segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

GRATA SURPRESA


Grata surpresa... (por Antonio Samarone)
No final da tarde de sábado, fui à praça de minha infância tomar uma fresca. O vento em Itabaiana é novinho, vem da Serra. O vento lá é doce, não é maresia...
Quem eu encontrei? O Veio Belo, filósofo surrealista, poeta, um eterno sonhador. Veio Belo me contou que está empenhado em fazer projetos, para ir à Brasília buscar dinheiro “a fundo perdido”, para promover o desenvolvimento de Itabaiana. Os mais velhos sabem do que estou falando: “dinheiro a fundo perdido”. O Brasil já teve esse dinheiro, e era muito.
Fiquei calado, vá lá que ele arrume mesmo esse dinheiro a fundo perdido para Itabaiana.
Quando a conversa estava interessante, já de notinha, os alto-falante da velha matriz de Santo Antonio e Almas, começou a tocar a ave maria de Schubert. Tomei um susto: onde estou, será Berlin? Não! A nossa Itabaiana, tão cascuda, tem dessas delicadezas...
Paramos a lorota, para ouvirmos, silenciosamente, a mensagem musical da matriz. Afinal, era a hora da ave-maria. Acho que devo ir mais, tomar fresca em Itabaiana.
Antonio Samarone.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

GENTE SERGIPANA - FRANCISCO ROLLEMBERG



Gente Sergipana – Francisco Guimarães Rollemberg

(por Antonio Samarone)

Francisco Rollemberg nasceu em Laranjeiras, em 07 de abril de 1935, um domingo de ramos. Filho de Antonio Valença Rollemberg e Maria das Dores Guimarães Rollemberg. Chico desfrutou da infância interiorana em Laranjeiras, jogando bola, tomando banho de rio, vadiando livremente, sem medos ou sustos.

O pai de Chico Rollemberg foi proprietário do Cinema Iris, em Laranjeiras. Chico era quem fazia a projeção. O carro chefe da programação era “A vida, paixão e morte de Jesus Cristo”. Todas as vezes que entrava em cartaz, era casa cheia.

Logo cedo entrou na escola da professora Zizinha Guimarães, educadora conceituada, e logo se destacou como o melhor aluno. O filho de Seu Antonio era estudioso! Com o tempo, a professora botou Chico para ensinar outros alunos. Com 11 anos não tinha mais o que apreender em Laranjeiras. Fez um teste, e foi considerado apto para entrar no ginásio.

O menino Chico, além de traquino, era muito religioso, puxador do terço na igreja, mostrando uma forte vocação para padre.  Só que de onde ele morava, avistava-se a entrada hospital, a entrada e saída dos doentes. Aquele movimento, fez o menino mudar a cabeça para a medicina. Ali, Chico decidiu que seria médico. O pai adorou, a mãe nem tanto, preferia o filho padre.

Chico Rollemberg veio fazer o ginásio em Aracaju, no Colégio Tobias Barreto, do professor Alcebíades Melo Vilas Boas. Chico foi aluno interno do Colégio, absorvendo toda a disciplina. Ainda de calças curtas, com 11 anos, Chico Rollemberg chegou no Aracaju. Fez o curso ginasial com maestria. Concluído, migrou para o Atheneu, onde fez os dois primeiros anos do científico. No último ano, para se preparar melhor para o vestibular, concluiu o científico no Colégio Central da Bahia.

Em 1954, Chico Rollemberg ingressou na Faculdade medicina da Bahia. Vocacionado para a medicina, estudioso, Chico entrou de corpo e alma no curso. Chico não saia do hospital, tudo que era plantão, final de semana, feriado, lá estava Chico para aprender. Logo percebeu que tinha habilidades cirúrgica, e decidiu seguir a urologia. Uma decisão pragmática, pois em Sergipe só existia um urologista, o Dr. Costa Pinto.

Durante o curso de medicina, Chico participou do movimento estudantil na Bahia, sob a orientação ideológica do Velho Partidão. Ainda em Aracaju, na juventude, Chico tinha contato com os grupos clandestinos do Partido Comunista, em Aracaju. Calma, Chico não é comunista, daqui a pouco eu conto a participação dele na política.

