sábado, 10 de agosto de 2024

A FLOR DA PELE (PARTE I)


 A flor da pele (parte I).
Por Antonio Samarone.

A condição humana é corporal.

Nos apropriamos do mundo pelos sentidos. O tato é distribuído em toda pele. É fundamental mantermos os “pés no chão”.

O tato permite sentirmos o volume, o contorno, a textura, o peso, a profundidade e a temperatura das coisas. Os cegos leem os 64 caracteres do alfabeto de Louis Braille, com o tato.

Todos os sentidos, (cinco, para Aristóteles), se reduzem ao tato: a língua sente o contato com paladar, os ouvidos com som, o nariz com o ofalto e os olhos com os raios de luz. O tato é o sentido mais antigo, se manifesta ainda no útero, a partir do segundo mês.

Os obstetras mais ortodoxos, só indicam o parto cirúrgico em último caso, consideram a experiência tátil de passagem do feto pelo canal do parto, uma experiência decisiva a uma vida saudável.

Eu fiz um caminho inverso: demorei a nascer, estacionei no canal materno. Não queria sair. Convivo com as sequelas.

Foi a mão que fabricou os instrumentos (a mão de obra), e criou o Homo sapiens. A expulsão do Paraiso nos condenou ao trabalho e a parir os nossos filhos com dor. Muitos burlam.

A leitura apressada da bíblica popularizou uma versão superficial, que São Tomé, “queria ver para crer”. Na verdade, o que São Tomé exigiu foi tocar a ferida. Por dedo na ferida. “Se eu não puser o dedo no lugar dos cravos e a minha mão em seu lado, não acreditarei.” – disse São Tomé.

O patriarca bíblico Isaac, cego, escolheu quem seria o seu sucessor pelo tato. Ele preferia Esaú, que era peludo. A mãe queria o imberbe Jacó. O velho patriarca ordenou: “venha cá Esaú, para que eu lhe apalpar e reconhecê-lo. A mãe empurrou Jacó, vestido com as roupas de Esaú e as mãos cobertas com a pelo de carneiro.

Isaac, cego, sendo enganado pelo cheiro da roupa de Esaú e os pelos postiços das mãos, anunciou a consagração de Jacó, como se fosse Esaú. A bíblia acatou Jacó, “mesmo sem as atas”.

Entretanto, o tato foi vulgarizado, um sentido animal, afastado do espírito, uma forma menor de reconhecimento do mundo. Voltaire, equivocadamente, considerava o tato o menor dos sentidos.

A pele é o involucro real e simbólico do corpo, podendo ser confundido com a própria pessoa: “salvar a pele” é salvar-se a si. O sonhador se belisca, para certifica-se de si.

O abraço é um reconstituinte sentimental, um afago na alma.

É possível ser cego, surdo e anósmico sem desistir da vida. Entretanto, a supressão das sensações táteis decreta o fim de uma vida autônoma. A lepra suprimia a sensibilidade de partes afetadas do corpo, com as consequências conhecidas.

Na medicina, enquanto a clínica era soberana, o médico acessava aos segredos do corpo pelos sentidos. A propedêutica, em desuso, é um conjunto de técnicas que abria o caminho do diagnóstico. A palpação era o caminho da mina, em uma medicina artesanal.

Não existe diagnóstico confiável sem se tocar no paciente, sem o apalpar, ensinava Gílton Resende. A medicina de mercado não perde tempo com apalpações, perdeu o apreço ao toque.

O meu professor de clínica médica na UFS, Gílton Resende, obrigava o aquecimento das mãos, com intensa fricção, antes da palpação dos pacientes. Ele sabia a importância do tato e a energia transmitida pelas mãos.

O toque retal, como prevenção do câncer de próstata, é o exemplo mais conhecido do uso eficaz e incomodo do tato na medicina.

