sábado, 23 de dezembro de 2023

O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO

 O Primeiro Aniversário.
(por Antonio Samarone).

Não esqueço a sexta feira, 14 de janeiro de 1966, quando fui pela primeira convidado para uma festa aniversário. Eu tinha 12 anos.

Em minha casa éramos muitos, não se comemorava essas datas. Mamãe mal lembrava a data de nascimento de cada filho.

Conhecia poucos aniversariantes e nunca constava em suas listas de convidados.

Eu era bolsita da Escola do Padre, um colégio pago. Desta feita, a professora Maria Perreira deu o recado: Dona Maria de Durval, convida todos voces para o aniversário de Melcíades. Houve uma dúvida: “os bolsistas também”? Também! Todos...

Bateu em mim uma grande curiosidade: O que é uma festa de aniversário? Vai ter salgadinhos para todos, pode se comer a vontade o que quiser, vai ter raspadinha, quebra-queixo, pipoca, rolete de cana, sorvete de coco, algoodão doce e cocada puxa?

Nunca tinha ido a um aniversário, não era convidado e não tinha vocação para penetra. Mamãe era rígida: não apareça onde não foi convidado. E assim eu me comportava. Mamãe me ensinava a ter vergonha e brio.

Com a surpresa desse convite, vinheram as dúvidas: e vão me deixar entrar? Eu digo o quê, na porta?

Foi fácil, a senha de entrada era simples: eu sou amigo de Melcíades. E era mesmo. Jogava em seu time de futebol: o Bahia de Melcíades. Quem não acreditar, eu tenho as fotos.

Melcíades Souza completava 9 anos. Era o menino mais rico da cidade. O pai, Durval do Açúcar, era um benemérito da molecada. Em dias de futebol, a gente ficava de olho no Beco Novo. Quando seu Durval apontava, terno de linho, sem gravata, fumando um Suerdieck, era a maior gritaria. Seu Durval está vindo! Viva!

Não sei de onde aparecia tanto moleque, um centena, todos mal vestidos, pés descalços, meninos vadios, que viviam soltos. Seu Durval, me bote, me bote, todos gritavam ao mesmo tempo. O Barão do Acúcar não fazia cara feia. Ordenava ao porteiro do velho Etelvino Mendonça: “deixe os meninos entrar e vá contando”. Não importava quantos. Seu Durval pagava para todos os carentes.

Seu Durval do Açúcar era a nossa festa! Seu Durval era um homem de bolso fundo, quando metia a mão, saia os bolos de dinheiro.

E quem me convida pela primeira vez para um aniversário? O filho de Durval do Açúcar!

Fui muito bem recebido. Dona Maria, a mãe de Melcíades, uma mulher alva, bem vestida, parecia uma rainha, me tratou como se eu fosse um Príncipe. Não perguntou quem eu era, filho de quem, morava onde. Nada. Fui tratado com fidalguia.

Mesmo assim, passei a festa acanhado. Mamãe me educou rigidamente. "Não avance em nada, não fique olhando para a comida, coma pouco e não demonstre gula. Não me faça passar vergonha."

Eram tantas as proibições, que eu fiquei atordoado, com medo de esquecer alguma. O mais dificil, foi disfarçar que não era marinheiro de primeira viagem.

O simbolismo desse convite (aos 12 anos) me marcou: eu passei a achar que tinha jeito, que o mundo, mesmo desigual, me cabia.

Depois, esperei mais sete anos para um segundo convite: aos 19 anos, fui convidado para o casamento de Zé de Nedo.

Que eu lembre, só!

Melcíades Souza, depois se tornou o maior talento de minha geração: arquiteto, pintor, músico, urbanista. A arquitetura de Itabaiana tem a marca de Melcíades. Aí, já é outra história. Depois eu conto.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

FELIZ NATAL


 Feliz Natal!
(por Antonio Samarone)

Eu sempre tive uma encrenca com as festas onde sou obrigado a ser feliz. O Natal é um exemplo. Todos: parentes, amigos e o povo em geral, nos desejam um feliz natal.