Formado em 1959, Chico Rollemberg retornou à Sergipe. Bem formado, habilidoso e como muita disposição para trabalhar. Ele começou exercer a medicina em Laranjeiras. Foi um sucesso, quando o filho do Seu Antonio, chegava era um rebuliço, o povo corria para o hospital. Logo, com as ciumeiras locais, o diretor do hospital dispensou os serviços de Chico, e ele veio para a Aracaju.

Começou a operar na Capital nos dois hospitais existentes (Santa Izabel e Cirurgia), clinicar no Serigy, no IPASE, no Pronto Socorro Municipal, que funcionava nos fundos da antiga Prefeitura. Chico operava cinco a seis pacientes por dia. Constitui uma clientela imensa, gente com quem ele criou amizade, e que até hoje visita. Chico Rollemberg ficou famoso como bom médico, muitos favores, muito serviço prestado. Chico Rollemberg foi o primeiro sergipano a ingressar no Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Antes só Augusto leite, como membro honorário.

Esse prestigio despertou os chefes políticos: olha aí quem pode trazer votos para as nossas legendas. Não se elege, mas ajudará a nossa chapa. Dito e feito. Nas eleições de novembro de 1970, Chico foi convidado a compor a Chapa da ARENA para deputado federal. Era só para ajudar. Resultado, foi o deputado federal mais votado de Sergipe, com 19 mil votos. Para se ter uma ideia da disputa, os outros federais eleitos foram Luiz Garcia, Raimundo Diniz, Passos Porto e Eraldo Lemos, todos da ARENA.

A partir dessa estreia, Chico Rollemberg elegeu-se deputado federal por 4 legislaturas, permanecendo na Câmara dos Deputados até 1987. Exerceu os mandatos no bloco de sustentação aos militares, numa bancada conservadora. Participou do movimento de apoio a Sílvio Frota e votou em Paulo Maluf, no Colégio Eleitora. Em 1973, fez o curso da Escola Superior de Guerra, destinado a pessoas de prestígio.

Vejam como são as coisas: o médico Chico Rollemberg, conservador, sempre deu assistência e visita até hoje, a família de Walter Ribeiro, um comunista de carteirinha. Ouvi um depoimento de um velho camarada: Chico Rollemberg sempre prestou a assistência aos camaradas, ia nas casas se precisasse, e nunca dedurou ninguém. Somando-se a uma postura ilibada na vida pública! Não é a ideologia que define o caráter. 

Durante o exercício dos mandatos, Chico Rollemberg nunca abandonou a medicina, continuou trabalhando. Todo o final de semana, a partir da sexta, ele retornava à Aracaju para realizar as suas cirurgias. Aliás, até hoje, aos 84 anos, ele continua trabalhando no Hospital de Riachuelo. Ele sempre brinca, enquanto a mão não tremer, eu continuo operando. E para provar que está bem, mostra as mãos espalmadas, sem nenhuma tremedeira.

Mesmo sendo um médico operador, voltado para a prática, Chico Rollemberg não fechou os livros depois de formado. Continuou estudando, para se manter atualizado. Publicou Gangrena de Fournier, tratamento cirúrgico com enxertos livres (1961); Lesão cirúrgica do ureter (1969); Saneamento básico do Nordeste, Cocene, estudo nº.1 (1971); A problemática de saúde do Nordeste, Cocene, estudo nº.1 (1971); O potássio em Sergipe; Desenvolvimento e população e Osvaldo Cruz, centenário de nascimento.

Além de uma publicação sobre Fausto Cardoso, que se tornou referência aos pesquisadores sobre o ilustre sergipano. ROLLEMBERG, Francisco.  Introdução.  In: CARDOSO, Fausto.  Discursos parlamentares.  Brasília: Câmara dos Deputados, 1987.  p. 19-112.  (Perfis parlamentares, 31). Chico Rollemberg é membro da Academia Sergipana de Letras, ocupando a cadeira nº 15.

