terça-feira, 24 de março de 2020

SERGIPE EM TEMPO DE CÓLERA


Sergipe, em tempos de Cólera. (por Antonio Samarone)

Em 14 de fevereiro de 1850, para combater a febre amarela, o Ministro do Império mandou acender grandes fogueiras, desinfetar os navios, realizar quarentena, ter cuidados especiais com os enterros e velórios, aterramento de valas e limpeza de esgotos.

Proibiu enterros afastados das cidades, publicações de obituários, encomendações em igrejas e sinos fúnebres.

Só a morte não foi proibida.

O Ministro proibiu a prostituição e o funcionamento de casas noturnas. Mandou fechar os cabarés (o baixo meretrício) e prender gigolôs e cafetinas.

O Ministro do Império ainda recomendou sangrias, vesicatórios sobre o epigástrio, pedilúvios, sanguessugas, clister, purgativos e sulfato de quinina.

A história se repete.

O governador de Sergipe mandou proibir por sete dias: eventos, reuniões, excursões, cursos presenciais, missas e cultos de qualquer credo ou religião; mandou fechar academias, shopping centers, galerias, boutiques, clubes, boates, casas de espetáculos, salão de beleza, clínicas de estética, saúde bucal/odontológica e o comércio em geral.

Sete dias é um prazo cabalístico.

A partir de segunda-feira, dia 23/03, o governador mandou fechar as fronteiras. Ninguém entra e ninguém sai de Sergipe por transporte rodoviário. Não entendi se de veículo particular pode.

Navio de fora não pode atracar em nossos portos. (Essa medida foi tomada durante a Pandemia de Cólera de 1855, em Sergipe. Na época, foi desastrosa. Levou ao desabastecimento).

A partir de segunda-feira, Sergipe vai estar de cancela fechada.
O governador determinou também que transporte coletivo, público e privado, urbano e rural, municipal e intermunicipal, em todo o território do Estado, só roda com passageiros sentados. Ninguém viaja em pé.

Não entendi por que o cidadão sentado, está mais protegido do que em pé.

Sua excelência ainda determinou que, restaurantes, bares e lanchonetes utilizem apenas o sistema de delivery.

Ficaram de fora das proibições imperiais: serviços de água, energia elétrica, gás e combustíveis. Estabelecimentos médicos e hospitalares. Laboratórios de análises clínicas; farmácias; serviços psicológicos; clínicas de fisioterapia e de vacinação; açougues; supermercados; mercados; feiras e mercearias. Funerárias e cemitérios. Serviços de esgoto e lixo; telecomunicações; processamento de dados; segurança privada e imprensa.

Miserere nobis.

Antonio Samarone.

ÁLCOOL GEL UNGIDO



Álcool Gel Ungido... (Antonio Samarone)
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." Saramago.
A humanidade acreditava que as Pestes decorriam dos miasmas, desregramentos morais, desalinhamento dos corpos celestes, passagem de cometas ou castigo divino. A direita brasileira acredita que o Covid – 19 é obra do Comunismo Chinês.
Os argumentos não têm valia contra as paixões.
A verdade é que, a ciência ainda sabe pouco sobre a Pandemia. O mundo científico está buscando as “evidências”.
Enquanto isso, já estão vendendo “álcool gel ungido”, no mercado livre. Surgem notícias sobre remédios que podem curar a Peste. A multidão corre às farmácias e em poucas horas o estoque acaba.
As pesquisas cientificas são influenciadas pelo contexto sócio-histórico-culturais. Nesse momento, a corrida por uma vacina ou tratamento para o Covid – 19 é coordenada pela indústria farmacêutica. A ciência é parceira do mercado.
Karl Polanyi, demonstrou em seu livro, “A Grande Transformação”, como o pensamento socioeconômico contribuiu para a construção das concepções científicas sobre a natureza humana. Sem referência social, a ciência pode se transformar numa religião.
“Isso não significa que a ciência seja uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.” Freud.
Outra coisa é tratarmos a ciência com fantasia.
A medicina não sabe por que nem sempre o contágio causa a doença. Não sabe explicar como se adoece. O vírus é necessário, mas não suficiente. Não se sabe o que efetivamente desencadeia a doença e determina sua severidade. No Covid – 19 os mais afetados são os idosos, na Gripe Espanhola eram os adultos jovens.
A teoria sintética da evolução é o dogma central da biologia. A ideia, é que os organismos são campos de batalha entre forças internas e externas. A teoria biológica reproduz as nossas relações sociais: guerra, seleção dos mais aptos, competição, controle, instrução pela informação e ataque contra defesa.
“O grande erro: é muito difícil não olhar para o Covid -19, como o grande inimigo da humanidade. A preocupação sempre foi com um invasor, um inimigo externo pronto para nos exterminar, um meio hostil contra o qual devemos nos defender. Na esteira deste estilo, a imunologia constrói o seu arcabouço conceitual.” Mourthé.
“A ameaça atual pelo Covid-19 torna claro que ainda vivemos uma imunologia Pasteuriana, apoiada na teoria dos germes, segundo a qual o contágio eventual com um agente patogênico conduz ao adoecer. Na ausência de drogas anti-virais eficazes ficamos com a esperança de uma vacina que nos proteja do covid-19. Não há garantia de que ela seja sequer possível; as vacinas ainda são inventadas por tentativa e erro, como fazia Pasteur.” Nelson Vaz.
Como explicar os “portadores sãos” — os transportadores sadios de agentes patogênicos?
A Peste de Covid – 19 não é compreensível apenas sob o ângulo da biologia e da imunologia Pasteuriana. O fenômeno é bem mais amplo. Questões ambientais, econômicas, populacionais, culturais precisam ser levadas em consideração.
O nosso modo de vida não é saudável, eis a questão!
Por enquanto, vamos seguindo as recomendações da Saúde Pública.
Antonio Samarone.

