quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O REENCANTAMENTO DO MUNDO


O Reencantamento do Mundo.
(por Antonio Samarone)

Os ateus convictos, puro-sangue, materialistas, perderam terreno, cederam espaços para os agnósticos, céticos e indiferentes.

O homem, em sua solidão e angústia, desiludido com o humanismo, perdeu a certeza da morte de Deus, tantas vezes proclamada.

Existe uma crise da descrença?

O homem primitivo era ateu ou religioso? Existe incompatibilidade ente a religião e a ciência na explicação do mundo? Essas polêmicas não estão resolvidas.

Para protegermo-nos dos dilúvios e alcançarmos o céu, construímos a Torre. Essa independência foi condenada por Deus, fomos castigados e Babel foi derrotada. Deixamos de falar a mesma língua e houve uma grande desunião entre os homens, que perdura.

O ateísmo é antigo. Quando o Cristianismo chegou, ele já existia. O ateísmo foi uma tentativa do homem em criar sentido para si mesmo.

Em nome da razão, o Iluminismo dessacralizou o mundo, pois fim ao transcendente, ao sobrenatural, trocou a metafísica pela física.

O século XIX tentou substituir o Deus da fé pelo Deus da razão. O homem se tornou um livre pensador. O Existencialismo negou Deus em nome da liberdade.

Nietzsche pregava que a morte de Deus, nos levaria a dois caminhos: um, onde os valores morais e metafísicos ligados às divindades permaneceriam, prevalecendo a moral do escravo, criando-se outras religiões; outro, onde nasceria um super-homem, nada seria verdadeiro e tudo seria possível. O "super-homem" deu no Nazismo.

Voltando a Nietzsche:

“Onde está Deus – gritava ele – eu vos direi! Nós o matamos – vós e eu. Somos todos os assassinos de Deus... O que o mundo possuía de mais sagrado, de mais poderoso, sangrou sob nossos punhais – quem lavará de nós a mancha de sangue? Que festas expiatórias, que jogos sagrados teremos de inventar?”

Entretanto, entramos no século XXI, com o ateísmo em crise. A fé se dispersou numa espiritualidade difusa. Houve um tempo do Pai, um tempo do Filho e agora, estamos no tempo do Espírito Santo. O Cristianismo se fragmentou em centenas de congregações.

No entanto, Deus está vivo!

Nessa ausência de critérios, as igrejas passaram a representar a todos, crentes e descrentes, justos e pecadores, viramos um só rebanho desunido. Finalmente, a Torre de Babel se realizou.

A necessidade do sagrado retornou pela falência do profano, por sua incapacidade em resolver as angústias humanas. A inteligência artificial se afasta do homem.

Acordei essa madrugada com um sonho besta: o profeta Isaias apareceu, esclarecendo a tal mensagem secreta do SARS-CoV-2, o recado da Peste:

“A vida deve ser ressacralizada, mesmo entre os ateus. O lobo e o cordeiro (crentes, descrentes e indiferentes) apascentando juntos (isto eu já sabia). O retorno à vida simples, minimalista, natural, respeitando o meio ambiente.”

O sagrado, o sobrenatural e o divino passarão a ser fontes de uma atitude trans-religiosa.

Essa confusão toda, com milhares de mortos e sequelados, confinamentos, economia paralisada, só para dizer que o desencantamento do mundo foi um erro.

Isso eu também já sabia!

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

A QUARENTENA FEZ BEM AOS VELHOS?


A Quarentena fez bem aos Velhos?
(por Antonio Samarone)

O envelhecimento acelerado da população e o seu modo de vida têm impulsionado o aumento dos quadros demenciais nos Idosos. O que aconteceu com essa tendência, durante o longo isolamento social determinado pela Pandemia?

É indiscutível, o novo corona vírus tem uma especial preferência pelos idosos!

É o envelhecimento um processo natural inevitável? Ele pode ser retardado? Na época antediluviana a Bíblia (que não mente) conta que os patriarcas viviam até 900 anos. Matusalém é o mais conhecido, chegou a 969 anos.