Em 1986, Francisco Rollemberg se elege Senador pelo PMDB, numa eleição disputadíssima. Em 2002, Chico Rollemberg se despede da política disputando o Governo do Estado, numa coligação confusa e heterogênea, sendo derrotado por João Alves Filho.

Chico Rollemberg casou em julho de 1959, com a colega de turma, Dra. Elcy Vianna Rollemberg. Chico é pai de cinco filhos: Francisco, Gustavo, Paula, Carlos Eduardo e Rodrigo Otávio. Com a morte da primeira esposa, Chico casa com Maria Helenita Santos Rolemberg, com quem convive até hoje.

Cheguei a conclusão que Chico Rollemberg, apesar de ser mais conhecido como político, tem a alma de médico, do antigo médico humanistas, que adora o que faz, que faz amizade com os doentes, que lembra do nome e das histórias.

Chico tem a mania de visitar os amigos, semanalmente. Quis saber o motivo, ele brincou: “os meus amigos estão velhos, quase todos doentes. Na verdade, cumpro uma obrigação cristã de visitar os enfermos.” Chico ainda viaja para o interior, só para visitar os amigos.

Chico Rollemberg é um homem fino, cuidadoso no trato, cheio de histórias interessantes. Chico tem a alma dos médicos antigos, voltada para o alívio do sofrimento humano. Não amealhou fortuna com a medicina (nem com a política).

Antonio Samarone.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A MEDICINA, ANTONIO CONSELHEIRO E CANUDOS



A medicina, Antonio Conselheiro e Canudos. (por Antônio Samarone)

O massacre de Canudos é indefensável. Doze mil soldados, com fogo cerrado e bala de canhão, arrasaram um Arraial de gente pobre no Sertão da Bahia, no triste 05 de outubro de 1897. Os que sobraram (mais de trezentos), velhos, mulheres, doentes, crianças, foram recolhidos e fuzilados a sangue frio, no dia seguinte.

Desenterraram Antonio Conselheiro (15 dias de morto), cortaram a cabeça, e levaram para estudos em Salvador. O corpo foi exumado pelo Dr. Miranda Cúrio, Major, chefe da expedição médica em Canudos. O crânio foi entregue aos cuidados científicos do Dr. Raimundo Nina Rodrigues, no Laboratório de Medicina Legal da Bahia. Valendo-se da metodologia de Cesare Lombroso, criminologista italiano (1835-1909); o exame antropométrico da cabeça do Conselheiro não apresentou anomalias criminais.

Um resumo do laudo de Nina Rodrigues: “O crânio de Antônio Conselheiro não apresenta nenhuma anomalia que denunciasse traço de degenerescência, é um crânio de mestiço, onde se associam caracteres antropológicos de raças diferentes... É um crânio dolicocéfalo e mesorrino, quase sem dentes, e com notável atrofia das arcadas alveolares. Tem uma capacidade de 1.670 cc, tendo o encéfalo o peso de 1.452 gramas.

Como justificar essa ignomínia? A medicina se apressou numa explicação. Um dos seus maiores intelectuais, o Dr. Nina Rodrigues, fez publicar na imprensa especializada um texto assustador (A Loucura Epidêmica de Canudos - 1897). Parte dos argumentos do médico cientista perdura até hoje.
O Dr. Nina Rodrigues, foi taxativo: “Antonio Conselheiro é um simples louco”! A partir do enquadramento, o ilustre médico passou a analisar a vida do beato, desde a juventude em Quixeramobim. Vamos acompanhar o raciocínio do médico:

“No caso de Antonio Maciel (Conselheiro), o diagnóstico de delírio crônico, de psicose sistemática progressiva, de paranoia primária, etc., não requer para se firmar mais do que a longa sistematização de quase trinta anos, e a transformação contemporânea do simples enviado divino no próprio filho de Deus.”

