sábado, 21 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. Passos Porto, Maria Thetis, Fernando Nunes, Alberto Carvalho, Elias Andrade e Airton Teles.

Itabaiana – 350 anos. Passos Porto, Maria Thetis, Fernando Nunes, Alberto Carvalho, Elias Andrade e Airton Teles.
(por Antonio Samarone)

Antes do Murilo Braga, os poucos itabaianenses que se formaram: Fernando Nunes, formado em Direito, pela Universidade do Brasil, no Rio de janeiro; Maria Thetis Nunes; Alberto Carvalho; Passos Porto, o primeiro da turma de agronomia em Cruz das Almas, na Bahia; Elias Andrade, o melhor aluno de engenharia em Salvador e Airton Mendonça Teles, médico formado na Bahia, em 1947.

Airton Mendonça Teles (foto) nasceu em Itabaiana, em 07 de outubro de 1924, filho do líder político Manoel Teles e Dona Pequena. Deputado estadual e federal. Faleceu em 25 de junho de 1960, aos 35 anos. Acidente aéreo, na Baia de Guanabara.

Passos Porto nasceu em Itabaiana em 28 de dezembro de 1923, filho de Eliezer Porto e Ana Passos Porto. Fez o primário em Itabaiana, com a professora Maria da Glória Ferreira, numa escola isolada, onde todo o primário era ensinado numa única sala.

Durante a seca de 1932, Passos Porto vivia em Itabaiana, e fez um relato realista:

“Eu era criança, tinha apenas 9 anos, quando assisti a maior tragédia de um povo solidário e isolado, sem água, sem comida, sem recursos, importando até farinha de mandioca que, naquela época, vinha de Minas Gerais e se chamava farinha de barca. Para resolver o problema de comida dos retirantes, Maynard Gomes, que era o Interventor Federal, dava para cada sujeito, dois litros de milho em troca do trabalho suado da construção das rodovias Itabaiana/Frei Paulo e Itabaiana/Aracaju.” Passos Porto - Jornal da Cidade, 16/02/1992.

Em 1936, Passos Porto deixou Itabaiana, para fazer o curso ginasial, interno no Colégio Salesiano, em Aracaju. Fez o científico no Atheneu. Formou-se em 1946, sendo o primeiro da turma e o orador oficial.

Othoniel Dorea, chefe politico em Itabaiana, era casado com uma tia de Passos Porto. A sua entrada na política ficou fácil. O caminho foi a UDN, sendo apadrinhado por Leandro Maciel. Foi Deputado Federal por 4 mandatos e Senador da República. Como diretor-geral do Senado, Passos Porto levou Cosme Fateira, irmão de Chico do Cantagalo, para Brasília.

Mesmo tendo feito politica fora de Itabaiana, as suas raízes eram profundas. Casou-se com uma conterrânea, Maria Terezinha Santos Porto, irmã de Juca Cego. Passos Porto faleceu em Aracaju, em 2010, aos 86 anos.

Alberto Carvalho, nasceu em Itabaiana, em 03 de novembro de 1932, filho Ivo Carvalho (Seu Vivi alfaiate) e Maria Elisa (Dona Iaiazinha).

Quando menino, Alberto vendeu as tradicionais balas de café da mãe, no cinema de Zeca Mesquita. Formado em ciências jurídicas em 1956. Alberto Carvalho foi o primeiro itabaianense a ensinar na UFS. Alberto é o autor da letra do hino do Tremendão e dar nome ao Campus da UFS. Faleceu em 24 de abril de 2002, aos 70 anos.

“Minha infância em Itabaiana foi igual a qualquer menino: peladas, brinquedos rústicos, brigas em que sempre levava a pior e uma biografia rica: caxumba, sarampo, tifo.” – Alberto Carvalho.

Elias Pereira de Andrade nasceu em Itabaiana, em 20 de julho de 1920, filho de Pedro Pereira Andrade (Pedro de Cesário) e Dona Josefa Andrade. Irmão de Seu Filomeno e irmão por parte de pai, da famosa professora Maria Pereira.

Elias Andrade fez o primário no Colégio Tobias Barreto e o ginásio no Atheneu. Formou-se em engenharia na Universidade da Bahia. Ficou conhecido como Elias 9,8... pois nunca tirou uma nota menor, em nenhuma prova. Faleceu precocemente, em 10 de novembro de 1950, com apenas 30 anos. Acidente de avião, sobrevoando o aeroporto de Fortaleza.

Fernando Barreto Nunes, irmão de Maria Thetis, nasceu em Itabaiana, em 26 de junho de 1924, filho de José Joaquim Nunes e Maria Anita Barreto Nunes. Fez o primário com a mesma professora de Passos Porto e Elias Andrade, Maria da Glória Ferreira.

No mesmo caminho, Fernando Nunes veio para Aracaju em 1935, fazer o ginásio no Colégio Tobias Barreto, do conceituado professor Zezinho. Também fez o científico no Atheneu. Formou-se em Direito, no Rio de Janeiro. Em novembro de 1998, Fernando Nunes falece em Aracaju.

Já a historiadora Maria Thetis Nunes, também de Itabaiana, irmã de Fernando, fez o curso primário, com a professora Izabel Esteves de Freitas, carinhosamente chamada de Dona Bebé, responsável pela cadeira feminina.

A vontade de estudar, a seca de 1932 e o medo de Lampião, expulsaram Maria Thetis de Itabaiana. Ela Fez o ginásio no Atheneu. Foi aprovada em primeiro lugar no vestibular da faculdade de Filosofia da Bahia, aos 19 anos. Com certeza, Thetis foi o grande nome de Itabaiana, no século XX. Faleceu em Aracaju, em 25 de outubro de 2009, aos 85 anos.