As coisas impalpáveis são virtuais.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

UM AMIGO CORDIAL

Um amigo cordial.
(Por Antonio Samarone)

Cardosinho é um empresário bem-sucedido. Politicamente, um liberal nos costumes e um crente no estado mínimo. A mão invisível do mercado é o seu parâmetro de políticas sociais.

Odeia a esquerda, sobretudo Lula. Na ausência de candidatos bem comportados, ele vota na extrema-direita, com um discurso cheio de arrodeio. Ele alardeia: - “voto de luvas e máscara.”

Cardosinho adora a Europa, bons vinho e queijos franceses. Ele vê o Velho Mundo como um paraíso. De modo inverso, para ele, no Brasil nada funciona. Cita com frequência, como se a frase fosse sua, que “original no Brasil, só a jabuticaba”.

Ele cita essa asneira com uma certa arrogância e um sorriso irônico de superioridade no canto da boca. No tempo da lava a jato, Cardosinho chegou a viajar a São Paulo, para assistir palestras do Juiz Sérgio Moro.

Culturalmente, Cardosinho é um pretensioso. Leu, há muito tempo, Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, tendo memorizado apenas que o brasileiro é um homem cordial. Acredita nisso, e até hoje cita a frase a três por quatro.

Sergio Buarque defendeu que as relações pessoais, seus afetos, amizades, inimizades, favores, graças, poderes e submissões, organizam a sociedade. Sergio atribui essa cordialidade a uma herança ibérica.

Cardosinho entendeu a cordialidade como polidez, simpatia e fino trato. Ele acredita que a contribuição do Brasil para a civilização será o homem cordial. Cardosinho veste essa fantasia: fala mansa, intercalada com risos, mostrando sempre uma erudição de almanaque, solicito e atencioso.

Fado Tropical, uma música de Chico Buarque, resume poeticamente esse homem cordial:

"Sabe, no fundo, eu sou um sentimental/ Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)/ Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar/ Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Ancorada nessa balela cordial, Cardosinho defende o genocídio dos palestinos, a intervenção militar na Venezuela e a vitória de Trump, nos Estados Unidos.

Como se diz: se tem focinho, rabo, pé, costela e orelha de porco, ou é porco, ou feijoada. O fascismo não é incompatível com bons modos.

Sabe uma coisa: não quero mais conversar política com Cardosinho. Ele lá e Eu cá! Suspeito que a polarização social no mundo está crescendo e não vejo saídas.

O medo, é que isso termine em guerra.

Antonio Samarone. Médico sanitarista.
 

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

ITABAIANA, 350 ANOS - SEU FAUSTINO.

Itabaiana, 350 anos! – Seu Faustino
(Por Antonio Samarone)

Faustino Alves Menezes, nasceu durante a seca de 1932, no povoado Saco, na estrada velha de Macambira, de quem sai pelas Queimadas. Filho de seu Francisco e Dona Josefa.

Órfão de pai aos sete anos, Faustino foi criado no Riacho do Bacalhau, atual Riacho Doce, nas Queimadas. Pouco frequentou a escola, só as primeiras letras, com a professora Lenita, irmã do Senador Passos Porto.

Aos 12 anos, ele já trabalhava, aprendendo a arte de sapateiro. Logo cedo, virou mestre. Tentou a vida no Sul (Rio e São Paulo) como sapateiro. Não deu certo, retornou ao ninho.

Até meados do século XX, a vida na província agrícola de Itabaiana acontecia na Zona Rural. No Censo de 1950, Itabaiana possuia apenas três mil e duzentos habitantes, no centro urbano.

Predominavam as “casas de rancho”, onde os proprietários só apareciam para fazer a feira, rezar e acompanhar as trezenas de Santo Antonio.

Itabaiana era uma cidade pobre, como demostra o seu patrimonio arquitetônico. Casarão, só a de Zeca Mesquita. Alguns sobrados de taipa, casas estreitas, baixas e sem platibanda. Se bebia água de cisternas, açudes e cacimbões.

