quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

A FELICIDADE DE FINAL DE ANO.


 A Felicidade de Final de Ano.
(por Antonio Samarone)

A felicidade é uma aspiração universal, isso já se sabia. A dúvida, era se esse desejo seria possível. Freud achava que a felicidade possível era instantânea, momentos passageiros, que ficam na memória.

A assertiva freudiana de que a “Natureza não tem compromissos com a felicidade”, é difundida com ares de verdade bíblica. Até 1920, Freud defendia que a psique humana é regulada pelos princípios do prazer e do desprazer. Depois mudou de opinião. 

 
Não pretendo discutir aqui sobre as pulsões da morte, outro conceito Freudiano.

A redenção se faz pelo sofrimento. Ocorre, que o Ego busca a felicidade. Essa dualidade é aparente?

O certo é que a felicidade dos outros incômoda. A prova é simples: comece a relatar as suas vitórias (reais ou imaginárias) em um grupo de amigos, a reação de antipatia será generalizada. Mesmo que não se fale na hora, por conveniência, mas a impressão que fica é que somos mentirosos, pretensiosos e falastrões.

No geral, não se vê com simpatia a felicidade alheia. Agora inverta, conte as suas derrotas, o sorriso brotara no canto da boca dos circunstantes. Com as exceções de regra.

Com as redes sociais, o desejo universal de felicidade para todos se tornou exequível. São festas, jantares, confraternizações, muita alegria, risos, abraços. A chegada do Paraíso.

Com uma novidade histórica: a tecnologia permitiu que essas demonstrações de felicidade fossem de acesso universal, ao vivo e a cores. Só mudou a mídia. A natureza humana continua a mesma.

Os caga-raivas acham que tudo isso é falso. Uma representação teatral, ilusória, virtual e, na realidade, todos estão infelizes. A felicidade pelas redes sociais é uma fraude! Dizem os incrédulos.

Me permitam discordar.

Acho que a epidemia de felicidade de final de ano, expressa nas redes sociais, é tão verdadeira como as demais felicidades do dia-a-dia. Claro, todas são passageiras.

Para ser mais claro, o riso das “selfies”, das fotos pousadas, das demonstrações de felicidades planejadas, são tão verdadeiras como as antigas. A tecnologia digital não altera a falsidade humana. Nem aumenta, nem diminui.

A felicidade continua enigmática. A razão atrapalha. Ficar procurando explicações, motivos superiores, justificativas dificultam a felicidade.

A felicidade é um sentimento muito próximo da irrelevância. Se sente! Cada um a seu modo. Em alguns casos, submeter-se ao ridículo é necessário. Até fazer coraçãozinho com as mãos, gestos de paz e amor defronte para as câmaras, vale! Talvez seja a única forma de felicidade para muita gente.

Vou radicalizar: talvez seja a única forma de felicidade possível.

Experimente contar o seu momento de felicidade para uma banca de filósofos. Seremos humilhados.

A frase mais comum nos momentos de felicidade é: “estou sem palavras”. Verdade, sem palavras e muitas vezes sem pensamentos.

A felicidade não é filha da razão.

A minha conclusão é que a felicidade generalizada de final de ano é verdadeira, extrema, um surto contagiante. Sei que os mais intelectualizados ficarão decepcionados: “e é só isso”? É!

Os intelectuais acham que merecem outra felicidade, exclusiva, só deles.

Aquela felicidade da massa na areia da praia, defronte a um palco, vendo os fogos, fazendo sinais, gritando, pulando, mandando beijinhos e se abraçando com estranhos é a pura felicidade.

Claro, o álcool (e outras drogas) ajudam. Mas ajudam também as felicidades cultas, em jantares suntuosos.

Gente, a felicidade não é nada que os filósofos procuravam.

