domingo, 15 de março de 2026

O DIREITO A DENTADURA


 O Direito a Dentadura...
(por Antonio Samarone)

Recebi um vídeo, onde, o Presidente da República, solenemente, distribuí dentaduras. O Ministro da Saúde, sorridente, anunciou aos microfones: “quero chamar a senhora, fulana de tal, para receber a sua prótese, das mãos do Presidente.”

O que fizeram com o SUS e com a sua política de Saúde Bucal?

Como militante da reforma sanitária, sanitarista e ex-professor de Saúde Pública, sinto-me com o direito ao espanto.

Eu alcancei as dentaduras sendo vendidas nas Feiras, dentro de arupembas. Os clientes banguelos, iam experimentando, olhando-se no espelho, até encontrar uma que lhe agradasse.

O protético, um empreendedor, orientava aos clientes: se ficar folgada, use corega, que aperta; se ficar apertada, coloque-a num copo com água, na hora de dormir, que ela folga.

Itabaiana admirava a arte do doutor Olavo. As suas dentaduras pereciam um teclado de piano, dentes largos e alvos. O sorriso com a dentadura de Olavo era inconfundível. As dentaduras de Olavo eram obras de arte.

Sem dúvidas, Olavo foi um talentoso artista plástico, hoje, uma dentadura dessas vale uma fortuna. Uma modesta perereca usada, com a marca de Olavo, foi recentemente vendida por 2 mil reais.
Olavo, como todo artista, assinava as suas dentaduras. Dava garantias, até se acabar.

Hoje, Olavo estava perdido. As dentaduras são feitas pela inteligência artificial, impressas em 4D, em fino silicone. Já saem na conta, nem mais, nem menos. Ficam prontas, em questão de minutos.

Lula distribuindo essas dentaduras ao eleitorado, produzidas em série, lembrou-me de um Vereador antigo, que nunca perdeu uma eleição. A sua campanha era centrada na distribuição de dentaduras. Sem limites. A justiça eleitoral nunca apurou os gastos, com essas dentaduras. Era um mistério.

Um Promotor recém-chegado, com fama de intransigente, resolveu abrir inquérito para apurar a gastança do Vereador, com as dentaduras eleitorais. A Polícia Federal foi convocada. No depoimento, o Vereador nada escondeu. Ele provou a origem lícita das próteses.

Ele informou que fez um convênio com a maior funerária da cidade, que, mensalmente, lhe repassava as próteses retiradas dos defuntos.

O dono da funerária confirmou o convênio. Onde já se viu, enterrar alguém com uma peça valiosa na boca? Além dos anéis e brincos, as dentaduras são objetos desejados.

O Vereador deixou o Promotor sem graça, a lei eleitoral não proibia. Uma brecha. As dentaduras eram gratuitas. Bastava lavá-las com água sanitária, deixá-las um tempo dentro da cal e passar um branqueador nos dentes. Ficavam com o sorriso de novas.

Depois do inquérito ter esclarecido a origem das dentaduras, o Vereador nunca mais se elegeu. O preconceito do povo: quando ficaram sabendo a origem, não aceitaram mais as dentaduras dos defuntos.

Os votos desapareceram. O nosso eleitor é esclarecido: dentaduras, só novas...

Antonio Samarone – médico sanitarista.

sábado, 14 de março de 2026

O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DA IGREJA VELHA.

O Sítio Arqueológico da Igreja Velha.
(por Antonio Samarone)

Os escombros da Igreja Velha e a lenda de Santo Antonio Fujão, são as marcas materiais e simbólicas, que sobraram da fundação do Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (1602). Inicio do Século XVII.

Sobre a lenda, um grupo de peregrinos, retomou a trilha de Santo Antonio Fujão- (igreja velha ao pé de quixabeira, no miolo do Tabuleiro de Ayres da Rocha). A lenda ainda é viva.

Sobre a preservação dos escombros da Igreja, algumas providências já foram tomadas.

A semana passada, um prestigiado radialista, da 93.1 FM, cobrou providências, em seu programa matinal: “cadê o secretário de cultura, fala muito e faz pouco”.

Uma verdade: no atacado, dificilmente as ações superam as falas!

No caso da Igreja Velha, uma falta de informação. Já existe o projeto arquitetônico, mas ainda falta a permissão do IPHAN. Vou tentar explicar:

A Lei Municipal nº 2.207, de 10 de julho de 2018, declarou as ruínas da Igreja Velha, patrimônio cultural. Histórico e imaterial de Itabaiana.

O decreto nº 25.668, de 24 de outubro de 2008, tornou o terreno de utilidade pública, para fins de desapropriação. A Prefeitura já desapropriou o terreno, nas cercanias.

Ocorre, que a Igreja Velha é um sítio arqueológico, portanto, sob a jurisdição federal, sob os cuidados IPHAN. Houve uma tentativa de intervenção municipal, sem um parecer do IPHAN, o que foi suspensa.

Já existe um projeto arquitetônico. Entrei em contato com o Superintendente do IPHAN, em Sergipe, o intelectual Luiz Eduardo Oliva, e marcamos uma audiência. A receptividade do órgão federal foi excelente.

A solução do sítio arqueológico da primeira Igreja de Santo Antonio, em Itabaiana, tem tramitado há décadas, pelos órgãos estaduais de Cultura. O processo 0395/2005 – CEC, pedindo o tombamento da Igreja Velha, recebeu um parecer contrário e humilhante, do virtual Conselho Estadual de Cultura.

O relator do processo de tombamento da Igreja Velha, em Itabaiana, o doutor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, concluiu: “manifesto-me contrário ao tombamento das ruínas da antiga Igreja de Santo Antonio, na Zona Rural do Município de Itabaiana.”

Ainda acrescentou, o relator Soutelo:

“O tombamento das ruínas implicaria num ônus, talvez pesado demais, para o Poder Público Estadual, diante da pequena importância do bem para o universo patrimonial do Estado...”

“Para o Estado, com toda a certeza, é muito mais importante reconhecer-se a feira de Itabaiana com bem material da cultura sergipana.” - Soutelo.

O processo não deixou dúvidas: para o Conselho Estadual de Cultura, a Igreja Velha é uma ruína de interesse local, cabendo as iniciativas de conservação, exclusivamente a Prefeitura.

Procurei na relação atual dos bens tombados pelo Estado de Sergipe, e não encontrei a Igreja Velha, de Itabaiana. Pelo visto, o parecer de Soutelo continua valendo. Aliás, de Itabaiana, não encontrei nenhum bem cultural protegido pelo Estado.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

quinta-feira, 12 de março de 2026

A LIGA DOS JUSTOS

A Liga dos Justos...
(por Antonio Samarone)

“Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.” – Drummond.

Lembrei-me da cena final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, onde João das Mortes persegue Corisco, no Sertão de Cocorobó. Entretanto, a revolução foi só no cinema. O Dragão da mal contra o Santo guerreiro. Glauber fascinou até Buñuel.

“Se entrega Corisco, eu não me entrego não. Não me entrego ao Tenente, não entrego ao Capitão, me entrego só na morte, com parabélum na mão.” - O Sertão vai virar mar e o mar virar Sertão.

A sequência mais famosa do cinema mundial é o” massacre na escadaria de Odessa’, no filme Couraçado Potemkin. Eu gosto mais da sequência de Glauber Rocha, nessa cena da morte de Corisco.

Ontem, reuni em lugar ermo, na mais absoluta clandestinidade, com um grupo de amigos quixotescos. A pauta: discutir as saídas, em caso de uma provável invasão do Brasil.

Após muitos discursos, debates e apartes, as teses foram aparecendo: resistência armada (ninguém sabia atirar, nem possuía drone), cavar bunker, para se proteger dos bombardeios; se entregar, sem resistência; se esconder no Raso da Catarina; refundar a Liga dos Justos; pedir asilo na China, na condição de simpatizantes.

Um grupo moderado propôs a neutralidade. A gente nem adere aos Estados Unidos, nem a China. Fica em cima do muro.

Luiz Carlos, filho do Barbeiro Vermelho, hoje evangélico, se lembrou de um trecho bíblico: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados aqueles que escolhem a neutralidade, em tempos de crise.”

Todos ali, um dia, acreditaram que o socialismo venceria. O XX Congresso condenou Stálin, caiu o muro de Berlim e Gorbachev inventou a Perestroika. A história acabou. Eles venceram...

Mas, não foi bem assim.

Para complicar, o problema é que nem a história acabou, nem os Impérios são eternos. Ainda estamos vivos, certos, que o Juízo Final está próximo. O ponteiro se aproxima da meia-noite.

Trump ganhou, e está governando como o lema: America First – Make America Great Again (MAGA). Trump começo a operar, via as tarifas. Depois foram as vias de fatos.

