terça-feira, 15 de outubro de 2019

OS AVANÇOS DA MEDICINA.



Os Avanços da Medicina... (por Antônio Samarone)

O amigo Leonardo (76 anos) é chegado a novidades. Ele não abre mão de praticar “stand up” e pitar marijuana com regularidade, extravagancias raras em sua idade. Só que dessa vez ele exagerou.

Ignorando os meus conselhos, Leonardo resolveu fazer um check-up completo, de ponta a cabeça. Sem dificuldades, a ciência médica diagnosticou que ele levava uma vida desregrada. Uma constatação óbvia!

O doutor, recém-chegado de uma atualização nos USA, indicou a monitoração permanente dos sinais vitais e dos indicadores biológicos de Leonardo. A tecnologia tomou conta da medicina, para o bem da humanidade.

Leonardo me apareceu com um discreto equipamento no pulso, parecendo um relógio futurista, que acompanha o funcionamento do corpo do abençoado, e repassa os dados on-line para um aplicativo instalado no celular.

O equipamento mede a glicemia, o colesterol, o PH do sangue, conta os glóbulos brancos, hemácias e plaquetas, conta os passos, os peidos, mede a pressão arterial, a temperatura, os batimento cardíacos, o ritmo da respiração, as vezes que se come, se senta e se alevanta, as horas de sono, os cochilos, os arrotos, o cuspe, as lagrimas, indica a sovaqueira, o bafo, o chulé, a água que bebe, o mijo, o volume, cor e cheiro da bosta.

A cada 45 minutos o equipamento faz um eletrocardiograma, automaticamente, e envia o resultado, com o devido laudo médico, para o prontuário eletrônico do cristão, que está guardado nas nuvens. Durante a noite o sono é analisado e anotado no mesmo local. Nada escapa do controle. Ninguém morre mais por causa desconhecida.

Leonardo perdeu o sossego, mas está se sentindo mais seguro. O problema é que não é só medir, quantificar, não, esses vários indicadores possuem metas a serem cumpridas. Por exemplo, o meu amigo não pode andar menos de 12 mil passos por dia, soltar menos de 21 peidos, comer mais de 70 gr. de carne, cagar mais de 650 gramas por dia, manter a glicemia acima de 100, e assim por diante. 

A ciência médica perdeu os limites no zelo, cuida de tudo.

A alimentação de Leonardo hoje é toda regulada, com parâmetros científicos rígidos. Dependendo da análise bioquímica do meio interno, do volume de fezes processada, o aplicativo calcula automaticamente a quantidade e o que ele pode ou não comer em cada refeição. É a inteligência artificial, que ninguém é doido desobedecer.

Leonardo continuou com o senso de humor aguçado: pelo menos arrumei o que fazer, disse ele.

A cada 15 dias, Leonardo precisa voltar ao médico, para conferir se as metas foram alcançadas. Nessa ocasião é emitido um relatório minucioso, que será arquivado nas nuvens, “In saecula saeculorum”.

O equipamento é programado para funcionar além do último suspiro. Informa quando começa a decomposição, a putrefação orgânica. Regula a duração do velório, a hora do enterro e ainda registra nominalmente todos os que compareceram. O equipamento tem garantias, até o infeliz se tornar esqueleto.

Antônio Samarone.

A SOLIDÃO DOS SACERDOTES




A Solidão dos Sacerdotes (por Antônio Samarone)

Encontrei com um velho amigo, sacerdote da igreja católica. Após os cumprimentos, ele não perdeu tempo: que bom que o senhor é médico, estou precisando de uma receita de Rivotril, com urgência. 

Senti a dependência!

Respondi que não exercia a clínica psiquiátrica e que nem receituário eu possuía. Perguntei: por que o senhor não procura o seu médico? “Que médico, ele respondeu. É difícil uma consulta psiquiátrica pelo SUS.” Entranhei, achava que a igreja tinha um plano de saúde para os padres pobres.

Percebi que o sacerdote, já idoso, padecia de um transtorno neurológico, um leve tremor nas mãos e cabeça. Me disse que morava só, numa casinha nos fundos da Paróquia e que também sofria de diabetes.

O padre acrescentou que vivia franciscanamente, comendo de marmita popular, duas vezes ao dia. Uma vida de penitência. A paroquia dele é pobre e o que arrecada é muito pouco.

A padre padece de uma depressão profunda, visível, só dorme com tarja preta. Ainda não apelou para o suicídio, pelo temor de Deus. O sofrimento mental não poupa nem o baixo, nem o alto clero. 

