sábado, 25 de abril de 2026

AS TREZENAS DE SANTO ANTONIO Y OS CAMINHONEIROS.


 As Trezenas de Santo Antonio y os Caminhoneiros.
(por Antonio Samarone)

Faz trezentos e tantos anos, desde a Igreja Velha, que Santo Antonio é festejado em Itabaiana. Foi ele que definiu o local da cidade, para agradar ao Padre Sebastião. As trezenas, antecipavam as festas juninas.

“Fogueiras enormes, as chamas lambendo o alto das palmeiras. O foguetório a escalar as plúmbeas nuvens, espocando nos cimés do céu de minha terra; vibrações festivas dos velhos sinos do campanário, exaltando as glórias de Deus; as rezas do Santo casamenteiro e a afinada Filarmônica Santo Antonio.” - Sebrãozinho.

À porta da Torre da Matriz de Santo Antonio e Almas, a banda de pífano: Domingos de Joana Vapor na Zabumba e Pedro de Marmela na Gaita. O coro da igreja ocupado por um belíssimo coral.

Fogo Capitolino, ordenava o padre, na hora certa. O foguetório bombardeava os arredores da Matriz. A molecada disparava para pegar as flechas. A quantidade que cada menino pegava de flechas, sinalizava a sua coragem.

Eu ficava na lanterna, assombrado com as recomendações de mamãe, me metendo medo: cuidado! Não sei quem, morreu com uma flechada na cabeça. Arrancou a orelha. Essa história nunca foi confirmado, mas o medo era o mesmo.

No início da década de 1960, cada trezena, passou a ter um patrocinador: verdureiros, comerciantes, agricultores... Instaurou-se uma disputa, qual a maior? Quem soltasse mais fogos! Itabaiana era um terra de grandes fogueteiros: Mestre Fio, Zé da Serra, Boanerges e Pedro de Cezário.

Registre-se, o foguetório iniciava-se com a alvorada. A atual zoadeira das madrugadas do dia 12: paredões, buzinaço e fogos, mesmo sendo questionado, pelas consequências, vem de longe. A zoada só aumentou.

Em 1950, Itabaiana era o celeiro agrícola de Sergipe. Vivíamos na Zona Rural (35.802 habitantes – 18.754 mulheres e 17.048 homens. 4.006 na zona urbana; 1.740 na zona suburbana 30.056, na zona Rural.)

A Sede do município (com apenas 4 mil habitantes) possuía: 5 atacadistas; 230 varejistas; 5 estabelecimentos industriais; 1 estabelecimento bancário, 13 automóveis e 52 caminhões.

Em 1960, a frota de caminhões já se aproximava de 500. Tornava-se a categoria econômica mais importante da cidade.

A última trezena, a do dia 12 de junho, começou a ser patrocinada pelos caminhoneiros. Assim começa a celebração dos caminhoneiros, ao santo padroeiro. A trezena do dia 12, passou a ser a mais festiva. Não se limitava a reza, o Santo começou a ser trazido em carreata.

Antes, aos dia 25 de julho, João de Balbino, organizava uma carreata pelo Beco Novo, transportando São Cristóvão, protetor dos motoristas, da Capela, no Tabuleiro dos Caboclos a igreja Matriz.

Essa carreta com São Cristóvão (inicio da década de 1960, esfriou com a mudança de João de Balbino para Aracaju, para prestar serviço a nascente PETROBRAS, em Sergipe.

João de Balbino, neto do Cônego Domingos de Melo Resende, teve grande liderança entre os caminhoneiros. João foi o motorista (e Seu Motinha, o cobrador) da primeira marinete que fez linha Itabaiana/Aracaju.

A linha de ônibus pertenceu, na sequência: a Olívio Tavares, Oviedo Teixeira e Luiz Prado. Terminou em mãos da Empresa Senhor do Bomfim, de Seu Lauro, genro de Oviedo Teixeira. Daí para frente, vocês lembram.

Com o fim da carreata de São Cristóvão e o crescimento da Trezena dos Motoristas, a mudança tornou-se evidente. Os caminhoneiros reavivaram a carreata, só trocaram o Santo. Ocorreu a junção das centenárias Trezenas, com o crescimento em número e prestígio dos caminhoneiros.

Com o crescimento da festa dos caminhoneiros, a parte profana suplantou a religiosa. Os mais devotos continuam celebrando o santo com as rezas e trezenas e procissão, e os demais, caíram nas festas de Lagos: grandes artistas, almoços, atividades esportivas e a celebre carretazinha.

Aliás, as celebrações não são excludentes. O Santo entende.

O capitalismo não brinca em serviço, ao perceber a importância da festa e a força econômica dos caminhoneiros em Itabaiana, organizaram em paralelo, uma Feira do caminhão. Um momento de se fazer negócios. Eu não lembro os valores, mas rola muita grana. Vêm empresas até internacionais.

Durante esse período de festa dos caminhoneiros, compra-se e vende-se, festeja-se, canta-se e dança-se e, ao final, dia 13 pela tarde, todo mundo vai junto à procissão, somar-se a centenária Irmandade das Almas, para venerar Santo Antonio.

É a hora de mostrar a roupa nova, fazer política e falar da vida alheia. A procissão é o momento de se pagar as promessas, pelos milagres alcançados. Que não são poucos.

Tudo abrilhantado pela Filarmônica dos Cabaús.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

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