Não me alegro nem com os natais antigos, nem com nos atuais.

O natal comemorava o solstício de inverno, no hmesfierio Norte. Os romanos celebravam a chegada do inverno (solstício de inverno). Eles cultuavam o Deus Sol (natalis invicti Solis).

A Igreja Cristã romana aproveitou a tradição pagã e atribuiu a data, o aniversário do nascimento de Cristo. Escolheram o 25 de dezembro. Uma boa escolha.

O capitalismo trouxe o Natal de volta ao paganismo. O deus sol virou o deus mercado. Papai Noel foi a maior criação de marketing do planeta. Deu certo. O Natal tornou-se uma imposição universal de consumo. Ou quase universal.

Entenderam? A felicidade é o livre acesso ao consumo. O Natal é o Paraíso na Terra.

Não me alegro nem com o Natal cristão: presépios, missa do galo, roupa nova e ceia. Nem com Natal do mercado: Papai Noel, árvores, luizinhas de Led, bolas de vidros, presentes e ceia.

Parece que os presentes e as ceias são comuns aos dois. Muda o protagonista: Cristo ou Papai Noel.

Ví numa loja de santos para presentes, um Cristo vestido de Papai Noel. Deus me perdoe: uma heresia. Segundo a proprietária, vendeu bastante.

Quando posso, assisto a Missa do Galo do Vaticano, pela televisão. Gosto das missas cantadas em latim. Adorava o Papa João de Deus cantando o “Pater Noster”. O meu bom Francisco canta menos.

Tenho muita dificuldade em escolher presentes. Eu não desejo nada, fora da banal necessidade. Não tenho fantasias de consumo. Imagine, descobrir as fantasias alheias.

Herdei essa insensibilidade de mamãe, que era pragmática: “eu prefiro presente em dinheiro, que eu compro o que estiver precisando.”

Soube que o Banco Central vai criar o pix/presente, em forma de uma ordem de compra. Só vale para comprar presentes, não serve para pagar as prestações atrasadas, nem conta de água e luz. O capitalismo pensa em tudo.

Em minha infância, era comum se presentear os meninos com dinheiro. “Olha aqui as suas festas”, diziam os adultos. Essa moda continua nos condominios e bancas de feiras, tem sempre uma “caixinha”, esperando as “festas”.

Nada disso me alegra!

Os meus neurônios dopaminérgicos não respondem a esses estímulos. Acho os Natais muito previsíveis, uma alegria programada, sem novidades.

A felicidade é uma emoção que vem de surpresa e dura pouco. O Natal é mês inteiro de felicidade. Não consigo!

Antes eu ficava entediado, melhorei, hoje assisto a felicidade dos outros. Sem me meter. No Natal, nem fico alegre nem triste.

Participo dos rituais natalinos normalmente, como todo mundo.

Dou e recebo presentes, decoro a casa com luizinhas, que acendem e apagam de 33 formas e ritimos diferentes, tem um Papai Noel no Jardim, tomando sol e chuva, uma árvores de natal na sala e a ceia desse ano, será cheia de novidades.

Não estou botando defeitos no Natal, só não me traz a felicidade prescrita.

Sou mais feliz com as fogueiras de São João.

Antonio Samarone – Médico Sanitarista.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

ITABAIANA, CIDADE DOS MILAGRES (2)


 Itabaiana, cidade dos milagres (2).
(por Antonio Samarone)

No Brasil, a instituição igreja católica se enfraqueceu nos últimos anos. Itabaiana não fugiu a regra. Entretanto, a religiosidade não foi abalada. Pode ter mudado de foco.

Entre os católicos, as manifestações de devoção a Santa Dulce dos Pobres cresceu rapidamente. Não sei explicar. O fenomeno é visível. Estou constatando.

