terça-feira, 17 de dezembro de 2024

OS MOUROS, EM ITABAIANA.

Os Mouros, em Itabaiana.
(por Antonio Samarone)

Sou indagado com frequência sobre a influência holandesa e judaica na cultura itabaianista. Todo louro de olhos azuis, em Itabaiana, se acha descendente de holandeses. E todo comerciante itabaianista sabido, se acha judeus.

Não sei! Ainda procuro as evidências.

Os meus ascendentes do Matebe, Candeias e Capunga, são galegos, da Galícia. Os ascendentes das Flechas, Matapoã e Sambaiaba, são do Norte de Portugal. Todos cruzados com índios e negros, é que informa os estudos do DNA mitocondrial. Somos pardos e curibocas.

Vou falar um pouco sobre a influência espanhola, em Itabaiana.

Durante a ocupação de Sergipe (1590), vivíamos sob o domínio da União Ibérica (Portugal/Espanha – 1580 a 1660). Os primeiros colonos que chegaram ao Vale do Jacarecica, fundaram o Arraial de Santo Antonio e Almas. Itabaiana Grande (Itapvámuçu) já estava lá, era a Serra.

Pleiteando ser Villa, criaram a Irmandade das Almas (1665), para viabilizar a compra de um local onde construir a Villa. Compraram um Sítio no tabuleiro de Ayres da Rocha. Transferiram o Arraial. Em 1675, o Bispo de Salvador criou a Freguesia de Santo e Almas. A Igreja chegou antes da Coroa. Tornou-se Villa, somente em 1697.

A nova povoação se deu em torno de um grande espaço vazio (atual Praça Fausto Cardoso). O novo livro de Robério Santos, apresenta detalhes reveladores:

“A praça da rua media duzentos metros de comprimento no lado Norte, contando com o cemitério antigo; duzentos e dez metros no lado Sul; cento e nove metros nos fundos da Igreja (Rua do Sol) e sessenta e sete metros no lado Oeste. Era um grande espaço vazio, muito diferente de outras localidades na redondeza, em que as casinhas se espremiam em torno da igreja.”

Nesse espaço vazio (largo), ocorriam as festas, eventos religiosos, feiras e comemorações.

Prossegue Robério Santos:

“Havia seis entradas para a Praça: esquina da Intendência, Travessa Paulino Menezes, o beco que sai na Rua 13 de Maio (Rua do Cisco); a Travessa Manoel Andrade, a do Sobrado que outrora fora a Câmara de Vereadores (Bar de Papinha), antigo beco do cemitério; uma ruela ao lado, Travessa José Cornélio da Fonseca; outra travessa ao lado da Igreja que se estende pelo Beco Novo (Rua Riachuelo e depois Coronel Sebrão; ao lado esquerdo da Matriz outro entrada, seguindo pela Rua do Futuro (atual Tobias Barreto).”

Essa forma de ocupação, um grande espaço retangular (Largo), com as casas, órgãos públicos e sobrados voltados para dentro, com entradas estreitas, é o modelo das praças espanholas, de herança Moura. Essas casas eram compridas, fechando o quadrado. Não havia vizinhos pelos fundos.

A Plaza Mayor, em Madrid, é uma praça retangular, rodeada por todos os lados de edifícios, sendo as entradas por nove pórticos. A Plaza Mayor tem 129 metros de comprimento e 94 de largura. A de Itabaiana é maior e possui seis entradas.

Todo cidade do mundo que sofreu influência espanhola, tem a sua Plaza Mayor.

Um velho manuscrito de Feltre Bezerra, informa que os Frades Beneditinos, os mesmos que criaram a Irmandade das Santas Almas do Purgatório, em Itabaiana, usavam plantas e "croquis", dos arquitetos espanhóis Juan Gomez, Vilanueva e Herrera, na criação das Vilas no Brasil.

