sábado, 24 de agosto de 2019

OS CRENTES EM ITABAIANA




Os Crentes em Itabaiana. A demolição da Igreja (foto)

Por Antônio Samarone.

Itabaiana era uma cidade que respirava o catolicismo romano. Tudo, ou quase tudo, girava em torno da igreja católica. Talvez por isso, a minha curiosidade sobre os crentes. A antiga igreja de crente me deixava curioso. Eu não perdia a oportunidade de ficar bisbilhotando o culto pela janela.

Só existia uma igreja de crente em Itabaiana (foto), presbiterianos, gente descente, poucos, mas diferenciados. Quando eu perguntava a mamãe (católica, filha de Maria) quem eram os crentes (chamados de bodes), o que faziam, a resposta era contraditória. Ela afirmava: só a igreja católica salva, mas esses crentes são tementes a Deus, verdadeiros cristãos.

Eu não entendia, mas ficava calado. Naquele tempo não se discordava de pai e mãe.

Os crentes eram liderados por Dona Eulina Nunes, uma senhora muito respeitada na cidade.

O historiador Ismael Moura nos ensina que os crentes chegaram em Itabaiana por volta de 1885, no Povoado Caraíbas. “O professor José Gregório da Silva Teixeira é considerado o fundador do protestantismo em Itabaiana.” (Moura citando Sebrão Sobrinho)

Depois vieram para a cidade. A iniciativa coube a Antônio da Silva Nunes, pai de Eulina Nunes.

Essa igreja da foto, estilo art-déco, com janelas e portas com arcos em orgiva, e uma torre central, foi inaugurada em 18 de dezembro de 1938. Antes já existia uma casa de orações. A igreja é uma relíquia da história dos evangélicos em Itabaiana. Além da igreja, os presbiterianos também construíram um cemitério para os crentes.

Moura cita uma passagem de Vladimir Carvalho: outra pedra no sapato do padre Vicente Valentim da Cunha foi a presença de protestantes em Itabaiana no começo de 1903...

Um absurdo: fiquei sabendo que a essa igreja será demolida nos próximos dias. Foi vendida! No local serão construídas lojinhas de bugigangas. Uma profunda indiferença pela memória religiosa da comunidade.

Antônio Samarone.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

VOTO TUTELADO


O Voto Tutelado. (por Antônio Samarone)

A Comissão de Verificação de Poderes, foi criada no Império, mas ganhou relevo na Primeira República (entre 1894 e 1930). A Comissão realizava a “depuração” dos eleitos, ou a “degola”.

O resultado das eleições era submetido a essa Comissão Nacional, para uma espécie de validação. Os eleitos nos estados, se não passassem nos critérios da Comissão, não tomavam posse. A Comissão da Degola possuía poderes supra eleitorais.

Com o desgaste dos políticos, as atuais eleições no Brasil foram criminalizadas, sem resistências. A Justiça Eleitoral tem mais poderes que a antiga Comissão da Degola, da 1ª República. Qualquer descumprimento das regras eleitorais é passível de cassação do eleito. Muitas vezes a infração cometida não interferiu no resultado do pleito, não alterou a vontade do eleitor.

A justiça eleitoral pode revogar a vontade da maioria do eleitorado com a justificativa de que eles foram enganados. Vocês escolheram fulano para representá-los, mas foram tapeados. Nos estamos aqui para protegê-los das fraudes e das astúcias dos políticos.

Essa estória de que o poder emana do povo é só para enfeitar a Constituição, eu perguntei? De que povo, me respondeu um causídico influente, isso foi na Grécia antiga, isso é no primeiro mundo, onde o povo sabe votar, disse ele. 

Na maioria das vezes o cassado continua líder naquela comunidade, e se as eleições fossem repetidas ele ganharia com uma diferença maior.

Belivaldo é um governador com poucas ideias. Não é um líder, não está fazendo um bom governo, não tem projetos, não fez um planejamento, não montou uma boa equipe, não votei nele, mas ele venceu as eleições com mais de 300 mil votos de frente. O eleitorado sergipano não teve dúvidas na escolha. Ou teve?

Se ele não tivesse cometidos esses erros que a justiça aponta, durante a campanha, o resultado das eleições seria outro? Por que esses erros não são punidos sem precisar cassar o voto da maioria do eleitorado?

Sergipe já está num buraco, economia arruinada, serviços públicos precários, servidores castigados, isso com um Governador eleito no comando; imagine agora com um governador cassado, degolado por 6 X 1, existe alguma chance de o governo funcionar?

Por quanto tempo Sergipe ficará com um governador cassado (sub judice) e quais as consequências para a sociedade?

Ouvi de um puxa saco prestigiado: foi até bom, só assim Belivaldo arranjou uma desculpa para a lerdeza do seu Governo. Ele agora não pode fazer nada, foi cassado, me disse o governista afoito.

Vamos aguardar...

Antônio Samarone.

sábado, 17 de agosto de 2019

AS MULHERES EM ITABAIANA



As mulheres em Itabaiana. (por Antônio Samarone)

Até a segunda metade do século XX, Itabaiana foi uma sociedade centralizada na mulher, uma sociedade matricêntrica. As mulheres camponesas lutavam pelo o mesmo status econômico e social dos homens. Em muitos casos, eram as líderes familiares.

Itabaiana era uma sociedade matrilinear, obedecia a um sistema de parentesco, de filiação, através do qual somente a ascendência (família) da mãe era tida em consideração para a transmissão do nome, dos benefícios ou do status de se fazer parte de um clã.

