terça-feira, 25 de agosto de 2026

A SUBVERSÃO EM ITABAIANA.

A Subversão em Itabaiana.
(por Antonio Samarone)

Havia uma perplexidade sobre o “porquê” da homenagem prestada ao presidente Médici, nomeando com o seu nome o Estádio de Futebol em Itabaiana. Recentemente o estádio foi rebatizado como Etelvino Mendonça.

De onde surgiu a motivação para a homenagem ao Presidente Garrastazu?

Em novembro de 1971, o 28º Batalhão de Caçadores realizou um treinamento anti-guerrilha em Itabaiana, combinado com uma ação de presença e ações cívicos sociais.

Era o Exército buscando legitimação para o regime de exceção. A manchete do Jornal “O Serrano”, sobre o acontecimento: “Exercito Comunga com o Povo.”

O Rotary Clube de Itabaiana prestou uma homenagem especial ao Exército Nacional pelas ações de treinamento anti-guerrilha em Itabaiana, na pessoa do comandante do 28º BC, João Neiva de Mello Távora.

O comandante do 28º BC, em discurso no Rotary, justificou a escolha de Itabaiana para o local dos exercícios militares: a presença da sub estação da CHESF na cidade. Contudo, o serviço de inteligência militar apontava a presença de subversivos na cidade.

Exagero!

Itabaiana sempre foi um ninho de devotos, onde se beijava as mãos dos padres (ainda de batina); guardavam-se os domingos e dias santos, ia-se ao catecismo e rezava-se todas as noites para o anjo da guarda.

A operação ante guerrilha incluía uma ação cívico social. O exército realizou atendimento médico, odontológico e veterinário em vários povoados de Itabaiana. Observando o relatório do exército, vários serviços foram realizados, incluindo 700 cortes de cabelo. O corte preferido foi o “Príncipe Danilo”.

A ação anti-guerrilha em Itabaiana, coincidiu com a visita do Presidente Médici a Sergipe. Na ocasião, foi anunciada pelo Ministro Eliseu Resende a pavimentação asfáltica da BR – 235, no trecho Aracaju / Carira. A pavimentação foi concluída em 1973.

No mesmo mês da ação, novembro de 1971, o Presidente Garrastazu Médici Visitou Sergipe. O jornal itabaianense “O Serrano” noticiou: “A viagem do terceiro presidente revolucionário as Terras sergipanas foi coroado de pleno êxito, já que Aracaju inteira se floriu com o calor da visita presidencial.”

Continuou o Serrano: “Itabaiana cumprimentou o General Garrastazu Médici através do Deputado Pedro Garcia Moreno, que lhe ofereceu uma flâmula do Tremendão da Serra. Quebrando a rigidez do protocolo, o Deputado foi a única pessoa a se dizer torcedor do Flamengo, como Médici.”

Por que uma da ação ante guerrilha em Itabaiana? Uma cidade religiosa, apesar de ser governada pelo MDB, do Prefeito Filadelfo Araújo, um pacato alfaiate. Foi ele quem transferiu o Serviço Municipal de Água, para a DESO.

Estampou o Serrano em suas páginas: “Encerrada a semana de congraçamento Exército & Povo.” A cidade ficou literalmente ocupada, com a exposição do arsenal militar.

A ação anti-guerrilha foi real. Meia dúzia de soldados (os mais feios) fantasiados de guerrilheiros, se esconderam nos quintais e matagais do Beco Novo. A Inteligência do Exército identificou uma célula subversiva no Beco Novo. O Clube dos Trabalhadores era obra deles.

A tropa, bem armada (balas de festim), eliminou os dublês de subversivos em poucos dias. No Beco Novo, ninguém entendeu. Depois da guerra, a molecada saiu procurando as cascas das balas. Eu conseguir encontrar 7 capsula, uma em meu quintal.