Itabaiana sofreu clara influência dos beneditinos, ofuscada pela força de Santo Antonio (franciscano). A Villa é de Santo Antonio e Almas. O “ora et labora” é a súmula da vida monástica dos beneditinos”. Continua sendo observada em Itabaiana.

Por falar em influência espanhola, o Largo São Francisco em São Cristóvão é arquitetura espanhola (comprovada); como a padroeira, Nossa Senhora da Vitória, que protegeu os espanhóis na batalha de Lepanto.

O que tornou São Cristóvão patrimonio cultural da humanidade, foi o modelo de urbanização espanhola, dos tempos da União Ibérica.

Nas fotos antigas de Itabaiana, antes dos canteiros, do coreto, das fontes luminosas e da arborização, fica claro o grande vazio retangular em torno da Igreja (o largo mouro), da Praça Fausto Cardoso.

Um modelo de urbanização moura, trazida pelos espanhóis. A ideia de cidadela, seguiu as cidades muradas, no imaginário de segurança contra invasores. No Brasil, talvez, por medo dos índios.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

domingo, 15 de dezembro de 2024

ITABAIANA, 350 ANOS. VICENTE DE BELO.


 Itabaiana, 350 anos - Vicente de Belo.
(por Antonio Samarone)

A farinha de mandioca de Itabaiana, ainda é a melhor do Nordeste. Virou marca de qualidade. Hoje, essa tradição estendeu-se pelo Agreste sergipano. Do Tipiti dos Tupinambás a farinha pó do Rio das Pedras, foram séculos de avanços tecnológicos.

Nas tradicionais casas de farinha, tudo era artesanal: a prensa, o rodete, o forno de barro, o rodo, a raspa, o cocho e a peneira. Em Itabaiana, quem trouxe o motor para substituir o rodete, foi Vicente de Belo.

Vicente de Belo montou uma loja, na parte térrea da casa paterna, na esquina da Rua do Cisco, com a Rua das Flores, e trouxe os motores de casa de farinha de São Paulo. Uma revolução tecnológica.

Vicente Machado Menezes (Vicente de Belo) nasceu no Pé do Veado, em 30 de novembro de 1927. Filho de Felisbelo Machado Menezes (Belo) e Cecilia Ferreira de Almeida (Cila), numa família de vários irmãos: João; Zeca; Zé Pequeno; Lourdes (Mãe do Veio Belo); Mariá; Maria Pequena (esposa de Zé de Fulosina).

Vicente se criou nas terras do pai, como todos os meninos da roça. Tomou muita mordida de formiga preta, ou seja, trabalhou na enxada. Frequentou a escola de Dona Nalzir.

Vicente de Belo, filho de um grande pecuarista, se destacou no comércio. Foi o que se chama em Itabaiana um grande balcão, sabia vender e comprar, tinha talento para os negócios. A Casa São Vicente, continua exitosa, vendendo material elétrico/eletrônico, e derivados.

Vicente de Belo casou-se com Dona Maria Josefina Meneses (Dona Juzi), em 26 de setembro de 1963, na Igreja de Santo Antonio e Almas. Tiveram 3 filhos, dois deram continuidade ao empreendimento do pai: João Vicente e Luciene (professora).

Dona Juzi é filha de João do Volta (Pecuarista) e Dona Lucila Goes, descendente dos "Bezerras", de Frei Paulo. Ou seja, as raízes econômicas de Vicente e Dona Juzi eram a pecuária. Herdeiros dos curraleiros, que colonizaram Itabaiana, desde o século XVII.

Dona Juzi era da tradicional família dos "Voltas", pecuaristas famosos da Região. Uma família grande em Itabaiana: Antonio Fernandes (sogro do médico Marcondes); Zé Bangala; Nico; Salete; Eunice, mãe de Ivo; Luci; Bosco; Euclides; Abílio; Vadinho e Rivas (Vereador). Faltou alguém?

Vicente de Belo foi um comerciante bem-sucedido, um homem probo, conservador, temente a Deus, pacato, voltado para a família, que ajudou no desenvolvimento de Itabaiana.

