domingo, 15 de fevereiro de 2026

O PÉ DO VEADO

O Pé do Veado
(por Antonio Samarone)

A noroeste do município de Itabaiana, vizinho a Moita Bonita, os povoados Pé do Veado, Várzea do Gama, Água Branca e Terra Vermelha possuem as mesmas raízes históricas. Desde a segunda metade do Dezenove, abasteciam parte de Sergipe – Laranjeiras, Maruim, Vale do Cotinguiba, Sertões e a Capital, Aracaju.

São minifúndios produtores de alimentos. Parte desses produtores, eram comerciantes nos finais de semana, muitos com pontos fixos (grades) nos mercados do Aracaju.

O Pé Veado foi a encruzilhada dos tropeiros, que dava o Rumo, para a estrada da Boca da Mata, porta do Sertão e para Roque Mendes, em Riachuelo, onde os produtos passavam para os Saveiros, com destino ao mercado do Aracaju.

A fama de Cidade Celeiro, se deve em boa parte, ao Pé do Veado e adjacências. A produção e distribuição dos alimentos em Sergipe, dependiam de Itabaiana. Hoje, só a distribuição: não se come uma cenoura em Sergipe, sem que ela tenha passado por Itabaiana.

A partir da segunda metade do Século XX, a maioria dos comerciantes, que dominavam a economia serrana e além-fronteiras, foram oriundos da região do grande Pé do Veado.

Como a riqueza passou para o comércio, os políticos (Vicente de Belo, Chico de Miguel, João de Zé de Dona e Valmir de Francisquinho) que emergiram nos últimos 50 anos, em Itabaiana, são da mesma origem econômica e da mesma região.

Um pouco antes, Euclides Paes Mendonça era da Serra do Machado, a época, Itabaiana; e Manoel Teles da Cova da Onça. Todos, comerciantes...

O grande Pé do Veado foi o berço dos políticos, em Itabaiana.
O Pé do Veado, antes, foi uma terra de tropeiros.

O tradicional Cemitério do Rumo, é tomado por pequenas capelas mortuárias (foto), familiares, ainda domina a paisagem do povoado. Aliás, o Pé do Veado, ainda possui um cemitério particular, dos “Peixotos”. Os dois lotados. A Prefeitura está ampliando o Cemitério do Rumo (público).

O Pé do Veado foi a terra de Francisquinho de Nanã, um artista que produzia peças móveis, em movimento: casas de farinha, carros de boi, brinquedos. Um artista, que não pode ser esquecido.

A terra do professor Zé de Bila, um educador sensível e dedicado a comunidade. Terra do “descamisado”, Zé Carlos, que organizou um restaurante típico, exótico, que mesmo com a sua morte, o restaurante continua sendo uma atração.

Soube que, recentemente, faleceu Arnaldo de Tonho de Sabino, o pioneiro do Futebol no povoado. Residia no Rosa Elze, em São Cristóvão, onde tinha um mercadinho.

O Pé do Veado foi o povoado dos políticos e comerciantes. A Maithapan dos intelectuais.

Flechas, Sambaíba e Caraíbas são fronteiras entre duas regiões citadas. Na segunda metade do Dezenove, derrubaram as matas, para plantarem algodão. Como fizeram, os atuais municípios de Ribeirópolis e Frei Paulo, à época, território de Itabaiana Grande.

A Prefeitura de Itabaiana está realizando a pavimentação asfáltica da cidade ao Pé do Veado. Um reconhecimento da força e da importância econômica e cultural da região.

A antiga estrada da Boca da Mata, do Sertão de Canindé, será pavimentada. Se houver criatividade, um roteiro turístico. Trilha dos tropeiros.

A vocação itabaianense pelo transporte vem de longe: dos tropeiros aos caminhoneiros e dos feirantes aos comerciantes. Uma terra de negociantes, gente vocacionada para o empreendedorismo.

A estrada das Flechas levava ao sertão de Canudos, a do Pé do Veado a Boca da Mata (Glória e Canindé). A estrada de São Cristóvão passava no Bairro São Luís, a de Laranjeiras, no Beco Novo e a estada Real – Salvador/Olinda, cruzava Itabaiana de leste ao oeste.

Sem ir muito fundo, a formação do itabaianense, a sua cultura, o seu modo de vida, é um amálgama dos vários povoados e municípios vizinhos. Cada recanto, com os seus modos. Existe uma identidade cultural do Agreste, pouco estudada e pouco valorizada pelos intelectuais da Zona da Mata (Aracaju, Laranjeiras, Japaratuba e São Cristóvão).

O Agreste e o Sertão sergipano não são contemplados pelo política cultural do Estado. Aliás, nunca foram. Os tropeiros do Pé do Veado e os vaqueiros do Sertão são esquecidos pelas Academias.

A Prefeitura de Itabaiana, através da Secretaria Municipal da Cultura, está resgatando parte dessa memória. Ainda não descobri de onde vem o nome, Pé do Veado.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

Um comentário:

  1. Cemitério do rumo.
    Muitos dos meus ancestrais lá foram sepultados, bisavôs, avós avôs,tios tias, etc.
    Minha origem familiar é da região. Malhada velha,,cova da onça, candeias ,aliás nasci em candeias.

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