Na Zona Urbana viviam os artesões (sapateiros, alfaiates, padeiros, ourives e marceneiros), pedreiros e carpinteiros, barnabés, pequenos comerciantes, biscateiros, fogueteiros, bodegueiros e os desocupados de todos os gêneros. Mais uma meia dúzia de profissionais liberais (professores, dentistas e rábulas). Médicos fixos, só Osmeil e Pedro Garcia Moreno.

Os caminhoneiros estavam começando.

Faustino entrou para a categoria de sapateiros, onde conheceu os mestres Zé Martins, alagoano, e Paulo Barros, de Laranjeiras, com quem conheceu o marxismo-leninismo e se converteu ao credo vermelho. A classe operária em Itabaiana era formada de sapateiros e alfaiates.

Somavam-se, aos poucos vermelhos, uma vanguarda intelectual: Antonio de Doci, Renato Mazze Lucas (médico), os irmãos Silveira (João e Zé) e Raimundo de Felismino. E muitos simpatizantes. Na lista subversiva: o camponês Zeca Cego, que cantava a Internacional em russo, Nilo Alfaiate, João Océas relojoeiro, João Barraca (padeiro), e outros que esqueci.

Os sapateiros e alfaiates formavam uma vanguarda esclarecida. Gente destacada na cidade. Evidente, a maioria nada tinha a ver com o comunismo. Seu Justino, veio de Paripiranga, Vicentinho e Zé de Gonçalo.

Não era fácil ser comunista numa terra de camponeses. Eles faziam de tudo, para politizar os trabalhadores. Fundaram um Clube dos Trabalhadores, para festas, e criaram o GLEI – Gremio Literário e Esportivo de Itabaiana, para estimular a alfabetização e a leitura.

O Clube do Trabalhador está em boas mãos. Salomão, somou-se com a família de Seu Bonito e dona Dulce, e comandam a quadrilha Balança Mais Não Cai, há mais de 50 anos.

Na antiga sede do GLEI, funciona hoje o Rotary.

O GLEI, já sob o comando de Chico do Cantagalo, construiu uma bela quadra de esportes, ao lado do Tanque do Povo. Hoje é um estabelecimento comercial.

Outra coisa, era um comunismo cristão. Todos batizavam os seus filhos, faziam primeira comunhão, frequentavam as aulas de catecismo e casavam-se na igreja.

Em Itabaiana, os comunistas apoiavam a UDN de Euclides Paes Mendonça, talvez por influência de Robério Garcia.

Faustino jogou futebol no Itabaiana e no Cantagalo, fazendo parte do Itabaiana que ganhou o seu primeiro campeonato: Campeão da Zona Centro, em 1959. O futebol só cresceu em Itabaiana no final da década de 1960, por razões especiais.

Na década de 1960, a política local causou um banho de sangue: os líderes se mataram. A cidade mergulhou num clima sombrio, sem esperança e com baixa autoestima. Economicamente, a cidade crescia.

Dr. Pedro, Pedro Goes, Alemãozinho, Zé Queiroz, Zé de Gentil, Geoba, Mozart, entre outros, decidiram investir no esporte. O futebol mexeu com a cidade, devolveu o orgulho, o bairrismo, a autoestima. Em 1969, brotou o primeiro título.

Quem é de fora não entende: o Itabaiana não é apenas um time. É a cidade de chuteiras. Um elo de união, talvez, a única unanimidade. Independente da paixão politica, da crença religiosa, da faixa de renda, todos vestem a camisa tricolor.

Na letra do hino do Itabaiana, Alberto de Carvalho deixou claro: “Somos Itabaiana/ Cidade, celeiro/ Que vibra no esporte/ Com o seu Tremendão.” Não somos apenas um time, somos uma cidade.

Seu Faustino (92 anos), casado com Dona Jacira e pai de Chico e Romualdo, é um homem decente. Quando o Partido Comunista existia na clandestinidade, os documentos sigilosos eram guardados por ele, em quem todos confiavam.