Aí veio a política!

Entre o fim do Estado Novo (1945) e o Golpe Militar de 1964, o Brasil viveu um interregno democrático, onde as disputas políticas afloraram. Em Itabaiana, vivia uma transição: de uma economia de agrícola para comercial. A chegada da BR – 235 e dos caminhões, impulsionaram o comércio.

Entre 1945 e 1964, as disputas políticas em Itabaiana (PSD – Manoel Teles X UDN – Euclides Paes Mendonça), envolviam o controle do comércio atacadista. As paixões e a violência foram aos extremos). A disputa terminou em assassinatos.

Os militares acabaram os Partidos, criou a ARENA, e obrigou que adversários odientos, sentassem a mesma mesa, carregassem a mesma bandeira.

Em Itabaiana houve um acordo para chapa única: na primeira eleição (1967) a ex UDN indicaria o Prefeito e o ex PSD indicaria o Vice.

E assim foi feito. Em 1967, Vicente de Belo, um conciliador, foi indicado pela UDN e Derivaldo Correia, sobrinho de Jason Correia, pelo PSD. A vitória foi tranquila. O MDB lançou José Enio Araújo.

Vicente de Belo, tornou-se um torna-se o Prefeito (1967 a 1971) da transição, das lutas políticas em Itabaiana. Já tinha sido Vereador, por um mandato.

Nas eleições seguintes (1972), para se cumprir o acordo pacificador, inverteu-se, o ex PSD indicou Mozart Fonseca e a ex UDN, indicou Pituca de Seu Heleno, para vice.

Aqui houve uma dissidência. O novo líder político, Chico de Miguel, eleito deputado estadual em 1966, na época preso, não concordou com a chapa. Faltando 15 dias para as eleições, Chico decidiu apoiar o candidato do MDB, o alfaiate Filadelfo Araújo, que disputava sem nenhuma chance. Resultado, Chico de Miguel, preso, elegeu Filadelfo. Nasceu aí um novo chefe político, Chico de Miguel, que dominou a política de Itabaiana, por décadas.

Em 1976, as disputas políticas estavam restabelecidas em Itabaiana. Chico de Miguel elegeu o filho, Antonio Teles de Mendonça - Prefeito e José Américo Bispo - Vice, com estrondosa votação. A ARENA II, antigo PSD em Itabaiana, lançou Fernando Mendonça, filho de Etelvino.

Vicente de Belo foi uma exceção aos enfrentamentos e paixões políticas: foi Prefeito de Itabaiana, numa chapa de conciliação. Um pacificador! Fato isolado, na aquecida história politica de itabaiana.

Vicente de Belo foi eleito em 12 de março de 1967 e tomou posse em 30 de março, às vésperas do terceiro aniversário do Golpe Militar. Fez uma administração pacífica, sem ódios, voltada para realizações.

Em sua gestão, dezenas de ruas foram pavimentadas a paralelepípedo; urbanizou a Praça Fausto Cardoso (foto); construiu a Praça de Santa Cruz, com o seu monumento a Apolo 11; iniciou a construção da rede de esgoto; pavimentou o Largo Santo Antonio e o José do Prado Franco; reformou e construiu estradas vicinais para os povoados.

Em seu mandato, foi construído Estadio Presidente Médici, atual Etelvino Mendonça, pelo governador Lourival Batista.

Vicente de Belo encerrou o seu mandato de Prefeito em 31 de dezembro de 1971, retornando a sua vida privada, de próspero comerciante.

Um fato relevante: desconheço os inimigos de Vicente de Belo. Entrou e saiu da política dignamente.

Vicente de Belo faleceu em 26 de junho de 1994, aos 67 anos, após longa enfermidade.

