terça-feira, 13 de março de 2018

LOUCOS DE TODOS OS GÊNEROS



Loucos de todos os gêneros...

Entre os nossos colegas na escola, convivíamos com gente de todos os tipos: os vadios, os gaiatos, os valentões, os tímidos, os cê-dê-efes, os aduladores, os sonsos, os perversos, os burros, os sabichões, etc. Todos éramos considerados mais ou menos normais. Era a variedade humana. Quando adultos, seguimos caminhos imprevisíveis pelo comportamento infantil.  

Hoje as crianças desviantes nas escolas são tratadas como portadoras de transtornos mentais, muitos como TDAH – transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, outros como deprimidos, bipolares, etc. A psiquiatria acha que existe um desequilíbrio dos neurotransmissores, que essas crianças precisam de ajuda médica. Muitos serão condenados a usar psicofármacos por longos períodos, tornando-se dependentes. A indústria farmacêutica agradece. Para onde caminha essa geração?

Antônio Samarone.

sábado, 10 de março de 2018

FIO DO CANÇO


De onde vem o “fio do canço”? 

Numa tradição centenária em Sergipe, usa-se a corruptela do nome de algumas doenças como xingamentos. Vamos lá: bexiguento (varíola); cabrunco (carbúnculo); peste (peste), gota serena (gota), estopor balaio (estupor), cranco (sífilis primária), lazarento (hanseníase), febre do rato (leptospirose), e assim vai. Observe que são todas doenças infecciosas, que representavam o perfil epidemiológico do passado. Como hoje predominam as doenças crônicas surgiram novos xingamentos. O famoso canço Itabaianense é uma corruptela de câncer. Nada a ver com “canso” do verbo cansar. O fio da peste, fio do cabrunco, evoluiram para fio do canço, acompanhando a epidemiologia. 

Antônio Samarone.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A VOLTA DO MANICÔMIOS EM SERGIPE?



A volta dos manicômios em Sergipe?

Na política nacional de combate as drogas, coordenada pelo Ministério da Justiça, estão previstos recursos para as organizações não governamentais (ONGs), que se proponham manter “comunidades terapêuticas” (fazendas, sítios, recantos afastados), visando recolher, recuperar e reinserir socialmente os dependentes de drogas.

Não existe uma definição clara dos métodos de recuperação utilizados por tais “comunidades terapêuticas”, nem de sua eficácia, depende da cabeça, da fé e dos interesses de cada filantropo envolvido (padres, pastores, espiritas, políticos, aproveitadores, mães de santos). É uma área aberta para experimentos de recuperação de dependentes de drogas (disciplina, trabalho, rezas e orações, penitencias, milagres, pajelanças, ritos orientais, isolamento, autoajuda), ou de outro recurso qualquer que se acredite com o poder de afastar a pessoa da dependência química. Não existe estudos independentes sobre os índices de recaídas.

A confusão começou a se instalar quando o Ministério da Saúde integrou as comunidades terapêuticas à rede de atenção psicossocial, como sendo unidades de saúde. Sãos as primeiras unidades de saúde sem equipe técnica (médicos, enfermeiros, terapeutas, etc.). Como se não bastasse, o Ministério da Saúde definiu-as com prioritárias, assumiu o financiamento, e estabeleceu como meta, passar das atuais cinco para vinte mil vagas, nas tais comunidades terapêuticas. 

Nesse momento está aberta uma corrida ao tesouro. Quem quiser criar uma dessas comunidades terapêuticas, compra o terreno e vai atrás do financiamento do SUS. Existe uma resolução da ANVISA, de 2001, aprovando esses estabelecimentos, e remetendo para a Vigilância Sanitária a sua fiscalização. Em 2011, a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária regulamentou as comunidades terapêuticas (resolução nº 29/2011); como as referidas comunidades foram elevadas a categoria de unidades de saúde; passaram a se submeter também a (resolução nº 63/2011). Na prática, essas resoluções são letras mortas em Sergipe. No momento não se sabe nem quantas comunidades terapêuticas existem, nem onde funcionam.

A rede de atenção psicossocial e os seus CAPS, passaram para um segundo plano. A “bem gerida” Secretaria Estadual de Saúde, em Sergipe, já desmontou a coordenação de saúde mental, antes mesmo que a nova política do Ministério deslanche. Já existem CAPS no interior de Sergipe funcionando em apenas um turno.

