sábado, 10 de agosto de 2019

SERGIPE ANTIGO (CAPÍTULO VI) CAPITANIAS HEREDITÁRIAS (parte dois)


(Cap. VI)

Sergipe Antigo. (Ciri-gy-pe – rio dos siris). (por Antônio Samarone)

A Capitania de Sergipe (parte dois.)

João III - O Piedoso (1502-1557) nasceu na cidade de Lisboa em 06 de junho. Primeiro filho de D. Manuel I com a rainha D. Maria de Castela. Assumiu o trono de Portugal em 19 de dezembro de 1521, alguns dias após a morte de seu pai, e reinou durante 36 anos. Casou-se com D. Catarina, irmã do imperador Carlos V, em 1525, e veio a falecer em junho de 1557.

A 26 de agosto de 1534, D. João III assina carta de doação da Capitania de Sergipe a Francisco Pereira Coutinho:

“D. João, por graça de Deus, rei de Portugal, e dos Algarves, daquém e dalém mar em África, senhor de Guiné e da Conquista, navegação, comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc. A quanto esta minha carta virem, faço saber que eu fiz ora doação, e mercê a Francisco Pereira Coutinho, fidalgo da minha casa, para ele e todos os seus filhos, e netos, herdeiros e sucessores, de juro, e herdade para sempre, da capitania e governança de 50 léguas de terra na minha costa do Brasil, as quais começarão na parte do rio São Francisco e correm para o sul até a parte da Bahia de Todos os Santos.”

Senhores de baraço e cutelo.

Os donatários eram de juro e herdade senhores de suas terras. Tinham jurisdição civil e criminal, com alçada até cem mil réis na primeira, com alçada no crime até morte natural para escravos, índios, peões e homens livres, para pessoas de mor qualidade até dez anos de degredo ou cem cruzados de pena; na heresia (se o herege fosse entregue pelo eclesiástico), traição, sodomia, a alçada iria até morte natural, qualquer que fosse a qualidade do réu, dando-se apelação ou agravo somente se a pena não fosse capital.

Os donatários poderiam fundar vilas, com termo, jurisdição, insígnias, ao longo das costas e rios navegáveis; seriam senhores das ilhas adjacentes até distância de dez léguas da costa; os ouvidores, os tabeliães do público e judicial seriam nomeados pelos respectivos donatários, que poderiam livremente dar terras de sesmarias, exceto à própria mulher ou ao filho herdeiro.

O território de Sergipe é o núcleo central da Capitania doada a Francisco Pereira Coutinho. São cinquenta léguas de costa, do Pontal a Caixa Prego. Cabia ao donatário repartir o território, doando sesmaria a quem bem intendesse, desde que fossem cristãos.

Se na terra houvesse minas, o Rei de Portugal teria direito a um quinto da produção, bem como dez por cento do pescado. O pau Brasil também era da Coroa.

O Capitão da Capitania ficava autorizado a doar sesmaria a qualquer pessoa, desde que cristão; se encontrasse ouro ou outros metais preciosos, era obrigado a pagar um quinto ao Rei. O pau Brasil e plantas medicinais continuam pertencendo ao Rei. Ao donatário eram atribuídos poderes de justiça e da fazenda pública.

Francisco Pereira Coutinho era um fidalgo abastado, experimentado na Índia, e chegou ao Brasil em 1537, com uma vasta comitiva, em sete naus, muita gente e muitos recursos. Inicia a ocupação de sua capitania de forma entusiasmada, construindo engenhos, distribuindo sesmarias, ocupando terras que não lhe pertenciam e criando um conflito com o velho Caramuru.

Os conflitos com os Tupinambás foram intensos. Os modos de ação de Coutinho eram incompatíveis com acordos e negociações, agia de forma violenta e imperial. Ficou conhecido como o Rusticão.

O poderoso Francisco Pereira Coutinho quis desenvolver a sua capitania à força, envolvendo-se em conflitos frequentes com os tupinambás, e um desses conflitos a soldadesca de Coutinho assassinou um filho do cacique, agravando os conflitos.

No primeiro momento ele teve a colaboração de Caramuru na pacificação dos gentios, harmonia que durou pouco, pois em pouco tempo ele manda prender o próprio Caramuru. Diante do agravamento da situação, Coutinho foge para a Capitania dos Ilhéus, tentando esfriar o estado geral de beligerância.