O Prefeito Vicente de Belo, deixou um legado de paz e realizações para Itabaiana. Deixou também a Casa São Vicente e dois filhos (João Vicente e Luciene), que dão continuidade ao legado do pai.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

(A foto é do acervo de Almeida Bispo.)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

O DIREITO A RANZIZICE.

O Direito a Ranzinzice.
(por Antonio Samarone)

Nos últimos 50 anos, houve um empoderamento das crianças e uma perda de importância dos velhos. Eu peguei a transição: quando eu era menino, os velhos eram poucos, mas, de certa forma, pesavam socialmente.

Os meninos não tinham vontades, nem quereres. Eu envelheci e tudo mudou: os meninos se empoderaram, mandam até nos pais e nos professores. Já os velhos, viraram até uma ameaça, durante a Pandemia.

Num congresso estudantil, os jovens pediram um conselho a Nelson Rodrigues. Ele foi sucinto: - “envelheçam!”. Era a velhice ciosa da sua importância.

Me aposentei da Faculdade de Medicina, por desencanto. Ensinava “Saúde e Sociedade”. Um aluno me perguntou na primeira aula: “professor, do conteúdo de sua disciplina, o que eu posso usar como procedimento e ofertar em meu consultório?”

Percebi que estudar as relações "saúde/sociedade" estava superado. O currículo deveria ofertar o curso “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, em convênio com o SEBRAE.

Assisti a um seminário estudantil recente, na Faculdade de Medicina da UFS, onde uma consagrada decana, experiente, professora doutora, acrescentava um exagerado comentário elogioso após cada apresentação dos alunos. Ela sabia da superficialidade, mas fazia média, jogava para a plateia, para agradar aos poderosos jovens.

“Apresentação encantadora”, repetia acriticamente a decana. São os tempos!

Aos setenta, não posso cantar como Piaf, “Non, je ne regrette rien”. Eu me arrependo de muita coisa: não gastaria tanto tempo com a política; não tinha talento; não era a minha vocação.

Entrei na política querendo consertar o mundo, deixei pior...
Fui grosseiro com muitos amigos. “Se ficaram mágoas em mim/ Mãe tira do meu coração/ E aqueles que eu fiz sofrer peço perdão.” – RC.

Me arrependo de não ter dedicado mais tempo a minha família, dedicado mais tempo a minha esposa, acompanhado mais o meu filho e tomado a minha sogra como exemplo de sabedoria. Ainda é tempo... Peço perdão, pelos erros!

Entrei na medicina por vaidade. Fiz o vestibular como um desafio. Sem cotas, o segundo grau no Murilo Braga iniciando, sem acesso ao pré-vestibular, trabalhando durante o dia, mas queria passar em um curso disputado.

Uma tia, tinha me feito um insulto: “É muita pretensão, um filho de Maria Lourdes e Elpídio, um Zé Ninguém, querendo ser médico.” Tomei como um desaforo.

Como septuagenário, em gozo dos meus direitos, abro mão do sagrado direito a ranzinzice. O direito a dizer o que se pensa, na cara do mal-assombrado, quando quiser, sem mediações, nem arrodeio.

Exercerei plenamente o direito a impaciência, concedido pelo Estatuto dos Idosos, o direito de me fazer de surdo, como proteção à enxurrada diária de bobagens.

Farei o bom uso do enfraquecimento natural da memória, facilitadora do desapego. As boas lembranças fortalecem a saudade e aos apegos à vida. Não falo do fim da memória, O fim da memória é a demência, o apagamento, a morte antecipada do espírito.

Falo dos benefícios do esquecimento seletivo da memória.

Antonio Samarone – Septuagenário.
 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

SETENTA ANOS - EM BUSCA DOS ORÁCULOS.


 Setenta anos – em busca dos oráculos.
(Por Antonio Samarone)

Nunca pensei em chegar aos setenta, mas cheguei! O nome é bonito: septuagenário.

Gastei parte da vida com coisas fúteis. Empunhei bandeiras utópicas. Combati o bom combate e perdi! Quase tudo. O mundo desandou por caminhos que eu acreditava superados.

