segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O CAMINHO DA EDUCAÇÃO


 O caminho da Educação.

(por Antonio Samarone)

O Beco Novo não tinha livros. Em minha casa, não existia nem a bíblia. Nada. Eu desconhecia a sua existência. Fui apresentado a esse artefato cultural, tardiamente, na biblioteca da igreja, num grande salão, onde hoje funciona a secretaria da Paróquia de Santo Antônio e Almas.

Para não cometer injustiça, o filho de Seu Bebé, Benjamim, era o único menino do Beco Novo que lia, cultuava os livros.

Tenho lembranças do ABC, da tabuada e da Cartilha do Povo, de Lourenço Filho. Lembranças dos folhetos de cordel, do meu avô, onde aprendi a ler em carreirinha, sem soletrar. Lia direto. Lia cantando, como se faz com os cordéis.

Mamãe foi professora nas Flechas, sem nunca ter concluído o primário. Sempre cuidou da educação dos filhos. Como as escolas só aceitavam meninos a partir dos sete anos, mamãe contratou uma professora (Marcinha), para me alfabetizar. Já entrei na escola sabendo ler.

Ela tinha consciência da importância da educação. Dizia com firmeza: “você deve a mim a sua formatura.” Papai queria me levar para a roça, para ajudá-lo. Não só botou na escola, como fiscalizava a frequência e o desempenho.

No primário rodei tudo que era escola. Aquelas turmas com todas as series.

A palmatória era o principal recurso pedagógico. Algumas professoras batiam compulsivamente. Castigos cruéis e humilhantes eram aplicados por qualquer besteira.

A escola primária era violenta.

O sofrimento perdurou até o Educandário Cônego Vicente de Jesus (Colégio do Padre), ofertar vagas gratuitas para os filhos dos circulistas. A igreja católica fundou o Círculo Operário, em 1935, coordenado pelo padre João Moreira Lima, para se contrapor a influência do Centro Operário, uma organização ligada aos comunistas.

Filiaram papai no Círculo Operário, mesmo ele sendo um “sem-terra”, arrendatário, pataqueiro e plantador de algodão.

Estudei em numa escola dos ricos, por conta do Círculo Operário. Eu adorava a escola do padre: não batia e ainda tinha merenda escolar. Uns caldeirões com achocolatados. já existia o Toddy, mas eu desconhecia. Conheci chocolate na merenda escolar.

O resto (ginásio e científico), foi no Colégio Estadual Murilo Braga.
No exame de admissão, o professor Gabriel ficou encantado com o meu desembaraço com a leitura. Fui aprovado com louvor.

Sem querer me gabar, não fui um bom aluno, estudioso. Só despertei no científico, quando descobri só existia o caminho educação, para me tirar do buraco social.

O Murilo Braga foi uma escola de cidadania. A farda tornava todos iguais, pelo menos no colégio. O tratamento da diretora, Maria Pereira, era igualitário. Não tinha protegidos. Ali, o critério era a inteligência e o esforço de cada um.

Estudei para ser mais sabido que os outros, por pura competição. Na verdade, o sonho era jogar futebol.

Enfrentei o vestibular sem preparação prévia (pré-vestibular). Estudando à noite e trabalhando pelo dia. Fazer vestibular de quê? Qual era a minha vocação? Não fazia a menor ideia. Mamãe me queria padre. Foi um erro meu, hoje seria um Cônego.

Pensei em medicina pela disputa, eram muitos os candidatos. Fiquei inseguro. fui orientado a entrar primeiro em odontologia, para depois, mais experiente, fazer o vestibular de medicina. Os dois primeiros anos o currículo era o mesmo.

A minha chegada no Beco Novo, de cabeça raspada, foi uma apoteose. Todos os iguais se sentiram comtemplados. “O filho de Elpídio das redes, analfabeto de pai e mãe, vai ser doutor,” disse em voz alta Tonho de Sinhá. Houve comemoração na bodega de Armelindo. Zezito de Dona Bilô, pagou uma rodada de milone.

Depois eu continuo essa prosa.

Antonio Samarone.

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