Francisco Pereira Coutinho, donatário da Capitania de Sergipe, naufragou nos baixios do Peraúnas, na Ilha de Itaparica, onde será deglutido pelos tupinambás.

Em meados de 1547, ao retornar para Villa Velha, sentindo-se seguro, as duas naus encalharam na extremidade sul da Ilha de Itaparica, Francisco Pereira Coutinho é preso pelos índios e submetido ao ritual antropofágico, que durou cinco dias, comum entre os tupinambás. A cerimônia demorou seis dias. Sua cabeça foi partida com uma clava, pelo irmão do índio assassinada; sua carne servida em fausto banquete.

A antropofagia é uma instituição por excelência dos tupi: ao matar um inimigo, de preferência com um golpe de tacape, no terreiro da aldeia, que o guerreiro recebe novos nomes, ganha prestígio político, acede ao casamento e até a uma imortalidade imediata. Todos, homens, mulheres, velhas e crianças, além de aliados de outras aldeias, devem comer a carne do morto. Uma única exceção a esta regra: o matador não come sua vítima.

Comer é o corolário necessário da morte no terreiro, e as duas práticas se ligam: "Não se têm por vingados com os matar senão com os comer". Morte ritual e antropofagia são o nexo das sociedades tupis. Como bem sintetizou Manuela Carneiro da Cunha.

 “De todas as honras e gostos da vida, nenhum é tamanho para este gentio como matar e tomar nomes nas cabeças de seus contrários, nem entre eles há festas que cheguem às que fazem na morte dos que matam com grandes cerimônias, as quais fazem desta maneira.” (Fernão Cardim).

Os portugueses acreditavam que os índios eram animais, não possuíam alma, não possuíam natureza humana. A dúvida foi levada ao Vaticano, e através do breve Pastorale oficcium, em 29 de maio de 1537; seguido da bula, Sublimis Deus, de 02 de junho do mesmo ano, o Papa Paulo III (o mesmo que convocou o Concilio de Trento), concluiu que os índios eram gente, possuíam alma, e poderiam ser catequizados.

Um aspecto curioso desta bula é sua discussão de como lidar com a poligamia. Após a conversão, os índios tinham que se casar com a primeira esposa, mas se eles não conseguissem lembrar, poderiam escolher, dentre as esposas, aquela de sua preferência.

Em 29 de maio de 1537, da Bula Veritas Ipsa pelo Papa Paulo III, declarando serem os índios homens e que, como tal, tinham alma, reforça o entendimento geral de que a bestialidade era a característica dominante ou a imagem que os colonizadores, tanto espanhóis como portugueses, atribuíam às pessoas indígenas.

Essa decisão da Igreja cria uma dificuldade para os colonizadores, a escravidão dos índios foi condenada, passando ser autorizada apenas diante de uma guerra justa. Na prática, a Bula era pouco observada.

Bula Veritas Ipsa – 1537.

“Nós outros, pois, que ainda que indignos, temos às vezes de Deus na terra, e procuramos com todas as forças achar suas ovelhas, que andam perdidas fora de seu rebanho, para reduzi-las a ele, pois este é nosso oficio; reconhecendo que aqueles mesmos Índios, como verdadeiros homens, não somente são capazes da Fé de Cristo, senão que acodem a ela, correndo com grandíssima prontidão, segundo nos consta: e querendo prover nestas cousas de remédio conveniente com autoridade Apostólica, pelo teor das presentes letras, determinamos, e declaramos, que os ditos Índios, e todas as mais gentes que daqui em diante vierem à notícia dos Cristãos, ainda que estejam fora da Fé de Cristo, não estão privados, nem devem sê-lo, de sua liberdade, nem do domínio de seus bens, e que não devem ser reduzidos a servidão. Declarando que os ditos índios, e as demais gentes hão de ser atraídas, e convidadas à dita Fé de Cristo, com a pregação da palavra divina, e com o exemplo de boa vida.”

Aantropofagiaexpressava oatraso da economia dosPovos Tupi.Comiam seus prisioneiros deguerraporque um cativo rendia poucomais do que consumia, não existindo incentivos para integrá‐lo à comunidade como escravo.

Escravidão.

Ao contrário da tradicional justificativa da escravidão, onde os prisioneiros de guerra, que seriam naturalmente eliminados, recebem a proposta de tornar-se escravo como uma generosidade do vencedor, entre a morte e a escravidão, fica patente que dos males o menor.