Faustino foi atleta, dirigente e eterno torcedor da Associação Olímpica de Itabaiana. Ao lado de Fefi, Mozart e Zé Queiroz, entre os vivos, compõem o maior patrimonio do Tricolor da Serra.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2024

A FÉ CATÓLICA ESTÁ VIVA?

A fé católica está viva?
Por Antonio Samarone.

Ontem, ao chegar em Itabaiana, sentir um forte cheiro de religiosidade. A peregrinação de Santa Dulce, no dia anterior, foi uma apoteose de fé. Como explicar uma multidão (15 mil pessoas) andando 13 km, subindo um pé de serra, para venerar uma Santa, se o esvaziamento da Igreja católica é um fato.

Por que os devotos ainda resistem, andam léguas, sobem serras, fazem promessas e acreditam em milagres? A fé sobreviveu!

Os estudiosos das religiões atribuem o elevado crescimento dos pentecostais no Brasil, ao afastamento da Igreja Católica dos mais pobres.

O Papa João Paulo II eliminou a teologia da libertação da igreja. Em 22 de outubro de 1978, o polonês Karol Józef Wojtyła realizou sua primeira missa como papa João Paulo II, Já pregando o fim da teologia de libertação.

Entretanto, como disse Dom Pedro Casaldáliga: “Deus e os pobres continuam.” O espaço religioso ficou aberto nas periferias, e os evangélicos ocuparam.

No geral, essa análise é procedente.

Mas, essa tese não se aplica em qualquer canto. Em Itabaiana, nunca existiu a teologia de libertação, pelo menos que eu soubesse, nem os evangélicos se expandiram tanto por lá, como em outras terras.

Até 1965, quando as resoluções do Concílio Vaticano II entraram em vigor, Itabaiana tinha a sua vida cultural centrada na Sacristia.

A igreja católica era o centro da vida cultural em Itabaiana. O fim do ritual tridentino, foi um baque, para um povo que acredita em milagres, adora o Padre Cícero e o Frei Damião e, mais recentemente, passaram a adorar a Santa Dulce dos Pobres.

Claro que não foram só as mudanças no catolicismo.

Na década de 1960, Itabaiana transitava de colonia agrícola, para um polo comercial; de rural para urbana, a educação assumia o seu papel, o capitalismo mercantil crescia, o fim dos artesões (sapateiros, alfaiates, ourives, padeiros e marceneiros).

Mudava-se o modo de vida! O enfraquecimento da influência da igreja católica em Itabaiana, foi evidente.

Como disse o Cardeal Casaldáliga, mas a fé não abandonou o povo. Itabaiana viveu 350 anos sob a égide da igreja católica. A sua principal entidade cultural, a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, foi fundada pela igreja.

Em qualquer aflição, o povo recorria a Santo Antonio!

A minha hipótese para a espantosa manifestação de fé na peregrinação de Santa Dulce ontem, em Itabaiana, é a fé represada do povo.

O novo Arcebispo do Aracaju, Josafá Menezes da Silva, um baiano de Salinas da Margarida, teve a sensibilidade para perceber que esse caminho está aberto.

Os devotos querem voltar ao ninho católico. O sonho do Papa Francisco, de uma igreja voltada para os pobres, está em andamento.

A igreja se afastou dos pobres, mas não tirou deles a sua fé. Eles voltaram aos bandos, multidões em busca de Cristo. O caminho de volta, em Itabaiana, é a devoção por Santa Dulce. Dom Josafá já percebeu.

Os devotos querem a igreja católica de volta. O fim da teologia de libertação foi um erro, uma medida ideológica dos tempos da guerra fria.

A alma do homem ainda busca a redenção.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

domingo, 4 de agosto de 2024

O PRIMEIRO HOSPITAL DE CARIDADE, EM ARACAJU.

O primeiro hospital de caridade, em Aracaju.
(Por Antonio Samarone).

Em 24 de maio de 1858, o Presidente da Província de Sergipe decidiu estabelecer na capital, um hospital de caridade, de nome “Hospital Nossa Senhora da Conceição” (o atual “Santa Isabel”).