A Enciclopédia Francesa de Diderot (1765), tratava a demência como uma doença que consiste na paralisação do espírito, caracterizada pela abolição da faculdade racional”. “Não há crime quando o acusado está em estado de demência na época do ato alegado” – Código Napoleônico, 1808.

A caduquice dos idosos era assimilada pela sociedade, eram poucos. Em pouco tempo serão maioria. Aos 85 anos, a metade dos idosos apresenta algum grau de demência.

As demências (“demes” = sem mentes) são vistas clinicamente no início do século XX. Antes eram tratadas como caduquice, senilidade, tolice, imbecilidade, pasmaceira, embotamento, estupidez, idiotia, anoia e leseira.

Por volta de 1900, são reconhecidas as formas senis, arterioscleróticas e subcorticais das demências. O uso do modelo anátomo clínico pelos alienistas, mudou a direção dos estudos sobre as demências, eles passaram a procurar a sua base neuropatológica.

Alzheimer, em 1906, demonstrou que a demência decorria da presença de placas e nódulos neuro fibrilares no cérebro, era uma doença, e não uma condição natural do envelhecimento.

Foi um alívio para quem pretendia ficar velho, a demência não era um condenação obrigatória.

Existem vários tipos de demência, A doença de Alzheimer é a mais popular, a mais conhecida, a que mais mete medo. Hoje o nome de Alzheimer é uma palavra familiar. Os mais íntimos chegam a brincar: “cuidado com o alemão”.

Como fatores sociais e psicológicos contribuem para as demências, ainda é pouco estudado. As demências podem ser vistas como uma defesa contra a morte iminente, uma reação válida contra o isolamento e o sofrimento dos velhos.

O longo isolamento dos idosos pode ter preparado uma onda neurológica no pós-Pandemia, como ocorreu com a Gripe Espanhola? Quais as implicações da Peste sobre a doença de Parkinson (Paralysis Agitans)?

É isso, e muito mais, que vamos saber numa LIVE, hoje (29/09), as 18 horas, com o Dr. Roberto César.

Se sabe que o corona vírus, rompeu a barreira hematoencefálica e chegou ao cérebro. Está lá, em sua forma latente, mesmo nos assintomáticos.

O que ele está planejando?

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

domingo, 27 de setembro de 2020

GENTE SERGIPANA - CHICO ROLLEMBERG


Gente Sergipana – Chico Rollemberg (85 anos)
(por Antonio Samarone)

Francisco Guimarães Rollemberg, nasceu em 07 de abril de 1935, em Laranjeiras (SE). Filho de Antônio Valença Rollemberg e de Maria das Dores Guimarães Rollemberg.

Criado no sítio da bisavó, Dona Esmeralda Guimarães, num ambiente religioso. Um menino forjado para ser padre.

Foi para a medicina inspirado em Heráclito Diniz Gonçalves, paradigma do médico ideal, pela sua bondade simples, transbordamento afetivo, solidariedade e espírito de sacrifício.

Passou a primeira infância em Laranjeiras, onde fez os primeiros estudos. Veio à Aracaju para estudar no Colégio Tobias Barreto e no Ateneu Sergipense. Concluiu o científico no Colégio Estadual da Bahia.

Em 1959, formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia.

Retornou à Aracaju onde passou a exercer a medicina de forma humanizada. Dotado de exímio talento cirúrgico, se tornou um cirurgião geral, daqueles que opera de tudo.

Trabalhava diuturnamente servindo ao povo, numa prática desprovida de ambição financeira. Chico Rollemberg não enriqueceu com a medicina, não amealhou fortunas. Manteve uma ligação afetiva com seus pacientes, os quais conhecia nominalmente.

Chico Rollemberg operava sem descanso, não deixava os pacientes esperando por muito tempo. Sempre prestativo. Trabalhava em todos os hospitais de Aracaju, em especial, no antigo Hospital de Santa Isabel.

Francisco Rollemberg tornou-se Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões por concurso, com a brilhante monografia, “Lesão Cirúrgica do Ureter".

Naturalmente, o seu prestígio médico o levou à política. Em 1970, foi o Deputado Federal mais votado em Sergipe. Foi deputado por três vezes e Senador da República. Iniciou na Arena e encerou a vida política no PMDB.