A escravidão implantada no Brasil pelos portugueses foi numa ordem inversa, criavam-se as guerras justas com o objetivo de prear-se os índios para escravizá-los. A incipiente economia no Brasil (cana, gado, extração e subsistência) foi tocada com a mão de obra escrava. Como os índios não aceitaram pacificamente essa condição foram eliminados, num genocídio abominável.

Os portugueses na ocupação do Brasil comportavam-se em sua relação com os nativos numa condição de supremacia absoluta, não existia a noção de crime.

As terras dos índios foram ocupadas, suas filhas e mulheres ficaram à disposição dos machos brancos, suas aldeias queimadas, sua cultura abolida (etnocídios), e uma eliminação física em massa, seja em “guerras justas”, sejam pessoalmente. Matar um índio não implicava em consequências para o assassino, nem ao menos era necessário explicar as razões do assassinato.

Antônio Samarone.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

SAÚDE E ESPIRITUALIDADE


Saúde e Espiritualidade. (por Antônio Samarone)

Se fala que uma das carências atuais do catolicismo é a raridade de padres bem formados, cultos, estudiosos. Contrariando a esse preconceito, assisti a uma ilustrada palestra do padre Adan Maurício Santos Silva, da Taiçoca de Fora, sobre Saúde e Espiritualidade, num Congresso Norte Nordeste sobre o tema.

O Cura da Taiçoca de Dentro me impressionou pela clareza e profundidade como tratou a questão.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu, em 22 de janeiro de 1998, que “saúde é um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social, e não meramente a ausência de doença ou enfermidade.” A espiritualidade oficialmente já faz parte do conceito de Saúde.

A Espiritualidade engloba um amplo domínio da subjetividade humana, as suas crenças e a busca pelo significado e o propósito da vida. A Espiritualidade é o caminho para encontramos um sentido para tudo, além de esperança, conforto e paz interior.

A Espiritualidade é entendida como uma busca pessoal por significados e sentido maior no existir e  a sua relação com o sagrado e o transcendente, podendo estar vinculada ou não a uma religião formalizada ou designação religiosa.

A religiosidade trata do pertencimento a uma religião formalmente constituída. É a principal forma de vivência da espiritualidade na vida contemporânea, promovendo a aproximação do ser humano com as questões espirituais.

A medicina incorporou o discurso científico de forma acrítica e tem tido dificuldade em abordar a espiritualidade dos seus pacientes. A questão espiritual da experiência humana e a sua relação com saúde e qualidade de vida é em boa parte ignorada pelos médicos. Mesmo se sabendo que o impacto da espiritualidade sobre a saúde humana já é cientificamente demonstrado.

As doença provocam uma ruptura nos aspectos biológicos, psicológicos, sociais e espirituais dos pacientes, as ações de cura deveriam atender a todos esses fatores.

Existem iniciativas dentro da medicina reavaliando essa questão espiritual, resistindo a crueza da medicina de mercado, voltada para a produtividade e para o lucro. A medicina dominante virou uma linha de produção de “procedimentos”, com uma abordagem limitada do ser humano.

As várias formas de resistência a mercantilização, recebem a designação genérica de humanização da medicina.

Antônio Samarone.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

SERGIPE ANTIGO (CAPÍTULO V) - CAPITANIAS HEREDITÁRIAS


(Cap. V)

Sergipe Antigo. (Ciri-gy-pe – rio dos siris).  (por Antônio Samarone)

A Capitania de Sergipe (parte um).

Um esclarecimento.

A primeira tentativa da Coroa Portuguesa na delimitação geográfica e ocupação do que viria se constituir na Província de Sergipe, foi o foral de concessão da Capitania Hereditária a Francisco Pereira Coutinho, em 26 de agosto de 1534. A confusão interessada de alguns historiadores foi denominar posteriormente esse território como Capitania da Baia de Todos os Santos.

Na verdade, os historiadores sergipanos acompanharam a versão baiana de que a Capitania doada a Coutinho era a Capitania da Bahia de Todos os Santos, atendendo aos interesses expansionistas da Bahia.  

As cinquenta léguas de litoral da Capitania de Coutinho, contava a partir do Rio São Francisco, e terminava entre os rios Pojuca e o Sabahuma, ou seja, mais de vinte léguas antes da Baia de Todos os Santos.