Em 26 de maio de 1858, foi encomendado ao Major Engenheiro Sebastião José Bazilio Pyrrilio, a confecção da planta e o orçamento da obra.

Em 20 de julho de 1858, o Dr. Francisco Sabino Coelho Sampaio foi nomeado médico do futuro hospital — o hospital só funcionará a partir de 1862.

O Hospital “Nossa Senhora da Conceição” (atual Santa Isabel), começou a funcionar na rua Aurora (atual Rua da Frente), em 16 de fevereiro de 1862, no governo do Presidente Joaquim Jacinto Mendonça.

O hospital era visto como uma instituição que revelava o espírito de caridade dos homens e o seu estado civilizatório.

O Presidente Joaquim Jacinto de Mendonça nomeou para dirigir o hospital “uma comissão composta de sete cidadãos prestantes e zelosos, cuja dedicação e caridade são proverbiais” , assim constituída: Presidente, Dr. Joaquim José de Oliveira; Secretário, Tenente Coronel Manoel Diniz Vilas-Boas; Tesoureiro, Major João Manoel de Souza Pinto, e mais, o Tenente Coronel Antonio Carneiro de Menezes, o Capitão Antonio Rodrigues das Cotias, o Capitão José Pinto da Cruz e o Alferes Antonio José Pereira Guimarães. Foi essa a primeira diretoria do atual Hospital “Santa Isabel”.

Em seu primeiro ano de funcionamento, o Hospital de Caridade Nossa Senhora da Conceição atendeu 442 pacientes, sendo as enfermidades sifilíticas, as afecções do peito e as sezões traumáticas, as moléstias mais frequentes.

O Hospital contava com três enfermarias: São Roque, Santa Isabel e São Sebastião (militar), e possuía em torno de 60 leitos. O médico do Hospital, Dr. Francisco Sabino Coelho Sampaio, que também exercia as funções de cirurgião, cedeu 5 meses dos seus vencimentos para ajudar o funcionamento do hospital.

“Os doentes evitavam-no. Só mesmo os miseráveis e os desgraçados sem teto e à beira do túmulo, procuram-na para, em cima do leito, penetrar na noite insondável da morte.”

O hospital era o lugar de quem não tinha onde cair morto.
Corria o “boato” de que aos doentes, em situação mais grave, era ministrado o chá-da-meia-noite, uma porção venenosa que apressava o fim da vida daquela alma sofredora.

Não existiram grandes alterações nesse quadro, até o início do Período Republicano.

Junto a cada cama existiam sempre uma escarradeira, uma pequena mesa de gaveta para uso e refeições dos doentes, caixas de retrete contendo cubos de louça para suas “precisões”, quando por seu estado de gravidade não puderem se dirigir para a latrina da enfermaria.

No centro da enfermaria existia um lampião, que se conservava aceso todas as noites, das seis da tarde às seis da manhã. A cada quinze dias as enfermarias deveriam ser desinfectadas com uma mistura de licor de Labarraque, preparações cloretadas e água.

Dr. Juliano Simões, num depoimento publicado pelo jornal da Sociedade Médica (julho 1986), descreve a situação do hospital por volta do início do século XX, nos seguintes termos:

“Sabemos, nós médicos mais antigos em Aracaju, que há muito tempo o Dr. Pimentel Franco quando ia passar visita a seus doentes, do serviço de mulheres, ao entrar na enfermaria levava ao seu lado um servente com um fogareiro aceso queimando incenso ou alcatrão, para poder suportar o mau cheiro do ambiente.”

“Eu mesmo alcancei na enfermaria dos homens, o famigerado “pilão sem boca” (não sei por que lhe deram esse nome), local por trás de um tabique de madeira, onde doentes ulcerados ou desenganados, estendidos comumente em esteiras, arrastavam-se pelo chão até o canto, onde retiravam de um pote de barro, com um só caneco, a água para beber.”