Em Itabaiaiana, a força de Santa Dulce é crescente.

Irmã Dulce faleceu em 1992. Foi canonizada em 2019, faz pouco tempo. Entretando, o primeiro milagre (2001), foi em Itabaiana. Esse milagre foi reconhecido pela Santa Sé, em 2003. O Papa era João Paulo II.

Talvez esse milagre tenha despertado a religiosidade ancestral do Itabaianense, centrada em torno dos milagres. Um milagre novo!

Por que o milagre foi em Itabaiana? Na visão religiosa, nada acontece por acaso. A força espiritual da religiosidade não é uma abstração.

No mesmo ano da santificação (2019), Itabaiana construiu o Oratório de Santa Dulce. Foi celebrada a primeira missa e realizada a primeira peregrinação: saindo da Maternidade São José até a Ermida da Santa.

Em 2019, iniciou-se o Movimento Campistas de Assis em Itabaiana. No momento, está em construção, numa reserva de Mata Atlântica na tríplice fronteira (Itabaiana, Moita Bonita e Malhador), uma estrutura de apoio aos acampamentos, locais adequados as orações.

Em breve, Itabaiana atrairá milhares de pessoas em busca da evangelização.

Eu fui conhecer o acampamento dos Campistas de Assis, para mim uma novidade. Uma estratégia de evangelização integrada à natureza. Os fiéis ficarão em barracas, nas matas proximas. São trilhas sagradas.

Em 2020, foi inaugurada em Itabaiana a Casa Santa Dulce. Eu também fui conhecer, para não falar por ouvir dizer.

A Casa acolhe 240 pessoas abandonadas. Gente estropiada pela vida. Essas pessoas levam uma vida digna, cumprindo a sua sina, acolhidas pela caridade.

Surgiu em Itabaiana, uma congregação leiga de devotos, denominada Missionários e Protetores de Santa Dulce. São eles, sempre em parceria, que tem assumido a coordenação da grande obra de caridade de Santa Dulce.

A Casa Santa Dulce em Itabaiana é mantida pelos devotos de boa vontade.

No Brasil, não existem instituições públicas para essa gente. Em Itabaiana não existe “morador de rua”, a caridade cristã acolheu. Eu vi!

Em 2021, foi aprovada a Lei estadual 8.917, transfromado Itabaiana na Capital do primeiro milagre. Os devotos fizeram a generalização: Itabaiana virou a cidade dos milagres.

Em 2022, inciou-se o projeto Sopa de Santa Dulce no Riacho Doce, uma parceria entre os Missionários e Protetores de Santa Dulce e Rotary Nova Geração. São distrubuídas cem cestas básicas.

Em 2023, surge a lojinha Santa Dulce do Riacho Doce, um bazar permante de vendas de imagens, amuletos e relicários da Santa.

Um fato importante, Santa Dulce foi entronizada co-padroeira da igreja de Santa Clara, uma joia arquiteônica de Melcíades.

Em 2023, ocorreu a segunda peregrinação até a Ermida, no pé da Serra de Itabaiana, nas proximidades do Parque dos Falcões. Essa foi gigante.

Não posso deixar de destacar o papel de um peregrino ilustre, um homem que conhece o mundo, familiarizado com o Caminho de Santiago, na Espanha. Esse itabaianense mora em Salvador, mas o coração permanece no pé da Serra.

Esse mesmo peregrino criou a trilha da fé (Salvador – Itabaiana), invistiu na infraestrutura cultural da cidade, com recursos próprios. Ele enxergou antes, a força da religiosidade em Itabaiana.

A hora é de somação.

Eu não citei os nomes dos coordenadores dessa cruzada de fé e caridade, em Itabaiana. Eles preferem o anonimato. Não querem holofotes.

Devo ter esquecido fatos importantes dessa trajetória de fé, que marcará a história de Itabaiana.