Numa tradição local, as pessoas eram nominadas com os nomes dos ascendentes. Por exemplo: João de Mané de Dona, Zé de João de Ana, Júlio de João de Sá Joaninha, e tantos outros. Nesses nomes compostos, que as vezes remontavam a várias gerações, a referência final sempre era feminina.

Mesmo com leis machistas: o Código Civil de 1916 considerava a mulher como um ser inferior, “relativamente incapaz”, necessitando de orientação e aprovação masculina. Um exemplo: o Art. 178 previa, que em dez dias, contados do casamento, o marido poderia anular o matrimonio contraído com a mulher já deflorada. O Art. 233, definia o marido como o chefe da sociedade conjugal.

Sei os limites dessa tese. Ao mesmo tempo que as mulheres exerciam papeis importantes na sociedade camponesa, a brutalidade e os privilégios dos homens imperavam. As mulheres lutavam e resistiam, bem antes da invenção do feminismo.

Entretanto, a divisão dominante da família onde o pai era o mantenedor, protetor, guerreiro que caçava e guardava a prole, e a mãe gerava, acolhia, aquecia e alimentava a ninhada, não era a famílias dominante em Itabaiana, até primeira metade do século XX.

Itabaiana era uma sociedade matricêntrica. As mulheres não estavam em desvantagens só por serem mulheres, o poder era disputado entre os gêneros, e as mães muitas vezes estavam no centro da cultura.

Segundo Malinowski, nas sociedades que usavam o sistema matrilinear de parentesco, as mulheres possuíam um papel importante na vida da comunidade, liderando-a em muitas áreas.

Historicamente, o patriarcado é mais jovem. A sociedade humana foi primeiro matriarcal – ou pelo menos “centrada nas mulheres” e adorava deusas – da era Paleolítica, 1.5 a 2 milhões de anos atrás, até por volta de 3000 a.C.

Friedrich Engels, em sua obra "Origem da família, da propriedade privada e do estado", de 1884, afirma que o controle da propriedade privada foi quem permitiu a substituição do matriarcado pelo patriarcado nas sociedades primitivas.

Trocamos o matrimônio pelo patrimônio.

Itabaiana aguarda os pesquisadores...

Antônio Samarone.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

SERGIPE ANTIGO - (CAPÍTULO IX) - BISPO SARDINHA (parte dois)




(Cap. IX)

Sergipe Antigo. (Ciri-gy-pe – rio dos siris). (por Antônio Samarone)

O Bispo Sardinha – Ano 463 da Deglutição do Bispo Sardinha.

“Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.” (Oswald de Andrade)

O Bispo Sardinha enfrentou calúnias, mentiras, acusações interessadas, mas resistiu, não abriu mão dos seus princípios. Manoel da Nóbrega também não aprovava a missão pastoral do Bispo Sardinha, em carta a Tomé de Souza, o provincial dos jesuítas afirmava:

“Quanto ao gentio e sua salvação se dava pouco, porque não se tinha por seu Bispo e eles lhe pareciam incapazes de toda a doutrina por sua bruteza e bestialidade, nem os tinha por ovelhas do seu curral, nem que Cristo Nosso Senhor se dignaria de tê-los por tais... Nosso Senhor... Quis... Castigar lhe o descuido e pouco zelo que tinha da salvação do gentio. Castigou-o dando-lhe em pena a morte que ele não amava.

Em 09 de julho de 1953 foi criada pelos jesuítas a Província do Brasil, visando que Manoel da Nóbrega ganhasse privilégios canônicos, e melhor enfrentasse o Bispo Sardinha. Manuel da Nóbrega permaneceu provincial do Brasil até 1559.  

O beato Manoel da Nóbrega comemorou a morte do Bispo Sardinha.

Com a chegada de Duarte da Costa (1553) as relações com o bispo Sardinha se agravaram, por conta do comportamento abusado do filho do Governador, Álvaro da Costa, comandante das forças militares, que usava e abusava das índias, escravizava mesmo os índios convertidos e aldeados.

A relação do Bispo já não era boa com os jesuítas, à expedição de Duarte da Costa trouxe mais uma meia dúzia, entre eles José de Anchieta. Os conflitos levaram a Coroa a chamar o bispo de volta. Exatamente em 15 de junho de 1556, o bispo e uma imensa comitiva (103 pessoas), nobres, quatro cônegos, o provedor da Fazenda Real, Antônio Cardoso de Barros, escravos, mais de cem pessoas retornavam à Portugal na Nau Nossa Senhora da Ajuda.

Em seu retorno à Portugal, a Nau Nossa Senhora d’Ajuda, que levava o Bispo Sardinha, naufragou em 16 de junho de 1556. Quanto ao local do naufrágio existem duas versões:

Gabriel Soares de Souza apontou uma enseada de duas léguas, entre a foz do Rio Coruripe e o Rio São Francisco, onde estão os arrecifes de Dom Rodrigo, local também conhecido como Porto Novo dos Franceses; e Moacyr Soares Pereira fundamenta que o naufrágio ocorreu na enseada do Vaza Barris, situada entre a margem esquerda do Rio São Francisco e o Rio Japaratuba, próximo à Praia de Santa Isabel.

Na comitiva do Bispo iam mais de cem brancos, entre eles, o Provedor Mor, Antonio Cardoso de Barros, pai de Cristóvão de Barros, que conquistou Sergipe; dois Cônegos; duas mulheres honradas e casadas; e vários nobres. Todos foram devorados, escapando apenas dois índios, que vinham na expedição, e um português que sabia a língua, filho do meirinho de correição.