A boca miúda, se comentava que a escolha de Itabaiana para uma ação anti-guerrilha, foi a ameaça de um grupo de idosos, viciados em dominó. Não é piada. Vamos aos fatos: um grupo de velhos, viciados em dominó, reunia-se diariamente na Farmácia Americana. A farmácia fechou.

Para continuarem com a jogatina, eles conseguiram as chaves do Diretório Municipal do MDB, dirigido em Itabaiana, pelo deputado Baltazar Francisco dos Santos, de Ribeirópolis. Os Velhos do Dominó criaram uma nova cafua.

Não se sabe quem levou, mas foi encontrado um panfleto com a foto de Fidel Castro entre os viciados no Dominó dos Velhos. Baltazar, para evitar complicações, retomou as chaves e acabou com o nicho de subversivos.

Esse fato, colocou o 28 BC em alerta máximo. A inteligência militar decidiu por uma ação anti-guerrilha em Itabaiana. Comunista tem astúcia do Cão, inventaram até um dominó subversivo em Itabaiana.

Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A CULTURA AFRO-ITABAIANENSE.


 A Cultura afro-itabaianense.
(Por Antonio Samarone).

O itabaianense é vaidoso da sua descendência sefardita, cristão novos portugueses. Entre os primeiros colonos do vale do Jacarecica, os judeus novos predominavam.

A expertise dos itabaianense para os negócios é atribuída a essa origem judaica. Os historiadores acadêmicos, ainda não encontraram provas documentais. A sabedoria popular atávica, confirma a origem.

E os negros, qual a sua participação na cultura itabaianense? Preto é uma categoria usada pelo IBGE, com fundo biológico. Negro é uma identificação cultural, de povo, nação.

Antigamente, se negava: “Itabaiana não tem negros.” Tese defendida até por historiadores consagrados. Nem pretos, nem índios. Os dados da época apontam em direção contrária. Segundo o mapa estatístico, organizado por Manoel Diniz Vilas Boas, em 1854, Itabaiana possuía uma população de 7.879 habitantes, com 1.560 escravizados. Ou seja, 20% de pretos.

No último censo (2022), o IBGE promoveu uma confusão: criou a categoria dos pardos, que representam em Itabaiana 59%, quase todo o mundo. 32% se declararam brancos e 8,3 pretos.

Do ponto de vista histórico, são conhecidos 5 quilombos em Itabaiana: Carrilho, Dendezeiro, Tabocas, Barro Preto e Tabuleiro dos Caboclos.

A famosa castanha assada de Itabaiana é uma herança da culinária negra.

Não confundir as castanhas do Ceará, tipo exportação, que primeiro são autoclavadas, amolecidas e as amêndoas retiradas para se torrar no forno. As castanhas do Carrilho são assadas diretamente sobre chapas aquecidas sobre o fogo, E depois quebradas.

Polêmicas à parte, Itabaiana foi a pátria de dois heróis do movimento negro: Quintino de Lacerda e João Mulungu, que serão homenageados no próximo 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, pela Câmara Municipal.

Amanha, teremos uma amostra: A Câmara de Vereadores, por iniciativa do vereador João Cândido, concederá o título de Cidadão Itabaianense, ao mais importante líder do movimento negro em Sergipe, Severo D”Acelino.

Na oportunidade, entre as homenagens prestadas a Severo, o Instituto Maestro Antonio Silva, acontecerá a primeira apresentação da recém criada “Banda de Pífano João Mulungu”.

Quem puder prestigiar, a solenidade será no dia 19/08, as 18:30 horas, na Câmara Municipal de Itabaiana.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

DULCE DOS POBRES

Dulce dos Pobres.
(por Antonio Samarone)

Eu fui a festa de Santa Dulce dos Pobres, na Bahia (13 de agosto). O Largo de Roma superlotado de deserdados. Gente humilde, velhos, coxos, cegos, sofredores de todos os males, tomados de emoções, louvavam a Santa.