No início do século XX, a situação do hospital de caridade de Aracaju (atual Santa Isabel) continuava precária. Já no Governo de Oliveira Valadão (1896), foi tomada a decisão de construir-se um novo prédio para a transferência do citado hospital das acanhadas instalações localizadas na rua Aurora, para a sede atual, no bairro Santo Antonio.

O hospital da rua Aurora possuia aproximadamente 60 leitos.

Quanto ao funcionamento, em agosto de 1895, passaram pelo hospital cerca de 79 pacientes, dos quais 29 receberam alta e 8 faleceram. As causas dos óbitos foram: 2 tuberculose pulmonar, 2 leucemia, 1 gastroenterite, 1 pneumonia, 1 catarro pulmonar e o último de ascite.

“O antigo hospital de caridade achava-se encravado no centro do Aracaju, entre casas, e era demasiadamente pequeno, dispondo apenas de duas salas, uma para homens e outra para mulheres, onde se encontram promiscuamente os enfermos de todas as espécies de moléstias internas e externas.

Afora as referidas salas, que mal recebiam luz por duas de suas faces. Existia um compartimento alongado, destinado à enfermaria de polícia, comunicando diretamente com a latrina do edifício, que é antes uma fossa imunda e pestilenta, a derramar de contínuo por todo o prédio e particularmente na enfermaria mencionada, os pútridos vapores que exala, de um cheiro intolerável e nauseabundo.”

O governador Olympio Campos (1900) transferiu o hospital de caridade para um prédio novo, no Bairro Santo Antonio, onde funciona até hoje. Para instalação do velho hospital na nova casa, foi comprado todo o instrumental cirúrgico na Europa e organizada uma pequena farmácia.

A cirurgia se encontrava em estágio incipiente em Sergipe, como está evidente no quadro de ocorrências do hospital. Entre julho de 1901 e julho de 1902 foram realizadas apenas 16 cirurgias no Hospital Santa Isabel: uma amputação de braço, uma de perna e uma de coxa; três fimoses, duas parafimoses, uma dilatação de uretra, uma paracentese e cinco abcessos.

A assistência hospitalar em Sergipe, até 1926, com a inauguração do Hospital de Cirurgia, era a ante-sala da morte.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

A PESTE BRANCA EM SERGIPE.


 A Peste Branca em Sergipe.
(por Antonio Samarone)

Tuberculose – tísica, febre hética, febre lenta, sangue pela boca, fraqueza de peito, peste branca e chaga nos bafos. A tuberculose chegou ao Brasil com o descobrimento. Índios e negros eram duramente afetados. Uma doença comum entre os escravizados.

Aos fracos do peito, era recomendado o repouso, caldo de galinha, leite de burra ou de cabra e muito mocotó. Se acreditava nos efeitos benéficos do clima.

A tuberculose era uma doença de poetas, literatos e boêmios. Dois exemplos são representativos: D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, faleceu de tuberculose, aos 36 anos. O fabuloso Castro Alves, faleceu aos 24 anos, da mesma enfermidade.

A descoberta da Mycobacterium tuberculosis (bacilo de Koch), em 1882, recebeu o nome do seu descobridor: Robert Koch (1843 – 1910), médico alemão, Nobel de Medicina em 1905.

A primeira vacina contra a tuberculose foi desenvolvida, por Albert Calmette e Jean-Marie Camille Guèrin, em 1906. A vacina BCG (Bacilo de Calmette e Guèrin) foi usada pela primeira vez em humanos em 1921. O tratamento se tornou eficaz a partir da descoberta da estreptomicina, em 1943.

No início do século XX, a tuberculose surge como um problema importante para a saúde pública em Sergipe. Não que ela não existisse anteriormente, é que passou a ser percebida, sua mortalidade registrada e suas vítimas a perambular entre os bem nascidos.

