domingo, 25 de dezembro de 2022

ARBORIZAÇÃO DO ARACAJU

 

Voltando a arborização do Aracaju.
(por Antonio Samarone)

Senhor Governador Belivaldo, o senhor ainda tem 15 dias no cargo e isso o senhor pode resolver.

Não vou requentar o tema da Orla na Sarney (Avenida Inácio Barbosa), a maior obra do seu governo. O tema já foi debatido, os erros apontados, fica para o próximo.

Não se plantou um árvore no calçadão novo de Vossa Excelência. Exceto meia dúzia de arbustos no trecho do Tecarmo. Mas deixemos também para o próximo.

Mas esse absurdo da foto o senhor ainda pode impedir:

Na interseção da rua Walter Bastos com o calçadão da Sarney, veja a foto, existe um rótula gigantesca. Aracaju esperava um bosque ajardinado, com arvores típicas da região: coqueiros, palmeiras, amendoeiras, aroeiras etc. Era o razoável!

Passei pelo local e percebi que estão botando britas. Isso mesmo, aquelas pedras quebradinhas. Pensei que era engano. Não! Está no projeto.

Governador, mande suspender! Consulte o Prefeito Edvaldo!

Se não estiver previsto no orçamento da obra, eu me encarrego de conseguir as mudas. E plantá-las. Sei que o senhor é muito ocupado para saber os detalhes. Mande conferir...

Espero uma boa notícia. Aracaju precisa de árvores, muitas árvores.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

NOVAS SAÚVAS

 Novas Saúvas.
(por Antonio Samarone)

Terminado o curso de medicina, me especializei em Saúde Pública. Foi difícil explicar a mamãe o que fazia um médico sanitarista. A salvação foi apontar a obra de Osvaldo Cruz: saúde pública é isso! Mamãe fez de conta que entendeu.

Se a pergunta fosse hoje, a resposta seria mais complicada. Os higienistas do meu tempo carregavam uma narrativa civilizadora. Havia um círculo vicioso pobreza/doença. Lembram-se do Zeca Tatu de Monteiro Lobato?

A maioria das pestes estavam relacionadas com as condições de vida, com a pobreza. Como acabar com a pobreza não estava nos planos, os sanitaristas sonhavam em acabar com as doenças.

Investia-se em dois planos: na mudança dos hábitos de higiene pessoal, através da educação sanitária; e no combate aos insetos transmissores, através das campanhas da Saúde Pública.

Um único mosquito, o Aedes aegypti, transmite quatro endemias graves. Oswaldo Cruz saiu como um louco matando esse mosquito. Uma luta inglória, os mosquitos se adaptaram aos venenos.

A nova Saúde Pública encontrou novos métodos: além das vacinas, o Instituto Butantã acaba de anunciar a descoberta de uma vacina eficaz contra a dengue, a fundação Bill Gates, patrocina um laboratório em Medellín, na Colômbia, que produz 30 milhões de mosquitos geneticamente modificados, por semana.

Explico, o Aedes para se reproduzir precisa de sangue, e cada humano tem cerca de cinco litros. Nesse banquete, o mosquito injeta o vírus.

As novas tecnologias apontam: vamos produzir mosquitos estéreis, que não precisam de sangue, e vamos jogá-los na natureza. Nessa concorrência legitima, logo, logo, os mosquitos naturais vão desaparecer.

Se anuncia, que outras doenças entrarão nessa lista. A Fundação Bill Gates quer produzir os mosquitos (são muitos) da malária, para espalhar na floresta amazônica, e produzir o amedrontador “barbeiro”, para soltar na Bahia e no Norte de Minas Gerais.

Os velhos sanitaristas diziam cheios de orgulho, que o fim da doença de Chagas dependia de residências higiênicas para todos, um amplo programa habitacional. Vivíamos num Brasil Rural. A doença de Chagas precisava do BNH e não do DDT.

Os insetos geneticamente modificados, desmontaram o discurso social da Saúde Pública. A Fundação Bill Gates quer acabar com as doenças sem mexer com a pobreza.

