domingo, 8 de fevereiro de 2026

A CULTURA DO FUTEBOL


 A Cultura do Futebol
(por Antonio Samarone)

A Itabaiana agrícola, produtora de alimentos, celeiro de Sergipe, predominou na primeira metade do século XX. Uma sociedade rural, isolada, voltada para a economia de subsistência.

Conta-se que o alfaiate Órpilio, dizia que só se interessava pelo que ocorria até o Rio das Pedras. Justificava o Mestre: “Do Rio das Pedras para lá, ninguém nunca me encomendou um terno”.

A política era o caminho para se proteger os amigos e perseguir, de todas as formas, os adversários. A divisão entre os de cima e os de baixo, o nós e o eles. Uma paixão política odienta, era disseminada entre as partes.

No final da década de 1960, as disputas políticas em Itabaiana, terminaram em um banho de sangue. A sociedade, dividida, buscava vingança. A violência encontrou solo fértil. Itabaiana, baixou a cabeça.

No final da década de 1960, um pequeno grupo, refundou o futebol. A Associação Olímpica de Itabaiana, assumiu uma missão: reunificar a cidade. O Itabaiana passou a ser bem mais que um time de futebol, se tornou a cidade de chuteiras.

Na letra do Hino do Itabaiana, Alberto Carvalho deixa isso claro num verso: “Somos Itabaiana, cidade – celeiro!”. O time era a cidade.

O futebol ajudou a cidade dividida, fragmentada, a afirmar-se como uma comunidade única. A invejada autoestima dos itabaianenses, ressurgiu forte e ousada.

O crescimento econômico precisava de confiança, sentimento de grandeza e identidade coletiva. O futebol trouxe tudo isso.

O futebol é uma organização onde as regras valem para todos. Um exemplo para o mundo daquela política, onde a regra eram os privilégios. O futebol proporcionava aos pobres uma esperança de ascensão social.

Para os meninos do Beco Novo, o Tabuleiro dos Caboclos (atual Bairro São Cristóvão), era a Meca do futebol, com vários campos e tabuleiros, onde o futebol era livre. Sonhávamos em sair do buraco da pobreza, e o futebol era um caminho.

Depois descobri que criaram um ginásio em Itabaiana, o Murilo Braga, em 1949. A escola pública era a verdadeira porta, mas invisível. Quando descobri, me danei a estudar. Não sei se a educação, ainda permite esse acesso à cidadania.

A distância da escola pública das profissões socialmente valorizados (padre, juiz e doutor) era imensa. Quando fiz vestibular de medicina, uma tia, tirada a rica, censurou: “Esse menino deveria procurar o lugar dele.”

Me formei, especializei-me no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. No retorno, após 4 anos, um cartola do futebol, em Itabaiana, me perguntou, se eu já estava trabalhando. Respondi que não. Ele foi “generoso”: "se eu quisesse ir treinar no Itabaiana, as portas estariam abertas."

O futebol permitia, ou parecia permitir, uma certa ascensão social, para os talentosos e disciplinados. Não sou Samarone de Batismo, o nome vem da ilusão futebolística. A aliança entre o talento e o desempenho, prometiam conduzir as vitórias.

O menino Gustinho, um humilde engraxate, em pouco tempo passou a ser um atleta admirado na cidade. Os craques do Tabuleiro dos Caboclos, “quase todos Pretos ou quase Pretos”, encontraram as portas do futebol.

A minha memória guardou: Enfinca, Coringa, Zé de Chico, Augusto, Elísio, Dedé, Tonho de Preta, Nado, Zé de Vitinha, Cosme e Damião. Antes, se dizia que Itabaiana não tinha Pretos. O Futebol desmontou essa mentira.

Gente, peço licença para sugerir a leitura de “Pelé, O Negão Planetário”, de Antonio Risério. Uma reflexão sobre o povo brasileiro.

Concluindo, sonhei em ser Pelé, mas quem me salvou foi a Escola Pública.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

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