeza. “Seu Vicente, quem foi que lhe maltratou?” O velho respondeu espantado: - “Ninguém! Eu aqui eu sou tratado como um Príncipe.”
Vicentinho, o filho, para não passar por mentiroso, tentou avivar a memória do velho: “Papai, e aquilo que o senhor me contou, lembra-se? O pai reagiu: “Eu não lhe contei nada!” A situação foi ficando difícil. Quem estava mentindo?
Tereza deixou o quarto fumaçando, falando pelos cotovelos. Falar é fácil, o difícil é provar!
Quando ficamos a sós, no quarto, José Vicente nos deu uma aula de Sabedoria: “Vicentinho, meu filho, você e o seu amigo são dois irresponsáveis! Depois da visita, vocês vão embora. Eu, ficarei sozinho, isolado, sem forças para reagir a nada.”
Desabafou Vicente: - “Eu, calado, pacientemente agradecido as migalhas de atenção, sou mal atendido. Imaginem, vocês me arrumam uma má querência com os funcionários do asilo e vão embora. Como será o atendimento depois?”
José Vicente, na velhice, retomou a religiosidade da juventude. Na saída, nos contou uma bela passagem do Velho Testamento, que eu desconhecia. O encontro do profeta Elias, com Deus – livro dos Reis 19:11.
“Sai e põe-te de pé no monte, diante do Senhor! Eis que ele vai passar.”
“Houve então um grande furacão, tão violento que rasgava os montes e despedaçava os rochedos diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor não estava no fogo.”
“Finalmente, passado o fogo, percebeu-se o sussurro de uma brisa suave e amena. Quando Elias a percebeu, cobriu o rosto com o manto.”
Verdadeiramente, o velho José Vicente, se preparou para o descanso eterno.
Antonio Samarone.
domingo, 15 de março de 2026
O DIREITO A DENTADURA
O Direito a Dentadura...
(por Antonio Samarone)
Recebi um vídeo, onde, o Presidente da República, solenemente, distribuí dentaduras. O Ministro da Saúde, sorridente, anunciou aos microfones: “quero chamar a senhora, fulana de tal, para receber a sua prótese, das mãos do Presidente.”
O que fizeram com o SUS e com a sua política de Saúde Bucal?
Como militante da reforma sanitária, sanitarista e ex-professor de Saúde Pública, sinto-me com o direito ao espanto.
Eu alcancei as dentaduras sendo vendidas nas Feiras, dentro de arupembas. Os clientes banguelos, iam experimentando, olhando-se no espelho, até encontrar uma que lhe agradasse.
O protético, um empreendedor, orientava aos clientes: se ficar folgada, use corega, que aperta; se ficar apertada, coloque-a num copo com água, na hora de dormir, que ela folga.
Itabaiana admirava a arte do doutor Olavo. As suas dentaduras pereciam um teclado de piano, dentes largos e alvos. O sorriso com a dentadura de Olavo era inconfundível. As dentaduras de Olavo eram obras de arte.
Sem dúvidas, Olavo foi um talentoso artista plástico, hoje, uma dentadura dessas vale uma fortuna. Uma modesta perereca usada, com a marca de Olavo, foi recentemente vendida por 2 mil reais.
Olavo, como todo artista, assinava as suas dentaduras. Dava garantias, até se acabar.
Hoje, Olavo estava perdido. As dentaduras são feitas pela inteligência artificial, impressas em 4D, em fino silicone. Já saem na conta, nem mais, nem menos. Ficam prontas, em questão de minutos.
Lula distribuindo essas dentaduras ao eleitorado, produzidas em série, lembrou-me de um Vereador antigo, que nunca perdeu uma eleição. A sua campanha era centrada na distribuição de dentaduras. Sem limites. A justiça eleitoral nunca apurou os gastos, com essas dentaduras. Era um mistério.
Um Promotor recém-chegado, com fama de intransigente, resolveu abrir inquérito para apurar a gastança do Vereador, com as dentaduras eleitorais. A Polícia Federal foi convocada. No depoimento, o Vereador nada escondeu. Ele provou a origem lícita das próteses.
Ele informou que fez um convênio com a maior funerária da cidade, que, mensalmente, lhe repassava as próteses retiradas dos defuntos.
O dono da funerária confirmou o convênio. Onde já se viu, enterrar alguém com uma peça valiosa na boca? Além dos anéis e brincos, as dentaduras são objetos desejados.
O Vereador deixou o Promotor sem graça, a lei eleitoral não proibia. Uma brecha. As dentaduras eram gratuitas. Bastava lavá-las com água sanitária, deixá-las um tempo dentro da cal e passar um branqueador nos dentes. Ficavam com o sorriso de novas.