O Bispo Sardinha foi a maior autoridade eclesiástica devorada num ritual antropofágico, em toda ocupação das Américas. Como agravante, o episódio ocorreu durante a realização do Concílio de Trento, um dos mais importantes da cristandade. A reação da igreja romana foi poderosa.

A primeira versão (Foz do Coruripe) foi reproduzida por vários historiadores e é a mais conhecida. Moacyr Soares juntou documentos e evidências, afirmando que a versão oficial foi um pretexto para se condenar os Caetés, que há muito vinham incomodando Duarte Coelho, donatário da Capitania de Pernambuco.

Com a morte de Duarte Coelho, 1555, os Caetés iniciaram uma revolta, apressando o empenho dos colonizadores em sua destruição. Segundo Moacyr, o naufrágio ocorreu do lado sergipano, e o ritual antropofágico foi obra dos Tupinambás. (entraremos em detalhes no próximo capítulo).


Essa versão foi forjada pelo governo Mem de Sá, procurando atender ao pleito dos donatários da Capitania de Pernambuco, a quem a natureza aguerrida de belicosa dos caetés incomodava bastante. Estava também em jogo o desejo de ocupação das terras dos Caetés, tidas como de excelente qualidade para o plantio da cana de açúcar e ampliação dos engenhos pernambucanos.

Se houvesse veracidade na acusação aos Caetés, pela morte e canibalização do único Bispo nas Américas, por que a punição só ocorreu em 1562, seis anos após o naufrágio.

As relações belicosas entre colonos e Caetés na Capitania de Pernambuco se agravam após a morte do donatário Duarte Coelho em 1554, em Portugal. Em razão da ausência no Reino do herdeiro da Capitania, Duarte de Albuquerque Coelho, o comando passa as mãos de Jeronimo de Albuquerque, irmão da esposa de Duarte Coelho, dona Beatriz de Albuquerque.

Jeronimo de Albuquerque radicalizou na luta contra os Caetés, passou a exigir da Coroa a declaração de guerra contra os índios. As divergências eram de ordem econômica, os índios não aceitaram pacificamente a escravização; muito menos serem afastados das terras que ocupavam a no mínimo 500 anos. Eram necessárias justificativas mais evidentes para a declaração de guerra justa contra os Caetés.

Nada melhor do que os acusar da morte do Bispo Sardinha.

As versões sobre a morte do Bispo devem-se a imprecisão das notícias, no Brasil do século XVI. O Frei Odulfo Van Der Vat, em seu livro “Princípios da Igreja no Brasil” nos oferece um exemplo das dificuldades de circulação das notícias no século XVI, tudo era muito incerto, com muitas versões.

Sobre a morte do Bispo Sardinha, relata Van Der Vat: Mês e meio depois da espantosa cena de carnificina e antropofagia, ainda a notícia era desconhecida na Baia, quando Nóbrega chegou de São Vicente, a 30 de julho (Sardinha morreu em 16 de junho). Porque, datada da cidade do Salvador, de primeiro de agosto de 1556, existia uma carta de Pedro Rico, dirigida ao bispo Sardinha, a pedir-lhe uma conezia (um cargo rendoso), não sabendo que já era morto.

O Padre Aurélio de Vasconcelos repete a versão interessada de Gabriel Soares de Souza, de que o naufrágio do Bispo Sardinha ocorreu na foz do Rio Coruripe, região dos Caetés, informando que o funesto acontecimento se deu em 16 de junho de 1556, e que gerou uma sede de vingança generalizada entre os portugueses, mesmo entre os que gostavam dos índios.

A acusação aos Caetés como responsáveis pela morte do Bispo Sardinha era apena a justificativa para o extermínio da mais valente, mais guerreira tribo Tupi do Nordeste brasileiro. Eles sabiam que o maior banquete antropofágico das Américas tinha ocorrido na enseada do Vaza Barris, em território sergipano, sob o comando do temível Surubi, importante cacique dos Tupinambás. Esses pagariam o mesmo preço por ocasião da guerra de Sergipe, em 1590, quando foram dizimados como vingança pela morte do mesmo Bispo, como veremos adiante. 

Mem de Sá aproveitou-se desse episódio do Bispo Sardinha para justificar a sua crueldade guerra contra os gentios. Vale a pena lermos com atenção o nos diz o Padre Aurélio de Vasconcelos sobre o tema:

“ Os sertões do Rio Real (Sergipe) foram preferidos para essa inominável caçada humana, onde toda a sorte de crueldade se praticou contra aquelas infelizes criaturas que além de batidos da fome e das Pestes que houve nessa época (1562), eram ainda agrilhoados pelo cativeiro, quando não os matavam por lá ao serem julgados imprestáveis para esse fim.”

“O trato desumano e bárbaro, quase canibalesco, que os civilizados deram aos naturais do Rio Real, não diferia muito do que estes costumavam dar a seus inimigos. Quando muito, havia equivalência de crueldades que uns e outros praticavam, senão, mais exacerbadas, as daqueles colonos que haviam perdido a noção de consciência cristã e os derradeiros resquícios de humanidade para com os silvícolas.”

Os ataques aos Tupinambás em Sergipe começaram bem antes da expedição de 1575, como relata as histórias de Sergipe. “Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: É mentira muitas vezes repetida. (Oswald de Andrade).