Foi um político conservador, íntegro, fiel a suas crenças, voltado para o interesse público. Não ficou rico com a política. Um remanescente dos que fazem política como vocação.

Chico Rollemberg destacou-se na defesa da memória de Sergipe. A sua publicação sobre Fausto Cardoso é uma clássica referência para os pesquisadores.

Foi protagonista na luta pela aprovação do Estatuto do Idoso. Mesmo não sendo cumprido, é uma das legislações mais avançadas do mundo sobre o tema.

Francisco Rollemberg reabriu a polêmica sobre as fronteiras de Sergipe. No Final do Império, a Bahia, com a sua força política e econômica, imprensou Sergipe entre os Rios Real e São Francisco. Uma ocupação pela força.

Chico Rollemberg é uma enciclopédia sobre a cultura sergipana, conhece suas raízes. Um cidadão refinado, afável e acolhedor.

É membro da Academia Sergipana de Letras, na fração literária dos que engradecem a confraria.

Chico Rollemberg ocupa a Cadeira 15, que pertenceu ao grande Garcia Moreno, cujo Patrono é Armindo Guaraná e o primeiro ocupante, o médico homeopata Helvécio Andrade. Uma cadeira que nunca foi ocupada por homenageados de conveniência.

O meu colega sanitarista, Dr. Walter Cardoso, ao saudar Chico Rollemberg por ocasião de sua posse na Academia de Letras, sintetizou uma verdade:

“Os meus pares fazem-me subir a esta tribuna para saudar um dos cirurgiões mais notáveis de Aracaju, um dos políticos mais conhecedores de nossa patologia social, uma das figuras humanas mais singulares, pela superioridade de espírito, sinceridade das atitudes, simplicidade de gestos e bondade de coração.”

A sua memória sobre a história da medicina em Sergipe é um arquivo inexplorado. Acordem-se, historiadores!

Não sei quantas personalidades sergipanas merecem uma biografia, com certeza, Chico Rollemberg é um deles.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sábado, 26 de setembro de 2020

SETEMBRO AMARELADO (parte um)


Setembro Amarelado (parte um).
Por Antonio Samarone.

A psiquiatria se apropriou do suicídio como objeto de intervenção a partir da segunda metade do século XIX. O suicídio saiu da esfera moral.

Santo Agostinho era enfático: “Ninguém tem o direito de se entregar à morte de maneira espontânea com o pretexto de escapar dos tormentos passageiros, sob pena de mergulhar nos tormentos eternos.”

A sepultura eclesiástica era negada aos suicidas.

Foi assim que me ensinaram no catecismo tridentino, em Itabaiana. A Igreja condenava o suicídio, hoje clama por misericórdia.

Para a igreja, o suicídio era um pecado e decorria da ação do diabo, que convencia o pecador de sua condenação certa e o fazia duvidar da misericórdia divina.

O evento fundador do cristianismo foi um suicídio, um sacrifício voluntário. “Eu dou a vida por minhas ovelhas”. Deixe de heresia, abestalhado, dizia minha mãe. Jesus é o filho de Deus, tinha uma missão, veio para nos salvar.

Dante Alighieri reservou para os suicidas um lugar em seu Inferno. Eles são alojados na segunda parte do sétimo círculo, o dos violentos.

Na Idade Média quando o suicida não possuía uma motivação (sofrimentos da existência), já se atribuía a loucura. A melancolia e o frenesi eram desculpas para o suicida.

Melancolia era o acúmulo de bile negra no cérebro, ofuscando o pensamento, e frenesi era fúria, alucinações e delírios.

Na antiguidade grega, o suicídio era encarado de forma diversa pelas escolas filosóficas. Os epicuristas e estoicos aprovavam.

Os suicídios patrióticos, pela honra, por remorso, pela fidelidade a um pensamento, para escapar à decrepitude da velhice (Demócrito), filosóficos, por desprezo pela vida (Zenão, Diógenes e Epicuro), em defesa da castidade eram aceitos e valorizados.

O suicídio de Sócrates é controverso.

O estoico Zenão (98 anos) caiu, quando ia saindo de sua escola. Nesse momento, repetiu um verso: Por que você me chama? E ali mesmo, estrangulou-se e morreu. Convenhamos, demorou a concluir que a vida não valia a pena.

