quinta-feira, 3 de setembro de 2026
GEOGRAFIA SOCIAL DE ITABAIANA - 1960
A Geografia Social de Itabaiana (1960). (por Antonio Samarone).
A divisão social não era a europeia (burgueses X proletários). Em Itabaiana, na década de 1960, as classes sociais tinham endereço. Primeiro, a grande divisão Rural X Urbana.
Os rurais eram subdivididos em dois grupos: os proprietários, que possuíam casa de rancho, uma moradia na cidade, para as feiras e festas religiosas; e os pataqueiros, sem-terra, que viviam de ganho, da venda do dia de serviço. Muitas vezes, apenas pela comida.
Os dois grupos eram tratados pelos urbanos, com preconceito:
Eram os tabaréus. Visíveis a olho nu. Distintos pela fala, roupas, festas, apelidos, modos de vida, escolaridade e referências culturais. Mesmo os urbanos mais miseráveis, tinham um sentimento de superioridade, não queriam ser confundidos com os tabaréus.
As classes sociais entre os urbanos, eram definidas pelo endereço:
1. nas ruas do Sol e das Flores e na Praça da igreja, moravam os comerciantes, servidores federais, clero, políticos e magistrados. Os bem nascidos, os riquinhos e fidalgos ostentavam a pose dos ricos. Possuíam um clube social, a Associação Atlética, criada pelo médico da cidade, para festa e comemorações.
2. No Beco Novo e ruas Nova e do Fato, residiam os artesões (alfaiates e sapateiros, biscateiros, camelôs, comerciários, feirantes, motoristas e o povo em geral). A zona popular tinha o Clube dos Trabalhadores, criado pelos comunistas de Aldeia.
3. Nas ruas de Maraba, Sete Casa, rua do Tanquinho, residiam os “sans-culottes”, o lúmpen, os miseráveis, os deserdados da terra. Hoje, a rua de Maraba cresceu, se expandiu até a Praça João Pereira, e passou a se chamar rua Gumercindo de Oliveira (pai de Chico do Cantagalo. A região virou o bairro Bananeira.
Segundo Almeida Bispo, a rua de Maraba ocupa geograficamente os vestígios da passagem da estrada real Salvador/Olinda. Nisso em não me meto.
No gueto da rua de Maraba, brotava cultura. Rafael, que consertava penicos e guarda-chuvas, tinha um teatro de bonecos ou mamulengo. A memória de Rafael dos Penicos está se apagando, sem deixar ao menos o sobrenome. A minha hipótese, é que Rafael foi mais um flagelado, trazido pela seca, como veremos adiante.
O que unia a todos era a escola pública e a igreja católica. O Colégio Murilo Braga e Santo Antônio. O que desunia: a política e a economia. A farda do ginásio (caqui Floriano), dava uma ilusão de igualdade.
A inteligência artificial está confusa, sobre a rua de “Maraba”. Quem foi o tal “Maraba”, que deu nome à rua e quando? Também, a IA não é obrigada a saber de tudo. Como nasceu a rua de Maraba, quem foi o Maraba, que criou esse foco de pobreza extrema em Itabaiana?
A grande seca de 1951/53, aumentou a fome no Nordeste. O Governo Federal, através do DNOCS, organizou frentes de trabalho, para construir açudes, estradas e barragens. A calamidade da seca agravou a fome. Foi em 1953, que Luiz Gonzaga e Zé Dantas, lançaram um protesto musical: As Vozes da Seca.
Relembrando parte da letra:
“Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão/ Pelo auxílio dos sulistas nesta seca do sertão/ Mas doutor, uma esmola a um homem que é são/ Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.
É por isso que pedimos proteção a vosmicê/ Homem, por nós, escolhido, para as rédias o poder/ Pois doutor, dos vinte estados, temos oito sem chover/ Veja bem, mais da metade do Brasil tá sem comer.
Dê serviço a nosso povo, encha os rios e barragens/ Dê comida a preço bom, não esqueça a açudagem/ Livre assim, nós da esmola, que no fim desta estiagem/ Lhe pagamo inté os juros sem gastar nossa coragem.
E o Governo Federal abriu frentes de trabalho, recrutou os flagelados, e começaram a construir açudes. Em Sergipe, o primeiro foi o açude de Carira. O barramento do riacho Grutião. O açude foi concluído em 1955.
Euclides Paes Mendonça, usando o seu prestígio, convenceu o DNOCS a deslocar uma frente de flagelados, para construir o açude da Macela (1953 – 1957). O açude foi inaugurado em 1958.
O Dr. Mazze Lucas, em um conto – Açude, descreve essa jornada dantesca.
A maior obra pública de Itabaiana, o açude novo, foi construído com o suor dos flagelados da Seca de 1951/53. A grandeza da obra era dita com entusiasmo: “A barragem é tão grande, que por cima, passa até caminhão.”