“Em 1930, havia em Itabaiana quatro escolas primárias na sede, sendo duas para o sexo masculino e duas femininas e nove nos povoados. O ensino restringia-se ao primário. Até esse período não havia grupo escolar, esse só foi construído em 1937, na administração de Silvio Teixeira, incorporando as crianças dispersas em escolas isolada.” – Adriana A. Santos.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

ITABAIANA - 350 ANOS. A GUERRA COMERCIAL.

Itabaiana – 350 anos. A guerra comercial.
(por Antonio Samarone)

A luta política em Itabaiana, entre 1945 e 1964, tinha como pano de fundo uma guerra comercial: a luta pelo domínio do abastecimento regional. A cidade voltada para a agricultura de subsistência e o pequeno comércio, com a chegada da BR-235 (1953) e do Ginásio Murilo Braga, teve um surto de crescimento. Virou um polo mercantil.

O abastecimento das feiras municipais, sobretudo Aracaju, dependia do transporte em lombo de burros e saveiros; com a BR – 235 chegou o caminhão, elevando a escala da economia.

Os tropeiros viram caminhoneiros; e os pequenos feirantes cresceram e montaram suas lojas. A base econômica de Itabaiana (a partir de 1950), comércio e transporte, teve a sua origem com a chegada da BR-235 e do Ginásio Murilo Braga.

Antes, camponeses e tropeiros dominavam a vida econômica do agreste sergipano. Uma particularidade, parte desses camponeses exercia algum tipo de comércio, como complemento da renda familiar.

Era comum se possuir um sítio em Itabaiana e uma grade no mercado de Aracaju ou uma banca em qualquer feira de Sergipe, para se comercializar farinha, grãos, galinhas e ovos, e todo o tipo criação.

Itabaiana ganhou fama de cidade celeiro, abastecendo a população de Aracaju e alhures de farinha, feijão, galinha e ovos, hortaliças e frutas. O povoado caraíba dominava a produção de galinhas. Até hoje, compro galinha de capoeira a Gilmar, um caraibeiro, na feira do Augusto Franco.

Os tropeiros transportavam em lombo de burros as mercadorias dos sítios de Itabaiana até Roque Mendes, pequeno porto do Rio Sergipe, em Riachuelo, e através dos veleiros, chegava-se ao mercado do Aracaju.

Os mesmos tropeiros abasteciam as demais feiras de Sergipe, no retorno, trazia sal, açúcar, óleos, produtos industrializados, em geral, para os armazéns locais de secos e molhados e pequenas bodegas.

Com a mudança na base econômica, a disputa política passou a ser pelo comando do comércio, dos armazéns de secos e molhados (futuros supermercados), dos centros de distribuição de mercadorias, numa cidade tida como celeiro.

O poder político era decisivo para o sucesso econômico. A meta era controlar a exatoria e a polícia. Quem estava autorizado a passar o contrabando? Quem mandava prender e soltar e podia acobertar os malfeitores? Essa era a essência do poder no interior de Sergipe.

Em Itabaiana, o embate político entre Manoel Francisco Teles (PSD) e Euclides Paes Mendonça (UDN) foi violento e apaixonado. A população dividiu-se de forma irreconciliável. A luta principal, era pelo direito de passar contrabando, de mandar no fisco e na delegacia.

Manoel Francisco Teles, nasceu a 11/11/1899, filho de José Francisco Teles e Dona Maria da Graça Bomfim, oriundo de família de baixa renda, começando a trabalhar logo cedo. Em 1937, monta sua primeira Casa Comercial, depois expandindo filial em Carira.

Torna-se um pecuarista de porte médio, e com a herança pela morte do sogro, torna-se um homem rico. Casou-se com Maria Mendonça Teles (Dona Pequena), filha única do Tenente Honório Francisco de Mendonça.

O casal teve apenas um filho, o Dr. Airton Mendonça Teles, nascido em 07 de outubro de 1924, formado em medicina em Salvador, em 1947. Manoel Francisco Teles foi assassinado em 31 de agosto de 1967, na porta de sua residência.

Euclides Paes Mendonça nasceu a 16 de novembro de 1916, filho de Eliziário Paes e Maria da Conceição Mendonça, no povoado Serra do Machado, à época, território de Itabaiana.

Chegou a Itabaiana por volta de 1941, aos 25 anos, maduro e já casado com Dona Sinhá, uma matriarca da importante família Barbosa, das Candeias.

Euclides encontrou uma cidade pobre, acanhada, habitações precárias, sem água e sem luz elétrica. A população residente no núcleo urbano não passava de cinco mil almas. A população, em sua ampla maioria, era rural.

Ele montou uma revendedora da Chevrolet e Oviedo Teixeira uma da Ford. Passaram a vender caminhão com notas provisórios. Eles financiaram a chegada dos caminhões.

Euclides teve dois irmãos famosos, Mamede Paes Mendonça (1915 – 1995), que veio com ele para Itabaiana, e montaram como sócio uma padaria, no Beco Novo, esquina com a Rua da Pedreira; e Pedro Paes Mendonça (1900 – 1978), optou por estabelecer um comércio em Ribeirópolis.

Mamede construiu a rede de Supermercado Paes Mendonça, a maior da Bahia; e Pedro a rede de Supermercado Bom Preço, a maior de Pernambuco. Convenhamos, não é pouco. Hoje, um filho de Pedro, João Carlos, é um mega empresário.

Nesse período onde o comércio de Itabaiana expandiu-se. Itabaiana deu ao Brasil, além dos irmãos Paes Mendonça, Oviedo Teixeira, Gentil Barbosa, Noel Barbosa e Albino Silva da Fonseca, empresários de grande sucesso em Sergipe, e na região Nordeste.

Ganhamos a fama de grandes comerciantes. O que você precisa e não encontra, tem em Itabaiana, e mais barato. O grande comerciante Eliseu Oliveira (Arrojado), dizia de boca cheia: “de tudo o que existe no mundo, em Itabaiana tem, pelo menos dois.”

Essa guerra comercial acabou há muito tempo.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

A foto é de Manoel Teles. Acervo de Robério Santos.
 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. JOSÉ VALDE DOS ANJOS.