No Proximo sábado, 23 de dezembro, será celebrada uma missa no local onde será contruido o Complexo Missionário dos Protetores de Santa Dulce, no povoado Lagamar. Uma obra maravilhosa, que mudará a realidade da devoção na Região.

Um Complexo de Fé (eu já chamo de Santuário) gigantesco, num espaço de 60 mil m². Uma Santa Dulce de 70 metros, a maior do Brasil.

A obra cultural do Complexo, será coordenada pelo artista plástico Félix Sampaio, um nome internacional. Será uma oportunidade de integrarmos os artistas locais ao projeto.

Com o Complexo de fé, Itabaiana atrairá dezenas de milhares de fieis, em busca da salvação.

Deus me perdoe! Naturalmente, será criado um polo de atração turístico. Não se trata da exploração comercial da fé. É uma cosequência.

A realidade aponta para a criação de um novo polo de desenvovimento econômico em Itabaiana: O turismo religioso ambiental. Aqui entra o Poder Público, criando a infraestrutura necessária ao polo turistico.

O grupo político no poder em Itabaiana, enxerga com clareza essa realidade. Está pronto para fazer a sua parte.

A igreja católica está pronta para assumir essa caminhada de fé, caridade e devoção. O caminho apontado pelo Para Francisco.

O turismo religioso ambiental em Itabaiana, será um impulso ao crescimento do comércio. Criar-se-á novos empregos. Abre-se possibiliaddes de novos investimentos, em equipamentos necessários ao turismo.

Mais um milagre de Santa Dulce dos Pobres.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

ITABAIANA, CIDADE DOS MILAGRES (1).


 Itabaiana, cidade dos milagres (1).
(por Antonio Samarone)

“Nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos” - Gooethe

Os primeiros sesmeiros do Vale do Jacarecica (1606), trouxeram a imagem de Santo Antonio no bornal. Uma imagem de madeira, pequena. Antonio era o santo nacional em portugal.

Denomiram a comunidade fundada de Arraial de Santo Antonio.

Como se percebe, a religiosidade itabaianense é ancestral, acompanhou a alma dos primeiros colonos. A religiosidade é um arquetipo poderoso, um atributo do povo, passado de geração a geração, parte do inconsciente coletivo.

Religiosidade não se cria por decreto, para viabilizar um projeto de turismo. Não adianta montar toda uma infreestrutura, investir no marketing para atrair turistas, se a santidade a ser visitada não está na alma do povo.

A prosperidade de Asa Branca, pela beatificação interesseira de Roque Santeiro, só deu certo na novela de Dias Gomes. Os mais velhos ainda lembram.

Em Itabaiana, a religiosidade é visceral.

Santo Antonio é um taumaturgo franciscano. O Santo escolhido pelos primeiros colonos em Itabaiana, foi um milagreiro. Existem vários caminhos para se alcançar a santidade, o milagre é um deles.

O santo padroeiro poderia ter sido um mártir ou um doutor em teologia. Foi um milagreiro!

O homem pós moderno é um tolo, um avexado que não acredita em milagres, só cultiva o que pode ser abreviado. O homem abreviou até as narrativas. O seu milagre é o big data e a inteligência artificial.

A ciência confirma os milagres. São variações raras de eventos da natureza. São essas variações imprevisiveis (milagres), que possibilitaram a origem da vida e a evolução de Darwin. Tantos nas versões narradas pelas cosmogonias religiosas como nas científicas.

O milagre está previsto nas leis naturais. Quem estudou estatistica sabe, que certos eventos estão fora da curva normal.

Certas doenças o prognóstico é fatal, a pessoa evolui rapidamente para morte. A medicina sabe, não vende ilusões. Entretanto, em casos rarrísimos, o caminho contraria a medicina e o sujeito escapa daquela doença. É fato! Hipócrates sabia: “A vida é curta e a arte é longa, o julgamento é dificil (nem nunca, nem sempre) e a experiencia enganosa.” Nesta brecha entra o milagre.