“In hac lacrimarum valle”! Não, não era o vale de lágrimas, da Salve Rainha. Era uma vale carregado alegria, amor e felicidade.

Quando o Padre Antonio Maria cantou noite traiçoeira, nas passagens “Deus está aqui nesse momento, sua presença é real em meu viver... e ainda que vier noite traiçoeira... o mundo quer ver você chorar, mas Deus te quer sorrindo...” a multidão de devotos explodiu de emoção, cantaram alto num coro divino, riam e choravam de felicidade.

Eu, perdido na multidão.

Não sei explicar. A felicidade não precisa da razão. Aquele solo sagrado do Largo de Roma, em Salvador é santificado. Meus anos de pretensões intelectuais, de ateísmo arrogante, era soterrado por aquela manifestação de fé, onde a vida estava sendo ressacralizada.

Não falo dos padres, eles defendem a igreja, enquanto instituição. Falo da fé coletiva.

Baixei a cabeça e chorei silenciosamente. Estava ali a “sarça ardente”? Lembrei-me da passagem do Êxodo: “Moisés, Moisés! E ele respondeu: Eis-me aqui. Tire as sandálias, poque o lugar onde estás é terra santa.” Deus se manifesta coletivamente.

Aquela multidão sofredora estava feliz. Esse é o maior milagre de Santa Dulce dos Pobres.

Encontrei com Dona Terezinha (foto), que faz parte de um grupo terapêutico “Piscontente”. Onde pessoas depressivas, infelizes, enxarcadas de psicotrópicos, superam a tristeza com a graça divina.

Dona Terezinha irradiava felicidade.

As senhoras do “psicontente” recuperaram a alegria de viver. Eu vi.
Senti-me envergonhado das minhas tristezas.

Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.
 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

ULISSES DE HOMERO.

A Odisseia de Homero.
(por Antonio Samarone)

O cinema internacional agita-se com Ulisses, o novo filme de Nolan. Volta-se a se falar na Odisseia. Eu entrei na onda e fui reler. O que diz a Odisseia? Porque continua sendo um dos maiores clássicos da humanidade.

Na verdade, o poema trata da jornada da alma humana. Com o fim da guerra de Troia, Ulisses enfrentou a viagem de volta ao pequeno Reino de Ítaca. A guerra durou 10 anos.

Ele precisou enfrentar 10 obstáculos, no mar bravio, cheio de tempestades e monstros. O mar representa a vida, e as dificuldades são os arquétipos da natureza humana.

A ele é oferecido a imortalidade e a eterna juventude, com um preço: deixar de ser quem ele era. Ele opta pelo envelhecimento, a dor e o sofrimento, para não abrir mão da identidade.

Quem está envelhecendo, enfrenta os mesmos arquétipos (padrões estabelecidos atavicamente), que definem o nosso destino Não é fácil, esperar a morte com sobriedade. Geralmente, a escolha é não prestar a atenção. Procura-se uma zona de conforto.

Cada capítulo da Odisseia é uma reflexão sobre a alma humana.
Esse meu escrito, efêmero, destinado a leitores apressados das redes sociais, não permite aprofundar sobre as reflexões de Ulisses. Nem mesmos, as mais conhecidos, como o canto das sereias.

O risco é a zona de conforto ofuscar a realidade: a jornada da vida ainda não terminou. Tirésias, o sábio cego da odisseia, orienta que a principal providencia na velhice é abandonar a tirania dos desejos, cuidar do corpo e manter a vida ativa.

O segredo é continuar plantando árvores, memo sabendo que não aproveitará nem da sombra, nem dos frutos.

O medo da morte não pode impedir que se viva o tempo que ainda resta. A velhice não é uma espera. Se alma continua depois da morte, há esperanças; se não continua, não haverá sofrimento. Não vagaremos sem rumo, no Cosmo frio e escuro. As trevas (buraco negro), deixam de ser uma ameaça.