Itabaiana – 350 anos. José Valde dos Anjos.
(por Antonio Samarone)

Ontem, conheci uma Confraria, no conjunto Leite Neto, em Aracaju. Um espaço de convivência de quem não foi sequestrado pelas Redes Sociais. Um local onde se joga conversa fora, estreitam-se amizades e respira-se o calor humano. A novidade funciona há mais de 6 anos, vizinho ao lendário “Bar do Gordo”, na Praça.

A Confraria sobreviveu à Peste da Covid-19.

Na chegada, fui saudado com alegria. Um senhor, bradou em alto tom: “Fernando, você por aqui!” Levei um susto. Só me chama de Fernando, que me conheceu na primeira infância. Até os 12 anos, era o meu nome oficial, sem nunca ter sido. Já vi que o sujeito é de Itabaiana.

De primeira, não o reconheci e tive vergonha de perguntar. Sentei, fiquei olhando para as feições profundas do amigo e a memória afetiva funcionou. Enfim, perguntei: você é da família de Zé de Melinha? – “Claro, porra, sou Paulo, filho de Zé de Melinha.” Puta merda, meu parente. Dona Melinha é irmã de minha avó, Maria do Céu.

Foi nesse ambiente, cheio de afetos, onde conversei com José Valde de Valdice.

José Valde dos Anjos, o primeiro dentista itabaianense, formado pela UFS, é filho de Dona Maria Valdice Lemos e Zé de João Pedro. Nasceu em Itabaiana, em 09 de fevereiro de 1950.

A Mãe, Dona Valdice é da nata do Beco Novo. Filha de João Geraldo Lemos (João Giba) e Dona Marieta. Valdice é irmã de José Calazans, Lourdes, esposa de Zé Bezerra e Dona, esposa de Pedro Boarnerges. Com a morte do marido, caminhoneiro, Valdice criou os filhos sozinha, vendendo pastel.

Zé Valde criou-se no doce ambiente da cidade pequena, do interior de Sergipe. Os meninos danavam-se: pegava caju nos sítios alheios, banhos em rios e açudes, brincavam de pegar e esconde/esconde, e jogava-se bola nas ruas de barro. Zé Valde foi o goleiro do Santos de Bicudinho, filho de Dona Iracema.

Aqui cabe uma explicação. Antes, a primeira turma do Murilo Braga é de 1953, Itabaiana formava muito poucos. Um ou outro. Lembro-me de Elias Andrade, engenheiro formado em Pernambuco, irmão de Seu Filomeno, morto precocemente em desastre aéreo; Nivalda, Filha de Dona Graça e Seu Rosendo, formada em odontologia.

O filho de Manuel Teles, Dr. Airton, formado em medicina na Bahia; Sinval Andrade, formado em medicina do Rio de Janeiro; o intelectual Alberto Carvalho, que primeiro passou no concurso do Banco do Brasil. Aliás, esse era um caminho promissor, para quem terminava o Ginásio. Depois, Alberto foi professor de economia da UFS.

Passos Porto, um itabaianense formado em Agronomia. Eu nem lembro onde, nem quando. Deve ter mais alguém, que não estou me lembrando. Mais um: Dr. Luiz Antonio, médico muito tempo em Simão Dias. Não sei quando formou.

Depois do Murilo Braga, as coisas mudaram. Passamos lotar as salas de aulas das universidades. Da turma de 1962, do Murilo Braga, lembro-me de um grande nome, José Augusto Machado, filho de Zé da Manteiga. Para não esquecer, foi ele quem levou o curso científico para Itabaiana, em 1971. Aqui já é outra história.

No primário, Zé Valde andou por várias escolas: Helena de Branquinha, Gabriel, Dona Augusta. Fez o temível exame de admissão, e ingressou no lendário Ginásio Murilo Braga. José Valde, menino pobre, teve a ajuda de Dona Sinhá, esposa de Euclides Paes Mendonça, e fez os dois primeiros anos do científico, interno, no Colégio Marista, em Salvador.

O terceiro ano científico, Zé Valde concluiu no Atheneu, onde dominavam os itabaianenses notáveis nos estudos. Lotavam as salas de aula do Atheneu: Átalo Crispim, Zé Carlos Machado, Antonio Carlos Fontes, Vladimir Carvalho, Luiz Carlos Andrade, Guilhermino Noronha, Luciano Siqueira, Hélio Lima, Arnaldo Bispo, José Milton Machado, Abraão Crispim, Geraldo de Zé de Cabocla, Nego Lima, Arnaldo Fominha, Manteiguinha, Luciano das Vitalinas, Maceta, Tutu e João Bafo de Onça.

Todos, saídos do Ginásio Murilo Braga! 

José Valde dos Anjos foi da famosa turma de 1963, do Murilo Braga, onde quase todos, menos dois, saíram para continuar os estudos fora de Itabaiana. Muitos se formaram em medicina.
A presença do Murilo Braga em Itabaiana, desde o início da década de 1950, forjou no inconsciente da juventude a importância dos estudos.

O fato de ser estudioso, careava prestigio para um menino pobre. Todos queriam estudar, e estudamos.

Ainda tinha famílias, quando podiam, que se mudavam para Aracaju, para que os filhos estudassem. Lembro-me de Dona Ieda e Zé Silveira. Os filhos se destacaram nos estudos: Tuca, Nino, Denise, Dayse, e os mais novos, que eu não lembro os nomes.

Um detalhe: ricos, pobres e remediados, todos faziam um jeito de vir para Aracaju, estudar. Ficavam na casa de parentes, quando possuíam parente solidários, arrumavam um serviço, davam aulas, faziam banca. Quando se passava no vestibular, a UFS ajudava, mantinha as Repúblicas estudantis.

Quando saia a lista dos aprovados no vestibular da UFS, Itabaiana fazia festa. Raspar a cabeça era a mesma glória de ter ganho uma medalha de ouro nas olimpíadas. Sei que é difícil para a juventude atual saber o significado.