O medo é que esses vinte mil leitos que estão sendo criados nas comunidades terapêuticas, sem equipe técnica responsável, sem fiscalização do Poder Público, sem modelo nem padrão de funcionamento, possam jogar as vítimas das drogas, em instituições semelhantes aos antigos manicômios, verdadeiros depósitos humanos. O nosso apelo aos Ministérios Públicos (estadual e federal): exerçam uma ação efetiva de fiscalização.
Antônio Samarone.

sexta-feira, 2 de março de 2018

A MACONHA EM SERGIPE



A maconha em Sergipe.

O médico sergipano RODRIGUES DORIA, foi quem primeiro no Brasil escreveu sobre a maconha. Apresentou o trabalho “Os fumadores de maconha: efeitos e males do vício”, no Segundo Congresso Cientifico Pan Americano, reunido em Washington D. C., a 27 de dezembro de 1915. Uma leitura que vale a pena.

Numa passagem, ele descreveu os modos de se fumar a liamba em Aracaju:

“Introduzem o tubo do cachimbo, que tem uns 30 centímetros, mais ou menos, pela boca da garrafa, até mergulhar na água, que em certa porção está no interior. Este é o dispositivo mais rudimentar, e fumam aplicando os lábios diretamente sobre a boca da garrafa que não fica de todo obturada, e onde chupam, precisando um certo exercício para conseguirem aspirar bem a fumaça. Uma dupla tubuladura, sendo um dos tubos curvos para embocadura, já é um aperfeiçoamento. No dispositivo da cabeça fazem um orifício no bojo menor, onde colocam um pequeno tubo de taquari, merostachys clausseni, gramíneas, onde chupam, puxam a fumaça, como se exprimem os praticantes. As vezes aspiram diretamente, pondo os lábios sobre a cabaça. Esses cachimbos constituem um arremedo do narghilé ou cachimbo turco, usado nas casas de fumar o ópio, ou nos bazares árabes onde se fuma o haschich. Ao cachimbo com o dispositivo da garrafa ou da cabaça dão, na gíria dos fumantes (Aracaju), o nome de Maricas. Os mais refinados no vício, fazem no tubo do cachimbo, na parte que fica fora da garrafa ou da cabaça, um pequeno furo para se desprender um pouco da fumaça que não foi lavada, e provocar espirros, irritando a pituitaria, e constituindo isto um epifenômeno poético do vício. O Maricas é companheiro inseparável dos canoeiros e barcaceiros. É também apreciado entre eles o burburinho que ao atravessar a água produz a fumaça sorvida em profundos e esforçados tragos.”

Rodrigues Doria, viajou na história:

“O uso da maconha é muito antigo. Heródoto fala da embriaguez dos Scythas que respiravam e bebiam a decoção dos grãos verdes do cânhamo. No livro de Botânica do Dr. J. M. Caminhoá, que foi professor desta matéria na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, lê-se que o famoso remédio das mulheres de Dióspolis, bem como o nepenthes de que fala Homero, e que Helena recebera de Polimnésio, era a Cannabis índica. Os Cruzados viram os efeitos nos Muçulmanos. Marco Polo observou nas cortes orientais entre os emires e os sultões. É muito usado no vale do Tigre e Eufrates, nas Índias, na Pérsia, no Turkestan, na Ásia Menor, no Egito e em todo o litoral africano. Com o cânhamo se prepara o haschich, como já foi dito, e ainda pouco conhecido na sua manipulação; o povo do Oriente fuma o pó das folhas e flores no narghilé.”

