sexta-feira, 1 de maio de 2026
CANTE LÁ, QUE EU CANTO CÁ.
Cante lá, que eu Canto cá.
(por Antonio Samarone).
Madruguei o 1º de maio, encantado com Elis Regina cantando Billy Blanco:
“Não fala com pobre/ não dar mão a preto/ não carrega embrulho/ para que tanta pose doutor/ para que esse orgulho? A bruxa que é cega esbarra na gente/ e a vista estanca/ o infarto lhe pega/ e acaba essa banca.”
Levado pelo vício, abri o Smartphone. O oráculo da pós-verdade.
Abri o WhatsApp, e estava lá, um belo poema de um velho amigo, professor de literatura na Academia. O mestre não recebeu a graça poética. Compensou a falta de talento, com a erudição literária. Doutor em literatura, pela Sorbonne.
Fiquei feliz com o tardio surto poético, do amigo. Um poema perfeito, obedecendo às normas e tradições da poesia. Bem feito e arrumadinho. Li e reli, e nada, nenhuma emoção. A poesia era fria? Não sei... Fiquei acanhado em revelar essa sensação. O novo poeta é meu amigo, e se não fosse, seria falta de educação.
Ele me ligou: - e aí, gostou do poema? Tangenciei, ainda bem, antes tarde... Ele riu: - “Fiz com a ajuda da inteligência artificial.!” Eu fiquei e continuo sem saber o que dizer. Vou mandar o texto lírico para avaliação de Jozailto Lima, um dos últimos poetas naturais, assumido.
Eu sou antigo. Quando me assuntei como gente, já estava no catecismo do Padre Everaldo (o Bode Cheiroso). Fiz a primeira comunhão no dia que completei sete anos. Caiu numa segunda-feira. Era uma promessa de mamãe, que tive que pagar.
Criado no Beco Novo, brincando de roda e cantando uma música francesa: “Je suis pauvre, pauvre, pauvre; pauvre de Marrais d’ issy” (claro, traduzido). As injustiças me levaram a incredulidade. Cheguei às fronteiras do materialismo histórico.
Li François Rabelais (Gargantua e Pantagruel) aos 17 anos. O livro emprestado pelo Padre Antonino, um italiano que ensinou o catecismo tridentino, em Itabaiana. Abracei ao agnosticismo, por ignorância.
Agora, na reta de chegada, me aparece, de forma arrogante, essa que se autodenomina – Inteligência Artificial. A IA é digital, opera com a ponta dos dedos. Estou forra! Não quero conversa.
O pensamento é analógico, afetivo, arrepia a pele, analisa e conceitua. A inteligência artificial são dados e informações. É incapaz de pensar, de captar comoções.
“O pensamento humano é mais do que cálculos e soluções de problemas. Ele clareia o mundo.” – Chul Han.
A IA não pensa, mas pode levar a humanidade a submeter-se, sucumbir, rebaixar as fantasias e formar um rebanho com pensamento único. Se é que já não se formou.
“No homem, a natureza abre os olhos e põe-se a falar, ainda que veja e fale como homem”. – Marx.
Antonio Samarone. Membro da Academia Itabaianense de Letras.
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