O próprio Coutinho na chegada fez confusão, ocupando inicialmente o território da Villa Velha já ocupado por Caramuru, que, por desconhecer os termos do foral de concessão. Caramuru não reagiu num primeiro momento. Em seguida, essa ocupação indevida de Coutinho foi o principal motivo para as desavenças, que terminaram em seu assassinato.

Na verdade...

A Capitania Geral ou Capitania da Baía de Todos os Santos foi constituída por Tomé de Souza, nos termos de sua nomeação, em 07 de janeiro de 1549. Está claro que ele deveria assumir o cargo de Capitão da povoação e terras da Baía de Todos os Santos, praticamente o Recôncavo, e de Governador Geral da dita Capitania e das demais Capitanias, inclusive a Capitania de Francisco Pereira Coutinho (Sergipe).

A Capitania da Bahia de Todos os Santos, criada por Tomé de Souza, estendia-se a uma área equivalente a seis léguas em quadra. O termo de posse de Tomé de Souza também determinou a construção de uma fortaleza e uma grande povoação, que será a cidade de Salvador. A confusão é que nessa Capitania da Bahia de Todos os Santos situava-se o Governo Geral.

Ficando esclarecido essa primeira confusão. A Capitania de Francisco Pereira Coutinho correspondia ao território de Sergipe estendido. Nada a ver com a Baía de Todos os Santos. Com o tempo a Bahia foi avançando e, no início da República, sufocou Sergipe ao território entre o Rio Real da Praia e o São Francisco. Mas isso é outra história, que abordaremos depois.

Voltemos a Capitania de Francisco Pereira Coutinho (Sergipe).

Francisco Pereira Coutinho chegou com a sua numerosa e rica expedição de sete naus, em 1537. Só que desembarcou onde não lhe pertencia, na Villa do nobre Caramuru. Coutinho tentou estabelecer-se no território, distribuiu sesmarias, fundou engenhos, até que os conflitos com Caramuru se estenderam para os Tupinambás, culminando em seu trágico naufrágio na Ilha de Itaparica, em 1547, sendo devorado num banquete antropofágico pelos índios.

Francisco Pereira Coutinho, filho de Affonso Pereira Coutinho, Alcaide Mor de Santarém, recebeu de D. João III, um feudo no Brasil, uma Capitania de cinquenta léguas, visando agradecer-lhes pelos serviços prestado na Índia.

Coutinho chegou a Bahia em 1537, numa expedição com sete embarcações. Ele acreditava que a possessão se estendia da margem direita do rio São Francisco até a Ponta Padrão, depois avançando até o recôncavo.

Eduardo Bueno, em Capitães do Brasil, informa: “por julgar que os serviços que o Rusticão (Francisco Pereira Coutinho) prestara no oriente eram dignos de recompensa, exato três meses após a assinatura da carta de doação o Rei ainda mandou dar ao donatário mil cruzados para comprar artilharia e armar os navios que ora vai para a Capitania do Brasil. Logo a seguir, Pereira vendeu tudo o que possuía em Santarém e empregou o dinheiro para armar uma frota de sete navios e arregimentar cerca de 200 colonos.”

Essa escolha do Rei causou profunda decepção em Caramuru, residente na terra a muito tempo e com grande prestígio entre os tupinambá. Caramuru acreditava que seria o donatário da Capitania. O mesmo aconteceu com a Capitania de São Vicente, onde residia João Ramalho, e a Capitania foi doada a Martim Afonso de Souza. A chegada da comitiva de Coutinho causou um profundo incomodo na comunidade de Caramuru, inclusive entre os Tupinambás.

Logo que Caramuru tomou conhecimento dos termos da doação da Capitania de Coutinho, iniciou um trabalho intenso de desestabilização do intruso. Coutinho não teve tréguas.

A herança das cinquenta léguas de Coutinho, o território de Sergipe, ficou com o seu filho primogênito Manoel Pereira Coutinho, que por faltar-lhe recursos, disposição, e pelo medo de ter o mesmo fim que o pai, não mexeu uma palha na ocupação de sua Capitania.

Após a morte de Coutinho (1547) o território de Sergipe ficou quase paralisado, eram as denominadas terras do Rio Real, passando a ser fruto de ambição dos colonos, tendo à frente o famoso Garcia d’Ávila.