Para descrever os fumantes sergipanos, Rodrigues Dória, recorreu aos colegas médicos:

“O Dr. Aristides Fontes, que conversou com pescadores habituados a usar a maconha, ouviu que, quando se encontram no mar em canoas ou jangadas, fumam em grupos para se sentirem mais alegres, dispostos ao trabalho, e menos penosamente vencerem o frio e as agruras da vida do mar. Denominam assembleia a essa reunião, e começam a sessão, fumando no cachimbo Maricas, no qual puxa a sua tragada, na frase por eles empregada, para exprimir o esforço que exige o cachimbo tosco e a quantidade maior. da fumaça que procuram absorver. Depois de algumas fumadas, tocados pelo efeito da maconha, tornam-se alegres, conversadores, íntimos e amáveis na palestra; uns contam histórias; tais fazem versos; outros têm alucinações agradáveis, ouvem sons melodiosos, como o canto da sereia, entidade muito em voga entre eles. Um desses, caboclo, robusto, de 43 anos de idade, fumando a erva há mais de vinte anos, sem apresentar perturbação da saúde, informou que a usava, quando se sentia triste, com falta de apetite e pouca disposição para o trabalho, principalmente à noite, quando ia para a pescaria, ficando satisfeito, disposto e podendo comer copiosamente. Dizem que faz cessar as câimbras que experimentam ao entrar n’água, à noite.”

“Ao Dr. Xavier do Monte referiu L.S., a quem conheço, homem de 45 anos de idade mais ou menos, robusto, que fumou a maconha, como experiência, sentindo-se alegre, achando graça em tudo, dando estridentes gargalhadas a todo propósito, como um louco e tinha muita fome. Comeu desmesuradamente, e após cessou o delírio, entrando em sono profundo e calmo. Dizem que o açúcar de cana faz cessarem os fenômenos da embriaguez. Alguns misturam-no com as folhas no cachimbo.”

“O Dr. Alexandre Freire, médico que exerceu a clínica em uma vila do interior de Sergipe, referiu ter visto uma mulher embriagada pela maconha de tal forma excitada que, no meio da rua, não mostrando o menor respeito ao pudor e fazendo exibições, solicitava os transeuntes ao comércio intersexual. As prostitutas, que às vezes se dão ao vício, excitadas pela droga, quando fumam em sociedade, entregam-se ao deboche com furor, e praticam entre elas o tribalismo ou amor lésbico.”

“Na Penitenciária de Aracaju, onde de alguns anos para cá é proibida a entrada da maconha, por causa dos distúrbios por ela motivados entre presos, os sentenciados se entregavam ao hábito de fumá-la “para aliviarem o espírito acabrunhado pela prisão, e terem por esse modo momentos de distração e alegria.”

“Só após a minha volta do Congresso Científico Pan-Americano foi que recebi o resultado do inquérito, a meu pedido feito, pelo meu colega e amigo Dr. Francisco Fonseca, clínico na cidade de Maroim (Estado de Sergipe), na zona de sua prática. Essas informações confirmam pontos tratados nesta Memória, e foram principalmente fornecidos por um fumante inveterado de 60 a 65 anos, robusto, musculoso, sadio, atribuindo o seu vigor ao hábito de fumar maconha, desde rapaz, no Estado de Alagoas, de onde é filho, residindo há muitos anos em Pirambu, povoação e praia de banhos em Sergipe. Nessa povoação, e outras próximas, onde existem muitos pescadores, o vício é grandemente disseminado. Em lugares de Sergipe e Alagoas, nas margens do rio de São Francisco, cultivam a planta, que vendem, preparada para ser fumada, sob a denominação de pelotas, pela forma que tomam as inflorescências, e à razão de 3$000 o quilo, e 30$000 e 40$000 a arroba. Os informantes fazem as declarações com dificuldade e timidez, receosos de uma ação policial.”

Antônio Samarone.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

IPTI



IPTI

Quando o Brasil parece afundar e não ter mais jeito, surge uma nesga de luz. Fui hoje, numa comitiva do Rotary, visitar o Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI) uma instituição de ciência, tecnologia e inovação, privada, com fins não econômicos, fundada em outubro de 2003, na cidade de São Paulo (SP), com o objetivo de desenvolver soluções integradas entre tecnologia e processos humanos, tendo como áreas prioritárias a educação, saúde pública e economias criativas.

Onde funciona essa novidade? Graças a competência e dedicação do engenheiro sergipano Saulo Barreto, essa Organização Social tem sede no Povoado Crasto, Santa Luzia do Itanhy; com filial em New York. O mundo aplaude e premia os talentos do Crasto; Sergipe desconhece.

Fico acanhado de contar o que vi, com medo de passar por mentiroso. Voltei orgulho e com a alma lavada. Esse Brasil avacalhado tem jeito. O sangue bom de um Saulo, vai sufocar parte da bandalheira. Tomei uma decisão: Saulo Barreto é o meu candidato ao Nobel da Paz.