Itabaiana era grande não somente no comércio, nos caminhões e no futebol, Itabaiana era grande nos estudos. Isso fez parte do crescimento da cidade, do inconsciente coletivo.

Quando cheguei de cabeça raspada na bodega de Belisário, foi um alvoroço. A maioria não sabia direito do que se tratava, mas o filho de Elpidio (pataqueiro) e Dona Lourdes (dona de casa) também passou. Viva!

Era a vitória de uma gente sofrida, sem cotas, que lutava com unhas e dentes para sair do buraco. Para não haver dúvidas: sou a favor das cotas.

Dona Valdice, a mãe de Zé Valde, fez das tripas coração, se matou vendendo pastel, mas formou o filho. E Zé Valde, agradeceu e retribuiu. Para não me esquecer: eu vendia os pasteis de Valdice, em dia de feira.

Um irmão de Zé Valde, José Valdemir dos Anjos (Demir de Valdice), não pode estudar, teve que trabalhar logo cedo. Demir andava de feira em feira, curando o povo. Recebia Oxossi e realizava as curas, numa barraca.

Demir era o rei das cafuas de baralho. Morreu novo e deixou duas filhas: Ianara, médica e Raiane, dentista. Zé Valde tomou conta das meninas como filhas. Deixou também um menino, chacinado pela polícia, aos 13 anos.

Demir foi meu amigo de infância, de rua e de futebol.

 
Zé Valde ainda tem mais três filhos: Marcos Wendel, gerente da Caixa Econômica e Carla Regina, enfermeira, e Kelly Regina, advogada, filhas que ele herdou do seu casamento com Simone, filha de Zé Mecânico, da boa safra ceboleira.

Antes, em Aracaju, Zé Valde morava no Hotel Bossa Nova, um antro de estudantes na esquina do Parque da Catedral, depois que passou no vestibular (1970), foi morar na República Cebolinha, na Rua de Maruim, 488, onde também morei.

Em 1975, Zé Valde retorna a Itabaiana, para exercer a profissão de Dentista. Encontrou dois dentistas formados, Welington Mendes e Zenaide, e uma dezena de dentistas práticos: João, do Campo do Brito, Zequinhas Preto e Branco, Josias, Eduardo Porto e Olavo. O consultório de Zé Valde logo estava bobando, com uma grande clientela.

Itabaiana já tinha empregos para oferecer aos seus filhos que retornaram. Zé Valde foi o primeiro dentista formado na UFS, o segundo, falta confirmar, foi Agnaldo de Zé Gordinho. Depois foram muitos. Outra geração.

Muitos médicos itabaianense, formados na UFS, retornaram para a grande Itabaiana. A partir de 1971, o Dr. Raulino montou uma grande equipe.

José Valde se meteu na política uma vez, foi o vice na Chapa de Maria de Chico de Miguel, na disputa a Prefeito de Itabaiana, contra João de Zé de Dona, acho que em 1992. Na trágica passeata estudantil de 1963, em Itabaiana, onde mataram Euclides e Antonio, pai e filho, Zé Valde estava presente.

José Valde cuidou de Valdice, a mãe, do irmão e das sobrinhas, com dedicação paterna. Vive com Simone há 40 anos. Sempre tratou as filhas dela, como pai. A solidariedade de Zé Valde é sem limites.

Antonio Santana Menezes, o primeiro médico, e José Valde dos Anjos, o primeiro dentista, formados na UFS, são itabaianenses, filhos do Ginásio Braga, que engrandeceram Itabaiana, na segunda metade do século XX.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

A foto é do arquivo do historiador Almeida Bispo.
 

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. TONHO DE DOCI.

Itabaiana – 350 anos. Tonho de Doci.
(Por Antonio Samarone)

Em 10 de agosto de 2008, foi plantado no Cemitério de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, Antonio Oliveira, filho de Zezé da Requinta e Dona Eudócia. Dona Dorce, Doce, Dosse, Doci, Dossi, Dóce, e até hoje ninguém sabe como se escreve.

O seu irmão, Paulinho de Doci, mora em Salvador. Um homem de educação esmerada e vasta cultura. Mantém acesa as raízes itabaianense.

Antonio de Doci foi itabaianense mais erudito que conheci. Um iluminado, que fez de quase tudo: comerciante, jogador de futebol (foi o primeiro itabaianense que soube passar a bola), no mais, era chutão para a frente, e seja o que deus quiser. Tonho de Doci tinha estilo.

 
Antonio Oliveira, nasceu em Itabaiana em 11 de julho de 1926. Na Itabaiana agrícola, celeiro de Sergipe. Não foi um doutor de universidade, porque as circunstâncias não permitiam. Foi aprendiz de alfaiate, com o Mestre Pedro Devoto.

Naquele tempo em Itabaiana, o circo era a maior atração. Do fantástico Circo e Teatro Zé Bezerra, a outros menos espetaculares. Zé Bezerra foi o mais talentoso ator teatral, da Grande Itabaiana. Filho de Dona Antonieta, dona pensão, casado com Dona Lourdes, de João Giba, aluno de Procópio Ferreira. Zé Bezerra foi assassinado em Queimados, interior da Bahia.

Antonio Oliveira foi preso, primeiro pelo Governo Vargas e a segundo pela Ditadura Militar, acusado de crime ideológico. Foi deputado estadual, por três meses.

Antonio viveu agarrado aos livros. Profundo conhecedor do cinema. Antonio e Renato Mazze Lucas, levaram luzes para Itabaiana.

Antonio Oliveira é pai da médica Betania, vitima de meningite, e do escritor José Olino.