Vou chegar a Ítaca, anônimo, como mendigo, espero que pelo menos “Argos” me reconheça. A ansiedade, é que não sabemos o tempo que resta até a chegada.

Esse texto me ajudou a enfrentar uma madrugada insone.

Antonio Samarone (Academia Itabaianense de Letras)
 

domingo, 9 de agosto de 2026

O PADRE E O CORONEL


 O PADRE E O CORONEL
(por Antonio Samarone)

“Cabo Mamona, comandante da milícia/ Não quis mais ouvir a missa/ do Cura do Patrimonio/ - Prende-se o Padre, Sacristão, com alegria/ Prendo as filhas de Maria e os músicos da Santo Antonio (Filarmônica)/ Mamona não é chalaça/ Vá tomar a sua cachaça.” – Caxangá, citado no livro do doutor Vladimir.

Mamona era o chefe de polícia do Coronel Sebrão. No dia 14 de junho de 1916, Sebrão botou a polícia na porta da igreja, para acabar com as Trezenas de Santo Antonio. A briga do chefe político com o padre Vicente Francisco de Jesus tinha radicalizado.

O padre, que gostava de confusão, botou os seus seguranças na porta da igreja. No, arranca rabo, o soldado Bicudo abateu a golpes de facão, o senhor Luiz Pereira de Andrade (avô de Francis de Andrade). A vítima caiu ensanguentado na Rua da Vitória, morreu na calçada, sem assistência, com a orelha esquerda e o nariz decepados. O crime ficou impune.

O Bispo, Dom José Thomas, suspendeu a procissão de Santo Antonio, em 1916. Fato único, nos 350 anos da Paróquia de Santo Antonio e Almas.

O Padre Vicente Francisco de Jesus, era um lagartense, da Terra de Itajay. Chegou a Itabaiana em 26 de janeiro de 1913. Um padre operoso. Segundo as más línguas, queria suceder o chefe político Batista Itajay, que andava adoentado e já morava em Aracaju.

O padre Vicente fechou o cemiterinho, do fundo igreja. A Irmandade das Almas assumiu o atual Cemitério das Almas. A Irmandade comprou três esquifes pretos, para enterrar os pobres. Os indigentes eram sepultados enrolados num cobertor. O caixão voltava para transportar os próximos.

Vicente Francisco de Jesus reformou a igreja. Construiu a capelo mor, colocou um relógio na torre (relógio construído pelo artista itabaianense Manoel Garangau). Trouxe um sino de São Paulo, inaugurado em 1º de janeiro de 1915. Sino que anda silencioso. O padre adquiriu os 15 quadros da via-a-sacra, que até hoje, estão nas paredes da igreja.

O padre Vicente fazia oposição aberta ao Coronel Sebrão, chefe político. Como retaliação, foi exonerado do cargo de Delegado da Educação, no município. Mexeu no bolso.

O padre não deixou por menos, durante uma Santa Missão, não permitiu que Dona Carrôla, amante do Coronel, crismasse uma criança. “A senhora não tem condições de ser madrinha.” Uma desfeita pública!

Circulava de mão em mão: “Dona Carrola por ser batuta na Taba/ O repertório não acaba/ Sem que traga confusão/ Mas que audácia de tamanha zabaneira/ Pois não passa de rameira/ Concubina de Sebrão. Aplique mercúrio em ampola/ Para a sífilis de Carrôla.”

O padre comprou uma briga ruim. Dona Carrôla, amante de Sebrão, não era uma qualquer. Era irmã de Antonio Dutra, comerciante e duas vezes Prefeito, e de Dona Caçula, a mãe de Oviedo Teixeira.

O saldo da briga foi a transferência do Padre Vicente, sendo substituído pelo Monsenhor Constantino, que permaneceu em Itabaiana até 1926.

O Monsenhor Constantino era natural de Penedo e nome oficial do Beco do Ouvidor, onde nasci. Cem anos depois, temos outro penedense, padre Paulo Lima, comandando a Freguesia de Santo Antonio e Almas.