Em Janeiro de 1563 foi a grande morte das bexigas (varíola) tão geral em todo o Brasil, de que morreu muito gentio, de que também levou muita parte de que havia nas igrejas em que os Padres residiam, e depois da doença ser passada, e os índios se irem gastando pouco e pouco, com parecer do governador Mem de Sá, por a igreja de São Paulo ter já pouca gente, se repartiu essa que havia pelas outras, e assim não ficariam mais de 4, que se conservaram por alguns anos.

Concordo com Sílvio Romero, que os missionários e colonos inteligentes do século XVI, que deixaram notícias escritas dos nossos índios, eram demasiado incompetentes para uma observação regular, capaz de surpreender os mais íntimos fatos sociais e a fundamental psicologia dessas gentes rudes. Diria mais, e muito poucos interessados na imparcialidade dos fatos, contavam o que convinham do jeito que lhes interessassem.

Gabriel Soares de Souza chegou à Bahia em 1570, foi proprietário de engenhos e roças, e retornou a Madrid em 1587, passando 17 anos no Brasil. Ele dedica o seu livro Tratado Descritivo do Brasil a Cristóvão de Moura. Gabriel Soares forjou a versão do naufrágio em Coruripe e o banquete antropofágico dos Caetés, 14 anos após o ocorrido, e essa versão passou a ser a oficial. Os demais historiadores só repetiram.

Com documentos, demonstraremos a outra verdade sobre a morte do Bispo Sardinha. (próximo capítulo).

No mínimo duas nações foram exterminadas por conta do banquete canibal do Bispo Sardinha, os Caetés em 1562; e os Tupinambás de Sergipe em 1590.

Esse fato estabeleceu a regra principal do relacionamento entre o Poder e as classes subalternas no Brasil, em vigor até hoje. A condenação da rainha Catarina de Áustria, esposa de D. João III, em 1557, foi que os responsáveis pela morte do Bispo e comitiva estavam condenados a escravidão eterna, inclusive os seus descendentes, sem distinção de sexo ou idade.

Não precisava procurar e punir os culpados, todos eram culpados. Foi assim em Canudos, foi assim em várias revoltas populares ao longo da história, e é assim até hoje, quando as polícias sobem as favelas em busca de traficantes. Todos são culpados, até que se prove o contrário.

Antônio Samarone.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

SERGIPE ANTIGO - (CAPÍTULO VIII) - BISPO SARDINHA (parte um)


(Cap. VIII)

Sergipe Antigo. (Ciri-gy-pe – rio dos siris). (por Antônio Samarone)

O Bispo Sardinha – Vigário Geral na Índia, chegou à Bahia em 22 de junho de 1552.

Segundo Câmara Cascudo, quando Tomé de Souza chegou a Bahia para fundar a cidade do Salvador, março de 1549, já encontrou mais de meio cento de portugueses, alguns casados com brancas, outros com mamelucas, a maioria dos machos mantendo o harém das fáceis cunhãs, submissas e curiosas. Diogo Alvares, o Caramuru, era sogro de cinco genros e muitas vezes avô.

Em 1549, junto com a comitiva de Tomé de Souza no Governo-Geral do Brasil, veio o médico Jorge Valadares, bacharel em medicina, nomeado para exercer o cargo de "Físico da Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos na Costa do Brasil”, permanecendo no cargo até 1553.

Jorge Valadares foi o primeiro médico diplomado a clinicar na Colônia. Em 13 de julho de 1553, na comitiva de Duarte da Costa, veio o segundo médico nomeado para o mesmo cargo, Jorge Fernandes, que era apenas licenciado em medicina, fez um curso de quatro anos e não defendeu as conclusões magnas (tese), portanto, não possuindo o título de bacharel. Em 1957, no Governo de Mem de Sá, o médico nomeado para exercer o mesmo cargo foi o bacharel-mestre Afonso Mendes.

Uma polêmica foi instalada, enquanto os dois médicos formados, bacharéis, Jorge Valadares e Afonso Mendes receberam respectivamente vinte e oito mil e oitocentos reis e vinte e quatro mil reis de vencimentos anuais da Coroa; Jorge Fernandes, apenas licenciado, recebera sessenta mil reis anuais de ordenado. Os três primeiros médicos que atuaram no Brasil eram cristãos-novos.

O Rei D. João III tinha um certo apadrinhamento com Jorge Fernandes concedendo-lhe um ordenado de marajá. Para efeito de comparação, um padre jesuíta, a menina-dos-olhos da Coroa portuguesa na Colônia, recebia anualmente um ordenado de vinte mil reis. O licenciado Jorge Fernandes, Físico do Salvador, quando deixou o cargo, permaneceu no Brasil até o seu falecimento em 1567, exercendo a medicina privadamente.

Duarte da Costa, armeiro mor do reino, chega a Bahia para substituir Tomé de Souza, em 13 de julho de 1553. Com a chegada do segundo Governador Geral, Duarte da Costa, acompanhado do seu devasso filho, Álvaro da Costa, os conflitos do Bispo acentuaram-se.

Duarte da Costa (1553 a 1558). Durante o seu governo, ocorreram vários distúrbios, motivados na sua maioria pelos conflitos envolvendo a escravização de indígenas. Os colonos tinham o apoio do Capitão-Mor, Álvaro da Costa, filho do governador.