Antônio Samarone.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

SERGIPE JÁ EXPORTOU INTELIGÊNCIAS.


SERGIPE JÁ EXPORTOU INTELIGÊNCIAS.

A Faculdade de Medicina da USP foi criada tardiamente (a aula inaugural aconteceu em 02 de abril de 1913 e o curso regular iniciou em 1914). São Paulo já era uma potência econômica. A elite paulistana caprichou, com a ajuda da Fundação Rockfeller, criou uma faculdade de medicina de primeiro mundo. Entres os primeiros professores encontramos: cátedra de Anatomia; Prof. Dr. Alfonso Bovero [proveniente da Universidade de Turim; Itália], cátedra de Fisiologia; Prof. Lambert Mayer Simon [proveniente da Faculdade de Medicina de Nancy; França]; cátedra de Higiene; Dr. Samuel Taylor Darling [enviado pela Fundação Rockefeller]; cátedra de Medicina Legal; Prof. Dr. Oscar Freire de Carvalho; cátedra de Ginecologia; Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho; cátedra de Psiquiatria; Dr. Francisco Franco da Rocha; cátedra de Microbiologia; Dr. Antonio Carini [proveniente da Universidade de Turim; Itália]; cátedra de Patologia; Dr. Walter Haberfeld, [ proveniente da Alemanha]; cátedra de Patologia; Dr. Alexandre Donati, [proveniente da Universidade de Turim, Itália];”; cátedra de Neurologia, Prof. Enjoras Vampré, [proveniente de Sergipe} e cátedra de Farmacologia; Prof. Dr. Ascendino Ângelo dos Reis, [proveniente de Sergipe].

Perceberam? Entre os renomados professores escolhidos, dois eram sergipanos.

Antonio Samarone.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

LEANDRO GOMES DE BARROS

Leandro Gomes de Barros.

Por Antonio Samarone.

Pensei em postar uma homenagem a Leandro Gomes de Barros, o maior da poesia de cordel, onde no 04 de março de 2018, comemora-se o centenário de sua morte. Entretanto fiquei acanhado em falar, descobrindo o que já se disse (e quem disse) sobre ele:

Câmara Cascudo escreveu:
“Viveu exclusivamente de escrever versos populares, inventando desafios entre cantadores, arquitetando romances, narrando as aventuras de Antônio Silvino, comentando fatos, fazendo sátiras. Fecundo e sempre novo, original e espirituoso, é o responsável por 80% da glória dos cantadores atuais”.

Em 1976, Carlos Drummond de Andrade publicou no Jornal do Brasil na edição do dia 9 de setembro:
“Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo o resultado a má informação porque o título, a ser concedido, só poderia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista FON-FON, mas vastamente popular no Nordeste do País, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor de “Ouvir Estrelas”. ... E aqui desfaço a perplexidade que algum leitor não familiarizado com o assunto estará sentindo ao ver defrontados os nomes de Olavo Bilac e Leandro Gomes de Barros. Um é poeta erudito, produto da cultura urbana e burguesa média; o outro, planta sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza. Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este, espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidas nas feiras a um público de alpercatas ou de pé no chão.”

Ariano Suassuna, que muito bebeu na fonte de Leandro Gomes de Barros, ao ser perguntado sobre a natureza do mal, questão central da filosofia e da teologia, respondeu com um verso do poeta popular:

“Se eu conversasse com Deus/ Iria lhe perguntar:/ Por que é que sofremos tanto/ Quando se chega pra cá? / Perguntaria também/ Como é que ele é feito/ Que não dorme, que não come/ E assim vive satisfeito. / Por que é que ele não fez? A gente do mesmo jeito? Por que existem uns felizes/ E outros que sofrem tanto? / Nascemos do mesmo jeito, / Vivemos no mesmo canto. / Quem foi temperar o choro/ E acabou salgando o pranto? “

Recentemente, o grupo Imbuaça montou uma peça em homenagem a Leandro. Se for acontecer em Sergipe qualquer homenagem ao centenário do grande poeta, me avisem hora e local, que darei um jeito de comparecer.
Fonte: http://obviousmag.org/