Para que a leitura não fique longa e cansativa, transcrevo esse texto de Cibalena, sobre Antonio Oliveira:

“Mané Fogueteiro / era o deus das crianças...” ─ assim começava uma velha canção de Augusto Calheiros que embalou as festas de São João da minha infância. Por que falo disso? Porque Antônio Oliveira foi o meu “Mané Fogueteiro”. Tonho de Dorce, além de vender bicicletas, radiolas e geladeiras, era o representante, na Itabaiana da minha infância, dos Fogos Caramuru ─ “os únicos que não dão xabu!” – como dizia o conhecido slogan. Outra faceta inesquecível é que Antônio Oliveira era comunista! Naquele tempo, toda pequena cidade tinha seus comunistas municipais. Eram comerciantes, sapateiros, mecânicos; eram casados e pacatos; no domingo, iam ao cinema com a família; batizavam os filhos, casavam na igreja, chamavam o padre (de quem, aliás, eram amigos) na hora de dar a extrema-unção aos seus moribundos. E eram comunistas! Admiravam a União Soviética e sonhavam com a revolução que resgataria o Brasil do subdesenvolvimento e da injustiça. Isso, que hoje pode parecer anedótico, era uma rota legítima na época em que se formou a geração de Antônio ─ os anos 40. Era um tempo de grandes engajamentos e quem tinha sensibilidade e queria mudar o mundo alinhava-se à esquerda. E numa época em que o velho Partido Comunista era um desaguadouro quase natural desses sonhos, meu Mané Fogueteiro aderiu ao Partidão. Em 1964, foi preso. Depois de solto, mudou-se para Aracaju, onde se tornou o Rei das Bicicletas – título monárquico, magnífico na loja de um comunista!

Discurso de Posse de Cibalena (Luciano Oliveira) na Academia Itabaianense de letras – AIL (28 de março de 2014).

Encerro com um chavão: Tonho de Doci, foi o nosso comunista histórico, com o jeitão de Itabaiana.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

terça-feira, 17 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. VAL DECORADOR

Itabaiana – 350 anos. Val Decorador.
(por Antonio Samarone)

José Valder Santos (Val Decorador), nasceu na Rua das Flores, Itabaiana, em 06 de novembro de 1951, filho de Euclides Barraca e Dona Rosinha, neto de Dona Maria Barraca (Sá Rita), filha de escravizados. Sá Rita era paneleira e rezadeira, no Tabuleiro dos Caboclos, atual Bairro São Cristóvão.

Dona Rosinha era das Flechas, filha de Dona Alexandrina, lavadeira de roupas, no Açude Velho. Dona Rosinha e as irmãs, Saturnina, Badé e Joaninha, eram devotas de Santa Luzia. Em todo 13 de dezembro, elas saiam a pé, para acompanhar a procissão da Santa, na Barra dos Coqueiros. Até hoje, Val cumpre a promessas da mãe e acompanha a mesma procissão. São Pretos devotos.

Euclides Barraca era guarda-noturno e lanterninha no Cinema de Zeca Mesquita. A noite itabaianense era segura. Com frequência, a gente escutava o apito a altas horas da noite. Era um sinal que a rua estava vigiada. Bastava um apito. Um guarda com a sua capa colonial, uma bicicleta e um apito, era suficientes.

Ladrão, ladrão profissional, eu não me lembro de nenhum. Tinha alguns gatunos.

Cresci ouvindo dizer: Itabaiana não tem pretos! O racismo radical negava a existência dos pretos. A realidade era outra: Os povoados Carrilho, Tabocas, Dendezeiro e Barro Preto são reminiscências rurais de mocambos, e o Tabuleiro dos Caboclos um mocambo urbano.

A famosa castanha assada de Itabaiana é uma herança quilombola.
Só a família Barracas, tinha uma centena de Pretos. Seu João Barraca, padeiro e comunista. Os seus filhos, os gêmeos Cosme e Damião, revelações do futebol. Bons de bola, mesmo muito frágeis. Os dois, juntos, não pesavam mais de 50 quilos.

O famoso rezador Mané Barraca, filho de Dona Zefá Barraca. Um desportista, dono dos 11 Perigos, da Coreia. Aliás, usava-se essa denominação para o Bairro São Cristóvão, por puro preconceito. O bairro São Cristóvão também era chamado de Cruzeiro, devido a uma Capela de São Cristóvão, construída na virada dos séculos XIX para o XX.

Aproveito o resto de memória, para relembrar alguns Pretos famosos, em Itabaiana: Dona Tóta, professora de datilografia, irmã de Zé Andrade, esposo de Dona Olga. Tudo do Beco Novo.

Naquele tempo, quem não soubesse datilografia, não passava em concurso. O Banco do Brasil, exigia que os candidatos batessem 300 toques por minuto, sem olhar para o teclado.

Era uma arte! Hoje, os meninos já nascem sabendo. Batem os 300 toques no teclado do celular, sem pestanejar. Saudades de Dona Tóta.

Lembrei-me de Aruvim do Balaio; João Rocha, barbeiro; Candinho da Rua do Fato, que só calçava sapatos em dia de eleição; Senhor, um preto velho que cozinhava na casa de Euclides Paes Mendonça; Paulina Preta, cozinheira de mão cheia e Dona Maria Besouro, lavadeira do açude velho, com quem eu deixava os meus chinelos, para me danar no açude. Todos Pretos, que ajudaram a construir Itabaiana.

O Açude Velho, onde aprendi a nadar, era infestado de lavadeiras de ganho. Não existia máquina de lavar roupa. Lavar e passar eram ocupações de mulheres pobres. No Beco Novo, a maior engomadeira foi Dona Bilou. Uma senhora muito respeitada, parecia uma Rainha, de andar imponente. Os ricos, mandavam os seus ternos de linho branco, para dona Bilou engomar.

Depois apareceram os ternos de Nycron, o senta e levanta sem amassar. Perdeu a graça. Uma calça bem engomada, com os vincos impecáveis, tinha a sua beleza.

Val Decorador tem cinco irmãos, todos vivos. Aroaldo, Regis, Mazé, Ná e Maié.

