sábado, 7 de março de 2026

A FORÇA DO MATRIARCADO - 08 DE MARÇO.

A Força do Matriarcado - 08 de março.
(por Antonio Samarone)

A força social das mulheres é raramente realçada. Sabe-se que somente 2 capitanias hereditárias prosperaram: São Vicente e Pernambuco. O que não é dito, é que ambas, eram administradas por mulheres. São Vicente por Ana Pimentel e Pernambuco por Brites de Albuquerque.

Em Itabaiana, as mulheres sempre estiveram na vanguarda. O presbítero Marcos Antonio de Souza, em suas memórias da Capitania de Sergipe (1808), noticiou sobre as mulheres Itabaianenses:

“São industriosas as mulheres de Itabaiana; suas grosseiras manufaturas constituem o principal comércio de seus maridos e toda a vantagem de seu país. Levam os itabaianistas para os sertões altos vinte mil varas de pano de algodão, que se reputam em valor metálico dez mil cruzados.”

“Com grande trabalho fiam o algodão em uns fusos movidos com os dedos e uma pessoa mal pode fiar no espaço de um dia um quarto de libra. Depois do fiado a dispõem em teias e uma diligente tecedeira desde a manhã até a noite tece libra e meia do fio, ou nove varas do pano de algodão.”

Quem desconhece essas raízes, espanta-se!

Em Itabaiana, a descendência, a herança das terras, o nome das famílias, são transmitidas através da linhagem feminina (matrilinear). Isso pressupõe uma secular igualdade de gênero. Exemplos: João de Zé de Ana; Zé de João de Sá Joaninha, Tonho de Chico de Miguel de Maria de Carrola... Quase todos os nomes familiares, terminam numa matriarca. Têm uma mulher como referência.

Em Itabaiana, entre os empresarialmente bem sucedidos, a presença feminina é destacada. As mulheres estão na linha de frente nas gerências, profissões liberais, nas feiras, música, arte e poesia. No magistério e na medicina elas são maioria.

Nos costumes, um aspecto me chama a atenção.

A Capital Nacional dos Caminhoneiros, possui um trânsito intenso. Itabaiana, com 110 mil habitantes (estimativa - IBGE), possui 49 mil motos em circulação: (28 mil motocicletas, 11 mil motonetas e 10 mil cinquentinha). Como referência, a cidade possui 18.500 automóveis, num total de 81 mil veículos registrados.

Não precisa fazer as contas para concluir: as motos dominam os meios de transporte. Eu sei, o transporte em veículos de 2 rodas nem é o mais seguro, nem é o mais confortável. Mas essa é a realidade, em Itabaiana. Talvez a liberdade e a rapidez, pesem a favor das motos. De todo o jeito, se fossem mais 49 mil automóveis, o trânsito travava.

As mulheres predominam, em Itabaiana, nessa opção de transporte?

As mulheres são quase maioria no uso dessas motos. Nada intimida as mulheres. Todas, senhoras de certa idade, gordas, magras, fazem quase tudo de moto: levam os filhos na escola, compram e vendem, vão à feira e as missas, tudo de moto. Trabalham e passeiam de moto.

Eu sei que os “caga-raiva” vão dizer: “é assim em todo o canto.” Não, na proporção de Itabaiana, não.

Eu enxergo essa força feminina em Itabaiana, há muito tempo. Mamãe nunca leu Betty Friedan, nem Simone de Beauvoir, mas sempre foi dona do seu nariz, mandava e desmandava em quase tudo. Papai que cuidasse, em obedecê-la.

Mamãe nunca soube do 08 março. Desconhecia a marcha das mulheres, pela jornada de 8 horas, em Nova Iorque; desconhecia Clara Zetkin; desconhecia o incêndio da fábrica de tecidos, ondes as mulheres foram sacrificadas; mas conhecia os seus direitos e lutava por eles.

Mamãe não andava de moto, não tinha nem bicicleta. Mas amansava burro brabo.

Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras
 

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