A fome e o mounjaro em Sergipe.
(por Antonio Samarone)
Adiberto Souza, advertiu em sua coluna (11/09): a fome devasta Sergipe. Fui a fonte. O IBGE divulgou em sua última pesquisa: 297 mil lares sergipanos vivem com insegurança alimentar. 199 mil em grau leve, 64 mil no moderado e 34 mil em situação grave, ou seja, são 34 mil famílias passando fome.
Segundo o IBGE, fome é a redução quantitativa de alimentos, com episódios de privação.
O jornalista Adiberto alerta, o Governo limitou-se a criar o “prato do povo”, uma sub quentinha com refresco”, uma refeição de segunda a sexta. Bastava a grana que se gasta em meia dúzia de shows, e um planejamento adequado, para um Sergipe sem fome.
Esse deve ser o compromisso de qualquer governo. Aliás, do governo e da sociedade.
Já tinha percebido, em minhas andanças eleitorais, capital e interior, que os sinais de pobreza aparente, tinham crescido em Sergipe. O IBGE aponta um indicador. A fome mostra as suas garras em Sergipe.
Sergipe apresenta uma desigualdade social inaceitável. Os militantes sociais diziam: “uma parte da sociedade não dorme por conta da fome, outra, não dorme com medo dos que tem fome.” Isso é retórica. Quem tem fome, não mete medo. Eles precisam de justiça social.
A desigualdade social se manifesta por outro caminho. Vivemos em Sergipe, a febre do mounjaro. Virou moda. Os médicos estão em festa. Muitos aplicam diretamente em seus consultórios. A indústria farmacêutica, a Eli Lilly, resolveu dividir o bolo.
Atualizando a sentença: “um parte da sociedade passa fome e outra toma mounjaro.”
O mounjaro foi autorizado pela Anvisa em 2023. Entre junho de 2025 e julho de 2026, o mounjaro movimentou 13,5 bilhões em vendas e alcançou e milhões de usuários.
Atualmente, é a droga de maior faturamento no Brasil. Sem contar com o uso de canetas de mounjaro clandestinas, que ninguém controla, nem sabe a dimensão.
O mounjaro sozinho, representa 5% de todo o faturamento do varejo farmacêutico nacional. Um medicamento recente. Onde isso vai parar?
A situação não é mais grave, pelo preço da droga. Na dose de 5 mg, a caixa custa R$ 1.779 reais, o que equivale a R$ 445 reais por caneta/aplicação.
A conversa dominante em qualquer roda de granfinos em Sergipe, versa sobre quem está usando ou não o mounjaro. O uso da caneta emagrecedora é sinal de distinção social. A tirzepatida, o princípio ativo do mounjaro, é o preferido das estrelas.
Eu sei que vai aparecer algum médico, justificando o seu uso medicamentoso. Não estou tratando da clínica médica. O tema é o uso social do mounjaro. A explosão do consumo. Sem especulação: os interessados podem ler a bula. O que a Ely Lilly informa.
Nos EUA, a droga começou a ser comercializada em 2022. Lá eles são mais sofisticados. A tirzepatida é vendida com o nome comercial de mounjaro, para diabetes; e como Zepbound, para obesidade.
A febre de consumo lá é maior: 31 milhões de americanos usam a celebre caneta. 12% dos adultos estão dependentes. Usam e depois se empanturram.
Resumindo para quem não é especialista em Saúde Pública: vimemos uma distopia alimentar. Dois problemas graves de Saúde: fome e obesidade.
Em Sergipe, o IBGE quantificou: 70 mil sergipanos passam fome (o dado do IBGE é por famílias) e outros 70 mil estão mamando mounjaro (o dado é pelo volume de vendas), entupidos de alimentos.
Bastava um acordo. Promover a educação alimentar dos 5% dependentes do mounjaro, e repassar o alimento excedente para os 5% que passam fome.
Não estou simplificando. O uso do mounjaro ficaria limitado aos que possuíssem patologias, onde o uso medicamentoso fosse hipoteticamente indicado.
Antonio Samarone – médico sanitarista.

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