Depois do inquérito ter esclarecido a origem das dentaduras, o Vereador nunca mais se elegeu. O preconceito do povo: quando ficaram sabendo a origem, não aceitaram mais as dentaduras dos defuntos.
Os votos desapareceram. O nosso eleitor é esclarecido: dentaduras, só novas...
Antonio Samarone – médico sanitarista.
sábado, 14 de março de 2026
O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DA IGREJA VELHA.
O Sítio Arqueológico da Igreja Velha.
(por Antonio Samarone)
Os escombros da Igreja Velha e a lenda de Santo Antonio Fujão, são as marcas materiais e simbólicas, que sobraram da fundação do Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (1602). Inicio do Século XVII.
Sobre a lenda, um grupo de peregrinos, retomou a trilha de Santo Antonio Fujão- (igreja velha ao pé de quixabeira, no miolo do Tabuleiro de Ayres da Rocha). A lenda ainda é viva.
Sobre a preservação dos escombros da Igreja, algumas providências já foram tomadas.
A semana passada, um prestigiado radialista, da 93.1 FM, cobrou providências, em seu programa matinal: “cadê o secretário de cultura, fala muito e faz pouco”.
Uma verdade: no atacado, dificilmente as ações superam as falas!
No caso da Igreja Velha, uma falta de informação. Já existe o projeto arquitetônico, mas ainda falta a permissão do IPHAN. Vou tentar explicar:
A Lei Municipal nº 2.207, de 10 de julho de 2018, declarou as ruínas da Igreja Velha, patrimônio cultural. Histórico e imaterial de Itabaiana.
O decreto nº 25.668, de 24 de outubro de 2008, tornou o terreno de utilidade pública, para fins de desapropriação. A Prefeitura já desapropriou o terreno, nas cercanias.
Ocorre, que a Igreja Velha é um sítio arqueológico, portanto, sob a jurisdição federal, sob os cuidados IPHAN. Houve uma tentativa de intervenção municipal, sem um parecer do IPHAN, o que foi suspensa.
Já existe um projeto arquitetônico. Entrei em contato com o Superintendente do IPHAN, em Sergipe, o intelectual Luiz Eduardo Oliva, e marcamos uma audiência. A receptividade do órgão federal foi excelente.
A solução do sítio arqueológico da primeira Igreja de Santo Antonio, em Itabaiana, tem tramitado há décadas, pelos órgãos estaduais de Cultura. O processo 0395/2005 – CEC, pedindo o tombamento da Igreja Velha, recebeu um parecer contrário e humilhante, do virtual Conselho Estadual de Cultura.
O relator do processo de tombamento da Igreja Velha, em Itabaiana, o doutor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, concluiu: “manifesto-me contrário ao tombamento das ruínas da antiga Igreja de Santo Antonio, na Zona Rural do Município de Itabaiana.”
Ainda acrescentou, o relator Soutelo:
“O tombamento das ruínas implicaria num ônus, talvez pesado demais, para o Poder Público Estadual, diante da pequena importância do bem para o universo patrimonial do Estado...”
“Para o Estado, com toda a certeza, é muito mais importante reconhecer-se a feira de Itabaiana com bem material da cultura sergipana.” - Soutelo.
O processo não deixou dúvidas: para o Conselho Estadual de Cultura, a Igreja Velha é uma ruína de interesse local, cabendo as iniciativas de conservação, exclusivamente a Prefeitura.
Procurei na relação atual dos bens tombados pelo Estado de Sergipe, e não encontrei a Igreja Velha, de Itabaiana. Pelo visto, o parecer de Soutelo continua valendo. Aliás, de Itabaiana, não encontrei nenhum bem cultural protegido pelo Estado.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
(por Antonio Samarone)
Os escombros da Igreja Velha e a lenda de Santo Antonio Fujão, são as marcas materiais e simbólicas, que sobraram da fundação do Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (1602). Inicio do Século XVII.
Sobre a lenda, um grupo de peregrinos, retomou a trilha de Santo Antonio Fujão- (igreja velha ao pé de quixabeira, no miolo do Tabuleiro de Ayres da Rocha). A lenda ainda é viva.
Sobre a preservação dos escombros da Igreja, algumas providências já foram tomadas.
A semana passada, um prestigiado radialista, da 93.1 FM, cobrou providências, em seu programa matinal: “cadê o secretário de cultura, fala muito e faz pouco”.
Uma verdade: no atacado, dificilmente as ações superam as falas!