É provável que o respeito a propriedade dos familiares de Coutinho, por herança, tenha preservado em parte a escravização das 36 tribos de Tupinambás da área entre os rios Real e São Francisco, atual Estado de Sergipe.

Aqui é preciso uma ressalva, o que se chamava rio Real era o atual rio Itapecuru, bem mais próximo do Recôncavo. O Território dos “Coutinhos” foi respeitado, nenhuma sesmaria foi doada pelos Governadores entre a ponta de Itapuã e a barra do São Francisco até 1573, uma das razões da tardia ocupação portuguesa de Sergipe. 

Somente em 1573, a Coroa Portuguesa comprou os direitos da herança da Capitania aos Coutinhos, por 400$000 de juros por ano, pagos com a redizima da mesma Capitania, tendo o vínculo tomado o nome de morgado do juro.

A citada Capitania recebeu o nome de “Sergipe d’El-Rey”, pela homenagem ao Rio Cirigi (aportuguesado para Sergipe) e por pertencer a Coroa, por compra aos herdeiros. Não resta dúvidas, que a Capitania de Coutinho (Sergipe) e a Capitania da Baia de Todos os Santos são realidades distintas, e que o território da Capitania de Sergipe era bem maior.

Entende-se as razões para que somente após a compra, o Rei ordenasse ao Governador Luiz de Brito a exploração das famosas terras do Rio Real. A segunda tentativa oficial de ocupação das terras de Sergipe só ocorreu em 1575. Fato que abordaremos nos próximos capítulos.

Existem fundadas suspeitas históricas do envolvimento de Caramuru na morte de Francisco Pereira Coutinho... O sergipano João Ribeiro em sua História do Brasil, levanta essa versão: também foi uma tragédia a história do donatário Francisco Pereira Coutinho. Homem já de idade, doente, tardo e irresoluto, foi um dos últimos a colonizar o seu feudo (1537); já ali encontrara um núcleo de homens livres que se assenhoreara da terra (o Caramuru e outros). Ocupou o território que não lhe pertencia.

Coutinho levantou três engenhos. Os soldados de Coutinho tratavam os índios com violência e deboche, chegando a matar o filho de um Cacique. As relações com o tempo se agravaram.

Em breve, os seus próprios sesmeiros e vassalos unidos aos índios, que entretanto e a princípio pareceram pacíficos, revoltam-se e põem em sítio apertado o velho donatário. Chega um clérigo impostor que traz um falso documento de prisão do Capitão Mor que desamparado se refugia em Ilhéus. Parece que na insubordinação dos colonos e dos indígenas havia o conselho de Diego Alvares (Caramuru), personalidade cujo prestígio próprio eclipsava a do donatário.

Continua João Ribeiro, Coutinho voltou a Bahia, um ano mais tarde, a chamado dos seus falsos amigos; mas naufragando na Ilha de Itaparica e caindo em poder dos índios, que o reconheceram, foi feito prisioneiro de guerra e, em lúgubre festim, foi morto e devorado pelos canibais, segundo a terrível usança. Essa aventura repercutiu dolorosamente na Corte de D. João III, onde outras agruras não faltavam.

Francisco Pereira Coutinho, fidalgo, guerreiro, experimentado nas expedições portuguesas na Índia, desde 1506. Tomou parte na conquista de Goa, em 1515. Coutinho foi devorado pelos Tupinambá em Itaparica. Foi a trágica morte de Francisco Pereira Coutinho, que convenceu ao Rei D. João III, a criar a Governadoria Geral do Brasil. Abordaremos tema em outros capítulos.

Voltaremos a Capitania de Sergipe, no próximo capítulo...

Antônio Samarone. 

domingo, 4 de agosto de 2019

MELANCOLIA...


Melancolia... (por Antônio Samarone)

As doenças também são históricas: aparecem, causam sofrimentos, ficam importantes, assumem ares de gravidade e depois somem. Deixa-se de se falar...

Na antiguidade se conhecia a mania e a melancolia (ou simplesmente a loucura). O livro “De Causis et Signis Morborum”, Areteus (AD 150 – 200), descreveu a melancolia: “os pacientes são obtusos, desanimados, lentos, irritados e insones. São inclinados a mudar de pensamento rapidamente, podem ser medíocres, extravagantes e generosos. Manifestam ódio, evitam a convivência, se queixam da vida e querem morrer.