Talvez, o fim da escravidão e o surgimento do trabalho livre urbano tenham contribuído para transformação da tuberculose num problema social. Em 1902, quando a tuberculose ocupava a sexta posição entre as causas de óbitos, o Dr. José Moreira de Magalhães, diretor clínico do hospital Santa Isabel, adverte para o problema:

“Sensível é a ausência de enfermarias onde se possam receber tuberculosos, com a exigência de sua profilaxia. Recusei a princípio a admissão de atacados desta terrível moléstia e, somente tocado de desgosto de negar amparo a quem mais carece, resolvi utilizar um dos pequenos compartimentos do edifício de que podia dispor, para instalação de duas camas para homens, as quais estão sempre ocupadas.”

Dessa primeira “enfermaria”, a assistência aos tuberculosos em Sergipe se arrastou até a inauguração, em 02 de julho de 1917, em grande solenidade, com missa concelebrada pelo Bispo Dom José Thomaz, de um “pavilhão para tuberculosos”, no hospital Santa Isabel, com capacidade para 13 leitos. Os serviços foram entregues à responsabilidade do Dr. José da Silva Melo.

O problema da tuberculose assola Sergipe, no início do século XX. Entre 10 de julho de 1903 e 30 de junho de 1904, ocorrem 360 óbitos em Aracaju, entre os quais 12 casos de peste bubônica, 23 de impaludismo e 27 de tuberculose pulmonar.

O Presidente do Estado, farmacêutico Josino Menezes, assim se manifestou sobre o assunto:

“A tuberculose, mais do que qualquer outro “morbus”, faz vítimas na população sergipana, que precisa aparelhar-se para a defesa sanitária resistente e metódica contra esse grande inimigo de todas as raças."

"É de aterrar a estatística da morte pelo bacilo de Koch. Onde ele se manifesta o luto é certo, prejudicando gerações inteiras; nada poupa, avançando na sua faina de destruição, ora como inimigo sorrateiro, covarde, que ataca de emboscada, ora de chofre, com a valentia dos incombatíveis.”

A preocupação com o problema da tuberculose se manifestou também nos estudos científicos dos médicos sergipanos. O Dr. Francisco Fonseca escolheu como tema de sua tese inaugural para conclusão do curso de medicina, em 1907, “Estudos Clínicos da Hemoptise Tuberculosa”.

A assistência hospitalar aos tuberculosos chegou tarde em Sergipe. O Hospital Sanatório, destinado aos tuberculosos, começou a ser construído em 1939, no Governo de Eronides Carvalho. Entretanto, só começou a funcionar em 1954, no Governo de Arnaldo Rollemberg, com a previsão de 60 leitos.

Com a descoberta do tratamento tríplice (estreptomicina, ácido paraminosalicílico e isoniaziada), final da década de 1940, com o avanço do tratamento ambulatorial da tuberculose, o Hospital Sanatório foi desativado, cedido a UFS, para transformação no atual Hospital Universitário.

A Tuberculose continua ativa. Passa despercebida, por conta da eficácia do tratamento. Os tisiologistas, médicos especializados em tuberculose, se transformaram em infectologista. Desconheço, se algum tisiologista sobrevive em Sergipe.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

GENTE SERGIPANA - JOÃO CÂNDIDO DE FARIA.


 Gente Sergipana – João Cândido de Faria.
(por Antonio Samarone)

João Cândido de Faria, natural da Bahia, formado em medicina em Montpellier, França, em 1829, defendendo a tese sobre a Cholera-Morbus. Exerceu a medicina em Laranjeiras (1830 a 1855).

O local de nascimento de João Cândido é incerto, Luiz Antonio Barreto acreditava ter sido no Sul de Sergipe, antes dos avanços territoriais da Bahia.

João Cândido fixou residência em Laranjeiras em 1830, casando-se com a espanhola Josefa Aragonez, com quem teve quatro filhos: Cândido, Júlio, Adolfo e Henrique (falecido ainda jovem).

Em 1855, irrompeu em Sergipe um surto de Cólera, que mobilizou médicos e recursos terapêuticos. O Dr. João Cândido de Faria foi um dos profissionais da medicina e uma vítima.

