domingo, 5 de janeiro de 2020

MANIA DE DOENÇAS


Mania de Doença...
(por Antonio Samarone)
Parodiando Macunaíma, “pouca saúde e muitas farmácias, são os males do Brasil”.
Quantas farmácias funcionam em Aracaju? Comecei a contar, parei em seiscentas. Todas com filas, lotadas de gente. Para vender remédios não existe tempo ruim...
Como explicar esse consumo desenfreado de drogas farmacêuticas?
Fiz uma pesquisa entre os conhecidos da minha faixa etária (acima de 60 anos), perguntando quem tinha tomado algum remédio nos últimos trinta dias. Entre 117 pessoas consultadas, 106 tinham usado e 83 tomaram mais de um medicamento. Eu consumo dois continuadamente.
A conclusão é óbvia: não existe mais ninguém sadio. Ou todos estamos doentes, ou somos todos hipocondríacos.
Historicamente, a hipocondria era incluída na classe das doenças vesânicas, como um desarranjo das faculdades intelectuais.
Hipócrates conhecia a hipocondria (séc. IV aC). O pai da medicina acreditava que a hipocondria se associava frequentemente com a melancolia. Vale a pena conhecer a descrição que ele fazia:
“O hipocondríaco melancólico parece ter em suas vísceras um espinho encravado; a náusea o atormenta; ele foge da luz e dos homens, ele ama as trevas; ele é tomado pelo medo; a caixa frênica é saltada para o exterior; sente dores quando tocado; ele tem medo, tem visões aterradoras, sonhos terríveis, e, as vezes vê os mortos. Normalmente a doença ataca na primavera.”
Galeno acreditava que a hipocondria era uma doença da alma.
O grande Thomas Sydenham (1749) achava que a hipocondria predominava entre os homens e tinha a mesma origem cerebral da histeria, esta predominante nas mulheres.
Segundo Freud, na hipocondria há a retirada do investimento libidinal dos objetos, concentrando-se no corpo a atenção às sensações aflitivas e penosas.
Schreber, paciente de Freud, apresentava um quadro de hipocondria: duvidava de seu peso, acreditava estar morto e em decomposição e afirmava que seu cérebro estava amolecendo.
No CID-10, a hipocondria está diluída em Transtornos Somatoformes e é caracterizada como uma preocupação persistente, com a presença de uma ou mais doenças graves e progressivas, por mais de seis meses. Mesmo quando existem evidências de exagero.
A hipocondria virou um termo pejorativo. Ninguém se reconhece hipocondríaco.
Os médicos, por sua vez, não vão espantar um cliente cativo, quase um freguês, dizendo que eles não padecem de nada e que estão sadios. As farmácias precisam cativar esse consumidor obsessivo de medicamentos.
Ninguém se interessa pelo sofrimento dos hipocondríacos.
É mais cômodo tratar as supostas doenças que os hipocondríacos padecem, do que perder tempo em convencê-los que estão sadios. Os hipocondríacos fogem da saúde.
Mais recentemente surgiu o hipocondríaco probabilístico. Este pode até aceitar que não tem as doenças, mas não renuncia à crença que está sob intenso risco, e que a qualquer momento as doenças aparecerão. Não custa nada começar a consumir os fármacos, preventivamente.
O desejo de antecipar o futuro é atávico.
Antigamente, procurávamos os profetas, adivinhos, pitonisas e áugures, recorríamos aos sonhos, presságios, horóscopos, vaticínios, prenúncios, búzios, cartas e bolas de cristal.
Recorremos hoje à medicina, para identificarmos as doenças antecipadamente. Centrados nas ciências, nas estatísticas e na probabilidade, os médicos encontram evidências sobre as nossas doenças futuras, através dos códigos, mensagens, sinais e riscos.
A medicina criou o hipocondríaco futurista: “Eu posso até aceitar que ainda não estou doente, mas com certeza em breve estarei.”
Está cada vez mais difícil “morrer de velho” !
Antonio Samarone.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

SERGIPE d' EL REY (2020), BICENTENÁRIO DE QUE?


Sergipe d’El Rey (2020), bicentenário de que?  (por Antônio Samarone)

Os Tupinambás já ocupavam o atual território de Sergipe por volta de 1400.

O atual território de Sergipe foi a Capitania doada a Francisco Pereira Coutinho, em 1534. A Capitania estendia-se por 50 léguas a partir do Rio São Francisco, em direção a Baia de Todos os Santos.