A Venezuela foi presa fácil. A revolução bolivariana de Chaves, que possuía uma população armada, para defender-se, entregou o seu líder e a esposa, na bandeja da covardia. Sem resistir, sem reclamar, entregaram as chaves das refinarias.

A maioria dos países latinos americanos, já passou a escritura. Quando será a vez do Brasil? Essa foi a pauta principal, da tal reunião secreta.

Começou a ficar tarde, e nada de propostas exequíveis. Tudo devaneio. Estávamos diante do colapso da civilização humana, sem saídas. Eu não disse, mas pensei: tem um lado bom. Eu sempre sonhei em assistir ao Juízo Final, pelo menos pela televisão.

Na saída, o velho esquerdista Salomé, líder do Pombal das Virgens, na Atalaia Nova, pediu a palavra: “Raul Seixas tinha uma proposta”. Raul Seixas? Todos perguntaram espantados e incrédulos. Sim, ele gravou até uma música, reforçou Salomé:

“A solução para o nosso povo eu vou dar. A solução é alugar o Brasil. Negócio bom é assim. Nós não vamos pagar nada. O dólar deles paga o nosso mingau. Vamos embora, dar lugar para o Gringo entrar.”

Quem sabe!

Marcamos a próxima reunião, para o Sábado de Aleluia. A luta contínua...

Antonio Samarone.
 

segunda-feira, 9 de março de 2026

CADA UM É PARA O QUE NASCE?


 Cada um é para o que nasce?
(por Antonio Samarone)

Logo cedo, encontrei um velho personagem da boemia itabaianense, esperando a abertura de um escritório de advocacia, na Praça da Igreja, para pedir socorro.

De cara, pressenti a bronca. A desilusão com a espécie humana estava aflorada em seu rosto. Puxei conversa, ele mal balbuciava.

Terminou me contando: a sua aposentadoria foi suspensa, esse mês. Um furo de cinco mil reais apareceu em sua conta, na CEF. Ele não entendeu a explicação do banco. Alguém próximo a ele é o principal suspeito. Ele, no fundo, sabe quem foi quem deu o golpe, mas não admite, nega, sem muita convicção.

Peloco, 86 anos, boa memória, comedido, não se lamente de nada. A vida é boa assim mesmo, ele conclui, apesar da profunda descrença no Ser Humano. Ele quer apenas que a sua modesta aposentadoria seja restabelecida. É a sua única renda.

Peloco, nasceu nas Flechas, em 01 de fevereiro de 1940. Filho de Maria Francisca dos Santos (Nini), mãe avulsa, que lhe abandonou novinho, ainda sem nome. Só foi registrado muito depois, já adulto.

A rua não perdoa. Como se chama um passarinho depenado? Peloco! O batismo dele estava feito.

“Quando, seu moço, nasceu meu rebento/ Não era o momento dele rebentar/ Já foi nascendo com cara de fome/ E eu não tinha nem nome pra lhe dar”. - Chico Buarque.

O Pai, foi um barbeiro famoso, em Itabaiana. Ele sabia que Peloco era seu filho, e vice-versa. Mas ficou por isso mesmo. O menino foi criado por Zezé Machado e Dona Maria, na Rua Nova.

Com a morte do Pai biológico, Peloco nunca reivindicou a sua parte na herança. Não por falta de conselhos: - “peça para fazer os exames de DNA.” Ele nunca se mexeu. “Direito”, para ele, é uma palavra vazia, sem sentido.

Quando precisou dos documentos, para se aposentar, o Tabelião deu-lhe um nome de personagem de Nelson Rodrigues: “Álvaro Maciel”. Até hoje, ninguém sabe o nome cartorial de Peloco. Ele próprio, às vezes se esquece.

Peloco nunca pôs os pés numa escola. Aprendeu tudo o que sabe, com a vida. Viveu de bicos e da esperteza nas casas de jogos de azar. Em Itabaiana, as cafuas eram bem frequentadas. Jogar, beber e fumar são vícios tolerados pela sociedade.

Se criou solto, nas ruas e botecos. Se tornou um temível no carteado. Peloco conhecia as cartas dos baralhos pelas costas. Se dessem o baralho para ele traçar, os demais jogadores só recebiam cartas marcadas.

Se Peloco fosse americano, teria sido um grande crupiê, nos cassinos de Los Angeles, como nasceu em Itabaiana, foi o Barão das Cafuas. Era bom no sinuca, mas longe de Alemão (Dodó), João Criano e Filadelfo de Zezé de Jones.

A vida nunca lhe ofereceu moleza: casa, comida e roupa lavada. Tudo foi incerto, mas ele não se queixa. É assim mesmo, sentencia Peloco: - “o ser humano não presta.” Ele naturalizou os sofrimentos.

Peloco tinha como justificar qualquer caminho, mas permaneceu íntegro. As trapaças nos jogos de azar é parte das regras. Passar um “caga fogo” no dominó é esperteza.

No futebol, Peloco foi o Gerson – canhotinha de ouro das peladas. Ele foi o melhor jogador do Mangueira, da Rua Nova, treinado pelo célebre Josafá Mão de Onça.

Enquanto puxo pela memória, para rabiscar essas mal traçadas linhas, me bateu um peso na consciência: vou acompanhar essa catástrofe financeira de Peloco.

Enquanto as redes sociais espantam-se com os mimos do Banco Master, para os mandarins da República, Álvaro Maciel (Peloco), não tem como fazer a feira.

A sua aposentadoria continua suspensa.

Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras

sábado, 7 de março de 2026

A FORÇA DO MATRIARCADO - 08 DE MARÇO.

A Força do Matriarcado - 08 de março.
(por Antonio Samarone)

A força social das mulheres é raramente realçada. Sabe-se que somente 2 capitanias hereditárias prosperaram: São Vicente e Pernambuco. O que não é dito, é que ambas, eram administradas por mulheres. São Vicente por Ana Pimentel e Pernambuco por Brites de Albuquerque.

Em Itabaiana, as mulheres sempre estiveram na vanguarda. O presbítero Marcos Antonio de Souza, em suas memórias da Capitania de Sergipe (1808), noticiou sobre as mulheres Itabaianenses:

“São industriosas as mulheres de Itabaiana; suas grosseiras manufaturas constituem o principal comércio de seus maridos e toda a vantagem de seu país. Levam os itabaianistas para os sertões altos vinte mil varas de pano de algodão, que se reputam em valor metálico dez mil cruzados.”

“Com grande trabalho fiam o algodão em uns fusos movidos com os dedos e uma pessoa mal pode fiar no espaço de um dia um quarto de libra. Depois do fiado a dispõem em teias e uma diligente tecedeira desde a manhã até a noite tece libra e meia do fio, ou nove varas do pano de algodão.”

Quem desconhece essas raízes, espanta-se!

Em Itabaiana, a descendência, a herança das terras, o nome das famílias, são transmitidas através da linhagem feminina (matrilinear). Isso pressupõe uma secular igualdade de gênero. Exemplos: João de Zé de Ana; Zé de João de Sá Joaninha, Tonho de Chico de Miguel de Maria de Carrola... Quase todos os nomes familiares, terminam numa matriarca. Têm uma mulher como referência.

Em Itabaiana, entre os empresarialmente bem sucedidos, a presença feminina é destacada. As mulheres estão na linha de frente nas gerências, profissões liberais, nas feiras, música, arte e poesia. No magistério e na medicina elas são maioria.

Nos costumes, um aspecto me chama a atenção.

A Capital Nacional dos Caminhoneiros, possui um trânsito intenso. Itabaiana, com 110 mil habitantes (estimativa - IBGE), possui 49 mil motos em circulação: (28 mil motocicletas, 11 mil motonetas e 10 mil cinquentinha). Como referência, a cidade possui 18.500 automóveis, num total de 81 mil veículos registrados.

Não precisa fazer as contas para concluir: as motos dominam os meios de transporte. Eu sei, o transporte em veículos de 2 rodas nem é o mais seguro, nem é o mais confortável. Mas essa é a realidade, em Itabaiana. Talvez a liberdade e a rapidez, pesem a favor das motos. De todo o jeito, se fossem mais 49 mil automóveis, o trânsito travava.

As mulheres predominam, em Itabaiana, nessa opção de transporte?

As mulheres são quase maioria no uso dessas motos. Nada intimida as mulheres. Todas, senhoras de certa idade, gordas, magras, fazem quase tudo de moto: levam os filhos na escola, compram e vendem, vão à feira e as missas, tudo de moto. Trabalham e passeiam de moto.

Eu sei que os “caga-raiva” vão dizer: “é assim em todo o canto.” Não, na proporção de Itabaiana, não.