A obra foi feita por empreitadas, diretamente, por trabalhadores avulsos, pagos por produtividade, e por pequenos feitores, chefes de turma. Aqui surge Seu Maraba.
Maraba era um flagelado empreendedor, do agreste alagoano, das proximidades da Serra da Maraba. Até hoje, ainda não se sabe o nome de batismo, mesmo ele tendo construído família em Itabaiana. Tenho notícias de dois filhos: José e Miguel. O Zé de Maraba era figura habitual nas cafuas e casas de jogatina.
Seu Maraba não foi apenas um peão de trecho, que, terminada a obra, açude da Macela, ficou em Itabaiana. Um saruabo, baixo, astuto, inteligente, um pequeno empreiteiro, que ganhou dinheiro na construção do açude de Carira.
Quando iniciou a construção do Açude da Macela (1953), Seu Maraba veio ganhar a vida em Itabaiana, como feitor, chefe de turma. Logo, construiu uma bodega, e passou a vender fiado, produtos básicos, para atender aos trabalhadores da frente, miseravelmente acampados nas proximidades.
Como ele era o feitor, era quem fazia os pagamentos. Inadimplência zero. Antes de pagar o devido, ele descontava a dívida da bodega. Simples!
O canteiro de obra do açude da macela foi descrito realisticamente, por Mazze Lucas, em seu livro de contos “Anum Preto”:
“Lá embaixo, erguendo-se preguiçosamente sobre o vale do Riacho da Macela, o paredão do açude enxameava de trabalhadores, uns afanosamente operando mangueiras d’água, outros descarregando a piçarra dos caminhões, enquanto outros ainda, espalhavam-na em camadas de um palmo de espessura.”
Na hora do almoço, descreve Mazze Lucas:
“os cossacos (trabalhadores flagelados da seca), procuravam as sombras das escassas árvores das cercanias. A maioria acocorou-se no mesmo local onde estavam. Abriram as mochilas ou latas e começaram a atirar na boca, sem perder um fragmento, a farinha de mandioca e os raros pedaços de carne seca, que as vezes conseguiram encontrar. Não lavavam as mãos nem o rosto, cobertos daquele barro amarelo com tonalidade de enxofre.”
“Quando há seca no Nordeste, o governo manda construir açudes. O interesse do flagelado seria não faltar açudes para construir, porque não lhe faltaria trabalho. O governo tinha pressa, para inaugurar a obra. Daí o trabalho ser pago na base da produção.”
Outro fato importante, sobre a seca de 1951/53. O grande José Viera Lima, chegou a Itabaiana em janeiro de 1952, vindo da empreitada de construção do açude de Cocorobó. Ele foi o principal encarregado, representando o DNOCS. Veio preparar o terreno para a construção do Açude da Macela. É notória a importância do Vieira Lima, o Barão do Beco Novo, para o desenvolvimento de Itabaiana.
Em pouco tempo, o arruado em torno da bodega de Maraba, nas proximidades do futuro açude, estava formado. Nascia a Rua de Maraba. Esses migrantes do flagelo da seca, se estabeleceram em Itabaiana. Tempos depois, foi nesse espaço que foram construídas as famosas Vilas de Zé de Melinha.
A formação étnica de Itabaiana, além dos sesmeiros portugueses, árabes e judeus, as sefarditas de Amsterdã, também recebeu quilombolas e flagelados. A minha hipótese: foi essa variedade de origens, que formou a alma itabaianense.
A seca de 1951/53, trouxe para Itabaiana os flagelados, para a construção da sua maior obra pública: o Açude da Macela. Eu sei, o Posto Agropecuário Fazenda Grande, com o seu lendário Jegue, foi importante para Itabaiana, mas não era uma obra, era um serviço.
Euclides Paes Mendoça inaugurou a obra dos flagelados da seca de 1951/53, como Açude Municipal, construído pelo DNOCS, em 1958. Sem muito foguetório. Esse aspecto nunca foi acentuado. Uma obra sem padrinhos, ao contrário do Campo de Aviação, no terrenos dos Breus.
Voltei no local, e o núcleo básico da Rua de Maraba e as vilas de Zé de Melinha, continuam intactas. A foto é prova. Mudou-se a cachaça que se tomava. Hoje, a mineirinha, uma cachaça adocicada, vendida em pequenos potes, 6 reais cada, que substituiu a casca de pau.
A urbanização do Bairro Bananeira cresceu em volta. Acho que o pequeno núcleo da Rua de Maraba deveria ser preservada, para essa história não cair no esquecimento. “A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer.” – Peter Burke.
A Rua Gumercindo de Oliveira é um prolongamento da Rua de Maraba, até a Praça General João Pereira. Não mudou o nome da Rua de Maraba.
Encontrado quem foi Seu Maraba, continuo procurando os rastros de Rafael dos Penicos, artista popular de minha infância, que morava naquela comunidade.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
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