No mundo romano não existia proibições contra o suicídio, para os homens livres. Cicero entendia que o suicídio não era nem bom, nem mau, dependia dos motivos. Virgílio dividia os suicidas entre o Inferno e os Campos Elíseos, segundo os motivos dos seus atos.

Nero condenou Sêneca ao suicídio, e ele cumpriu serenamente.

O poeta Lucrécio cometeu suicídio por achar a vida entediante (Taedium Vitae). O que importa o caminho pelo qual entras em Hades?

O suicídio político foi frequente em Roma: Catão, Cássio, Brutus (Ó virtude, não passas de uma palavra), Marco Antonio e Cleópatra. O suicídio de Nero (Qualis artifex pereo).

Na antiguidade, o suicídio na velhice era visto com naturalidade. Na visão de Sêneca, “Se o corpo se torna imprestável para todo o tipo de uso, por que não liberar a alma que sofre em sua companhia?”.

Continua Sêneca (lettre LVIII a Lucílius):

“Quanto a mim, não abandonarei bruscamente minha velhice; contanto que ela preserve minha integridade, vejo-a como a melhor porção de mim mesmo. Mas se ela vier perturbar minha mente, corromper seu funcionamento, se restar apenas uma alma destituída de razão, abandonarei a casa em ruínas e prestes a desabar... Considero covarde quem morre com medo de sofrer, e tolo quem vive para sofrer.”

Voltarei ao tema, quando sobrar disposição.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O CHEIRO DO MUNDO


O Cheiro do Mundo
(por Antonio Samarone)

A pequena comunidade de Mulungu fechou as portas para o Seu Aristide, depois da morte de sua esposa por Covid-19. O medo do contágio virou repulsa, pavor e discriminação.

Seu Aristide virou um pestilento.

Seu Aristide tem 72 anos, mas parece 90. Ele escapou da Peste, mas ficou sequelado, física e emocionalmente. Sozinho, viúvo, entrevado, sem poder andar direito e rejeitado pela comunidade, com sendo um risco.

Seu Aristide padece de uma saudade amargurada da esposa, que ele nem velou, nem sepultou. Ela foi jogada numa vala comum do cemitério da Prefeitura. Uma vala cavada às pressas. Ela pedia para ser enterrada com o terço, que ela rezava diariamente, e com um véu antigo, que ela carregava da época de moça no Capunga.

Estão me tratando como um leproso bíblico, me disse ele angustiado. Entretanto, doutor, o que me incomoda mais é ter deixado de sentir o cheiro das coisas.

A gente só sabe a importância dos cheiros quando deixa de senti-los.

O olfato é tido como sentido tosco, primitivo, animal. Os civilizados procuram escondê-lo. A etiqueta só permite alguns cheiros especiais. O cheiro do mundo e das pessoas passam desapercebidos.

Seu Aristide é um homem do campo, viveu na roça, Depois da aposentadoria, veio morar no povoado. Esperava um final de vida descansado. Veio a Peste e virou o mundo de cabeça para baixo.

Doutor, eu tenho até vergonha de dizer, mas o que mais aperreia é não sentir o cheiro das coisas. Eu sempre tive uma venta apurada. Parecia um perdigueiro farejador. Adoro a fragrância da terra molhada, do café torrando, do mingau de puba, do manjericão, da cebola ciganinha e de estrume novo.

O mundo inolento ficou sem graça.

O senhor sabe que cada pessoa possui o seu cheiro, próprio, único, ninguém cheira igual. Eu sabia identificá-los. Conhecia o cheiro de minha esposa de longe. Eu não confio em médico que não conheça os seus pacientes pelo cheiro, sem vê-los.

Algumas doenças têm cheiro e podem ser diagnosticadas por este sinal.

Eu sinto falta até da rabugem de general (um vira lata, que ele cria com carinho). Eu só não gostava do cheiro de carocha, aqueles escaravelhos nojentos que se escondem pelos cantos.

Estou desesperado! Sempre soube que se perde o olfato perto da morte. Os moribundos não sentem cheiros, para suportar melhor a decomposição.

