domingo, 22 de fevereiro de 2026

O INCONSCIENTE COLETIVO

O Inconsciente Coletivo.
(por Antonio Samarone)

A cultura na Itabaiana agrária, primeira metade do Século XX, era restrita a música (filarmônica) e a fotografia (Miguel Teixeira, Joãozinho Retratista, Paulo de Dóci e Percílio Andrade).

Depois vieram os cinemas, (Zeca Mesquita e do Padre); o circo/teatro, (com Zé Bezerra); a tourada, com Geraldo Sem Medo e o mamulengo, com Rafael dos Penicos.

As principais festas eram religiosas (o Natal e as Trezenas de Santo Antonio).

Bailes, recitais, saraus e folguedos eram em recintos privados. As festas na casa do maestro Esperidião Noronha, foram as mais famosas.

Com a força econômica do comércio, uma elite, liderado pelo Dr. Gileno Costa, criou a Associação Atlética. As festas passaram para o novo clube, tendo à frente, Abraão Crispim. Eu, lá, nunca pus os pés. Para ser preciso, participei de um concurso de beleza masculina. Não perguntem o resultado.

O ilustrado Cibalena (Luciano de Oliveirinha), dividiu culturalmente a Itabaiana daquele tempo, em duas Zonas, em conflito: a praça da igreja, ruas do Sol e das Flores – dos bem nascidos; e o Beco Novo, do povo em geral.

Para se contrapor ao Clube da Praça (Atlética); os comunas, liderados por Tonho de Dóci e Renato Mazze Lucas, criaram o Clube dos Trabalhadores. No quarto quarteirão do Beco Novo.

Sapateiros e alfaiates tiveram a sua casa de bailes. O Beco Novo, liderava no futebol (três campos) e a Praça, nas festas.

Nascia em Itabaiana o embrião do lazer e do entretenimento, anteriores a cultura de massas. Os cinemas de Zeca Mesquita e do Padre eram casas cheias.

Antes da televisão, a indústria cultural chegou timidamente a Itabaiana, pelos cinemas, rádios, grafofones (invenção de Graham Bell) e dos gramofones (vitrolas): as pornochanchadas de Ankito, Zé Trindade e Grande Otelo; os faroestes americanos; Tarzan e Mazaropi.

Os filmes podiam ser de guerra, amor, espada, cowboy, terror, comedia e brasileiros. Os filmes deveriam ter um final feliz. Não se perdoava a morte do artista.

Os discos, foram os primeiros produtos da indústria cultural, disponíveis para os endinheirados. Os discos eram caros. Abrahão Crispim assombrou, quando abriu o “Casbão, a primeira loja de discos em Itabaiana. Foi motivo de orgulho cívico.

A cultura era rigorosamente dividida em alta cultura e cultura popular. Depois, a indústria cultural criou o “kitsch”, para satisfazer a demanda do mercado.

O cinema (sétima arte), foi usado para aproximar a chamada alta cultura da cultura popular. Os filmes cult eram produtos culturalmente sofisticados, geralmente ignorados pelas bilheterias.

Nas décadas de 1950/60, houve um surto de cultura erudita, em Itabaiana: Dona Ritinha Noronha, filha do Maestro Esperidião, esposa de Álvaro de Antonio Agostinho, abriu uma escola de piano. Ter um piano em casa, era um sinal de distinção e bom gosto musical.

Tinham o piano e sabiam tocar. As casas que possuíam piano, na década de 1960, em Itabaiana:

Marilene Lobo, irmã de Djalma; Terezinha Correia, professora de canto orfeônico; Maria de Toinho de Libânio; Marcelino Andrade; Zeca Araújo; Seu Xavier; Tenisson Oliveira, da farmácia; Dr. Ormeil Oliveira (doado ao museu); Colégio Dom Bosco (professora Irmã Elvira e Dona Nicinha); Dona Linda, esposa de Irineu; Noronha, esposa de Edson Leal e Dona Zizi, esposa do Coletor Josafá.

Esse levantamento foi realizado por Marcelino e Carlinho Siqueira.

É um bom indicador, do nível de interesse pela música erudita. A centenária Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, só adquiriu os seus pianos no século XXI.

Isso tudo, foi ontem.

Hoje, a indústria cultural hegemonizou o entretenimento. Nessa era digital, dominada pelas telinhas, redes sociais e inteligência artificial, os talentos tornaram-se raros e efêmeros.

O inconsciente coletivo foi capturado pelos algoritmos.

Antonio Samarone (membro da Academia Itabaianense de Letras).
 

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