Val estudou só o primário, na Escola de Maria de João Fagundes, no Tanquinho. Passou a infância fazendo presepadas. Era o chefe da tribo dos moleques do Beco Novo: Albertino, Rosa, Nego Veio, Sereia Branca, Maguivier, Tonho de Deca e Zé Capuco. Eu, mais medroso, me sentia protegido por esse exército.

Não me lembro de onde, apareceu em Itabaiana um negro ousado, Zé Carlos (Coceira), sobrinho de dona Maria Cajueiro, dona de uma das três pensões, existentes na cidade. Coceira, enchia-se de purpurina e assombrava a hipocrisia provinciana.

Foi Coceira, na década de 1970, que levou a Parada Gay para Itabaiana. Ele sozinho, fazia a festa. Acho que ele ainda é vivo e mora em São Paulo.

Até então, o homossexualismo assumido na cidade, era restrito a cinco personagens, todos bem comportados: João de Filipinho, Uago, Cidália, Chico de Mirinda e Zé Baixinho. Os demais, se é que existiam, eram sob sete capas.

Em Itabaiana existiam três pensões: o Hotel Santo Antonio, de Tancredo; o Hotel Comercial, de Dona Josefa e a pensão de Maria Cajueiro. Antes, tinha a Pensão de Dona Antonieta, mãe de Zé Bezerra e Dona Didi. Essa carência de acomodações hoteleiras persiste até hoje.

Nas traquinagens, Val foi acusado de ter levado capim para os frades, de uma Santa Missão que passava pela cidade. As coisas começaram a engrossar. Ele nega até hoje.

Naquele tempo, Itabaiana possuia poucas oportunidades de trabalho. Como tantos, Val foi passar uns dias em São Paulo, na casa de Seu Felintro, filho de Manesinho Clemente, e Dona Júlia, Gente do Beco Novo que tinha partido antes. Fui vizinho deles, lembro-me das suas filhas: Claudia, Claudete e Claudiceia.

Val arrumou emprego nas lojas do Pão de Açúcar e por lá ficou. Com grande talento, foi promovido a decorador, na empresa. Um autodidata.

Quando retornou a Itabaiana, por volta de 1987, a cidade já era outra. Ele aproveitou, e tornou-se o decorador oficial do andor de Santo Antonio. Hoje, é um profissional respeitado no Agreste. Faz tudo: casamento, batizado, festa de 15 anos e festas cívicas. No último sete de setembro, ele reproduziu a Nau de Pedro Álvares Cabral. Linda!

Val Decorador rompeu os preconceitos! Hoje, é o melhor profissional em decoração do Agreste.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

domingo, 15 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. OS FRUTOS DA EDUCAÇÃO.


 Itabaiana – 350 anos. Os frutos da Educação.
(por Antonio Samarone)

Somente em 1953, saiu a primeira turma de ginasianos, formada no Murilo Braga. A educação mostrava as unhas, se manifestava em Itabaiana, uma cidade voltada para a agricultura.

Itabaianenses formados, até a da primeira metade do século XX, foram poucos, um ou outro, mesmo assim, longe daqui. Em medicina, lembro-me de dois:

Aírton de Mendonça Teles, filho de Manoel Teles (líder político) e Dona Pequena, formou-se em medicina na Bahia, em 1947. Deputado estadual e federal. Foi vítima de um acidente aéreo, no Estado da Guanabara, em 25 de junho de 1960, aos 35 anos.

No final da década de 1960, Sergipe possuia 150 médicos inscritos no Conselho Regional de Medicina, aptos ao exercício da profissão. Que eu lembre, natural de Itabaiana, só Sinval Andrade Santos, filho de Seu Zeca de Áurea e Dona Rosália, neto de Manesinho Priscina. Sinval Andrade, formou-se no Rio de Janeiro, em 1967.

Sinval Andrade foi professor de medicina da UFS e é membro titular da Academia Sergipana de Medicina. Hoje, aos 86 anos, Sinval é um médico de sólida formação científica e rara erudição.

Nas duas primeiras turmas de formandos em medicina pela UFS (1966 e 1967), não constavam Itabaianense. O primeiro, formando pela UFS, foi Antonio Santana Menezes, em 1968.

Antônio Santana Meneses, nasceu em Itabaiana, em 05 de agosto de 1944. Filho de Florival de Oliveira Menezes (Florival de Dario) e Dona Valdelina de Santana. O pai era comerciário, empregado do armazém de Manoel Teles (chefe político em Itabaiana). Seu Florival morreu cedo, deixando Antônio Santana com nove anos. Santana tem 4 irmãos: Zé Torneiro, João, Maria e Nivalda.

A vida ficou difícil para Antônio Santana, com a morte do pai. Como todo menino pobre daquele tempo, pegou carrego na feira, vendeu água em moringa, e aos dez anos, a mãe resolveu que estava na hora dele aprender um ofício. Empregou o menino na Alfaiataria de Zé Crispim (cortar ponta de linha, pregar botão, ascender o ferro em brasa). Sempre tinha o que fazer. Zé Crispim comprou uma loja de tecido, e o balconista foi Santana, aos 11 anos.

O trabalho educou e disciplinou o menino. Não o impediu de jogar bola na Praça da Feira, nem de frequentar e se sair bem na escola. Os tempos eram outros.

Antônio Santana nunca descuidou da escola. O primário começou na escola de Maria Branquinha e depois no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra. O ginásio ele fez no grande Murilo Braga, com excelentes professores e muita organização. As escolas públicas funcionavam muito bem. Só iam para as escolas particulares os alunos que não queriam nada. Eram escolas “papai pagou, filhinho passou”.

A dificuldade apareceu para estudar o científico, em Itabaiana não tinha. E agora, como vir para Aracaju sem ter onde ficar, sem tem como se manter. Zé Crispim, vendo aquilo, resolveu ajudá-lo. Fez contato com Valtênio Meneses, dono das lojas de tecido Maracanã, e conseguiu um emprego para Santana. Em 1960, Antônio Santana se mudou para Aracaju.

