sexta-feira, 2 de março de 2018

A MACONHA EM SERGIPE



A maconha em Sergipe.

O médico sergipano RODRIGUES DORIA, foi quem primeiro no Brasil escreveu sobre a maconha. Apresentou o trabalho “Os fumadores de maconha: efeitos e males do vício”, no Segundo Congresso Cientifico Pan Americano, reunido em Washington D. C., a 27 de dezembro de 1915. Uma leitura que vale a pena.

Numa passagem, ele descreveu os modos de se fumar a liamba em Aracaju:

“Introduzem o tubo do cachimbo, que tem uns 30 centímetros, mais ou menos, pela boca da garrafa, até mergulhar na água, que em certa porção está no interior. Este é o dispositivo mais rudimentar, e fumam aplicando os lábios diretamente sobre a boca da garrafa que não fica de todo obturada, e onde chupam, precisando um certo exercício para conseguirem aspirar bem a fumaça. Uma dupla tubuladura, sendo um dos tubos curvos para embocadura, já é um aperfeiçoamento. No dispositivo da cabeça fazem um orifício no bojo menor, onde colocam um pequeno tubo de taquari, merostachys clausseni, gramíneas, onde chupam, puxam a fumaça, como se exprimem os praticantes. As vezes aspiram diretamente, pondo os lábios sobre a cabaça. Esses cachimbos constituem um arremedo do narghilé ou cachimbo turco, usado nas casas de fumar o ópio, ou nos bazares árabes onde se fuma o haschich. Ao cachimbo com o dispositivo da garrafa ou da cabaça dão, na gíria dos fumantes (Aracaju), o nome de Maricas. Os mais refinados no vício, fazem no tubo do cachimbo, na parte que fica fora da garrafa ou da cabaça, um pequeno furo para se desprender um pouco da fumaça que não foi lavada, e provocar espirros, irritando a pituitaria, e constituindo isto um epifenômeno poético do vício. O Maricas é companheiro inseparável dos canoeiros e barcaceiros. É também apreciado entre eles o burburinho que ao atravessar a água produz a fumaça sorvida em profundos e esforçados tragos.”

Rodrigues Doria, viajou na história:

“O uso da maconha é muito antigo. Heródoto fala da embriaguez dos Scythas que respiravam e bebiam a decoção dos grãos verdes do cânhamo. No livro de Botânica do Dr. J. M. Caminhoá, que foi professor desta matéria na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, lê-se que o famoso remédio das mulheres de Dióspolis, bem como o nepenthes de que fala Homero, e que Helena recebera de Polimnésio, era a Cannabis índica. Os Cruzados viram os efeitos nos Muçulmanos. Marco Polo observou nas cortes orientais entre os emires e os sultões. É muito usado no vale do Tigre e Eufrates, nas Índias, na Pérsia, no Turkestan, na Ásia Menor, no Egito e em todo o litoral africano. Com o cânhamo se prepara o haschich, como já foi dito, e ainda pouco conhecido na sua manipulação; o povo do Oriente fuma o pó das folhas e flores no narghilé.”

Para descrever os fumantes sergipanos, Rodrigues Dória, recorreu aos colegas médicos:

“O Dr. Aristides Fontes, que conversou com pescadores habituados a usar a maconha, ouviu que, quando se encontram no mar em canoas ou jangadas, fumam em grupos para se sentirem mais alegres, dispostos ao trabalho, e menos penosamente vencerem o frio e as agruras da vida do mar. Denominam assembleia a essa reunião, e começam a sessão, fumando no cachimbo Maricas, no qual puxa a sua tragada, na frase por eles empregada, para exprimir o esforço que exige o cachimbo tosco e a quantidade maior. da fumaça que procuram absorver. Depois de algumas fumadas, tocados pelo efeito da maconha, tornam-se alegres, conversadores, íntimos e amáveis na palestra; uns contam histórias; tais fazem versos; outros têm alucinações agradáveis, ouvem sons melodiosos, como o canto da sereia, entidade muito em voga entre eles. Um desses, caboclo, robusto, de 43 anos de idade, fumando a erva há mais de vinte anos, sem apresentar perturbação da saúde, informou que a usava, quando se sentia triste, com falta de apetite e pouca disposição para o trabalho, principalmente à noite, quando ia para a pescaria, ficando satisfeito, disposto e podendo comer copiosamente. Dizem que faz cessar as câimbras que experimentam ao entrar n’água, à noite.”

“Ao Dr. Xavier do Monte referiu L.S., a quem conheço, homem de 45 anos de idade mais ou menos, robusto, que fumou a maconha, como experiência, sentindo-se alegre, achando graça em tudo, dando estridentes gargalhadas a todo propósito, como um louco e tinha muita fome. Comeu desmesuradamente, e após cessou o delírio, entrando em sono profundo e calmo. Dizem que o açúcar de cana faz cessarem os fenômenos da embriaguez. Alguns misturam-no com as folhas no cachimbo.”

“O Dr. Alexandre Freire, médico que exerceu a clínica em uma vila do interior de Sergipe, referiu ter visto uma mulher embriagada pela maconha de tal forma excitada que, no meio da rua, não mostrando o menor respeito ao pudor e fazendo exibições, solicitava os transeuntes ao comércio intersexual. As prostitutas, que às vezes se dão ao vício, excitadas pela droga, quando fumam em sociedade, entregam-se ao deboche com furor, e praticam entre elas o tribalismo ou amor lésbico.”

“Na Penitenciária de Aracaju, onde de alguns anos para cá é proibida a entrada da maconha, por causa dos distúrbios por ela motivados entre presos, os sentenciados se entregavam ao hábito de fumá-la “para aliviarem o espírito acabrunhado pela prisão, e terem por esse modo momentos de distração e alegria.”

“Só após a minha volta do Congresso Científico Pan-Americano foi que recebi o resultado do inquérito, a meu pedido feito, pelo meu colega e amigo Dr. Francisco Fonseca, clínico na cidade de Maroim (Estado de Sergipe), na zona de sua prática. Essas informações confirmam pontos tratados nesta Memória, e foram principalmente fornecidos por um fumante inveterado de 60 a 65 anos, robusto, musculoso, sadio, atribuindo o seu vigor ao hábito de fumar maconha, desde rapaz, no Estado de Alagoas, de onde é filho, residindo há muitos anos em Pirambu, povoação e praia de banhos em Sergipe. Nessa povoação, e outras próximas, onde existem muitos pescadores, o vício é grandemente disseminado. Em lugares de Sergipe e Alagoas, nas margens do rio de São Francisco, cultivam a planta, que vendem, preparada para ser fumada, sob a denominação de pelotas, pela forma que tomam as inflorescências, e à razão de 3$000 o quilo, e 30$000 e 40$000 a arroba. Os informantes fazem as declarações com dificuldade e timidez, receosos de uma ação policial.”

Antônio Samarone.