sexta-feira, 20 de março de 2026

UM DESERTO DE SOLIDÃO

Um deserto de solidão.
(por Antonio Samarone)

Seu José Vicente Oliveira, camponês da Sambaíba, completou oitenta anos, sozinho, num quarto quente do Asilo São João de Deus. Uma casa de repouso, onde não se tem sossego.

O ar condicionado do quarto, quebrou há 70 dias. Ele não teve a quem reclamar. Para ser mais preciso, por sabedoria, ele sabe que se reclamar é pior.

O quarto tem um ventilador de teto, barulhento, que deixou de funcionar. A família cobrou um ar condicionado, mesmo usado. No momento encontra-se quebrado.

Os demais abrigados, cinquenta e poucos, quase não se falam. São desconhecidos por opção. Não se suportam. O sonho de cada um é que o outro morra primeiro.

Vicentinho, o filho, meu primo distante, me levou para visitá-lo. Eu fui, mais por curiosidade, do que por compaixão. Queria ver o asilo por dentro, o dia-a-dia.

Vicentinho é um bom filho. No começo, ia visitar o pai semanalmente, depois mensal, e agora, vai raramente, em dias especiais: no aniversário do velho, na páscoa e no Natal.

Na ida, Vicentinho foi me contando os maus tratos, recebidos pelo pai. Mesmo pagando 2 salários e meio mensais. O mais grave era a desatenção dos cuidadores: o pai passava horas, às vezes dias, mijado, sem trocarem a fralda. O cheiro da urina impregnou, virou crônico.

O seu único consolo, um rádio de pilha, usado para amenizar a solidão noturna, foi retirado por orientação da psicóloga. A doutora achou que a insônia era causada pelo rádio, e proibiu.

Também houve uma queixa do quarto vizinho, o rádio tocava alto. Zé Vicente é um ceboleiro, viciado desde menino, em rádio, sobretudo, naqueles programas de música sertaneja.

Zé Vicente adora, quando o radialista da rádio Comunitária de Itabaiana (87.9 – FM), manda uma música para ele, durante a madrugada. Ele renasce por vários dias.

Eu fui me indignando com as histórias de Vicentinho, sobre o tratamento desumanizado, dado ao seu Zé Vicente.

Na chegada, fui logo reclamar na sala da administração, vizinho a cozinha. Senti Vicentinho constrangido, em dúvidas, sobre a conveniência de minha atitude impulsiva.

Tereza, a enfermeira chefe, ao ouvir a minha denúncia emocionada, saiu em defesa do seu serviço e dos seus comandados. Retrucou, maus tratos? Como assim, você vai ter que provar. Não admito, denuncia vazia.

A experiente enfermeira, nos acompanhou até o quarto de seu José Vicente. Já entrou falando alto e com firmeza. “Seu Vicente, quem foi que lhe maltratou?” O velho respondeu espantado: - “Ninguém! Eu aqui eu sou tratado como um Príncipe.”

Vicentinho, o filho, para não passar por mentiroso, tentou avivar a memória do velho: “Papai, e aquilo que o senhor me contou, lembra-se? O pai reagiu: “Eu não lhe contei nada!” A situação foi ficando difícil. Quem estava mentindo?

Tereza deixou o quarto fumaçando, falando pelos cotovelos. Falar é fácil, o difícil é provar!

Quando ficamos a sós, no quarto, José Vicente nos deu uma aula de Sabedoria: “Vicentinho, meu filho, você e o seu amigo são dois irresponsáveis! Depois da visita, vocês vão embora. Eu, ficarei sozinho, isolado, sem forças para reagir a nada.”

Desabafou Vicente: - “Eu, calado, pacientemente agradecido as migalhas de atenção, sou mal atendido. Imaginem, vocês me arrumam uma má querência com os funcionários do asilo e vão embora. Como será o atendimento depois?”

José Vicente, na velhice, retomou a religiosidade da juventude. Na saída, nos contou uma bela passagem do Velho Testamento, que eu desconhecia. O encontro do profeta Elias, com Deus – livro dos Reis 19:11.

“Sai e põe-te de pé no monte, diante do Senhor! Eis que ele vai passar.”

“Houve então um grande furacão, tão violento que rasgava os montes e despedaçava os rochedos diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor não estava no fogo.”

“Finalmente, passado o fogo, percebeu-se o sussurro de uma brisa suave e amena. Quando Elias a percebeu, cobriu o rosto com o manto.”

Verdadeiramente, o velho José Vicente, se preparou para o descanso eterno.

Antonio Samarone.
 

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