MEDIDAS SANITÁRIAS PARA QUEM?


Medidas Sanitárias para quem? (por Antonio Samarone)

A OMS definiu o confinamento e a restrição à circulação das pessoas, como a principal estratégia no combate à Pandemia.

É preciso retardar a disseminação do vírus, para que a rede hospitalar não entre em colapso, no pico da doença. Com isso, pode-se reduzir os casos fatais.

No caso chinês, eles construíram um hospital com mil leitos em oito dias. Na civilizada Itália, tem gente morrendo sem atendimento. Imaginem se no Brasil a doença repetir a mesma velocidade de propagação.

A nossa rede hospitalar já é colapsada para os pobres.

Entendido! A lógica da OMS é clara. Se cada um ficar isolado em sua casa a doença não se propaga, ou o faz mais lentamente. Resta saber como colocá-la em prática.

Eu e minha família já estamos confinados voluntariamente. Nós de classe média, podemos tomar essa decisão, com dificuldades suportáveis. Mas boa parte do povo não pode ficar em casa.

Dona Helena Maria (37 anos), casada, três filhos pequenos na escola, o marido jardineiro desempregado. Moram aqui na Malvinas, sub distrito do Mosqueiro. Helena já trabalhou em minha casa.

Dona Helena é diarista. Faz faxina três dias por semana em casa de família, e no fim de semana trabalha de garçonete num desses bares da Sarney.

Dona Helena me procurou aflita. Samarone, dessa vez eu me lasquei, se não morrer de coronavírus, morro de fome, junto com os meus filhos. Calma Helena, Deus não desampara ninguém.

Dessa vez ele me desamparou. As patroas suspenderam o serviço de faxina, com medo da doença, e o bar que eu trabalhava vai fechar por uns tempo. E agora?

Para complicar, a escola mandou os três meninos para casa. Antes eles comiam na escola e eu nas casas das patroas, agora, além de não ganhar nada, tenho que arrumar comida para quatro.

Betão, meu marido, se vira. Vai pescar, catar massunim, passa o dia na maré.

Vi na televisão que a gente deve ficar em casa. Se ficar em casa eu morro de fome. Por isso vim lhe procurar.

Pensei, eita porra, e eu preocupado porque não encontro onde comprar álcool gel.

Calma minha amiga, de fome você não morre. Pode passar aqui em casa toda a semana, até a Peste acabar.

Fiquei pensando, quantas pessoas estão na situação de Dona Helena e podem ficar mais desamparadas?

A solidariedade pode renascer com a Pandemia ou isso é apenas um devaneio?

Antonio Samarone.

FIO DA PESTE


Fio da Peste (Antonio Samarone)

A Fome, as Guerras e as Pestes são os três maiores flagelos da humanidade. A Peste bubônica (transmitida pela pulga) deixou sequelas indeléveis. Peste virou nome de todas as epidemias, que dizimaram populações.

O medo das Pestes é atávico, está em nosso inconsciente. Em Sergipe, usamos corruptelas de doenças pestilenciais como xingamento. Fio da peste! Cabrunco, gota serena, bexiguento, estopor balaio, e por aí vai.