Eu enxergo essa força feminina em Itabaiana, há muito tempo. Mamãe nunca leu Betty Friedan, nem Simone de Beauvoir, mas sempre foi dona do seu nariz, mandava e desmandava em quase tudo. Papai que cuidasse, em obedecê-la.

Mamãe nunca soube do 08 março. Desconhecia a marcha das mulheres, pela jornada de 8 horas, em Nova Iorque; desconhecia Clara Zetkin; desconhecia o incêndio da fábrica de tecidos, ondes as mulheres foram sacrificadas; mas conhecia os seus direitos e lutava por eles.

Mamãe não andava de moto, não tinha nem bicicleta. Mas amansava burro brabo.

Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras
 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

UMA LOUVAÇÃO A INTELIGÊNCIA

Uma louvação a inteligência.
(por Antonio Samarone)

Ontem, a Academia Itabaianense de Letras concedeu uma Comenda ao Dr. Átalo Crispim de Souza. A Comenda é concedida anualmente, a um itabaianense destacado positivamente na sociedade.

O destaque do Dr. Átalo é a sua reconhecida inteligência.

Os céticos indagaram: o que seria essa inteligência? Essa pergunta foge a objetividade. Geralmente, a inteligência se manifesta em áreas específicas: “Fulano é muito inteligente em matemática, música, comercio, política, etc.

A homenagem à inteligência do Dr. Átalo foi genérica. Como justificar, sem cair no senso comum: eu sei que ele é inteligente, mas não sei explicar. Os conceitos de inteligência são subjetivos.

Quando se tenta avaliar objetivamente, caímos no besteirol de medir o “QI”. O sujeito responde a um questionário, faz associações e preenche um quebra cabeça. No final, recebe uma nota. É o seu quociente de inteligência (QI). A nota máxima é cem.

O senso comum atribui a inteligência aos bem-sucedidos. Uma pessoa que sai do zero, se mete em uma atividade e, por talento próprio, fica rico, o título de inteligência é logo outorgado pela sociedade. Fulano é muito inteligente.

Ser bem-sucedido na escola, já foi critério de inteligência. Hoje, nem tanto. O bom aluno, bom profissional após formado, mas se não se tornar famoso e não souber ganhar dinheiro, a sua inteligência é vista com desconfiança. Pergunta-se logo, de que serviu ser inteligente?

Portanto, a Comenda do Dr. Átalo, por sua inteligência, gerou polêmica. Um imortal cobrou realizações palpáveis. Fez o quê?

Na fala de agradecimento a Comenda, o doutor Átalo discordou da fama que possui. Disse, que a sua virtude era a curiosidade. Sempre quis entender o mundo. Rejeitou e pôs em dúvida, a sua propalada inteligência.

Fez bem, a humildade é inseparável da inteligência. A vaidade é filha da burrice.

A biologia define a inteligência como um recurso de sobrevivência a variações do meio ambiente e da sociedade. A inteligência é uma estratégia para a competição evolutiva. Os bem sucedidos evoluem e deixam descendência.

Durante a solenidade, ouvi cochichos: “a Academia está fora do tempo, elogiar a inteligência humana, um recurso analógico, sujeito a enganos; quando se sabe, que a inteligência artificial (IA), já esmagou a irmã natural.”

Aqui o debate pegou fogo.

A falta de clareza é maior na IA: que peste é inteligência artificial? O cientista brasileiro mais conhecido no mundo, Miguel Nicolelis, nega a sua existência. Ele diz que a IA, nem é inteligência, nem é artificial. Eu não entendo direito.

Quanto mais leio e escuto, a confusão aumenta. Que a IA existe, eu suponho, mas o que é, eu não sei. Sei que a IA sabe quase tudo de muita coisa. A IA elabora teses, traduz hieróglifos, escreve livros, faz poesia e conta piadas. Na medicina, coitados dos médicos, ficam distantes em conhecimentos.

Eu sei que a “IA”, compõem músicas de qualidade, em segundos. Há um Chico, um Gil e um Caetano em cada iPhone.

O Restaurante de Dona Marizete do Capunga, importou um fogão inteligente, da China. Basta ele programar qualquer prato, disponibilizar os ingredientes, que o prato sai sem erros e o ponto na hora certa. As receitas estão no programa.

Soube que o fogão inteligente de Dona Marizete, faz até quebra-queixo, dar o ponto no doce de barata, faz amarradinho, rabada e costela de boi defumada. Assa tripa de porco e faz buchada de bode.

Soube que a pichilin noz-moscada, vendida na banca de Vadinho de Nilo Base, na feira de Itabaiana, é produzido pela IA. Já se falsifica até a castanha do Carrilho.

Uma covardia com as cozinheiras de forno e fogão. Em breve, cada banca de frito e sarapatel no mercado de Itabaiana, vai ter um fogão inteligente.

Eu não sei como funciona, mas a IA existe. Parece assombração. Os pedantes sintetizam: são os algoritmos! Sim, mas o que são esses algoritmos? Quase uma tautologia.

Sair da solenidade do jeito que entrei: admirando a frágil inteligência humana e, convencido, que o Dr. Átalo herdou e cultivou, uma generosa fatia dessa antiga inteligência.

Antonio Samarone – membro da Academia Itabaianense de Letras e outros penduricalhos.
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O INCONSCIENTE COLETIVO

O Inconsciente Coletivo.
(por Antonio Samarone)

A cultura na Itabaiana agrária, primeira metade do Século XX, era restrita a música (filarmônica) e a fotografia (Miguel Teixeira, Joãozinho Retratista, Paulo de Dóci e Percílio Andrade).

Depois vieram os cinemas, (Zeca Mesquita e do Padre); o circo/teatro, (com Zé Bezerra); a tourada, com Geraldo Sem Medo e o mamulengo, com Rafael dos Penicos.

As principais festas eram religiosas (o Natal e as Trezenas de Santo Antonio).

Bailes, recitais, saraus e folguedos eram em recintos privados. As festas na casa do maestro Esperidião Noronha, foram as mais famosas.

Com a força econômica do comércio, uma elite, liderado pelo Dr. Gileno Costa, criou a Associação Atlética. As festas passaram para o novo clube, tendo à frente, Abraão Crispim. Eu, lá, nunca pus os pés. Para ser preciso, participei de um concurso de beleza masculina. Não perguntem o resultado.

O ilustrado Cibalena (Luciano de Oliveirinha), dividiu culturalmente a Itabaiana daquele tempo, em duas Zonas, em conflito: a praça da igreja, ruas do Sol e das Flores – dos bem nascidos; e o Beco Novo, do povo em geral.

Para se contrapor ao Clube da Praça (Atlética); os comunas, liderados por Tonho de Dóci e Renato Mazze Lucas, criaram o Clube dos Trabalhadores. No quarto quarteirão do Beco Novo.

Sapateiros e alfaiates tiveram a sua casa de bailes. O Beco Novo, liderava no futebol (três campos) e a Praça, nas festas.

Nascia em Itabaiana o embrião do lazer e do entretenimento, anteriores a cultura de massas. Os cinemas de Zeca Mesquita e do Padre eram casas cheias.

Antes da televisão, a indústria cultural chegou timidamente a Itabaiana, pelos cinemas, rádios, grafofones (invenção de Graham Bell) e dos gramofones (vitrolas): as pornochanchadas de Ankito, Zé Trindade e Grande Otelo; os faroestes americanos; Tarzan e Mazaropi.

Os filmes podiam ser de guerra, amor, espada, cowboy, terror, comedia e brasileiros. Os filmes deveriam ter um final feliz. Não se perdoava a morte do artista.

Os discos, foram os primeiros produtos da indústria cultural, disponíveis para os endinheirados. Os discos eram caros. Abrahão Crispim assombrou, quando abriu o “Casbão, a primeira loja de discos em Itabaiana. Foi motivo de orgulho cívico.

A cultura era rigorosamente dividida em alta cultura e cultura popular. Depois, a indústria cultural criou o “kitsch”, para satisfazer a demanda do mercado.

O cinema (sétima arte), foi usado para aproximar a chamada alta cultura da cultura popular. Os filmes cult eram produtos culturalmente sofisticados, geralmente ignorados pelas bilheterias.

Nas décadas de 1950/60, houve um surto de cultura erudita, em Itabaiana: Dona Ritinha Noronha, filha do Maestro Esperidião, esposa de Álvaro de Antonio Agostinho, abriu uma escola de piano. Ter um piano em casa, era um sinal de distinção e bom gosto musical.

Tinham o piano e sabiam tocar. As casas que possuíam piano, na década de 1960, em Itabaiana:

Marilene Lobo, irmã de Djalma; Terezinha Correia, professora de canto orfeônico; Maria de Toinho de Libânio; Marcelino Andrade; Zeca Araújo; Seu Xavier; Tenisson Oliveira, da farmácia; Dr. Ormeil Oliveira (doado ao museu); Colégio Dom Bosco (professora Irmã Elvira e Dona Nicinha); Dona Linda, esposa de Irineu; Nicinha Noronha, esposa de Edson Leal e Dona Zizi, esposa do Coletor Josafá. 