Fui ateu na juventude. Acreditava que o homem era a medida das coisas. Fui discípulo do iluminismo do século XIX. Busquei o paraíso perdido. Uma ilusão.

Errei! Negar o sagrado foi uma manifestação de arrogância.
Deparei-me com três mistérios: o Cosmo, a Vida e a Consciência.

Todas as cosmogonias são metafóricas. A Terra sozinha, já é um mistério. Explicar a origem da vida quimicamente ou pelo criacionismo dos catecismos esbarram na mesma fantasia. A vida e a morte continuam misteriosas.

Por último, como explicar a origem da consciência? Talvez o mais difícil. Já acreditei que a ciência chegaria lá, seria uma questão de tempo. Se a consciência subsiste ao corpo, não sei, e desconheço quem sabe. A consciência sente, pensa, percebe e intui. É muito, para ser apenas um fenômeno da matéria organizada.

Hoje, citando Einstein, acredito no Deus de Spinoza. Deus é a harmonia do cosmo! Só que esse deus absoluto não nos socorre, nos momentos de aflição.

A alma humana, nos momentos de sofrimento, precisa de amparo. Quando precisamos de socorro, misericórdia ou proteção, buscamos as divindades interiores. Que pode ser Jesus, Javé ou Alá, Buda ou Maomé, Oxum ou Tupã, Dionisio ou Orfeu.

Sinto a complexidade da psique humana. Percebo a força do inconsciente e dos instintos, e a ação poderosa dos arquétipos. A consciência possui história, herdou resíduos arcaicos. Muita coisa está fora da compreensão humana.

Na Grécia, os doentes pediam a Asclépio, o deus da medicina, um sonho para indicar-lhes a cura.

Por mais que busquemos um comportamento racional, continuamos à mercê de forças fora do nosso controle. A ciência é impiedosa, ela não afasta a nossa inquietude.

Na reta de chegada, o objetivo central é manter o sopro da vida. Comemorar cada dia, enfrentar as contingências sem lamentações.

Quem quiser briga, aproveite até domingo. Depois, será só contemplação. A vida é um curto sonho!

Por que nos privarmos de crenças que ajudam nas crises e dão um certo sentido à vida?

Antonio Samarone – Septuagenário.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

SUCESSOS NACIONAIS.

Sucessos Nacionais.
(por Antonio Samarone)

Eu perguntava sempre a Luiz Antonio Barreto: por que Sergipe nunca projetou um nome nacionalmente famoso na música? Ele discordava! Dava exemplos que só ele conhecia. “Sabe aquela música, sucesso de Noel Rosa? O compositor é sergipano! Sabe aquela outra, e a outra,” e não parava de citar.

Luiz Antonio era uma enciclopédia de Sergipe. Eu cobrava um nome que fez sucesso no Brasil. E, se possível, sucesso internacional.

Para evitar mal entendidos, não estou dizendo que os nossos cantores e cantoras não possuam talentos, pelo contrário, muitos possuem. O que me deixa perplexo é não conseguirem a glória nacional. Eu desconheço as causas.

Um amigo baiano me perguntou: “por que os cestos de caranguejos em Sergipe são descobertos e os caranguejos não fogem?” Perguntei a um velho pescador, em Terra Caída. Ele resumiu: “em Sergipe, quando um caranguejo quer subir pelas paredes do cesto, os outros o puxam para baixo.”

Deve ser isso...

Depois de muita espera, os nomes surgiram. Não por coincidência, os dois, filhos de Itabaiana.

Quando o padre Francisco da Silva Lobo, criou uma orquestra sacra em Itabaiana (1745), por sinal, completa 280 anos, em 2025, ele não previa que a semente germinaria e a música fosse enraizada culturalmente em Itabaiana.

Quem são os dois sergipanos, sucessos nacionais inquestionáveis?

