terça-feira, 14 de abril de 2026

O PREGADOR DO FIM DO MUNDO, SANTO OU LOUCO?

O Pregador do Fim do Mundo, Santo ou Louco?
(por Antonio Samarone)

Na segunda metade do século XIX, foram pródigas no Nordeste, as experiências místicas. O Padre Ibiapina, Padim Cícero e Antonio Conselheiro foram os mais destacados. Em Sergipe, tivemos duas: os Caipiras, no Agreste, e o Céu dos Caraíbas, em Riachão dos Dantas.

O Padre Felismino da Costa Fontes, nasceu em Itabaiana, em 08 de abril de 1848. Filho do capitão e negociante Antônio Manuel da Costa (residente na sede da Villa) e da dona de casa, D. Maria da Conceição Costa Fontes. Era o segundo filho do casal, que gerou como primogênito o Tenente José da Costa Fontes, três anos mais velho.

Felismino da Costa Fontes seguiu a carreira eclesiástica, ordenando-se em 1874, justamente no ano em que Antonio Conselheiro viveu em Itabaiana, na Rua da Pedreira. Não há registros, mas as possibilidades de terem se conhecido é muita grande.

“Era o tempo do Anticristo, do Fim do Mundo, das leituras simbólicas do Apocalipse, das apostásias, que gerava uma discussão que alcançava a Santa Missa e a autoridade do Papa.” – Luiz Antonio Barreto.

Após a formatura, Felismino viajou a Roma. Retornou a sua natal, sendo auxiliar o Cônego Domingos de Mello Resende, em Itabaiana. Em 1886, foi transferido para a recém-criada Freguesia de São Paulo da Mata.

O capuchinho, Frei Paulo Antonio Casanova, dedicou-se a uma Missão do Chã do Jenipapo, onde fundou uma Capela, dedicada ao Apóstolo São Paulo.

O povoado passou a Distrito Administrativo, em 1861, e a Vila, independente de Itabaiana, em 1890. Foi elevada a cidade, em 1920. Mais tarde, São Paulo passou a ser denominada Frei Paulo.

A pregação empreendida por Felismino a partir da Freguesia de São Paulo da Mata avançou sobre as localidades de Carira, Alagadiço, Vila Senhora Sant’Ana de Simão Dias, Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, estendendo-se até os limites da Serra Negra, fronteira com a Bahia, chegando a arrebanhar mais de dois mil seguidores.

O Padre Felismino autointitulou-se “o pregador do fim do mundo”. O pároco liderou o movimento religioso caipira (integrado por trabalhadores rurais, donas de casa e letrados) no agreste sergipano, no intervalo temporal de 1885-1890.

O Padre Felismino enquanto professava seu ministério junto à população do povoado da Chã do Jenipapo, nas Matas de Itabaiana, no período de 1881 a 1886, foi se desvirtuando do método adotado pela Igreja Católica Apostólica Romana e findou sendo denominada de “Seita dos Caipiras”, que trazia os fundamentos do Apocalipse e da Missão Abreviada.

“Eu tenho treze profecias, e outras tantas provas evidentes, mariando estes dias, que atravessamos, como próximos ao Juízo Universal. Vivo resignado no meio da guerra, porque já foi dito pelo venerado Padre Francisco: o pregador do fim do mundo será perseguido pelos Padres e até considerado como o Anti-cristo.” Padre Felismino.

Ataques a Felismino e aos caipiras foram publicados nos jornais, a exemplo do noticioso A Reforma (1888), D. Quixote (1890), e dos semanários Cidade de Salvador (s/d), União Federal (1891). Dois desses artigos foram assinados pelo capitão e latifundiário são paulino João Tavares da Mota, outros, anônimos.

Houve uma resistência do clero local, sob a liderança do Monsenhor João Batista de Carvalho Daltro. Em 1890, o padre Felismino foi convocado a comparecer na sede da Cúria Metropolitana, da Bahia, para um encontro pessoal com o Arcebispo Dom Antônio de Macedo Costa.