Um antigo candidato a Prefeito do Aracaju, chegou a prometer na campanha uma cidade feliz, uma “Feliz Cidade”. Perdemos a chance dessa experiência, ele foi derrotado por quem só propunha pintar os meios fios e apanhar o lixo.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O BARÃO DO TUIM


 Gente Sergipana – O Barão do Tuim.
(por Antonio Samarone)

Passei na portaria do meu apartamento, e estava lá um presente: o livro de Reminiscência de um Engenheiro Agrônomo. Adorei. Bem escrito, leve, contando boa parte do cotidiano do Aracaju, das décadas de 1950/60.

Antonino Campos de Lima, agrônomo, formado na lendária escola de Cruz das Almas, na Bahia, professor emérito de botânica da centenária UFS, é descendente direto do Fidalgo Coronel João Neto, senhor de baraço e cutelo, dono das terras do distrito de Nossa Senhora da Conceição da Parida. (atual Arauá)

Da família do Coronel João Neto do Tuim, brotaram juristas, desembargadores e agrônomos. Somente em Cruz das Almas, formaram-se oito agrônomos, um filho, seis netos e um bisneto, com destaque para o intelectual Urbano Neto, tio de Antonino.

Antonino nasceu no Sítio Carro Quebrado, Aracaju, cresceu banhando-se no Rêgo do Tororó e jogando bola no Bariri. Filho do Dr. José Olino, obstetra, que deixou a medicina pela vocação de mestre.

José Olino foi professor catedrático de português do Atheneu, latinista de nome nacional, poeta, prosador e fabulista. Professor titular da disciplina filologia românica da UFS.

Antonino nasceu e se criou num sítio, no Bairro São José. Um privilégio.

Não confundir José Olino o pai de Antonino, com José Olino, irmão do mesmo, esse cirurgião plástico e proprietário da tradicional Clínica dos Acidentados, dele e do Dr. Adelino.

Antonino tem outros irmãos, eu conheço Cândido e Seu Aluíso, da Pisolar.

Antonino é primo carnal do Dr. Bernardo Lima, um amigo de longa data.

Antonino fez os primeiros estudos no Jardim de Infância Augusto Maynard, o primeiro de Sergipe. Passou pelo disciplinado colégio Jackson de Figueiredo, de Judite e Benedito, para desaguar no conceituado Atheneu.

Antonino foi o melhor aluno sergipano em Cruz das Almas, na Bahia, com grande destaque em botânica. A minha admiração pelo mestre, começou por sua sabedoria botânica.

Em sua primeira aula, em Cruz as Almas, o professor perguntou qual era o nome científico do algodão, prometendo um dez para quem acertasse. A turma fez silencio. Antonio levantou a mão e disse encabulado: o algodão é o Gossypium herbaceum, da família Malvacea.

Dez, nota dez, na primeira aula.

Em meus tempos de estudante, no Murilo Braga, o programa do curso de biologia era centrado em botânica, zoologia e corpo humano. Eu gostava de botânica. Depois a biologia do segundo grau mudou para citologia e genética. A botânica foi esquecida.

Eu ensinei biologia no Arquidiocesano, mas a biologia já renovada pela citologia e pela genética.

A passagem do Dr. Antonino por Cruz das Almas foi uma benção de Deus. Por lá ele casou como Dona Giovanina, uma descendente de italianos, jogou no time local de futebol e fez muitos amigos. Aliás, antes de retornar a Sergipe, Antonio trabalhou nas lavouras de cacau, na Bahia.

Antonino foi professor de botânica do curso de biologia da UFS. Um gentleman, atencioso, disponíveis para os alunos. Ele fez de tudo na UFS. Publicou vários livros técnicos.

Eu, curioso pela botânica, quando quero saber sobre as plantas nativas do meu latifúndio de 4 tarefas, aqui em São José dos Náufragos, às margens do Rio Santa Maria, ligo para Antonino.

Doutor Antonino, obrigado pelo seu livro de Reminiscência.