A melancolia foi uma doença grave até o século XVIII. O melancólico se isola, delira, tem medo de ser perseguido, sofria alucinações profundas. A melancolia era um modo severo de distúrbio mental. Na visão hipocrática, a melancolia era causada pelo excesso de bile negra (mélaina cholé). 

A melancolia era vista como um começo, uma parte da mania. Os psiquiatras franceses do século XIX, criaram a psicose maníaco depressiva (PMD). Kraepelin (alemão) incorporou a PMD em seu Manual de Psiquiatria (1899).

O tratamento da melancolia no século XVI: exercícios, distrações, viagens, purgantes, sangrias, dietas e moderação sexual. A musicoterapia também era apreciada. Uma recomendação que está na Bíblia, no livro de Samuel [16:23]: “E aconteceu quando o espírito ruim de Deus estava sobre Saul, que David tomou a harpa, e tocou-a com a sua mão: assim Saul refrescou, e ficou bem, e o espírito ruim partiu dele.”

A loucura melancólica era vista como a única resposta de um homem inteligente para um mundo louco. A melancolia saiu de moda. Alguns apressados afirmam que a depressão é o nome atual da melancolia. Não vejo essa continuidade, são doenças distintas... Poderíamos dizer: a depressão herdou alguns sintomas da melancolia, e só.

Antônio Samarone.

sábado, 3 de agosto de 2019

SERGIPE ANTIGO (CAPÍTULO IV)


(Cap. IV)

Sergipe Antigo. (Ciri-gy-pe – rio dos siris).  (por Antônio Samarone)

Um Sergipe pouco conhecido (1501 a 1530) – Presença dos franceses.

A expedição portuguesa de 1501 encontrou em Sergipe os Tupinambás, que dominavam todo o litoral, com 36 aldeias e uma população estimadas em 40 mil índios. Mais para o sertão, encontraram em menor número os kiriris, Boimés, karapotós, Aramurus e os kaxagós. Sebrão Sobrinho incluiu os Guajajaras, no território de Itabaiana.
    
A primeira descrição portuguesa dos índios está na carta de Pero Vaz Caminha: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.”

No início, o Rei Dom Manoel (1495 – 1521), o venturoso, não se interessou pelo Brasil, não possuía nem metais preciosos nem especiarias. Demorou a ocupação do vasto território, apenas algumas expedições de reconhecimento. Portugal priorizava a consolidação de outras possessões marítimas, sobretudo na Índia.

Valendo-se do abandono, os franceses estabeleceram um comércio regular de pau-brasil com os índios. Neste período, a Terra de Santa Cruz foi um paraíso de degredados e piratas. Em Sergipe, além das relações comerciais, franceses e tupinambás firmaram relações de parceria e amizade, desde 1504.

Em Sergipe, os Tupinambás foram aliados dos Franceses, chamados de “mair”; e devotavam profundo ódio aos portugueses, chamados de “pero”.

Cândido Mendes de Almeida, em seu artigo “Os primitivos povoadores”, revista do IHGB, edição de 1877, informou que a primeira expedição de reconhecimento da terra descoberta em 1501 (Américo Vespúcio), ancorou por cinco dias na enseada de um rio com uma densa mata de canafístula ou cássia (tapyra-coynana) em suas margens. Pela descrição, Mendes acreditou tratar-se do rio Irapiranga dos tupinambá, denominando-o rio Canafístula ou Cássia.

No decorrer do século XVI, diante das dificuldades de navegação em sua enseada, as embarcações eram obrigadas a reduzir o seu peso, tendo portanto que eliminar alguns tonéis (barris).Por conta disso,  o Rio passou a se chamar Vaza Barris.

Nas expedições seguintes Sergipe foi ignorado. Em 1503, ocorreu a expedição comandada por Gonçalves Coelho. Em 1516 e 1526, ocorreram mais duas expedições, comandadas por Cristóvão Jacques, visando proteger as costas brasileiras dos franceses.

Visando proteger as Terras do brasil, em 03 de dezembro de 1530, el Rei D. João III enviou uma armada, com 400 homens, comandada por Martins Afonso de Souza. Em 11 de março de 1532, a esquadra chegou ao Rio São Francisco, não deu atenção ao território sergipano e em 13 de março, dava entrada na baia de todos os santos. Fundaram a primeira vila portuguesa no Brasil, São Vicente. Iniciava-se a colonização portuguesa na América.