A demência é democrática.

O meu amigo se mostrou temeroso pelo futuro. Não tem família por aqui, nem ninguém para cuidar dele. Daqui a pouco começará a perder a autonomia e, Deus me perdoe, as demências não livram nem as ovelhas, nem os pastores.

Não é da minha conta, mas vou dizer: a igreja deveria prestar mais atenção para o sofrimento mental dos seus sacerdotes. Casos de depressão e ansiedade são frequentes. Deveria pensar também em criar uma instituição para receber os padres idosos, no final da vida. Eles não possuem filhos, e a imensa maioria não acumulou cabedal, para pagar aos médicos e cuidadores.

Antônio Samarone.

domingo, 13 de outubro de 2019

A ERA DO VAZIO


A Era do Vazio (por Antônio Samarone)

Este poema venceu um recente concurso aqui em Sergipe.

“Tec lec; tec bec e tec peque;
Lec tec, bec tec e peque tec.
Nada é nada...
Tudo é tudo...
O mundo é redondo ou plano, sobretudo!
Plano e redondo é o mundo da alvorada...
Nada é nada
Tudo é tudo.”

Inconformado, procurei o coordenador do concurso para indagar: não entendi nada, o que é que o poeta quis dizer, com a sua arte?

O coordenador me respondeu ríspido: “não precisa entender, basta sentir. Poesia não precisa dizer nada, é arte. Sinta a beleza. A arte não precisa da realidade. A arte é pura, bela, vem da alma humana antes do pecado original. A alma é eterna e a arte é imortal.”

“Acabe com essa mania de querer politizar a arte, encontrar significados, isso é puro oportunismo. A arte existe para acariciar a alma, que vive angustiada com a morte de Deus. A arte nem é verdade nem mentira, é só arte.”

“A arte se basta, entendeu?”

Não, não entendi, até piorou. Além de continuar sem entender a arte da poesia, não entendi a explicação. A conversa ia render, mas deixei prá lá, o cabra é meu amigo, e não quero criar mais desavenças.

Antônio Samarone.

sábado, 12 de outubro de 2019

UM SANTO SERGIPANO




Um Santo sergipano... (Por Antônio Samarone)

A Irmã Dulce foi canonizada. Finalmente, uma Santa brasileira. O anjo bom da Bahia. Por que demorou tanto um Santo brasileiro?

O Vaticano, por preconceito, não reconheceu o milagre da hóstia no Juazeiro. Na véspera da Sexta-Feira Santa de 1889, a beata Maria de Araújo recebeu a hóstia das mãos do Padre Cícero, e a hóstia consubstanciou-se em sangue. Depois, o próprio Jesus apareceu para a Beata.

Além do não reconhecimento do milagre, o Padre Cícero Romão Batista foi excomungado. Morreu em 1934, proscrito da Igreja. O padre Cícero virou Santo pela crença do povo de Deus, sem o aval da igreja.

Em quase todas as casas desse vasto Sertão nordestino, encontra-se uma imagem do Padim Ciço, menos nas igrejas. Em 2015, o Vaticano reintegrou o padre Cícero. Aguarda-se a santificação oficial, pois santo ele já é, pela fé do povo.

O Concílio Vaticano II (1962/1965), reduziu a importância dos Santos. As igrejas foram esvaziadas. Sobraram Santo Antônio, São José, São João, São Pedro, e mais um ou outro perdido. O Vaticano II modernizou a igreja católica e perdeu fiéis.

O Vaticano II cassou os Santos não canonizados, criados pelas crenças populares. A revogação do Concílio de Trento (1545/1563) dessacralizou muita coisa. A Igreja católica começou a perder fiéis, esvaziar.

Até a minha mãe, filha de Maria, devota de Santo Antônio, virou Crente. Ela e todas as suas irmãs. Lembro-me do espanto da minha Vó Maria do Céu: “Eu é que não mudo, nunca vi um Crente virar Santo.”  Eu também não!

A igreja católica está retornando à Trento, pelo menos quanto aos Santos. Viva a Santa Dulce! Queremos mais Santos, mais, quanto mais melhor, pelo menos um por cada estado nordestino.  O Ceará já tem o seu, falta só o diploma.

Para começar por Sergipe, eu lanço a candidatura do Padre Pedro. Ou alguém acha que o Padre Pedro não merece?

Eu sei, o Frei Miguel, o apostolo de Aracaju, já está sendo beatificado. Mas era italiano.