Os mosquitos também viraram mercadorias, com patentes e donos, comercializados nas bolsas de valores. A Big Pharma investe na introdução da inteligência artificial nos mosquitos. Um sonho, os mosquitos passarão a picar seletivamente, de acordo com o software.

Acho que os “maruins” aqui em casa já são dessas inteligentes. Nada explica a seletividade deles em me picar, sempre no tornozelo.

Imaginem, como explicar isso a mamãe.

Feliz Natal.

Antonio Samarone (por enquanto, médico sanitarista)

O BRASILEIRO CORDIAL

 O brasileiro cordial.
(por Antonio Samarone)

O tema central da Ilíada, obra fundadora da cultura ocidental, é a Ira desordenada de Aquiles e as consequências de sua cólera, inclusive para ele próprio.

Homero refere-se a Ira, um sentimento grandioso, próprio dos deuses e dos heróis. A Ira pode ser divina, santa, inspiradora. A Ira é filha da indignação.

O ódio é um sentimento pequeno, filho do ressentimento e da inveja, não suporta o perdão e a tolerância.

O que os grupos de WhatsApp de extrema direita exalam é ódio, um sentimento destrutivo, nascido de frustrações não resolvidas. O ódio é filho da intolerância. A narrativa do ódio é a violência, o segregacionismo e a ditadura.

Nenhuma ideia, apenas ódio.

Essa gente, até ontem, participou do Natal sem fome do Betinho, era contra o esquadrão da morte e a favor dos direitos humanos. Era tudo aparências, medo de expressar publicamente os meandros da alma?

Como esse ódio explodiu, e se transformou em militância política? Não sei! O certo, é que as redes sociais fortalecem essas ondas de ódio.

Pessoas pacatas, religiosas, bem-comportadas presencialmente, profissionais conceituados, quando se enturmam nos grupos de WhatsApp, liberam a alma, divulgam fakes, pregam a violência, clamam por ditaduras, são racistas e aporofóbicos, sem a menor cerimônia.

Acham que os que assim não pensam, são todos comunistas, até o Papa. O comunismo real ou fictício, continua sendo um fantasma ameaçador. Não sei se usam esse mote unificador dos odientos, por falta de argumentos, delírio, desinformação ou má fé.

Quando questionados sobre a pregação do ódio, defendem-se com o desgastado argumento que estão exercendo a liberdade de manifestação.

Trata-se de um fenômeno social aparentemente duradouro, que voltará ao poder. Um solo fértil para o fascismo.

Mesmo sendo Natal, não professo falsos otimismos.

Antonio Samarone (médico sanitarista).

GENTE SERGIPANA - ROSITA DOS SANTOS

 Gente sergipana – Rosita dos Santos.
(por Antonio Samarone)

O doutor Afonso Figueiredo Góes, depois de 32 anos, teve um gesto sublime: liberou a sua empregada doméstica, Rosita dos Santos, para passar o Natal em casa.

Rosita é do Riachinho, interior de Ribeirópolis, veio trabalhar na casa do doutor aos 15 anos. Já era órfã de mãe. O doutor Afonso possui uma fazenda na região do Saco do Ribeiro. Por ser muito católico, entendeu que estava na hora de fazer uma caridade aquela órfã: trouxe a menina para ajudar em sua casa, em Aracaju.

A menina fazia de tudo: era babá, faxineira, lavava e passava. Foi ajudante de cozinha, pau para toda obra. Abrigava-se num quarto dos fundos, próximo ao canil.

Hoje Rosita está com 45 anos, passaram-se três décadas. Rosita sempre teve um sonho: conhecer o mar. Mesmo morando em Aracaju há 30 anos, nunca teve essa oportunidade.

Rosita ouviu na televisão que tinha direito a carteira assinada, entre outros direitos trabalhistas. Rosita nunca teve a coragem de tocar nesse assunto, com o protetor. O doutor Afonso a considerava da casa. Uma agregada. Rosita tinha casa, comida e umas roupinhas, para que mais? Que botasse as mãos para o Céu.

Se comenta, eu acho que não procede, que o doutor durante a pandemia, cadastrou Rosita no Auxílio Brasil, e tomou posse do seu cartão. Pensei, se for verdade, que pelo menos ele devolva o cartão da moça.