"O seu filho mais famoso, o sergipano Cândido Aragonez de Faria, nasceu em Laranjeiras, Sergipe, em 1849 e morreu em Paris, na França, em 1911, aos 62 anos. Uma vida dedicada a arte, como chargista, cartazista, artista plástico completo, como testemunham suas obras, especialmente os mais de trezentos cartazes de filmes produzidos pela Casa Pathé." Luiz Antonio Barreto

"O nome de Cândido Aragonez aparece, com destaque, na História da Caricatura Brasileira, de Harman Lima, mas não há, naquele livro, nenhuma informação sobre o seu nascimento e vida.” – Luiz Antonio Barreto.

Fundação do primeiro hospital em Laranjeiras.

Os Drs. João Cândido de Faria (primeiro diretor) e Francisco Alberto de Bragança (o pai do célebre Antonio Militão de Bragança), fundaram o Hospital Senhor do Bomfim, em Laranjeiras.

Sem nenhum patrimônio e sob um compromisso aprovado pelo Presidente da Província, foi criada em 1836, uma instituição de caridade visando instalar um hospital em Laranjeiras.

Após longos esforços, finalmente, em 29 de junho de 1840, no Governo do Coronel Wenceslau de Oliveira Belo, o “Hospital Senhor do Bonfim” será inaugurado. O hospital foi administrado pela Irmandade do Senhor Bom Jesus do Bonfim.

A questão central para o funcionamento desse hospital era a falta de financiamento. Os legados e subvenções eram quase inexistentes e o que se arrecadava de esmola era muito pouco.

A lei n.º 28, de 11 de março de 1839, no Governo do Presidente Joaquim José Pacheco, concedeu o privilégio de exploração de loterias ao Hospital Senhor do Bonfim, mas àquela altura o instrumento das loterias andava bastante desgastado, e era muito difícil arrecadar-se alguma coisa por esse meio.

Restava ao hospital a contribuição marítima do Porto de Aracaju, em torno de 800$000 réis, que, na prática, era a única efetiva.

Em 1847, O Presidente da Província, José Ferreira Souto, solicitou recursos à Assembleia Provincial para comprar uma nova casa para funcionamento dessa instituição, alegando completa falta de condições da existente:

“A que ora serve não pode por todos os motivos continuar. É pequena, baixa, quente, e a mais insalubre possível. Os doentes estão confundidos, e tudo ali é tão miserável, que só na última necessidade se poderá procurar aquele asilo.”

De fato, as condições de funcionamento do Hospital Senhor do Bonfim, em Laranjeiras, não eram das melhores. O hospital funcionava em uma casa alugada, que possuía apenas 18 palmos de altura e 30 de largura em sua frente, era dividida em três salas e duas enfermarias, onde estavam instaladas cerca de 16 camas, com um mínimo espaço de separação. A mortalidade atingia cerca de 50% dos internados.

Em 1848, foram abrigados neste hospital 27 doentes, dos quais 13 faleceram, 9 receberam alta e 5 permaneceram internados até o ano seguinte.

O Presidente Salvador Correia de Sá e Benevides, em seu relatório de julho de 1856, assim descreve a citada instituição:

‘Existe esse pio estabelecimento em um edifício sumamente acanhado e sem nenhuma das condições exigidas para casas dessa ordem. A caridade particular pouco sustenta os pobres enfermos, e são tão diminutos, tão precários esses recursos, que apenas um limitadíssimo número de camas pode manter essa santa instituição.

Esse hospital deixou de funcionar em 11 de junho de 1859. Os senhores Ângelo Custódio Polliciano, José Joaquim Fernandes Sampaio e Eugênio José de Lima assinam o documento que assinala o fechamento do Hospital, com as seguintes justificativas.

“Pobre, sem patrimônio, reduzido à subvenção marítima da barra, a qual produz 1:200$000, quando as despesas orçam 3:600$000, não podia mesmo o hospital funcionar.”

Antonio Samarone - médico sanitarista.