segunda-feira, 9 de março de 2026

CADA UM É PARA O QUE NASCE?


 Cada um é para o que nasce?
(por Antonio Samarone)

Logo cedo, encontrei um velho personagem da boemia itabaianense, esperando a abertura de um escritório de advocacia, na Praça da Igreja, para pedir socorro.

De cara, pressenti a bronca. A desilusão com a espécie humana estava aflorada em seu rosto. Puxei conversa, ele mal balbuciava.

Terminou me contando: a sua aposentadoria foi suspensa, esse mês. Um furo de cinco mil reais apareceu em sua conta, na CEF. Ele não entendeu a explicação do banco. Alguém próximo a ele é o principal suspeito. Ele, no fundo, sabe quem foi quem deu o golpe, mas não admite, nega, sem muita convicção.

Peloco, 86 anos, boa memória, comedido, não se lamente de nada. A vida é boa assim mesmo, ele conclui, apesar da profunda descrença no Ser Humano. Ele quer apenas que a sua modesta aposentadoria seja restabelecida. É a sua única renda.

Peloco, nasceu nas Flechas, em 01 de fevereiro de 1940. Filho de Maria Francisca dos Santos (Nini), mãe avulsa, que lhe abandonou novinho, ainda sem nome. Só foi registrado muito depois, já adulto.

A rua não perdoa. Como se chama um passarinho depenado? Peloco! O batismo dele estava feito.

“Quando, seu moço, nasceu meu rebento/ Não era o momento dele rebentar/ Já foi nascendo com cara de fome/ E eu não tinha nem nome pra lhe dar”. - Chico Buarque.

O Pai, foi um barbeiro famoso, em Itabaiana. Ele sabia que Peloco era seu filho, e vice-versa. Mas ficou por isso mesmo. O menino foi criado por Zezé Machado e Dona Maria, na Rua Nova.

Com a morte do Pai biológico, Peloco nunca reivindicou a sua parte na herança. Não por falta de conselhos: - “peça para fazer os exames de DNA.” Ele nunca se mexeu. “Direito”, para ele, é uma palavra vazia, sem sentido.

Quando precisou dos documentos, para se aposentar, o Tabelião deu-lhe um nome de personagem de Nelson Rodrigues: “Álvaro Maciel”. Até hoje, ninguém sabe o nome cartorial de Peloco. Ele próprio, às vezes se esquece.

Peloco nunca pôs os pés numa escola. Aprendeu tudo o que sabe, com a vida. Viveu de bicos e da esperteza nas casas de jogos de azar. Em Itabaiana, as cafuas eram bem frequentadas. Jogar, beber e fumar são vícios tolerados pela sociedade.

Se criou solto, nas ruas e botecos. Se tornou um temível no carteado. Peloco conhecia as cartas dos baralhos pelas costas. Se dessem o baralho para ele traçar, os demais jogadores só recebiam cartas marcadas.

Se Peloco fosse americano, teria sido um grande crupiê, nos cassinos de Los Angeles, como nasceu em Itabaiana, foi o Barão das Cafuas. Era bom no sinuca, mas longe de Alemão (Dodó), João Criano e Filadelfo de Zezé de Jones.

A vida nunca lhe ofereceu moleza: casa, comida e roupa lavada. Tudo foi incerto, mas ele não se queixa. É assim mesmo, sentencia Peloco: - “o ser humano não presta.” Ele naturalizou os sofrimentos.

Peloco tinha como justificar qualquer caminho, mas permaneceu íntegro. As trapaças nos jogos de azar é parte das regras. Passar um “caga fogo” no dominó é esperteza.

No futebol, Peloco foi o Gerson – canhotinha de ouro das peladas. Ele foi o melhor jogador do Mangueira, da Rua Nova, treinado pelo célebre Josafá Mão de Onça.

Enquanto puxo pela memória, para rabiscar essas mal traçadas linhas, me bateu um peso na consciência: vou acompanhar essa catástrofe financeira de Peloco.

Enquanto as redes sociais espantam-se com os mimos do Banco Master, para os mandarins da República, Álvaro Maciel (Peloco), não tem como fazer a feira.

A sua aposentadoria continua suspensa.

Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras

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