Santo Antonio também foi uma proteção contra a heresia calvinista dos holandeses.

Segundo Serafim Leite, com os primeiros colonos em Itabaiana, além de Santo Antonio, chegaram três ordens religiosas: jesuítas, franciscanos e beneditinos.

A Ordem de São Bento (beneditinos) criou a “Irmandade das Santas Almas do Purgatório”, e comprou o sítio na Caatinga Ayres da Rocha, ao padre Sebastião Pedroso de Goes, para construir a Villa. O padroeiro dessa Irmandade é o Arcanjo São Miguel, que protege as almas, livrando-as do fogo eterno.

O lema da ordem de São Bento é “Ora e Labora”, ou seja, reza e trabalho.

Em 1581, os beneditinos chegaram ao Brasil. Antes deles, os jesuítas e os franciscanos estavam envolvidos no projeto da Santa Sé de catequização, conversão dos nativos e assistência espiritual dos colonos.

Quando o Arraial de Santo Antonio se transformou em Villa, foi denominada: “Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana”. Um acordo entre os franciscanos (Santo Antonio) e os beneditinos (São Miguel), padroeiro da ordem de São Bento e protetor das almas.

Vamos facilitar a compreenção:

A criação da Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (1675), contemplou as duas Ordens Monásticas. Santo Antonio (o milagreiro) e Almas (referência a São Miguel). Itabaiana é a majestosa Serra, que ali já se econtrava.

A serra foi avistada por Américo Vespúcio, em 1501.

No altar principal da matriz de Itabaiana sempre existiu as duas imagens (Antonio e Miguel), lado a lado. E é assim até hoje.

A religiosidade acompanhou o primeiro português que por aqui chegou, para criar gado e depois plantar coentro e quiabo. Essa religiosidade é centrada na espera dos milagres do Santo protetor.

A religiosidade em Itabaiana é fortalecida pelos milagres. Herança de Santo Antonio.

Gente que perdeu o tempo e a oportunidade de se casar, por exemplo, voltava a ter esperanças no matrimônio, pela intervenção dos milagres do Santo. “Só casa por milagre”, ouvi muito esta sentença.

Eu cresci sabendo que poderíamos perder qualquer festa, menos a procissão de Santo Antonio. Os meus irmão são todos Antonio. Mamãe, nem pensava: nasceu filho homem, era Antonio! Lá em casa, somos quatro.

O glorioso Santo Antonio, protegeu muita gente e aliviou muitos sofrimestos. Em Itabaiana ele se tornou até o padroeiro dos motoristas. No resto do mundo é São Cristóvão.

No próximo texto, contarei a saga de Santa Dulce dos Pobres, em Itabaiana.

Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

O QUE HOUVE COM A BIENAL DE ITABAIANA?

 

O que houve com a Bienal de Itabaiana?
(por Antonio Samarone)

Esse ano não houve brilho. Não é crítica, apenas uma constatação.

A bienal de Itabaiana espantava o mundo cultural de Sergipe pela força, diversidade e riqueza dos seus artistas, poetas e escritores. Esse ano, as coisas murcharam.

A bienal desse ano ignorou a cultura de Itabaiana. Os palestrantes, a temática e os artistas quase todos de fora. Uma contradição: essa Bienal foi organizado pela Academia de Letras e deu as costas a própria Academia.

Não houve uma Bienal de Itabaiana, o que houve foi uma Bienal em Itabaiana.

A centralização, mesmo as bem intencionadas, é inimiga das manifestações culturais.

A Bienal de Itabaiana era um evento coletivo, uma manifestação espontânea de sua gente, dos seus estudantes, professores, escritores, poetas, cordelistas, cantores e músicos. Esse ano, eu soube, foi preciso trazer estudantes de fora, para não deixar os auditórios vazios.