Continua o Dr. Nina Rodrigues:

“Pregando contra o luxo, contra os Maçons, fazendo queimar nas estradas todos os objetos que não pudessem convir a uma vida rigorosamente asceta, Antonio Conselheiro anormaliza extraordinariamente a vida pacífica das populações agrícolas e criadora da Província, distraindo-as das suas ocupações habituais para uma vida errante e de comunismo em que os mais abastados cediam os seus recursos em favor dos menos protegidos da fortuna.”

O diagnóstico médico sobre a loucura de Conselheiro, somente, não justificaria a destruição selvagem do Arraial do Belo Monte, com mais de 25 mil habitante. Nina Rodrigues sabia disso! Era preciso explicar porque esses sertanejos seguiram esse “louco”. A medicina não se intimidou, deu uma explicação.

Nina Rodrigues defendeu que houve uma epidemia de loucura, uma loucura coletiva. A transmissão do delírio foi facilitada por razões genéticas; predisposição agravada pelo esgotamento orgânico, a miséria, as doenças, as intoxicações e os vícios debilitantes.

Na visão de Nina Rodrigues, esses jagunços fanatizados, o mestiço do Sertão, com ascendentes selvagens, índios e negros, levando uma vida livre e com uma civilização rudimentar era avesso a catequese. Nina Rodrigues justificava essa dificuldade de converte-los pela persuasão religiosa; sendo tarefa mais fácil e expedita destruir os recalcitrantes a bala.

Em resumo: Canudos tratava-se de uma concentração de jagunços fanáticos, conduzido por um louco; que num momento de surto coletivo, de uma epidemia de loucura, ameaçou a nascente República. A destruição foi a única saída, na visão da medicina.

Essa tese, hoje absurda, cientificamente respaldada pela medicina, foi o eixo condutor de muitos escritos históricos. A partir de José Calazans, Ataliba Nogueira e tantos outros, novas interpretações estão sendo produzidas, surgindo uma outra história de Canudos.

Nina Rodrigues (foto) é maranhense, faleceu em Paris, em 17 de julho de 1906, aos 43 anos.

Antônio Samarone.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

POR QUE OS PEREGRINOS VÃO HOMENAGEAR CONSELHEIRO, EM ITABAIANA?



Os peregrinos vão homenagear Conselheiro, em Itabaiana. (Por Antônio Samarone)

Um amiga, doutora em filosofia, me fez uma pergunta intrigante: - por que os peregrinos vão homenagear Conselheiro, e por que escolheram logo Itabaiana? Diante da douta ignorância, sou obrigado a explicar.

Antonio Vicente Mendes Maciel (Conselheiro), nunca se intitulou de “Bom Jesus Conselheiro”; em nenhum momento se hipostasia de santo ou divindade; nos dois manuscritos existentes sobre as pregações dele.

Conselheiro não fazia milagres, não era médico, nem curandeiro, nem sacerdote e nem farmacêutico. Ele sabia que não era profeta, apenas pregava os evangelhos e espalhava a palavra. O único epiteto que ele se atribui é o de PEREGRINO.

Canudos foi uma sofrida tentativa de construção de uma nova forma de organização social, de uma nova forma de vida no Sertão, tão bem captada por Mario Vargas Llosa, em seu famoso “Guerra do Fim do Mundo” (Nobel de literatura). Com os estudos de Calazans, caiu por terra a versão de Nina Rodrigues, sobre a Loucura Epidêmica de Canudos, publicada em 1897.

Foi o historiador sergipano José Calazans Brandão da Silva quem reescreveu a história de Canudos; defendeu que Canudos não foi um caso de “loucura coletiva” dos conselheiristas, jagunços e fanáticos; e que Conselheiro não era um herege lutando contra a República. A primeira versão popular sobre Canudos, Calazans ouviu de uma senhora de ITABAIANA (segundo a historiadora Terezinha Oliva).

Entenderam porque uma Associação de Peregrinos vai homenagear Conselheiro em Itabaiana?

Antônio Samarone.