Só recentemente as doenças crônicas tiveram esse prestígio. O usual “fio do canso” dos ceboleiros.

Em 1855, na fundação de Aracaju, Sergipe viveu a maior Peste da sua história. A pandemia de Cholera Morbus assolou o nosso estado. Em três meses, 40 mil mortos, numa população de 160 mil habitantes.

No século XIV, durante a Peste Bubônica na Europa, Giovanni Boccaccio ficou de quarentena em Florença, onde aproveitou para escrever Decameron (1356), a sua obra mais famosa.

“Triste e aborrecida é a penosa lembrança da mortandade que a peste causou a pouco tempo. A cada um, e a todos que a viram, ou souberam dela, ela prejudicou”. (Decameron)

“Digo, pois, que os anos da frutífera encarnação do Filho de Deus já haviam chegado ao número de 1348 quando, na insigne cidade de Florença, a mais bela de todas as da Itália, ocorreu uma peste mortífera, que – fosse ela fruto da ação dos corpos celestes, fosse ela enviada aos mortais pela justa ira de Deus pela correção de nossas obras iníquas.” Decameron.

A peste bubônica teve sua origem na Ásia central, onde existia em estado endêmico. Chegou ao ocidente pela rota da seda e atacou a Itália pelos portos. O comércio europeu havia se desenvolvido e os negociantes genoveses e venezianos partiam para negociar até os confins do Mar Negro.

O Papa Clemente IV descreveu com realismo a Peste bubônica do século XIV:

“No ano de Senhor, 1348, aconteceu sobre quase toda a superfície do globo uma tal mortandade que raramente se tinha conhecido semelhante. Os vivos, de fato, quase não conseguiam enterrar os mortos, ou os evitavam com horror.”

“Um terror tão grande tinha-se apoderado de quase todo o mundo, de tal maneira que no momento que aparecia em alguém uma úlcera ou um inchaço, geralmente embaixo da virília ou da axila, a vítima ficava privada de toda assistência, e mesmo abandonada por seus parentes.”

“O pai deixava o filho em seu leito, e o filho fazia o mesmo com o pai.”

O medo do desconhecido leva ao pânico. É o que precisamos evitar na atual Peste do novo coronavírus.

No início da década de 1960, Itabaiana quedou paralisada com medo de uma Peste. A teoria miasmática era bem aceita. Resolveram exumar o cadáver de um líder político. A notícia deixou a cidade em pânico. Quem ousaria desenterrar os mortos? E os risco para a saúde da população?

A primeira exumação em Itabaiana foi executada. A dificuldade foi encontrar um coveiro corajoso. Nelson Tocha e Miguel Patavá, os coveiros oficiais, não aceitaram. E agora? Pagava-se bem, mas ninguém queria correr o risco.

Encontraram Antonio Angico, acostumado a limpar fossa, que aceitou. Antes, ele tomou dois litros de casca de pau, acreditando que a cachaça corta tudo, até mordida de cobra.

Para encurtar a conversa, o médico e o legista que fizeram a exumação morreram em poucos dias. Só escapou Antonio Angico, por causa da cachaça.

Imaginem o medo da Peste que dominou a cidade por um bom tempo. Até hoje em Itabaiana, se alguém encontrar uma sepultura rachando, corre para avisar ao coveiro.

Antonio Samarone.

quinta-feira, 5 de março de 2020

LOUCOS DE TODOS OS GÊNEROS (Parte dois)


Loucos de todos os gêneros... (por Antonio Samarone)

Para evitar polêmicas bizantinas: não sou psiquiatra. Fiz recentemente um curso de 740 horas em psiquiatria, que não me confere o título de especialista. Nem eu quero! Legalmente, qualquer médico pode prescrever as drogas usadas na psiquiatria e muitos assim o fazem.

Como a minha tese de doutorado em sociologia (UFS) será sobre o suicídio, tenho refletido muito sobre a realidade dos transtornos mentais no século XXI. Falam numa epidemia de ansiosos e deprimidos.

O manual americano, DSM, descreve mais de trezentos transtornos mentais. Tem para todo mundo. Se examinar direito, ninguém escapa.

O pesquisador inglês Nikolas Rose, em seu livro “Nosso Futuro Psiquiátrico”, defende: “a psiquiatria está tratando as angústias comuns ao ser humano com drogas. Os efeitos são exagerados; os riscos desconhecidos – resultando numa geração de dependentes.”

Uma tese que precisa ser aprofundada.