Eu sou um descrente na humanidade, mas reconheço que no meio da boiada, tem gente decente, idônea, altruísta, magnânima, benevolente, gente que faz o bem de forma desinteressada. Se me pedirem provas, eu citarei o senhor, sem medo de errar.

Feliz Ano Novo, para o Senhor e familiares.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

sábado, 30 de dezembro de 2023

NÃO HÁ NADA DE NOVO.


 Não há nada de novo!
(por Antonio Samarone)

As reuniões semanais dos itabaianistas, às quintas-feiras, no início da noite, na Praça Luciano Barreto Junior, em Aracaju, só tem uma exigência: a pauta será sempre no “pretérito-mais-que-perfeito”.

Para os que esqueceram a gramática, só tratamos do passado distante. A confraria é quase um consulado arqueológico.

Além do lazer, do bom papo, das ironias e da confraternização, a reunião é uma prevenção eficaz contra as demências. As histórias podem ser repetidas, mas não deixará de ser novidade.

Não existem histórias novas, a gente apenas desconhecia.

As reuniões das quintas é eivada de saudosismo. Voltamos a conversar pessoalmente, sem WhatsApp, com direito a disputa pela palavra. Quem tem a preferência? Falar alto não resolve.

A vez da fala é de quem atrai os olhares, a atenção dos demais. Não existem inscrições prévias, nem coordenadores.

Em Esparta, o Conselho de Anciões (Gerousia) tinha muitos poderes. Entre nós é apenas uma assembleia de conversadores. Gente que não quer esquecer.

Qual o segredo da longevidade dessa confraria? Primeiro, as divergências morrem ali. A confraria não pretende mudar a realidade, converter os incrédulos, convencer os que pensam diferente na política, nem atrair torcedores para o Fluminense.

Com o envelhecimento, a atrofia cerebral é uma realidade. Estamos resistindo!

Entretanto, o que resta do cérebro pode realizar as mesmas funções. Essa possibilidade é variada entre as pessoas. A limitação vai da demência ao pleno vigor cognitivo. Entretanto, existem pessoas onde a cognição fica mais afiada. Cada um pensa que é essa exceção.

Lembro-me de uma canção nordestina que afirma num verso: “cabeça grande é sinal de inteligência, eu agradeço a providência ter nascido lá” (lá, é em Itabaiana).

Não é bem assim! Mas o susto é grande, quando enxergamos que o nosso cérebro está encolhendo.

Calma, gente! Existem meios de preservação da memória. As neurociências descobriram novidades: o cérebro é móvel, maleável, vivo, cria novos circuitos e resiste. A derrota é a acomodação. Vamos pró curar, coisas novas.

As reuniões da Confraria das quintas mostram outra verdade: a memória coletiva permanece. O que um não lembra o outro lembra. Quando alguém pergunta: lembram de fulano? Quem não lembrava, quando a narrativa começa, a lembrança retorna.

O que ninguém lembra, não existiu.

Com essas reuniões, eu passei a simpatizar com o conceito de inconsciente coletivo, de Jung. Os arquétipos são visíveis. O enredo das narrativas tem a mesma linha, independente de quem conte as histórias. As graças e as desgraças são as mesmas.

Por isso, as reuniões são terapêuticas!

Antonio Samarone – médico sanitarista.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

A MARCA DE DEUS


 A Marca de Deus...
(por Antonio Samarone).

A ciência é uma narrativa humana. Somos a medida de todas as coisas.

Acabo de ler um livro instigante de Marcelo Gleiser, “A Criação Imperfeita”. Um cientista que não diviniza a ciência, nem abraça o obscurantismo. Um texto acessível aos curiosos.

O medo das trevas, do escuro, do breu povoou a minha infância... Brincávamos de quem ia mais longe, em direção ao escuro. Eu sei, Deus já havia criado a luz, mas só estava garantida durante os dias. As noites precisavam de luzes artificiais. Os meninos de hoje perderam esse medo.