Esse fato culminou na prisão e internamento do Padre Felismino, no Asilo São João de Deus, na Bahia. Onde o pregador do fim do mundo continuou a se comunicar com os seus seguidores mediante cartas.

Os intelectuais, ficaram ao lado da loucura. O estigma de doido era definitivo.

“O Padre Felismino, antigo Vigário da freguesia de Frei Paulo, Sergipe, o qual, tendo enlouquecido, começou a pregar sobre o fim do mundo, iniciando uma seita baseada no Apocalipse e na ‘Missão Abreviada” - Carvalho Déda.

“O padre Felismino, ordenou-se presbítero da ordem de San-Pedro, virtuosíssimo e muito inteligente, foi o primeiro vigário da sergipana paróquia de San-Paulo. Em sua vida sacerdotal, sem mácula, pouco a pouco insidiosa moléstia mental atacou-lhe o cérebro e, sobe essa ação, sem que logo o apercebessem seus superiores, criou visionária religião entre os matutos das matas de Itabaiana, que foi chamada Seita dos Caipiras.” – Sebrão Sobrinho.

Em seus escritos, Felismino afirmava ser um enviado divino, com a missão de transmitir o conhecimento, combater o mal e comandar a salvação de seus seguidores.

Dom Daltro, Vigário Geral em Sergipe, conhecido pelo combate dado a Conselheiro, em sua passagem por Sergipe, foi um dos principais responsáveis por difundir a ideia da loucura do padre Felismino e denunciá-lo a seu superior hierárquico.

O Padre Felismino foi internado no Hospício San-João de Deus, na Baía, onde concluiu tristemente sua existência em dias do ano de 1892. A psiquiatria cumpria o seu papel.

Descobriu-se recentemente, que ele não morreu no Asilo. Após sair do Asilo, o Padre Felismino transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde faleceu em 1919. Eu fico sem ter como opinar sobre as duas versões.

“O padre Felismino era detentor de uma mediunidade, que se externava através da imposição das mãos sobre os doentes e da vidência. Contudo, seus métodos não foram aceitos pelas autoridades da província e as eclesiásticas, porque redundaram em pregar profecias e anunciar o fim do mundo, mediante uma interpretação um tanto deturpada do livro Missão Abreviada e do livro Apocalipse.” – João da Santa.

Depois do enclausuramento do Padre no hospício, várias missões foram organizadas em Frei Paulo e Itabaiana, para afastar a influência do Padre Santo, sobre os devotos.

Espero que esse registro chegue ao conhecimento do Papa Leão XIV e o Vaticano inicie o processo de santificação do Padre Felismino, na mesma lógica, da justa santificação do “Padim Ciço”.

Minha mãe era devota do Padre Felismino (depois virou Crente) e leitora assídua da Missão Abreviada. Ela citava de “cor e salteado“, trechos das cartas do Santo Felismino. Eu aprendi cedo, que o mundo ia se acabar pelo fogo, segundo o Padre Felismino. O dilúvio não resolveu.

Mamãe era leitora assídua da “Missão Abreviada”, e vivia esperando a chegada do anticristo. Ela repetia: “haverá Sinais no sol, na lua, nas estrelas, e na terra opressão das gentes.” Se ela tivesse esperado, tinha conhecido o Laranjão, o anticristo americano.

Eu cresci acreditando que assistiria o Juízo Final. Acho que vou conseguir (pelo menos pelas redes sociais). A qualquer instante, os Estados Unidos perdem a guerra com o Irã, e Trump cumprirá as profecias do Padre Felismino: os humanos serão extintos pelo fogo atômico.

A Igreja em Sergipe baniu, entre os católicos, a memória do Padre Felismino da Costa Fontes.

Antonio Samarone – Um caipira fora de época.
 

Um comentário:

  1. Esse interessante artigo me pegou bem nas últimas páginas de Os Sertões. Acredito que o mais importante na época era saber se o padre era republicano ou restaurador monarquista (hoje a discussão é se o padre importunador é comunista, tipo Lancellotti). Se era monarquista, botaram no manicômio para economizar munição.

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