A intenção do doutor Afonso com essas “férias”, é que Rosita não retorne, fique por lá, pois a esposa, dona Roseane, resolveu mudar-se para um apartamento, defronte ao Parque da Sementeira. O novo lar não cabe Rosita.

Para fazer justiça, o doutor deu um dinheiro a Rosita, para ele iniciar uma nova vida. Ela não revela quanto. O mundo é grande e Deus não desampara ninguém, disse a dona Roseane.

Rosita só tem uma amiga em Aracaju, dona Carmelita, que trabalhou na república cebolinha. É nesse ponto que eu entro na história. Foi dona Cacá que me ligou, contando essa história corriqueira.

Rosita dos Santos não tem para onde ir, o pai já morreu, não tem irmãos, nem parentes nem aderentes, me contou dona Cacá. “Abrigá-la aqui em casa, eu não tenho condições” – Cacá.

Rosita é nova para se aposentar e velha para arrumar trabalho. Rosita tem quarenta e cinco anos, que parecem sessenta.

O drama é maior, Rosita precisa de um emprego que lhe forneça abrigo. Não aprendeu a cozinhar. Nunca frequentou uma escola, conhece os ônibus pela cor. O que sabe mesmo é lavar roupas, serviço que as máquinas fazem cada vez melhor.

O doutor Afonso é um homem de bem, viajou para Roma, foi assistir à missa do galo no Vaticano. É uma tradição dessa família religiosa, temente a Deus. O doutor, recentemente, doou uma certa quantia para as obras de caridade da Paróquia.

Pelo menos o Natal, Rosita passará na casa de Dona Carmelita, no Parque dos Faróis.

Feliz Natal.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

ARACAJU INSUSTENTÁVEL

 Aracaju insustentável.
(por Antonio Samarone)

Quando Inácio Barbosa decidiu transferir a capital de São Cristóvão, já existia uma comunidade de ceramistas na Colina, chamada Arraial de Santo Antonio do Riacho do Aracaju. Portanto, Aracaju era o nome desse riacho, por isso, escreve-se “do Aracaju”, e não “de Aracaju”.

O vocábulo Aracaju é de origem Tupi, segundo Teodoro Sampaio. Ará-acayú, Aracaju, significa “o cajueiro dos papagaios”. Existem outras versões, mas essa é a mais poética.

Aracaju já foi a sultanas das águas, de fato, somos cercados de rios (Sergipe, Poxim, Sal, Vaza Barris, Santa Maria etc.). Sergipe também é de origem Tupi, cyri-gy-pe, serygipe, seregipe, Sergipe, é o Rio dos Siris. Por isso somos “do Sergipe” e não “de Sergipe”.

O Cajueiro dos Papagaios poderia ser uma cidade voltada para o meio ambiente, para os rios, uma terra de cajueiros e de papagaios, uma terra acolhedora, sustentável, onde o turismo não dependesse de cenários religiosos artificiais de milagres, explorados pelo mercado. (ouvi essa bobagem na imprensa).

Ontem eu assisti a uma revoada de ararinhas às margens do Rio Santa Maria, no que resta de restingas e coqueirais preservados, entre as comunidades do Robalo e São José.

A foto é um registro.

Aracaju segue o caminho das demais cidades metropolitanas, voltada para o lucro do capital imobiliário. Estamos criando uma cidade insustentável, coberta de asfalto e concreto, poluída pelos meios de transporte. Os esgotos coletados pela DESO são jogados “in-natura”, na Praia Formosa.

É formosa, mas fede...

Aracaju é um paraíso para a especulação imobiliária e um inferno para a sustentabilidade. O mundo civilizado já deu meia volta, e nós ainda estamos indo na mesma direção. A cidade investe na infraestrutura que interessa ao capital.

Recomendo as autoridades urbanos, políticas e técnicas, e aos interessados em geral, a leitura de “Guerra dos Lugares”, um livro grandioso da professora Raquel Rolnik.

Gente, na Zona de Expansão (expansão de quem?), ainda restam oásis de natureza, onde ainda vicejam os cajueiros e os papagaios.

Até quando?