Trabalhando, pode estudar o científico, à noite, no Colégio Atheneu Sergipense, onde estudavam ricos e pobres. Foi morar numa vila de quartos, na rua Japaratuba. Santana se destacou nos estudos.

No 3º ano científico, Seu Valtênio Menezes, vendo o esforço do menino, fez uma concessão: - “você só precisa vir trabalhar depois do almoço, pela manhã fique em casa para estudar”. Foi o suficiente! Em 1963, Antônio Santana passou no concorrido vestibular de medicina da UFS, o único pobre da turma. Só passaram 11 alunos naquele ano.

Naquele tempo eram poucos os filhos de Itabaiana que se formavam. Em medicina tivemos o filho de Manoel Teles, Dr. Airton Mendonça Teles; e agora teríamos o filho de um balconista do armazém de Manoel Teles; Antônio Santana, o primeiro Itabaianense a forma-se em medicina pela UFS.

Durante o curso, logo cedo, Antônio Santana se interessou pela psiquiatria. Aproximou-se do Dr. Hercílio Cruz, professor e dono da única clínica particular em Sergipe, o Hospital Psiquiátrico Santa Maria. Além de Hercílio, exerciam a psiquiatria em Sergipe: Garcia Moreno, Renato Mazze Lucas, Jorge Cabral Vieira e Eduardo Vital Santos Melo. Um grupo pequeno, todos influentes na sociedade.

Antônio Santana Meneses concluiu o curso de medicina em 20 de dezembro de 1968. Em primeiro de janeiro, já estava empregado na Clínica Santa Maria. Em dezembro de 1970, casou com uma amiga de infância, uma ceboleira, Dona Carmen Santos Meneses.

Pouco tempo depois, deixou a Clínica do Dr. Hercílio para assumir a direção do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, um velho depósito de pacientes. Mesmo recém-formado, o Secretário da Saúde não tinha alternativas, os psiquiatras famosos não aceitavam.

Antônio Santana encontrou o Adauto Botelho superlotado. Uma ala feminina, assistida pelo Dr. Renato Mazze Lucas; e uma ala masculina, sem assistência médica. Aos fundos, ainda existia um puxadinho, com os pacientes remanescentes da Colônia Eronides de Carvalho. O Adauto Botelho possui ainda uma ala dos “Sem Leitos” (eu alcancei), isso mesmo, os que dormiam no chão.

Entre os tratamentos dominantes no Adauto Botelho: a insulinoterapia (o paciente era induzido ao choque hipoglicêmico); o cardiozol (método químico de provocar convulsões); e o “sulfo”, (mistura de óleo de cozinha com enxofre em pó), que aplicado na bunda do suplicante. Era uma injeção intramuscular para produzir um abscesso e reduzir a agitação do infeliz. Um velho princípio hipocrático: “a dor maior, cura a dor menor”.

De moderno, o Adauto Botelho possuía o eletrochoque, aplicado em quase todo o mundo. O choque era a panaceia, servia para tudo. O Dr. Antônio Santana demorou pouco tempo nessa casa de horrores. Doentes no chão, sem assistência médica, sobrevivendo a base dos choques. Santana pediu demissão e foi embora para São Paulo.

Antônio Santana foi compor a imensa legião de médicos sergipanos migrantes para São Paulo. Da segunda metade do século XIX, até hoje. Formamos uma elite de paus-de-arara, que partiram em busca de uma vida melhor. Não ajudamos a construir São Paulo só com o trabalho braçal, com o suor; exportamos também cérebros, inteligências, pensamentos, arte e sensibilidade.

Em 1972, Antônio Santana foi morar em São Paulo. Residiu primeiro em Piracicaba. Em 1975 mudou-se para Presidente Prudente, onde foi trabalhar no Hospital Psiquiátrico Bezerra de Menezes. Lá viveu, exerceu a medicina decentemente, e criou os seus filhos: Carla, oftalmologista; e Claudio, patologista.

Antônio Santana desenvolveu um trabalho voluntário de combate ao alcoolismo, na cidade de Mirante de Paranapanema, próxima a Presidente Prudente.

Antônio Santana Meneses, o Dr. Meneses (para os paulistas), cinquenta e seis anos de formado, reside hoje em São Paulo (capital), e ainda exerce a psiquiatria em seu consultório.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

sábado, 14 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. ACADEMIA BECO NOVENSE DE LETRAS.


 Itabaiana, 350 anos. Academia Beco Novense de Letras.
(por Antonio Samarone)

“Praças: Da Matriz, Santa Cruz, do Vapor/ Ruas: Nova, Beco Novo, Futuro, Vitória, São Paulo, Flores, Cisco, Sol, Ovo, Pedreira... E havia homens sábios.” – Zé Crispim, natural do Zanguê!

O Beco Novo já foi a entrada antiga de Itabaiana e o caminho de Santo Antonio Fujão. Uma rua de pretos e pobres, salvo um ou outro remediado.

Várias escolas: Helena de Branquinha, Dona Joseíta e a do professor Airton Silva (foto). Clube recreativo, estádio de futebol, tendas de sapateiros, fábricas de peido veio, brilhantina, botes de fósforos e uma bodega em cada esquina.

E muitos meninos... A rua era entupida de moleques, quase todos briguentos.

Até os idos de 1960, a Rua do Beco Novo era o centro cultural de Itabaiana. A rua tinha o seu ateu: José Nogueira da Silva, conhecido por Araponga. Menino de pouca conversa, obstinado, autodidata; deixou a escola ao concluir o primário, por não suportar as pancadas da professora Branquinha. Hoje, a psicologia enquadrava Araponga como autista, com capacidade cognitiva privilegiada.

Naquele tempo, as professoras usavam e abusavam da sabatina, errou qualquer besteira, à palmatória comia no centro. Sem contar os castigos cruéis e humilhantes. Muitos mijavam nas calças, com as ações disciplinadoras. Araponga desistiu.