A professora Lenita Porto, ensinou piano. Outras casas onde existiam pianos: Maria de Tonho de Libânio, Marcelino Andrade, Zeca Araújo, Seu Xavier, Tenisson de Oliveirinha e Dona Zizi, esposa de Josafá,  

Esse levantamento foi realizado por Marcelino e Carlinho Siqueira.

É um bom indicador, do nível de interesse pela música erudita. A centenária Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, só adquiriu os seus pianos no século XXI.

Isso tudo, foi ontem.

Hoje, a indústria cultural hegemonizou o entretenimento. Nessa era digital, dominada pelas telinhas, redes sociais e inteligência artificial, os talentos tornaram-se raros e efêmeros.

O inconsciente coletivo foi capturado pelos algoritmos.

Antonio Samarone (membro da Academia Itabaianense de Letras).
 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O GUARDA-LIVROS

O Guarda-Livros.
(Por Antonio Samarone)

Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada./ À parte isso/ tenho em mim/ todos os sonhos do mundo!” – Fernando Pessoa.

O sucesso do comércio em Itabaiana, em parte, deve-se aos seus escriturários. Sem exageros, o contador é um profissional quase mágico. Compete-lhe, dentro da lei, arrumar o desarrumado, por ordem na contabilidade e ajustar a equação débito/crédito. Sempre em busca de “brechas” para a redução dos impostos.

“Mesmo o mal feito, precisa ser bem feito.” Dizia o filósofo Dedé Cachaça.

As ciências contábeis chegaram a Itabaiana, em 1959. O Coletor Federal Josafá Pereira de Farias, alagoano, criado no Betume, em Sergipe, foi transferido para Itabaiana. De imediato, sentindo a carência, montou o primeiro escritório de contabilidade.

Antes, os guarda-livros eram improvisados. Toda grande empresa, possuía um funcionário de confiança, para ajustar as contas, anotar as compras e vendas. Creio que o ex Prefeito de Itabaiana, Serapião Antonio de Goes, quando funcionário do armazém de Euclides Paes Mendonça, exercia as atribuições de um escriturário.

O Dr. Vladimir Carvalho, nossa enciclopédia, lembra-se de outros dois contadores, anteriores ao Coletor Josafá: Seu Walter e Pedro Pires. Esse último, residia em Aracaju e ia à Itabaiana nos dias de feira, prestar os serviços contábeis.

Depois, o Cônego Soares criou uma Escola Técnica de comércio, em Itabaiana, para formar contadores. Em pouco tempo, seis escritórios estavam funcionando: Tonho de Gustavo; José Máximo, irmão do Veio Belo; Miburge/Airton Neguinho, Maria do Carmo, esposa de Gilberto de Gonçalo e Antonio Batista.

Antonio Batista, estava nessa primeira turma de contadores, em Itabaiana. Comenta-se que hoje, existam mais de cem escritórios de contabilidade em atividade.

Antonio Batista dos Santos (foto), nasceu no Pé da Serra do Belinho, na Fazenda Jacoca, de propriedade paterna, em 16 de abril de 1949. Filho de Manoel Brás e Dona Felismina. O pai era um grande proprietário rural.

Tonho Batista, da fértil cepa da Maitapoan, veio morar na cidade, aos sete anos, ajudar ao irmão Luiz, numa bodega. Estudou o primário com Maria de Branquinha e na Escola do Padre. Foi aluno de Maria Pereira.

Antonio Batista, foi aluno do lendário Colégio Murilo Braga. Depois, dedicou-se aos afazeres da contabilidade. Abriu o seu escritório em 15 de setembro de 1970, as sete horas da manhã. De lá para cá, sempre vigilante, cuidando bem de uma clientela cheia de empecilhos.

Tonho Batista, casou-se com Dona Maria Josefa dos Santos, em 29 de maio de 1979. Tiveram três filhos: Manuel, Mário e Marilia.
A profissão de Guarda-livros (nome antigo), remonta Mesopotâmia, onde as colheitas e os rebanhos eram registrados em tábuas de argila.

A publicação de “Summa de Arithmetica”, em 1494, por Luca Pacioli, deu ares científicos a contabilidade.

O competente Antonio Batista, moureja em seu escritório de contabilidade há 57 anos, sempre no caminho certo, prestando um serviço de grande valia para o próspero comércio Itabaianense.

Há quem pense, ser o trabalho contábil uma rotina monótona e enfadonha. Só relembrando: o maior poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa, foi auxiliar de guarda-livros, em Lisboa.

O clássico, “Livro do Desassossego”, é um diário de Bernardo Soares, Semi-Heterônimo de Fernando Pessoa, em seu trabalho de auxiliar de guarda-livros. Na verdade, uma autobiografia do poeta.

Antonio Batista não virou poeta, mas é um observador afiado da vida itabaianense, reforçando a fama da inteligência da gente da Maitapoan.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana)
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FERREIROS E FOGUETEIROS

Ferreiros e Fogueteiros.
Por Antonio Samarone.

Parodiando Manuel Bandeira: “Vou-me embora para Itabaiana/ Andarei de bicicleta/ Montarei em burro brabo/ Subirei no pau-de-sebo/ Tomarei banhos de rio!/ E quando estiver cansado/ Deito na beira do rio Jacarecica e chamo a mãe - d’água/ Pra me contar as histórias/ Que no tempo de eu menino/ mamãe me contava.”

Em 1808, Napoleão enxotou a Família Real e 15 mil Nobres e Fidalgos, para o Brasil. Portugal foi abandonado, por sua elite. O povo emigrou logo em seguida. Entre 1836 e 1890, quase 400 mil portugueses deixaram o país, a absoluta maioria, procurando o Brasil.

A transferência da Coorte para o Brasil e o empobrecimento de Portugal levaram a uma onda massiva de imigração para o Brasil.

O ferreiro João José de Oliveira, natural do Minho, Norte de Portugal, vizinho da Galícia, embarcou nessas caravanas. Ele chegou a Maithapan, passando por São Cristóvão, com a sua bigorna de ferro meteorito e um fole surrado, por volta de 1849.

Era um pequeno proprietário rural pobre, rude, originário do norte de Portugal, da região do Minho. Sabia ler e escrever. O ferreiro João José de Oliveira, ao desembarcar no Porto da Bahia, vestia polaina de Saragoça, calção e colete de baetão, encarnados, com seus corações e meias.

O Ferreiro era um ofício mágico, que manipula o ferro e o fogo. Todo o ferro primitivo vinha dos meteoritos, oriundos do "alto", do Céu, por isso, compartiam a sacralidade celeste.

João José desembarcou com um pau às costas, duas réstias de cebolas, e outras tantas de alhos, e uma trouxinha de pano de linho debaixo do braço. Eram os seus pertencem. Chegou sem cabedal.

Os ferreiros primitivos trabalharam apenas o ferro meteórico, muito tempo antes de aprenderem a utilizar os minerais ferros os encontrados à flor da terra. A fusão dos metais era desconhecida.

João José trouxe um facão de ferro meteorito, perdido com o tempo, pelo desconhecimento de sua importância. Eu cheguei a ver esse facão, na Tenda de Pai Totonho.

Quando Cortês perguntou aos chefes astecas de onde tiravam as suas facas - eles lhe apontaram o céu. Como os maias do Iucatã e os incas do Peru, os astecas só se serviam do ferro meteórico: é por esse motivo que lhe davam mais valor do que ao ouro.

João José chegou a Maithapõa com uma bigorna de ferro meteórico, metal do céu, que se mantém em condições de uso. Ouvia-se a esplêndida sonoridade da sua bigorna, às léguas de lonjura.

Ao contrário da metalurgia do cobre e do bronze, a do ferro não tardou a tornar-se industrial. Uma vez descoberto, ou aprendido, o segredo de fundir a magnetita ou a hematita, não se teve dificuldade em conseguir abundância de metal, porque as jazidas eram muito ricas e bastante fáceis de explorar.

Ao lado da sacralidade celeste, imanente aos meteoritos, estamos agora em presença da sacralidade telúrica, de que participam as minas e os minerais.

O ferreiro é, antes de tudo, um trabalhador do ferro, e a sua condição de nômade - uma vez que ele se desloca continuamente à procura do metal bruto e de encomenda de trabalho - leva-o a entrar em contato com diferentes populações.

João José de Oliveira, esbarrou na Maithapan. O ferreiro é o principal agente de difusão de mitologias, ritos e mistérios metalúrgicos.