Antônio Samarone.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

O FIM DO SONO


O Fim do Sono. (por Antônio Samarone)

A celebre frase de John Lennon, “o sonho não acabou”, perdeu a validade?

A vida cotidiana está se rompendo. Os incansáveis esforços da ideologia neoliberal em criar mercado a partir de qualquer coisa está avançando. Agora é a vez do sono...

Ivo Antônio (51 anos) é químico. Desempregado. Trabalhou muito tempo numa empresa terceirizada. Sempre foi sindicalizado, combativo, sempre brigou por seus direitos trabalhistas. Nunca abriu mão de nada.

Ficou três anos desempregado, fazendo bico. Vivendo com o salário da mulher, professora da rede municipal de Laranjeiras. Os dois filhos, casados, passaram a ajudar em casa.

Ivo Antônio desabou, viu a sua dignidade ir de águas abaixo. Bateu uma tristeza profunda. Só dormia com tarja preta. Pensou seriamente em suicídio.

Ontem chamei um Uber para ir à UFS. Uma surpresa, Pedro Ivo era o motorista. Depois dos salamaleques de práxis, começamos um papo. E aí, meu amigo, tá gostando de trabalhar na Uber?

"Muito! Deixei de ser trabalhador, virei empresário de mim mesmo. Estou na batalha 14 horas por dia, mas satisfeito. Não tenho patrão. Ninguém manda em mim. Transformei a insônia em trabalho. Estou superando a barreira do sono, para aproveitar integralmente o tempo para ganhar dinheiro."

Eu não aguentei: o que as granjas fazem com os pintos?

Ele reagiu: “você continua comunista? A disponibilidade para consumir, trabalhar, compartilhar, responder, curtir, 24 horas por dia, 7 dias por semana, pode ser a salvação da economia.”

"Já existem pesquisas científicas buscando a fórmula para criar o homem sem sono. Embora o sono não possa ser completamente eliminado, pode ser profundamente atingido. Será a última fronteira a ser ultrapassada pela ação do mercado, disse-me ele."

Pedro Ivo está mudado, perdeu a esperança no próximo, na utopia de uma sociedade mais justa, e me revelou convicto: “votei em Bolsonaro e não estou arrependido. Só o individuo existe, é cada um por si. Quando eu estava desempregado os companheiros desapareceram. Nem telefonema recebia."

Misericórdia!

Fiquei pensando, o capitalismo pôs moderno está empurrando a humanidade para uma aventura. Uma sociedade do cansaço da alma, da falta de esperança, onde o hiper consumo é o único caminho para a felicidade.

Eu conhecia estudos sobre o sono como formas mais eficazes de tortura e sobre a criação de um estado de vigilância mais duradouro, restritos ao campo das técnicas militares. Hoje querem atingir o sono dos trabalhadores e dos consumidores. Não sabia.

O fim da importância do universo onírico do sono, ameaçado pelas visões atuais que “tratam o sono e sonho como um mero ajuste da sobrecarga da vigília”.

Tudo vira um ativo rentável. O sono (ou a sua falta), já é rentável para a indústria farmacêutica. Agora vai ser monitorado para gerar lucro, mais valia. O sono está sendo estudado, classificado, medido, rastreado, medicalizado a fim de aproveitá-lo ao máximo no menor tempo possível.

Antônio Samarone.

sábado, 5 de outubro de 2019

A SOLIDÃO VOLUNTÁRIA (parte um)


A Solidão Voluntária (Parte I) (por Antônio Samarone).

Peregrinando pelas redondezas do Raso da Catarina, conheci o Frei Romeu, um velho franciscano do Sertão da Bahia. Conversa vai, conversa vem, eu quis saber se a vida de frade era muito solitária. Ele me respondeu com uma conferência.

O Frei Romeu começou a conversa pela bíblia: 

Logo após a criação, em pouco tempo, Deus identificou que não era bom que o homem vivesse só e lhe arrumou uma companhia. A solidão já nasceu malvista.

O homem da caverna vivia coletivamente, não era possível o isolamento, por uma questão de segurança. O homem não podia afastar-se da horda, do bando, do clã, da tribo, da aldeia. Nem os deuses estavam só, viviam no Olimpo.

A solidão era própria dos mitos e dos heróis. O indivíduo é efêmero, só o coletivo possui permanência e estabilidade. O filosofo grego era um homem da praça pública. Para Aristóteles o homem é um animal social e político.

A solidão não era bem vista nem pelo paganismo, nem pelo antigo testamento. Em Roma a solidão era a punição por um crime: o exilium...