1. Erivaldo Junior Alves de Oliveira (Mestrinho).
2. Natã Lima Nascimento (Natanzinho Lima).

O primeiro, faz sucesso até entre os amantes da música clássica europeia. A classe média adora. O segundo, faz sucesso no “arrocha”, uma música das massas populares. Hoje, um nome nacional.

Os talentos só brotam em solos musicalmente férteis.
A minha tese, é que o sucesso de Mestrinho e Natanzinho começaram há 280 anos, quando o padre Francisco da Silva Lobo criou a orquestra sacra em Itabaiana.

Itabaiana é a Capital sergipana da música.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.
 

sábado, 7 de dezembro de 2024

UMA MORTE SACRIFICIAL - EDÉSIO VIEIRA DA SILVA FILHO

Uma morte sacrificial - Edésio Vieira da Silva Filho
(por Antonio Samarone)

O Dr. Edésio (66 anos), foi velado na Capela de São Miguel (foto) e sepultado no Cemitério de Santo Antonio e Almas. Literalmente, esse exerceu a medicina como um sacerdócio. Teve como mortalha, o jaleco do Hospital das Clínicas.

São Miguel é co-padroeiro de Itabaiana. A Villa é de Santo Antonio e Almas. São Miguel é o protetor das Santas Almas do Purgatório.

O filho de Seu Edésio do Mercadinho, da Cepa de Matapoã e de Dona Regina, irmã de Seu Mauricio, bilheteiro do cinema de Zeca, morreu em paz, após um longo e profundo sofrimento.

Edésio ficou órfão de pai muito cedo. O irmão mais velho, João Andrade, que também era novo, assumiu a família de cinco irmãos pequenos e a mãe doente. Passaram por dificuldades. Fizeram de tudo para sobreviver.

A avó do Dr. Edésio, que eu esqueci o nome, uma senhorinha que só andava de preto, morreu tragicamente, atropelada por um caminhão, numa quarta-feira, em Itabaiana. No atropelamento, a avó salvou os dois netos, que estavam com ela.

Vejam o que disse o Dr. Átalo Crispim, um sábio da medicina, mas que não sabia dessa morte da avó de Edésio:

“Sei que ele morreu de uma doença degenerativa, autoimune, que caracteriza a assunção de um grave problema ligado a algum antepassado e que ele assumiu, consciente ou inconscientemente, mas não deu conta. Sua morte aos 66 anos indica uma morte sacrificial. Edésio era um personagem trágico e rico, como demonstrava em suas postagens; gostaria de tê-lo conhecido!”

Ainda criança, Edésio já era um ermitão. Nasceu coberto de religiosidade. Passava dias na grande Serra. Sozinho, nas entranhas da natureza.

Andava de mosteiro em mosteiro, buscando realizar a sua vocação sacerdotal. Certa feita, o Padre Amaral o convidou para a visita regular que ele fazia aos enfermos. Edésio o acompanhou. Na passagem pelas enfermarias do Hospital São José, Edésio viu um clarão, e ao fundo, a imagem de Dr. Pedro Moreno, o médico dos pobres, em Itabaiana.

Edésio entendeu, a sua vocação religiosa seria vivenciada junto aos doentes, como médico. E fez isso a vida inteira. Edésio formou-se na UFS, em Sergipe, mas exerceu a medicina em São Paulo. Um eterno plantonista. Um anjo para os seus pacientes.

Qualquer um doente de Itabaiana, que precisasse de tratamento em São Paulo. Bastava ligar. Conhecendo ou não, lá estava Edésio, disposto "de corpo e alma", para servir aos conterrâneos sofredores.

Não verdade, a sua medicina era um sacerdócio. Morreu sem deixar cabedais.
Nos Tempos da Covid, Edésio não arredou pé dos hospitais.

