Ferreiros e Fogueteiros.
Por Antonio Samarone.
Parodiando Manuel Bandeira: “Vou-me embora para Itabaiana/ Andarei de bicicleta/ Montarei em burro brabo/ Subirei no pau-de-sebo/ Tomarei banhos de rio!/ E quando estiver cansado/ Deito na beira do rio Jacarecica e chamo a mãe - d’água/ Pra me contar as histórias/ Que no tempo de eu menino/ mamãe me contava.”
Em 1808, Napoleão enxotou a Família Real e 15 mil Nobres e Fidalgos, para o Brasil. Portugal foi abandonado, por sua elite. O povo emigrou logo em seguida. Entre 1836 e 1890, quase 400 mil portugueses deixaram o país, a absoluta maioria, procurando o Brasil.
A transferência da Coorte para o Brasil e o empobrecimento de Portugal levaram a uma onda massiva de imigração para o Brasil.
O ferreiro João José de Oliveira, natural do Minho, Norte de Portugal, vizinho da Galícia, embarcou nessas caravanas. Ele chegou a Maithapan, passando por São Cristóvão, com a sua bigorna de ferro meteorito e um fole surrado, por volta de 1849.
Era um pequeno proprietário rural pobre, rude, originário do norte de Portugal, da região do Minho. Sabia ler e escrever. O ferreiro João José de Oliveira, ao desembarcar no Porto da Bahia, vestia polaina de Saragoça, calção e colete de baetão, encarnados, com seus corações e meias.
O Ferreiro era um ofício mágico, que manipula o ferro e o fogo. Todo o ferro primitivo vinha dos meteoritos, oriundos do "alto", do Céu, por isso, compartiam a sacralidade celeste.
João José desembarcou com um pau às costas, duas réstias de cebolas, e outras tantas de alhos, e uma trouxinha de pano de linho debaixo do braço. Eram os seus pertencem. Chegou sem cabedal.
Os ferreiros primitivos trabalharam apenas o ferro meteórico, muito tempo antes de aprenderem a utilizar os minerais ferros os encontrados à flor da terra. A fusão dos metais era desconhecida.
João José trouxe um facão de ferro meteorito, perdido com o tempo, pelo desconhecimento de sua importância. Eu cheguei a ver esse facão, na Tenda de Pai Totonho.
Quando Cortês perguntou aos chefes astecas de onde tiravam as suas facas - eles lhe apontaram o céu. Como os maias do Iucatã e os incas do Peru, os astecas só se serviam do ferro meteórico: é por esse motivo que lhe davam mais valor do que ao ouro.
João José chegou a Maithapõa com uma bigorna de ferro meteórico, metal do céu, que se mantém em condições de uso. Ouvia-se a esplêndida sonoridade da sua bigorna, às léguas de lonjura.
Ao contrário da metalurgia do cobre e do bronze, a do ferro não tardou a tornar-se industrial. Uma vez descoberto, ou aprendido, o segredo de fundir a magnetita ou a hematita, não se teve dificuldade em conseguir abundância de metal, porque as jazidas eram muito ricas e bastante fáceis de explorar.
Ao lado da sacralidade celeste, imanente aos meteoritos, estamos agora em presença da sacralidade telúrica, de que participam as minas e os minerais.
O ferreiro é, antes de tudo, um trabalhador do ferro, e a sua condição de nômade - uma vez que ele se desloca continuamente à procura do metal bruto e de encomenda de trabalho - leva-o a entrar em contato com diferentes populações.
João José de Oliveira, esbarrou na Maithapan. O ferreiro é o principal agente de difusão de mitologias, ritos e mistérios metalúrgicos.
As ferramentas dos ferreiros participam igualmente da sacralidade. O martelo, o fole, a bigorna apresentam-se como seres animados e miraculosos: gozam da reputação de poder operar por sua própria força mágico-religiosa, sem a ajuda do ferreiro.
Faz todo sentido, quanto também se chama de fole, a sanfona de oito baixos.
O alquimista, tal como o ferreiro, e, antes dele, o oleiro, é um "senhor do fogo". É pelo fogo que ele opera a passagem da matéria de um estado a outro.
Tal como os xamãs, também os ferreiros são tidos como "senhores do fogo". Dessa maneira, o ferreiro é considerado, em certas zonas culturais, como igual ou até superior ao xamã. "Ferreiros e xamãs vêm do mesmo ninho", diz um provérbio chinês.
Zentonho Ferreiro, o caçula de João José, cauteriza uma ferida braba, em sua perna, com o ferro quente, saído diretamente da sua forja.
A mulher de um xamã é respeitável; a de um ferreiro é venerável. O primeiro ferreiro, o primeiro xamã e o primeiro oleiro eram irmãos de sangue. O ferreiro era o mais velho e o xamã o do meio. Isso explica por que o xamã não pode provocar a morte de um ferreiro."
Os chineses atribuem aos ferreiros o poder de curar por meios naturais, e não com a assistência dos espíritos, como fazem os xamãs.
A cada nove gerações, um ferreiro dispõe de poderes sobrenaturais; já não teme os espíritos e é por isso que ousa forjar os objetos de ferro que adornam o traje do xamã (o ruído do ferro afasta os espíritos).
A forja é venerada como lugar de culto, e onde não existe uma casa especial para as preces e para as assembleias é na forja que se realizam as reuniões.
Os ferreiros ocupavam uma posição social bastante elevada; o seu ofício não era considerado comercial: tratava-se de uma vocação ou de uma transmissão hereditária, que implicava, por conseguinte, segredos iniciatórios.
Os ferreiros são protegidos por espíritos especiais. A sua arte é uma dádiva do "profeta Davi", e é graças a isso que ele tem de ser puro, tanto física quanto espiritualmente.
Essa é a nossa herança.
Antonio Samarone – Membro da Academia Itabaianense de Letras.
Quem quiser ir fundo, leia “Ferreiros e Alquimistas – Eliade Mircea”, um clássico.

Manoel bandeira queria ir pra passagada, lá ele amigo do rei.
ResponderExcluirVocê está em itabaiana e,é amigo do rei