No caso da Igreja Velha, uma falta de informação. Já existe o projeto arquitetônico, mas ainda falta a permissão do IPHAN. Vou tentar explicar:
A Lei Municipal nº 2.207, de 10 de julho de 2018, declarou as ruínas da Igreja Velha, patrimônio cultural. Histórico e imaterial de Itabaiana.
O decreto nº 25.668, de 24 de outubro de 2008, tornou o terreno de utilidade pública, para fins de desapropriação. A Prefeitura já desapropriou o terreno, nas cercanias.
Ocorre, que a Igreja Velha é um sítio arqueológico, portanto, sob a jurisdição federal, sob os cuidados IPHAN. Houve uma tentativa de intervenção municipal, sem um parecer do IPHAN, o que foi suspensa.
Já existe um projeto arquitetônico. Entrei em contato com o Superintendente do IPHAN, em Sergipe, o intelectual Luiz Eduardo Oliva, e marcamos uma audiência. A receptividade do órgão federal foi excelente.
A solução do sítio arqueológico da primeira Igreja de Santo Antonio, em Itabaiana, tem tramitado há décadas, pelos órgãos estaduais de Cultura. O processo 0395/2005 – CEC, pedindo o tombamento da Igreja Velha, recebeu um parecer contrário e humilhante, do virtual Conselho Estadual de Cultura.
O relator do processo de tombamento da Igreja Velha, em Itabaiana, o doutor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, concluiu: “manifesto-me contrário ao tombamento das ruínas da antiga Igreja de Santo Antonio, na Zona Rural do Município de Itabaiana.”
Ainda acrescentou, o relator Soutelo:
“O tombamento das ruínas implicaria num ônus, talvez pesado demais, para o Poder Público Estadual, diante da pequena importância do bem para o universo patrimonial do Estado...”
“Para o Estado, com toda a certeza, é muito mais importante reconhecer-se a feira de Itabaiana com bem material da cultura sergipana.” - Soutelo.
O processo não deixou dúvidas: para o Conselho Estadual de Cultura, a Igreja Velha é uma ruína de interesse local, cabendo as iniciativas de conservação, exclusivamente a Prefeitura.
Procurei na relação atual dos bens tombados pelo Estado de Sergipe, e não encontrei a Igreja Velha, de Itabaiana. Pelo visto, o parecer de Soutelo continua valendo. Aliás, de Itabaiana, não encontrei nenhum bem cultural protegido pelo Estado.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
quinta-feira, 12 de março de 2026
A LIGA DOS JUSTOS
A Liga dos Justos...
(por Antonio Samarone)
“Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.” – Drummond.
Lembrei-me da cena final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, onde João das Mortes persegue Corisco, no Sertão de Cocorobó. Entretanto, a revolução foi só no cinema. O Dragão da mal contra o Santo guerreiro. Glauber fascinou até Buñuel.
“Se entrega Corisco, eu não me entrego não. Não me entrego ao Tenente, não entrego ao Capitão, me entrego só na morte, com parabélum na mão.” - O Sertão vai virar mar e o mar virar Sertão.
A sequência mais famosa do cinema mundial é o” massacre na escadaria de Odessa’, no filme Couraçado Potemkin. Eu gosto mais da sequência de Glauber Rocha, nessa cena da morte de Corisco.
Ontem, reuni em lugar ermo, na mais absoluta clandestinidade, com um grupo de amigos quixotescos. A pauta: discutir as saídas, em caso de uma provável invasão do Brasil.
Após muitos discursos, debates e apartes, as teses foram aparecendo: resistência armada (ninguém sabia atirar, nem possuía drone), cavar bunker, para se proteger dos bombardeios; se entregar, sem resistência; se esconder no Raso da Catarina; refundar a Liga dos Justos; pedir asilo na China, na condição de simpatizantes.
Um grupo moderado propôs a neutralidade. A gente nem adere aos Estados Unidos, nem a China. Fica em cima do muro.
Luiz Carlos, filho do Barbeiro Vermelho, hoje evangélico, se lembrou de um trecho bíblico: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados aqueles que escolhem a neutralidade, em tempos de crise.”
Todos ali, um dia, acreditaram que o socialismo venceria. O XX Congresso condenou Stálin, caiu o muro de Berlim e Gorbachev inventou a Perestroika. A história acabou. Eles venceram...
Mas, não foi bem assim.
Para complicar, o problema é que nem a história acabou, nem os Impérios são eternos. Ainda estamos vivos, certos, que o Juízo Final está próximo. O ponteiro se aproxima da meia-noite.