Com a morte de Francisco Pereira Coutinho, num ritual antropofágico na Ilha de Itaparica, a Capitania ficou abandonada, até a decisão do Rei de Portugal em comprar a Capitania a Família de Coutinho, em 1574.

Com a expulsão dos Tupinambás em 1590, a antiga Capitania de Coutinho virou a Capitania de Sergipe d’El Rey, ligada diretamente à Coroa Espanhola, como qualquer outra, segundo Ivo do Prado.
 
Quando da ocupação de Sergipe, Portugal e Espanha formavam a União Ibérica, no reinado de Felipe II. O primeiro Capitão Mor de Sergipe foi Tomé da Rocha, nomeado em 1591. A Capitania de Sergipe d’El Rei é antiga.

A Capitania de Sergipe d’El Rey foi governada por Capitães Mores, indicados pela Coroa até 1637, quando São Cristóvão foi invadida pelos holandeses e Sergipe ficou sem governo. Somente em 1648, já com a restauração e Portugal ficando independente da Espanha, foi nomeado outro Capitão Mor para Sergipe, Balthazar de Queiroz de Serqueira.

Em 1696, por decisão da Coroa portuguesa, a Capitania de Sergipe alçou a condição de Comarca. Continuou tendo Capitão Mor, Provedor de Fazenda, Guarnição de Infantaria e Ouvidor. O Soberano, para dividir as duas Comarcas (Bahia e Sergipe), estabeleceu as fronteiras de Sergipe até a Praia de Itapuã.

Contudo, na prática, a Bahia foi invadindo, tomando território, restringindo competências da Comarca de Sergipe, e em pouco tempo tornando Sergipe uma sub Capitania subordinada à Bahia. Foi disso que nos libertamos em 1820.

No Brasil, as Capitanias foram transformadas em Províncias em 1821, pelas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, no âmbito do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Como gratidão, por Sergipe ter enviado combatentes para lutar ao lado das tropas reais e derrotar a Revolução Pernambucana de 1817, El Rei D. João VI, em 08 de julho de 1820, restabeleceu a autonomia da Capitania de Sergipe d’El Rei, eliminando os vínculos com a Bahia.

Para concretizar o ato, El Rei nomeou Carlos Burlamarque o primeiro Governador da Província de Sergipe, em outubro de 1820. A Bahia reagiu e não deixou Burlamarque assumir. Somente em janeiro de 1824, com a nomeação do sergipano Manoel Fernandes da Silveira é que a Província de Sergipe começou a pensar em autonomia política.

Mesmo assim não foi lá essa autonomia toda. O Senado Federal funciona desde 1826. Os dois primeiros representantes da Província de Sergipe no Senado, José Teixeira da Mata Bacelar (1826 a 1838) e José da Costa Carvalho, o Marquês de Monte Alegre (1838 a 1860), não eram sergipanos.

O primeiro sergipano a representar a Província de Sergipe no Senado foi Antônio Dinis de Siqueira e Melo, eleito somente em 1859. Depois tivemos o Barão de Maruim, eleito em 1861, e o Barão de Estância, eleito em 1885. E só!

A elite sergipana cuidava dos seus interesses, Sergipe era um detalhe.

É esse fato histórico: o decreto de D. João VI de 1820, que completa 200 anos, em 2020. Não houve luta de Sergipanos para conquistar essa separação da Bahia, pelo contrário, parte de sua elite não queria. O Decreto real foi uma recompensa, um prêmio da Coroa, por Sergipe ter lutado ao lado das tropas reais para derrotar os irmãos pernambucanos, na Revolução de 1817.

O Hino de Sergipe é um canto de agradecimento a separação administrativa de Sergipe da Bahia.
Acho que o professor Manoel Joaquim de Oliveira Campos exagerou em louvações, no hino de Sergipe, que quase ninguém sabe cantar:

“Alegrai-vos, sergipanos
Eis que surge a mais bela aurora
Do áureo jucundo dia
Que a Sergipe honra e decora”

Menos, bem menos, professor Manoel Joaquim... A autoestima dos sergipanos por Sergipe é recente, historicamente muito recente, como dizia Luiz Antônio Barreto. Essa ideia da Sergipanidade pode ajudar.

Os únicos sergipanos inscritos no livro dos heróis da Pátria são o Cacique Tupinambá Serigy, e mais recentemente Tobias Barreto. Creio que esqueceram até de Francisco Camerino...

