Louvação a Augusto Leite.
(por Antonio Samarone)
Numa solenidade memorável, as entidades médicas e academias de letras, fizeram uma homenagem ao centenário do Hospital de Cirurgia, saudando o seu fundador, Augusto César Leite.
Auditório Cheio. A atual direção do hospital convidada. Vários familiares de Augusto Leite presentes (Walter Franco, Clara Leite...). Augusto Leite fundou e dirigiu a SOMESE por 10 anos.
O Dr. José Teles de Mendonça fez uma conferência, sobre as idas e vindas do Cirurgia. O presidente da ASL, magistrado José Anderson do Nascimento, esclareceu que na fundação da Academia, os membros escolhiam os seus Patronos. Augusto Leite, membro fundador, escolheu o Dr. José Lourenço Magalhaes.
Senti uma certa perplexidade no auditório: quem seria o tal Dr. José Lourenço de Magalhaes?
Na segunda metade do Século XIX, houve uma diáspora de médicos sergipanos. As elites locais mandavam os seus filhos estudarem medicina na Bahia e no Rio de janeiro. Quando retornavam, os doutores não encontravam mercado de trabalho no pobre e pequeno Sergipe. Migravam para o Sul. Muitos se destacaram, fizeram história.
Sergipe já exportou cérebros, especialistas, gente culta e pensante. Um dos maiores: Dr. José Lourenço de Magalhães, que dava nome ao antigo Leprosário do Bairro Vermelho, em Aracaju.
José Lourenço de Magalhaes (1831 – 1905), nasceu na Estância, em 11 de setembro de 1831. Filho do rico comerciante Português Romão Lourenço de Magalhães e D. Antônia Isabel Fernandes.
José Lourenco casou-se com D. Luísa Fernades de Magalhaes e tiveram dois filhos, ambos médicos:
José Fernandes de Magalhaes, nascido em Estância, em 23 de outubro 1861. Aos três anos, vai morar com o avô Romão, em Portugal. Formou-se em Coimbra. Tornou-se professor na Faculdade de Medicina do Porto.
Eduardo Fernandes de Magalhaes, nascido em Estância, em 16 de fevereiro de 1866. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro. Tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina.
O nosso personagem, José Lourenço de Magalhaes formou-se na velha faculdade de medicina, do Terreiro de Jesus, em 1856, defendendo a Tese inaugural “Como reconhecer que o cadáver que morreu de afogamento”.
José Lourenço retornou a Sergipe. Foi clinicar em Estância e depois em Laranjeiras. No início, exercia a oftalmologia. A sua curiosidade científica foi precoce. Em 1864, publicou na Gazeta Médica da Bahia, “Correção cirúrgica da Ectopia”.
Após o seu retorno, José Lourenço viveu em Sergipe até 1868. Participou ativamente do combate aos surtos de Cólera de 1862/63. Durante a grande epidemia de 1855, ele ajudou como estudante.
José Lourenço exerceu cargos políticos em sua terra natal: delegado de polícia em Estância, delegado de saúde e Deputado da Assembleia Provincial, por quatro legislaturas (1862 – 1869), chegando a ocupar a presidência.
Sergipe tornou-se pequeno. José Lourenço resolveu emigrar para o Sul, estabelecendo-se primeiro em Salvador. A Bahia era um centro de pesquisas médicas, onde vicejava a Escola Tropicalista Baiana. Talvez aí, nasceu o seu interesse pela Lepra.
No Sul (Rio e São Paulo), a sua fama como leprologista se difundiu. O pesquisador José Lourenço de Magalhaes publicou obras importantes: “a morfeia no Brasil” (1882), a curabilidade da morfeia (1855).
José Lourenço de Magalhaes não aceitava a etiologia bacteriológica da Lepra. Mesmo com a descoberta da Mycobactérium leprae já tendo ocorrido, em 1873, pelo norueguês Gerhard Amauer Hanse. Lourenço não considerava a lepra um doença contagiosa.
A segunda divergência de Lourenço: ele considerava a lepra curável e afirmava ter o método de cura. Só que ele não revelava. Ele testou o seu método de tratamento no Hospital dos Lázaros, no Bairro São Cristóvão, em 1878. Afirmava bons resultados, mesmo sem nunca tendo divulgado claramente os segredos da cura.
Ele criou, com recursos próprios, o Instituto Lourenço de Magalhães, em Cascadura, zona rural do Rio de Janeiro, para demonstrar a sua tese. O tratamento consistia em higiene pessoal rigorosa, fortalecer o organismo com dietas especais e repouso, e um medicamento, cuja a fórmula ele morreu sem divulgar.
A sua batalha decisiva deu-se em Berlim, durante a 1ª Conferência Internacional sobre a lepra, entre 11 e 16 de outubro de 1897. Lá estavam a nata do comunidade científica, inclusive o descobridor da bactéria, que no evento, foi batizada de bacilo de Hanse.
José Lourenço não foi a Berlim para ouvir, ele levou as suas convicções prontas: a lepra não é contagiosa e tem cura. Mesmo com autoridade de ex-Presidente da Academia Nacional de Medicina (1895/96), ele foi derrotado! A conferencia reconheceu a etiologia bacteriológica e recomendou o isolamento, como forma de prevenção.
A sua reputação continuou alta no Brasil. José Lourenço de Magalhaes foi o único sergipano a presidir a secular Academia Nacional de Medicina e ter projeção internacional com leprologista. Ele assumiu a Academia como membro titular, em 1885.
Com a derrota na Conferencia de Berlim, José Lourenço mudou-se para São Paulo. Foi diretor do Hospital dos Lázaros de Guapira, bairro de São Paulo, onde hoje é Jaçanã.
José Lourenço faleceu em 23 de novembro de 1905, em São Paulo, aos 74 anos.
Entre os que emigraram, ele foi o maior nome da medicina sergipana na segunda metade do século XIX, e Antonio Militao de Bragança, o maior entre os que permaneceram em Sergipe.
Augusto Leite, escolheu um grande Patrono para a cadeira nº 3, da Academia Sergipana de Letras.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
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