Trump ganhou, e está governando como o lema: America First – Make America Great Again (MAGA). Trump começo a operar, via as tarifas. Depois foram as vias de fatos.
A Venezuela foi presa fácil. A revolução bolivariana de Chaves, que possuía uma população armada, para defender-se, entregou o seu líder e a esposa, na bandeja da covardia. Sem resistir, sem reclamar, entregaram as chaves das refinarias.
A maioria dos países latinos americanos, já passou a escritura. Quando será a vez do Brasil? Essa foi a pauta principal, da tal reunião secreta.
Começou a ficar tarde, e nada de propostas exequíveis. Tudo devaneio. Estávamos diante do colapso da civilização humana, sem saídas. Eu não disse, mas pensei: tem um lado bom. Eu sempre sonhei em assistir ao Juízo Final, pelo menos pela televisão.
Na saída, o velho esquerdista Salomé, líder do Pombal das Virgens, na Atalaia Nova, pediu a palavra: “Raul Seixas tinha uma proposta”. Raul Seixas? Todos perguntaram espantados e incrédulos. Sim, ele gravou até uma música, reforçou Salomé:
“A solução para o nosso povo eu vou dar. A solução é alugar o Brasil. Negócio bom é assim. Nós não vamos pagar nada. O dólar deles paga o nosso mingau. Vamos embora, dar lugar para o Gringo entrar.”
Quem sabe!
Marcamos a próxima reunião, para o Sábado de Aleluia. A luta contínua...
Antonio Samarone.
(por Antonio Samarone)
“Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.” – Drummond.
Lembrei-me da cena final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, onde João das Mortes persegue Corisco, no Sertão de Cocorobó. Entretanto, a revolução foi só no cinema. O Dragão da mal contra o Santo guerreiro. Glauber fascinou até Buñuel.
“Se entrega Corisco, eu não me entrego não. Não me entrego ao Tenente, não entrego ao Capitão, me entrego só na morte, com parabélum na mão.” - O Sertão vai virar mar e o mar virar Sertão.
A sequência mais famosa do cinema mundial é o” massacre na escadaria de Odessa’, no filme Couraçado Potemkin. Eu gosto mais da sequência de Glauber Rocha, nessa cena da morte de Corisco.
Ontem, reuni em lugar ermo, na mais absoluta clandestinidade, com um grupo de amigos quixotescos. A pauta: discutir as saídas, em caso de uma provável invasão do Brasil.
Após muitos discursos, debates e apartes, as teses foram aparecendo: resistência armada (ninguém sabia atirar, nem possuía drone), cavar bunker, para se proteger dos bombardeios; se entregar, sem resistência; se esconder no Raso da Catarina; refundar a Liga dos Justos; pedir asilo na China, na condição de simpatizantes.
Um grupo moderado propôs a neutralidade. A gente nem adere aos Estados Unidos, nem a China. Fica em cima do muro.
Luiz Carlos, filho do Barbeiro Vermelho, hoje evangélico, se lembrou de um trecho bíblico: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados aqueles que escolhem a neutralidade, em tempos de crise.”
Todos ali, um dia, acreditaram que o socialismo venceria. O XX Congresso condenou Stálin, caiu o muro de Berlim e Gorbachev inventou a Perestroika. A história acabou. Eles venceram...
Mas, não foi bem assim.
Para complicar, o problema é que nem a história acabou, nem os Impérios são eternos. Ainda estamos vivos, certos, que o Juízo Final está próximo. O ponteiro se aproxima da meia-noite.
Trump ganhou, e está governando como o lema: America First – Make America Great Again (MAGA). Trump começo a operar, via as tarifas. Depois foram as vias de fatos.
A Venezuela foi presa fácil. A revolução bolivariana de Chaves, que possuía uma população armada, para defender-se, entregou o seu líder e a esposa, na bandeja da covardia. Sem resistir, sem reclamar, entregaram as chaves das refinarias.
A maioria dos países latinos americanos, já passou a escritura. Quando será a vez do Brasil? Essa foi a pauta principal, da tal reunião secreta.
Começou a ficar tarde, e nada de propostas exequíveis. Tudo devaneio. Estávamos diante do colapso da civilização humana, sem saídas. Eu não disse, mas pensei: tem um lado bom. Eu sempre sonhei em assistir ao Juízo Final, pelo menos pela televisão.