Diogo Alvares Correia (Caramuru – homem de fogo) chegou às costa brasileira por volta de 1510.  Caramuru, faleceu em 05 de outubro de 1557, na Povoação do Pereira, sendo sepultado no Mosteiro de Jesus, colégio e igreja da Companhia de Jesus.

Não encontrei registros da presença de portugueses em Sergipe entre 1501 (expedição de Américo Vespúcio) e 1530 (expedição de Martim Afonso de Souza). Os Tupinambás de Sergipe mantiveram plena relação de amizade e comércio com os franceses.

Em seu diário de navegação, Pero Martins de Souza (1531) relata uma batalha naval entre os Caetés de Alagoas, em suas Igaraçus (canoas grandes) de piripiri; e os Tupinambás do lado de Sergipe, em suas canoas de tronco escavados das grandes árvores, envolvendo mais de seis mil guerreiros e cem embarcações de cada lado. 

Segundo Moacyr Soares Pereira, em sua igaraçús de piri-piri, nas águas do rio e do mar, os destemidos Caetés da margem esquerda do São Francisco guerreavam os Tupinambás da margem oposta sergipana, do litoral baiano e da própria Bahia de Todos os Santos. Os seus contrários deviam empregar nas lutas as canoas de tronco escavado das grandes árvores.

Havia harmonia e cooperação entre as 26 aldeias Tupinambás situadas no território de Sergipe. Talvez tenha sido esta a principal do retardo da conquista desta região  e o fator de coesão do território, levando a constituição da chamada Capitania de Sergipe Del Rey, depois província e estado independentes.

Antônio Samarone.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

GENTE SERGIPANA - DONA ZAIRA


Gente Sergipana – Dona Zaira (80 anos). (por Antônio Samarone)

Josefa Zaira de Lima, nasceu na Terra Vermelha, em 30/06/1939. Filha Seu João Fagundes de Lima e Dona Ana Maria do Espírito Santo. Uma família de 18 irmãos.

Zaira formou-se professora na Escola de Aplicação Zenaide Schultz. Mas não gostou do magistério. Botou um negócio, sozinha, montou o armarinho mais sortido de Itabaiana. Foi uma importante líder do comércio Itabaianense.

O concorrido Armarinho de Dona Zaira.

Mudou-se para Aracaju para acompanhar a filha única (Dra. Jaqueline), que veio estudar. Não foi uma boa alternativa, na Capital, nunca teve oportunidade nos negócios.

Ainda hoje, aos 80 anos, Dona Zaira passa o dia numa loja de presentes na Rua do Cedro. Coisa pouca. A razão de continuar trabalhando é simples: o trabalho para ela é uma terapia.

Dona Zaira é da cepa matriarcal de Itabaiana, das mulheres empoderadas de nascença. Nunca souberam o que é feminismo, mas foram líderes em suas comunidades. Já nasceram com a fronte erguida e o nariz arrebitado.

Dona Zaira, uma guerreira...

Antônio Samarone.

GENTE SERGIPANA - NILO DE ALMEIDA


Gente Sergipana – Nilo de Almeida (68 anos) (por Antônio Samarone)

Sanitaristas anônimos.

Nilo é médico veterinário, nascido em Garanhuns. Formado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Transferiu-se para Sergipe em 1976. Veio cuidar da raiva, aftosa e brucelose, pelo Ministério da Agricultura. Logo se destacou pela dedicação e competência.

Quando o Secretário da Saúde, José Machado de Souza (o pediatra Dr. Machado) resolveu implantar um programa de controle das zoonoses em Sergipe, Nilo foi convidado para coordená-lo. Mesmo ganhando menos, ele aceitou.

Foi Nilo de Almeida quem implantou em Sergipe as primeiras medidas de combate a raiva humana, leptospirose e leishmaniose. Iniciou o controle de cobras e animais peçonhentos, e a vacinação antirrábica de cães e gatos.

Com certeza Nilo de Almeida é quase desconhecido da sociedade. Mas foi um militante da saúde pública. Discreto, eficiente e zeloso com a coisa pública. Uma vida dedicada ao trabalho.
Eu sou testemunha: um grande sanitarista.

Antônio Samarone.