Sua gestão conviveu ainda com a invasão francesa ao Rio de Janeiro, em 1555, onde foi fundada a França Antártica. Em seu Governo (1556) ocorreu a morte do Bispo e de sua comitiva, quando retornavam para Portugal (assunto dos próximos capítulos).

O primeiro bispado brasileiro foi criado pelo Papa Júlio III, com a bula "Super Specula Militantis Ecclesiae", em 25 de fevereiro de 1551, e para seu titular El-Rei d. João III indicou d. Pero Fernandes Sardinha.

Pelo interesse que o Bispo Sardinha tem para a história de Sergipe, foi nas costas sergipanas que ele foi deglutido pelos índios, vou detalhar quem foi o Bispo e como atuava. O cronista da Companhia de Jesus, padre Simão de Vasconcelos, assim descrevia o Bispo Pero Fernandes Sardinha: 

"foi este prelado varão insigne em letras, e em virtudes, afamado pregador de seus tempos: estudara na Universidade de Paris, onde se graduou de doutor; foi mandado à Índia com o ofício de Vigário Geral, e pelo bem que nele se houve, mereceu ser eleito Bispo do Brasil, por El-Rei D. João o terceiro. Era dotado de grande zelo do serviço de Deus e das almas, e nele tinham posto os olhos e esperanças, os moradores de sua diocese.”

Por outro lado o sexagenário d. Pero era infernizado, briguento, e logo se indispôs com meia cidade, inclusive com os jesuítas, que não lhe perdoavam o pouco que ligava à vida escandalosa e nada exemplar que levavam os seus cônegos clérigos.

O primeiro bispo do Brasil, D. Pero Fernandes Sardinha atacaria muito os jesuítas por ouvirem confissões por meio de intérpretes, procedimento que ele julgava irregular.

Na visão de Almeida Prado, o Bispo Sardinha era virtuoso, mas afligido de temperamento exaltado, e do vezo de corrigir meio mundo, comum dos que procuram oportunidades para irritar e se irritarem.

Sardinha não tirava a palavra excomunhão dos lábios, e na Bahia era o avantesma do seu pecaminoso rebanho, que apavorava sem muito discernimento, perseguindo aos desafetos com terríveis ameaças a respeito da perdição futura, mais multas e penitências que sobre eles atirava, enquanto fechava os olhos sobre os deslizes dos que por cálculo ou fraqueza o lisonjeavam.

O Bispo Sardinha não se arreceava em fazer inimigos, e depois de feitos em enfrentá-los, mesquinhos ou poderosos, num exagero extravagante de catador de nugás e inconsciente semeador de discórdias" O Bispo não abria mão dos seus princípios.

Lycurgo Santos Filho, relata as desavenças do Bispo: historiadores e cronistas tornaram bem conhecida a acirrada contenda que, no Salvador, se travou entre o primeiro Bispo do Brasil, d. Pero Fernandes Sardinha e o segundo Governador Geral, d. Duarte da Costa.

As duas mais altas autoridades da Colônia dividiram a cidade, com suas quezílias, em duas facções poderosas, que poderosos eram os contendores. Cada um de seu lado, Bispo e Governador, injuriavam-se mutuamente, sem que pessoalmente a eles nada sucedesse.

Sofriam os partidários, que foram perseguidos, presos e espancados à ordem de um ou de outro, pois que ambos possuíam quase idênticos poderes. Como autoridade civil e militar, mandava e desmandava o Governador; como autoridade eclesiástica, o Bispo multava e confiscava e prendia quem bem quisesse, à menor suspeita ou denúncia de judaísmo e heresia.

Continua Lycurgo, D. Duarte da Costa, o Governador Geral, nobre palaciano, filho de um valido de D. Manuel, contribuiu por sua vez, com ações e palavras, para o desenrolar do conflito. Teve razão no início. Apoiado pelo padre Luiz da Gram e principais da cidade, procurou chamar o Bispo à razão, pedindo-lhe que fosse mais cordato, mais indulgente, não carregasse tanto nas multas e penitências.

D. Pero exasperou-se e num sermão, de modo velado, mas com endereço certo, pediu o castigo dos céus para os desregramentos sexuais de d. Álvaro (filho do Governador) e companheiros. O pai não gostou da pregação e, desde então, teve início a luta entre as duas principais autoridades da Colônia.

Quase todos os funcionários da Coroa e muitos dos "homens bons" da cidade, como Diogo Muniz Barreto, que foi Alcaide-mor da Bahia e provedor da Misericórdia, permaneceram fiéis ao Governador. O mesmo não sucedeu com o Senado da Câmara, onde grande parte dos camaristas tornou o partido do Bispo.

Trouxe Nosso Senhor o Bispo D. Pero Fernandes Sardinha, honrado e virtuoso, zeloso na reformulação dos costumes dos cristãos; mas quanto aos gentios e a sua salvação se dava pouco, porque não os tinha como o seu bispo, eles lhes pareciam incapazes de toda a doutrina, por sua bruteza e bestealidade, nem os tinha por ovelhas do seu curral. Nisso residia a principal divergência entre o primeiro Bispo e os Jesuítas.

D. Pero Fernandes Sardinha (1552 – 1556) – O Papa Júlio III, a 5 de fevereiro de 1551, pela bula Super specula militantes Ecclesiae, desmembra o Brasil de Funchal e cria uma diocese com Sé na Bahia de Todos os Santos.

