sábado, 26 de setembro de 2020

SETEMBRO AMARELADO (parte um)


Setembro Amarelado (parte um).
Por Antonio Samarone.

A psiquiatria se apropriou do suicídio como objeto de intervenção a partir da segunda metade do século XIX. O suicídio saiu da esfera moral.

Santo Agostinho era enfático: “Ninguém tem o direito de se entregar à morte de maneira espontânea com o pretexto de escapar dos tormentos passageiros, sob pena de mergulhar nos tormentos eternos.”

A sepultura eclesiástica era negada aos suicidas.

Foi assim que me ensinaram no catecismo tridentino, em Itabaiana. A Igreja condenava o suicídio, hoje clama por misericórdia.

Para a igreja, o suicídio era um pecado e decorria da ação do diabo, que convencia o pecador de sua condenação certa e o fazia duvidar da misericórdia divina.

O evento fundador do cristianismo foi um suicídio, um sacrifício voluntário. “Eu dou a vida por minhas ovelhas”. Deixe de heresia, abestalhado, dizia minha mãe. Jesus é o filho de Deus, tinha uma missão, veio para nos salvar.

Dante Alighieri reservou para os suicidas um lugar em seu Inferno. Eles são alojados na segunda parte do sétimo círculo, o dos violentos.

Na Idade Média quando o suicida não possuía uma motivação (sofrimentos da existência), já se atribuía a loucura. A melancolia e o frenesi eram desculpas para o suicida.

Melancolia era o acúmulo de bile negra no cérebro, ofuscando o pensamento, e frenesi era fúria, alucinações e delírios.

Na antiguidade grega, o suicídio era encarado de forma diversa pelas escolas filosóficas. Os epicuristas e estoicos aprovavam.

Os suicídios patrióticos, pela honra, por remorso, pela fidelidade a um pensamento, para escapar à decrepitude da velhice (Demócrito), filosóficos, por desprezo pela vida (Zenão, Diógenes e Epicuro), em defesa da castidade eram aceitos e valorizados.

O suicídio de Sócrates é controverso.

O estoico Zenão (98 anos) caiu, quando ia saindo de sua escola. Nesse momento, repetiu um verso: Por que você me chama? E ali mesmo, estrangulou-se e morreu. Convenhamos, demorou a concluir que a vida não valia a pena.

No mundo romano não existia proibições contra o suicídio, para os homens livres. Cicero entendia que o suicídio não era nem bom, nem mau, dependia dos motivos. Virgílio dividia os suicidas entre o Inferno e os Campos Elíseos, segundo os motivos dos seus atos.

Nero condenou Sêneca ao suicídio, e ele cumpriu serenamente.

O poeta Lucrécio cometeu suicídio por achar a vida entediante (Taedium Vitae). O que importa o caminho pelo qual entras em Hades?

O suicídio político foi frequente em Roma: Catão, Cássio, Brutus (Ó virtude, não passas de uma palavra), Marco Antonio e Cleópatra. O suicídio de Nero (Qualis artifex pereo).

Na antiguidade, o suicídio na velhice era visto com naturalidade. Na visão de Sêneca, “Se o corpo se torna imprestável para todo o tipo de uso, por que não liberar a alma que sofre em sua companhia?”.

Continua Sêneca (lettre LVIII a Lucílius):

“Quanto a mim, não abandonarei bruscamente minha velhice; contanto que ela preserve minha integridade, vejo-a como a melhor porção de mim mesmo. Mas se ela vier perturbar minha mente, corromper seu funcionamento, se restar apenas uma alma destituída de razão, abandonarei a casa em ruínas e prestes a desabar... Considero covarde quem morre com medo de sofrer, e tolo quem vive para sofrer.”

Voltarei ao tema, quando sobrar disposição.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

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