As ferramentas dos ferreiros participam igualmente da sacralidade. O martelo, o fole, a bigorna apresentam-se como seres animados e miraculosos: gozam da reputação de poder operar por sua própria força mágico-religiosa, sem a ajuda do ferreiro.

Faz todo sentido, quanto também se chama de fole, a sanfona de oito baixos.

O alquimista, tal como o ferreiro, e, antes dele, o oleiro, é um "senhor do fogo". É pelo fogo que ele opera a passagem da matéria de um estado a outro.

Tal como os xamãs, também os ferreiros são tidos como "senhores do fogo". Dessa maneira, o ferreiro é considerado, em certas zonas culturais, como igual ou até superior ao xamã. "Ferreiros e xamãs vêm do mesmo ninho", diz um provérbio chinês.

Zentonho Ferreiro, o caçula de João José, cauteriza uma ferida braba, em sua perna, com o ferro quente, saído diretamente da sua forja.

A mulher de um xamã é respeitável; a de um ferreiro é venerável. O primeiro ferreiro, o primeiro xamã e o primeiro oleiro eram irmãos de sangue. O ferreiro era o mais velho e o xamã o do meio. Isso explica por que o xamã não pode provocar a morte de um ferreiro."

Os chineses atribuem aos ferreiros o poder de curar por meios naturais, e não com a assistência dos espíritos, como fazem os xamãs.

A cada nove gerações, um ferreiro dispõe de poderes sobrenaturais; já não teme os espíritos e é por isso que ousa forjar os objetos de ferro que adornam o traje do xamã (o ruído do ferro afasta os espíritos).

A forja é venerada como lugar de culto, e onde não existe uma casa especial para as preces e para as assembleias é na forja que se realizam as reuniões.

Os ferreiros ocupavam uma posição social bastante elevada; o seu ofício não era considerado comercial: tratava-se de uma vocação ou de uma transmissão hereditária, que implicava, por conseguinte, segredos iniciatórios.

Os ferreiros são protegidos por espíritos especiais. A sua arte é uma dádiva do "profeta Davi", e é graças a isso que ele tem de ser puro, tanto física quanto espiritualmente.

Essa é a nossa herança.

Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras.

Quem quiser ir fundo, leia “Ferreiros e Alquimistas – Eliade Mircea”, um clássico.
 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O PÉ DO VEADO

O Pé do Veado
(por Antonio Samarone)

A noroeste do município de Itabaiana, vizinho a Moita Bonita, os povoados Pé do Veado, Várzea do Gama, Água Branca e Terra Vermelha possuem as mesmas raízes históricas. Desde a segunda metade do Dezenove, abasteciam parte de Sergipe – Laranjeiras, Maruim, Vale do Cotinguiba, Sertões e a Capital, Aracaju.

São minifúndios produtores de alimentos. Parte desses produtores, eram comerciantes nos finais de semana, muitos com pontos fixos (grades) nos mercados do Aracaju.

O Pé Veado foi a encruzilhada dos tropeiros, que dava o Rumo, para a estrada da Boca da Mata, porta do Sertão e para Roque Mendes, em Riachuelo, onde os produtos passavam para os Saveiros, com destino ao mercado do Aracaju.

A fama de Cidade Celeiro, se deve em boa parte, ao Pé do Veado e adjacências. A produção e distribuição dos alimentos em Sergipe, dependiam de Itabaiana. Hoje, só a distribuição: não se come uma cenoura em Sergipe, sem que ela tenha passado por Itabaiana.

A partir da segunda metade do Século XX, a maioria dos comerciantes, que dominavam a economia serrana e além-fronteiras, foram oriundos da região do grande Pé do Veado.

Como a riqueza passou para o comércio, os políticos (Vicente de Belo, Chico de Miguel, João de Zé de Dona e Valmir de Francisquinho) que emergiram nos últimos 50 anos, em Itabaiana, são da mesma origem econômica e da mesma região.

Um pouco antes, Euclides Paes Mendonça era da Serra do Machado, a época, Itabaiana; e Manoel Teles da Cova da Onça. Todos, comerciantes...

O grande Pé do Veado foi o berço dos políticos, em Itabaiana.
O Pé do Veado, antes, foi uma terra de tropeiros.

O tradicional Cemitério do Rumo, é tomado por pequenas capelas mortuárias (foto), familiares, ainda domina a paisagem do povoado. Aliás, o Pé do Veado, ainda possui um cemitério particular, dos “Peixotos”. Os dois lotados. A Prefeitura está ampliando o Cemitério do Rumo (público).

O Pé do Veado foi a terra de Francisquinho de Nanã, um artista que produzia peças móveis, em movimento: casas de farinha, carros de boi, brinquedos. Um artista, que não pode ser esquecido.

A terra do professor Zé de Bila, um educador sensível e dedicado a comunidade. Terra do “descamisado”, Zé Carlos, que organizou um restaurante típico, exótico, que mesmo com a sua morte, o restaurante continua sendo uma atração.

Soube que, recentemente, faleceu Arnaldo de Tonho de Sabino, o pioneiro do Futebol no povoado. Residia no Rosa Elze, em São Cristóvão, onde tinha um mercadinho.

O Pé do Veado foi o povoado dos políticos e comerciantes. A Maithapan dos intelectuais.

Flechas, Sambaíba e Caraíbas são fronteiras entre duas regiões citadas. Na segunda metade do Dezenove, derrubaram as matas, para plantarem algodão. Como fizeram, os atuais municípios de Ribeirópolis e Frei Paulo, à época, território de Itabaiana Grande.

A Prefeitura de Itabaiana está realizando a pavimentação asfáltica da cidade ao Pé do Veado. Um reconhecimento da força e da importância econômica e cultural da região.

A antiga estrada da Boca da Mata, do Sertão de Canindé, será pavimentada. Se houver criatividade, um roteiro turístico. Trilha dos tropeiros.

A vocação itabaianense pelo transporte vem de longe: dos tropeiros aos caminhoneiros e dos feirantes aos comerciantes. Uma terra de negociantes, gente vocacionada para o empreendedorismo.

A estrada das Flechas levava ao sertão de Canudos, a do Pé do Veado a Boca da Mata (Glória e Canindé). A estrada de São Cristóvão passava no Bairro São Luís, a de Laranjeiras, no Beco Novo e a estada Real – Salvador/Olinda, cruzava Itabaiana de leste ao oeste.

Sem ir muito fundo, a formação do itabaianense, a sua cultura, o seu modo de vida, é um amálgama dos vários povoados e municípios vizinhos. Cada recanto, com os seus modos. Existe uma identidade cultural do Agreste, pouco estudada e pouco valorizada pelos intelectuais da Zona da Mata (Aracaju, Laranjeiras, Japaratuba e São Cristóvão).

O Agreste e o Sertão sergipano não são contemplados pelo política cultural do Estado. Aliás, nunca foram. Os tropeiros do Pé do Veado e os vaqueiros do Sertão são esquecidos pelas Academias.

A Prefeitura de Itabaiana, através da Secretaria Municipal da Cultura, está resgatando parte dessa memória. Ainda não descobri de onde vem o nome, Pé do Veado.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

OS DOCES DA VÁRZEA DO GAMA

Os doces da Várzea do Gama.
(por Antonio Samarone).

A culinária é uma herança cultural.

Em Itabaiana, os bijus e manuês dominam os doces. Uma tradição indígena. Os portugueses enriqueceram com ovos, leite, açúcar e gorduras. Antes, os manuês eram apenas de milho, consumidos nas festas juninas.

Para quem não é daqui, manauê é um tipo de bolo ancestral, sem farinha-do-reino.

No povoado Várzea do Gama, seu Luís e dona Lúcia aperfeiçoaram os manuês, variaram os sabores e odores. Hoje, além do milho, eles produzem manuês de puba, aipim, leite e arroz.

Gente, a culinária nos leva as raízes. Vale a pena, uma visita. A Prefeitura de Itabaiana está asfaltando até o Pé do Veado. É rodar no macio.

Soube que o Governo do Estado vai asfaltar do Pé do Veado a Ribeirópolis. A antiga estrada da Boca da Mata, entra no roteiro turístico da culinária indígena.

Dona Lúcia e Seu Luís são patrimônios da Cultura Itabaianense.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

CRISTÃO NOVO.

Cristão Novo.
(por Antonio Samarone)

Final do século XIX: a vida nas matas de Itabaiana, não era para mofinos. Os Oliveiras, descendentes de João José de Oliveira, cristão novo, do Norte de Portugal, ferreiro de profissão, ocuparam a Maithapan, com fama de forçudos e valentes.