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

ENTÃO É NATAL


 Então é Natal...
(por Antonio Samarone)

Estava afastado do centro do Aracaju desde a pandemia. Sempre gostei do burburinho do centro, multidões para cima e para baixo, comprando lembrancinhas.

Hoje eu voltei. O centro do Aracaju estava vazio (veja a foto, as 9 horas).

Uma ou outra alma perdida, zanzando sem rumo. Um papai Noel dos comerciantes pousando para fotos com meninos pobres, na esquina da Igreja de São Salvador.

Não encontrei os velhos antigos, que ficavam passando a vida a limpo nas sombras das calçadas. Para onde foram? Quantos escaparam da pandemia e de outras mazelas, próprias da idade?

Os calçadões estão tomados por mocinhas oferendo empréstimos. Isso mesmo, dinheiro emprestado, pela hora da morte. A agiotagem prospera na dificuldade econômica.

Antes, os ambulantes compravam ouro, vendiam senhas para abreugrafia, chips de celular e bilhete de loteria. Hoje é dinheiro emprestado. Até sugeri as vendedoras: vão vender nos Shoppings, lá os consumidores têm mais dinheiro.

Elas riram: “lá eles tomam nos bancos, no crédito consignado.” Sem exageros, fui cercado por dezenas de moças me oferecendo dinheiro emprestado. Pela insistência, penso que elas me acharam com a cara de quem estava muito precisado.

Autoridades, o povo sergipano empobreceu muito, depois da pandemia. Bolsa família não resolve, é só um alívio para o desespero. Não adianta só encher os postes com luzinhas chinesas, que acendem e apagam sem parar. Não!

Gente, vamos iluminar as mentes com ideias. Sergipe precisa de projetos para criação de empregos. Muita gente qualificada profissionalmente está se virando no Uber. Um aplicativo dos quintos dos infernos que toma 40% da renda do trabalhador.

O Natal sem consumo é um indicador do desastre econômico em que nos metemos em Sergipe.

Os calçadões do centro do Aracaju são desérticos, nenhuma árvore, parece que esse ano, nem as arvores de Natal botaram nos calçadões.

Feliz Natal.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

DIA DE SANTA LUZIA

 Dia de Santa Luzia.
(por Antonio Samarone)

Hoje é o dia da padroeira da Barra dos Coqueiros, aliás, Ilha de Santa Luzia, defronte a Aracaju.

Santa Luzia de Siracusa também é a padroeira de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

O treze de dezembro desperta as minhas lembranças infantis: nesse dia, as devotas da Santa saiam de porta em porta, esmolando, com a sua imagem nos braços. Ninguém negava, a Santa é a protetora das nossas vistas.

Não sei se as devotas passarão hoje em meu condomínio, de todo jeito, já avisei na portaria para deixarem entrar.

No dia de Santa Luzia os camponeses colocavam pedrinhas de sal expostas ao tempo, se elas se juntassem, era sinal de um ano bom de chuvas. Hoje, os meteorologistas avisam pela jornal Nacional.

Recentemente fiz cirurgia de catarata com o renomado Max Rollemberg. Fiquei encantado com a sua clínica, onde a imagem de Santa Luzia encontra-se destacada nas salas e consultórios. Max é um humanista da velha e desprezada (pelo mercado) escola hipocratica.

No candomblé, Santa Luzia é o orixá Ewá (pronuncia-se “Euá”), que comanda a visão humana, os horizontes e o céu estrelado. Ela é a rainha do cosmos, a regente da neblina e dos nevoeiros.

Ewá é o orixá protetor da pureza e da virgindade, do inexplorado e do desconhecido, das florestas e dos rios.

Dante Alighieri era devoto de Santa Luzia. A Santa aparece na Divina Comédia com sendo a “graça”. Dante não enxergava o caminho certo, estava nas trevas, foi Santa Luzia que apontou os caminhos.

Santa Luzia, na iconografia católica, é uma Santa bonita de bochechas coradas, carregando uma folha de palmeira (imortalidade) e uma bandeja dourado com um par de olhos.

Essa imagem permeia as minhas lembranças atávicas.

Viva Santa Luzia.

Antonio Samarone (médico sanitarista)