Um palestrante ilustre, meu amigo, disse-me de forma peremptória: “Itabaiana vai ter dificuldade em recuperar o brilho da sua Bienal. Talvez, o erro desse ano pode ter sido fatal.”

Outro intelectual, profundo conhecedor da vida cultural de Itabaiana, justificou: “se não fosse assim, centralizada, a Bienal corria o risco de não acontecer. Por isso, todos os erros são perdoáveis. Na próxima, vamos consertá-los!"

Manifesto a minha preocupação como membro da Academia que organizou a Bienal, como itabaianense e Secretário de Cultura do Município. Não busco culpados, não é isso. Humildemente, espero somação, reflexão sobre o que deu errado, para não repetirmos na próxima Bienal.

Existe um esforço em mostrar ao mundo a força cultural de Itabaiana. Não somos fortes somente na economia, no comercio, nos caminhões, no futebol, no ouro, nas castanhas e na religiosidade. Também somos muito fortes na cultura.

A Bienal de Itabaiana não tem dono, nem padrinho. Não precisa de tutela.

A Bienal de Itabaiana é patrimonio imaterial dos ceboleiros. Viva a nossa Bienal.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

domingo, 17 de dezembro de 2023

GENTE SERGIPANA


 Gente Sergipana.
(Por Antonio Samarone).

O cardiologista Lauro Fontes pertence a antiga legião dos médicos humanistas, que cuida dos doentes. Os atuais médicos de mercado, voltam-se para as doenças. Quem não entender a diferença, vai ficar assim, o espaço aqui é pequeno para explicar.

Lauro Fontes é um fidalgo de origem e de formação. Por parte do pai, é um Martins Fontes; por parte de mãe, descende dos senhores do açúcar de Rosário do Catete.

Lauro Fontes é um poeta bissexto.

O seu livro de memórias é uma boa surpesa. Lauro fala de quase tudo, dos medos, das vitórias, das derrotas, das brigas familaires. Um escrita leve e profunda.

As memórias de Lauro Fontes, tem passagens de pura literatura:

“O meu avô era um homem de poucas palavras, não beijava os netos, mas se alegrava muito quando chegávamos à sua casa. Sempre sentado em uma cadeira de balanço, calças arregaçadas, permitindo ver nas suas pernas as sequelas da erisipela, isto porque ele tinha muitas varízes.”

Lauro Fontes nasceu no Aracaju, na Rua São Cristóvão.

Lauro, em suas memórias, não esconde a violência do pai. Após uma queda do menino Lauro, cabeça sangrando, o pai aponta uma arma para a sua cabeça: “Pare de chorar! Pare de chorar! “Eu, todo urinado de medo e dor, silenciei. Ô Amélia, ponha borra de cefé na cabeça dele. Disse ele a minhã mãe.”

“Nesta mesma casa, em uma noite de terror, por motivos irrelevantes, por volta das 20 horas, iniciou-se uma discussão entre meus pais e, em seguida, veio o pior: meu pai começou a agredir a minha mãe com socos e tapas...”

Lauro, foi várias vezes espancado pelo pai, por motivos fúteis. Porém, não se transformou em um homem violento, pelo contrário, é uma pessoa doce, gentil e atenciosa.

As memórias de Lauro Fontes trata do cotidiano, das relação familiares, da escola, dos desejos dos meninos daquele tempo. Isso foi ontem, mas quanta diferença. Os meninos de hoje são cheios de vontades.

Lauro na infância, como os meninos daquele tempo, criava passarinhos. Criar é eufemismo, prendía os pássaros.

Constatei que os briquedos e as traquinagens de Lauro eram os mesmos dos meninos do Beco Novo, onde vivi até os 15 anos.

Em 1968, Lauro Fontes foi reprovado no vestibular. Um choque que mudou a sua vida. Os estudos viraram uma obsseção. Passou no ano seguinte.