GENTE SERGIPANA - IREMAR MECENAS


Gente Sergipana - Iremar de Mecenas Silva
(por Antonio Samarone)
“Oricuri madurou ô é sinal, que arapuá já fez mel...”
Iremar de Mecenas Silva, nasceu em Aracaju, em 23 de março de 1960. Filho de José Cândido da Silva e da professora Celina Mecenas Silva. Iremar teve cinco irmãos: Ivan, Iran, Itamar, Iris e Iracema (gêmea com ele). Iracema também foi uma atleta destacada no voleibol (será a genética?).
O pai, José Cândido é alagoano de Santana de Ipanema, escritor, com dois livros publicados (menino de puxinanã e o querubim); compositor, com mais de 80 músicas gravadas, foi parceiro de João do Vale em 11 músicas, entre elas os clássicos, carcará, pé do lajeiro e oricuri...
Iremar se criou livre, como todo menino daquele tempo. Um menino do Aribê! Criado na rua Florianópolis, nº 218. Criado brincando de pé-em-barra, e jogando bola. Estudou nos Colégios John Kennedy, Costa e Silva e Visão. De constituição atlética, Iremar ingressou no esporte, chegando à seleção sergipana de voleibol.
Iremar sempre foi um bom aluno. Em 1981 ingressou na Faculdade de Medicina da UFS. Sempre dedicado, como tinha habilidade cirúrgica, logo cedo se interessou pela ginecologia e pela obstetrícia. Durante o curso, Iremar acompanhou grandes professores: Dalmo Machado Melo, Hugo Gurgel e Paulo César. Sorridente e chorão, amável, Iremar sempre teve muitos amigos. Concluiu o curso de medicina em 1987, indo exercer a medicina.
Iremar fez a boa medicina, centrada nos pacientes. Nunca ganhou nem fama nem dinheiro. Não amealhou fortuna com a medicina, mas aliviou o sofrimento de muita gente. Sempre atualizado e responsável. Iremar também foi professor de inglês no famoso Instituto Canadá.
Faleceu em 21 de dezembro de 2018, na Praia da Costa, covardemente assassinado dentro de casa. Soube hoje que a polícia sergipana já prendeu os bandidos. Ele atuava na cidade de São Sebastião do Passé, região metropolitana de Salvador (BA) e fazia planos de voltar para Sergipe.
Iremar era casado com Rita Dantas, e deixou cinco filhos: Deivid, Ivan, Iremar, Thiego e Bruna. Iremar deixou também a lembrança de um ser humano especial, deixou muita saudade com familiares e amigos, e deixou a certeza de ter cumprido a sua missão.
Antonio Samarone.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

GENTE SERGIPANA - ROSA SAMPAIO



Rosa Sampaio

Nasceu em Aracaju, na maternidade Francino Mello, em 30 de setembro de 1950. Filha do Cirurgião Fernando Sampaio e de Dona Maria Carmelita. Rosa cresceu numa Aracaju bucólica, tomando banho na Praia Formosa, onde hoje é um emissário de esgoto da DESO. Fernando Sampaio foi um dos primeiros moradores das imediações das Quatro Bocas.

Aracaju era a sultona das águas. Aquele canal fétido do fundo do Batistão, já foi um Riacho de águas límpidas que corria até a igreja São José. A ocupação de Aracaju, comandada pela especulação imobiliária, transformou um paraíso ecológico, num aterro insalubre.

Rosa Sampaio cresceu numa cidade sem a violência urbana. Fez o primário e o ginásio no Colégio do Salvador, sob a disciplina de Dona Mariá. Entre as rebeldias da adolescência, frequentou a boate Saveiros, do Iate; e a vida noturna da Atalaia, inventada por Luiz Adelmo.

Em 1965, Rosa Sampaio tomou uma importante decisão: foi estudar o científico no famoso Colégio Atheneu, escola pública de excelência, para onde a sociedade sergipana mandava os seus filhos. Rosa Sampaio deu um salto em experiência de vida, amadureceu, o Atheneu era uma grande escola. Aqui uma curiosidade: no Atheneu, Rosa Sampaio foi aluna de física do Senador Valadares, e segundo ela, ainda lembra da segunda lei de Newton. Pensei, com uma certa maldade, resta saber se o Senador ainda lembra.