D. Pero Sardinha antigo vigário geral na Índia, mestre em teologia, pessoa de boas letras e doutrina, chegou a Bahia em 22 de junho de 1552, vésperas de São João. O bem-vindo Bispo bateu logo de frente com os Jesuítas. Segundo Serafim leite:

O Prelado punha tacha em tudo quanto os jesuítas praticavam para a moralização da terra e catequização dos índios. Os jesuítas confessavam por intérpretes, reprovou tal uso; faziam disciplinas públicas, combateu-os; atacavam as mancebias, desculpou-as; ensinavam a doutrina no colégio, dispensou-o; aceitavam alguns costumes indígenas, decretou-o que eram ritos gentílicos. O Prelado fazia questão que os índios andassem vestidos.

A vida de D. Pero Fernandes Sardinha, no Brasil, é uma tessitura compacta de desavenças com o poder civil, com o seu Clero e com os Jesuítas.

A avaliação que Serafim Leite faz do primeiro Bispo do Brasil, D. Pero Vaz Caminha, não é positiva, considerava-o de caráter arrevesado, que liberava excomunhão como multas pecuniárias, e não possuía a indispensável incontinência da língua numa terra ainda em formação, onde a cizânia da intriga faria o resto.

O juízo que a história emite de D. Pero Fernandes Sardinha é severo.

Tendo, antes de chegar ao Brasil, dado boa conta de si, foi vítima do meio, inconsistente e em ebulição. Parece-nos que não chegou a compreender a terra. Tendo letras, não se serviu dela para o bem da catequese... Amigo do culto e de cerimonias litúrgicas solenes, não sentiu amor pelos índios.

Serafim Leite não poupou o Bispo Sardinha: uma virtude, porém, tinha o primeiro prelado do Brasil. Envolto num torvelinho de paixões, disputas e intrigas, ninguém invocou contra ele prevaricações em matéria de bons costumes. Mas isto não bastava...

Pero Fernandes Sardinha, filho de Gil Fernandes Sardinha e Lourença Fernandes, nasceu em 1495, natural de Évora, foi professor nas Universidades de Paris, Coimbra e Salamanca. Morreu aos 61 anos, em 1556.

No próximo capítulo tratarei da morte do Bispo, importante para a história de Sergipe.

Antônio Samarone.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

GENTE SERGIPANA - MARIA CARREIRO.


Gente Sergipana – Maria Carreiro (In memoriam). (por Antônio Samarone)

Maria da Graça do Amorim (Maria Carreiro), nasceu no início do século XX (15/04/1910), no Tanque da Caatinga, nas brenhas do Campo do Brito. Filha única de Seu Manoel carpinteiro, artesão de gamelas, e de Dona Josefa.

Maria Carreiro nunca pôs os pés numa escola, onde morava não existia. Desde menina, tomava conta do carro de boi do pai, único meio de transporte naquelas bandas. Amansava boi e montava a cavalo em pelos. Fazia de tudo no trabalho agrícola.

Já moça, foi inspecionar as arapucas que tinha armado para pegar nambu, e cruzou com Constantino, um pequeno fazendeiro de Itabaiana, com pose de rico. O estranho ficou impressionado com a beleza de Maria Carreiro. Uma Tupinambá saída da mata.

Constantino Alves do Amorim era de família remediada. Filho de Chico do Carmo, irmão de João Teixeira (pai de Oviedo Teixeira). Família importante em Itabaiana. Constantino se apaixonou por Maria Carreiro. Acertado o casamento, ela impôs uma condição: quem guia o carro de boi sou eu, você abre as cancelas.

Maria Carreiro ganhou do pai, como presente de casamento, um carro de boi. Chegando no Sítio Porto, em Itabaiana, terra do marido, ela montou uma frota. Passou a trabalhar botando areia, pedra, lenha para as padarias, tudo era transportado de carro de boi.

No primeiro calçamento de rua em Itabaiana, ela passou a trabalhar para a Prefeitura, botando areia lavada para a realização da obra. Naquele tempo não existia cimento. No povoado Matapuã, em Itabaiana, existia diversos fornos de fabricação de cal. Todo o transporte era realizado por Maria Carreiro.

Dona Maria Carreiro era respeitada por todos. Saia comprida, pelo mocotó, casaco com 4 bolsos, alpercatas de couro, chapéu de palha, um facão de 16 polegada na cintura e, se precisasse, tinha em casa uma espingarda de “soca tempero”. Onde chegava se impunha.

Maria Carreiro nunca teve menos de 20 bois de brocha no pasto. Quando iam envelhecendo, elas mesma amansava os novos, botava cambão nos bichinhos.

O coração era udenista, mas era amiga tanto de Dona Sinhá (esposa de Euclides Paes Mendonça); como de Dona Pequena (esposa de Manoel Teles), os dois chefes políticos da região.

Maria Carreiro teve cinco filhos. Zé, Celina, Antônio, João e Inês. Dona Celina é a mãe dos Amorins famosos (Edvan e do Senador Eduardo).

Maria Carreiro enviuvou cedo. Seu Constantino foi atravessar a BR, levando a boiada para o pasto, e foi atropelado pelos carros modernos (05/04/1977).

Dona Maria carreiro era viciada no trabalho. Com chegada da modernidade e o fim dos carros de boi, Maria Carreiro abriu um comércio na feira de Itabaiana. Vendia de tudo, menos carne, ela dizia a quem perguntasse.

Dona Maria Carreiro foi um exemplo de independência e altivez. Morreu (02/07/1987) com mais de 80 anos, sem nenhuma doença. Morreu porque chegou a hora, de velhice, como se dizia.  