Durante os sonhos tenho alucinações, sinto o meu corpo fedendo. Chulé, sovaqueira, fedor de boca e inhaca. Tudo misturado. Fico rançoso, com um odor nauseabundo.

Me acordo para tomar banho, no meio da noite. E nada disso existe. E mesmo que existisse eu não sentiria. Doutor, eu tenho pesadelos fedorentos.

No dizer popular, quem fede são os outros. Nos meus sonhos, sou eu! Sei que o corpo é um espaço naturalmente malcheiroso, mas a minha alucinação exagera. Acordo-me sufocado.

Pensei, para quem encaminhá-lo em busca de tratamento?

Para um Neuro ou para um Otorrino? Ou já existe um especialista em anosmia, um Anosminologista?

Existe fisioterapia para anosmia? Não sei dizer! Em Aracaju existe algum especialista em aromaterapia. Pode ser o caso. Psicoterapia, Florais de Bach, Homeopatia ajudam? Como reduzir o sofrimento do Seu Aristide? Aceito sugestões...

Eu sei que a Peste vai demorar a passar, que ainda vai trazer muitos problemas, mas não imaginava tantos e em tão pouco tempo.

Quando os boletins epidemiológicos oficiais informam o número de curados, penso comigo mesmo, que Deus os proteja.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

PARA ALÉM DAS MÁSCARAS DA COVID-19


Para além das máscaras da Covid-19.
(por Antonio Samarone)

Ontem quebrei um dogma da quarentena, fui obrigado ir a Shopping. E fui! A sensação foi de estranhamento com os mascarados. Não sabia o que fazer com tantos desconhecidos.

Falo ou não, digo pelo menos um Oi?

A minha alma provinciana estranha o anonimato.

É o rosto que faz do próximo um irmão com que podemos nos identificar e por quem podemos sentir empatia. Os bandidos usam máscaras.

Após a dança dos sete véus de Salomé, ela fica completamente nua. Herodes grita: continue, continue, continue... esperando que ela retirasse o véu da pele.

A burca sanitária além de incomodar, bloqueia os sorrisos. Puxa-se o ar com dificuldades. Acentua uma vontade imensa de coçar o nariz, talvez por ser proibido. Os vírus possui as habilidades dos mosquitos, que quando picam, deixam um veneno que aumenta o prurido?

As máscaras são enigmáticas.

No carnaval os foliões mascarados se sentem protegidos de olhares inconvenientes. Os palhaços, os super-heróis, os carrascos, os cirurgiões e os bandidos são mascarados. Zorro, Batman, Super Homem são mascarados. O Coringa é mascarado. A polícia de choque usa máscaras.

O Bobo da Corte era mascarado!

Freud acreditava que o próprio rosto era uma máscara natural, para esconder o semblante, que espelha a alma. O semblante revela o inconsciente, desnuda o espírito, desvenda a personalidade e o caráter dos desavisados.

O rosto existe para ocultar o semblante! As pessoas bem treinadas enganam à primeira vista.

Por isso que nas sessões de psicanálise, paciente e terapeuta não se olham frontalmente, para evitar enganos e manipulações. O divã é uma proteção.

O semblante é uma porta aberta para a alma e está oculto pelo rosto. O mau uso desse caminho do uso semblante para o acesso a alma, por Cesare Lombroso, levou aos psicanalistas buscarem a porta dos sonhos.

A fotografia capta a imagem em velocidade superior ao olhar humano, sendo possível em momentos raros, captar o semblante dos fotografados, rompendo a proteção do rosto.

Uma pessoa bem treinada controla a musculatura da face, rindo quando deveria chorar e chorando que deveria rir.

Entenderam?

O rosto como máscara natural pode ocultar intenções e estados de espírito dos indivíduos. Talvez por isso, as máscaras artificiais que escondem a máscara do rosto incomodam tanto.

As pessoas ficam com a sensação de impotência para o fingimento. A relação esfria. O problema se agrava no período eleitoral.

A medicina hipocrática procurava captar o semblante dos doentes, que eles chamavam de “facies”, para realizar o diagnóstico. Em algumas patologias era fácil: facies cadavérica, facies leonina, facies cushingoide, facies miastênica, facies parkinsoniana etc.