Em 1968, quando o mundo fervilhava em novidades, Rosa entrou na Faculdade de Medicina. Como toda jovem esclarecida daqueles tempos, amava os Beatles e os Rolling Stones, mas não descuidava dos estudos. Foi uma boa aluna. Antigamente, quando os alunos saiam das antigas faculdades estavam prontos para o exercício da medicina.

Rosa Sampaio frequentou a faculdade no difícil período do AI-5, tendo sido aluna de EPB do doutor Eduardo Vital Santos Melo, famoso intelectual católico da província sergipana. Durante o curso, se aproximou de vários professores, facilitado pelo pai professor e médico importante na cidade.

Ainda estudante, Rosa Sampaio frequentou um estágio no Hospital das Clínicas da USP. Numa aula prática, com um paciente suspeito de calazar, o professor pediu para que os alunos palpassem o fígado do paciente, foi um Deus nos acuda, ninguém sabia. Rosa, valendo-se das manobras de palpação, apreendidas com o professor Aloísio Andrade, em Aracaju, fez tudo corretamente. O professor, um argentino famoso, ficou encantado com o curso de medicina de Sergipe. Ainda era tempo da medicina artesanal.

Rosa Sampaio formou-se em medicina em 1974. No ano seguinte, foi aprovada no concurso de professora para a disciplina “fisiologia do esforço”, ofertada no curso de Educação Física. Com a criação da disciplina de pneumologia na faculdade de medicina, ofertada pelo professor Dietrich Todt, Rosa foi convidada para ser auxiliar, e posteriormente assumiu o comando da disciplina.

Rosa Sampaio, eterna presidente do Colegiado de Medicina, envolveu-se com as mudanças do currículo do curso, afim de integrá-lo às exigências da reforma sanitária. Rosa virou o nome da UFS, que se envolveu nas mudanças. Era o contato dos estudantes, dos militantes da reforma e dos movimentos populares com a Universidade. Cumpriu um papel decisivo em levar os alunos de medicina para a comunidade, tirá-los dos corredores hospitalares. Inicialmente os alunos foram para o Centro de Saúde Francisco Fonseca, ao lado da Igreja, no bairro 18 do Forte.

Rosa Sampaio tomou gosto pela Saúde Pública, vestiu a camisa da Reforma Sanitária. Em 1997, assumiu a Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju, num período de municipalização. Rosa implantou o Programa de Saúde da Família em Aracaju. São inicialmente doze equipes, todas funcionando bem. O SUS vivia uma fase de esperança. Rosa teve autonomia e não misturou a politicagem. Organizou duas conferências municipais, reforçou o Conselho Municipal de Saúde, incorporou o dentista e a assistente social nas equipes do PSF, e recrutou os agentes comunitários por critérios técnicos. Infelizmente, o trabalho de municipalização da Saúde em Aracaju, depois desandou. Parece que até hoje!

A Saúde viveu um período de comando técnico, de boa gestão. Na semana de vacinação dos animais domésticos, vários pontos foram instalados em Aracaju. Um famoso professor de medicina que morava numa chácara, no caminho da Atalaia, ligou para a secretária solicitando uma equipe para vacinar os seus gatos, em sua chácara. Rosa Sampaio não se intimidou: professor, gosto muito do senhor, mas não posso mandar a equipe. O senhor traga os seus gatos, para vacinar nos locais públicos. O professor ponderou, Rosa, é quase impossível, não existe saco que caibam os meus gatos. Rosa, indagou: e quantos gatos o senhor tem? O velho mestre foi sucinto: 48 gatos. De fato, nesse caso, a secretaria mandou não só a equipe de vacinação; como levou o Prefeito e uma equipe de televisão.

Rosa Sampaio foi a última secretária de saúde de Aracaju que obedeceu rigorosamente a todos os princípios do SUS. Depois a politicagem contaminou o sistema, desarrumou, desviou dos princípios, que até hoje a saúde do município patina.