No livro de memórias, ele conta em detalhes a sua primeira aula na faculdade. Eu já puxei pela memória, e não faço a menor ideia da minha primeira aula na faculdade. Lembro-me da primeira aula no abc.

Lauro conta os olhares, os pensamentos, os sonhos do seu primeiro encontro com Angêla Marinho Barreto, com quem casou. Angêla foi minha colega de turma na faculdade.

No final dessa primeira parte de sua memória, Lauro perdoa o pai, entende as circunstancias.

O livro acabou! Como acabou?

Eu li na esperança de conhecer a vida de Lauro na familia Barreto, a vida profissional, as aventuras da vida adulta, e quem sabe, até as reflexões atuais.

Lauro, já existe o tomo II e eu desconheço? Passe-me com urgencia. Se não existe, trate de escrevê-lo. Quero conhecer a sua visão da medicina, em sua clínica diária.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

sábado, 16 de dezembro de 2023

DOENTE NÃO TEM O QUE QUERER.


 Doente não tem o que querer...
(por Antonio Samarone)

Ao aproximar-me dos setenta, oscilo entre duas sentenças: a velhice como a melhor idade ou como um naufrágio. Eu, por enquanto gosto, mas vejo o naufrágio se aproximando. O mar é cada vez mais revolto.

Na teoria, existe um direito do doente. Qualquer intervenção médica precisa da autorização do enfermo. Conversa fiada! O idoso perde a autonomia naturalmente. Quando adoeçe, a dependência é absoluta.

Em boa parte, a velhice é um retorno a infância. Quando eu resistia ao óleo de rinse, mamãe, com a chinela na mão, alertava: “menino não tem o que querer, tape o nariz e tome, de um gole.”

Descubro agora, o velho também não tem o que querer. Diante da diabetes a impotência é avassaladora.

Se não bastasse o sofrimento da diabetes, as redes sociais estão infestadas de saídas milagrosas para quase tudo. Por onde anda a vigilância sanitária, que permite? Um charlatão, disfarçado de terapeuta natural, garantiu no You Tube, que visgo de jaca é um santo remédio para a diabetes.

Antes de submeter-me as restriçoes, tentei saídas milagrosas: leite de manga verde, em jejum, suco de giló, ao amanhecer, casca de abacaxi, azeite de castanha e caroço de manjelão. A última que me ensinaram: leite de dromedário com limão siciliano.

Caí na risada. Em minha infância existia o abc dos animais. Cada letra, um bicho. E o “D” era de dromedário. Não sei se esse primo do camelo ainda existe, nem onde adquirir o seu leite. Soube que na China vende.

O diabetes se alastrou, resutado da transição alimentar dos últimos 50 anos, com a imposição dos alimentos industrializados e processados. Somos uma geração de gordos. O meu pâncreas abriu o bico, não suportou a demanda.

O diabetes é o preço!

Como em qualquer doença, a convivencia com a diabetes impõe pesadas restrições. A renúncia à gula e aos prazeres da mesa é um tormento. Tem mais, precisamos abrir mão do sagrado sedentarismo, de passar o dia tomando fresca numa rede.

A gula era o último pecado capital disponível aos velhos. Nem isso.

O meu prato preferido é arroz com galinha de capoeira. Nem isso. Ontem, em meu aniversário, comi a galinha com salada. Imagine.

Tomar diariamente insulina no bucho, cria a ilusão que estamos resolvendo a mazela.

A diabetes é um câncer silencioso, destroi o corpo por dentro, aos poucos. Na verdade, é uma vasculite, afeta os vasos sanguineos. Como o corpo não funciona sem o sangue, os órgão vão sucumbindo um a um, sem ordem prévia e sem regras.

Claro, estou tentando tomar as medidas para cumprir as restriçoes. Não é fácil! Não adianta pressão. Cada um tem o seu tempo.

 
Aviso aos que torcem contra: seja qual for o resultado, a minha sensação é que tudo já deu certo.

Antonio Samarone – Médico sanitarista.