quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

CRISTÃO NOVO.

Cristão Novo.
(por Antonio Samarone)

Final do século XIX: a vida nas matas de Itabaiana, não era para mofinos. Os Oliveiras, descendentes de João José de Oliveira, cristão novo, do Norte de Portugal, ferreiro de profissão, ocuparam a Maithapan, com fama de forçudos e valentes.

João de Oliveira (João de Benicio) – 88 anos, advogado em Itabaiana por 40 anos, inteligência cortante e fina ironia, descende dos Oliveiras, por pai e mãe. Dona Joana Maria de Oliveira (a mãe) é filha de Benvindo Francisco de Oliveira (famoso pela valentia) e Benício José de Oliveira (o pai), é neto de João José.

Benvindo era o ferreiro mais perverso. Conta-se de boca em boca, que ele foi sepultado num formigueiro, no mourão da cancela do seu sítio, (como vingança, por ele fazer o mesmo com a primeira esposa). Para quem duvida, a sepultara permanece no mesmo local.

João Benicio foi procurador concursado do município de Itabaiana e assessor parlamentar, da Câmara de Vereadores.

A origem judaica dos Oliveiras da Maithapan, não precisa do DNA, tá no semblante. O nariz aquilino é uma marca. (veja a foto). A lenda da origem judaica, do espírito mercantil dos ceboleiros, é mais que uma lenda.

João de Benicio nasceu em 17 de outubro de 1938. Não fez as primeiras letras. Entrou direto no Ginásio. Para se fazer o exame de admissão, bastava uma declaração de apto, prestada por uma professora. Os mestres possuíam fé pública. Ele foi aprovado direto, passou no exame de admissão.

João foi mecânico, na oficina do seu Aniceto. Precisando de tempo para estudar, virou alfaiate, discípulo do mestre Antonio de Lídia. Se tornou um alfaiate disputado.

Entretanto, o sonho de João de Oliveira, era a carreira militar. Dedicou-se a música, aluno do Maestro Antonio Silva. A música era uma senha para a carreira militar. João tocava vários instrumentos.

Quando João se apresentou ao exército, teve uma profunda decepção. Foi dispensado por incompatibilidade física. O peso mínimo exigido para soldado, era de 48 kg. João só pesava 43 kg. Um sonho desfeito por 5 kg.

Antes, João tentou engordar.

Dr. Pedro Garcia Moreno prescreveu uma dieta infalível: rapadura, mel de engenho, tutano, rabada e toucinho de porco. Não deu certo. O doutor chegou a um diagnóstico definitivo: João não engorda, tem carne de carcará.

João tentou ser médico. Fez o vestibular e não passou. Foi o 3º excedente. Deu um grande azar, nesse ano, os vestibulares nos estados tiveram a sua data unificada. Antes, se fazia vários vestibulares, em locais diferentes. Os melhores alunos, passavam para várias faculdades. Sempre se abria vagas em Sergipe.

Sem descuidar dos estudos, João voltou à máquina de costura.
Não sei se por brincadeira, o único advogado da cidade, Bosco de Jubal, resolveu apreender a arte da alfaiataria. Por pirraça, João decidiu ser advogado. Se é concorrência, vamos nessa. João virou advogado.

Além de advogado militante, João foi professor de história, no Murilo Braga, chegando a ser diretor do Colégio Estadual César Leite. João, foi pau para toda obra. Uma boa prosa, culto, engraçado, religioso e competente.

Um homem movido por princípios. João nunca tomou partido na política local. Por circunstâncias, na gestão do Prefeito Filadelfo e Josias, vice, ambos alfaiates, o MDB era tão pequeno em Itabaiana, que João de Benicio chegou a presidência do Partido.

João passou por três casamentos: Marlene, de Pedro Brilhante, Júlia e vive com Maria Tomico Uelda. Tem duas filhas: Telma e Acácia.

Os cristãos novos da Maithapan, além dos Oliveiras, também são Andrades, Teixeiras, Machados e Pereiras. Afirmo, João de Benicio (João de Oliveira), reforça a fama da inteligência dos cristãos novos.

Fiz essa entrevista com João, acompanhado do historiador Almeida Bispo, para que não houvesse distorções. Só a memória refinada das raízes itabaianenses.

Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
 

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