Por conta do trabalho no SUS de Aracaju, Rosa Sampaio foi convidada a ocupar um cargo importante no Ministério da Saúde, durante a gestão de José Serra, e por lá ficou até a aposentadoria. Hoje, Rosa é residente em Brasília, mas não perde oportunidade de frequentar Aracaju.

Rosa Sampaio foi casada com o famoso jurista Gilberto Villa Nova de Carvalho, com quem teve três filhos: Gilberto, Graziela e Raquel; e por enquanto, sete netos. Rosa é uma remanescente da medicina humanista. Aos 68 anos, cabeça boa, missão cumprida na terra, culta, Rosa Sampaio é uma cidadã do mundo.

Antônio Samarone.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

E POR FALAR EM FOTOGRAFIA...


E por falar em fotografias... (por Antonio Samarone).
(a foto é de Pierre Verger)
Na cultura, Itabaiana tem duas tradições: a música, com a secular Filarmônica; e a fotografia, com os mestres Paulino, Miguel Teixeira, Joaozinho Retratista, Percílio Andrade, Jorge Moreira e Seu Romeu. Só os ricos e remediados tinham acesso a esta arte.
Seu Joaozinho retratista era o mais famoso, com o seu cavalinho de madeira, anjos entregando hóstias não consagradas. Santos e cristos de papelão. Ao fundo, um cenário com o azul firmamento, carregado com nuvens de algodão. Seu Joaozinho dominava a técnica, com os seus retratos bem retocados. O retratista era quase um mágico.
Miguel Teixeira deixou um legado sobre a vida na Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana. O casario, o vestuário, as festas, folguedos, os dias santos, procissões, danças, hábitos e costumes. Um trabalho documental pouco estudado. O acervo de Jorge Moreira se perdeu? Não sei dizer.
A fotografia era vista como um espelho do real. A fotografia não mente, é uma prova, uma mimese, uma imitação quase perfeita da realidade. A fotografia como semelhante ao referente. Um registro, uma tomada. Os antigos retratistas oficiais se transformaram em fotógrafos profissionais. A boniteza estava na apuração técnica, na resolutividade. Hoje fotografia é outra coisa...
O retratista Seu Justo chegou ao Beco Novo! A fotografia chegava ao povo. Seu Justo se instalou no mais famoso cruzamento de Itabaiana: Rua do Beco Novo com a Rua da Pedreira, instalou-se numa esquina, que antes tinha sido as barbearias de Seu Abílio, e depois de Seu Juca, pai do guarda-vala Tito. Na outra esquina, ficava a loja de tecidos de Manezinho Priscina, antiga casa do Coronel Sebrão; na terceira, onde funcionou a padaria de Euclides e Mamede Paes Mendonça, era Bar de Pedro Delfino, administrado com mão ferro por Dona Isaltina; e na última esquina, era a sortida bodega de Zé Meu Mano. Um cruzamento com muitas histórias.
Dona Isaltina enxotava quem botasse açúcar demais no café. Ela inspecionava! Tomava-se café em copos de vidro, de geleia usado. Quando se pedia um pão com requeijão, ela não se dava ao trabalho de tirar a casca. Aí daquele que reclamasse! Outro aborrecimento inaceitável de Dona Isaltina, era algum abusado acaçapar uma bola com força na sinuca. Ela mandava encostar o taco na hora. Seja lá quem fosse...
Lembro-me que na bodega de Zé Meu Mano vendia-se óleo de rícino, o terror no tratamento final das lombrigas; ou para os que estivessem com a barriga inchada ou fastio. Minha mãe adorava prescrever óleo de rícino, violeta genciana, pó de sulfamida, cibalena, cafiaspirina, pomada minâncora, uvilon, piperazil, emulsão de scott, biotônico fontoura e guaiacol.
Estava lendo um clássico de Philippe Dubois, “O Ato de Fotografar”, e a mente me empurrou para Itabaiana. Terminei no óleo de rícino de Zé Meu Mano e nas delicadezas de Dona Ialtina. Vou parar por aqui.
Antonio Samarone.