(por Antonio Samarone)
A grandeza da Feira do Agronegócio (SEALBA), no Parque Cunha Menezes, demonstrou uma obviedade: Itabaiana é o coração econômico de Sergipe.
Se não bastasse, em outro espaço, ocorria o “4º Simpósio de Criadores de Gado de Corte do Nordeste”.
Quem não conhece Itabaiana fica confuso. Agronegócios em Itabaiana? Onde? Primeiro, do Sertão adentro, 70% do plantio do milho, são em terras arrendadas por ceboleiros. Até o Maranhão. Segundo, o comércio de máquinas e implementos agrícolas concentra-se em Itabaiana.
E esse Simpósio Nordestino sobre gado de corte, do que se trata? Aqui a história é mais complexa. Por que esses criadores foram se reunir logo em Itabaiana?
Um empreendedor com alma itabaianense, Luís Góes, resolveu investir em tecnologia. Fez parceria com uma empresa paulista, a Katayama Guararapes, e trouxe para Sergipe o que existe de mais avançado, na melhoria genética dos rebanhos.
Entenderam? Cada reprodutor tem o genoma identificado. Todos “PO”, puros de origem. Um simpósio, prestigiado por grandes fazendeiros, especialistas e pelo mundo político. Governo e oposição: O vice-governador, o vice Prefeito, a Presidenta do Sebrae. O ex Governador Belivaldo. Deputados e Vereadores.
Eu não conhecia esse Luís Góes, um sujeito com grandes ideias. Itabaiana ainda me surpreende.
Esse polo de tecnologia, Góes Nelore, em Itabaiana, tem raízes seculares. No século XVII, os curraleiros, criadores de gado, dominavam a economia em Itabaiana. Para quem não se lembra, a Estrada Real Salvador/Olinda, passava em Itabaiana. Os rebanhos abasteciam o Recôncavo Baiano e Pernambuco.
O gado é uma mercadoria que anda. As boiadas iam a pé para os mercados, seguindo os aboios. Eu alcancei.
O Barão da Torre, estendeu os curais até o São Francisco. Quando os holandeses chegaram (1624), expropriaram muito gado em Itabaiana. Obrigaram Simão Dias Frances, fugir para as matas do Caiçara, fundando a próspera Simao Dias.
Em 05 de novembro de 1656, os curraleiros de Itabaiana invadiram a Capital, São Cristóvão, insatisfeitos com os altos impostos. Prenderam até padre. O quartel-general foi no Alto de Itabaiana em São Cristóvão, hoje um polo gastronômico. Foi primeira revolta antilusitana no Brasil.
A pecuária foi a principal atividade econômica em Itabaiana, até a segunda metade do Século XIX. A vida acontecia no campo, a Villa era diminuta, um arruado em torno da Igreja (desde 1656).
A vida urbana emergiu em Itabaiana, com o algodão. Derrubam-se as matas para se plantar algodão, por conta guerra de secessão. Itabaiana chegou a possuir 50 descaroçadoras. Chã do Jenipapo se transformou na Vila de São Paulo (Frei Paulo).
A força do algodão: a feira permanente em Itabaiana é de 1874. Constitui-se o comércio: destacam-se as lojas de tecidos e ourivesarias. O ouro vem de longe.
A criação de gado avançou para o Sertão. Itabaiana, por conta da divisão da terra, predomínio das pequenas propriedades, passa produzir alimentos, para abastecer a Capital e o Sertão.
Na primeira metade do Século XX, Itabaiana se transformou no Celeiro de Sergipe. A transformação de polo agrícola em comercial, inicia-se após a chegada da BR – 235 (1953), permitindo o surgimento de uma nova categoria econômica: os caminhoneiros.
Vamos voltar ao gado.
Os longos séculos de pecuária deixaram raízes. A carne é a maior expressão culinária da cidade: só na BR - 235, existem 4 grandes churrascarias (Pirata, Riacho Doce, João de Neco e Domício). Sempre lotadas. São 600 mesas, 2.400 lugares.
Sem contar as menores. A Churrascaria Serrano, no Marianga, tem fila. O Espetinho do Patola, enche a praça de mesas, e não chega para quem quer. Em Itabaiana, a promessa de picanha para todos foi cumprida.
A carne é o prato preferido em Itabaiana, quase exclusivo.
Quando Luís Góes Montou o maior polo tecnológico de criação de Nelore, em Itabaiana, sem querer, estava ressuscitando os curraleiros.
A força do boi está no inconsciente coletivo. É um desejo atávico. Se dizia em Itabaiana: que quem quisesse prosperar economicamente, segurasse no rabo do boi, que ele arrastava.
Hoje, não é mais assim. É mais rentável plantar milho transgênico. Só que a cultura é mais lenta, demora a mudar. Quando se quer elogiar a riqueza de alguém, o chamamos alto: fazendeiro!
As cavalgadas, pegas de boi, vaquejadas, brincadeiras dos curraleiros, ainda atraem muita gente. É a nostalgia do Boi. Botou um chapéu, calçou uma bota e montou num cavalo fica parecendo os fazendeiros antigos. Hoje, precisa-se de uma caminhoneta a diesel, com tração nas quatros.
O boi virou commodity, exige alta tecnologia. Acabou-se o romantismo da vaca estrela e do boi fubá.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

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