João de Oliveira (João de Benicio) – 88 anos, advogado em Itabaiana por 40 anos, inteligência cortante e fina ironia, descende dos Oliveiras, por pai e mãe. Dona Joana Maria de Oliveira (a mãe) é filha de Benvindo Francisco de Oliveira (famoso pela valentia) e Benício José de Oliveira (o pai), é neto de João José.

Benvindo era o ferreiro mais perverso. Conta-se de boca em boca, que ele foi sepultado num formigueiro, no mourão da cancela do seu sítio, (como vingança, por ele fazer o mesmo com a primeira esposa). Para quem duvida, a sepultara permanece no mesmo local.

João Benicio foi procurador concursado do município de Itabaiana e assessor parlamentar, da Câmara de Vereadores.

A origem judaica dos Oliveiras da Maithapan, não precisa do DNA, tá no semblante. O nariz aquilino é uma marca. (veja a foto). A lenda da origem judaica, do espírito mercantil dos ceboleiros, é mais que uma lenda.

João de Benicio nasceu em 17 de outubro de 1938. Não fez as primeiras letras. Entrou direto no Ginásio. Para se fazer o exame de admissão, bastava uma declaração de apto, prestada por uma professora. Os mestres possuíam fé pública. Ele foi aprovado direto, passou no exame de admissão.

João foi mecânico, na oficina do seu Aniceto. Precisando de tempo para estudar, virou alfaiate, discípulo do mestre Antonio de Lídia. Se tornou um alfaiate disputado.

Entretanto, o sonho de João de Oliveira, era a carreira militar. Dedicou-se a música, aluno do Maestro Antonio Silva. A música era uma senha para a carreira militar. João tocava vários instrumentos.

Quando João se apresentou ao exército, teve uma profunda decepção. Foi dispensado por incompatibilidade física. O peso mínimo exigido para soldado, era de 48 kg. João só pesava 43 kg. Um sonho desfeito por 5 kg.

Antes, João tentou engordar.

Dr. Pedro Garcia Moreno prescreveu uma dieta infalível: rapadura, mel de engenho, tutano, rabada e toucinho de porco. Não deu certo. O doutor chegou a um diagnóstico definitivo: João não engorda, tem carne de carcará.

João tentou ser médico. Fez o vestibular e não passou. Foi o 3º excedente. Deu um grande azar, nesse ano, os vestibulares nos estados tiveram a sua data unificada. Antes, se fazia vários vestibulares, em locais diferentes. Os melhores alunos, passavam para várias faculdades. Sempre se abria vagas em Sergipe.

Sem descuidar dos estudos, João voltou à máquina de costura.
Não sei se por brincadeira, o único advogado da cidade, Bosco de Jubal, resolveu apreender a arte da alfaiataria. Por pirraça, João decidiu ser advogado. Se é concorrência, vamos nessa. João virou advogado.

Além de advogado militante, João foi professor de história, no Murilo Braga, chegando a ser diretor do Colégio Estadual César Leite. João, foi pau para toda obra. Uma boa prosa, culto, engraçado, religioso e competente.

Um homem movido por princípios. João nunca tomou partido na política local. Por circunstâncias, na gestão do Prefeito Filadelfo e Josias, vice, ambos alfaiates, o MDB era tão pequeno em Itabaiana, que João de Benicio chegou a presidência do Partido.

João passou por três casamentos: Marlene, de Pedro Brilhante, Júlia e vive com Maria Tomico Uelda. Tem duas filhas: Telma e Acácia.

Os cristãos novos da Maithapan, além dos Oliveiras, também são Andrades, Teixeiras, Machados e Pereiras. Afirmo, João de Benicio (João de Oliveira), reforça a fama da inteligência dos cristãos novos.

Fiz essa entrevista com João, acompanhado do historiador Almeida Bispo, para que não houvesse distorções. Só a memória refinada das raízes itabaianenses.

Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

APONTAMENTOS MÉDICOS

Apontamentos Médicos.
(por Antonio Samarone)

A primeira instituição médica privada em Sergipe (1963), foi a Clínica Santa Maria, o Hospício de Hercílio Cruz, nas imediações da Rua Acre.

Em 1964, existiam registrados no CRM -SE, cento e poucos médicos. A população sabia o número do telefone e a placa dos carros de todos eles. O prestígio social dos médicos, padres e professores era o prestígio atual dos delegados, juristas e magistrados.

No início da década de 1970, encontravam-se no exercício da medicina, em Aracaju:

1. Instituto de Radiologia Clínica Dr. Itazil Benicio dos Santos – Rua de Lagarto/ Laranjeiras. Dr. José Maria Rodrigues Santos.

2. Clínica Infantil São Domingos Sávio – Av. Ivo do Prado. Hyder Gurgel, Bráulio de Abreu e Josué Duarte.

3. Clínica Santa Lúcia – Rua Campos, 76. Hugo Gurgel, Ciro Tavares e Gileno Lima.

4. Clínica Infantil e de Medicina Preventiva – Parque Olímpio Campos. Paulo Carvalho, Jaci Carvalho, José Lisboa e Ana Andrade.
Entre os médicos que exerciam a medicina liberal, em seus consultórios:

Ginecologia – Albino Figueiredo, Gilvan Rocha e Ildete Soares Caldas (atendiam no Hospital São José).

Ginecologia e obstetrícia – Agnaldo Fonseca, Paulo Emilio, Dalmo Melo, Carlos Melo, Aristóteles Silva e Aldemar Reis.

Ortopedia – Clodoaldo Araruna. Dermatologia – Fedro Portugal. Pneumologia – Paulo Faro. Neurologia – Tarcísio Carneiro Leão.

Doenças das Senhoras – Maria do Céu Pereira Santos.

Cirurgia Plástica – José Olino. Clínica médica – Antonio Garcia e Luís Bosco. Pediatria – Margarida Franco e Simone Matos. Alergia – Walter Cardoso.

Marcos Aurélio Prado Dias – Clínica e Cirurgia. Zulmira Freire Resende – Clínica médica. Álvaro Santana – oftalmologia. Lauro Porto – otorrino; Francisco Rollemberg – Clinica Cirúrgica Urologia:

Eduardo Vital Santos Melo – psicoterapia.

Não sei predizer o futuro da prática médica, nem a sua relação com a Inteligência Artificial.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A TABA DE MATIIAPOAN


 A Taba de Matiiapoan, berço da inteligência.
(por Antonio Samarone)

A polêmica começa com o nome, como se escreve? Para Sebrão, o certo é Matiapoan. Fazer o quê? O povo antigo chamava de Maithapã. Matapoã, é o nome oficial. Matapoam?

Quais as origens, dessa comunidade, berço da inteligência ceboleira.

Sebrão, o Sobrinho, enxergou uma origem indígena:

“Às margens do Riacho Canabrava, grandes fogueiras acesas e enormes batuques indicavam reunião do supremo conselho dos chefes das tabas abais, os bravos morubixabas, os príncipes das selvas Boimés...”

“Matu” significa coisa insignificante, pequena; e “apoam” arredondada, gente gorda, sem pescoço, cintura mal formada e enormes batatas das pernas. É a caricatura do povo de lá.

Na metade do século XIX, chegaram os "Oliveiras", ferreiros que trouxeram a arte de Portugal.

O patriarca, João José de Oliveira, cresceu e multiplicou. Gerou os ferreiros. Os "Oliveiras", eram bem formados de feições, gente bonita, atléticos, esbeltos e com uma força física descomunal.

Desentortavam um armador de ferro, com a força das mãos.
Todos os filhos de João José (12), sabiam ler e escrever.

Um povoado rico. Em poucas horas de estadia, Lampião arrecadou 4 vezes mais, que em sua passagem por Capela.

Para evitar esquecimentos, não citarei os seus filhos ilustres. Centenas, milhares...

Faço uma convocação, aos descendentes dos "Oliveiras e Andrades", da Matiapoan. No dia de São José, 19 de março, vamos voltar as raízes, comemorar a saga dos ferreiros. Depois, um almoço por adesão, na carne de sol do Domício.

Na ocasião, a Prefeitura de Itabaiana vai inaugurar uma bela Praça e a pavimentação asfáltica da estrada que liga o povoado a BR – 235.

Antonio Samarone.
(Membro da Academia Itabaianense de Letras)

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A CULTURA DO FUTEBOL


 A Cultura do Futebol
(por Antonio Samarone)

A Itabaiana agrícola, produtora de alimentos, celeiro de Sergipe, predominou na primeira metade do século XX. Uma sociedade rural, isolada, voltada para a economia de subsistência.

Conta-se que o alfaiate Órpilio, dizia que só se interessava pelo que ocorria até o Rio das Pedras. Justificava o Mestre: “Do Rio das Pedras para lá, ninguém nunca me encomendou um terno”.