Bastou uma saída, uma transgressão à quarentena, para perceber que o uso das máscaras da Covid-19 é complicado, mexe com muita coisa. Não se trata apenas de consciência sanitária.

Estou convencido, que o uso obrigatório das máscaras de proteção contra a covid-19, não é uma tarefa que se resolva com multas e punições.

Não me perguntem como resolver. Eu não sei obrigar nem convencer as pessoas a usarem a “proteção”. Uso por disciplina, com profunda má vontade. O buraco é mais embaixo.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)


 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

AQUI HÁ INTELIGENCIA!


Aqui há inteligência!
(por Antonio Samarone)

Nunca ouvi uma explicação consistente para a explosão intelectual em Sergipe, no final do século XIX. O que ocorreu?

Uma Província economicamente irrelevante, geograficamente reduzida e historicamente inexpressiva, produzir tantos nomes de expressão nacional.

Só como exemplo, a Academia Brasileira de Letras já acolheu vários sergipanos. Parece gabolice, mas é verdade.

Do mesmo modo, não se sabe explicar o deserto intelectual sergipano na atualidade. O último nome com reconhecimento nacional foi Joel Silveira. A inteligência nasceu e morreu em Sergipe sem dar explicações.

O grande Gilberto Freire disse uma verdade, sobre o Sergipe antigo:

“De Sergipe, o brasileiro de outro Estado, por mais ignorante que seja da geografia, da paisagem, da produção agrícola, da atividade econômica deste pequeno, mas ilustre pedaço do Brasil, saberá sempre dizer, para caracterizar no mapa brasileiro a província sergipana: aqui há inteligência!”

E havia!

João Ribeiro, nascido em Laranjeiras em 1860, não pode ser esquecido. Fez curso de humanidades no Atheneu Sergipense e formou-se em direito no Rio de Janeiro. Ocupou a cadeira 31, na Academia Brasileira de Letras.

Em sua posse na Academia, João Ribeiro foi saudado por José Verissimo, historiador e pensador paraense:

“A “Corte” não vos deslumbrou suficientemente, a vós, pobre matuto de uma província ignorada, para absorver-vos e acomodar-vos a seu jeito. Do agreste rebelde dos vossos sertões ficou-vos alguma coisa com que defendestes até hoje a vossa originalidade. E essa, crede-o bem, a Academia não quisera contribuir para tirar-vos ou sequer diminuí-la.”

Em suas memórias, João Ribeiro, se expressou:

“Fiz alguns versos e desanimei da poesia. Minhas ideias são volúveis e fugazes com os pássaros de Aristófanes. Ao cabo de tamanha canseira, não fiz coisa alguma, a não ser essa estúpida vanglória de ser conhecido sem saber como e por quê.”

“Os meus pecados são poucos nessa fase inábil da velhice. É possível que a impiedade seja o único defeito irreparável de minha vida. Assim pois, meus senhores, amigos e inimigos, frades e confrades, sabei que eu sou um pecador velho, como “vos omnes”...”

“Não tenho medo da morte nem me preparo para ela. Nem temo o Inferno, nem aspiro o Paraíso. Confio que a minha pulverização será silenciosa e magnífica.”

João Ribeiro deixou o seu epitáfio escrito: “Mais um de menos.”

Certe feita procurei uma autoridade aracajuana da cultura para falar sobre João Ribeiro, fui recebido com enfado. O comissário estava atarefado, organizando o próximo “Verão Aracaju”, na Orla de Atalaia.

Voltando a Gilberto Freire, que professava uma certa inveja por Tobias Barreto, por ele ter sido bem sucedido intelectualmente em Pernambuco, Freire sempre que encontrava um Sergipano, dizia enfaticamente: “Em sua terra, grande foi João Ribeiro.”

João Ribeiro escreveu, entre tantas coisas, um clássica Gramática Portuguesa, cheia de erudição e curiosidades sobre a língua, desconhecida em Sergipe.

João Ribeiro foi uma águia do antigo ninho sergipano de intelectuais.

Faleceu no Rio de Janeiro, em abril de 1934.

Antonio Samarone (médico sanitarista)