A escuridão cósmica me assusta!

A luz é um tipo de onda eletromagnética que se propaga a uma velocidade constante de 300 mil km/seg. Outro mistério: por que a essa velocidade e por que constante.

Porque não enxergamos o restante das ondas eletromagnéticas, somente a radiação com comprimentos de onda entre 380 e 750 nanômetros, chamada de luz.

Depois descobriram que a luz também são fótons, matéria e energia ao mesmo tempo. A fuga da vida rural, em boa parte, é uma fuga a essa escuridão cósmica do campo. Bem ou mal, as cidades são iluminadas, no início com lampiões, hoje com led.

A origem do universo, da vida, em especial da vida inteligente, continua um mistério, tanto para a ciência como para as religiões.

As duas versões partem do nada. A questão do que existia antes do nada é especulação. O que vem antes, tanto no Big Bang da ciência, como na gênese bíblica, requer uma na crença.

No Big Bang, temos um caldo energético (eterno), que em determinado momento (14 bilhões de anos) começa a se expandir, formando os átomos, a matéria, planetas, estrelas, a vida e a vida inteligente. Bem, e antes da explosão?

As religiões, apontam para a existência anterior de um deus, um demiurgo eterno, sobrenatural, principio criador de todas a coisas. Os deuses são sobrenaturais, não precisam da razão para existirem. E antes? Antes era o verbo...

A crença de que existe uma ordem oculta mediando a natureza, permanece uma crença. A incerteza é uma propriedade da matéria. Essa busca é um devaneio da razão.

A ciência descobriu que toda a diversidade da natureza está interligada e possui uma origem única. As religiões, procuram religar essa diversidade, com uma explicação divina; a ciência busca um código secreto da natureza.

A verdade, é que existe uma realidade fora da apreensão cognitiva. A ciência procura, sem sucesso, descobrir esse código secreto da natureza. Entretanto, somos capazes de acreditar em algo, mesmo sem qualquer evidência.

Crença por crença, acredito que a existência de vida inteligente tem um propósito. A vida inteligente está restrita a esse asteroide insignificante chamado Terra. O Cosmo é vazio, infinito, escuro, frio e indiferente. Existimos nessa solidão cósmica.

O livro me ensinou duas outras coisas, que sem a sua leitura eu morreria sem saber:

1. Em números arredondados, 75% da matéria que existe no cosmo é composta de hidrogênio, enquanto o hélio, o segundo elemento mais abundante, contribui em 24%. O resto dos elementos da Tabela Periódica, do lítio ao carbono e ao urânio, contribui com apenas 1% da matéria total. A química da vida é minoria absoluta!
2. Sabemos é que a energia escura toma em torno de 73% da energia total do Universo. O resto é composto de matéria escura (com 23%) e os nossos humildes prótons e elétrons (com apenas 4%). Sendo assim, chegamos à revelação mais chocante da cosmologia moderna, que 96% da composição material do cosmo é desconhecida!

Aprendi no livro de Glaiser, que a busca permanente da verdade alivia o sofrimento, trata-se de uma “pró-cura”.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

UM POETA DE BATA LONGA


 Um Poeta de Bata Longa.
(por Antonio Samarone)

Um dia desses, eu afirmei que a poesia estava escasseando em Sergipe. Mexi num salseiro. O que apareceu de poetas inspirados e com a foice na mão, foi promissor: “estamos aqui, disseram eles!”

Pensando bem, eu exagerei! Esqueci até o dr. Rômulo, um poeta de nascença.

Rômulo de Oliveira Silva é filho do goleiro Lessa e dona Lene. Para quem ainda não conhece, Rômulo nasceu na Vila Operária da Passagem, em Neópolis. Veio para a Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, com 7 anos. É um dos nossos.

Dona Lene criou os seus filhos com rédea curta. O dr. Rômulo é homem de fino trato, culto, Íntegro, um conservador a moda antiga.