A política era o caminho para se proteger os amigos e perseguir, de todas as formas, os adversários. A divisão entre os de cima e os de baixo, o nós e o eles. Uma paixão política odienta, era disseminada entre as partes.

No final da década de 1960, as disputas políticas em Itabaiana, terminaram em um banho de sangue. A sociedade, dividida, buscava vingança. A violência encontrou solo fértil. Itabaiana, baixou a cabeça.

No final da década de 1960, um pequeno grupo, refundou o futebol. A Associação Olímpica de Itabaiana, assumiu uma missão: reunificar a cidade. O Itabaiana passou a ser bem mais que um time de futebol, se tornou a cidade de chuteiras.

Na letra do Hino do Itabaiana, Alberto Carvalho deixa isso claro num verso: “Somos Itabaiana, cidade – celeiro!”. O time era a cidade.

O futebol ajudou a cidade dividida, fragmentada, a afirmar-se como uma comunidade única. A invejada autoestima dos itabaianenses, ressurgiu forte e ousada.

O crescimento econômico precisava de confiança, sentimento de grandeza e identidade coletiva. O futebol trouxe tudo isso.

O futebol é uma organização onde as regras valem para todos. Um exemplo para o mundo daquela política, onde a regra eram os privilégios. O futebol proporcionava aos pobres uma esperança de ascensão social.

Para os meninos do Beco Novo, o Tabuleiro dos Caboclos (atual Bairro São Cristóvão), era a Meca do futebol, com vários campos e tabuleiros, onde o futebol era livre. Sonhávamos em sair do buraco da pobreza, e o futebol era um caminho.

Depois descobri que criaram um ginásio em Itabaiana, o Murilo Braga, em 1949. A escola pública era a verdadeira porta, mas invisível. Quando descobri, me danei a estudar. Não sei se a educação, ainda permite esse acesso à cidadania.

A distância da escola pública das profissões socialmente valorizados (padre, juiz e doutor) era imensa. Quando fiz vestibular de medicina, uma tia, tirada a rica, censurou: “Esse menino deveria procurar o lugar dele.”

Me formei, especializei-me no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. No retorno, após 4 anos, um cartola do futebol, em Itabaiana, me perguntou, se eu já estava trabalhando. Respondi que não. Ele foi “generoso”: "se eu quisesse ir treinar no Itabaiana, as portas estariam abertas."

O futebol permitia, ou parecia permitir, uma certa ascensão social, para os talentosos e disciplinados. Não sou Samarone de Batismo, o nome vem da ilusão futebolística. A aliança entre o talento e o desempenho, prometiam conduzir as vitórias.

O menino Gustinho, um humilde engraxate, em pouco tempo passou a ser um atleta admirado na cidade. Os craques do Tabuleiro dos Caboclos, “quase todos Pretos ou quase Pretos”, encontraram as portas do futebol.

A minha memória guardou: Enfinca, Coringa, Zé de Chico, Augusto, Elísio, Dedé, Tonho de Preta, Nado, Zé de Vitinha, Cosme e Damião. Antes, se dizia que Itabaiana não tinha Pretos. O Futebol desmontou essa mentira.

Gente, peço licença para sugerir a leitura de “Pelé, O Negão Planetário”, de Antonio Risério. Uma reflexão sobre o povo brasileiro.

Concluindo, sonhei em ser Pelé, mas quem me salvou foi a Escola Pública.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

A FARRA DO BOI

A Farra do Boi.
(por Antonio Samarone)

A grandeza da Feira do Agronegócio (SEALBA), no Parque Cunha Menezes, demonstrou uma obviedade: Itabaiana é o coração econômico de Sergipe.

Se não bastasse, em outro espaço, ocorria o “4º Simpósio de Criadores de Gado de Corte do Nordeste”.

Quem não conhece Itabaiana fica confuso. Agronegócios em Itabaiana? Onde? Primeiro, do Sertão adentro, 70% do plantio do milho, são em terras arrendadas por ceboleiros. Até o Maranhão. Segundo, o comércio de máquinas e implementos agrícolas concentra-se em Itabaiana.

E esse Simpósio Nordestino sobre gado de corte, do que se trata? Aqui a história é mais complexa. Por que esses criadores foram se reunir logo em Itabaiana?

Um empreendedor com alma itabaianense, Luís Góes, resolveu investir em tecnologia. Fez parceria com uma empresa paulista, a Katayama Guararapes, e trouxe para Sergipe o que existe de mais avançado, na melhoria genética dos rebanhos.

Entenderam? Cada reprodutor tem o genoma identificado. Todos “PO”, puros de origem. Um simpósio, prestigiado por grandes fazendeiros, especialistas e pelo mundo político. Governo e oposição: O vice-governador, o vice Prefeito, a Presidenta do Sebrae. O ex Governador Belivaldo. Deputados e Vereadores.

Eu não conhecia esse Luís Góes, um sujeito com grandes ideias. Itabaiana ainda me surpreende.

Esse polo de tecnologia, Góes Nelore, em Itabaiana, tem raízes seculares. No século XVII, os curraleiros, criadores de gado, dominavam a economia em Itabaiana. Para quem não se lembra, a Estrada Real Salvador/Olinda, passava em Itabaiana. Os rebanhos abasteciam o Recôncavo Baiano e Pernambuco.

O gado é uma mercadoria que anda. As boiadas iam a pé para os mercados, seguindo os aboios. Eu alcancei.

O Barão da Torre, estendeu os curais até o São Francisco. Quando os holandeses chegaram (1624), expropriaram muito gado em Itabaiana. Obrigaram Simão Dias Frances, fugir para as matas do Caiçara, fundando a próspera Simao Dias.

Em 05 de novembro de 1656, os curraleiros de Itabaiana invadiram a Capital, São Cristóvão, insatisfeitos com os altos impostos. Prenderam até padre. O quartel-general foi no Alto de Itabaiana em São Cristóvão, hoje um polo gastronômico. Foi primeira revolta antilusitana no Brasil.

A pecuária foi a principal atividade econômica em Itabaiana, até a segunda metade do Século XIX. A vida acontecia no campo, a Villa era diminuta, um arruado em torno da Igreja (desde 1656).

A vida urbana emergiu em Itabaiana, com o algodão. Derrubam-se as matas para se plantar algodão, por conta guerra de secessão. Itabaiana chegou a possuir 50 descaroçadoras. Chã do Jenipapo se transformou na Vila de São Paulo (Frei Paulo).

A força do algodão: a feira permanente em Itabaiana é de 1874. Constitui-se o comércio: destacam-se as lojas de tecidos e ourivesarias. O ouro vem de longe.

A criação de gado avançou para o Sertão. Itabaiana, por conta da divisão da terra, predomínio das pequenas propriedades, passa produzir alimentos, para abastecer a Capital e o Sertão.

Na primeira metade do Século XX, Itabaiana se transformou no Celeiro de Sergipe. A transformação de polo agrícola em comercial, inicia-se após a chegada da BR – 235 (1953), permitindo o surgimento de uma nova categoria econômica: os caminhoneiros.

Vamos voltar ao gado.

Os longos séculos de pecuária deixaram raízes. A carne é a maior expressão culinária da cidade: só na BR - 235, existem 4 grandes churrascarias (Pirata, Riacho Doce, João de Neco e Domício). Sempre lotadas. São 600 mesas, 2.400 lugares.

Sem contar as menores. A Churrascaria Serrano, no Marianga, tem fila. O Espetinho do Patola, enche a praça de mesas, e não chega para quem quer. Em Itabaiana, a promessa de picanha para todos foi cumprida.

A carne é o prato preferido em Itabaiana, quase exclusivo.

 
Quando Luís Góes Montou o maior polo tecnológico de criação de Nelore, em Itabaiana, sem querer, estava ressuscitando os curraleiros.

A força do boi está no inconsciente coletivo. É um desejo atávico. Se dizia em Itabaiana: que quem quisesse prosperar economicamente, segurasse no rabo do boi, que ele arrastava.

Hoje, não é mais assim. É mais rentável plantar milho transgênico. Só que a cultura é mais lenta, demora a mudar. Quando se quer elogiar a riqueza de alguém, o chamamos alto: fazendeiro!

As cavalgadas, pegas de boi, vaquejadas, brincadeiras dos curraleiros, ainda atraem muita gente. É a nostalgia do Boi. Botou um chapéu, calçou uma bota e montou num cavalo fica parecendo os fazendeiros antigos. Hoje, precisa-se de uma caminhoneta a diesel, com tração nas quatros.

O boi virou commodity, exige alta tecnologia. Acabou-se o romantismo da vaca estrela e do boi fubá.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O DONO DA BOLA


 

O Dono da Bola.
(por Antonio Samarone)
 
A minha aproximação com a bola foi cuidadosa. A bola reconhece os íntimos, os que a chamam de “você!”. A primeira foi uma bola de meia, que eu brincava com a minha irmã. Não estranhe, as meninas já jogavam, antes de existir o futebol feminino. Nas “peladas” de rua, elas compunham os times. 
 
