Saúde não tem preço.
(por Antonio Samarone)
Seu Walfredo, 72 anos, mais ou menos saudável, levava a aposentadoria em banho-maria. Sempre se cuidou. Recentemente, sentiu um indisposição neurológica, um forte formigamento nas extremidades.
Bateu a ansiedade. Walfredo pensou: ninguém morre de formigamento, entretanto, é melhor saber do que se trata. Antecipar uma suposta doença grave.
Walfredo resolveu, por precaução, marcar uma consulta na mais recente Casa de Saúde, em Itabaiana: a “Clínica Médica Científica”. Onde as novas tecnologias e a inteligência artificial, comandam os procedimentos.
A Clínica Médica Científica é a primeira em Sergipe, ligada ao mundo científico pelo 5G. Mandaram buscar na China, uma antena privada, para uso particular.
Walfredo foi imediatamente monitorado. Implantou-se três chips diagnósticos e um terapêutico. O dia a dia do mal-assombrado foi posto em vigilância absoluta. Nada do seu comportamento escapa aos rigores da ciência médica.
A ansiedade de Walfredo aumentou. Dormia e acordava esperando uma grande revelação, um diagnóstico precoce de uma doença grave, definitiva, que anunciasse o temível fim.
Walfredo, não observou um velha sabedoria: na velhice, pôr os pés nas instituições médicas é um caminho sem volta. A disciplina, o modo de vida, a alimentação, o comportamento prescrito pela medicina é uma condenação a vida cotidiana.
É uma escolha. O consumo de procedimentos médicos obedece a mesma lógica do consumo de qualquer mercadoria. O discurso “científico” não altera a lógica do lucro. A saúde passa a ser identificada pela intensidade do consumo.
Eu concordo com Foucault, em sua Arqueologia, do Saber: a medicina clínica não é uma ciência. Não responde aos critérios formais e não atinge o nível de rigor que se pode esperar da física, da química ou mesmo da fisiologia.
A clínica comporta um acúmulo de observações empíricas, de tentativas e de resultados brutos, de receitas, de prescrições terapêuticas e de crenças.
Como diz Dr. Átalo, o homeopata: a pretensão atual da clínica em guiar-se apenas pela ciência é um empobrecimento.
Entretanto, a clínica não pode excluir a ciência. Para ser romântico: deve ser ciência e arte!
Durante o século XIX, a clínica estabeleceu relações com ciências perfeitamente constituídas como a fisiologia, a química ou a microbiologia. Além disso, incorporou o discursos da anatomia patológica, uma presunção para tornar-se Ciência.
A chamada medicina científica da modernidade, a medicina artesanal, inspirada na propedêutica, tinha o cuidado dos doentes como o objeto principal. A clínica era soberana.
Na pós-modernidade, a medicina concentrou-se na doença. Reduziu a clínica apenas a um saber supostamente científico e os cuidados aos procedimentos. Fragmentou-se o sofrimento. E se estabeleceu a forma de mercadoria dos serviços médicos.
A anatomia patológica e o paradigma celular, avançaram para o paradigma molecular. O mapeamento do genoma humano foi o primeiro passo.
A medicina pós-moderna praticada na Clínica de Itabaiana, tenta fundamentar a prática clínica com ensaios estatísticos, pomposamente denominados de “medicina baseada em evidências”. Se tal ou qual conduta é baseada em evidências, nada mais natural que a transformá-la em protocolos.
A medicina de mercado empobreceu a arte médica, ao reduzi-la as exigências da produtividade e do lucro. Uma biomedicina centrada no corpo e no desconhecimento absoluto da pessoa.
A troca do doente pela doença foi a passagem do sujeito para o objeto, em outras palavras, o fim da medicina humanizada.
O Conselho Federal de Medicina reconhece essa desumanização de forma romântica, identificando-a ao desvio do comportamento dos médicos. O CRM acredita que introduzindo noções de humanidades na formação médica, a desumanização será superada. Uma preocupação discursiva que não toca na questão central.
O inevitável avanço da chamada inteligência artificial sobre a prática clínica, do big data, da internet das coisas, consolida a medicina do corpo, das doenças e a desumanização da medicina.
Enquanto isso, Seu Walfredo luta para adaptar-se a nova realidade. Luta para morrer saudável, de forma disciplinada.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
terça-feira, 15 de agosto de 2023
SAÚDE NÃO TEM PREÇO
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