A solidão só ganhou prestígio com o cristianismo. Eu sou um eremita, adoro a solidão, disse-me o velho frade cheio de fé.

E continuou:

Sou devoto de João Batista, um eremita adorado. João se vestia com peles de camelos, com um cinto de couro em volta dos rins e alimentava-se de gafanhotos e mel selvagem. Jesus era atraído pelo deserto, e se isolou por 40 dias, onde foi tentado pelo Satanás. Sempre rezava sozinho.

A partir do século III era comum a procura da vida no isolamento do deserto. Uma leva de eremitas e anacoretas vagavam penitentes. Monges do deserto passaram a atrair multidões. Hoje é diferente, eu vivo quase só.

A igreja sempre desconfiou desses solitários, e por isso estimulou a criação da vida monástica. Levar a vida ascética, afastada, mas não sozinhos. Criou-se os mosteiros e a ordens religiosas. Uma solidão sob vigilância.

A grande doença dos eremitas é a acídia, talvez o que chamamos hoje de depressão. O solitário obcecado pela acídia fixa os olhos na janela e a sua imaginação lhe pinta um visitante fictício; uma ranger da porta o faz saltar; ouvindo vozes; prostrado, com uma tristeza irracional.

A partir do século V, a Igreja começou a condenar as pessoas a exclusão da vida comum dos cristão. Surge e excomunhão. A solidão involuntária. A sansão era reservada aos Bispos. O excomungado era rejeitado pela comunidade dos vivos e dos mortos, ele perdia até o direito a uma sepultura sagrada.

Outros foram excluídos por sentenças judiciárias. Os prisioneiros confinados nas masmorras e calabouços, numa solidão até a morte. Apesar do esvaziamento das prisões na idade média. Havia a preferência por outras penas: mutilações, marcas com ferro em brasa, fogueira, forca, esquartejamento, decapitação.

Por volta do Século XV, com o renascimento, surgiu a solidão humanista. Petrarca publicou “De vita solitária”, uma apologia a solidão. “A multidão urbana é um rebanho depravado, a vida rural é sadia e virtuosa”, escreve ele. A solidão humanista era opção de intelectuais ricos. Era o nascimento do individualismo.

A Reforma Protestante reforçou as bases do individualismo. Cada crente passou a se considerar um eleito.

O Frei Romeu é um homem culto, antes de assumir a vida religiosa foi professor de filosofia em Bucareste. Ele é de família ucraniana.

E continuou:

A biblioteca de Montaigne, no andar superior de uma torre do seu castelo, era um santuário, um lugar elevado da solidão humana, onde ele penetrava com uma alegria não dissimulada. A solidão era um luxo.

Com o humanismo, a Renascença e a Reforma a solidão passou a ser vista positivamente. Os aspectos penitencial e ascético foram substituídos pela visão reconfortante e voluntária.

Era a ascensão do individualismo.

Depois eu conto o resto da conversa com o Frei Romeu.

Antônio Samarone.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

UM DIREITISTA CONVICTO EM SERGIPE


Um direitista convicto em Sergipe... (por Antônio Samarone)

Em entrevista a Jozailto Lima, o deputado estadual Rodrigo Valadares, que acaba de assumir o Partido de Bolsonaro em Sergipe (PSL), se diz de direita desde os 16 anos, e anunciou os princípios ideológicos em que acredita.

Não deixa de ser uma novidade, um político se assumindo de extrema direita, e defendo suas teses. O normal em Sergipe são lideranças “furta cor”, que não assumem posições doutrinarias, ou por desconhecê-las ou por oportunismo.  

O deputado Rodrigo Valadares aposta herdar a maior parte dos 47% do eleitorado de Aracaju, que votou em Bolsonaro no segundo turno. Faz sentido!

Quais são as ideias defendidas por Rodrigo Valadares, na entrevista?

O deputado se diz liberal na economia e conservador nos costumes. Quer proibir o comunismo no Brasil, e ainda acredita que Cauê e Edvaldo são comunistas. Considera Che Guevara um canalha. Se diz estudioso de Adam Smith e Milton Friedman.

Não sei se ele seguirá a orientação ideológica do guru Olavo de Carvalho ou outra corrente doutrinária. Também não sei qual o “conservadorismo nos costumes” ele acredita. O da Ministra Damares Alves? Não sei! Nada disso foi perguntado na entrevista.

Rodrigo Valadares se diz cem por cento disposto para disputar a prefeitura de Aracaju, no próximo ano. Vamos aguardar os desdobramentos.

Antônio Samarone.