A Vila Operária da Fábrica de Tecidos do Comendador Peixoto, possuia atrativos culturais. A boa música, o cinema e teatro. Dona Marlene (a mãe do poeta), era iniciada nas belas artes. Rômulo teve de quem herdar a sensibilidade poética.

Nessa passagem de sua obra, o dr. Rômulo resumiu a sua diáspora:

“Quando dobrei pela última vez o entroncamento da Vila Operária da Passagem onde nasci, ainda com sete anos de idade – acompanhando a minha mãe e com a minha irmã na boléia de um velho caminhão Chevrolet, dirigido pelo motorista Zé de Ana, com destino a uma cidade que eu nunca havia ouvido falar, Itabaiana – eu jamais imaginaria que estava cumprindo uma saga migratória que havia sido iniciada pelo meu avô Pedro de Jeremoabo, pelas minhas tias velhas de Gararu, e pelo meu pai, de Caruaru.”

Eu, um adepto do conceito junguiano do inconsciente coletivo, busco os fundamentos da riqueza e da diversidade do pensamento do dr. Rômulo, nessa sua origem. Poeta, filosófo, médico e escritor. São muitas heranças, são muitas culturas.

Como entender um conservador humanista e democrata? Um choque, para um esquerdopata da minha estirpe. Eu sempre associei o iluminismo e o humanisno, as teses da esquerda. Gente, eu estava errado, existe pelo menos uma exceção. Deve ter outras.

O dr. Rômulo de Oliveira Silva, um angiologista conceituado, retribui a sua formação em escolas públicas, com a sua dedicação ao SUS. Nunca deixou os ambulatórios municipais da Rua de Bahia. Prestando o mesmo serviço que presta em sua clínica particular.

O dr. Rômulo sempre foi um menino estudioso. Nunca perdeu esse vício. Achando que a filosofia tinha uma sabedoria oculta, meteu a cara nos filósofos. Fez o curso, na UFS.

Portanto, peço desculpas ao poeta de batas longas, dr. Rômulo, e a tanto outros poetas, invisíveis à minha visão caolha. Só a poesia salva!

“Ouvi galos cantar de dia/ Durante um eclipse total do sol./ Uma lição muito pouco percebida/ Nem sempre que escurece – é noite;/ Nem sempre que amanhece – é dia.” – Alberto Carvalho.

Eu ouvia o galo cantar, só não sabia onde!

Antonio Samarone (médico sanitarista)

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

A ALMA DO ARACAJU


 A Alma do Aracaju.
(por Antonio Samarone)

Nesse Natal, recebi alguns amigos das Minas Gerais, dos tempos da Residência Médica, na UFMG. Na despedida, fiz uma pergunta de rotina: o que eles acharam do Aracaju? Eles riram, e disseram coisas que eu não gostei.

“Na verdade, achamos a cidade bonitinha, limpinha, arrumadinha, mas sem uma marca cultural. Sem identidade! Nada que chame a atenção. Não parece uma cidade nordestina. A praia muito comum, com a água barrenta. Uma culinária sem identidade. Aracaju parece uma cidade média, do interior de São Paulo.”

“O monumento mais visitado é um caranguejo de fibra, na orla da Atalaia.”

Reagi indignado! Como desmentí-los?

Qual é a música, dança, artes plásticas, cinema, teatro, folclore, literatura, poesia que caracterizam Aracaju? Nos destacamos em quê? Quais os nossos nomes nacionais? O nosso último intelectual reconhecido nacionalmente foi Joel Silveira, morreu em 2007.

Quais os nomes que se destacam no esporte? O último nome nacional foi Maguila.

Nem na política. Nada! Nenhum destaque nacional, nem de direita, nem de esquerda. Os últimos nomes nacionais do Aracaju foram Albano Franco, Carlos Brito e Déda. Dois do interior.