Numa terra de grandes matriarcas, Maria da Graça do Amorim foi um exemplo.

Antônio Samarone.

domingo, 11 de agosto de 2019

SERGIPE ANTIGO - (CAPÍTULO VII) - TOMÉ DE SOUZA


(Cap. VII)

Sergipe Antigo. (Ciri-gy-pe – rio dos siris). (por Antônio Samarone)

Tomé de Souza - Primeiro Governador Geral

Francisco Pereira Coutinho era filho de Afonso Pereira, caçador-mor de D. Afonso V, do seu conselho e alcaide-mor de Santarém, e de sua segunda mulher, D. Catarina Coutinho, filha dos segundos condes de Marialva.

Serviu no reino, na África, na Índia e na América. Foi capitão de Goa a 27 de janeiro de 1521, do conselho de João III em 1531, e teve, em galardão dos seus serviços, a 05 de abril deste mesmo ano, a capitania de Sergipe, no Brasil.

O grande equívoco de alguns historiadores: nominar a capitania doada a Francisco Pereira Coutinho como sendo Capitania da Baía de Todos os Santos, como demonstramos em capítulos anteriores.

Coutinho já era um velho, quando foi tomar passe do território que lhe fora distribuído. Violento por índole, e desprezador da selvagem bravura dos Tupinambás, como quem estava costumado a medir-se com mais terríveis inimigos, quis levar tudo a ferro e a fogo.

Francisco Pereira Coutinho chegou para tomar posse em 1537, tentou se estabelecer em harmonia com os tupinambás, fundou engenhos, criou fortificações, só que a paz durou pouco. Os conflitos com os índios logo se acentuaram, e o Capitão Francisco Pereira Coutinho terminou no ventre dos tupinambás em 1547, num ritual antropofágico na Ilha de Itaparica.

Os franceses diziam que os tupinambás possuíam um “singulier plaisir”, e desconfiava de quem rejeitasse participar dos seus banquetes. Coutinho foi devorado numa festa antropofágica, após ser imobilizado e executado por uma borduna empunhada por uma criança cujo irmão fora morto pelo donatário.

O ritual de antropofagia tinha regras: toda a tribo deveria participar, tudo do inimigo era comido, a ferocidade e o ódio pelo inimigo deveriam ser demonstrados, a orgia de sangue que as crianças eram mergulhadas, a gula das velhas. Só o executor do assassinato não participava da comilança, fica na maloca em absoluto jejum.

Nos primeiros anos, os índios foram parceiros comerciais dos invasores. Com a formação do Governo Geral, mesmo antes com as Capitanias Hereditárias, o interesse dos portugueses deixa de ser o escambo e passa a ser a mão-de-obra indígena para as suas empresas coloniais e soldados para as guerras, contra outros índios ainda não subjugados e com prováveis invasores externos (franceses, espanhóis e holandeses).

A morte de Coutinho foi um alerta para a Coroa Portuguesa sobre a falência do modelo de Capitanias Hereditárias. D. João III criou o sistema de Governadoria Geral, um delegado da Coroa, autoridade centralizada, para implementar a colonização (escravizar e tomar as terras dos índios) e proteger as capitanias.

Tomé de Souza.

Tomé de Souza era o mordomo mor de D. João III, comendador de Rate e de Arruda, senhor do prado de Bastos e tinha servido com distinção na Ásia e na África.  

O primeiro Governador, Tomé de Souza, chegou a Bahia em 29 de março de 1549, comandando três naus, duas caravelas e um bergantim, com 320 funcionários para todos os ofícios, 400 degredados, 600 soldados, vários fidalgos e seis jesuítas, liderados por Manoel da Nóbrega. Entre os familiares, estavam o filho bastardo Garcia d’Ávila, então com 21 anos.  

Tomé de Sousa (1549 a 1553), o primeiro governador-geral do Brasil, fundou Salvador (1549), e a instalou o primeiro bispado do Brasil. Com ele vieram os primeiros jesuítas, chefiados por Manoel de Nóbrega, que fundaram na Bahia o primeiro colégio em território brasileiro. No que se refere à economia, houve desenvolvimento da economia açucareira, baseada na mão-de-obra escrava, e a introdução das primeiras cabeças de gado.

O governador-geral contava com três auxiliares no primeiro escalão: o ouvidor-mor, responsável pela Justiça, o provedor-mor, pelas finanças e o capitão-mor, pela defesa do litoral. Antônio Cardoso de Barros, donatário da Capitania não colonizada do Ceará, veio ocupar o cargo de procurador da Coroa, visando cobrar os impostos; e doutor Pedro Borges, para ocupar o cargo de ouvidor geral e diretor da justiça.

Garcia d’ Ávila.

Com a formação do Governo Geral e a chegada de Tomé de Souza, duas outras Capitanias Hereditárias, a de Ilhéus e a de Porto Segura avançaram para a integração com a Bahia de todos os Santos, e a pequena faixa (Sergipe atual) continuou resistindo. O filho bastardo de Tomé de Souza, Garcia d’Ávila, fez e patrocinou várias incursões malsucedidas para ocupar as terras de Sergipe, sempre rechaçados pelos tupinambás.

Garcia d'Ávila, um dos mais ricos habitantes da Baía naquele tempo, possuidor de muitos currais de gado em toda a costa do rio Real até além de Tatuapára, com grandes edifícios de vivendas, capelas e ermidas.  Na igreja da Conceição de Nossa Senhora, "mui ornada, toda de abobada", tinha ele um capelão para lhe ministrar os sacramentos.