Se aprendia a chutar com as bolas de meia. Isso mesmo, meias de calçar. Enchia-se uma meia velha de algodão ou retalhos de tecidos, arredondava-se a pelota, e a bola estava pronta. As bolas de couro eram numeradas, de dois a cinco, além das bolas oficiais. Não era para o nosso bico. 
 
Se comprava a bexiga e mandava-se um bom sapateiro encouraçar. Envolvê-la com sola batida. Em Itabaiana, só Mestre Dé e Joãozinho Baú possuíam essa maestria. Eram bolas duras. Passava-se sebo de carneiro capado, para amaciá-las. Após as partidas, as bolas eram esvaziadas, para evitar a deformação. As bolas ficavam ovais. 
 
As bolas de couro de fábrica, de couro macio, aveludado, veio depois. Um luxo. As bolas antigas, artesanais, eram quase balas de canhão. Um chute forte, chamava-se de petardo ou bomba.
As bolas de couro eram inacessíveis para a molecada do Beco Novo. 
 
Por vezes alguém aparecia com uma bola de borracha, que pulava e ardia quando se chutava. A bola de borracha não emplacou. Depois veio a bola Pelé. Essa, sim, uma novidade. Eram de um plástico resistente, macias, redondas, boas de se dominar. O sonho da bola de couro, era relevado. 
 
Rosa de Rosalvo do Cabo Quirino, ocasionalmente, aparecia com uma bola Pelé, novinha, cheirando a leite. Ele a subtraia do supermercado. Um mistério, como ele saia da loja com a bola e ninguém via? A verdade, as bolas Pelé de Rosa, eram compartidas com todos. Um roubo com fins sociais.
Além das peladas, brincávamos de piruetar, bater bola sem a deixar cair. 
 
Um fato inesperado abalou o Beco Novo: Benjamin de Seu Bebé dos passarinhos - Beijo, para os amigos, ganhou uma bola de couro número 5. Os irmãos Adélson e Alberto, mandaram de São Paulo. Era quase uma bola oficial. 
 
Benjamin era forte, bom de bola, disciplinado, educado, amigueiro e adorava ler. Sem dúvidas, era o mais culto da turma. Morava no quarto trecho da rua, quase defronte ao Clube dos Trabalhadores.
Benjamin virou Rei, era o dono da bola. Não ficava mais de fora. 
 
Paparicado, cercado pela molecada, cobrando que ele levasse a bola de couro, para tudo que era tabuleiro. Agora a gente ia saber quem era ou não bom de bola. 
 
Os invejosos diziam: Beijo quer a bola para dormir na cama. Mentira! Ele sempre repartia o divino brinquedo. 
 
Quando ganhei o meu primeiro campeonato, Beijo, era do meu time: Grilo de Firmino, Vadinho de Nilo, Beijo de Seu Bebé, Zé Augusto de Zé Olhinho, Eu e Nego Gato de Bonito. Era futebol de seis. Fomos campeões no torneio do Campo do Tenente Baltasar. 
 
Demos a volta olímpica. Os campeões foram premiados com uma boa quantia em dinheiro. O time inteiro foi a casa de Seu Bebé, entregar o prêmio de Beijo.
 
Benjamin Nogueira Campos Neto não deu para o futebol. Estudou, formou-se em Medicina, e tornou-se um cardiologista famoso em São José dos Pinhais, Paraná. 
 
O dono da bola tornou-se dono de uma sólida carreira na medicina. Saiu, por lá ficou e constituiu família. O Beco Novo foi a porta de saída, para a ascensão social de muitos.
 
Antonio Samarone.

sábado, 31 de janeiro de 2026

O CENTENÁRIO DO FERREIRO BERNARDINO.

O Centenário do Ferreiro Bernardino.
(por Antonio Samarone)

A profissão de ferreiro é antiga. No Canto VI, dos Lusíadas, Camões descreve os ferreiros de Vulcano, no monte Etna, fabricando armas, raios e caldeando o ferro para as tempestades.

Numa terça-feira nublada, 17 de agosto de 1926, o velho ferreiro Bernardino Francisco de Oliveira, viúvo de dois casamentos (Maria Rosa de Jesus e Maria Wenceslau do Sacramento), faleceu, tragicamente, aos 68 anos.

Bernardino, nasceu em Matapoã, Itabaiana, em 11 de maio de 1858, filho do ferreiro português, João José de Oliveira (1829 – 1899) e Maria Pastora do Sacramento. João José instalou as tendas de ferreiro na Matapoã, por volta de 1850.

Bernardino era o mais velho dos ferreiros da “Maithapan”, entre os filhos de João José: Maria Venceslau; Bernadino, o mais velho; Chico Antonio; Felismino; Quirino; Benvindo; Tertino; Nonô – Pai de João Marcelo e Zentonho, o mais novo, pai de Graça de Rosendo. Posso ter esquecido alguém.

Bernardino deixou uma imensa prole: Servina; Clemencia, casada com Alexandre Fava Pura e mãe do Frei Fidelis; Francisca; Josefa; Firmina; Maria da Neves; Chico Antonio; Ana, casada com Chiquinho Gordo, pais de Marcelino; Felismina; Antonio Francisco de Oliveira (Pai Totonho), que nasceu em 05 de agosto de 1896 e faleceu em 16 de maio de 1965, aos 68 anos; Libanio; Ângelo, Lilia, Maria Rosa (Neném).

O velho ferreiro Bernardino, branco, alto, de aspecto sisudo, orelhas de abano, afamado pela força física, largou-se da Sambaíba, em Itabaiana, para comprar ferro em Maruim, matéria-prima da sua secular profissão. Cumpria a sua rotina.

A bigorna de Bernardino era famosa pelo som arredondado, parecendo um sino do Vaticano. A peça está conservada. Depois foi do meu avô e dos meus tios (Zé e Omero). Hoje, está sob a posse do primo Arnaldo, nas Flechas.

Se escutava o toque da bigorna de Bernardino, a mais de légua.

Próximo ao destino da sua última viagem, por volta das 9:40 da manhã, no povoado Caititu, entre Riachuelo e Maruim, KM 337 da ferrovia, o burro em que Bernardinho ia montado, assustou-se com o trem de passageiros n.º 72, da “Companhia Ferroviária Leste Brasileiro”, que vinha de Propriá com destino a Aracaju.

O trem era conduzido por um maquinista experiente, Caetano Antônio de Jesus, que ao avistar a aflição, danou-se a apitar e puxar o freio de emergência. Assustou os burros.

A tragédia se anunciava, o velho Bernardino (68 anos) não conseguiu tirar a sua montaria da linha do trem, o animal agitado não obedecia às rédeas. E o maquinista, impotente para frear.

O local era uma curva em declive, próxima a um pontilhão. Tudo muito rápido. A verdade é que o velho ferreiro não saltou do burro, talvez por amor ao animal, um burro castanho de estimação. A contingência os empurrou para o mesmo destino.

Em frações de minutos, o ferreiro e o animal estavam esmagados sob peso da locomotiva. A massa ensanguentada, irreconhecível, foi recolhida com a pá de carvão, e colocada num saco, depositada num salão de chão batido, da Estação que servia de parada do trem, em Caititu.

Ao final da tarde, os corpos foram transportados para o Departamento de Assistência Pública, na rua de Boquim, em Aracaju, para serem periciados.

Os drs. Carlos Moraes de Menezes e Mário de Macedo Costa, levaram mais tempo para separar as partes do ferreiro, que para a devida necropsia. O estado de mutilação do corpo de Bernardino chocou a província.

A emissão do laudo pericial foi acompanhada pelo Senhor Doutor Chefe de Polícia do Estado, Álvaro Fontes da Silva (é como está no laudo cadavérico).

O ferreiro Bernardino foi enterrado no Cemitério Santa Isabel, em Aracaju.

Chegamos ao centenário da morte do velho ferreiro Bernardino (1926 – 2026). A família vai relembrar a data. No dia de São José, padroeiro da Matapoã, a Prefeitura de Itabaiana vai inaugurar uma praça e a ligação asfáltica do povoado com a BR – 235.

Estaremos lá!

Todos os descendentes dos ferreiros da Matapoã, estão convidados. E não são poucos. O povoado tem a fama de produzir couve e inteligências.

Pensei em requerer aos Vereadores, que o nome da nova Praça do Povoado, fosse uma homenagem a Bernardino Francisco de Oliveira. Um herói do ferro e do fogo.

Desisti. Soube que a disputa é grande.

Antonio Samarone. (Ponta de rama, dos Ferreiros da Matapoã)