Não sei o que as agências oficiais vão inventar esse ano para a comemorar o bicentenário desse “jucundo dia”, como diz o nosso hino. Na verdade, A história de Sergipe precisa ser recontada...
Vamos aguardar!

Antônio Samarone.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

ESTRADA DE RODAGEM LARANJEIRAS - ITABAIANA


Estrada de Rodagem Laranjeiras – Itabaiana – Frei Paulo
(por Antônio Samarone)
A Estrada de Rodagem tardou a chegar em Itabaiana. Somente em abril de 1928, foi inaugurada a Estrada de Rodagem Laranjeiras – Itabaiana (a primeira). Foi durante o governo de Manoel Dantas (Mané Caroço) e o Secretário de Obras era Leandro Maciel, isso mesmo, o famoso líder político.
Vajam esse trecho da Coluna de Zózimo Lima, postada pelo amigo Antônio Sobrinho, em suas redes sociais, sobre as festividades de inauguração da estrada.
“Rumo a Itabaiana.
Foguetes, girândolas, arcos e bandeirolas.
Aproximamo-nos da terra do finado Zé Sebrão [José Sebrão, político itabaianense; tio do historiador Sebrão Sobrinho].
A população freme de entusiasmo.
A charanga local entoa o antigo e sempre novo dobrado “Saudades de minha terra”.
O coronel Dultra de Almeida espera-nos com uma macarronada suculenta.
O Dultra, disse-nos o Otoniel Dória [Dorinha, delegado de polícia, chefe político itabaianense], fez uma verdadeira devastação nos galinheiros da vizinhança.
Sua Excelência o presidente Manoel Dantas recebe distintas homenagens.
Sua Excelência, com aquela simplicidade, que é seu traço característico, atende a todos os reclamos.
Ele vê, perquiri, ausculta todas as necessidades e promete fazer o que estiver nas suas forças.
A comitiva tem ampla liberdade de S. Ex.ª para divertir-se à farta.
O Humberto é o peão da patuscada.
À noite, ao jantar, ele levanta um brinde às Valquírias do país de Wagner representadas na pessoa do robusto vigário local.
Há danças na casa do Dorinha e na Intendência.
O farmacêutico Florival nos martirizou com uma oração sesquipedálica [muito longa].
Tive a impressão de estar diante do frade Cisneiros [Francisco Gimenez de Cisneiro, espanhol] num tribunal do Santo Ofício.
Safa!
Aquela morena de olhos de pervinca [azuis], no baile, deixou uma chaga incurável no coração de Guilhermino.
O Teófilo mostrou que ainda é autoridade nos torneiros coreográficos.
A alegria é tanta que Humberto, o Zozimo, o Xavier, o Mecenas, o Leandro, o João Cabral e o Barroso planejam fazer o encanamento direto dos depósitos da Antártica.
O Dr. Gervásio Prata, o magistrado culto e criterioso, recebe uma manifestação carinhosa dos ilustres itinerantes.
O presidente Dantas compareceu pessoalmente.
Muito cedo, no dia seguinte, rumamos para São Paulo, via Saco do Ribeiro.
Ali a comitiva presidencial foi alvo de grandes homenagens.”
Itabaiana passava a se conectar com o mundo por meios motorizados. Antes de 1928, só através dos tropeiros e do lento carro de boi.
Esse foi o primeiro passo para o desenvolvimento econômico de Itabaiana, consolidado, com a chegada da BR – 235, em 1953.
PS: um descontentamento, Zózimo Lima no texto citado chama a nossa centenária Filarmônica de charanga, ou entendi errado?
Antônio Samarone.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O CANTO DA VERÔNICA



O Canto da Verônica. (por Antônio Samarone)

Das representações religiosas da Semana Santa, guardo nas lembranças consumidas pelas incertezas da inteligência, o canto de Santa Verônica, expondo uma réplica do seu véu, com a qual ela limpou o rosto de Cristo, durante a sua paixão.

Quem era aquela dublê Itabaianense de Santa Verônica (“vera ícone”), com voz soprano, com os seus agudos incompreensíveis, em latim, que apresentava o véu (Sudário de Verônica) aos devotos?

Depois fiquei sabendo tratar-se de Bernadete de Seu Oscar do Quebra Queixo. Itabaiana teve outras Verônicas, mas a que eu ouvi e a que o canto ficou em minha lembrança, foi o dela. Soube que ainda é viva, gostaria muito de conhecê-la.