Chegou ao Brasil em 1549, sendo "criado" de Tome de Sousa, isto é, moço criado e educado pelo governador. Foi o fundador da casa da Torre, tendo adquirido as terras, base de sua grande fortuna, a Tome de Sousa, que as houvera em 1563 por duas concessões reais.

Garcia d'Ávila, de quem Nóbrega se queixava em 1559 a Tome de Sousa, foi quem primeiro tentou a redução do gentio do rio Real, que Luiz de Brito d'Almeida veio a conseguir, fundando a vila de Santa Luzia e tornando assim possível a formação da Capitania de Sergipe. Tema dos próximos capítulos.

A 28 de julho de 1591, na qualidade de vereador mais velho da Câmara da Baía, prestou "juramento público da fé na fôrma declarada no regimento" trazido pelo visitador do Santo Ofício. Garcia d’ Ávila morreu a 23 de maio de 1609, sendo sepultado na Sé da Baía.

Tomé de Souza. Chegou ao Brasil em 28 de março de 1549, A esquadra com duas caravelas e um bergantim. O Ouvidor Mor Pero Borges e o Procurado Mor da Fazenda Antônio Cardoso de Barros. 

As diretrizes do Governo Geral no Brasil foram estabelecidas no Regimento, nossa primeira Constituição, datada de 17 de dezembro de 1548. O intuito civilizador de Portugal centrava-se no proveito da fé e do Império.

Em 1550, El-Rei mandou uma nova armada para fortalecer Tomé de Souza, navios mercantes, munição de guerra, artilharia, e trezentos soldados, sob o comando do Capitão Simão da Gama de Andrade.

Vieram os seis jesuítas com Tomé de Souza: Azpilcueta Navarro, Antonio Pires, Leonardo Nunes, Diogo Jácome e Vicente Rodrigues chefiados por Manoel da Nóbrega. Tomé de Souza doou aos jesuítas o sítio denominado Terreiro de Jesus, e uma sesmaria, Água de Meninos, cuja renda era destinada ao sustento dos meninos do Colégio de Jesus.

Em 1550, chegaram os padres Salvador Rodrigues, Manuel de Paiva, Afonso Brás e Francisco Pires. Em 1553, chegaram juntos com Duarte da Costa, Luiz da Grã, Braz Lourenço, João Gonçalves, e os irmãos Antônio Blasquez, Gregório Serrão e José de Anchieta.

Com a instalação do Governo Geral, intensificaram-se as ações de combate aos índios, incendiando as aldeias e dizimando mulheres, velhos e crianças.

Os portugueses inauguravam uma nova etapa no relacionamento com os índios. Morte aos que não se subjugassem. Evidente, que os índios perceberam a que a estratégia dos jesuítas de evangelização era uma falácia, e como funcionários pagos e mantidos pela Coroa, os jesuítas eram parte do projeto de dominação e ocupação da terra pelos portugueses.

Os conflitos e as divergências do braço armado português com as ações dos jesuítas eram residuais, efêmeras, localizadas. Eram partes de um mesmo projeto. Álvaro Costa, famoso pela crueldade e pela devassidão, tinha um comportamento tão extravagante que obrigou ao Bispo Sardinha denunciá-lo a Coroa.

Tomé de Souza instituiu o pelourinho nas Vilas, para a execução judicial, e despedaçava os índios condenados amarando-os na boca de um canhão. A pena de morte era generalizada, geralmente após um julgamento apressados. Aos índios não cabia escolha ou a conversão e escravização ou a morte.

Tomé de Souza, ao tomar conhecimento da morte de dois portugueses pelos índios, mandou prender dois morubixabas escolhidos sem critério, e sem relação com as mortes dos portugueses, executando-os de forma cruel, amarrando-os a boca de um canhão e ordenando o disparo. Os caciques tiveram os seus corpos despedaçados para servir de exemplo.

Os jesuítas divulgavam em sua catequese que havia um testamento de Adão, destinando as terras do Novo Mundo aos portugueses e espanhóis, portanto, não era justa a resistência dos índios.

Bispo Sardinha

O primeiro bispado brasileiro foi criado pelo Papa Júlio III, com a bula "Super Specula Militantis Ecclesiae", em 25 de fevereiro de 1551, e para seu titular El-Rei d. João III indicou d. Pero (ou Pedro) Fernandes Sardinha. Aportou o Bispo, ao Brasil, em junho de 1552, ao tempo de Tomé de Souza.

O primeiro Bispo, D. Pedro Fernandes Sardinha, homem culto, refinado, trouxe consigo toda a clerezia, ornamentos, sinos, peças de prata e outras alfaias dos serviços da igreja. O Bispo Sardinha foi importante na história de Sergipe, será tema dos próximos capítulos. 

Em 1536 foi criado no reino luso o Tribunal Inquisitorial; embora os cristãos novos tenham constituído alvos centrais entre as heresias, o processo esteve incluído num quadro maior de reformas, notadamente marcado pela Contra Reforma, cujo eixo central foi representado nas determinações do Concílio de Trento (1545 - 1563).

Jorge Valadares foi o primeiro médico formado a atuar no Brasil, durante o governo de Tomé de Souza (1549 – 1553); Jorge Fernandes, o segundo, no governo de Duarte da Costa (1553 – 1557); e Mestre Afonso o terceiro, no governo Mem de Sá (1557 – 1572).

Antônio Samarone.