Segundo o cientista inglês, a psiquiatria sempre se envolveu com questões políticas e sociais. Os primeiros eliminados nos campos de concentração nazista foram os loucos. Argumentos psiquiátricos embasaram a eugenia. Os grandes manicômios segregam todos os indesejados. Os dissidentes políticos nos regimes totalitários, são tratados como doentes mentais.

Além de assistir aos que padecem de transtorno mental, a psiquiatra cria uma narrativa sobre os desajustados. Elabora um discurso etiopatogênico sobre as causas. Estabelece as fronteiras entre o normal e o patológico no comportamento das pessoas.

“De perto ninguém é normal!”

No século XXI, a indústria farmacêutica já disponibiliza drogas poderosas para alterar o funcionamento mental. A curto prazo, o “barato legal” e o bem-estar psíquico podem ser alcançado quimicamente. A questão é a dependência. O “doping” psíquico virou a saída? Nesse aspecto, drogas legais e ilegais se equivalem.

A psiquiatria dispondo de recursos farmacêuticos, demanda crescente, discurso “científico” e legitimidade social, não se acanha em medicalizar todo e qualquer sofrimento mental.

Por outro lado, diante do vazio, da perda de sentido da vida, do isolamento social, do “mal estar da civilização”, dito pelo velho Freud, as pessoas procuram uma saída química.

Claro que isso é uma síntese, a realidade é bem mais complexa.

A discussão atual não é sobre a antipsiquiatria de Franco Basaglia, na Itália da década de 1970, onde se negava a existência das doenças mentais. A doença era uma invenção política e os hospitais deveriam ser fechados. Só existem sofrimentos mentais, era a tese. A doença pode gerar um estigma, diziam os mais puros.

Essas premissas embasaram a reforma psiquiátrica brasileira.

Houve uma inversão. A tese da antipsiquiatria de que, nenhum sofrimento mental é doença, se transformou na tese da psiquiatria de mercado em que “todo sofrimento mental é doença". Qualquer mal-estar mental, deve ser tratado como doença. Atenção, mudaram o nome de doença mental para transtorno ou distúrbio mental, para evitar maiores polêmica. No tempo de Freud já existiam as neuroses e as psicoses.

A psiquiatria de mercado afirma: “já entendemos a natureza dos distúrbios mentais e já temos meios eficazes de tratá-los e tais meios devem estar disponíveis a todas as pessoas do mundo. O pesquisador inglês acha que ambas as afirmações estão erradas. Nós não entendemos o transtorno mental, nem temos meios eficazes de tratá-lo.”

Aberta a polêmica...

Antonio Samarone.

TARIFA ZERO OU LICITAÇÃO


Tarifa Zero ou Licitação. (por Antonio Samarone)

Em 09 de dezembro de 2018, o Prefeito de Aracaju determinou um aumento de 14,2% no valor da passagem dos ônibus, passando para 4 reais. Esse reajuste já completou 15 meses e permanecerá até o final das eleições de 2020. Na época do reajuste, o preço do litro de óleo diesel era de R$ 1,80.

Ontem, o mesmo Prefeito decretou que as tarifas não terão reajustes neste ano. O preço continuará de 4 reais, pelo menos até as eleições. Observando os custos, o diesel dobrou de preço e nenhum insumo ficou mais barato.

Uma obviedade: se a tarifa era de 4 reais em 2018, com todos os insumos aumentando nos últimos 15 meses, como a tarifa pode continuar pelos mesmos 4 reais até 2021? Ou seja, dois anos com a tarifa congelada não afeta a saúde do sistema. As empresas continuam no lucro. Isso demonstra claramente que a tarifa estava muito acima do preço real.

Mesmo com o congelamento da tarifa por dois anos (de dezembro de 2018 até pós-eleições de 2020), as empresas continuam rodando com lucros. Ou alguém acredita que as empresas estão rodando no prejuízo?

As coisas não estão claras: o que foi acertado com as empresas?

Quem tem poderes para não conceder reajuste, tem os mesmos poderes para conceder reajustes acima do necessário. Como não existe uma planilha consistente, prevista em contrato, calculando esses custos, embasando os reajustes, tudo depende apenas da conveniência política do Prefeito?

A planilha, se existe, é peça decorativa.

Em 1972, o prefeito Aloísio de Campos, realizou a única concorrência pública para a exploração do transporte coletivo de Aracaju, substituindo o sistema de Kombi Auto-lotação. Assim, surgiram, em 20 de abril de 1972, a Bomfim Urbana que iria atuar juntamente com a Fátima Urbana no novo modal do transporte coletivo de Aracaju.