Padre Vicente Francisco de Jesus é o nome da rua que sai da esquina do antigo Grupo Guilhermino Bezerra, em direção à Praça de Eventos, em Itabaiana.

E nome da antiga Escola do Padre: Educandário Cônego Vicente Francisco de Jesus, onde fiz o primário. A escola do Padre era particular, para os filhos dos endinheirados, e para os filhos dos pobres, patrocinados pelo Círculo Operário.

O Cabo Mamona, chefe da guarnição, foi promovido a sargento e Zé de Brió perdeu o avô.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ANTONIO LEITE - MESTRE DA CULTURA

Antonio Leite – Mestre da Cultura –
(por Antonio Samarone).

Uma manifestação de fé:
O ambientalista Antonio Leite, ator, comediante, publicitário, cineasta, patrono do tradicional bloco “Caranguejo Elétrico”, entrou na fila dos milagres de Santa Dulce, em Itabaiana, pedindo a sua graça.

O pedido foi um gesto de amor de Antonio. Ele pediu a Santa, que a sua esposa (Cecilia), não o abandonasse nos últimos cem metros. Cecilia zela permanentemente por Tonho.

A Santa teve uma surpresa. Antonio Leite não pediu saúde, poder ou riqueza, não pediu sorte, vida longa, nem um lugar no Paraíso. Ele pediu o amor de Cecilia. Mesmo sendo um pedido mais afeito a Santo Antonio (presente na peregrinação), ela atendeu.

A Santa foi suscinta: “Filho, vá em paz, a sua fé te salvou.”

Antonio Leite nasceu em Aracaju (criado em Capela), em 02 de setembro de 1951. Filho de Zeca do Leite e irmão de Sucupira.

Tonho aproximou-se da cultura, através da Sociedade de Cultura Artística de Sergipe. Entrou na arte pelo cinema. Participou dos clássicos Sargento Getúlio, Corisco & Dadá, Fronteiras das Almas e Zé de Julião: Muito Além do Cangaço.

Antonio Leite, foi o primeiro militante ambientalista em Sergipe. Ajudou na fundação do Partido Verde. Foi candidato a Prefeito do Aracaju, Senador e Deputada Federal, sempre em defesa da causa ambiental.

Participou ativamente em defesa da Mata do Junco, em Capela, transformada em reserva ambiental por Marcelo Déda. Liderava cavalgadas ecológicas, em defesa da Mata. Ele e Lizaldo.

Na década de 1990, o caranguejo estava ameaçado de extinção nos manguezais do Aracaju. Antonio Leite saiu de bar em bar, de mesa em mesa, conscientizando os comedores dos crustáceos, com uma bandeira de duplo sentido: “Não comam as fêmeas”.

O vereador Rafael de Oliveira chegou a apresentar um projeto de lei, na Câmara Municipal, proibindo esse crime ecológico.

Tonho Leite criou um bloco carnavalesco (Caranguejo Elétrico) para sair no Pré-Caju, em defesa da preservação do caranguejo uçá.

Uma festa de inspiração baiana, que ocorre em Aracaju, desde 1992. Alguns enricaram, saíram do anonimato e ganharam prestigio político com a folia baiana, fora de época. Só Tonho Leite e Almir Santana desfilavam por uma causa. Tonho o meio ambiente e a Almir o combate as DST.

O monumento mais visitado em Aracaju, o caranguejo de fibra na orla de Atalaia, deveria ter um placa, referenciado Antonio Leite. Em Aracaju tem até uma passarela do caranguejo. Só esqueceram o padrinho da causa.

Antonio Leite é pai de 4 filhos: Merissa, Bianca, Júlia e Daniel. Está casado com Cecilia há 19 anos. Se a graça pedida for alcançada, o casamento vai durar, até que a morte os separe.

O Pré-Caju é amparado pela Lei Municipal nº 1.985, de 21 de Maio de 1993.