Até hoje eu não sei ao certo se era o véu que limpou a face de Cristo (Sudário de Verônica), ou uma réplica de parte do Santo Sudário, o pano de linho que cobriu Jesus, na descida do calvário. Serei grato a quem puder esclarecer.

O Sudário de Verônica foi encontrado no ano 525, na cidade de Edessa. Foi levado a Roma e exposto na Basílica de São Pedro, para veneração dos fiéis. Desde 1638, a relíquia encontra-se na Igreja da Sagrada Face, na cidade de Manoppello.

Já o Santo Sudário apareceu em 1350, quando se alastrava uma grande Peste na Europa. Essa relíquia encontra-se na Catedral de Turim. Sobre essa relíquia existe forte polêmica: foi a mortalha de Jesus, ou uma peça criada por Leonardo da Vinci?

A cópia da relíquia Itabaianense (ainda existe?) era apresentada como a prova definitiva da passagem de Cristo pela Terra e de sua ressurreição, mesmo não existindo dúvidas para os devotos.

Foi informado que o Canto de Verônica continua sendo encenado na Matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana, todas as sextas-feiras santas. Não perderei a próxima...

Antônio Samarone.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

NÃO SOU ROBÔ



Não sou robô! (por Antônio Santana)

Quando publicado em 1949, o livro de George Orwell (1984), pareceu uma ficção exagerada. Uma visão improvável. O livro foi uma advertência: “do jeito que o mundo anda, a humanidade perderá qualquer sentido, os homens se tornarão autômatos, sem alma, e sem consciência disso.”

Esse tempo chegou?

O pensamento ocidental perdeu a fé na capacidade do homem de criar um mundo de justiça e paz. Essa confiança que vem do pensamento grego e dos profetas do Velho Testamento, que pregavam a vinda do Messias, acabou.

Parece que nem teremos o milenarismo, nem Dom Sebastião voltará...

Com o iluminismo, Thomas More pensou numa cidade utópica, um reino de felicidades. A Cabana do Pai Thomaz fez grande sucesso com as suas ideias socialistas. Era a esperança na perfeição individual do homem.

Não se acredita mais nisso!

Os livros 1984, de Orwell, e o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são utopias negativas que começam a se realizar.

Há 400 anos, no início da Era Moderna, o homem era repleto de esperança. Hoje, caiu no desencanto.

Na utopia de Orwell, 1984, o homem perde a sua identidade através da manipulação ideológica e psicológica por parte de uma burocracia estatal totalitária. O homem perde a liberdade, vigiado pelo terror e tomado de medo. Não era uma crítica apenas ao stalinismo soviético, mas também a todo mundo industrializado e capitalista.

Há quem diga que esse tempo chegou.

A partir da hegemonia do neoliberalismo, do mercado financeiro e da globalização o mundo passou a ser comandado pelo Big Data, pelos algoritmos, pela inteligência artificial e pela automação. O homem está vigiado pelas redes sociais e perdeu o que restava da sua humanidade.

Hoje o computador já nos pede comprovação que somos humanos, e não robôs. Em certos aplicativos, a operação só continua quando marcamos um X no local solicitado pela máquina.    
 (    ) Não sou robô!

Antônio Samarone.

domingo, 22 de dezembro de 2019

O MITO DE LAMPIÃO.



O Mito de Lampião. (por Antônio Samarone)

Recebi de um amigo, conceituado historiador baiano, trechos do seu próximo livro sobre Lampião. Relatos de atrocidades, crimes, brutalidades, violências praticadas pelo Rei do Cangaço. Tudo pretensamente documentado. Para ele Lampião foi um facínora.

Não me toquei com aquilo. O Lampião que está em minha memória é outro. Onde está a contradição? Por que fatos “históricos” tão recentes perderam importância?

O Lampião que está no inconsciente coletivo do nordestino tornou-se um mito. Criado por um conjunto de lendas, estórias populares transmitidas oralmente, estórias anônimas. Cantado pelo cordel. Estórias reais ou imaginárias.

“Leitores, vou terminar/Tratando de Lampião
Muito embora que não posso/Vos dar a resolução
No inferno não ficou/No céu também não chegou
Por certo está no sertão.”
(A chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco)

Os heróis gestados no seio do povo: Lampião, Conselheiro, Zumbi, Padre Cícero, cada um a seu modo, são personagens da cultura popular, sobretudo dos nordestinos.