Na saída, o velho esquerdista Salomé, líder do Pombal das Virgens, na Atalaia Nova, pediu a palavra: “Raul Seixas tinha uma proposta”. Raul Seixas? Todos perguntaram espantados e incrédulos. Sim, ele gravou até uma música, reforçou Salomé:
“A solução para o nosso povo eu vou dar. A solução é alugar o Brasil. Negócio bom é assim. Nós não vamos pagar nada. O dólar deles paga o nosso mingau. Vamos embora, dar lugar para o Gringo entrar.”
Quem sabe!
Marcamos a próxima reunião, para o Sábado de Aleluia. A luta contínua...
Antonio Samarone.
segunda-feira, 9 de março de 2026
CADA UM É PARA O QUE NASCE?
Cada um é para o que nasce?
(por Antonio Samarone)
Logo cedo, encontrei um velho personagem da boemia itabaianense, esperando a abertura de um escritório de advocacia, na Praça da Igreja, para pedir socorro.
De cara, pressenti a bronca. A desilusão com a espécie humana estava aflorada em seu rosto. Puxei conversa, ele mal balbuciava.
Terminou me contando: a sua aposentadoria foi suspensa, esse mês. Um furo de cinco mil reais apareceu em sua conta, na CEF. Ele não entendeu a explicação do banco. Alguém próximo a ele é o principal suspeito. Ele, no fundo, sabe quem foi quem deu o golpe, mas não admite, nega, sem muita convicção.
Peloco, 86 anos, boa memória, comedido, não se lamente de nada. A vida é boa assim mesmo, ele conclui, apesar da profunda descrença no Ser Humano. Ele quer apenas que a sua modesta aposentadoria seja restabelecida. É a sua única renda.
Peloco, nasceu nas Flechas, em 01 de fevereiro de 1940. Filho de Maria Francisca dos Santos (Nini), mãe avulsa, que lhe abandonou novinho, ainda sem nome. Só foi registrado muito depois, já adulto.
A rua não perdoa. Como se chama um passarinho depenado? Peloco! O batismo dele estava feito.
“Quando, seu moço, nasceu meu rebento/ Não era o momento dele rebentar/ Já foi nascendo com cara de fome/ E eu não tinha nem nome pra lhe dar”. - Chico Buarque.
O Pai, foi um barbeiro famoso, em Itabaiana. Ele sabia que Peloco era seu filho, e vice-versa. Mas ficou por isso mesmo. O menino foi criado por Zezé Machado e Dona Maria, na Rua Nova.
Com a morte do Pai biológico, Peloco nunca reivindicou a sua parte na herança. Não por falta de conselhos: - “peça para fazer os exames de DNA.” Ele nunca se mexeu. “Direito”, para ele, é uma palavra vazia, sem sentido.
Quando precisou dos documentos, para se aposentar, o Tabelião deu-lhe um nome de personagem de Nelson Rodrigues: “Álvaro Maciel”. Até hoje, ninguém sabe o nome cartorial de Peloco. Ele próprio, às vezes se esquece.
Peloco nunca pôs os pés numa escola. Aprendeu tudo o que sabe, com a vida. Viveu de bicos e da esperteza nas casas de jogos de azar. Em Itabaiana, as cafuas eram bem frequentadas. Jogar, beber e fumar são vícios tolerados pela sociedade.
Se criou solto, nas ruas e botecos. Se tornou um temível no carteado. Peloco conhecia as cartas dos baralhos pelas costas. Se dessem o baralho para ele traçar, os demais jogadores só recebiam cartas marcadas.
Se Peloco fosse americano, teria sido um grande crupiê, nos cassinos de Los Angeles, como nasceu em Itabaiana, foi o Barão das Cafuas. Era bom no sinuca, mas longe de Alemão (Dodó), João Criano e Filadelfo de Zezé de Jones.
A vida nunca lhe ofereceu moleza: casa, comida e roupa lavada. Tudo foi incerto, mas ele não se queixa. É assim mesmo, sentencia Peloco: - “o ser humano não presta.” Ele naturalizou os sofrimentos.
Peloco tinha como justificar qualquer caminho, mas permaneceu íntegro. As trapaças nos jogos de azar é parte das regras. Passar um “caga fogo” no dominó é esperteza.
No futebol, Peloco foi o Gerson – canhotinha de ouro das peladas. Ele foi o melhor jogador do Mangueira, da Rua Nova, treinado pelo célebre Josafá Mão de Onça.
Enquanto puxo pela memória, para rabiscar essas mal traçadas linhas, me bateu um peso na consciência: vou acompanhar essa catástrofe financeira de Peloco.
Enquanto as redes sociais espantam-se com os mimos do Banco Master, para os mandarins da República, Álvaro Maciel (Peloco), não tem como fazer a feira.
A sua aposentadoria continua suspensa.
Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras
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