Em 1978, o grupo Bomfim se dividiu, surgindo a Empresa São Pedro.

Em 1983, o modelo de Aloiso Campos ainda vigorava. Os 119 ônibus existentes em Aracaju operavam em 37 linhas radiais bairro/centro, sob responsabilidade de duas empresas: a Nossa Senhora de Fátima (Zona Norte) e o Grupo Senhor do Bomfim (Zona Sul).

Em 1985, João Alves/Jackson Barreto criaram em Aracaju o Sistema Integrado de Transporte (SIT). No ano 1997, foi criado o Sistema Integrado Intermunicipal (SIM), que funcionam até hoje.

Esse novo sistema integrado nunca realizou concorrência pública, permanecendo na clandestinidade até hoje.

A Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU) de Aracaju, foi criada em 14 de dezembro de 1984, para administrar o SIT. Virou SMTT, em 07 de janeiro de 1998, incorporando o trânsito.

Em 2005, o SIT/SIM dispunha de 337 ônibus pertencentes às seis concessionárias, todas irregulares, sem licitação pública. Em 2010, o sistema continuava sendo atendido pelas mesmas seis empresas, com um aumento na frota para 508 ônibus.

Em 2013, o grupo Bomfim saiu do sistema.

O transporte coletivo atual em Aracaju não é uma concessão, decorrente de licitação pública, operada mediante contrato. As empesas atuam por Ordem de Serviço. E é aí que mora o problema: a concessão é uma dádiva, um mimo do chefe político ao empresário, podendo gerar contrapartidas não republicanas.

Perceberam que a liberalidade do Prefeito, não reajustando as tarifas em ano eleitoral, revela uma profunda distorção? Como não existem regras contratuais e as concessões não licitadas estão fora da lei, os permissionários submetem-se a zero de reajuste, sem reclamar, com a promessa de serem compensados nos anos seguintes.

Antonio Samarone.

CHUVAS BÍBLICAS


Chuvas Bíblicas (por Antonio Samarone)

Existe um consenso: o padrão normal das chuvas está mudando. No Brasil, as chuvas intensas têm sido a regra. A principal consequência são os alagamentos das cidades que não estão preparadas, com graves prejuízos para as pessoas que moram em áreas mais frágeis.

Aracaju foi construída numa área de restingas e manguezais. A cidade é cortada por rios, riachos, canais e córregos. As lagoas naturais foram aterradas e as que sobraram estão sendo.

O exemplo mais recente foi o aterramento de parte da lagoa do Santa Lúcia, que funcionava como um reservatório para as enchentes do Rio Poxim. E quem aterrou? Um órgão público.

Aracaju é uma cidade geograficamente pantanosa, aterrada livremente sem o planejamento do poder público. Urge um estudo sobre a readequação da cidade à nova realidade das chuvas. Não se trata apenas de ações paliativas na hora das enchentes.

O poder público permitiu que imensos latifúndios privados fossem consolidados em áreas urbanizadas, empurrando a população mais pobre para subúrbios distantes.

Aracaju é uma cidade de poucos donos, protegidos e privilegiados por um poder público conivente.

O imenso vazio urbano de Aracaju é uma área de especulação imobiliária, “terrenos de engorda” onde a prefeitura negocia amigavelmente a cobrança do IPTU. Já os que possuem apenas a residência própria, são extorquidos com um IPTU maior que o cobrado em Ipanema.

Aracaju exige uma readequação imediata do Plano Diretor, que leva em conta a nova realidade das chuvas.

Os recapeamentos asfálticos das Avenidas Hermes Fontes, Heráclito Rollemberg e Rio de Janeiro, suprimindo os canteiros, reduzindo a permeabilidade, vão em direção contrária a nova realidade.

Justificar a redução de áreas verdes com o discurso de melhoria da fluidez para os automóveis, não encontra respaldo técnico. Qualquer estagiário em engenharia de trânsito sabe disso.

Em síntese, Aracaju necessita com urgência retomar o planejamento urbano, centrado no interesse público e na qualidade de vida. Priorizando o meio ambiente, os recursos naturais, dunas, restingas, manguezais, bacias hidrográficas, levando em conta o novo padrão de chuvas.

“Meu sonho era poder voltar a tomar banho e nadar no Rio Sergipe despoluído”, dizia o lendário Zé Peixe.

Antonio Samarone.