Entendo mito como uma narrativa, um discurso, uma fala. Uma forma das sociedades espelharem as suas contradições, exprimirem e os seus paradoxos, dúvidas e inquietações. Uma forma de reflexão sobre a existência, o cosmos, as situações de "estar no mundo" ou as relações sociais.

O mito é uma narrativa fabulosa, alegórica, inacreditável, sem realidade. A sua "verdade" deve ser procurada num outro nível. Na visão de numa outra lógica. Não é uma narrativa qualquer.

O mito é a história poetizada. Na visão de Jung, os mitos estão no inconsciente coletivo.

Segundo Lévi-Strauss não é possível entender um mito se nós formos lê-lo como se lê uma reportagem de jornal, um livro ou um romance. Quem quiser mais detalhes sobre os mitos, leia “Mito e Significado”, do próprio Strauss.

Talvez por isso, a história cientifica sobre Lampião do amigo baiano, me pareceu exagerada, inverossímil.

Visitei um Colégio de Freira no último São João, e as meninas estavam fantasiadas de Maria Bonita e os meninos de Lampião. Transformaram a quadrilha francesa, num bailado sertanejo. Todos dançando xaxado. Todos cantando, até as freiras, “acorda Maria Bonita, acorda vai fazer o café, o dia já vem raiando e a polícia já está de pé.”

Eita, pensei, como pode, as freiras tomaram partido do facínora narrado por uma certa história científica? Claro que não...

Lampião virou mito!

Antônio Samarone.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A MISSA DO GALO


A Missa do Galo. (por Antônio Samarone)

Deixei de ficar ansioso quando não tenho soluções para o que me incomoda. Naturalizei a impotência. Parece que o mundo só muda quando quer, tem as suas vontades e os seus caprichos. Quando menos se espera, ele já está de outro jeito.

A noite de natal cristã foi fixada em 25 de dezembro, pelo Papa Júlio I, no século IV. De lá para cá muita coisa mudou. Hoje, os comerciantes tomaram conta. O natal virou uma estratégia para aquecer as vendas.

O paganismo comemorava o Sol, em 25 dezembro.

Onde estão os presépios? Na infância, eu visitava o devoto presépio de seu Jaconias, na Praça da Igreja, em Itabaiana. Ficava num canto da sala de visitas. A gente via da calçada, pela porta da rua que ficava aberta, protegida por uma grade de madeira, daquelas baixinhas. Lembro-me dos bois, carneiros e camelos de barro, todos bem feitos.

Ontem fui bater perna, e só vi Papais Noéis em portas de lojas, tudo triste. Na verdade, eu nunca gostei desse espantalho. Não vejo nem graça, nem sentido. Me encanto com os Reis Magos (Melchior, Gaspar e Baltazar), três malucos carregados de ouro, incenso e mirra, rodando o mundo procurando um menino.

Ainda comemoro o dia 06 de Janeiro.

Nunca soube o que era “mirra”, minha mãe achava que era prata...

Outra esquisitice são essas as arvores-de-natal, pinheirinhos de plástico cheios de bolinhas de vidro coloridas e reluzentes, cobertas com pisca-piscas. Não faço a menor ideia nem quem inventou, nem o que simbolizam. Nenhuma expressão religiosa. Me disseram que é um enfeite decorativo.

Como os presépios acabaram, a classe média bota os presentes ao lado dessas arvores-de-natal, para a distribuição no jantar da véspera, onde o peru e o panetone são consumidos sem entusiasmo. Sem contar a neurose de quem está acima do peso.

Até um presépio que a Prefeitura montava na Sementeira acabou.

Natal era um dia de festas. Todos vestiam roupas novas. A gente ficava na festinha esperando tocar meia-noite. A missa do galo era sagrada, até os crentes assistiam. Diziam que um galo cantou alto, a meia noite, no dia que Jesus nasceu.

Depois da missa, quem podia, ia nas barracas da festinha comer arroz com galinha.

Como não existem mais galos, todos morrem frangos, e mesmo que sobrem alguns, não ouvimos mais o seu canto. Acabaram com a missa do galo. No Natal tem outras missas, várias, menos a missa do galo. Parece que só o Papa ainda reza a missa do galo no Vaticano, e os saudosistas podem assistir pela televisão.

Se alguém souber de uma missa do galo na Arquidiocese de Aracaju, meia-noite, me avise.

O comércio reduziu o Natal a LED e pisca-piscas. Em protesto, não vou às compras. Por mim, as bugigangas vão sobrar nas prateleiras.

Viva o Natal Cristão.

Antônio Samarone.