Uma jovem médica sergipana, recém-formada, foi a São Paulo fazer a residência médica. Na lide pelos corredores e enfermarias dos hospitais da grande metrópole, Clara encontrou com Edésio, que comandava o plantão. Se conheceram. Edésio quis saber quem era a recém-chegada: “sou Clara Augusta, neta de Dr. Pedro Moreno, de Itabaiana." Edésio desmanchou-se em prantos.

Dr. Edésio, sou seu irmão de destino. Sei o seu valor. Não alcanço o mistério da vida, muito menos o da morte. Seja lá o que for, você será acolhido.

Edésio deixou a viúva, Jucilene Paixão, que foi minha aluna, e uma filha.

Antonio Samarone – septuagenário!
 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

SÓ É VELHO QUEM QUER.

Só é velho quem quer!
(por Antonio Samarone).

Uma das chatices para os idosos é a Saúde. Todos têm um conselho, uma regra, uma disciplina a sugerir: não coma isso, não faça aquilo, cuidado com as quedas, faça um check-up, faça exercícios, controle a glicemia, evite gorduras e doces... Tudo, numa ladainha interminável.

Já existe um dispositivo intradérmico, on-line, que controla a pressão, batimentos cardíacos, frequência respiratória, níveis de colesterol e açúcar no sangue, passos, cochilos, ingestão hídrica, sudorese, peidos e bufas, roncos e pesadelos. Ao final do dia, o aplicativo emite um relatório, com gráficos, tabelas e análises dos riscos.

Deixar de cumprir qualquer item obrigatório da ciência médica, coloca o idoso no banco dos réus, na qualidade de culpado, por suas mazelas. A morte precisa nos encontrar saudáveis.

A surdez torna-se uma graça para os idosos. A perda de memória seletiva um alívio, que facilita a convivência social. A tradicional pergunta: “lembra-se de mim?”, que a gente responde por educação: “sim!”, e o chato insiste: “como é o meu nome?”. A idade nos desobriga de responder a essas inconveniências.

A medicina tem um catecismo de vida saudável. Tudo, sob a chancela de verdades cientificas. A velhice é a maior fonte de renda para a medicina: 80% dos gastos com a saúde são proporcionados pelos idosos.

Os direitos sociais, trabalhistas e previdenciários estão em declínio no Brasil. Em 2003, a lei 10.741, instituiu o “Estatuto da Pessoa Idosa”, garantindo dez direitos fundamentais, entre eles o da Saúde. O Estatuto, só não garantiu o direito à salvação da alma.

O Estatuto do Idoso criou, no papel, um Brasil paradisíaco para os velhos. Hipócrates, o pai da medicina ocidental, considerava que a senilidade chegava aos 50 anos. Hoje, a lei elevou para 80 anos.

Claro, essa lei não pegou. Desta, conquistamos apenas o direito às filas especiais em supermercados, bancos e aeroportos. Filas geralmente mais lentas. O direito a viajar gratuitamente e sentados nos transportes coletivos. E mais, uma ou outra bobagem.

Recentemente, um Senador da República, por Sergipe, apresentou um projeto de lei, obrigando os Planos de Saúde a oferecerem uma linha telefônica exclusiva aos segurados idosos. Os direitos sociais dos idosos viraram bagatelas.

A ideologia da eterna juventude nega a velhice: só é velho quem quer. Esta negação, tornou difícil a empatia dos mais jovens. A velhice e a morte são afastadas da reflexão, escondidas, negadas.

Não existe interesse pelas experiências dos que estão envelhecendo.

Os velhos não são mais os depositários da Cultura e da Sabedoria. Nos últimos 50 anos, houve um empoderamento das crianças e dos jovens, e uma perda de importância dos velhos. A experiência de vida é vista como um autoengano.

Pessoalmente, o idoso precisa suportar a medicalização da sua velhice pacientemente. Senti-la como um benefício.

A medicalização da velhice é uma forma de supressão da identidade pessoal.

O carimbo de paciente é despersonalizante. O controle é compulsivo e as regras de comportamentos, impostas.

Antonio Samarone – Septuagenário.