Eu fiquei acuado para rebater aos mineiros. Nenhum prato típico, nenhuma música de sucesso, um livro, um atleta, um cientista, um religioso (mesmo da Universal), um curandeiro, um médico, um jurista.

Eu preciso de um aracajuano que se destaque nacionalmente, seja lá em que for. Esses mineiros precisam de uma resposta à altura. Preciso de destaques em qualquer coisa: sinuca, briga de galo, porrinha ou carteado.

Senti a falta de Luiz Antonio Barreto. Só ele responderia á altura, a esses mineiros desaforados. Quem nunca se viu, botar defeitos em terra alheia? Mesmo sendo recebidos com fidalguia.

Luiz Antonio Barreto, sobre Aracaju, tinha resposta para tudo.

Depois me conformei. A bela e acolhedora Aracaju não gera o sentimento de bairrismo. Nunca ouvi ninguém dizer de peito erguido: “Eu sou do Aracaju”!

Eu amo Aracaju! Gosto do seu jeito acanhado, provinciano e humilde. A música baiana realiza anualmente uma festa por aqui, e a gente ainda chama de Pré-Caju. Somos uma gracinha de cordialidade.

Entretanto, quando sou perguntado, você é de onde? Eu encho a boca: sou de Itabaiana, nascido e criado. O bairrismo é por Itabaiana.

Entenderam?

O aracajuano desconhe os prazeres e a doçura do bairrismo.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

domingo, 24 de dezembro de 2023

CHÁS, TISANAS E INFUSÕES.


 Chás, tisanas e infusões...
(por Antonio Samarone)

A botica do dr. Flodualdo, ficava no segundo trecho da Monsenhor Constatino. A residência na Rua de Vitória. Era a Unidade Básica, dos moloeques do Beco Novo.

Um quarto sortido de remédios, em boa parte, manipulados pelo alquimista. Quem podia, pagava alguma coisa.

O dr. Flodualdo, um prático em farmácia, dominava os saberes ancestrais. Em uma pequena estante, lembro-me de uma Coleção de Várias Receitas, datada de 1766, e da famosa “Grande Farmacopeia Brasileira, de Chernoviz, em dois volumes.

Se dizia, que o dr. Flodualdo sabia fazer a Triaga Basilica, a maior descoberta dos jesuítas.

Na Botica de dr. Flodualdo existiam os medicamentos prontos, como os xaropes, tinturas, emplastos e unguentos. E os medicamentos magistrais, preparados conforme receita ou formula prescrita por médicos.

O dr. Flodualdo prescrevia os banhos terepêuticos..

Os banhos com certas ervas, eram de serventia indiscutíveis. Tantos os banhos gerais, como os pediluvios (lava pés), manilúvios e semicúpios (banhos de assentos).

Os banhos podiam ser frios, frescos, tépidos e quentes. Durante a Peste de Covid, os manilúvios voltaram a ser prescritos.

Os semicúpios frios aliviam as hemorróidas ardidas.

Os banhos de cinza quente, foram abandonados pelas dificuldades logísticas, apesar da eficácia, em certas doenças de pele. A cinza de charuto, era um santo remédio na tynea corporis (impinge).

Os banhos de sal grosso, para afastar os encostos e mazelas espirituias. Os banhos de rosa, para estimular a sensibilidade na lua de mel, prescrito com afrodisíaco.

Ainda hoje, quando bate a enxaqueca, stress, tédio, enfado, eu apelo para um belo banho. Quente, frio, ou alternado. Os resultados são evidentes.

O dr. Flodualdo preparava dois licores de jurubeba, um aperitivo e outro digestivo. O aperitivo tinha a fama de abrir o apetite. Esses, em não tinha acesso. Ele herdou os saberes jesuíticos.

A industria farmacêutica sepultou esses saberes, para infelicidade dos viventes e padecentes.

Antonio Samarone – Médico sanitarista.