Antonio Leite é um patrimônio da cultura sergipana.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 1 de agosto de 2026

JOÃO MARCELO - MESTRE DA CULTURA

João Marcelo – Mestre da Cultura.
(por Antonio Samarone)

Numa esquina da Praça de Santa Cruz, com o Beco do Cemitério, João Marcelo tinha um boteco, ao lado de sua bomba de gasolina. Um ponto de cultura, onde os bardos reuniam-se com frequência. Ali se bebia, se cantava e comia, nessa ordem. João arranhava um cavaquinho.

Um canção gravada por Dolores Duram (a mãe é de Itabaiana), era muito tocada: “A Banca do Distinto”. Para quem não conhece.

“Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho, para que tanta pose, doutor, prá que esse orgulho. A bruxa que é cega, esbarra na gente e a vida estanca. O infarto lhe pega e acaba essa banca.” – Billy Blanco.

João Marcelo era descendente dos ferreiros da Matapoã. Filho de Nonô. Segundo o cronista Baldochi, ele foi um dos primeiros taxistas em Itabaiana.

Na política, nunca tomou partido. Nem de Euclides (UDN), nem Manoel Teles (PSD). Mas ganhou de Euclides um ponto na praça, onde montou a sua bomba de gasolina. Não era um Posto, era apenas uma bomba.

João era casado com Judite Gois, filha do Velho Basto e D. Santa, tia de Ivan de Caio. João Marcelo, não sei porque, a chamava de Judate.

Para quem não o conheceu ou não se lembra, o mestre João Marcelo é o da foto itabaianenses, culturalmente mais emblemática, onde ele aparece ao lado de uma Rural, conversando com Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Anastácia. É pouco? Essa foto já rodou o mundo.

Os encontros festivos no bar de João Marcelo era uma reprodução dos “symposion - simpósios” da Grécia antiga, locais onde homens livres reuniam-se para comer, beber vinho, filosofar e recitar poesias.

Em João Marcelo a ordem era invertida: bebia-se muito, filosofava-se, cantava-se e, por último, comia-se. O pirão de D. Judate era demorado, mas saía.

João foi um inveterado festeiro. Quem parasse em seu bar, para tomar uma cerveja, já sabia: ele trazia três copos. O do freguês, o dele e o de Zé, seu filho. Bebia-se juntos, mas a conta era do freguês.

O symposion helênico mais famoso, está retratado num clássico de Platão, “O Banquete”, onde Sócrates, Alcebiades, Agatão, Aristófanes, Erixímaco, Pausânias, Fedro e Platão, comeram, beberam e fundaram a filosofia. Em Itabaiana, lia-se Platão no ginásio.

No symposion de João Marcelo, imitando o grego, tinha-se as libações. Para que vocês não pensem besteira, libação é derramar vinho, oferecendo-se aos deuses. Em Itabaiana, antes de se tomar qualquer dose de cachaça, entornava-se o copo, oferecendo-se um pouco ao Santo.

O auge da atuação festiva de João Marcelo eram as festas juninas. Ele fazia de tudo para ir buscar o mastro. Contratava a zabumba. Um festaço. A cidade parava para o cortejo. Dança, fogueiras, comidas típicas e fogos. Os Buscapé corriam soltos, assustando velhos e crianças. Eu só soltava taquari.

“Bebe-se para se achar os outros interessantes,” João Marcelo repetia como se fosse uma mantra.

Ele se comportava com se estivesse de chegada, nos cem últimos metros. E cantava Noel Rosa: “nosso amor que eu não esqueço, e que teve o seu começo, numa festa de São João. Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar, sem violão.” João Marcelo inventou que Lindaura Martins, a esposa de Noel Rosa, era sergipana.

João Marcelo, nasceu em 12/05/1912 e faleceu em 09/07/1991, em Itabaiana, aos 79 anos. João é um patrimônio cultural de Itabaiana, nunca deve ser esquecido.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.