Aos 16 anos, Araponga já era um bom sapateiro, apreendeu o ofício com o Pai. Poderia ter parado por aí, casar, criar família, levar uma vida simples, como tantos. Mas ele queria voar, descobriu que igreja católica tinha uma biblioteca, e que emprestava livros de graça. Meteu as caras. Não desconfiava o que iria encontrar.

Uma biblioteca católica em Itabaiana, antes do Concílio Vaticano II, certamente estaria repleta de uma literatura religiosa, a vida dos santos, a imitação de cristo, a bíblia, os evangelhos; mas, por tentação de Satanás, Araponga pegou o primeiro livro na estante errada, era um livro de Voltaire. E foi a sua perdição, encasquetou com a filosofia, e não parou mais.

Até hoje me pergunto, o que aquela literatura iluminista estava fazendo na biblioteca do padre? Coisa do Cão!

Suponho, hoje, que sendo o padre muito ocupado com a salvação do rebanho, nunca tivera tempo de examinar o acervo literário da sua Paróquia. O certo é que os livros do padre empurraram Araponga para o ateísmo.

Araponga leu Rousseau, Descarte, Diderot, alguns discursos do incorruptível Maximilien François Marie Isidore de Robespierre, leu os miseráveis aos 17 anos; percorreu a filosofia alemã, foi aos russos, leu Tolstói e Dostoievsk; não esqueceu de Machado de Assis, e foi um apaixonado por Lima Barreto.

O que ficou disso tudo? Quase nada, tudo muito embaralhado.

Araponga continua sapateiro, pobre, ateu, mas guardou um sonho: ser imortal numa Academia de Letras, à semelhança da Académie française, fundada por Richelieu em 1635.

Sempre foi um sonho improvável. Contudo, o mundo gira. Araponga ficou sabendo que estão criando academias de letras em todos os cantos e recantos desse velho Sergipe, soube também, que os critérios para se tornar um escritor, um poeta, pintor, escultor, foram relaxados. Ser artista agora ficou fácil. A arte e o talento está nas redes sociais.

Ou dito de outra forma, todos somos talentosos, o que dar no mesmo. A alta cultura sempre foi uma tapeação das elites. Entre um clássico de Eça de Queiroz e um livro de causos mal escrito, publicado às pressas, a diferença passa a ser uma questão de gosto, tem quem goste de um e quem goste do outro. Tudo é relativo.

No início do ano, Araponga recebeu a visita de um amigo, imortal das novas academias, que conhecendo o seu sonho, não se acanhou em aconselhá-lo: - companheiro, por que não publica aquele poema em homenagem à revolução de 31 de março, que você declamou alguns versos na escola de dona Branquinha?

Araponga nem lembrava, mas retrucou: - quem sou eu, pobre sapateiro, onde vou encontrar recursos para pagar a edição de um livro? Você pode publicar no Facebook, insistiu o intelectual. Será se é válido para eu tentar uma vaga numa Academia? O amigo disse que não sabia, e a conversa foi encerrada.

Foram cutucar a onça, Araponga despertou. Agora quer porque quer ser imortal. Postou o poema no Facebook, com boa aceitação: 136 curtidas, 36 comentários (todos a favor) e 11 compartilhamentos.

A poesia de Araponga ganhou o mundo. Já participou de um sarau em Aracaju, e recebeu a promessa de um político, que vai arrumar um patrocínio para que a poesia de Araponga vá ao papel.

As coisas estão encaminhadas. Araponga está percorrendo escolas, asilos, reuniões de Rotary, quermesse de paróquias, e qualquer espaço onde ele possa declamar a sua arte. Contudo, ainda não alcançou o principal objetivo: ocupar uma cadeira numa academia de letras.

A missão está complicada. Já existem academias nos 75 municípios de Sergipe, academias em alguns povoados, e ele até agora não foi lembrado. Ficar esperando que um ou outro bata as botas, para ele disputar uma cadeira, não é um caminho fácil. A fila é grande, muitos fazendeiros, políticos, gente graúda, todos querendo. Ser imortal em Sergipe é uma glória muito desejada.

Foi diante da crise, da escassez de vagas para a imortalidade, que Araponga encontrou uma saída genial, resolveu criar uma Academia de Letras no Beco Novo, e por que não? Ele será de cara o fundador e presidente; arrumar membros e patronos, com os novos critérios também não será problemas.

Não precisa de sede própria, vai se reunir na sede do Rotary, no próprio Beco Novo. Os bodegueiros da rua, ao tomarem conhecimento da iniciativa cultural, já fizeram uma vaquinha, e vão pagar as despesas com edital, livro de ata, registro em cartório, e outros entraves burocráticos.

O sonho de Araponga vai se transformar em realidade.

Eu, mesmo já sendo duplamente imortal, como natural do Beco Novo, e até por uma questão de patriotismo, já aceitei o convite.

Araponga já convidou Betinho, Beijo, Bem-te-vi, Demir de Valdice, Rosa, Nego Veio, Val e Regis de Euclides Barraca, as filhas de Bonito, Salomão, Pindoba, Peba de Justino, Chumbrega, Cabo João Mole, Sampaio, Miguel Fagundes, Rosalvo do Cabo Quirino, Zé Meu Mano, Juarez do Correio, João Giba e Zezito de Dona Bilô.

E essa Academia não terá mulheres? Muitas: Rovanda, Marinete, Dulce, Mãezinha, Neide de Palmeirinha, Dona Olga e as irmãs, Dona Tóta, professora de remington, e Alaíde, mãe de Fóbica.

Gente do Beco Novo é o que não falta, para obter esse direito a imortalidade.

Araponga, ainda quer ser original, está propondo que a “Academia Beco Novense de Letras, vá além, não seja apenas de letras, e seja a primeira nessa nova modalidade: uma “Academia Beco Novense de Letras, Números e Sinais de Pontuação”.

Quem já morreu e não pode ser mais imortal, vira Patrono.

Vamos à luta!

Antonio Samarone.